23/06/10

O Eterno Retorno, por Dalai Larai

Uma das noções que sempre me intrigou no pensamento de Nietzsche foi a do Eterno Retorno. O autor refere-se desenvolvidamente a esta noção no seu famoso Assim Falou Zarastustra. Trata-se de uma das ideias mais obscuras e de digestão filosófica mais difícil da obra do grande filósofo alemão. A resistência do Eterno Retorno às categorias racionais da Filosofia Ocidental é radical. E geralmente esta ideia é deixada na sombra pelos especialistas, com uma espécie de complacência tolerante, como se se tratasse de um devaneio poético do filósofo. No entanto Nietzsche sempre considerou esta intuição como uma das mais importantes da sua filosofia.

Como entender a mais misteriosa das intuições de Nietzsche? De um modo mais romântico e light como o faz Irving Yalom em Quando Nietzsche Chorou, ficção inspirada na figura do filósofo, mas sem pretensões de rigor biográfico ou ideológico? Ou de uma forma mais pesada e existencialista como decorre da leitura de Eugen Fink, um dos maiores intérpretes do trabalho de Nietzsche?

Segundo a versão mais ou menos light de Yalom, o Eterno retorno significa uma valorização extraordinária de todas as nossas escolhas, da mais simples à mais transcendente. Porque se tudo se repete eternamente, isso quer dizer que temos uma grande responsabilidade na opção que fazemos em cada momento: é que aquilo que eu escolher viver agora, vou vivê-lo para todo o sempre. Opto por comer mais um doce que sei que me provocará uma dor de barriga tremenda? Então estou condenado a viver essa dor durante toda a eternidade. Se não o comer evitarei uma dor eteerna e não só neste momento. Em cada opção carregamos a responsabilidade de toda a eternidade. Consequência desta concepção: uma espécie de revalorização eufórica do momento. Aproveita o dia, vive cada momento plenamente pois ele será repetido para todo o sempre.

Eugen Fink, um dos maiores comentadores de Nietzsche, por sua vez, encara o Eterno Retorno de outra maneira. Menos romântica, mas baseada na leitura efectiva e documentada do filósofo alemão, em particular em Assim Falou Zaratustra. Segundo Fink o sentido do Eterno Retorno relaciona-se com uma concepção de infinitude do tempo. O passado é para Nietzsche infinito, tal como o futuro. Isto quer dizer que todas as possibilidades do acontecer temporal já se passaram e passar-se-ão forçosamente no futuro. Se o tempo até ao presente tem uma extensão infinita isso quer dizer que a causa A que produziu o efeito B já se passou, mas igualmente a causa Não A que produziu o efeito Não B. E no futuro a mesma coisa.

Portanto todas as possibilidades que podem ocorrer vão forçosamente ocorrer quer no passado quer no futuro. No passado eu já escrevi este texto e voltarei a fazê-lo de novo no futuro; mas também já aconteceu o computador pifar e impedir-me de o fazer e, portanto, haverá também um futuro em que eu não escreverei este texto. Existe um passado em que Portugal deu 7-0 à Coreia do Norte que se repetirá eternamente, assim como um outro em que seremos nós a levar os mesmos 7 da Coreia. E no futuro voltaremos a viver as duas situações...

A visão de Yalom acaba por sublinhar o valor inestimável do momento. Desemboca numa espécie de carpem diem no qual a ideia de liberdade é valorizada (mas como é que eu posso ser livre se o meu presente já está determinado por uma escolha que eu já fiz algures no passado? Como conciliar a liberdade da escolha com a pré-determinação de um passado que já aconteceu, que eu não posso mudar e que, fatalmente, se repetirá?).

A de Fink, por sua vez, conduz a uma certa indiferença existencial. Fink não afirma um determinismo radical - eu não estou condenado a fazer algo pré determinado, pelo contrário eu tenho infinitas possibilidades de escolha. Mas, uma vez que toda a multiplicidade infinita de existências temporais ocorreu, ocorre e ocorrerá, forçosamente, que pertinência terá a minha liberdade? Afinal escolher uma coisa ou o seu contrário acaba por ser relativamente indiferente porque todas as possibilidades têm que ocorrer numa eterna repetição. Se tudo o que pode acontecer já aconteceu e acontecerá, de que nos serve a liberdade? Tanto nos faz escolher A como B... Ambos aconteceram e acontecem eternamente. Há um passado em que já me saiu o euro milhões, mas há um outro em que eu sou mendigo. O valor da nossa vida é, pois, muito relativo e devemos, talvez, digo eu, encará-la com alguma indiferença.

Yalom e Fink - duas leituras muito diferentes do Eterno Retorno Nietzschiano. Não sei de qual me aproximo mais, talvez da de Fink. O que sei é que não é fácil discutir este assunto à luz das categorias filosóficas racionais. Estamos no limiar da poesia, da religião (as ressonâncias budistas do Eterno Retorno estão aqui presentes), até do misticismo. É por isso que Niezsche sempre foi, filosoficamente, um apátrida.

22/06/10

Portugal 2 -Turquia 0, por Richard A.

Ontem Portugal ganhou 2-0 à Turquia e isso não interessa absolutamente nada. Daqui a uns tempos já nem me lembro. Agora do que nunca mais me vou esquecer é do espectáculo dado por dois fenómenos naturais que passaram antes do jogo pela minha cozinha. Foi mais ou menos como estar a nadar mesmo em cima das cataratas do Niagara. Esclareço.

