26/05/11

Casar com a F(MI)rancelina e com a Ana DesGoverno, por Cão

Há duas mulheres com quem eu me casaria ao mesmo tempo sem olhar para trás nem para a frente. São de Celorico de Basto, mas mesmo assim lograram a fama e o desproveito. Chamam-se Francelina R. e Ana Maria C. Foram condenadas em Santarém por dezenas de burlas e demais falcatruas feias, como aquela de drogarem a comida e a bebida a um velho amoroso da Ribeira de Santarém chamado Agostinho S.P.
E por que me casaria eu com estas duas aves não raras? Porque tal equivaleria a casar-me, de uma tiroleira assentada, com o desGoverno do “engenheiro” e com o FMI. Pois, tal como aquelas duas jeitosas, não praticam estas duas não respeitáveis nem respeitadas instituições não dezenas mas milhares de figurativas inoculações de benzodiazepinas económicas, financeiras, apocalípticas, manhosas, pró-amnésicas e o Diabo a quatro pintado a sete com zero à Esquerda e à Direita?
Ser casado com a Francelina e com a Ana Maria ou matrimoniado com os aparelhos clienteleiros desGoverno /FMI não me parece em nada – em absolutamente nada – diverso. É tudo uma questão de escalas e desproporções. Preferi-las-ia, porém, porque elas nunca fizeram ao emprego, ao ensino, à saúde, à justiça, à ortografia, à comunicação social, à moral, ao ambiente, ao poder local, à ferrovia, à rodovia, a Portugal e às muitas mais vias da vida individual e colectiva o que o “engenhoso” e o tenebroso Fundo (muito fundo) Monetário contranacional já fizeram, fazem e vão continuar a fazer.
No fundo (muito Fundo), amo-as. À Francelina e à Ana. Tenho a certeza, aliás, sobretudo nesta altura, de que Passos Coelho, esse paradoxal transmontano de Massamá, também as amaria, se o coração dele, à maneira de um tal Alberto Caeiro, as sentisse pensando.
Os nossos filhos (meus e da Francelina e da Ana Maria) só poderiam chamar-se Furto Miguel, Burla Vanessa, Droga Maria, Amnésia do Patrocínio, Roubo Micael e Zé S. Eu sei. Mas sempre haveria de ser um casamento melhor do que aquele que neste momento pratico, que é nenhum, à imagem triste e à triste semelhança do nosso futuro português, até que a morte (em vida) nos separe.

22/05/11

São Rosas, Senhor!, por Rainha Santa Isabel

Hoje fui ver bola de manhã. À saída do desafio, um grupo de distribuidores de propaganda eleitoral esperava - algo timidamente, reconheço agora - pela saída do jogo para distribuir material. Mau!, pensei, serão xuxas? Eram. Um jovem do rebanho estendeu-me um jornaleco com as ventas do artista, «faz favor»...
Pensei: essa porcaria nem pra papel higiénico. E respondi em versão light: «por amor de Deus, tire-me isso da frente, deviam ter vergonha, depois de terem afundado o país»... Esperei a carga violenta da manada mas, para minha surpresa, o jovem cola cartazes trocou um olhar comprometido com os outros e nenhum deles foi capaz de piar o que quer que fosse... Nada, nem uma sílaba, ficaram todos mudos, calados e comprometidos. Talvez tenham mesmo vergonha, sabe-se lá, eu tinha...

21/05/11

Balanço do Debate: O Ser e o Nada, por Castor

Ficou clara uma coisa: Passos Coelho apresentou propostas concretas, boas ou más, depende do ponto de vista, mas concretas e precisas; o artista de circo que estava do outro lado contrapôs com generalidades, vacuidades, banalidades e criticou as propostas concretas do interlocutor. Passos apresenta números e prazos para efectivar a proposta de redução da TSU; o feirante do outro lado da mesa diz que «vai estudar para propor» sabe-se lá o quê, votem em mim que depois vêm...

Mal ou bem Passos apresenta propostas para enfrentar o problema do desemprego; o Houdini disse que ia, mais uma vez, apostar na juventude, na qualidade científica, no desenvolvimento tecnológico e na formação dos portugueses.

