25/04/11

A Literatura de Sanita Enquanto Género Literário, por Fontes

A literatura de sanita é um género literário injustamente esquecido. Numa época em que todos se queixam de não terem tempo para ler, o momento da sanita, se bem aproveitado, ajuda a resolver o problema. E com a vantagem acrescida de se aprender verdadeiramente alguma coisa. Sim, porque ele há gente que lê na casa de banho, mas o quê? Miseráveis revistas cor de rosa ou inúteis jornais desportivos. Ou seja: tempo perdido! No entanto, o tempo passado na sanita pode tornar-se muito enriquecedor, falando do ponto de vista estritamente cultural, claro.

O R. por exemplo... Trata-se de um indivíduo muito ocupado, realmente ocupado, não é como muitos totós que eu conheço que perdem mais tempo na declaração da sua ocupação do que na ocupação propriamente dita. O R. não - é genuinamente ocupado. E, no entanto, é das pessoas que conheço que mais lê. Um dia destes dizia ele quando alguém lhe fez a inevitável pergunta, «mas onde arranjas tu tempo para ler tanto? Na casa de banho, na sanita, pá!» . O R. é assim, viaja sem sair da sanita com o Bruce Chatwin até à Patagónia, mergulha nas profundezas do tempo com o Gore Vidal até à Babilónia do século V a.c. e percorre as ruas de Berlim contemporâneo com um mapa de estradas sem nunca lá ter posto os pés. A sanita é, para gajos ocupados como o R. uma verdadeira máquina do tempo e do espaço.

Pois bem, recentemente resolvi seguir o conselho do R., comecei a levar literatura à séria para o WC e a coisa resultou – deixei de ter a consciência cultural pesada pelo tempo que perdia na sanita a ler A Bola ou simplesmente a não ler nada e a pensar na morte da bezerra. Foi assim que passei a apostar na leitura de sanita.

A minha primeira descoberta foi que nem todos os livros, nem todos os géneros literários, se podem ler no WC. O romance, por exemplo, é completamente inadequado. A literatura de sanita é feita em períodos curtos de, no máximo, cinco minutos. Isto torna praticamente impossível a leitura de um romance porque perde-se o fio à meada. Mesmo em períodos de desarranjo intestinal grave não se vai à sanita mais que uma vez, duas por dia. A regra é a falta de ritmo e a escassez de tempo e não há romance que resista a tanta irregularidade. Pessoalmente também não aconselho a História pelas mesmas razões e desaconselho vivamente a poesia que exije ar livre, espaço e, de preferência, natureza em estado puro. O ambiente WC não se coaduna com os voos poéticos.

Depois de muito tentar, descobri enfim, um género literário que se coaduna perfeitamente com a literatura de sanita: a História da Arte. A maioria das histórias da arte estão organizadas por capítulos correspondentes a épocas ou estilos que, por sua vez, estão subdivididas em artistas ou escolas mais importantes. Ora isto permite que não se perca o fio à meada: em duas, três incursões sanitárias aprende-se uma unidade de sentido sobre um autor, uma obra ou uma escola. Muito diferente das unidades longas e sofisticadas, próprias do romance ou da história universal. Além disso, o formato História da Arte tem ainda uma vantagem clara relativamente a outros géneros: as imagens, que tornam a leitura muito mais relaxante. É essa, de resto, a vantagem da História da arte relativamente ao conto, por exemplo. Não me passaria pela cabeça ler o Miguel Torga no WC. Mas as Vénus do Botticcelli e do Giorgione, as Madonnas do Rafael, as batalhas do Altdorfer ou o expressionismo do Pollock podem ser descobertas com a tranquilidade que só o WC permite e, portanto, vistas segundo novas perspectivas.

