Durante as últimas semanas tenho ouvido coisas do piorio sobre as vuvuzelas. Que fazem barulho, que fazem mal, que são irritantes, que são isto e mais aquilo e que, por isso, deviam ser proibidas.
É por isso que decidi fazer este texto. Para dar voz à revolta de alguém que entende estas críticas como mais uma enorme prova de racismo do povo português. Querem ver porquê?
Antes de mais, troquemos de papéis: os Mundiais costumam ser jogados sempre em África e pela primeira vez realizar-se-á um na Europa. Em África os sons das vuvuzelas são o ruído típico, assim como os cânticos o são na Europa, a hola-mexicana (vulgarmente conhecida por "onda") nas Américas e aqueles instrumentos a imitar o ruído de palmas no Médio Oriente.
Obviamente que quando começam as transmissões televisivas, os adeptos africanos protestam. Porque as pessoas na Europa cantam mal, quais brancos primitivos que passam o jogo a gritar e que nem sabem levar instrumentos para os estádios.
Logo de um lado surge a ideia de que os gritos provocam rouquidão e mal-estar permanente; de outro, que é bastante irritante, porque qualquer pessoa no Estádio pode cantar e nem todas o sabem fazer; de outro ainda, alguém a sugere que com a gripe que por aí anda e com as pessoas aos gritos logo se torna muito mais fácil a transmissão da mesma, através de algum germe que salta da boca aberta de algum desses brancos nojentos.
Ainda por cima os Europeus gordos e nojentos - principalmente aqueles ingleses horríveis - têm o hábito de deitar abaixo várias grades de cerveja e de depois irem de tronco nu para os estádios. E ainda passam o jogo todo a saltar e a cantar. Imaginem só os graves problemas de segurança que isto causa.
Mas pelo mesmo motivo soam os alarmes relativos ao bem-estar pessoal, à higiene e à saúde pública: é quem paga bilhete não precisa de aturar os brancos gordos, nojentos e transpirados a cheirar a cerveja e a gritar à sua frente ou ao seu lado; para além disso o alcoól mata e facilita as brigas entre adeptos; e para cúmulo andar de tronco nu, para além de ser um espectáculo degradante, ainda é um perigo para a saúde dos burros dos brancos gordos e nojentos.
Começam a aparecer montes de grupos e de manifestações anti-cânticos e anti-álcool antes dos jogos na Europa. Comercializam-se vuvuzelas. Oferecem-se, se preciso for. Mas finalmente consegue-se acabar com essas manifestações terceiro-mundistas de gritar enquanto se vê um jogo.
E, finalmente, a Europa fica civilizada. O Mundial prossegue com os Europeus calados e a tocarem vuvuzelas durante os 90 ou 120 minutos de jogo. Fica um Mundial igualzinho a todos os anteriores: decorrerá na Europa como se estivesse a ser realizado em África. Mas pelo menos o povo africano provou a sua superioridade e impôs os seus costumes...
Agora digam-me se não reconhecem a história que acabei de vos contar. Será que não é precisamente esta a atitude racista que um pouco por todo o lado os portugueses têm adoptado? Será que a ideia de que os nossos costumes são sempre melhores que os dos outros não é uma forma perversa de ver as coisas? Será que o objectivo do Mundial realizado em diferentes Continentes não é, precisamente, o de poder beber dos costumes de cada um dos sítios onde se realiza?
Será, então, legítimo pedir que se proíbam as vuvuzelas simplesmente porque não gostamos do som? E se os africanos não gostarem dos cânticos no próximo Mundial? Teremos de ver o jogo em silêncio?
post picado com a devida autorização de in http://vaipaselva.blogspot.com/
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