29/04/10

O Jogo Eterno, por Camões Alves


Quando Portugal perdeu a final do Euro 2004 com a Grécia, escrevi aqui este texto amargo, em que faço referência ao jogo eterno que se trava no futebol. Ontem teve lugar mais um capítulo desse jogo eterno. Num jogo em que o barça teve 75% de posse bola (!!!!!) e 555 passes contra apenas 59 do inter (?!?!), num jogo em que o victor valdez, o guarda redes do barcelona, jogou, literalmente,no meio campo, abriu-se um nova escalão na prática do futebol-anti jogo. Talvez a equipa de Mourinho tenha, desta vez, um bom pretexto para justificar tal atitude: jogou com 10 a partir da meia hora de jogo. Mas isso é um mero pretexto: porque as equipas do «às das táticas» jogam assim, por norma e filosofia, e porque, mesmo com onze, a tática já era aquela coisa brilhante de meter 11 gajos na grande área a dar chutos para a frente. Fica o texto escrito há 6 anos após a final do euro, que me parece mais actual do que nunca: desta vez, o Barça foi Portugal e a Grécia foi o Inter:

Há duas famílias opostas na história do futebol: a família das equipas que praticam o jogo, querendo ganhar e a das que o praticam para não perder. À primeira família pertencem equipas como o Brasil tri campeão dos décadas de 50, 60 e 70, mas também o Brasil perdedor do mundial do Espanha 82; o Ajax vitorioso de Cruijjf ou o bayern de Bekenbauer, a laranja mecânica de Rinus Michels (que nunca ganhou um mundial) ou a Holanda de Van Basten, etc, etc, etc. A lista dos membros desta família é enorme e é feita, tanto de vencedores como de perdedores. Bem mais vencedores que vencidos, felizmente, para quem já me está acusar de ser lírico…

Depois existe a outra família, a das equipas cínicas, parasitas do jogo alheio, que esperam pacientemente o erro do adversário até o matarem numa oportunidade o jogo. É o caso da Alemanha campeã contra a Hungria de ataque de Puskas numa final violenta donde saem dois jogadores magiares lesionados, logo na primeira parte. É também o caso da Itália de Rossi e Gentile – que não era uma equipa bacteriologicamente pura, mas teve de defrontar o Brasil de Zico e Falcão e foi obrigada a fechar-se -, da Juve da última década, do Steua de Bucareste de Ducadam, da Alemanha do mundial de Itália ou do Brasil do mundial dos EUA…

Estas duas famílias «ideológicas» constituem duas formas de entender o futebol e enfrentam-se no mesmo jogo eterno ao longo da história. Umas vezes ganha uma e outras, outra. Eu sou um adepto incondicional do primeiro estilo. Por razões éticas e estéticas: porque acho que essa família de equipas que jogam para ganhar, e não a outra, é que faz a grandeza do futebol. Mesmo quando a outra família ganha…
Por isso quero que a minha família futebolística ganhe sempre e, mesmo quando Portugal não está em competição, eu sinto-me sempre representado por uma ou por outra equipa que eu reconheço na mesma tradição familiar. E acho que de cada vez que uma equipa de rapina ganha uma competição importante, o futebol regride uns anos.

Ontem virou-se mais um capítulo deste jogo eterno. Portugal, obviamente, representou o estilo de futebol ofensivo que eu aprecio. E os gregos foram os outros. Portugal perdeu e foi pena para o futebol. Eu vi e revi o jogo e, em particular no resumo da sport tv, pude confirmar que os gregos defendem, sistematicamente, com 11 – onze-11 jogadores atrás da linha da bola. Como no jogo com os Checos, deram cerca de 70% de tempo de posse de bola a Portugal. É muito difícil marcar um golo a equipas assim e essa é a sua vantagem: elas partem do princípio que o 0-0 já é um bom resultado e que nos penaltis até podem ganhar.

Eu acho que há uma solução para ganhar a equipas destas, mas esse caminho é uma traição – embora realista – ao estilo e à família de futebol que eu prefiro. É o que fez o Brasil do mundial dos EUA que defrontou a Itália na final mais vergonhosa de todos os tempos. Os brasileiros trocaram as voltas aos italianos e, dessa vez, não assumiram as despesas do jogo. Fizeram como a azzurra tinha feito no Espanha 82 e passaram 90 minutos mais a meia hora do prolongamento a trocar a bola no seu meio campo Resultado: zero oportunidades, ausência absoluta de emoção e, possivelmente, oportunidade histórica perdida de lançar o futebol nos States. No fim, ganhou o Brasil na lotaria dos penaltis como poderia ter ganho a Itália. Foi o título mais amargo da história do futebol brasileiro!