É por isso que eu acho que a História da arte, sem qualquer desprimor, é o género literário de sanita por excelência. Desde que o descobri que acabei com as Bolas e os Records na casa de banho. Agora está lá sempre uma História da Arte – demoram tempo a ler mas vale a pena. Passei a ter tempo de qualidade no WC e já reli A História da Arte do Gombrich – um dos maiores clássicos do género – e estou a acabar Os Segredos das Obras Primas da Pintura, volume I de Rainer e Rose-Marie Hagen, editado pela Taschen. O único problema é que agora, quando alguma visita cá de casa passa pelo meu WC, depois, fica sempre a olhar para mim com um ar esquisito. Já uma vez me confessaram que é muito estranho que, em vez das habituais Caras, Luxes ou TVês Sete Dias, só esteja à disposição do utilizador um calhamaço da ordem de grandeza de uma História da Arte. Fónix, é muito à frente…

21/04/11

Ó Sócio, por Ingenheiro

Eu até nem gosto de licores e acho que nunca provei o Beirão. Mas esta campanha com o Futre é simplesmente magistral. Apesar de ter vivido uma boa parte da sua vida em Espanha, Paulo Futre é o protótipo da inteligência tuga mais ou menos hilariante, desavergonhada e desenrascada quando a coisa não dá pró torto e tem o FMI de nos vir socorrer. E gosto do fundo porsche amarelo do anúncio, um clássico da mitologia futreana. Vai vir charters pó licor Beirão!

13/04/11

Eça de Queirós Ressuscitou e Está de Novo em Portugal?, por Excitador

«Mas a náusea suprema, meu amigo, vem da politiquice e dos politiquetes. F. nutria pelos políticos todos os horrores, os mais injustificados: horror intelectual, julgando-os incultos, broncos, inaptos completamente para criar ou compreender ideias; horror mundano, pressupondo-os reles, de maneiras crassas, impróprias para se misturar a natureza do gosto; horror físico, imaginando que nunca se lavavam, raíssimamente mudavam de meias e que deles provinha esse cheiro morno e mole, que tanto surpreende e enoja em S. Bento aos que dele não têm o hábito profissional.

Havia nestas ferozes opiniões, certamente, laivos de perfeita verdade. Mas em geral, os juízos dde F. sobre a política ofereciam o cunho de um preconceito que dogamtiza - e não de uma observação que discrimina. Assim lho afirmava eu uma manhã no Bragança, mostrando que todas essas deficiências de espírito, de cultura, de maneiras, de gosto, de finura, tão acerbamente notadas por ele nos políticos - se explicam suficientemente pela precipitada democratização da nossa sociedade; pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influências abomináveis da Universidade; e ainda por íntimas razões que são, no fundo, honrosas para esses desgraçados políticos, votados por um lado vingador à destruição da nossa terra.

F. replicou simplesmente:
- Se um rato morto me disser - «eu cheiro mal por isto e por aquilo e sobretudo porque apodreci» - eu nem por isso deixo de o mandar varrer do meu quarto».

Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes

08/04/11

«Ó Luís, vê lá comé que fica», por Armani




Podem vê-lo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=NVC3ASR2ktQ


Pode parecer uma minudência sem significado a algumas mentes mais desatentas. Mas não é! Este vídeo é uma marca fiel da mentalidade de um primeiro ministro, sempre preocupado com a imagem, obcecado com o «eu», com o parecer bem. Este indivíduo chegou a apresentar como argumento para evitar a entrada do FMI em Portugal que «era uma perda de prestígio»(para ele, claro)! Que interessa se o país vai ao fundo? O que importa é que o artista fique bem na fotografia quando o anuncia.

Pequenos sinais, como o presente, não são só o bilhete de identidade fiel de um indivíduo que chegou ao poder apesar da sua impreparação cívica, ética e democrática. Este vídeo é também um fiel retrato dos nabos que o levaram até onde ele chegou. Dos nabos para quem este sujeito fala e que estão sempre disponíveis a ser convencidos que o homem é uma vítima - da oposição, dos mercados, das campanhas negras, dos juízes, dos bancários, dos comunistas, dos sindicalistas, dos jornalistas, das corporações, do desastre de fukushima, da peste bubónica, do naufrágio do titanic, em suma, de tudo e de todos menos da sua irresponsabilidade colossal.