Combinámos, a malta daqui do Tapor, ver o jogo em minha casa e informei logo que tinha cá uma cabeça de leitão pronta para ser preparada pelo Grunfo que é, como se sabe, o maior especialista mundial vivo na preparação de cabeças de leitão. O Mangas prontificou-se imediatamente a levar cebolas e a dar uma ajuda ao Grunfo. Foi um espectáculo digno de ser visto. Senti-me na pele do Richard Attenborough, foi como assistir a um acasalamento de lontras ou a uma luta de ursos polares.

O Grunfo e o Mangas juntos e ao vivo numa cozinha são dois verdadeiros senhores da selva. È um espectáculo impressionante vê-los em plena azáfama com o Grunfo a pedir «mais uma cebola descascada, rápido!» e o Mangas a fazer picadinho da mesma com aquelas mãozinhas de super-herói que Deus lhe deu. Impressiona vê-los a discutir «o melhor modo de fazer ovos mexidos», percorrendo em poucos minutos as várias escolas filosóficas que se pronunciaram acerca do assunto. Mesmo quando a comida já está ao lume e parecem estar quietos discutem «a forma como ela deve ser mexida na panela». Para já não falar da discussão «se a cebola já alourou ou não o suficiente». Na cozinha o Grunfo parece outro, a cozinha é mesmo o único sítio onde aquele homem é dinâmico. Cansa só de vê-lo a tirar pratos, tachos, panelas, garfos e colheres de pau dos armários.

Quando a comida foi finalmente servida, um homem observa pelo canto do olho o estado em que a cozinha foi deixada e parece que estamos a contemplar o Bangladesh depois da Monção. Há pratos sujos por todo o lado, talheres espalhados pelos armários, restos de cebola e miolo da cabeça do leitão em cima do fogão. Dir-se-ia que um estampido de bisontes, daqueles em que a terra treme uns quilómetros antes, passou por ali ou então um tufão ou um tremor de terra de grau 7 na escala de richter.

Quando tudo acabou, já depois de mandarmos duas ameixas no Turcos, desci à cozinha, que parecia ter-se transformado num cemitério de elefantes e enchi-me de coragem. Lancei mãos à obra e consegui arrumar tudo numa hora. Parece mau, mas não é. Fico com sensação de ser um previligiado, um Richard Attenbough burguês porque nem preciso de sair de casa para admirar a força da natureza à solta. Uma hora e depois? Pra assistir a um tal espectáculo, nem me importava que fossem duas.

21/06/10

Portugal 7 - Porreira do Norte 0



Portugal ganhou. Portugal jogou bem.

Não vou dizer que a sorte é que do outro lado estava a Coreia do Norte. O que digo é que aquele seleccionador da Coreia é ridículo. Como é possível com 3 a 0 tirar o Kim Kum-Il Mun e o Nam Song-Chol para meter o Pak Nam-Chol e o In-Guk?!

E para cúmulo tirou o Pak Nam-Chol que tinha entrado para meter o Cha Jong-Hyok sabendo que tinha o Ri Kwang-Hyok no banco!

Ridículo este seleccionador Coreano...

15/06/10

To vuvuzel or not to vuvuzel: this is the question, por Tshabalala


Durante as últimas semanas tenho ouvido coisas do piorio sobre as vuvuzelas. Que fazem barulho, que fazem mal, que são irritantes, que são isto e mais aquilo e que, por isso, deviam ser proibidas.

É por isso que decidi fazer este texto. Para dar voz à revolta de alguém que entende estas críticas como mais uma enorme prova de racismo do povo português. Querem ver porquê?

Antes de mais, troquemos de papéis: os Mundiais costumam ser jogados sempre em África e pela primeira vez realizar-se-á um na Europa. Em África os sons das vuvuzelas são o ruído típico, assim como os cânticos o são na Europa, a hola-mexicana (vulgarmente conhecida por "onda") nas Américas e aqueles instrumentos a imitar o ruído de palmas no Médio Oriente.

Obviamente que quando começam as transmissões televisivas, os adeptos africanos protestam. Porque as pessoas na Europa cantam mal, quais brancos primitivos que passam o jogo a gritar e que nem sabem levar instrumentos para os estádios.

Logo de um lado surge a ideia de que os gritos provocam rouquidão e mal-estar permanente; de outro, que é bastante irritante, porque qualquer pessoa no Estádio pode cantar e nem todas o sabem fazer; de outro ainda, alguém a sugere que com a gripe que por aí anda e com as pessoas aos gritos logo se torna muito mais fácil a transmissão da mesma, através de algum germe que salta da boca aberta de algum desses brancos nojentos.

Ainda por cima os Europeus gordos e nojentos - principalmente aqueles ingleses horríveis - têm o hábito de deitar abaixo várias grades de cerveja e de depois irem de tronco nu para os estádios. E ainda passam o jogo todo a saltar e a cantar. Imaginem só os graves problemas de segurança que isto causa.

Mas pelo mesmo motivo soam os alarmes relativos ao bem-estar pessoal, à higiene e à saúde pública: é quem paga bilhete não precisa de aturar os brancos gordos, nojentos e transpirados a cheirar a cerveja e a gritar à sua frente ou ao seu lado; para além disso o alcoól mata e facilita as brigas entre adeptos; e para cúmulo andar de tronco nu, para além de ser um espectáculo degradante, ainda é um perigo para a saúde dos burros dos brancos gordos e nojentos.

Começam a aparecer montes de grupos e de manifestações anti-cânticos e anti-álcool antes dos jogos na Europa. Comercializam-se vuvuzelas. Oferecem-se, se preciso for. Mas finalmente consegue-se acabar com essas manifestações terceiro-mundistas de gritar enquanto se vê um jogo.