No jogo de ontem, Portugal (ou scolari) não quis fazer o mesmo e foi fiel à sua família ideológica. Perdeu o jogo por 1-0. Mas se me perguntarem se preferia ter ganho, fazendo o mesmo que os brasileiros fizeram no mundial dos Estados Unidos com a Itália, eu digo que não. É só uma opinião, mas prefiro ter perdido o jogo e continuar a acreditar que é possível que as equipas mais espectaculares ganhem grandes competições, jogando o jogo pelo jogo. Paradoxalmente é isso que dá brilho às vitórias de equipas como a Grécia. O entusiasmo com que aquela vitória é saudada vive do arrojo e da desenvoltura de selecções como Portugal ou como a República Checa que, jogando ao ataque, contribuíram para lhes dar a noção de que tinham alcançado um feito superior às suas capacidades.
Mas imagine-se uma final entre a Grécia e outra equipa igual: alguma delas teria vontade de festejar? E se a atitude de todas as equipas fosse a da Grécia, alguém acha que continuariam a encher-se os estádios de futebol? Eu acho que não. Mesmo perdendo, a selecção portuguesa merece o meu aplauso por ter permanecido fiel ao futebol e aos valores desportivos e lúdicos que fazem de mim um adepto da modalidade.


PS – Também é claro que, se eu fosse treinador profissional de futebol e me entregassem uma equipa como a dos gregos, não teria outro remédio que não fosse metê-la a jogar como fez o Renhagel, contra o gozo de adeptos como eu. E nisso, é claro que o homem tem mérito. Não me peçam é para dizer bem daquilo. Parabéns pela vitória, é tudo o que lhes posso dizer.

PS 2- Este é o pior campeão europeu da história, pelo menos desde 72 – no euro desse ano o campeão foi a Alemanha de Bekenbauer, Breitner e Netzer. No seguinte ganhou a Checoslováquia de Panenka e Nehoda; em 80 a Alemanha de Kaltz, Schuster e Rummenige; em 84 a França de Platini, Giresse e Tigana, a seguir, a Holanda de Van Basten e Gullit. Em 92 foi a a Dinamarca de Laudrup e Poulsen e em 96 a Alemanha de Sammer e Klinsmann e depois tivemos mais França com o grande Zidane. A semelhança entre esta equipa da Grécia e qualquer uma das que citei é … Bem, eu não vejo nenhuma…

28/04/10

Os Cola-Cartazes Nunca Venceram As Crises, por Índio

A cotação de Portugal caiu nas agências de Rating. Estamos mais pobres e em crise. Para salvar a Pátria o senhor ingenheiro reúne-se, responsavelmente, com outro jovem, responsável e moderno líder. E uma pessoa não pode deixar de pensar que isto é como chamar o velho Manca Mulas do velhinho liceu D. Maria para se reunir com outro sósia inútil para nos salvarem de uma ameaça qualquer.

Estamos com uma crise em cima e temos dois patetas ao leme, um deles, ainda por cima, perigoso e inimputável... Estamos lindos, estamos...

26/04/10

Who`s Next, por Moonlight

A música pop é como o futebol: assim como há um treinador de bancada em cada um de nós, também há um crítico de Rock. Não há dois críticos de rock que estejam de acordo sobre a qualidade das bandas e dos jogadores. e eu assumo aqui essa radical e deliciosa subjectividade da crítica rock.

O post anterior, de homenagem ao líder dos Type O Negative, Peter Steele, recentemente falecido, trouxe à baila a velha controvérsia sobre os caminhos seguidos, entretanto, pelo rock. Eu tenho andado a pensar que o rock pesado entrou, depois dos Led Zeppelin, num desvario volumétrico que conduziu a um impasse criativo. A «evolução» metálica do hard rock descambou num culto do décibel e do volume gratuito, num goticismo rococó cujos frutos criativos foram, do meu ponto de vista, decepcionantes. Pessoalmente não vejo diferenças substantivas entre a maior parte dos géneros e sub géneros metálicos. Aquilo padece, invariavelmente, do mesmo pecado original: mesmo quando há algum cuidado estrutural, o excesso volumétrico acaba por se impor a tudo o resto. Como um vinho que até pode ter todos os ingredientes necessários, mas que depois tem uma nota excessiva (de álcool, de adstringência, de acidez, etc) que acaba por desiquilibrar o conjunto e estragar tudo. Talvez o caminho do rock esteja numa espécie de regresso ao passado. Proponho um recuo no tempo, um regresso a uma banda e a um disco absolutamente espantosos: Who´s Next dos The Who.