Este vídeo já é um clássico e os seus poucos segundos valem anos de discursos sobre a natureza da personagem. Na hora de anunciar o funeral, a preocupação do coveiro é se fica bem na fotografia: «Ó Luís, será que a cor desta gravata combina com a do caixão?»

04/04/11

De Volta às Férias Grandes no Começo da Primavera, por Tructesindo

Ainda se chamavam «as férias grandes»... Foi numas férias grandes, não sei exactamente quais, que eu descobri o grande Eça de Queirós! Essas férias, já lá vai tempo, passei-as a ler tudo o que dele me chegou às mãos. Li de enfiada Os Maias, o Mandarim, O Crime do Padre Amaro, o Primo Basílio, A Cidade e as Serras, os Contos, as Prosas, enfim, literalmente, tudo o que apanhei.

Eça sobrevivera até ao Liceu pois era certo e sabido que autor dado nos bancos da escola tornava-se, não só para mim, inimigo mortal. Ainda hoje me interrogo sobre a inteligência do critério que decide que miúdos de 15-16 anos comecem a ler Eça de Queirós pela sua obra mais complexa, Os Maias. Não faria mais sentido começar com algo mais acessível aos putos? O Mandarim, por exemplo, seria uma excelente introdução e poderia servir de porta de entrada para a restante obra. Assim com Os Maias logo a abrir, a maioria dos miúdos cria logo uma aversão insanável. Foi o que se passou comigo, mas felizmente a minha professora de Português do 11º ano era simplesmente FABULOSA (chamava-se Lívia Múrias) e alguma coisa me ficou do Eça e do gosto pela literatura porque nessas férias grandes, devorei a obra toda que apanhei do grande escritor português.

Mas felizmente não li todo o Eça, sobraram-me alguns - A Relíquia que li à coisa de dois meses; e A Ilustre Casa de Ramires que acabei ontem! A sensação é incrível, não quero falar de mais que isso, da sensação, do gozo literário que há em ler Eça. Não quero fazer um post de análise literária para a qual me faltaria talento. Venho aqui apenas dar conta da sensação fabulosa que é re-descobrir a magia de Eça de Queirós.

Não conheço mais nenhum escritor com aquele subtil sentido de humor, não vejo ninguém que melhor domine a língua portuguesa, não conheço muitos mais escritores que me transportem literalmente para outros tempos, outros espaços e outros costumes sem sequer sair de casa. Os livros de Eça são a invenção humana mais parecida com a máquina de tele transporte do Star Treck! E, acima de tudo, foi um prazer voltar a ter contacto com aquilo que a crítica rotula de «ironia» mas que é muito mais que isso. O texto de Eça vive sempre, pelo menos, em dois planos - um visível e expresso e outro inaudito que eu não descortino como é que lá está mas está. Eça diz mais nesta dimensão inaudita do seu texto no que no texto propriamente dito. É como se as personagens estivessem realmente ali à nossa frente, como se as pudéssemos ver e perceber que estão a mentir ou a dizer o contrário do que querem ou a sublimar ou a racionalizar... Mas o mais incrível é que Eça faz isto de forma tão indelével, jogando nas entre-linhas, que eu nem percebo como é que apanho essa outra camada do seu texto. Mas apanho porque ela está lá graças ao imenso talento do seu criador. Nesta misteriosa tessitura do não dito está muito do interesse de Eça e da sua contemporaneidade. Ele é quase psicanalítico.

Quem é o melhor escritor português de todos os tempos? Não sei e esta pergunta, possivelmente, nem tem resposta. Mas martela-me a cabeça quando leio Eça. Eu já quase a tinha esquecido e agora ela voltou. Felizmente ainda me faltavam A Relíquia e a Ilustre Casa de Ramires para eu voltar de novo àquelas férias grandes do meu liceu. Já imaginaram o que era se nunca tivessem lido Eça e se agora, assim de repente, começassem a ler os seus romances? Ou, ao menos, dois ou três deles? Não seria um assombro absoluto? A boa notícia é que ainda me sobra O Conde de Abranhos que também me escapou à voracidade literária daquelas férias de verão. Felizmente...

