A notícia saiu em toda a comunicação social: Um professor foi demitido do cargo de coordenador da Equipa de Apoio às Escolas por ter contestado o modelo de avaliação docente.
O referido docente acumulava o cargo de professor na Escola Secundária D. Maria em Coimbra com um cargo de coordenação na DREC. A justificação do ministério da educação para a demissão, segundo o mesmo pasquim, é que o referido funcionário tem um «dever de lealdade» para com quem o nomeou.
Pessoalmente considero que esta é uma prática fascistóide que só desprestigia quem a toma. Mas aceitemos de barato que o cargo do corrdenador em causa era de confiança política e, portanto, de nomeação, sendo-lhe, assim, a «lealdade» exigida. Mas então sejam consequentes: se esta gente toda que é nomeada para as DRECS e quejandos é de nomeação política que saiam imediatamente quando sairem os políticos que os nomearam. Custa muito legislar nesse sentido?
Infelizmente, neste país, a confiança e a lealdade são sempre requeridas quando convém (como neste caso). Mas quando saem os decisores políticos ficam lá as suas excrescências. Nessa altura já ninguém se lembra do famigerado «dever de lealdade». Sempre que um xuxa fala em lealdade fica logo no ar um aroma pestilento...
A última edição da Ler é uma preciosidade daquelas de comprar e guardar. Pela(s) retrospectiva(s), pelas fotografias, pelas ideias para o futuro, pelo ensaio de Harold Bloom sobre génios literários e, ainda, pela cereja no topo do bolo, para utilizar a expressão de um cliente furioso deste blog: uma longa entrevista com George Steiner, que não só chama gigante a Lobo Antunes (gigante maior do que Saramago, diz ele e eu concordo) e discorre apaixonadamente sobre Pessoa e Camões, como fala de temas essenciais da contemporaneidade, do porvir e não só. E quando Steiner fala de temas essenciais, tenho para mim que a atitude mais sensata é abrir bem as orelhas. Ou os olhos, se estivermos a ler. É assim que devemos proceder com os sábios, que não dizem senão o essencial, mesmo quando estão a divagar. Por tudo isto e mais que não digo aqui: Ler.
Ter e trocar ideias é importante. Mas não menos é agir em conformidade, dando consequência concreta às palavras, aos princípios e às intenções. Nos meus últimos posts tenho defendido uma maior participação dos cidadãos na coisa pública, sendo que essa é para mim a única saída viável para a crise em que nos encontramos. Não falo da crise económica, mas sobretudo da crise política, que existe e é mais profunda do que os normais conflitos entre partidos ou com viabilizar ou não viabilizar orçamentos na AR. A verdadeira crise reside na apatia ou no desencanto da grande maioria dos portugueses relativamente ao panorama político institucional (partidário, parlamentar) nacional. À sensação de ausência de alternativas que leva a grande maioria dos nossos concidadãos a demitirem-se dos seus direitos (deveres?) eleitorais e de cidadania política. E que, por omissão, ajudam a perpetuar as disfunções.
Falo, em suma, de uma crise de representatividade, que se agrava perante a incapacidade de renovação dos partidos instalados e que se traduz na seguinte triste realidade: «(...)estes resultados já podiam ser previstos num estudo publicado pouco antes das eleições pelo Projecto Farol, um think tank independente. De acordo com o estudo do Projecto Farol, 94 por cento dos portugueses dizem não confiar na classe política, 90 por cento nos Governos, 89 por cento nos partidos e 84 por cento na Assembleia da República. Cerca de 70 por cento revela também não ter confiança nos tribunais, na administração pública ou nos sindicatos. Quase metade dos inquiridos afirma ter pouco interesse na política nacional (43 por cento) e na política local (48 por cento).» (in Perplexo).
Significa isto que o modelo democrático que temos está esgotado? Longe disso. O que significa é que precisa de ser melhorado. Melhor ainda: renovado. E não faltam exemplos de outros países onde a Democracia funciona melhor, onde nos podemos inspirar. Sendo certo que, onde funciona melhor, é onde os cidadãos não só participam mais, como são mais esclarecidos, lêem mais e debatem mais. O alheamento não é uma resposta. E a simples manifestação de revolta não chega para alterar o essencial, que passa por ser o sistema. Sendo que o sistema somos todos. Não é uma questão de "nós" e "eles". É sempre uma questão nossa.
Mas este post pretende ser apenas um princípio de conversa. Um princípio de conversa em forma de proposta. E o que proponho é a criação de um fórum, que pode evoluir para um formato associativo, para (re)pensar a democracia. Um fórum de gente verdadeiramente interessada em mudança e em fazer parte dela, pensando soluções, reflectindo alternativas e pugnando pela sua aplicação. Chamemos-lhe "think tank", chamemos-lhe lóbi, chamemos-lhe coletivo ou organização, chamemos-lhe o que os seus membros acharem melhor nas reuniões fundadoras. O importante é congregar ideias, vontades e esforços. Um fórum de gente partidária ou apartidária, de gente de esquerda, de direita, do centro ou de lado nenhum, de gente interessada em aprofundar e aperfeiçoar a democracia representativa vigente. Propunha desde já Coimbra como cidade-sede e, além de reuniões regulares presenciais, a criação de uma plataforma online (um grupo no Facebook, por exemplo).