Não sei se Passos Coelho convenceu os portugueses de que deve ser o líder do próximo governo porque aquelas propostas podem ser duras . Mas são. São alguma coisa. As do vendedor da banha da cobra é que não chegam a ser nada e, ao menos, essa diferença, entre o ser e o não ser ficou clara. Tirem daqui as ilações...

17/05/11

O Enigma Strauss-Kahn Segundo a Jornalista da RTP, por Mateus




Segundo a enviada especial do Jornal da Noite de ontem, Strauss-Kahn terá forçado a tal empregada do hotel o ter sexo oral e anal. E as provas não mentem: ele apresenta vestígios de arranhões nas costas. Importa-se de repetir? Obrigou-a a ter sexo oral e anal e ele apareceu com as costas arranhadas?

16/05/11

Salazar - Uma Biografia Política, de Filipe Ribeiro Menezes, por Vasco da Gama

É uma óptima sugestão de leitura. Durante muitos anos foi praticamente impossível discutir a figura história de Salazar com um mínimo de objectividade. As razões foram mais que compreensíveis: o professor de Coimbra liderou durante meio século governos autoritários cujas marcas violentas ainda estavam muito frescas. A visão ideológica da nossa esquerda pós 25 de Abril fez o resto: Salazar foi definitivamente arrumado na prateleira dos fascistas do século XX, ao lado de Hitler, de Franco ou de Mussolini.

É compreensível - embora não deixe de causar espanto - que só agora, tantos anos depois do 25 de Abril de 74 se comece, finalmente, a discutir a figura e o regime de Salazar com um mínimo de objectividade. Podemos agora interrogar-mo-nos sobre ideias feitas e clichês ideológicos - tanto de esquerda como de direita - que têm impedido a realização de um debate sério sobre a figura de Salazar. Agora vemos pontos de interrogação onde até há bem pouco tempo víamos pontos finais: O Estado Novo foi realmente um regime fascista? Um um regime autoritário ditatorial conservador mas, ainda assim, diferente dos fascismos espanhol e italiano e substancialmente diferente do nazismo ou do estalinismo? E Salazar, foi apenas um ditador obcecado com o poder? Como conciliar essa visão do homem com a sua enorme erudição, a sua profunda formação académica, a sua dimensão, reconhecida internacionalmente nalgumas fases da sua governação, de grande estadista? O Estado Novo foi sempre despótico e violento? A sua vigência durante as décadas de 20 e de 30 - o célebre «milagre económico» - foi negativa? E a política de neutralidade levada a cabo por Salazar durante a segunda guerra foi censurável? A violência do regime foi comprável à de outros regimes da época - aos fascismos, ao estalinismo? E como julgar a teimosia de Salazar em manter-se no poder, depois da segunda guerra mundial? Como encarar a sua política repressiva para com a oposição - os casos do bispo dom António Ferreira, Humberto Delgado, Álvaro Cunhal, o Tarrafal, etc, etc? Não foi um erro histórico crasso a tentativa de manter as colónias contra a política dos EUA, da URSS, da Inglaterra, do mundo? Que dizer de claros excessos do ditador, como a sua dureza desnecessária para com Aristides de Sousa Mendes ou para o com general Vassalo e Silva e os 3500 soldados portugueses que nada puderam fazer em Goa aquando da anexação do território pela União Indiana? Que dizer da Pide? Etc, etc, etc, Salazar e o Estado Novo são realidades muito mais complexas do que os clichês esquerdistas ou direitistas pretendem.

Este livro de Filipe Ribeiro Menezes não responde a nenhuma das questões que aqui elenquei. Não é esse o seu papel. Mas baseando-se num acervo notável consultado pelo autor, num exaustivo trabalho de investigação, lança dados objectivos que ajudam a ver o ditador português sobre um outro prisma. Este trabalho, desenvolvido numa linguagem que foge aos academismos, é uma referência já que cria bases para que, finalmente, consigamos olhar o Estado Novo e o Salazarismo de acordo com uma perspectiva mais objectiva. Nos seus defeitos e- heresia das heresias! - nas suas virtudes!