Who`s Next, editado em 1971, aparece numa fase em que os The Who já se tinham consagrado como uma das grandes bandas da história. O álbum surge logo a seguir à famosa ópera rock Tommy - para muitos, não para mim, o melhor álbum da banda. E, de certo modo,Who`s Next é um grito de revolta dos The Who. É esse mesmo o significado (pelo menos um dos significados) da capa do disco: esta retrata um monólito a fazer lembrar o ícone de 2001, Uma Odisseia no Espaço de Kubrick editado uns anos antes. E que fazem os membros da banda? Mijam no imponente monólito. Os The Who expressam assim a sua vontade de se libertarem das prisões criativas de Tommy: a banda não queria passar o resto da sua vida a tocar o feel me, touch me, see me etc...

Por outro lado, as inovações tecnológicas da época - especialmente ao nível da qualidade de som e da utilização de sintetizadores - levam o som da banda a um nível de sofisticação como nunca se tinha ouvido. Os puristas dos primeiros álbuns do grupo e do seu som mood mais primitivo, reagem mal.O álbum é pois um corte com o passado do grupo, com a sofisticação pseudo-romântica de Tommy, mas também com o primitivismo juvenil dos primeiros discos.

Do meu ponto de vista é em Who´s Next que o equilíbrio sonoro da banda atinge um ponto mais perfeito: a sofisticação tecnológica cruza-se com a violência dos rifs de Townshend que soam como uma energia Rock inigualável. A secção rítmica Entwistle/Moon adquire um protagonismo raro nas grandes bandas de rock. As canções são excelentes, Who´s Next está cheio de clássicos como Baba o`Riley e Won`t Get fooled again - espantoso o contraste entre o som planante dos sintetizadores e a violência das «explosões» sonoras da guitarra de Townshend. Tem baladas imortais, daquelas que estão sempre a suscitar novas versões, como Behind Blue Eyes (vide a versão dos Limp Bizkit) ou The song is over...

Who´s Next é uma obra prima! Foi considerado o 13º melhor álbum de sempre pela Rolling Stone, valha isto o que valer... É certo que o Roger Daltrey é um cantor excessivamente maneirista, mas é impossível resistir a Who´s Next! Pessoalmente gostaria muito que as bandas de putos voltassem a este disco ou, pelo menos, a esta banda. Quem sabe o que podia surgir daí... Da última vez que uma geração se lembrou de o fazer nasceu o Punk - e com ele os Sex Pistols e os Clash, digam lá que não valeu a pena.

21/04/10

Peter Steele, by Supernova


Chemical joy turning thee paranoid
Recently buried deep Greenwood Cemetery, now
I had no pulse last time I checked
I d trade my life for self respect
So I say with my ass whipped
There are some things worse than death
I cant believe I died last night - oh God Im dead again
I cant believe I died last night - Im fucking dead again

O mundo perdeu um dos melhores, a música vinda de Brooklyn nunca mais será a mesma.
Obrigado pela companhia e pelas horas, acabaram por ser poucas, em que os cd’s giraram sem fim.
That was a hell of a ride!

Hey peter, where are you going with that axe in your hand?”

Chucha Inês - parte II, por Maxime

Não é que fosse uma surpresa, mas a deputada chucha inês de medeiros lá viu aprovado o pagamento das suas viagens semanais a Paris (pagamos nós, claro, para estes parasitas não há Pecs). E não foi uma surpresa porque da parte dessa agremiação parasitária em que se tornou o partido xuxalista não se esperava outra coisa que não a dita aprovação.

Mas o que me surpreende foi a posição da direita «dos valores» e da esquerda «defensora dos oprimidos» nesta matéria. Na votação realizada no parlamento, houve um empate: o ps votou a favor do pagamento das viagens da dona inês xuxa (97 votos) e o psd e o be votaram contra (97 votos).O xuxialista zé lello, um dos batatoons do regime, na sua excelsa qualidade de consciência crítica do sistema, que lhe fica a matar, teve voto de qualidade e decidiu que vamos todos pagar as viagens a paris à dona inês.

Mas este empate (97-97) só foi possível porque o cds, o pcp/pev se abstiveram. E aqui sim, confesso a minha surpresa! Não entendo a posição destes partidos e, sinceramente, esperava que dessem um bom exemplo nesta matéria e chumbassem esta decisão absolutamente pornográfica. Por mim até estava disposto a pagar um bilhete para Paris a esta gente toda, dona inês incluída - mas só de ida!

18/04/10

Mansas São as Vítimas, Pá! por João Mansarrão

O partido chuchialista ou surrealista ou terceiro mundista ou que é aquela pseudo organização manhosa lá avançou com mais uma medida de bradar aos céus: desta vez dá-se aos directores de estabelecimentos prisionais a prorrogativa da redução substancial das penas de prisão a reclusos perigosos.

O juiz condena um assassino a vinte cinco anos? Tá bem abelha, mas o director da prisa mete-o cá fora ao fim de cinco... Para justificar esta brilhante medida, o ministro da justiça argumentava no Parlamento que esta redução só é aplicável mediante a verificação de cinco critérios. O primeiro dos quais é por si só um retrato fiel deste partido de vão de escada:
- A redução, para ser concedida, disse sua excelência, obriga a que, em primeiro lugar, o recluso concorde com ela e que a requeira previamente!
Ah bom, já podiam ter dito...