E, finalmente, a Europa fica civilizada. O Mundial prossegue com os Europeus calados e a tocarem vuvuzelas durante os 90 ou 120 minutos de jogo. Fica um Mundial igualzinho a todos os anteriores: decorrerá na Europa como se estivesse a ser realizado em África. Mas pelo menos o povo africano provou a sua superioridade e impôs os seus costumes...

Agora digam-me se não reconhecem a história que acabei de vos contar. Será que não é precisamente esta a atitude racista que um pouco por todo o lado os portugueses têm adoptado? Será que a ideia de que os nossos costumes são sempre melhores que os dos outros não é uma forma perversa de ver as coisas? Será que o objectivo do Mundial realizado em diferentes Continentes não é, precisamente, o de poder beber dos costumes de cada um dos sítios onde se realiza?

Será, então, legítimo pedir que se proíbam as vuvuzelas simplesmente porque não gostamos do som? E se os africanos não gostarem dos cânticos no próximo Mundial? Teremos de ver o jogo em silêncio?

post picado com a devida autorização de in http://vaipaselva.blogspot.com/

13/06/10

Slavo Zizek, A Monstruosidade de Cristo, por Cagliostro

Slavoj Zizek é, para mim, um reencontro feliz com a Filosofia. Psicanalista de formação, desenvolve o seu trabalho na Universidade de Liubliana, na Eslovénia. O primeiro livro que li dele foi Bem Vindo Ao Deserto do Real (citação de Matrix do anúncio feito a Neo (Keanu Reeves) quando este tem acesso pela primeira vez à verdadeira realidade). Senti uma vaga reminiscência da euforia adolescente vivida quando contactei pela primeira vez com um livro de Filosofia, andava, à data, no velhinho Liceu D. Maria. Gostei do estilo, da forma híbrida de pensamento que cruza referências de Filosofia, da Psicanálise, da Semiótica e do Cinema.

Mas para além da pertinência dos seus diagnósticos, Zizek interessa-me, também, pelo seu lado estético e hedonista. É uma leitura que dá prazer, sem cair na banalização. Ora essa componente de prazer é uma característica que vem faltando ao discurso filosófico e, só por isso, a descoberta de Zizek já teria valido a pena.

Recentemente li A Monstruosidade de Cristo, reflexão do autor esloveno acerca do duplo estatuto do Deus Cristão, por um lado transcendente, por outro, humano. Não haverá nos cristãos, pergunta Zizek, uma espécie de nostalgia de um Deus «sentado lá em cima», de uma Força Superior impessoal? No livro, Zizek evoca a história bíblica de Job que compara, acertadamente, ao Cristo que sofre na cruz.

Mas o que é muito interessante neste livro é que ele pode ser lido, mesmo sem nos interessarmos, essencialmente, pelo seu tema central. De facto, apesar da sua unidade, A Monstruosidade de Cristo é rico em reflexões que se podem ler de um modo avulso. Aqui encontramos brilhantes reflexões sobre o tema dos sonhos («Porque sonhamos?, Zizek recupera Freud), sobre o cinema de Hitchcock, nomeadamente sobre Vertigo e Psico (notável a forma como o escritor esloveno ensaia o que seria Psico narrado por Kafka e por Hemingway).

Numa das suas observações mais interessantes, o autor faz referência a «uma prodigiosa descoberta recente» citada pela revista americana Weekly World News. Fico sem saber se esta descoberta é fidedigna ou se não passa de uma invenção religiosa-comercial... Mas merece ser aqui relatada: segundo esta revista, um grupo de arqueólogos terá encontrado dez mandamentos adicionais, bem como «sete conselhos» de Jeová ao seu povo, os quais terão sido suprimidos quer pelo Judaísmo quer pelo Cristianismo. O que é curioso é que estes acrescentos, hoje, podem ser lidos, como muito bem entende Zizek, como referências às nossas causas políticas contemporâneas. Mais importante: Deus toma partido nessas causas. Deixo-vos com uma síntese:

Por exemplo, o XI mandamento: «Tolerarás a fé dos outros como gostarias que tolerassem a tua» (na origem este mandamento destinava-se aos judeus que se opunham a que os escravos egípcios que se haviam juntado ao Êxodo praticassem a sua religião. Hoje em dia a actualidade deste mandamento é cristalina...)

O XIV: «Não inalarás folhas incandescendentes numa casa de repasto onde o fumo poderá lesar a respiração de outrem». Familiar? Pois... Dedicado a todos os que ainda duvidam da justiça da lei que poibe que se fume em recintos fechados.

XVII: «Não erguerás um templo de jogo no deserto, onde toda a vontade se tornará lasciva». Embora originariamente referido aqueles que organizavam tendas de jogo nas proximidades de acampamentos judeus, pode ser lido como uma referência à meca do jogo erigida no deserto: Las Vegas!

XIX: «O teu corpo é sagrado e não deves alterar a todo o momento o teu rosto ou o teu peito. Se o teu nariz te ofende, deixa-o intacto». Ui! aqui bate em tanta vaidade á solta. Em particular na cirurgia plástica, na mouche. E como não pensar em Michael Jackson (o nariz...)e na sociedade ciborgue que estamos a criar?

E quanto aos Conselhos:
«Evita a dependência dos negros óleos espessos do solo porque eles vêm directamente do reino de Satanás». E não é verdade que a nossa dependência do petróleo é criminosa e que devemos, sim, investir a sério na energia limpa?