10/05/11

Tribalistas, por Gungunhana

Um dia destes vi um reality show televisivo que ultrapassa largamente a fronteira da idiotia - os vips na tribo ou os perdidos na tribo ou os burros na tribo, mais coisa menos coisa. A ideia é meter uns pseudo-distintos jet-sets tugas a viverem durante um mês entre tribos nativas de regiões tão distantes como a Etiópia ou um arquipélago algures no sudeste asiático ou assim.

Passo por cima da idiotia dos representantes da civilização tuga que os leva a falar em português com os nativos como se eles percebessem alguma coisa do que ouvem. O que me chamou a atenção é que este programa já está a desenvolver nos telespectadores um imbecil efeito de etnocentrismo. Já me aconteceu falar com uma ou duas pessoas que acham que aquela gente é realmente atrasada e que a nossa cultura é muito superior!

Ora isto é um perfeito disparate porque omite que aquilo que vemos na TV é um concurso, um reality show e que, portanto, aqueles primitivos não podem ser tidos como amostra representativa da sua cultura original. Presumir que o que vemos ali é um encontro - ou um choque - de culturas é disparatado pela simples razão que o lado de lá está a fingir e a representar tanto como o de cá. Quando os «primitivos» obrigam os homens-tugas a dormirem com o resto da tribo numa palhota, isso foi programado, não é, certamente, genuíno. Quando os chefes tribais falam com maus modos e dão ordens, em tom agressivo, áquela malta ou comparam as mulheres a porcos, fazem-no porque assim foram instruídos pela produção do programa que está interessada - pelo menos para já - em criar esse efeito de choque cultural.

Não sabemos como seria o encontro genuíno de um tuga mais ou menos bronco como o fernando mendes ou de uma aventesma como o castelo branco com uma tribo da Etiópia. Mas não seria decerto assim. Quem fala pela boca dos chefes da tribo é a produção do programa. Tudo o que vemos ali é artificial, um mero produto de fancaria que pretende confundir a ficção com a realidade. E, portanto, não há nada mais estúpido que encarar aquela coisa como um testemunho sociológico. É só um espantalho, nada mais que um espantalho.

02/05/11

A Noiva, por Cão

Aqui há uns anos, um rapaz e uma rapariga marcaram casamento. Trataram das coisas comuns que havia a tratar. Quanto às particulares, trataram-nas particularmente. Ela arranjou um vestido branco. Ele mandou fazer um fato noutra cidade. Um dia antes do domingo marcado, o noivo meteu-se no carro e foi buscar o fato. Nunca mais voltou.
Nunca mais voltou – não porque se tenha arrependido, desistido e fugido. Nunca mais voltou porque teve um acidente mortal na estrada. Em casa, solteira ainda e para sempre, a rapariga ria-se com as amigas experimentando as rendas brancas, o branco chapéu, a cauda nívea do vestido inicial.
Quando a notícia chegou com a morte pela mão, a rapariga viu-se sozinha numa praia com muito mais areia do que mar. Só se apercebeu do mar pelo som dentro da cabeça: uma espécie de asma eléctrica que se ouvia em espiral-dentro da cabeça, em espiral-dentro da cabeça, abafando o coração.
Desmaiou, levaram-na para a cama, chamaram um médico. Ninguém se lembrou de que ela continuava vestida de noiva. Conseguiram acordá-la por alguns instantes, o tempo suficiente para engolir dois comprimidos com um pouco de chá de folha de laranjeira. No dia seguinte, o domingo continuava marcado.
O sol cegava na cal da igreja. A multidão enegrecia de roupa a própria sombra. Rezada a missa de corpo presente, trouxeram a urna para a luz inclemente. As flores sufocavam o carro fúnebre. Então, alguém gemeu de surpresa. E depois o silêncio ferrou os colmilhos na multidão: ela tinha aparecido para acompanhar o funeral. Sempre vestida de noiva.
Ninguém sabia o que fazer, de modo que ninguém fez nada. Ela tinha um ar calmo. Aceitou um lugar no banco de trás do carro fúnebre e esperou. Já então, ela era especialista na difícil arte da espera que se chama desespero.
No fim do enterro, trouxeram-na para casa. A mães e as irmãs conseguiram que despisse por si mesma o vestido de casamento. Dobrou-o muito bem dobrado e guardou-o na caixa. Depois, guardou a caixa no armário alto. Guardou o chapéu na caixa própria. Depois, guardou também essa caixa. Sentou-se na cama e sorriu um pouco.
Ela celebra, até hoje, o aniversário do seu casamento. Veste-se de noiva e vai ao cemitério. Depois, volta para casa, despe-se sozinha, guarda o vestido na caixa, guarda a caixa no armário, guarda o chapéu na caixa, guarda a caixa no armário. E depois fica à espera dele mais um ano.