15/04/10

Uma Ideia de Marketing Para o Benfica, por Yaúca

Lanço aqui uma ideia que, tenho a certeza, renderia uns bons milhares aos cofres do Glorioso: pôr à venda cabeleiras à David Luís. David Luís é o melhor jogador do campeonato nacional, é um craque de expressão mundial, um ídolo da claque do Glorioso e um exemplo para todos os benfiquistas. Qual era o adepto que não comprava uma cabeleira à David Luís? Tão certo como irmos ser campeões, enchíamos a Catedral de cabeleiras à DL...

12/04/10

Aqueles Cujo Nome Não Pode Ser Pronunciado, por Gibson

Ontem o site do excelente semanário Sol (bem haja pela publicação das escutas dos boys) publicava a seguinte notícia:

«Quatro pessoas baleadas durante casamento em Coimbra
Quatro pessoas ficaram feridas na última madrugada num tiroteio numa boda de casamento nos arredores de Coimbra, disseram hoje à agência Lusa fontes policiai.»

Já leram? Pronto, agora antes de continuarem a ler o post digam lá o que pensaram. Sinceramente, sem censura, sejam honestos. Já pensaram? Pois, certamente pensaram o mesmo que eu e que os milhares de leitores desta notícia. Custa admitir mas a palavra que se acendeu no cérebro de qualquer pessoa que leu esta notícia foi, como é evidente, «ciganos».

Hoje o diário conimbricense dava a mesma notícia. Assim:

«Vários tiros puseram termo (...) a um casamento de etnia cigana, etc...»

Viram a diferença? Pois é, o Sol optou pela formulação politicamente correcta e não noticiou a etnia dos indivíduos envolvidos. As Beiras fê-lo. Qual a opção correcta? O Sol sonegou informação importante. Ontem li esta notícia, tive quase a certeza de que eram ciganos, quis saber se o eram, mas a notícia era omissa. E era importante, para mim que sou de Coimbra, sabê-lo. Foi irritante ter a sensação, quase a certeza de que aquilo foi com ciganos, mas não ter possibilidade de o saber.

Hoje As Beiras confirmaram o meu «quase» de ontem à noite. Na notícia das Beiras foi previligiada a informação em detrimento da censura politicamente correcta. Gosto do Sol. Mais que das Beiras. Mas em relação a esta opção editorial, não tenho dúvidas em afirmar, por mais chocante que isto possa parecer a algumas sensibilidades mais delicadas, que prefiro o tratamento que as Beiras deram a esta notícia. O dever de informar, mesmo contra o pensamento instituído, ainda continua a ser um valor fundamental no jornalismo.

Massagens são sexo?, por Niilista

Massagens são sexo? A questão é pertinente. Nunca nenhum filósofo, que eu saiba, se pronunciou sobre a questão. O tema só pode, pois, ter sido considerado irrelevante pelos filósofos. No entanto, sabermos com precisão o que é e o que não é sexo, ganhou particular importância no mundo actual, principalmente depois do caso Monica-Clinton. Se bem estão lembrados, Clinton chegou mesmo a alegar que sexo oral não é sexo... E a questão volta a colocar-se, agora a propósito das massagens. Basta aliás consultarmos os anúncios de qualquer jornaleco para comprovarmos que uma boa parte das prostitutas se apresenta como massagista, ou oferece serviços de massagens, eróticas ou não. Isto é no mínimo suspeito...

Se a Filosofia não se interessou pelas massagens, já o cinema, em particular a produção americana, não foi alheia ao problema. Um dos episódios da melhor série humorística da história, o magistral Seinfeld, chama-se, precisamente, A Massagista. Neste episódio Jerry namora com uma massagista profissional que, naturalmente, passa a dia a fazer massagens aos seus pacientes. Quando chega à noite, ela só quer...sexo. Mas o sexo é mau? Não, é óptimo, fazemos tudo, confessa Jerry... mas eu quero massagens. Jerry não consegue realizar esse sonho: namora com uma especialista em massagens - o sonho de qualquer macho, segundo Constanza - mas esta recusa-se a fazer-lhas, só quer sexo, puro e duro, nada mais que sexo. É como estarmos esfomeados e passarem-nos petiscos deliciosos que não podemos comer. Suplício de Tântalo!