Ou ainda «Não procures a guerra nas Minhas Terras Santas porque elas se hão-de multiplicar e afligir toda a civilização» (O Médio Oriente retratado) e «Não elegerás um louco para te guiar. Se o elegeres duas vezes o teu castigo será a morte por delapidação (Zizek vê aqui uma referência clara a Bush, mas um português medianamente informado o que vê aqui é Sócrates :-).

Já não chegavam 10 Mandamentos. estaremos ainda, como pergunta o Esloveno, dispostos a ouvir a voz de Deus e a obedecer-Lhe?

P.S. O pic retrata o autor, nascido em 1949, com a sua esposa, Analia Hounie...

12/06/10

Uma desventura na Educação, por Cão

O primeiro-ministro disse que “seria criminoso não encerrar escolas com vinte alunos”. Disse, disse. E pensa-o. E já deu ordens à “tia” Alçada, a das aventuras aqui e ali no país da deseducação, que as mandasse fechar. E ela mandou.

Ou eu estou doidinho ou a verdade está nos antípodas: criminoso é encerrar escolas. Fechar uma escola no interior é cancelar de vez a interioridade. É como fechar urgências, centros de saúde, tribunais, postos da guarda, fábricas. É a mesma coisa. Fechar uma escola é obliterar a geração presente vezes as futuras em cada município, cada freguesia, cada lugarejo de pastorícia e amanho da nabiça.

É necessário garantir ao primeiro-ministro que a Escola não é um sítio perigoso. Pois se até serve para vender “magalhãeses”… É preciso demonstrar ao primeiro-ministro que a Escola é um sítio a que toda a gente deve ir ao menos uma vez ou duas na vida, já que nem todos os estabelecimentos podem passar cursos por fax.

A sério, a sério, esta gente é perigosa. Ou eu estou doidinho ou está ela, ela esta, esta gente. Acontece que fiz os primeiros quatro anos da minha escolaridade antes do 25 de Abril. Cristo, ao alto da ardósia negra, continuava escoltado, como no Calvário, por dois ladrões, no caso Thomaz e Caetano. Mas aprendi a ler, a escrever e a contar, trindade de competências (como agora se diz em vácuo “eduquês”) que me ajudou, vejam bem, a pensar por minha mesma cabeça.

Se calhar, o busílis do encerramento em massa de escolas não está no frio economicismo de uns tantos tecnocratas de pacotilha simplex. Se calhar, o busílis do encerramento em massa de escolas está, precisamente, no perigo de as criancinhas virem a pensar por suas delas mesmas cabeças.
Ora, sabe quem estudou que o povo mais fácil de governar (ou pastorear) é o ignorante. Quanto mais carneiro for o maralhal, mais o pastor e seus mastins têm direito a cajados de ouro.
Eu não sou carneiro. Mas que isto me chateia os cornos, chateia.

Rosário Breve nº 158 - www.oribatejo.pt

09/06/10

«O Deserto Cresce: Ai Daquele que Traz Desertos em Si», por Zaratustra

No fim de semana passado vi um filme que me causou uma forte impressão. Talvez seja uma obra prima, talvez tenha, apenas, momentos que são obras primas... Seja como for, O Anti Cristo de Lars von Trier é um filme genial.

No entanto torna-se difícil falar sobre ele porque a carga simbólica das imagens é muito forte e creio que as palavras ficam muito aquém daquele universo visual. O filme está cheio de alusões, de metáforas, de conotações que eu não consigo reproduzir verbalmente e por isso é tão difícil falar sobre ele.

Trata-se de um daqueles filmes que exige competências que vão muito para lá das competências de um cinéfilo. Li críticas de especialistas em cinema que não perceberam nada daquilo (para a crítica portuguesa o filme foi considerado péssimo, mas nos blogs brasileiros encontramos abordagens muito mais correctas). E porquê? Porque o filme é uma espécie de recriação cinematográfica do clima filosófico da obra de Nietzsche (por isso é que o filme se chama O Anti Cristo). Sem se saber nada sobre a filosofia Nietszcheana o filme pode passar ao lado mesmo de quem sabe muito de cinema.

Como disse é-me difícil escrever sobre um filme com estas características. Apenas alinharei aqui, esquematicamente, algumas linhas de força d`O Anti Cristo, directamente inspiradas em Nietszche. Lá estão as grandes intuições do filósofo alemão, a saber:

1) A ideia de que na base da vida está uma força oculta (que já o budismo ou Heraclito identificam) a que Nietzshe chamava «a vontade de poder»;
2) A noção de que essa força vital é essencialmente amoral. E dada a sua amoralidade ela pode parecer-nos cruel e má - satânica... No filme diz-se que a natureza é «a casa de Satã» porque a sua lei inexorável é a da morte e da destruição que faz perecer tudo o que é;
3) A noção de que a natureza é a expressão mais clara dessa vitalidade amoral.Von Trier consegue mostrar-nos a natureza, ou melhor, os seus efeitos mais corriqueiros como ameaçadores. O filme enquadra-se, neste sentido, no género Terror, mas é um terror diferente do habitual. As gotas da chuva que são atraídas pela gravidade, as bolotas que caem de uma árvore, os ramos que se partem, os animais, as coisas aparentemente mais banais, tudo é terrível, ameaçador... O realizador leva-nos a temer a natureza ao dar-nos a entender que tudo isso são mecanismos accionados por uma força oculta mais poderosa. Depois deste filme não poderemos olhar para a «maravilhosa» natureza como até então.
4) A ideia de que a natureza é muito mais que a sua manifestação visível. A natureza não é a erva, a flor, a árvore, a raposa, é algo mais profundo que tudo rege. Essa força oculta é visível por todo o lado, no envelhecimento e na morte de um ser humano, como na ferrugem de um metal, na folha caduca ou na fruta que apodrece;
5) A ideia de que essa força é terrífica.
6) A noção de que o ser que encarna melhor a essência da natureza é a mulher (no filme Charlotte Gainsbourgh encarna a Louca, a Bruxa, a Violência e a Crueldade) e que o homem é o sua antítese ( William Dafoe é um psiquiatra que procura lidar/controlar por meio da Razão a Natureza indómita da Mulher. No fim ele só vence aparentemente).