A ação deste coletivo pode passar pela organização de conferências ou eventos públicos, por atividade editorial, por contactos diretos com partidos ou eleitos, por pressão junto de grupos parlamentares, por lançamento de petições ou por uma miríade de outras formas de intervir na esfera pública e de pensar coletivamente em questões essenciais do nosso tempo. Queremos construir um país melhor para os nossos vindouros? Então façamo-lo. Quem estiver interessado pode manifestar-se nesse sentido nos comentários deste post, deixando um contacto ou escrevendo para jpcruz(at)gmail.com.
O meu anterior post cumpriu a sua função de agitar as hostes e de trazer ao de cima o pior que há em nós, um dos objectivos basilares deste blogue. Como sou um tipo empreendedor, como se deve insistir em modelos de sucesso, como o Cão pede para desenvolvermos o que pensamos disto tudo e do que ele chama «os gajos de ocasião» e como também tenho filhos, resolvi continuar a empreender neste tema candente da sociedade portuguesa: jovens parvos e outros à rasca.
Pelo que pude perceber, para o próximo dia 12 avolumam-se dois movimentos de protesto distintos. Um de jovens revoltados com a falta de emprego e com as relações precárias de trabalho. Outro de gente de todas as idades, que se irmanam no slogan: «Um milhão de pessoas na Avenida da Liberdade pela demissão de toda a classe política». Repito: «pela demissão de toda a classe política». Pessoalmente, simpatizo mais com os primeiros. O proto-anarquismo de fancaria e o discurso anti-político radical, a sua sanha purificadora com laivos jacobinos, subjacente ao segundo assustam-me um bocado, ainda que concorde com alguns dos diagnósticos que acompanham o «manifesto» que tem corrido na net. Merecem-me mais respeito e empatia os jovens à rasca.
Os dois movimentos, no entanto, têm algo que os une: nenhum oferece soluções ou alternativas. E ambos esperam que alguém, não se sabe bem quem, resolva os seus problemas. É evidente que todos nós, que pagamos impostos, esperamos que o Estado ofereça algumas respostas no sentido de atender às aspirações e necessidades da população. Mas como o Estado não é uma abstração religiosa do tipo Espírito Santo e é feito de cidadãos concretos que o gerem e sustentam num determinado quadro constitucional, nomeadamente de democracia parlamentar representativa e do estado de direito, convém colocar o discurso no plano das soluções concretas. E, se formos democratas, no plano do sistema vigente no sentido de o reformar e melhorar. Isto é, vir para a rua defender a «demissão de toda a classe política» é um programa mais do que irrealista: nihilista. Até porque parte do princípio de que se «toda a classe política» fosse demitida, aconteceria um milagre e que emergeria da sociedade portuguesa, não se sabe bem como nem de onde, uma nova vaga impoluta e infalível de políticos e gestores da coisa pública. Como se por baixo do sistema político, fervilhasse uma pátria anónima honesta, competente e voluntarista, que nos conduziria à glória.
Eu sei que para além do sistema político, há imensa gente capaz e honesta, pronta a tomar as rédeas do Estado. No entanto, as coisas não são tão simples. Não só os políticos que temos são um reflexo do povo que somos (no seu melhor e no seu pior), como a gente capaz e honesta que existe, está nos sítios onde deve estar: a produzir riqueza, ciência e saber nos seus postos: empresas, universidades e demais instituições privadas que são tão essenciais quanto o Estado para manter este país de pé. É por isso que acho que devemos transcender a demagogia populista destes arautos da mudança sem projecto e que devemos ser realistas, porque os tempos não estão para fantasias. E a única forma que vejo de fazer isso é mudar o sistema por dentro. É nesse sentido que defendo como soluções uma maior participação dos cidadãos descontentes na política que demonizam e uma mentalidade mais empreendedora. Porque pura e simplesmente não há outras opções, se quisermos dar um futuro melhor aos nossos filhos.
O que é que isto significa na prática? Significa desde logo ir às urnas escolher as alternativas que se apresentem no quadro da tal democracia representativa - e o que temos visto é que a maioria da população se demite desse dever, sendo como tal, responsável por omissão pelo estado da nação. Isso é o básico. Depois, há formas mais interventivas de corporizar a mudança, no contexto da política. À cabeça: aderindo a partidos e lutando activamente não só pela mudança interna desses partidos, mas também por uma mudança de governo e de forças parlamentares. Ou mesmo criando novos projectos partidários e saindo para o terreno na luta por causas consequentes e por verdadeiras alternativas de poder central ou local. Ainda no quadro da política, o sistema oferece a possibilidade da criação de movimentos de cidadania não-partidários, que se podem constituir em lóbi de pressão junto de quem decide.
O que acontece de facto, no entanto, é que o povo português, na sua maioria, se demite de participar e reduz a sua actividade política às conversas de café e aos bitaites raivosos na net. E muitos nem isto fazem. Na sua generalidade, infelizmente, somos um povo apático que de vez em quando se excita e se manifesta, mas que logo a seguir regressa à sua normal e sofredora vidinha. O verdadeiro problema não são os «gajos de ocasião», não é este tempo, como afirma o Cão sem sentido histórico ou sociológico, são os gajos de sempre: somos nós, ou a maioria de nós, que nos eternizamos nesta mentalidade fadista, conformista e de lamuria inconsequente.