Para a massagista, as massagens são trabalho; para Jerry representam um fetiche, o supremo fetiche. Tanto mais poderoso quanto mais fala com Constanza e com Kramer. Este acaba por espicaçar Jerry ainda mais quando contrata a massagista. Nem sabes o que estás a perder, aquilo é o céu, aquelas mãos suaves e sábias, os músculos descontraídos, a música new age a preparar o ambiente... Jerry reage muito mal, como se a namorada tivesse andado a fazer as coisas mais abjectas com Kramer. Enerva-se, protesta, mas Kramer defende-se com um ainda mais aviltante «tive-as mas paguei-as». Jerry responde-lhe irado que ele não pode falar dessa maneira da sua namorada. Proíbe-o de voltar a ter massagens com ela, como se aquilo, mais uma vez, não fosse estritamente profissional.
Esta confusão é magistral e nela compreendemos a tremenda ambiguidade erótica das massagens. Se trocarmos o termo massagens por uma daquelas categorias porno mais extremas, toda a reacção de Jerry é compreensível. Ele vive, de facto, o problema da ambiguidade erótica das massagens, algo que Kramer só aparentemente não alcança. E digo aparentemente porque Kramer - e isso é coerente com o personagem - está a provocar, percebe-se o registo irónico e provocador da sua apologia da massagista. Como quem diz: ela é tua namorada mas é comigo que faz as coisas mais porcas! No fundo tanto Jerry como Kramer estão de acordo: para eles, massagens são sexo. E do melhor! Veremos que também a própria massagista acaba por estar de acordo com eles...

Na parte final do episódio Jerry, desesperado, quer forçar a massagista e arrisca tudo: prepara o ambiente com música new age e sons naturais, desmonta a cama de massagens dela, pega nas mãos da massagista e coloca-as nos seus ombros. Depois deita-se de costas e quer obrigá-la a massajá-lo mas ela recusa, gritando «não posso fazer isto». Como se o namorado a quisesse obrigar a uma prática completamente depravada que estaria para lá dos seus padrões morais. A relação termina com ambos chateados. Não me telefones mais, tarado. Podes crer, santinha. A massagista vê Jerry como uma espécie de depravado que a quer forçar a um acto inadmissível, Jerry comporta-se como tal, perdendo o controle, humilhando-se, desesperando pela não consumação do seu desejo. E no fim, desesperado, acaba a relação.

Jerry e Kramer são, pois, partidários de que as massagens são sexo e do bom.E a massagista também acaba por reconhecê-lo à sua maneira, pela sua recusa. Ao recusar, ela acaba por associar a massagem a uma perversão sexual que não está disposta a realizar, mesmo que isso lhe custe o fim da relação com o homem de quem gosta. Mas nos três a noção de que massagens são sexo, e do mais abjecto, é comum: a diferença é que Jerry e Kramer são suficientemente perversos para entrarem nesse jogo enquanto que ela se porta como um donzela púdica que jamais faria tal coisa. Como diz o Woody Allen: se o sexo é porco? Só quando é bem feito...

A segunda referência cinematográfica às massagens aparece em Pulp Fiction, a obra prima de Quentin Tarantino. mas isso fica para o próximo post...

P.S. Há ainda outro episódio de seinfeld em que o tema é abordado. Nele é George quem vai ter massagens mas de um homem. O fantasma homo está aqui presente. Esse episódio merece uma revisão. Não queres pegar no tema, grunfo?

05/04/10

Varrascos, por Piton

Os grandes escritores dividem-se em dois tipos: os varrascos e os outros. Não sei quais são os mais abundantes, sei que há escritores geniais que são completamente varrascos e outros que continuam a ser geniais sem precisarem de o ser. Há grandes escritores ( e artistas em geral) que arruínam tudo à sua volta - acabam, geralmente, sozinhos, alcoólicos e em manicómios, com todos à sua volta chateados. Tal é o caso dos poetas malditos, dos génios incompreendidos, dos artistas românticos... Eu admiro tanto uns como outros, há-os enormes nos dois lados.

Alguns grandes escritores seriam apenas bons escritores se não fossem varrascos. Não lhes bastaria o domínio perfeito da escrita, nem as grandes ideias, nem tão pouco as grandes emoções. Embora tudo isso sejam condições necessárias para fazer um grande escritor, nalguns é ainda necessária a qualidade suplementar da varrasquice. Sem ela estaríamos perante escritores completamente desinteressantes...

A varrasquice é essa qualidade sublime de sermos capazes de contar sem freios tudo o que sabemos acerca de todos. Para nos tornarmos grandes escritores deste tipo, seria, pois, necessário que não tivéssemos decência nenhuma, que cultivássemos a mais absoluta falta de respeito por todos aqueles que conhecemos. Cada um de nós conhece, certamente, muitas histórias fascinantes que, pura e simplesmente, não pode contar porque uma vez conhecidas pelos seus intervenientes provocariam reacções de repercussões imprevisíveis.