01/04/11

Como Identificar um Xuxa? - parte II, por R. Attenborough

No post anterior procurei identificar as espécies mais óbvias de xuxas: os dinossauros e os «animais ferozes» que são do género assumido. Mas se esses são fáceis de identificar o problema é quando se trata de reconhecer as espécies reptilianas e insectóides de xuxas: os não assumidos. Esses confundem-se com a paisagem, fogem à discussão e procuram passar discretos e silenciosos. Mas têm algumas características inconfundíveis. É esta espécie particular de xuxa que dá cabo deste país. Aprendam a identificá-los. Há alguns sinais que nunca mentem.

1. Um xuxa deste tipo nunca defende o ps nem o socas. Ele tem como pressuposta a ininputabilidade do ps e do socas. No fundo o xuxa camaleónico reconhece que toda a bordoada que o seu líder coreano e o partido levaram nos últimos anos é mais que merecida. Mas em vez de dar o passo lógico que se impõe - que os xuxas não prestam e devem ser varridos do mapa partidário! - limita-se a perguntar e aqui está o segundo traço que nunca falha:

2. «Pois, estes são maus. Mas e os outros?».
Notaram? Pois é, ao mesmo tempo que parte do princípio da ininputabilidade dos xuxas – como se eles fossem uma rapaziada travessa a quem nunca se podem assacar responsabilidades – «os outros» arcam com a responsabilidade toda, mesmo daquilo a que são completamente alheios. E responde o xuxa-insecto automaticamente:

3. «Os outros ainda são piores».
Não interessa quem são os outros nem se nunca governaram ou se não governam há seis anos. O xuxa simplesmente pressupõe que por necessidade metafísica «os outros» têm que ser piores que os seus. É uma fé…

4. Esta versão pode assumir a variante moderada que é «Para mim são todos iguais». Não são. Nunca são. Um gajo que diz isto, regra geral, vota xuxa. É um dos tais que que passa o ano inteiro a negar ter votado xuxa, mas que, é certo e sabido, na hora da verdade lá faz a cruz na desgraça do ingenheiro.

5. Outra marca ideológica inconfundível é o famigerado «mas eles até fizeram coisas positivas»…
É verdade que é praticamente impossível que em 6 anos de pesadelo governativo xuxa nada haja de positivo, mas isto é tomar a árvore pela floresta, o acidental pelo essencial, a excepção pela norma. Os xuxas fizeram alguma coisa de positivo pelo país? Bem, assim a primeira estou a ver, huuuuuuummm, sei lá, olha a lei anti tabaco, tá bem feita... Mas ao pé da imensidão galáctica de asneiras e vergonhas que eles deixam, o pouco que fizeram é objectivamente ridículo.

6. Outra: um xuxa destes que se arrastam de bruços pela poeira da savana, também acha que «a culpa foi da crise internacional que foi a pior dos últimos 100 anos». Isto é não perceber nada de história do século XX nem querer ver que, de todos os países que enfrentam a crise, nós - juntamente com a Grécia (que falseou as contas) e a Irlanda (cujo sistema bancário estava tramado) - estamos na cauda da cauda europeia e mundial.
E foi «a pior dos últimos 100 anos» como? É de rir. Recordo só que nos últimos 100 anos tivemos a primeira guerra mundial, o crash da bolsa nos anos 30, a crise da alemanha, a segunda guerra mundial, o flagelo da europa destruída no pós segunda guerra que levou ao plano marshall, a crise do petróleo dos anos 70 e, no caso português, a guerra colonial, a descolonização portuguesa feita como foi, a entrada dos retornados, o fmi que já cá esteve antes, etc, etc, etc. Saímos de todas e nunca atingimos os actuais níveis de endividamento, de desemprego, de despesa pública, de corrupção… A última vez que foi declarada a bancarrota em Portugal foi ainda no século XIX. Agora estamos lá perto! Mas o sr ingenheiro e os asnos que lhe dão ouvidos acham que esta crise de agora é que é a pior. É completamente delirante!