Para quem se arriscar a ver o filme, convém que esteja preparado para as cenas mais cruas, algumas mesmo chocantes. Algumas cenas são mesmo para virar a cara para o lado, mas percebe-se o sentido daquilo e, de facto, nós temos essa defesa perante aquela violência (que não é gratuita),a de virar a cara para o lado.

05/06/10

Este Post é Dedicado ao Grunfo, por Adérito

Há uns tempos atrás, quando se assistiu no Tapor a uma debandada de escribas até ficar praticamente eu sozinhinho, o Grunfo profetizou o fim aqui do blog. E eu disse-lhe que isto morrer não morria porque eu vou continuar sempre a escrever. Se não for para ninguém, é para mim que escrevo. E se ninguém aqui vier passo a usar o blog como depósito do que comigo se vai passando. Mas, contrariamente às previsões do nosso Nostradamus, o Tapor não morreu. Pelo contrário, surpresa das surpresas, até tem aumentado o número de leitores! Não sei porquê, mas o certo é que os leitores do Porco vão aparecendo, a malta vai-se renovando e o Tapor não fecha as portas.

Que são gajos que andam à cata do porno, diz o Grunfo... Que vêem por engano... Que só cá estão 5 segundos... Que são tarados, que são marados... Sejam o que forem! O que é certo é que os clientes do Porco são cada vez mais. E, convenhamos, pornófilos, enganados, apressados, acossados, tarados e marados sempre cá andaram, agora e sempre como desde o início.

Por isso, Grunfo, aqui fica o registo do site meter, dedicado expressamente, à tua ilustre pessoa. Vês? No mês de Maio batemos o recorde absoluto de visitas: 5900 entradas a aumentarem as 5546 que era o número de Abril (também ele um record)! Nunca o Porco teve tanta visita (a não ser naquele mês excepcional em que o expresso nos fez uma amável referência, altura em que atingimos 19 000 visitas num mês, façanha nunca mais repetida). Dedico-te o post e estes números, a ti e, já agora, a todos esses milhares de tarados, marados e apressados que não nos largam e que - sinais dos tempos? - são cada vez mais...

03/06/10

Da Minha Janela Vêem-se Jacarandás!, por DervicheRodopiante


Da minha janela vêem-se os pináculos góticos da Santa Cruz, a brancura abarracada da câmara municipal e o leito averdongado da Sá da Bandeira. Vê-se a imponência românica da Sé Velha e os anti-sísmicos da rua de Aveiro. Da minha janela vê-se o cemitério da Jaime Cortesão, o campo santo da Conchada, a Igreja de Santa Justa e a Igreja do Carmo, a Cerca de São Bernardo, o Clube dos Patelas, a Sé Nova, o Pórtico do Machado de Castro e a capela fadista do Capella.

Da minha janela vê-se o pobre do Raul Lino transformado em Governo Civil, vê-se a brancura pederasta do Colégio dos Órfãos, a alegria mourisca da Torre da Almedina e a tristeza abandonada da Torre de Anto. Da minha Janela vê-se enormidade que há anos pede bomba e que dá pelo nome de Torre do Arnado e também se vê a alva elegância da torre sineira da nova igreja de Montes Claros do Gonçalo Byrne.

Da minha janela vê-se um canto da frescura cristalina do Mondego e o torreão libertário da Hotel Astória. Da minha janela vê-se a estridente Cabra e os contrafortes da vetusta Alma Mater.

Da minha janela vê-se gente e gajas boas, o bota-abaixo e a loucura alucinada que frequenta a loja do cidadão e a velha baixa, vê-se o desvario do Batiti e a loucura controlada do Gordo do Chapéu.

Mas da minha nova janela – descobri-o agora – também se vêm jacarandás. A meio do casario da encosta em frente, por cima das duas chaminés mortas da defunta Manutenção Militar, alarga-se uma cama farta da copa de dois pujantes jacarandás.

Fui espreitá-los mais ao perto e a partir da esplanada do tamanho do mundo do aborto comercial do Avenida. Estão dentro de um pátio particular assolados por verdura infestante que os procura ofuscar. Não consegue. Ao longe parecem uma grande chama azul. Estonteante. Porque da minha janela também se vêm jacarandás.

01/06/10

Quanto futuro (não) temos, por Cão

A taxa oficial de desemprego ronda, à hora a que vos escrevo, os 10,8 por cento da população activa também oficial. Quero lá saber disso. Vem aí um mês inteirinho de mundial da bola. É certo que a selecção alegadamente nacional só vai durar três jogos, mas mesmo assim Sócrates e seus acólitos têm razões feriadas para curtir mais uma temporada à nossa pala, mesmo com este alegre tiro no pé desfechado a favor do poeta Alegre.