Por isso a maior parte das histórias interessantes, escabrosas, medonhas, horrendas, ridículas que todos conhecemos, simplesmente, ficam no tinteiro. São as melhores, mas não podem ser contadas... Não será, justamente essa qualidade da varrasquice, de se estar nas tintas para os outros que é necessária a um grande escritor do segundo tipo? Ser capaz de sacrificar o seu mundo, ser capaz de sacrificar todos os que conhece à sua arte - eis a condição vital para nos tornarmos grandes escritores. Dito assim, até parece uma coisa nobre!

pic - Klossowski

31/03/10

O que aconteceu a Vercingetorix?


A Esfinge de Ouro (1971), segundo álbum da série de BD Alix, da autoria do Francês Jacques Martin, levanta um problema interessante. Martin procura em A esfinge de Ouro fazer uma homenagem de contornos nacionalistas à origem gaulesa de Alix. A saga de Vercingetorix, herói mítico da Gália na resistência contra as legiões invasores de Júlio César é uma figura incontornável. Martin não lhe resiste e promove, neste álbum, o encontro de Alix com o grande chefe gaulês. Isto não tem nada de estranho: Goscinny e Uderzo, segundo reza a lenda, ter-se-hão inspirado, precisamente, em Vercingetorix, para criarem Asterix…
No entanto, um problema depara-se a Martin que quer conservar o respeito que nutre por uma figura como Júlio César. Se Goscinny não teve qualquer problema em ridicularizar César – vide o pic deste post – já em Martin sentimos uma admiração óbvia pelo conquistador. O dilema é este: como ser elogioso para com o grande Vercingetorix sem denegrir César?
Há um momento histórico particularmente relevante na história destes dois grandes líderes. Trata-se da rendição de Vercingetorix. A história é conhecida – estamos na fase terminal do cerco de Alésia. Vercingetorix resiste em desespero aos romanos, até que chega um momento em que a rendição se torna imperiosa. Vercingetoriz decide então entregar-se aos romanos, tentando assim, poupar a vida dos seus homens. Plutarco narra-nos este momento:
«Vercingétorix não esperou que os centuriões romanos o arrastassem de pés e punhos atados até os joelhos de César. Montando um cavalo ajaezado como para um dia de batalha, vestindo ele próprio sua mais rica armadura, saiu da cidade e atravessou a galope a distância entre os dois acampamentos, até o lugar onde estava o procônsul. Fosse pois que a rapidez da corrida o levasse muito longe, fosse porque estivesse cumprindo apenas um cerimonial antiquado, ele girou em círculo em volta do tribunal, saltou do cavalo e tomando a espada, o dardo e o capacete, lançou-os aos pés do romano, sem pronunciar uma palavra. Esse gesto de Vercingétorix, seu brusco aparecimento, seu porte elevado, seu rosto orgulhoso e marcial causaram entre os espectadores uma comoção involuntária. César ficou surpreso e quase assustado. Guardou o silêncio por alguns instantes. Mas em seguida, explodindo em acusações e invectivas, censurou o gaulês por "sua antiga amizade, por seus benefícios que ele havia retribuído tão mal". Depois, fez um sinal a seus lictores para que o atassem e o arrastassem pelo acampamento. Vercingétorix sofreu em silêncio. Os lugares-tenentes, os tribunos, os centuriões que cercavam o procônsul, mesmo os soldados, pareciam vivamente comovidos. O espetáculo de um tão grande e nobre infortúnio falava a todas as almas. Somente César permaneceu frio e cruel. »
Adrian Galsworthy, um dos melhores biógrafos contemporâneos de César, confirma que o Romano se descontrolou em vez de manter a fleuma devida à nobreza do gesto do gaulês. O mesmo dizem a velhinha história de C. Cantu e o historiador contemporâneo Simon Baker («Roma - Ascensão e Queda de Um Império»). Segundo as várias versões, César estava «passado» pelo tempo improvável (10 anos!) que a campanha da Gália tinha durado, afastando-o assim dos seus interesses vitais em Roma. E, desde logo, fez pagar bem caro a Vercingetorix a sua ousadia, como admite Plutarco («Depois, fez um sinal a seus lictores para que o atassem e o arrastassem pelo acampamento»).