Enfim, valham-nos o futebol, a novela, os cafés e as suas esplanadas, o malogrado Carlos Castro, o facebook, os blogues e os jornais online para desabafar e soltarmos a fera que há em nós! Fora do contexto político, podemos de facto fazer a mudança se abraçarmos uma atitude mais empreendedora e menos avessa ao risco. De uma forma ou de outra, nada de essencial mudará a partir de 12 de Março se os portugueses, políticos ou não, continuarem a achar que a culpa e a responsabilidade da mudança é sempre dos outros. Ou é preciso citar o Kennedy?...
Tenho uma filha com 17 anos feitos que acredita em si mesma. É bom. Também acredita no futuro dela, ela. Já não sei se isso é tão bom. Não sei – e não sei explicar-lhe a minha ignorância.
Tenho outra menina a que pertenço também. Tem 11 anos, vai andando, não sei bem em que acredita ela, vejo-a menos vezes do que deveria.
Uma e outra são portuguesas. Crescem como juncos que o vento matiza de verde. São cidadãs deste tempo.
O problema é este tempo ser destes gajos. Deste país. Desta conjuntura.
A Leonor e a Teresa são exactamente iguais aos vossos filhos e filhas: encarnações floridas com que intentei prolongar a eternidade que o Tempo nos nega. Não o Tempo dos filósofos alemães. Não o Tempo de mármore da Grécia. Não o Tempo cartográfico das caravelas. Este Tempo.
O Tempo dos corruptos/corruptores. O Tempo dos falsos adventistas. O Tempo dos idiotas subidos a lugares de comando. O Tempo dos amigos serem para as ocasiões que fazem ladrões.
A minha Leonor e a minha Teresa foram feitas em Portugal, mas não para ele.
E os vossos filhos e as vossas filhas? Terão sido para gajos de ocasião como estes?
Gostaria de saber o que pensais disso.
Gostaria mesmo.
Há momentos que valem o mundo. Foi assim este Domingo na Catedral da Luz quando o Fábio Coentrão rematou para a vitória do Benfica no último segundo do jogo com o Marítimo. O Benfica empatava por um golo e, no último segundo, quando todos já tinham perdido a esperança, há uma bola que sobra para Fábio. É esse ínfimo momento que me interessa. Gostaria de parar o tempo naquele instante como se faz nos dvds para analisar um pormenor de uma cena.
Naquela fracção de segundo o mundo parou: Fábio domina com o esquerdo e a bola fica ao alcance do pé direito o seu pior pé. Percebemos que ele vai atirar à baliza , todos sabemos que é o último remate do jogo, estamos no segundo final, e é claro que ou sai fantástico e ganhamos ou acerta na floresta de pernas do marítimo e tá tudo perdido. Nessa fracção de segundo, se a pudéssemos imobilizar, milhares de gargantas ficam mudas e outros tantos corações deixam, indelevelmente, de bater. Se Fábio acertar o remate o Benfica continua na luta pelo título, se falhar o sonho morre. Fábio tem toda a responsabilidade de um clube maior que um país concentrada no seu pé direito. Mas eis que o tempo retoma o seu curso: Fábio Coentrão remata forte, certeiro, espectáculo, GOLÃO! Um momento mitológico, toda a responsabilidade do universo naquele remate de Fábio Coentrão, como um pequeno big bang em que toda a matéria do universo está encerrada num pequeno grão de matéria que subitamente se liberta numa grande explosão de energia que ainda hoje se expande!
Há momentos assim na história do desporto: o penálti falhado por Zico na meia final contra a França no mundial de 86 (falhou); um putt de Tigger Woods em Augusta do qual dependia um título (acertou); um Ace de Sampras para jogo em Wimbledon (acertou). E agora Fábio. São momentos que valem um jogo, um campeonato, que digo?, são momentos que valem um universo. Mitológicos!
Este vem um pouco a propósito do anterior post, solidário com a geração parva à rasca e com os seus protestos e reivindicações - em rigor é uma minoria dentro de uma geração, uma larga minoria, mas uma minoria, já que a maior parte até se vai safando razoavelmente.
Este fim de semana fui com a família passear e, pelo caminho, fomos visitar o castelo de Leiria. Lembrei-me disto porque foi também uma ocasião de apreciar, em toda a sua pequenina grandeza, o mamarracho futebolístico que o (des)enquadramento na paisagem agiganta ao ponto de eclipsar tudo à sua volta com a sua fealdade, inclusive o castelo. E o que é que isto tem a ver com gerações parvas?
O estádio de Leiria, até porque parece não servir para mais nada, é um símbolo poderoso. Um símbolo do que está mal neste país e uma prova viva, perdão, morta, da responsabilidade inter-geracional e geral pelo estado da nação e da responsabilidade tanto de governantes como de governados. Nação essa que é o somatório de decisões atrás de decisões desastradas e desastrosas. Muitas delas, como a decisão do Euro 2004, amplamente aplaudidas pelo povo. O mesmo povo que hoje atira pedras aos políticos, basicamente os mesmos que ajuda a eleger, por acção ou omissão, eleições atrás de eleições. Sobretudo por omissão.
O estádio de futebol de Leiria, exemplo perfeito de investimento público inútil, é um símbolo de um povo, ontem como hoje, parvo e rasco, que se alheia da coisa pública e que pelo caminho de História se esqueceu de arriscar e de empreender (se é que alguma vez se lembrou), à sombra de um Estado tentacular e providencialista com as prioridades trocadas, que continua a asfixiar a iniciativa privada e a capacidade criativa do indivíduo.