Rosário Breve nº 204- www.oribatejo.pt

25/04/11

A Literatura de Sanita Enquanto Género Literário, por Fontes

A literatura de sanita é um género literário injustamente esquecido. Numa época em que todos se queixam de não terem tempo para ler, o momento da sanita, se bem aproveitado, ajuda a resolver o problema. E com a vantagem acrescida de se aprender verdadeiramente alguma coisa. Sim, porque ele há gente que lê na casa de banho, mas o quê? Miseráveis revistas cor de rosa ou inúteis jornais desportivos. Ou seja: tempo perdido! No entanto, o tempo passado na sanita pode tornar-se muito enriquecedor, falando do ponto de vista estritamente cultural, claro.

O R. por exemplo... Trata-se de um indivíduo muito ocupado, realmente ocupado, não é como muitos totós que eu conheço que perdem mais tempo na declaração da sua ocupação do que na ocupação propriamente dita. O R. não - é genuinamente ocupado. E, no entanto, é das pessoas que conheço que mais lê. Um dia destes dizia ele quando alguém lhe fez a inevitável pergunta, «mas onde arranjas tu tempo para ler tanto? Na casa de banho, na sanita, pá!» . O R. é assim, viaja sem sair da sanita com o Bruce Chatwin até à Patagónia, mergulha nas profundezas do tempo com o Gore Vidal até à Babilónia do século V a.c. e percorre as ruas de Berlim contemporâneo com um mapa de estradas sem nunca lá ter posto os pés. A sanita é, para gajos ocupados como o R. uma verdadeira máquina do tempo e do espaço.

Pois bem, recentemente resolvi seguir o conselho do R., comecei a levar literatura à séria para o WC e a coisa resultou – deixei de ter a consciência cultural pesada pelo tempo que perdia na sanita a ler A Bola ou simplesmente a não ler nada e a pensar na morte da bezerra. Foi assim que passei a apostar na leitura de sanita.

A minha primeira descoberta foi que nem todos os livros, nem todos os géneros literários, se podem ler no WC. O romance, por exemplo, é completamente inadequado. A literatura de sanita é feita em períodos curtos de, no máximo, cinco minutos. Isto torna praticamente impossível a leitura de um romance porque perde-se o fio à meada. Mesmo em períodos de desarranjo intestinal grave não se vai à sanita mais que uma vez, duas por dia. A regra é a falta de ritmo e a escassez de tempo e não há romance que resista a tanta irregularidade. Pessoalmente também não aconselho a História pelas mesmas razões e desaconselho vivamente a poesia que exije ar livre, espaço e, de preferência, natureza em estado puro. O ambiente WC não se coaduna com os voos poéticos.

Depois de muito tentar, descobri enfim, um género literário que se coaduna perfeitamente com a literatura de sanita: a História da Arte. A maioria das histórias da arte estão organizadas por capítulos correspondentes a épocas ou estilos que, por sua vez, estão subdivididas em artistas ou escolas mais importantes. Ora isto permite que não se perca o fio à meada: em duas, três incursões sanitárias aprende-se uma unidade de sentido sobre um autor, uma obra ou uma escola. Muito diferente das unidades longas e sofisticadas, próprias do romance ou da história universal. Além disso, o formato História da Arte tem ainda uma vantagem clara relativamente a outros géneros: as imagens, que tornam a leitura muito mais relaxante. É essa, de resto, a vantagem da História da arte relativamente ao conto, por exemplo. Não me passaria pela cabeça ler o Miguel Torga no WC. Mas as Vénus do Botticcelli e do Giorgione, as Madonnas do Rafael, as batalhas do Altdorfer ou o expressionismo do Pollock podem ser descobertas com a tranquilidade que só o WC permite e, portanto, vistas segundo novas perspectivas.