Ora bem, Jacques Martin, no seu Alix, contorna completamente esta visão dos factos. Em Alix César reconhece a nobreza do guerreiro gaulês e apenas lhe diz, cito, «devido à coragem excepcional deste homem (…) não me quero deixar arrastar pelo ressentimento. Tratem-no com todas as honras devidas à sua categoria. Vai, podes retirar-te.»
Na última tira deste episódio vemos um Vercingetórix imponente a afastar-se de César, numa pose de grande dignidade. E a seguir César preocupa-se com Alexandria que a Gália está conquistada…
Mas como reconhecem os historiadores, o que se passou foi exactamente o contrário: infelizmente, César deixou-se mesmo levar pelo ressentimento e castigou o gaulês. Martin resolveu assim o seu dilema, apresentando os dois adversários como dois dignos e nobres adversários. E, em particular, deixou-nos a imagem de um César magnânimo… Era bom, era...
Martin é ainda por cima omisso numa outra questão: o que foi feito de Vercingetorix a partir daqui? Que tratamento lhe deram os romanos? Muito se passou depois disto. Vercingetorix vive ainda mais seis anos e é conduzido a Roma, mas o criador de Alix, foge deste tema e prefere deixar os seus jovens leitores de Tintin com a versão «descafeinada» dos factos. Mas a crueldade de César, que Martin parece querer ocultar, vai muito mais longe.
A literatura a este respeito é unânime quanto aos aspectos gerais e, mais uma vez, Plutarco resume os factos:
«Vercingétorix foi conduzido a Roma e lançado num cárcere infecto, onde esperou durante seis anos que o vencedor viesse exibir no Capitólio o orgulho de seu triunfo. Pois somente nesse dia o patriota gaulês haveria de encontrar, sob o machado do carrasco, o fim de sua humilhação e de seus sofrimentos. »
O desgraçado Gaulês era para ser exibido como troféu em Roma e passou os seis derradeiros anos da sua vida numa prisão romana. Sobre a forma como foi morto, a versão de Plutarco («sob o machado») não é unânime. Galsworthy, por exemplo, diz que ele foi morto por estrangulamento, o que faz sentido pois era uma espécie de morte ritual que os romanos davam aos seus presos de guerra mais ilustres.
O que é certo é que Martin, preso da sua ideia de César e do facto de ser um autor de uma série juvenil, fugiu destas matérias mais hard. Mas entre o episódio da rendição de Vercingetorix e a sua morte em Roma, muito mais se passou. Porém é sobre esse período de tempo que me tem sido muito difícil encontrar informação. O único escritor, que não historiador, que li que diz alguma coisa sobre este período de tempo é o francês Max Gallo na sua biografia romanceada de César. Segundo ele, Vercingetorix terá sido obrigado a passar pelas linhas perfiladas das legiões romanas, para ser golpeado por cada romano. Terá sobrevivido – não sei quanto tempo terá demorado esta tortura. Depois, ainda segundo Gallo, ter-lhe-ão quebrado os braços e as pernas e tê-lo-ão atirado para uma gaiola minúscula. Vercingetorix foi assim conduzido a Roma, neste estado, numa gaiola que seguia na retaguarda das legiões. Durante a viagem terá sido do vítima do escárnio e da crueldade dos romanos. Não li esta versão dos factos em mais nenhum livro e Gallo é assumidamente um romancista e não um historiador. Mas terá inventado? Afinal o que aconteceu realmente a Vercingetorix?
P.S. Vercingetorix foi vítima da crueldade romana. Mas também estava longe de ser um santo. Uma das histórias mais impressionantes a seu respeito narra a sua cruel decisão de, em desespero de causa, é certo, ter obrigado todas as mulheres, velhos e crianças a abandonarem Alésia cercada para pedirem acolhimento aos Romanos. Já não havia mantimentos para aquela gente inútil e Vercingetorix tentou que ela se tornasse um fardo para César. Só não contou com a frieza glacial deste. César impediu os romanos de acolherem aqueles desgraçados que foram obrigados a voltar para Alésia. Como Vercingetorix também não os acolheu de volta, para ali ficaram entre os dois exércitos a morrerem ao frio e de fome. Tanto César como o chefe Gaulês assistiram a tudo numa espécie de braço de ferro cruel. Martin também nunca nos apresenta, em Alix, este lado lunar de Vecingetorix…