O estádio de Leiria é um símbolo de um povo fadista, inconsequente e dependente, que prefere a lamentação à acção e o subsídio ao risco. Em suma, o estádio de Leiria é um símbolo de um povo que não sabe ser livre e que tem os políticos que merece.
É por estas e por outras que «correr de lá com estes políticos», uma das bandeiras dos jovens descontentes, não muda rigorosamente nada. Não muda porque o problema não é do balde, é do que lá está dentro. E lá dentro estamos todos - todos os que aplaudimos os euros da bola e o circo, por exemplo. Isto é, os nossos políticos somos nós.
Por isso a minha resposta à geração parva e à rasca é: parem lá com as manifs e com o choradinho e organizem-se, pá! Infiltrem-se em partidos, organizem-se em novos partidos ou projectos políticos independentes, organizem-se em associações, em lóbis, em cooperativas, vão à luta, acreditem mais em vós próprios, não fiquem à espera que os outros resolvam os vossos problemas ou de empregos para a vida e criem projectos empresariais, sejam empreendedores e participativos, rasguem novos horizontes. Em suma, mexam-se! Só assim conseguirão a mudança que reclamam.
Porque é que uma música, um quadro, um edifício que foram ignorados durante algum tempo, subitamente, se transformam em peças de um valor inquestionável? Os exemplos são às dezenas, todos conhecemos o caso do pintor maldito - Van Gogh, Gauguin, os impressionistas - que passou a vida a fazer obras primas que os seus contemporâneos ignoraram. Porque que é que só os vindouros, muito tempo depois lhes reconheceram - áqueles e a tantos e tantos outros - a genialidade tardia? Será o génio um rastilho que só se pode consumir muito lentamente?
Acontece que em arte, como em qualquer outro acto de comunicação, há um factor de capital importância que os gregos baptizaram com o nome de Kayrós. Kayrós, o tempo da oportunidade, não Kronos, o tempo cronológico que devora os próprios filhos, mas o tempo exacto, o momento certo. É por isso que há grandes obras que não o são enquanto não chega o seu tempo, o Kayrós em que elas se revelam em toda a sua profundidade. E, ás vezes, acontece mesmo que obras que não são assim tão geniais acabam por ganhar um valor acrescido, precisamente, porque se revelaram no seu tempo, no tempo certo. Parece-me ser o caso evidente da canção Que Parva que Sou dos Deolinda.
Não sou um grande fã dos Deolinda nem me vou pronunciar sobre a qualidade musical da canção. Mas há uma coisa que reconheço áquela música: ela foi capaz, na sua singeleza profunda, de captar o espírito do tempo. E isso é, de facto, algo que roça a genialidade. Aquela música capta o espírito revoltado e indignado de uma geração humilhada e explorada por uma década de políticos corruptos. Os Deolinda expressam o lodo fedorento em que se tornou o portugal xuxa de zé socas. Está lá tudo, é uma música e uma letra que expressam o sintoma, o sentimento de decadência, da indignação e da revolta de milhares e milhares de jovens ultrajados. Que Parva que Sou é a denúncia do pântano, o anúncio de qualquer coisa que cheira já a fim de regime. E por isso é tão emocionante ver aquele vídeo em que milhares de jovens «quinhentos euristas» se levantam em peso e aplaudem os Deolinda, comovidos e arrepiados. Na mouche!
Os sintomas estavam aí - a intervenção artística mostra-se sempre especialmente capaz quando se trata de anteciparos sinais do tempo, como aconteceu agora. Sentia-se nos concertos do Sérgio Godinho, por exemplo: de repente, as velhas canções revolucionárias do antigo cantor de protesto ganharam actualidade. Mas ele escreveu aquilo em 1974? Sobre o fascismo? Sentia-se na súbita vontade de re-ouvirmos o Zeca, o Fausto, o Zé Mário. As velhas músicas de protesto, para quem reparou, tornaram-se actuais, ganharam, estupendo!, de novo, o seu Kayrós. O Charlatão, Que Força é Essa, Uns Vão Bem e Outros Mal, Liberdade, etc, etc, dizem tanto hoje no portugal socretino, como disseram no tempo do portugal salazarista.
Infelizmente, os cantores da geração dos actuais políticos, os Xutos arrependidos e o abrunhosa mudo, não souberam estar à altura das suas responsabilidades (como não recordar o lamentável acto de contrição do zé pedro dos xutos a propósito da célebre canção do engenheiro, essa que foi um quase ícone e que, de repente, se esfumou em nada com a vergonha do seu autor?). Felizmente os Deolinda souberam estar à altura, foram eles a dar forma à raiva, ao desespero e à revolta da «geração à rasca».
Dia 12 de Março vamos todos prá rua porque, sejamos ou não desta geração, todos (bem, quase todos...) somos vítimas da podridão instalada. Ou como dizia o Zeca, venham mais cinco...
Com o mundo muçulmano em ebulição e sem sabermos muito bem onde tudo isto vai parar - ainda que desconfie que não irá propriamente parar a um destino de radiosa liberdade e democracia - outras forças se movem nas entranhas do Médio Oriente. Bem ali no meio do intestino grosso, temos a República Islâmica do Irão, uma potência regional governada por fanáticos religiosos com tendências apocalípticas, cheio de ganas de nos dar cabo do canastro (aos americanos em particular e a todos os ocidentais infiéis em geral) e que não tarda muito tem a Bomba.