É por isso que eu acho que a História da arte, sem qualquer desprimor, é o género literário de sanita por excelência. Desde que o descobri que acabei com as Bolas e os Records na casa de banho. Agora está lá sempre uma História da Arte – demoram tempo a ler mas vale a pena. Passei a ter tempo de qualidade no WC e já reli A História da Arte do Gombrich – um dos maiores clássicos do género – e estou a acabar Os Segredos das Obras Primas da Pintura, volume I de Rainer e Rose-Marie Hagen, editado pela Taschen. O único problema é que agora, quando alguma visita cá de casa passa pelo meu WC, depois, fica sempre a olhar para mim com um ar esquisito. Já uma vez me confessaram que é muito estranho que, em vez das habituais Caras, Luxes ou TVês Sete Dias, só esteja à disposição do utilizador um calhamaço da ordem de grandeza de uma História da Arte. Fónix, é muito à frente…

21/04/11

Ó Sócio, por Ingenheiro

Eu até nem gosto de licores e acho que nunca provei o Beirão. Mas esta campanha com o Futre é simplesmente magistral. Apesar de ter vivido uma boa parte da sua vida em Espanha, Paulo Futre é o protótipo da inteligência tuga mais ou menos hilariante, desavergonhada e desenrascada quando a coisa não dá pró torto e tem o FMI de nos vir socorrer. E gosto do fundo porsche amarelo do anúncio, um clássico da mitologia futreana. Vai vir charters pó licor Beirão!

13/04/11

Eça de Queirós Ressuscitou e Está de Novo em Portugal?, por Excitador

«Mas a náusea suprema, meu amigo, vem da politiquice e dos politiquetes. F. nutria pelos políticos todos os horrores, os mais injustificados: horror intelectual, julgando-os incultos, broncos, inaptos completamente para criar ou compreender ideias; horror mundano, pressupondo-os reles, de maneiras crassas, impróprias para se misturar a natureza do gosto; horror físico, imaginando que nunca se lavavam, raíssimamente mudavam de meias e que deles provinha esse cheiro morno e mole, que tanto surpreende e enoja em S. Bento aos que dele não têm o hábito profissional.

Havia nestas ferozes opiniões, certamente, laivos de perfeita verdade. Mas em geral, os juízos dde F. sobre a política ofereciam o cunho de um preconceito que dogamtiza - e não de uma observação que discrimina. Assim lho afirmava eu uma manhã no Bragança, mostrando que todas essas deficiências de espírito, de cultura, de maneiras, de gosto, de finura, tão acerbamente notadas por ele nos políticos - se explicam suficientemente pela precipitada democratização da nossa sociedade; pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influências abomináveis da Universidade; e ainda por íntimas razões que são, no fundo, honrosas para esses desgraçados políticos, votados por um lado vingador à destruição da nossa terra.

F. replicou simplesmente:
- Se um rato morto me disser - «eu cheiro mal por isto e por aquilo e sobretudo porque apodreci» - eu nem por isso deixo de o mandar varrer do meu quarto».

Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes

08/04/11

«Ó Luís, vê lá comé que fica», por Armani




Podem vê-lo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=NVC3ASR2ktQ


Pode parecer uma minudência sem significado a algumas mentes mais desatentas. Mas não é! Este vídeo é uma marca fiel da mentalidade de um primeiro ministro, sempre preocupado com a imagem, obcecado com o «eu», com o parecer bem. Este indivíduo chegou a apresentar como argumento para evitar a entrada do FMI em Portugal que «era uma perda de prestígio»(para ele, claro)! Que interessa se o país vai ao fundo? O que importa é que o artista fique bem na fotografia quando o anuncia.