Em suma, o xuxa-ratazana deste tipo já nem procura defender os seus porque os sabe indefensáveis. Mas sabendo-os péssimos, limita-se a pressupor que os outros são ainda piores. É como se os adversários tivessem que justificar a sua excelência absoluta por contraponto ao minimalismo xuxa.
Depois de anos e anos a reclamar-se de baluarte do socialismo democrático em Portugal, eis ao que se reduziu o argumentário corrente do xuxa nos começos do século XXI: «os outros ainda são piores! E a culpa é da crise externa. E porque não olham para as coisas positivas que «eles» fizeram?». Convenhamos que é pobre. Miserável mesmo. Mas cuidado, muito cuidadinho, eles andam aí...

27/03/11

Como Identificar um Xuxa?, por R. Attenborough

Do ponto de vista da identificação das espécies partidárias vive-se em Portugal um período muito difícil - há uma enorme dificuldade em identificar claramente um xuxa! O problema não é de agora, já dura há uns anos. Já nas últimas e nas penúltimas eleições legislativas, os eleitores xuxas andavam escondidos, tímidos, silenciosos.Um tipo perguntava aos suspeitos se tinham votado neles e nada, nunca encontrei ninguém que tivesse reconhecido ter votado nos gajos. Parece que ninguém lhes deu as últimas maiorias parlamentares. Terão sido os espanhóis que nos terão invadido em massa para votar neles cumprindo, mediante este expediente, o desejo histórico que sempre tiveram de nos arruinar, cheguei a perguntar-me?

Identificar um xuxa é mesmo muito difícil e apenas está ao alcance de experimentados especialistas. Requer anos e anos de exploração no terreno e muita leitura, um pouco como o trabalho daquela malta do National Geographic que vai às florestas mais incríveis e consegue detectar espécies mirabolantes de sardaniscas, aranhas e batráquios que passam despercebidas à maioria da malta.

Faço aqui uma ressalva: quando digo que é difícil para um olho menos treinado identificar um xuxa, não me refiro, evidentemente, aos espécimes mais empedernidos, particularmente notórios. Quem não reconhece um dinossauro xuxa? Trata-se de um espécime ancião, geralmente ex-presidente (da república ou de outra vetusta instituição nacional) e é facilmente reconhecível pela pose de «pai da nação» e pela tropa de familiares e amigos que, directa ou indirectamente, vai nomeando para cargos públicos bem remunerados. Um dinossauro xuxa é uma espécie de carpa da política portuguesa.

Também não me refiro ao xuxa fanático da linha dura, tipo «animal feroz», virulento, enganador e trauliteiro, ao melhor estilo silva pereira, santos silva ou, em versão indigente, estilo zé lello e vitalino canas. Estes espécimes são perigosos, mas a sua identificação também não é complicada. Nunca reconhecem um erro e fazem sempre fuga em frente como estratégia.

O que é difícil mesmo de identificar é o xuxa-eleitor-típico porque esse raramente se assume. Nunca vimos um destes espécimes a defender aberta e directamente o líder. Jamais ousam justificá-lo a propósito dos muitos casos duvidosos que todos sabemos. Nem sequer são capazes de defender as políticas nem as medidas dos governos xuxas. Se o voto não fosse secreto era fácil dar com estes camaleões que se confundem com a paisagem - mas não é e, por isso, sabemos que eles existem em abundância apenas quando contamos os votos. São como os insectos, pequenos, numerosos e silenciosos mas com uma facilidade espantosa de se adaptarem ao ambiente. Então como podemos identificá-los? Deixo aqui a pergunta. A caixa de comments está aberta a todos os contributos para este verdadeiro serviço público. No próximo post resumo aqui algumas dicas que permitirão a qualquer leigo menos experimentado identificar sem falhas um xuxa desta espécie camaleónica só aparentemente tímida.