Isto enquanto o resto do mundo assobia para o ar. Uns, como a Rússia e a China, porque negócio é negócio e há muito negócio envolvido - petróleo para um lado, armas para o outro, etc.. Outros, como a generalidade dos países ocidentais, porque achamos que Israel irá tratar do assunto mais cedo ou mais tarde e que esse é um assunto existencial que lhes diz sobretudo respeito a eles, israelitas, que estão ali quase ao lado e que já estão cercados de hezbolla e hamas por todo o lado. A cereja no topo do bolo será, sem dúvida, a irmandade Muçulmana a dar cartas no Egito e a escancarar as fronteiras com Gaza. Aliás, muitos de nós, sobretudo as gentis e mui tolerantes almas esquerdistas, até pensarão que é bem feito, que o Irão tem direito à sua Bomba e que Israel não está senão a pedi-las. Como se não houvesse resto.
Enquanto isso, a "jihad iraniana" estende os seus tentáculos e prossegue impávida e serena na rota nuclear. Um cenário preocupante que este documentário retrata, fazendo um pouco de história e talvez exagerando um pouco na influência internacional do regime iraniano. Mas é de ver. Iranium.
A propósito de um apelo de um membro/sobrevivente deste blog, no sentido de vir aqui arranjar uma avaria nas entranhas do Tapor, voltou-me a vontade de voltar a postar por aqui de vez em quando. Isto depois de um longo interregno sem postar ou intervir, por razões endógenas e exógenas, mas sobretudo das últimas. E como eu, pelo que fui verificando, outros tapores foram dando outras prioridades às suas vidas.
O facto é que, afastamentos à parte, o tapor continua vivo, ainda que mantido praticamente apenas por um ou dois colaboradores, que guardam o forte quais indefectíveis gauleses ou texanos. E o facto é que sete anos depois, se me não falha a aritmética, o tapor continua a gróinkar e a atrair multidões (cerca de 11 mil visitas no último mês).
É certo que a maioria vem atraída pelo sexo, por alguns posts antigos de antologia sobre o universo porno. Os posts mais visitados são, de longe, os da saga da Monica Rocaforte, o da Little Oral Annie, The Queen Of Deepthroat, seguidos de perto pelo da Nigella qualquer coisa que é cozinheira e não se sabe se é ou não gorda. Ou seja, muitos aterram aqui, efectivamente, por acidente. Sendo que o grosso da coluna de visitantes é oriunda do Brasil, de longe. Mas isso não interessa, o que interessa é que no meio de tantos milhares de turistas, há certamente umas dezenas deles que perdem tempo a ficar um pouco mais por aqui, de molde a conhecer os hábitos e os costumes e a ler este vastíssimo espólio da mais pura cultura blogosférica, feita de momentos inspirados, idiotas (eu fiz a minha dose deles), bem humorados, informativos, conhecimento, opinião e debate e tudo. Sobre tudo e às vezes até demais. Em Português de quatrocentas calhoadas ao minuto, que era por onde o Assis Pacheco respirava. Essoutro coimbrinha ilustríssimo.
Isto tudo para dizer duas coisas. Que acho muitíssimo bem que o Tapor, este monumento ao saber e ao sentir popular (raiando mesmo por vezes o erudito) contemporâneo não morra, que volto com novas ideias e formas de pensar. E que (re)começo com uma pequena nota sobre cinema, um dos temas caros a este blog desde a sua Fundação, sendo sempre de homenagear aqui o Mangas, o nosso cinéfilo-mor, que tem para aí para trás muitas pérolas de crítica cinematográfica.
O filme que vos trago aqui hoje, por outro lado, vem (inconscientemente, só me lembrei dessa coincidência quando estava a escrever isto) um pouco na sequência de uma série de posts que fiz há uns anos para aqui, sobre a temática fitas de ménes, se não me engano. Lembro-me que escrevi na altura sobre o Dersu Uzala do Kurosawa e sobre o Lawrence da Arábia do Lean. E acontece que a fita do presente post também é sem tirar nem por fita de ménes, um filme masculino e viril dos pés à cabeça. E acontece que é também dos filmes mais (injustamente) esquecidos/ignorados de 2010. Sendo certo que não é propriamente um filme comercial, que é dinamarquês (co-produção com a Grã Bretanha) e que cerca de noventa por cento do filme não tem diálogos. Falo de
Valhala Rising, Nicolas Winding Refn
Há muito tempo que um filme não me surpreendia de maneira tão profunda. E isto é o mínimo que posso dizer desta obra. O que é bastante. E é daqueles a que nem arrisco dar estrelas, para cima ou para baixo, cada um que tire as suas conclusões. Trata-se de uma experiência cinematográfica um pouco desconcertante (sobretudo para quem tiver a expectativa de filme de aventuras com vikings) e que não será de todo consensual.
Eu achei este um filme marcante e, melhor ainda, um objecto estranho, singular, diferente, algo do tipo "novo", o que vai sendo cada vez mais raro no mundo do cinema. O que é sempre emocionante. Sobretudo se é uma produção modesta e sem grande aparato high-tech.