Pequenos sinais, como o presente, não são só o bilhete de identidade fiel de um indivíduo que chegou ao poder apesar da sua impreparação cívica, ética e democrática. Este vídeo é também um fiel retrato dos nabos que o levaram até onde ele chegou. Dos nabos para quem este sujeito fala e que estão sempre disponíveis a ser convencidos que o homem é uma vítima - da oposição, dos mercados, das campanhas negras, dos juízes, dos bancários, dos comunistas, dos sindicalistas, dos jornalistas, das corporações, do desastre de fukushima, da peste bubónica, do naufrágio do titanic, em suma, de tudo e de todos menos da sua irresponsabilidade colossal.

Este vídeo já é um clássico e os seus poucos segundos valem anos de discursos sobre a natureza da personagem. Na hora de anunciar o funeral, a preocupação do coveiro é se fica bem na fotografia: «Ó Luís, será que a cor desta gravata combina com a do caixão?»

04/04/11

De Volta às Férias Grandes no Começo da Primavera, por Tructesindo

Ainda se chamavam «as férias grandes»... Foi numas férias grandes, não sei exactamente quais, que eu descobri o grande Eça de Queirós! Essas férias, já lá vai tempo, passei-as a ler tudo o que dele me chegou às mãos. Li de enfiada Os Maias, o Mandarim, O Crime do Padre Amaro, o Primo Basílio, A Cidade e as Serras, os Contos, as Prosas, enfim, literalmente, tudo o que apanhei.

Eça sobrevivera até ao Liceu pois era certo e sabido que autor dado nos bancos da escola tornava-se, não só para mim, inimigo mortal. Ainda hoje me interrogo sobre a inteligência do critério que decide que miúdos de 15-16 anos comecem a ler Eça de Queirós pela sua obra mais complexa, Os Maias. Não faria mais sentido começar com algo mais acessível aos putos? O Mandarim, por exemplo, seria uma excelente introdução e poderia servir de porta de entrada para a restante obra. Assim com Os Maias logo a abrir, a maioria dos miúdos cria logo uma aversão insanável. Foi o que se passou comigo, mas felizmente a minha professora de Português do 11º ano era simplesmente FABULOSA (chamava-se Lívia Múrias) e alguma coisa me ficou do Eça e do gosto pela literatura porque nessas férias grandes, devorei a obra toda que apanhei do grande escritor português.

Mas felizmente não li todo o Eça, sobraram-me alguns - A Relíquia que li à coisa de dois meses; e A Ilustre Casa de Ramires que acabei ontem! A sensação é incrível, não quero falar de mais que isso, da sensação, do gozo literário que há em ler Eça. Não quero fazer um post de análise literária para a qual me faltaria talento. Venho aqui apenas dar conta da sensação fabulosa que é re-descobrir a magia de Eça de Queirós.

Não conheço mais nenhum escritor com aquele subtil sentido de humor, não vejo ninguém que melhor domine a língua portuguesa, não conheço muitos mais escritores que me transportem literalmente para outros tempos, outros espaços e outros costumes sem sequer sair de casa. Os livros de Eça são a invenção humana mais parecida com a máquina de tele transporte do Star Treck! E, acima de tudo, foi um prazer voltar a ter contacto com aquilo que a crítica rotula de «ironia» mas que é muito mais que isso. O texto de Eça vive sempre, pelo menos, em dois planos - um visível e expresso e outro inaudito que eu não descortino como é que lá está mas está. Eça diz mais nesta dimensão inaudita do seu texto no que no texto propriamente dito. É como se as personagens estivessem realmente ali à nossa frente, como se as pudéssemos ver e perceber que estão a mentir ou a dizer o contrário do que querem ou a sublimar ou a racionalizar... Mas o mais incrível é que Eça faz isto de forma tão indelével, jogando nas entre-linhas, que eu nem percebo como é que apanho essa outra camada do seu texto. Mas apanho porque ela está lá graças ao imenso talento do seu criador. Nesta misteriosa tessitura do não dito está muito do interesse de Eça e da sua contemporaneidade. Ele é quase psicanalítico.