22/03/11

Haja memória..., por Bad


Hoje resolvi fazer um exercício. Ao ler, no Jornal de Negócios, que a Espanha está a recuperar da crise (ao mesmo tempo que Portugal caminha para a insolvência) muito graças às seguintes medidas:

1) Governantes viram salários reduzidos em 15%.
2) Reestruturação do sistema financeira.
3) Redução dos investimentos públicos.
4) Corte de 5% nos salários da função pública em Maio (ao passo que, em Portugal a medida só foi anunciada em Outubro).

Ora estes dois últimos pontos criaram-me a necessidade de fazer um exercício de memória: ir rever o debate entre José Sócrates (JS) e Manuela Ferreira Leite (MFL).

Por um lado, eu tinha ideia de uns investimentos públicos defendidos por JS e combatidos por MFL. Por outro, achava MFL dizia que Portugal estava numa situação política bastante grave e que, por isso, era necessário mudar os caminhos que JS estava a seguir. E mais, lembrava-me de ouvir JS a dizer que MFL apostava no pessimismo e o que interessava ao país era o optimismo e a confiança no futuro para se sair da crise (um argumento tão incrível que nunca mais me saiu da cabeça). Resolvi ir confirmar se tudo isto era verdade...

Frases a reter:
MFL:

“Modelo económico tem de ser alterado, porque se não o for os resultados vão ser os que têm sido com o modelo que tem sido seguido”

“Fico sempre muito preocupada quando ouço o Eng. José Sócrates dizer que não vai mudar de politica, que não vai mudar de rumo…”

“Em primeiro lugar combateu-a [a crise] tarde. Se tivesse combatido quando eu anunciei que isso ia acontecer, se tivesse seguido os nossos conselhos e as sugestões, provavelmente o país hoje não estaria da mesma forma.


JS:
Sócrates:

“Respondemos com mais investimento público: e é disso que o país precisa.”

“O que o país precisa é de uma atitude de confiança no futuro.”


Realço um diálogo interessante:
JS: Porque é que no governo defendeu a questão da alta velocidade e agora não a defende?

MFL: Exactamente o ponto em que o Eng. Sócrates falha na sua análise é considerar e não admitir que política é exactamente isso que o senhor não está a fazer. É que não pode passar de uma situação A para uma situação B completamente diferente e achar que as medidas são as mesmas e que as hipóteses são as mesmas. (…)

JS: Mas porque é que em 2003 concordava e agora não?

MFL: Porque em 2003 a situação do país não era a de hoje. O Sr. Eng. não está a ver qual é a situação de endividamento do país?

JS: Por amor de Deus… por amor de Deus…

MFL: A situação de endividamento do país HOJE é insustentável para isso. (…) O motivo pelo qual a Espanha tem tanto interesse em fazer esta linha para Portugal tem a ver com o facto de que precisa que o comboio passe a fronteira para ter a categoria de transporte transfronteiriço e aí ter mais fundos comunitários do que os que terá se ele não passar a fronteira. Eu não estou aqui para defender os interesses espanhóis. Estou aqui para defender os interesses portugueses.


E depois destes esclarecimentos (quanto a mim, lógicos - em conjunturas diferentes há que adoptar posturas diferentes), eis que JS conclui o óbvio...
JS: (…) O que eu naõ aceito é que no governo tenha afirmado em nome do meu país com outro país uma prioridade [o TGV] e que agora, apenas porque foi para a oposição, diga o contrário do que disse no governo. Isso desculpe, mas eu não posso aceitar.

Digo eu: perante a explicação de MFL concluir isto... se não é má fé vou ali e já venho.


Mas há mais:
JS:

Houve uma altura em que nós precisámos de pedir um esforço aos portugueses para por as contas públicas em ordem, mas os portugueses também sabem que nós conseguimos atingir o nosso objectivo, que tivemos o défice menor da democracia portuguesa e que estamos agora preparados para responder aos desafios da crise internacional.