Em traços muitos gerais, estamos na Idade Média, ano 1000 DC, e acompanhamos parte do percurso de um escravo mudo e zarolho chamado One Eye, um guerreiro cativo de um clã de brutamontes escoceses. Grande parte do filme, como tal, é passado no cenário granítico e desolador das High Lands. O homem acaba por fugir e por se associar, relutantemente, a um bando de normandos (enfim, vikings) que assolavam a zona, cruzados em preparação para a grande viagem à Palestina, onde aguardava fortuna e redenção. Que foi exatamente o que não encontraram - ainda que não todos.
Em termos de trama isto basta (ou se não basta podem ir aqui), até porque este é daqueles filmes realmente de poucas palavras, de onde se sai também mudo e um pouco zarolho. Um filme de um realismo tão brutal que raia o gore, em certas cenas de extrema violência, em sintonia com a dureza daquela paisagem e daquelas vidas, mas que ostenta ao mesmo tempo uma beleza plástica, fotográfica e poética simplesmente arrebatadora, quase espiritual.
E a música e os actores. Superlativos. Tudo no seu estranho mas inevitável sítio.
Por ser um objecto algo bizarro, é difícil de catalogar, mas para dar uma referência, lembrei-me por exemplo ao ver o filme do universo do Terrence Malick. Outros entusiastas viram por ali o Dreyer. Eu continuo sobretudo a pensar que é uma injustiça ser tão pouco conhecido e falado. Vejam que vale a pena. E já agora completamente a despropósito, dos oscarizáveis aconselho vivamente o True Grit. Outro Senhor Filme.
Caravaggio pintou São Mateus e o Anjo em 1602 na sequência de uma encomenda que lhe foi feita pela Igreja para decorar o altar da Capela de Contarelli. O primeiro destes pics, a preto e branco, é o retrato dessa obra. Nela vemos o apóstolo S. Mateus a ler as escrituras. O anjo serve de orientador a essa leitura, o que é mostrado de um modo muito directo pelo pintor – a mão do arcanjo está pousada sobre a do apóstolo e condu-la.
A Igreja considerou «inapropriada» a forma como Caravaggio retratou esta história. Recusou o quadro e obrigou o pintor a realizar uma nova versão mais adequada ao espírito religioso da época. Quais as razões desta recusa?
Observando o quadro percebemos que ele tem uma ambígua carga erótica que deve ter incomodada a Santa Madre Igreja. S. Mateus parece demasiado perdido, como se travasse uma luta interior para vencer as suas tentações. E o anjo parece, de facto, tentador, demasiado carnal, demasiado sensual. Atente-se nos seus olhos semi-fechados, nos seus lábios, na veste transparente e volátil que lhe deixa ver as pernas e, sobretudo, na sua gestualidade, uma marca dramática omnipresente na pintura do Mestre. Reparem naquela mão em cima da de Mateus. E na outra, lânguida, prazenteira… Este Caravaggio sabia o que fazia…
A igreja não disse isto desta maneira. Mas justificou-se: S. Mateus teria sido representado como um homem humilde, rude, analfabeto. Não se estaria a sublinhar a devida santidade do apóstolo. E o anjo, pasme-se, pisa a terra como um comum mortal. Humano, demasiado humano…
Obrigado a fazer uma nova versão, Caravaggio apresentou o segundo destes quadros, mais de acordo com as exigências do seu cliente. No segundo quadro, o anjo perde a sua perturbadora sensualidade, perde até a sua fisionomia feminina para ganhar um rosto mais andrógino. Além disso, fica reforçada a diferença de planos entre o divino e o profano – o anjo desce do céu, S. Mateus levanta o olhar, mas não há contacto físico entre eles, ao contrário da primeira versão (note-se mais uma vez a diferença na linguagem gestual do anjo, aqui fechada sobre si mesma ao invés do gesto de contacto que vemos no primeiro quadro).
Apesar de tudo, este segundo S. Mateus, ainda mantém algumas características do primeiro: sobretudo, a sua humildade, a sua rudeza, sublinhadas pelos pés descalços e sujos e pelo seu ar ainda hesitante.
Infelizmente, a história tem ironias dos diabos: o segundo quadro encontra-se na Igreja de S. Luís dos Franceses em Roma. Quanto ao primeiro, o meu preferido, foi destruído durante os bombardeamentos aliados da Alemanha durante a segunda guerra mundial. Tudo o que dele resta é esta ténue fotografia a preto e branco. Ele há coisas do caraças…
«Vi uma manifestação de pais, alunos e professores de uma escola pública, onde, dizem eles, chove em alguns locais e faz frio porque não há aquecimento na escola». m.s. tavares, Expresso, 5/2/11
Tudo nesta frase é abjecto, sinuoso, manhoso...Isto vem escrito no último número do Expresso, um jornal que, estranhamente, continua a pagar principescamente a este indivíduo para debitar porcarias destas. Estranha-se que um jornal de referência não reflicta um pouco mais sobre os escrevinhadores que anda a sustentar.
Mas a dita frase tem um mérito, por acaso, pedagógico - ela pode ser utilizada como um bom exemplo de como as palavras podem ser traiçoeiras e manipuladoras. Sublinhei algumas partes desta jóia peçanhenta. Repare-se: o tavares não diz que chove e faz frio numa escola pública. Não. Isso não é , para ele, um facto - simplesmente «dizem eles». Nesta chico-espertice o tavares deixa assim sub-entendido que isto pode ser uma inventona movida sabe-se lá porque ínvios interesses dos alunos, pais e professores. «Dizem eles», sabe-se lá se chove e se faz frio naquela escola...