Quem é o melhor escritor português de todos os tempos? Não sei e esta pergunta, possivelmente, nem tem resposta. Mas martela-me a cabeça quando leio Eça. Eu já quase a tinha esquecido e agora ela voltou. Felizmente ainda me faltavam A Relíquia e a Ilustre Casa de Ramires para eu voltar de novo àquelas férias grandes do meu liceu. Já imaginaram o que era se nunca tivessem lido Eça e se agora, assim de repente, começassem a ler os seus romances? Ou, ao menos, dois ou três deles? Não seria um assombro absoluto? A boa notícia é que ainda me sobra O Conde de Abranhos que também me escapou à voracidade literária daquelas férias de verão. Felizmente...

01/04/11

Como Identificar um Xuxa? - parte II, por R. Attenborough

No post anterior procurei identificar as espécies mais óbvias de xuxas: os dinossauros e os «animais ferozes» que são do género assumido. Mas se esses são fáceis de identificar o problema é quando se trata de reconhecer as espécies reptilianas e insectóides de xuxas: os não assumidos. Esses confundem-se com a paisagem, fogem à discussão e procuram passar discretos e silenciosos. Mas têm algumas características inconfundíveis. É esta espécie particular de xuxa que dá cabo deste país. Aprendam a identificá-los. Há alguns sinais que nunca mentem.

1. Um xuxa deste tipo nunca defende o ps nem o socas. Ele tem como pressuposta a ininputabilidade do ps e do socas. No fundo o xuxa camaleónico reconhece que toda a bordoada que o seu líder coreano e o partido levaram nos últimos anos é mais que merecida. Mas em vez de dar o passo lógico que se impõe - que os xuxas não prestam e devem ser varridos do mapa partidário! - limita-se a perguntar e aqui está o segundo traço que nunca falha:

2. «Pois, estes são maus. Mas e os outros?».
Notaram? Pois é, ao mesmo tempo que parte do princípio da ininputabilidade dos xuxas – como se eles fossem uma rapaziada travessa a quem nunca se podem assacar responsabilidades – «os outros» arcam com a responsabilidade toda, mesmo daquilo a que são completamente alheios. E responde o xuxa-insecto automaticamente:

3. «Os outros ainda são piores».
Não interessa quem são os outros nem se nunca governaram ou se não governam há seis anos. O xuxa simplesmente pressupõe que por necessidade metafísica «os outros» têm que ser piores que os seus. É uma fé…

4. Esta versão pode assumir a variante moderada que é «Para mim são todos iguais». Não são. Nunca são. Um gajo que diz isto, regra geral, vota xuxa. É um dos tais que que passa o ano inteiro a negar ter votado xuxa, mas que, é certo e sabido, na hora da verdade lá faz a cruz na desgraça do ingenheiro.

5. Outra marca ideológica inconfundível é o famigerado «mas eles até fizeram coisas positivas»…
É verdade que é praticamente impossível que em 6 anos de pesadelo governativo xuxa nada haja de positivo, mas isto é tomar a árvore pela floresta, o acidental pelo essencial, a excepção pela norma. Os xuxas fizeram alguma coisa de positivo pelo país? Bem, assim a primeira estou a ver, huuuuuuummm, sei lá, olha a lei anti tabaco, tá bem feita... Mas ao pé da imensidão galáctica de asneiras e vergonhas que eles deixam, o pouco que fizeram é objectivamente ridículo.

6. Outra: um xuxa destes que se arrastam de bruços pela poeira da savana, também acha que «a culpa foi da crise internacional que foi a pior dos últimos 100 anos». Isto é não perceber nada de história do século XX nem querer ver que, de todos os países que enfrentam a crise, nós - juntamente com a Grécia (que falseou as contas) e a Irlanda (cujo sistema bancário estava tramado) - estamos na cauda da cauda europeia e mundial.
E foi «a pior dos últimos 100 anos» como? É de rir. Recordo só que nos últimos 100 anos tivemos a primeira guerra mundial, o crash da bolsa nos anos 30, a crise da alemanha, a segunda guerra mundial, o flagelo da europa destruída no pós segunda guerra que levou ao plano marshall, a crise do petróleo dos anos 70 e, no caso português, a guerra colonial, a descolonização portuguesa feita como foi, a entrada dos retornados, o fmi que já cá esteve antes, etc, etc, etc. Saímos de todas e nunca atingimos os actuais níveis de endividamento, de desemprego, de despesa pública, de corrupção… A última vez que foi declarada a bancarrota em Portugal foi ainda no século XIX. Agora estamos lá perto! Mas o sr ingenheiro e os asnos que lhe dão ouvidos acham que esta crise de agora é que é a pior. É completamente delirante!