Tanto desemprego dá muito trabalho. Ou deveria dar. Mas como já não mandamos nisto (porque abdicámos de direitos e porque nos abstivemos de deveres), que se dane.

Onde agora moro, florescem os abates de fábricas e de lojas e de oficinas e de tudo o que outrora deu de comer a quem trabalhava. Em contrapartida, irrompem as grandes urbanizações quadriláteras a juros dispara(ta)dos. Grandes centros comerciais sobem do chão vários patamares para que o nosso insosso povinho tenha por onde passear sem poder comprar nada. A mocidade grafita as paredes, imit’hip-hops lá de fora e anda pelas ruas com as calças a expor o rebordo das cuecas e o traço longitudinal que de cima para baixo dá lugar ao apartamento das pernas. A velhice pasma nos centros de dia a alzheimerar ante a pimbalhada das televisões alegadamente nacionais. A maltosa de meia-idade, essa não sabe nem o que há-de fazer, nem como desfazer o que nunca deveria ter feito, isto é, abdicar sem luta de direitos e abster-se sem ética de deveres.

A coisa não está boa nem vai ficar melhor. Qualquer pequena ilusão só pode gerar desilusão ainda maior. Claro que nem pensar em revoluções. Já não temos educação cívica nem consciência crítica para uma atitude histórica dessa envergadura. Ou seja: já nem uma vassoura sabemos usar, neste tempo de aspiradores industriais.
Vale o mundial. Aqui onde moro, o gajo do café fia as minis e os tremoços, embora só por um mês, que é o exacto tempo que temos de futuro.

29/05/10

Dennis Hopper |1936-2010|, por Mangas



"Falei ao telefone com o David Lynch depois de ler o argumento de Blue Velvet e disse-lhe: David, tens de me dar o papel de Frank Booth, porque eu sou o Frank."

26/05/10

O Melhor Jogo da Minha Vida, por S. Tomé

No dia 27 de Fevereiro de 1977 fui, pela primeira vez na vida. ver um jogo de futebol. O meu pai levou-me a ver o Benfica que defrontou a Académica (na altura CAC) no estádio Municipal de Coimbra. Até aí eu gostava, principalmente, de jogar futebol mas só isso. Não sabia muito das equipas, mas depois desse jogo tornei-me um apreciador a sério da bola. Do Benfica sempre fui, mesmo muito antes desse jogo.

Nunca esqueci a entrada no Municipal... O meu pai foi obrigado a comprar os bilhetes na candonga e entrámos pelo portão do lado do Liceu D. Maria. De repente, ali estava eu, no meio de uma multidão fanática a gritar Hossanas ao Glorioso. Ouvia vozes a berrarem a constituição da equipa do Benfica e a gritarem Chalana como se fosse Cristo, Shéu, Zé Luís, Alhinho e Alberto como se fossem os apóstolos. Foi inesquecível, acho que foi a primeira e única vez que me senti religioso e o medo inicial da multidão deu lugar a um sentimento de beatitude.

Recordo-me de polícias montados nos seus cavalos enormes que me aterrorizavam. De vez em quando havia mesmo umas bastonadas neste e naquele adepto mais nervoso. Mas o tal sentimento de religiosidade foi mais forte que o terror e lá acabei por entrar, não sei como, suponho que levado pelos ares entre a força da multidão e o aconchego do meu pai.

É curioso que eu me lembre de tanta coisa desse dia, aquelas memórias ficaram-me para sempre. Nunca mais me esqueci, por exemplo, da equipa do Benfica que alinhou nesse jogo: Bento na baliza; Bastos Lopes, Carlos Alhinho, Eurico e Alberto;Shéu, Zé Luís e Vítor Martins; Nelinho (Moínhos na 2ª parte), Nené e Chalana. O Benfica começou muito mal esse campeonato. Mas depois, o seu treinador, o inglês John Mortimore, resolveu lançar na equipa três juniores de uma vez, Alberto, Zé Luís e o fabuloso Fernando Chalana, tinha 17 anos na altura. O Glorioso nunca mais perdeu e acabou campeão. Nesse jogo com a Académica venceu 1-0 com um golo do Nené.

Quanto à Académica alinhou assim (não me lembrava de todos mas felizmente existe o livro Académica - História do Futebol e está lá tudo): Hélder; brasfemes, carlos alhinho, zé freixo e martinho; mário campos (rogério), rachão (vala)e gregório; camegim, joaquim rocha e costa. A académica tinha uma grande equipa, a sua linha avançada, principalmente, era temível. O Joaquim Rocha era um ponta de lança muito rápido e explosivo; o Costa foi apenas o melhor jogador de sempre da equipa, um extremo poderoso que levava tudo à frente. E o camegim era um tecnicista nato, um jogador muito fino.

O Benfica ganhou esse jogo para minha felicidade mas não foi nada fácil. Mas a sua equipa era superior, tinha uma defesa inexpugnável, tecnicistas como Shéu e Chalana e jogadores velozes como o nelinho e o zé luís. E depois tinha o nené que não sujava os calções, mal tocava na bola e tinha cagufa, mas que não falhava um golo. Ainda me lembro do que ele marcou nesse dia, uma bola colocada com a parte lateral interior do pé direito, em habilidade, de fora da área quando toda a gente esperava um remate em força. Parecia simples!

Nesse tempo ainda não existiam as normas de segurança apertada de hoje. Não havia torniquetes, nem bilhetes com lugares marcados nem stewards. Havia alguns polícias apenas. O estádio Municipal devia levar umas quinze mil pessoas, mas nesse dia estavam lá dentro umas 30 000. Lembro-me que começámos a ver o jogo na bancada, mas estava tudo em pé, as pessoas amontoadas umas em cima das outras porque se vendiam mais bilhetes do que a lotação do estádio. Se fosse hoje era um escândalo.