E o que «dizem eles»? Que «chove em alguns locais» (da escola, presume-se). Outro artifício de ratazana - obviamente os pais, alunos e professores não se queixam de chover «nalguns locais». Queixam-se porque, certamente, chove no interior da escola, possivelmente, nalgumas salas de aula e no ginásio, como se vê tantas vezes por esse país fora. Mas esta parte o tavares omite - deixa quase a entender que estamos perante um bando de maluquinhos que se queixam de que «chove nalguns locais», no pátio talvez ou no parque de estacionamento ao ar livre...
O resto do artigo (?) consiste num delírio que insulta a inteligência de qualquer burro. A argumentação do tavares, para rebater a pertinência destes protestos consiste nisto: no tempo dele, o tavares estudou no Marão e numa escola de Lisboa e nem numa nem noutra escola havia aquecimento para tornar o frio suportável e nesse tempo ele apanhava muita chuva e muito frio e também ia a pé para a escola e não tinha canetas nem giz nem lousa, etc, etc. Aqui já estamos no grau zero da argumentação: a linha de raciocínio é digna de um indivíduo que já não está na posse das suas inteiras faculdades lógicas. O tavares quer dizer que se no tempo dele era assim, então agora, em 2011, os pais e alunos e professores do ensino público deviam agradecer o muito que já têm e não andarem a fazer birrinhas.
Mesmo vindo isto do tavares, temos alguma dificuldade em acreditar. Mas é mesmo esta lógica que ele desenvolve, o que permite conclusões na mesma linha de raciocínio do género: no meu tempo os professores batiam nos alunos e agora estes queixam-se quando apanham um simples bofetão ou outros delírios do género, no meu tempo comíamos uma sardinha assada a dividir por três e agora queixam-se de que a carne de vaca da cantina é má, etc, etc. Em suma: inacreditável! E o Expresso acha isto normal? E paga-lhe?
O tavares conclui com chave de lata o seu miserável escrito, recomendando aos alunos que se «há uma escola onde falta o aquecimento e chove em alguns lugares» (sic) a solução é que os meninos se «agasalhem e levem guarda-chuvas». Guarda chuvas acho que deviam levar, sim. Para quando o tavares passar um dia nessa escola. Se forem dos bons, daqueles resistentes como no meu tempo, os guarda-chuvas ainda podem ser muito úteis. Ah pois podem...
O Benfica ganhou ao Fóculporto por 2 a 0. Aconteceu no Ladrão. A análise do Jogo
Foi um grande jogo de futebol, como se costuma dizer, aquele a que anteontem se assistiu no Ladrão, entre o Porto e o Benfica. Mas o desfecho, se bem que inesperado para muitos, não foi surpresa para mim. Desde há algum tempo que venho dizendo: não ponde o Cardoso a jogar naquela posição, pelo miolo do terreno!
Isto porque, convém dizer, sempre fui apologista da táctica 1x3x3x4, com um médio recuado e lateralizações pelos flancos, a fazer a dobra. Da forma a que ontem se assistiu, nunca! O único que esteve bem foi o Sidnei, a fazer lembrar o Humberto Coelho, com os seus passes milimétricos para o Luisão, num esforço assinalável de sinergias a que se associou o Xavo, esse poço de garra, sempre na dobra.
O Salvio, por sua vez, parecia perdido nas dobras, sem uma clara linha condutora, afunilando o jogo pelos flancos, a fazer lembrar o Humberto Coelho. Valeu-lhe o Maxi esse poço de força, a fazer as dobras, a meter o pé nos flancos, sem se amedrontar com o Fernando que não o largava, no homem a homem. Esteve também muito bem o Gaitan esse dinamo, esse animal de área, como costuma dizer-se, a fazer lembrar o Humberto Coelho, imbatível no um para um (-----»«-----), sempre na dobra, ali, no miolo, a lateralizar para a grande área. Um autêntico perigo para o sector médio defensivo contrário.
E o saviola, esse bambino d’oro, esse animal do miolo? Ó meus caros, é o que eu sempre tenho dito: ponde-o no ataque, que ele dá conta do recado! Meu dito, meu feito! A gizar jogadas, daquela forma, nem o Helton o segura. Foi o melhor em campo. Pecará, talvez, por algum individualismo, mas mesmo essa sua faceta é compensada pela sua entrega ao jogo, pela sua alegria de viver. Em suma, esteve eficaz, e aquele seu pé esquerdo fez estragos na defesa contrária, a fazer lembrar o Humberto Coelho.
Os tripeiros chegaram mesmo a andar de cabeça perdida, e foi muito feio, muito feio mesmo, aquela atitude do Rolando, que só o árbitro não viu. Não viu muita coisa, diga-se de passagem… Uma palavrinha sobre o árbitro: árbitros desta categoria dignificam o espectáculo. Ali, sempre na dobra, sempre a lateralizar pelos flancos, foi um dos homens do jogo. Nota 10, portanto, a fazer lembrar o Humberto Coelho.