Em suma, o xuxa-ratazana deste tipo já nem procura defender os seus porque os sabe indefensáveis. Mas sabendo-os péssimos, limita-se a pressupor que os outros são ainda piores. É como se os adversários tivessem que justificar a sua excelência absoluta por contraponto ao minimalismo xuxa.
Depois de anos e anos a reclamar-se de baluarte do socialismo democrático em Portugal, eis ao que se reduziu o argumentário corrente do xuxa nos começos do século XXI: «os outros ainda são piores! E a culpa é da crise externa. E porque não olham para as coisas positivas que «eles» fizeram?». Convenhamos que é pobre. Miserável mesmo. Mas cuidado, muito cuidadinho, eles andam aí...

27/03/11

Como Identificar um Xuxa?, por R. Attenborough

Do ponto de vista da identificação das espécies partidárias vive-se em Portugal um período muito difícil - há uma enorme dificuldade em identificar claramente um xuxa! O problema não é de agora, já dura há uns anos. Já nas últimas e nas penúltimas eleições legislativas, os eleitores xuxas andavam escondidos, tímidos, silenciosos.Um tipo perguntava aos suspeitos se tinham votado neles e nada, nunca encontrei ninguém que tivesse reconhecido ter votado nos gajos. Parece que ninguém lhes deu as últimas maiorias parlamentares. Terão sido os espanhóis que nos terão invadido em massa para votar neles cumprindo, mediante este expediente, o desejo histórico que sempre tiveram de nos arruinar, cheguei a perguntar-me?

Identificar um xuxa é mesmo muito difícil e apenas está ao alcance de experimentados especialistas. Requer anos e anos de exploração no terreno e muita leitura, um pouco como o trabalho daquela malta do National Geographic que vai às florestas mais incríveis e consegue detectar espécies mirabolantes de sardaniscas, aranhas e batráquios que passam despercebidas à maioria da malta.

Faço aqui uma ressalva: quando digo que é difícil para um olho menos treinado identificar um xuxa, não me refiro, evidentemente, aos espécimes mais empedernidos, particularmente notórios. Quem não reconhece um dinossauro xuxa? Trata-se de um espécime ancião, geralmente ex-presidente (da república ou de outra vetusta instituição nacional) e é facilmente reconhecível pela pose de «pai da nação» e pela tropa de familiares e amigos que, directa ou indirectamente, vai nomeando para cargos públicos bem remunerados. Um dinossauro xuxa é uma espécie de carpa da política portuguesa.

Também não me refiro ao xuxa fanático da linha dura, tipo «animal feroz», virulento, enganador e trauliteiro, ao melhor estilo silva pereira, santos silva ou, em versão indigente, estilo zé lello e vitalino canas. Estes espécimes são perigosos, mas a sua identificação também não é complicada. Nunca reconhecem um erro e fazem sempre fuga em frente como estratégia.

O que é difícil mesmo de identificar é o xuxa-eleitor-típico porque esse raramente se assume. Nunca vimos um destes espécimes a defender aberta e directamente o líder. Jamais ousam justificá-lo a propósito dos muitos casos duvidosos que todos sabemos. Nem sequer são capazes de defender as políticas nem as medidas dos governos xuxas. Se o voto não fosse secreto era fácil dar com estes camaleões que se confundem com a paisagem - mas não é e, por isso, sabemos que eles existem em abundância apenas quando contamos os votos. São como os insectos, pequenos, numerosos e silenciosos mas com uma facilidade espantosa de se adaptarem ao ambiente. Então como podemos identificá-los? Deixo aqui a pergunta. A caixa de comments está aberta a todos os contributos para este verdadeiro serviço público. No próximo post resumo aqui algumas dicas que permitirão a qualquer leigo menos experimentado identificar sem falhas um xuxa desta espécie camaleónica só aparentemente tímida.