Antes ainda de começar o jogo, deu-se a primeira invasão de campo, simplesmente, porque havia gente a mais para tão poucas bancadas. Mas não foi nada de grave. As pessoas foram-se sentando na relva em volta do campo e outras ficaram em pé nas pistas de atletismo. Achei o máximo - tinha a oportunidade de ver os dribles do Chalana e os correrias do Zé Luís mesmo ao pé de mim! Correu tudo bem e só me lembro de uma segunda invasão pacífica dos adeptos do Benfica quando o nené facturou e de outra no fim quando ganhámos o jogo.

Ficou-me para sempre uma vaga memória da plasticidade do jogo, das camisolas rubras do Glorioso, do negro da académica, do arfar da multidão, do delírio do golo e de uma defesa do bento a remate do Joaquim Rocha que desafiou as leis da gravidade. Houve alturas em que julguei que aquela gente não era humana, quando somos pequenos somos profundamente inocentes, afinal, vendo-os hoje, cinquenta quilos mais tarde e muitos cabelos brancos depois eles parecem-me todos tão humanos...

E também me lembro do percurso para o estádio no velho Fiat 128 do meu pai. Coimbra era então muito diferente do que é hoje e a Académica era o verdadeiro clube da cidade (hoje já está muito longe de o ser, perdeu-se a identidade). Os carros dos adeptos do Benfica circulavam em fila, lentamente, e eram insultados das janelas pelos academistas que eram a cidade inteira. Fiquei amedrontado com aquilo, mas percebo agora que o futebol é feito dessas paixões, não é grave enquanto não passar de certos limites. Mas na altura eu era um miúdo e não percebia isso. Assim, até a vitória do Benfica me soube melhor. Quando o jogo acabou e fizemos o percurso de volta, eu não cabia em mim de orgulho e felicidade e os insultos dos adeptos da académica, agora, pareciam-me música. Sentia-me imortal! No fim desse jogo eu tinha decidido: queria ser jogador de futebol durante toda a vida, sonho que, nunca saberei se feliz ou infelizmente, jamais cheguei a realizar.

Mas pelo menos fiquei a adorar futebol. De tal modo que o ano passado levei o meu filho pela primeira vez à Luz para ver jogar o Benfica, por coincidência, com a Académica. Acredito, pela expressão extasiada com que o vi a olhar para o Aimar, para o Reyes, para o David Luís e para o Cardozo, que ele também não vai esquecer esse dia. A história repete-se, afinal... Mas não exactamente como gostaríamos: no jogo em que eu fiz de meu pai e o meu filho fez de mim, o resultado também foi de 1-0. Mas desta vez, para meu desespero e do meu filho, a favor da Académica...

Grandes Vilões do Cinema - Frank Booth (Dennis Hopper) em Blue Velvet, por Mangas

Frank Booth, “O Animal”, de Blue Velvet (David Lynch, 1996). Antes de tudo o resto, Blue Velvet é filme muito, muito bem feito! Fico-me apenas por um singelo pormenor, porque não é sobre a obra em si este texto: David Lynch tem arte e engenho para mudar quatro vezes seguidas de trilha sonora nos primeiros quatro minutos e meio de filme! E resulta sempre bem.

Em cada dessas inflexões consegue uma harmonia perfeita entre os sons e as imagens que funcionam como unidades que se complementam, como sintonias de ambientes que o espectador contempla, cenários e melodias que descrevem a superfície visível e antecipam o mergulho nas trevas. Começa com os inquietantes violinos a lembrar os genéricos dos films-noirs dos anos quarenta, muda para a voz macia como algodão de Bobby Vinton no clássico que dá título ao filme e que serve para ilustrar as cenas do quotidiano pacífico numa pequena cidade do noroeste americano – o slow-motion do carro de bombeiros, as rosas vermelhas contra o céu azul, os miúdos na passadeira a caminho da escola, um velho a regar a relva, e, com o ataque cardíaco deste reformado, a câmara recua à dimensão de uma orelha decapitada, baixos e contrabaixos impõem-se de forma angustiante aos amplificados ruídos dos escaravelhos que a devoram, e tudo termina com uma grande cartaz da cidade madeireira e o jingle da rádio local, a voz de Lumberton. Notável!

Quanto a Frank Booth, bem, esse é um cabrão tortuoso, arrevesado e maligno do piorio que o cinema nos deu! O papel assenta como uma bota a Dennis Hopper, na altura ele próprio em derrapagem acentuada com o uísque e as drogas. Mas Frank, quando mete uns bourbons para dentro e inspira o óxido nítrico da máscara portátil, toca as fronteiras da insanidade, alucina como um cão raivoso, descarrega uma fantasia sexual mista de bondage&incesto sobre a pobre Isabella Rossellini a quem chama carinhosamente “mummy” com a cabeça encostada ao colo antes de lhe pontapear os queixos…! O filho e o marido “à Van Goh”, tem-nos como reféns.

E se tal não bastasse para completar o perfil desta besta tresloucada, como imagens de marca ficam-lhe as lágrimas convulsivas quando na penumbra do bar ouve a sublime Isabella cantar o Blue Velvet com aquela voz enfeitiçada e hipnótica; e o anuncio sonoro antes de mais uma incursão na noite underground que alimenta luz e a alma do filme: "I FUCK ANYTHING THAT MOVES!!" Está tudo dito. O cinema sem Frank Booth era como uma tourada sem ferros.