28/03/10

Bibliofagia!, por Zé Critério

Do ponto de vista literário 2010 não está a correr nada mal. Descobri dois autores que me entusiasmaram, dois Nóbeis que valem a pena (nem todos valem): V. S. Naipaul e a sueca Selma Lagerlof. Do primeiro devorei numa semana A Vida a Metade. Numa escrita depurada, quase seca, very british, Naipaul tece uma narrativa que nos conduz à África portuguesa dos anos 50-60. É um óptimo livro que nos toca ainda mais, Portugueses, por nos falar da nossa própria história recente.

Depois, andava eu à procura do aclamado A Curva do Rio, do mesmo autor, eis que me deparo com a escritora sueca, primeira mulher a receber o Nóbel da Literatura, num saldo da Fnac... Comecei e já não larguei Os Milagres do Anti Cristo, uma escrita quase oposta à depuração de Naipaul. Lagerlof é uma das grandes representantes do Romantismo literário. Gosto daquele universo esotérico, da recuperação das lendas, dos santos populares, de um certo «goticismo» que por ali se pressente. Ainda não acabei o livro, mas estou a adorar.

Mas eis que hoje recebo um sms da Fnac. A minha encomenda chegou e eu corri a levantá-la. Trata-se de Baphomet de Pierre Klossowski, o irmão mais velho do genial artista, Balthus. Vi uma escultura de Klossowski que me impressionou no museu Berardo (Mr De Max et Mlle Glissant dans les Rôles de Diane et Actéon, 1991-92, no pic) e fiquei curioso sobre o autor. Depois fiz uma pesquisa sobre ele e descobri que foi um grande escritor, para além de artista plástico. Como é mais fácil encomendar um livro que uma escultura ou até um quadro, fui à Fnac e pedi Baphomet que chegou hoje. Ainda tenho na cabeça (e no coração) os ecos de Naipaul que já li, ainda devoro Selma Lagerlof que ainda não acabei de ler e já estou ansioso com Klossowski que nem comecei a ler! A literatura é uma coisa do caraças...

20/03/10

Místicos!, por Vata

Ontem o Glorioso fez história ao eliminar os franceses do Marselha (clientes já habituais) com duas ameixas. Eu vi o jogo no sofá cá de casa com o João e com o Rui que são os meus filhos. Quando o jogo ainda estava empatado a uma bola, há um livre contra o Marselha. O Aimar dirige-se para o esférico, tira as medidas à grande área, respira fundo e, entretanto, sentado ao meu lado no sofá cá de casa, o R. diz:
- Se o livre der golo não como doces durante um dia!

Pablito Aimar corre para a bola, coloca milimetricamente à entrada da área, há um ressalto, a bola sobra para Kardek que chuta e... GOOOOOLOOOOOOO, é goolooo do Glorioso! Já está, o Benfica passa a eliminatória!

Delírio na minha sala de estar, eu salto, o João salta, o Rui salta e no meio da euforia o João lembra ao Rui:
- Estás um dia sem comer doces.

Bem, o jogo acabou e passada meia hora, acalmadas as emoções da jornada, fui à cozinha buscar umas gomas para matar a fome enquanto via o rescaldo do jogo. O Rui apanhou-me a tempo e disse-me «guarda-me uma» e eu estendi-lhe o pacote com gomas. Mas eis que surge o João, qual Adamastor de voz tonitroante, voz implacável da consciência benfiquista, e adverte o Rui:
- Tu prometeste que não comias doces durante um dia. Vê lá se agora começamos a perder os jogos todos e não somos campeões. Devias deitar fora a goma, não queiras ficar com uma responsabilidade dessas...

Eu apoiei, assim como assim, não creio em bruxas, pero que las hay las hay... Para quê arriscar, Rui - o Rui parou de mastigar - é só um dia, vá lá, é o futuro do Glorioso que está em causa.
O Rui é um benfiquista consciente e também achou melhor cuspir a goma para o lixo. É uma responsabilidade muito grande para uma criança de treze anos, de facto, arriscar o destino glorioso do Benfica por uma simples goma e um dia de gula. E eu pensei para mim que a educação dos meus filhos foi um sucesso.

Hoje fui buscar o Rui à escola e a seguir fomos almoçar uma francesinha ao Buraco que é um restaurante só de clientes menores 16 anos, que fica ao pé da escola dele. O restaurante foi sugestão do Rui e as francesinhas são, de facto, óptimas. Quando acabámos perguntei-lhe:
- Queres sobremesa, Rui? Há profiteroles... - e ele:
- Não posso... A minha promessa...
Eu já nem me lembrava da promessa da véspera, mas o Rui não brinca em serviço.
- Não vou correr o risco de que os Deuses do Benfica se chateiem comigo.
Amanhã compro-lhe o maior bolo que houver na pastelaria onde tomo café!

18/03/10

Endless Summer, por Super Tubo

Endless Summer é um clássico filme de culto, realizado em 1968. O filme é basicamente uma boa ideia. Bob Brown, o realizador, acompanhou dois jovens surfistas americanos que tiveram e concretizaram um sonho: seguir o verão por todo o planeta a surfar. Michael e Robert saíram da califórnia, no fim do verão, passaram pelo Hawai, pela América do Sul, deram um salto a África, Índia, Indonésia, Austrália, Nova Zelândia, Taiti, Hawai de novo...O filme consiste na montagem de horas e horas de filmagens pelo narrador/realizador. Não se passa nada a não ser muito surf, ondas perfeitas, umas longas outras curtas, umas grandes outras pequenas, mais ondas e mais surf e as reacções dos locais que vão contactando com Robert e Michael. Como o filme já tem mais de 40 anos (!!!!) e é um trabalho mais ou menos amador, mantém uma aura de credibilidade que lhe advém da fotografia «envelhecida». Adorei o filme e o conceito. E gostava imenso - se soubesse surfar - de correr o mundo em cima de uma prancha, durante um verão sem fim.