
No post anterior procurei identificar as espécies mais óbvias de xuxas: os dinossauros e os «animais ferozes» que são do género assumido. Mas se esses são fáceis de identificar o problema é quando se trata de reconhecer as espécies reptilianas e insectóides de xuxas: os não assumidos. Esses confundem-se com a paisagem, fogem à discussão e procuram passar discretos e silenciosos. Mas têm algumas características inconfundíveis. É esta espécie particular de xuxa que dá cabo deste país. Aprendam a identificá-los. Há alguns sinais que nunca mentem.
1. Um xuxa deste tipo nunca defende o ps nem o socas. Ele tem como pressuposta a ininputabilidade do ps e do socas. No fundo o xuxa camaleónico reconhece que toda a bordoada que o seu líder coreano e o partido levaram nos últimos anos é mais que merecida. Mas em vez de dar o passo lógico que se impõe - que os xuxas não prestam e devem ser varridos do mapa partidário! - limita-se a perguntar e aqui está o segundo traço que nunca falha:
2. «Pois, estes são maus. Mas e os outros?».
Notaram? Pois é, ao mesmo tempo que parte do princípio da ininputabilidade dos xuxas – como se eles fossem uma rapaziada travessa a quem nunca se podem assacar responsabilidades – «os outros» arcam com a responsabilidade toda, mesmo daquilo a que são completamente alheios. E responde o xuxa-insecto automaticamente:
3. «Os outros ainda são piores».
Não interessa quem são os outros nem se nunca governaram ou se não governam há seis anos. O xuxa simplesmente pressupõe que por necessidade metafísica «os outros» têm que ser piores que os seus. É uma fé…
4. Esta versão pode assumir a variante moderada que é «Para mim são todos iguais». Não são. Nunca são. Um gajo que diz isto, regra geral, vota xuxa. É um dos tais que que passa o ano inteiro a negar ter votado xuxa, mas que, é certo e sabido, na hora da verdade lá faz a cruz na desgraça do ingenheiro.
5. Outra marca ideológica inconfundível é o famigerado «mas eles até fizeram coisas positivas»…
É verdade que é praticamente impossível que em 6 anos de pesadelo governativo xuxa nada haja de positivo, mas isto é tomar a árvore pela floresta, o acidental pelo essencial, a excepção pela norma. Os xuxas fizeram alguma coisa de positivo pelo país? Bem, assim a primeira estou a ver, huuuuuuummm, sei lá, olha a lei anti tabaco, tá bem feita... Mas ao pé da imensidão galáctica de asneiras e vergonhas que eles deixam, o pouco que fizeram é objectivamente ridículo.
6. Outra: um xuxa destes que se arrastam de bruços pela poeira da savana, também acha que «a culpa foi da crise internacional que foi a pior dos últimos 100 anos». Isto é não perceber nada de história do século XX nem querer ver que, de todos os países que enfrentam a crise, nós - juntamente com a Grécia (que falseou as contas) e a Irlanda (cujo sistema bancário estava tramado) - estamos na cauda da cauda europeia e mundial.
E foi «a pior dos últimos 100 anos» como? É de rir. Recordo só que nos últimos 100 anos tivemos a primeira guerra mundial, o crash da bolsa nos anos 30, a crise da alemanha, a segunda guerra mundial, o flagelo da europa destruída no pós segunda guerra que levou ao plano marshall, a crise do petróleo dos anos 70 e, no caso português, a guerra colonial, a descolonização portuguesa feita como foi, a entrada dos retornados, o fmi que já cá esteve antes, etc, etc, etc. Saímos de todas e nunca atingimos os actuais níveis de endividamento, de desemprego, de despesa pública, de corrupção… A última vez que foi declarada a bancarrota em Portugal foi ainda no século XIX. Agora estamos lá perto! Mas o sr ingenheiro e os asnos que lhe dão ouvidos acham que esta crise de agora é que é a pior. É completamente delirante!
Em suma, o xuxa-ratazana deste tipo já nem procura defender os seus porque os sabe indefensáveis. Mas sabendo-os péssimos, limita-se a pressupor que os outros são ainda piores. É como se os adversários tivessem que justificar a sua excelência absoluta por contraponto ao minimalismo xuxa.
Depois de anos e anos a reclamar-se de baluarte do socialismo democrático em Portugal, eis ao que se reduziu o argumentário corrente do xuxa nos começos do século XXI: «os outros ainda são piores! E a culpa é da crise externa. E porque não olham para as coisas positivas que «eles» fizeram?». Convenhamos que é pobre. Miserável mesmo. Mas cuidado, muito cuidadinho, eles andam aí...