21/03/11

Fracos Com Os Fortes, por John Deere

Já lá vai uma semana que o governo da república veio anunciar,muito contente e orgulhoso,que chegara a acordo com as associações de camionagem que ameaçavam parar o país. Os camionistas, ou melhor, os seus patrões que a greve era dos empresários e não dos trabalhadores, voltaram a pegar ao serviço e tudo acabou em bem. Ainda estava na memória de todos a anterior paralização no sector que, praticamente, meteu o país em estado de sítio. O governo respirou de alívio com o acordo, a comunicação social noticiou a feliz novidade e os comentadores de serviço concentraram-se noutras questões mais candentes. Durante uma semana esperei que alguém fizesse a pergunta óbvia: mas é justo este acordo? A cedência do governo às reivindicações das empresas de camionagem é um acto de justiça devida e equânime? Ou uma cedência do governo a um poder real e efectivo? Como ninguém se lembrou de fazer estas singelas perguntas eu trago-as aqui e respondo.

O governo cedeu. As empresas de camionagem passam a contar com descontos importantes nas scuts e nas portagens das auto-estradas e beneficiam de mais uma série de benefícios fiscais. Até posso achar que, em face da actividade de rapinagem das gasolineiras que a todos afecta, estas medidas sejam justas. Mas porquê só para as empresas de camionagem? Porque é que outras empresas ou até empresários individuais que necessitam igualmente de se deslocar de carro nas mesmas estradas não gozam dos mesmíssimos benefícios que o governo atribui às empresas de camionagem? Se eu for dono de um camião usufruo dessas vantagens, mas se for um padeiro, um carpinteiro, um advogado, um empresário de outra área qualquer, não tenho essas benesses. Isto faz sentido?


Não teve nada a ver com justiça, esta cedência governo. É fácil de perceber que o governo mais uma vez comportou-se de acordo com um padrão. Foi fraco com os fortes, como sempre ( assim como continua a ser forte com os fracos). A única e exclusiva razão para estas cedências nada tem a ver com justiça, mas com o medo. Se a gente xuxa percebe que lida com alguém que tem poder afectivo - como é o caso - cede. E quando não reconhece ao seu interlocutor esse poder, não cede e enche a boca com a firmeza e tretas que tais. Mas, de facto, a única linguagem que esta gente entende é esta: a da eficácia do poder. Tanto faz que milhares de trabalhadores se manifestem nas ruas todos os dias, que utentes do sitema de saúde se revoltem, que a geração a rasca desça à rua indignada ou que pais, alunos e professores reclamem do ataque à escola pública. nenhum deles tem - ou não sabe que tem - o poder de parar o país como as empresas de camionagem quando resolvem parar. E é isso e apenas isso que os xuxas entendem. E ficámos todos muito contentes porque o país, afinal, não parou...

16/03/11

Arroz e Lampreia e Outras Coisas Que Justificam Viagens no Nosso Portugal, por Interlúdio Publicitário


1 a 10 de Abril - Festival do Arroz e da Lampreia - Montemor-o-Velho (mais informação)

17 de Março a 3 de Abril: Festival Internacional de Chocolate em Óbidos ( mais informação )

19 e 20 de Março: XX Feira do Queijo em Oliveira do Hospital ( mais informação )

25 a 27 de Março: VI Festival a Pão e Laranjas na Vidigueira ( mais informação )

25 a 27 de Março: Jornadas Gastronómicas Sabores do Porco Alentejano e Feira do Porco Alentejano 2011 em Ourique ( mais informação )

26 e 27 de Março: Fim de Semana de Sarrabulho em Ponte de Lima ( mais informação )

1 a 4 de Abril: Fim-de-Semana do Arroz de Bucho e dos Negalhos em Vila Nova de Poiares ( mais informação )

15/03/11

36 mortes, por Hitchcockianista


"In films murders are always very clean. I show how difficult it is and what a messy thing it is to kill a man", Alfred Hitchcock

13/03/11

A Luta Continua, por Camarada Barreirinhas

Num blog assumidamente anti xuxa e anti socas, como é o Tapor, o dia de hoje não podia deixar de ser assinalado. Fomos dos primeiros a declarar a nudez do rei quando ele ainda vencia eleições com maiorias absolutas. Tudo o que de socas e dos xuxas se diz agora, tudo o que é ponto assente para quem consegue ter um mínimo de imparcialidade sobre a tenebrosa rede que nos desgoverna, foi anunciado pelo Tapor, praticamente desde que existe. Os ratos abandonam o navio, apoiantes de sempre do ingenheiro e dos xuxas apressam-se a desmarcar-se. Nós cá estamos, como sempre, a dizer o que sempre foi óbvio.