23/05/10

Ontem deu o Johnny Guitar na RTP 2! , por Dancing Kid

Ainda por cima antecedido por uma introdução de cerca de 10 minutos com o saudoso João Bénard da Costa que fez o favor de nos explicar porque é que este é um dos filmes da vida dele. Foi, portanto, uma grande noite televisiva.

Um canal público de televisão devia servir, precisamente, para isto, para divulgar a qualidade e não para andar a fazer uma concorrência patética aos canais privados e a servir de câmara de ressonância do regime. Ver o Johnny Guitar na 2, leva-me a suplicar mais uma vez: privatizem a RTP 1! Aquela porcaria tem uma única finalidade visível: fazer a propaganda do regime político vigente à nossa custa.

Mas ninguém precisa da fátima não me lembro do apelido do Prós e Prós. Nem precisamos de mais um canal de televisão a concorrer com os programas da treta dos privados com os seus concursos foleiros, as suas telenovelas entorpecentes e as suas overdoses de publicidade.

Nem precisamos de mais nenhum canal sobre futebol. Os que há, chegam e sobram. Nem precisamos de um sorvedouro de milhões de euros do erário público que é o que aquela porcaria consome todos os anos.

Precisamos, sim, de um canal que faça efectivo serviço público. De um canal limpinho de publicidade, de programas para atrasados mentais e de debates bolísticos. Precisamos de um Canal como o 2 mas melhorado. Que passe, não uma vez de dois anos em dois anos o Johnny Guitar, mas uma vez por mês. Precisamos de um canal que não passe só este, mas todos os filmes do Nicholas Ray e de todos os grandes cineastas proscritos trocados pelos gouchas e pelos tavares do regime e por telejornais editados directamente do Largo do Rato. Enfim, precisamos de um serviço público de televisão, foi o que eu pensei, ontem à noite, depois de ver o Johnny Guitar na RTP2!

22/05/10

Still Is Coimbra, por Dr. Formidável


Esta semana abriu, ou melhor, reabriu em Coimbra a velha sede da Académica - OAF no mesmo local de sempre, mesmo na esquina da rotunda do Papa, aos arcos do jardim botânico. A velha sede da OAF sempre foi um local de culto. Passei lá muitas noites nos antigos jardins da AAC com grandes conversas sobre tudo, até sobre futebol. Foi uma pena quando fechou. Hoje voltei lá, os tempos são outros e o espaço é outro.

A AAC concedeu a um privado a exploração deste espaço. Chama-se Still Is Coimbra, foi inaugurado com pompa e circunstância, foi destaque jornalístico na imprensa local, na Bola, na TVI e até meteu a presença do Pantera Negra - que por acaso é do Benfica e chama-se Eusébio. Fui lá esta noite e gostei. Não foi por causa da comida que, por acaso, até era sofrível.

No entanto aquele espaço é quase um Museu. Alguém teve a ideia brilhante de decorar as paredes do Still com as páginas ampliadas do livro Académica - História do Futebol, da autoria de João Santana e João Mesquita (entretanto já falecido, uma pessoa que deixa saudades). Gostei da sensação de andar a passear pelas páginas de um livro!

A edição deste livro foi um verdadeiro acontecimento. Trata-se de um documento impressionante, um manancial de informação rigorosa recolhido pelo espírito minucioso de João Santana, cuja elaboração implicou anos e anos de trabalho dedicado. Mas para além disso o livro conta ainda com a pena brilhante de João Mesquita que lhe confere humanidade e lhe acrescenta a pequena história exemplar, tão bem ilustrada na vida contada de tantas personagens academistas.

Não há nenhum clube em Portugal que tenha uma obra de referência com esta qualidade. E não sei se haverá mais alguma coisa parecida em mais algum clube fora de Portugal... Pois bem, quem não conhece o livro, tem agora uma oportunidade de o conhecer. Basta ir ao Still cujas paredes estão decoradas com as suas páginas, com todas as suas fotos- algumas magistrais! - e com os textos do João Mesquita.

Mesmo não sendo, propriamente, um academista convicto - gosto da AAC mas é o meu segundo clube - gostei do Still e acho que é um espaço original na cidade de Coimbra. Trata-se de um espaço vivo porque as paredes estão carregadas de energia... As paredes e as pessoas que percorrem, comovidas, a história da AAC dispersa ao longo de várias salas e não sei quantos pisos. Grande ideia esta de fazer do livro um restaurante, de fazer do livro a sede da AAC, de lhe dar nova forma e de o fazer viver de outra maneira.

Aquando da inauguração do Still, A Bola escrevia que a decoração e concepção do espaço tinha tido a colaboração do «grande historiador e investigador, João Santana». Está errado: João Santana não é historiador profissional nem de formação. No entanto, depois, desta visita de hoje ao Still eu fiquei com a ideia de que isto é uma outra forma de fazer história. Não a História erudita e tradicional. Mas para que é que serve a História senão para nos dar lições de vida e para, assim, nos fazer sentir mais vivos? Quando vejo tantas pessoas que se passeiam pelas muitas salas do Still, que comentam emocionadas as fotografias e os textos que decoram as paredes, eu penso que a História a sério, também é isto. Senão é isto, então o que é? Um pergaminho inútil? E, neste sentido, o erro da Bola acaba por se tornar verdadeiro: João Santana (e acrescento o nome do saudoso João Mesquita) é, sem dúvida, «um grande historiador e investigador».