Uma última palavra para o Júlio César, esse poço de força e de alegria. Mas aquela posição não é claramente a dele, e isso foi patente ao longo de todo o encontro. Não se percebe que o Benfica vá buscar um jogador destes, e o desaproveite daquela forma. Sente-se que joga de forma triste, sem garra, e não ajudam atitudes como aquela que o Rolando teve para com ele. Foi triste, uma mancha negra na sua carreira. Mas é jovem, e tem tempo para arrepiar caminho.
O Treinador do Benfica, o Jesus, tem um longo trabalho de balneário pela frente… E vou eleger agora a melhor jogada de todo o encontro: aos 35 minutos, o Luisão conduz a bola. De repente, vê o cardoso e lateraliza pelos flancos, corre trinta metros e passa ao saviola Este por sua vez, corre pela esquerda, em sinergia com o gaitan, e passa a bola ao peixoto num passe milimétrico de trinta metros, que o árbrito deixa passar, e muito bem, numa boa leitura do jogo. Infelizmente, não havia ninguém a fazer a dobra e a bola perdeu-se pelos fundos.
Quanto ao Fóculporto, não há muito a dizer. Dignificou o espectáculo e foi um justo venceido embora tivesse sido triste aquela atitude do Maicon. Atitudes como aquela ficam-lhe mal e não contribuem para a dignificação do espectáculo. Bom, finalizando, o resultado podia ter sido outro, se o desfecho tivesse sido diferente, mas a vida é como é, sempre na dobra, sempre pelos flancos, a fazer lembrar o Humberto Coelho.
O ex presidente Sampaio foi testemunhar a favor da honorabilidade e respeitabilidade do camarada zé penedos a contas com a Justiça como arguido no processo Face Oculta.
Sampaio põe as mãos no fogo por Penedos, um modelo de honestidade e incorruptibilidade, segundo a personagem que se destacou na presidência por condecorar tudo o que mexia. E, para mostrar, como penedos é à prova de suspeita, Sampaio deu o seu próprio exemplo: também ele, Sampaio, enquanto presidente da República, recebeu milhares de prendas e muitas valiosas que davam para encher duas salas!
E o sr Sampaio acha isto natural! Eu não, mas enfim... Sampaio engrossa assim a lista de bons exemplos xuxas nesta matéria: há uns meses atrás a comunicação social publicou a lista de ofertados do sucateiro Godinho e lá vinha a rapaziada do costume ... Jorge Coelho chegou mesmo a declarar alto e bom som e sem estremecer que só canetas de dupont oferecidas, tinha lá em casa mais de 200! Tudo normal, a honorabilidade de Penedos está então atestada em tão boas companhias, é o que argumenta Sampaio!
Nem vale a pena comentar esta reinação, faço minhas as palavras deste post, está lá tudo o que devia ser dito para que esta gentinha corasse de vergonha - se a tivesse,claro: http://31daarmada.blogs.sapo.pt/4766790.html
Portugal está em decomposição acelerada. O ingenheiro e os seus xuxas são os principais responsáveis pelo estado de lamaçal a que chegámos. Mas mesmo assim ainda existe uma curiosa espécie de português que, não podendo negar a evidência, isto é, a deplorável qualidade dos governantes xuxas, ainda atira para o ar com um deprimente: «pois é, estes são maus, mas os outros são iguais». Ora, para lá do intolerável amorfismo desta posição, autêntica palavra de ordem da inacção vegetal, acontece que isto, pura e simplesmente, não é verdade.O que é é certo, sim, é que «os outros», por muito maus que sejam ( e alguns são!) não são, nem de perto nem de longe, tão maus como estes!
Um exemplo, só mais um entre muitos: por piores que fossem, os antigos ministros e secretários de estado dos governos anteriores ao socas sempre conservaram a noção de que havia limites que, uma vez, reconhecidos publicamente deviam corresponder a demissões. Havia na democracia portuguesa ante-socretina uma espécie de consciência colectiva implícita das regras do jogo: responsável político de cargo relevante apanhado em falta demitia-se! Com zé socas perdeu-se este decoro mínimo. O que não é de estranhar uma vez que, se isto fosse levado a sério, o primeiro a ter que se demitir seria, obviamente, o ingenheiro das mil trapalhadas.
Agora vivemos mais um capítulo desta inconsciência larvar: um número desconhecido, mas elevado, de cidadãos portugueses foi impedido de exercer o seu direito de voto por falhas imputáveis directamente ao governo, mais precisamente ao Ministério de Administração Interna e ninguém, muito menos o ministro Rui Pereira, se demite! Parece que se vai abrir um inquérito e que se pede desculpas aos portugueses... O tanas! As desculpas são inaceitáveis, há é que assumir a responsabilidade desta vergonha.
Num país a sério o ministro rui pereira vinha à televisão na própria noite de eleições e demitia-se na hora. Por decoro, por decência, por vergonha. Num país de fancaria governado por zé socas e sus muchachos abre-se um inquérito, pede-se umas desculpas hipócritas, justifica-se a coisa com falhas técnicas (tanto choque tecnológico, tanto magalhães mais o raio que os parta a todos e, afinal estamos pior que no tempo da esferográfica) e adiante, siga o baile. E ainda dizem que os outros são iguais - tenham lá paciência mas não são! Por muito maus que sejam, esta impunidade nunca se tinha visto na história da democracia portuguesa. E, obviamente, este não é o primeiro caso: é só o último de uma longa história de inconsciência cívica.