O dia de hoje é particularmente importante porque das manifs que decorreram em todo o país, é claro que a o povo, e não só a geração à rasca, já não suporta os xuxas. Foram 200 mil em Lisboa,80 mil no Porto, foram milhares noutras cidades do país. E foi pena que nalgumas delas, gente que passa o tempo a perorar contra os xuxas tenha preferido ver as manifs na TV. Teríamos sido mais ainda...

Hoje vi slogans sintomáticos como aquele que dizia «socas faz um favor ao país e entra em contra mão na A1», vi políticos como a joana amaral dias a quererem discursar na manif de Lisboa a a malta a mandá-la calar porque não queria políticos a falar, vi os Homens da Luta em grande a puxarem pelo pessoal e, sobretudo, vi milhares e milhares no Porto e em Lisboa. Reunir tanta gente depois da contra-propaganda da comunicação social do regime foi obra - ainda na sexta feira ouvi na antena 1 eduarda maio, a autora do best seller O Menino de Ouro, biografia oficial de zé socas, a atacar durante meia hora um dos promotores das manifs. Nunca tinha visto uma coisa assim, com a referida autora da grande peça biográfica citada, a dedicar todo o santo tempo da «entrevista» a tentar provar que as manifs são manipuladas. Curiosamente esta é a mesma senhora que me enjoa pela subserviência com que trata as figuras do regime.

Mas a malta, desta vez, pela primeira vez?, aguentou tudo e lá apareceu nas manifs. Não entendo como é que o governo nem assim se demite. Façam um exercício singelo - metam-se nas cabeças do socas, do santos silva, do silva pereira, da alçada, do teixeira, daquela gentinha toda... Conseguiam dormir descansados esta e as próximas noites? Não coravam de vergonha quando se vissem no espelho? Ao menos Guterres teve a hombridade de se ir embora. Estes, pelo contrário, só irão quando forem corridos. Felizmente esse dia está próximo - socas e os seus xuxas estão mortos e enterrados. E foi isso que hoje lhes dissemos.

10/03/11

Sinais dos Tempos, por Reco Reco

Toda a gente que mora em Coimbra conhece este coreto. Fica no parque da cidade. Hoje passei por lá e fiquei impressionado não tanto com o coreto do parque Manuel Braga, mas com uma volumosa e, presumo, dispendiosa placa que lá está ao lado. Em vez de indicar o autor e a data do coreto, como seria natural, a placa comemora a excelsa data em que o coreto do parque foi «restaurado». O coreto foi pintado e, possivelmente, levou mais uns retoques ligeiros. E lá fizeram, ao lado, uma placa para assinalar a efeméride: «este monumento foi restaurado em dois mil e troca o passo por sua excelência, o presidente da câmara municipal de coimbra, dr. carlos tal e tal e tal encarnação e pelo administrador de já não sei quê, eng. paulo fulano sicrano de beltrano e não sei quê canha» mais coisa menos coisa!

O coreto do parque é uma marca de uma época: uma obra da arquitectura do ferro em voga no princípio do século xx e bem representada em Portugal por outros felizes exemplos. Mas a placa comemorativa da inauguração do coreto é a marca do nosso tempo bacoco, ridículo e pequenino.

Para que conste, o Tapornumporco repõe aqui o que lá não está: que o coreto do parque Manuel Braga é uma peça de 1934 assinada pelo arquitecto Silva Pinto. A foto foi tirada em 1981 por Delmar Carvalho. Nessa altura ainda lá não estava a ilustre placa com os nomes dos magníficos restauradores do coreto.