28/06/11

Dito com os nervos, por Cão

Só num país miserável é que um centro de saúde obriga os respectivos utentes a medirem a tensão na farmácia mais próxima, digo-o eu com os nervos.
Só um país infecto é que obriga um ex-primeiro-ministro a ir de fax estudar filosofia em “francês técnico” para Paris-de-França.
Só um país vazio é que dá tanta atenção a um acidente de automóvel tripulado por “celebridades” vácuas.
Só um país irresponsável é que tem no calendário uma época de incêndios tão certinha como a morte e os impostos.
Só um país bovino muda de ortografia como quem não muda de preservativo.
Só um país com 860 quilómetros de costa mata as pescas, Aníbal.
Só um país com tanta terra e tanto sol aniquila a reforma agrária, Barreto.
Só um país sem uma pinga de sangue nas fuças admite que a família do derradeiro director da PIDE possa processar um teatro e gente de bem por causa de uma peça que relembra os crimes torcionários da polícia política criada por esse morcego eunuco que se chamou Salazar.
Só um país sem cuecas nem parte da frente se abstém de tudo o que não seja o emprego da sobrinha, a cunha da cunhada, a fuga ao fisco, a escolaridade sem esforço, o empenho do anel, o garrote do dedo, a mariquice a tiracolo e a mãe que o teve atrás de uma moita.
Só um país inimputável é que aceita esperar 15483940593847 dias por uma cirurgia que tantas vezes significa essa desprezível diferença entre a vida e a morte.
Só um país irreciclável é que tem de trocar tampinhas de garrafas de plástico por cadeiras-de-rodas.
Só um país sem lei nem moral nem ética nem toga nem nada é que não investiga, não esclarece e não pune um grupo de candidatozecos de dentro a juízes de fora que copiançam à fartazana em testes “amaricanos” tipo nóvóportunidades.

Tenho por isso, Zé, de te dedicar em bom francês este fecho de crónica: Je ne crois pas du tout, mon petit rien, que tu sois capable d’entendre l’acceptable minimum d’un Althusser, d’un Greimas, d’un Foucault, d’un Camus, d’un Kierkegaard, d’un Schopenhauer, d’un Nietzsche, d’un Marx ou même d’un Tony Carreira version camembert tipo serra-da-estrela. Sais-tu pourquoi, pá ?
Parce que, lá-haut, à Paris, on n’achève jamais des cours au dimanche, que é como quem diz ao domingo.

22/06/11

O Inferno de Arenas, por Astaroth

O escritor cubano Reinaldo Arenas foi um dos muitos mártires do regime fascista instaurado por Fidel Castro. Foi perseguido, humilhado, brutalizado e martirizado pela cáfila castrista durante toda a vida. Por duas razões, ambas intoleráveis aos olhos do regime: era homossexual e «anti-revolucionário».

Arenas conseguiu publicar os seus romances no estrangeiro fazendo-os passar clandestinamente para fora de Cuba. Foi perseguido. O regime aproveitou o facto da sua homossexualidade assumida para o acusar de ofensas várias à moral e para o enviar para Forte del Morro e para Villamarin as piores prisões do regime, submetendo-o a torturas dignas do pior catálogo da Pide. Arenas não cedeu e conservou até ao fim o sentido da sua dignidade.

Conseguiu fugir para Miami metido na confusão vergonhosa que foi a deportação de milhares de cubanos na sequência do escândalo da embaixada do Peru (e como pôde Garcia Marquez, que Arenas apelida de «hipócrita», apoiar Castro em mais essa infâmia?). Anos mais tarde, acabaria por morrer, vítima da Sida. Tornou-se um símbolo de coragem e resistência, era o anti-homem -novo, o anti-cristo do comunismo castrista. Tornou-se também um símbolo da inteligência corajosa capaz de pagar com o sofrimento de toda uma vida a denúncia da opressão - Arenas, como Cabrera-Infante, Heberto Padilla ou Zoè Valdés são, nesta matéria, o oposto dos grandes escritores de «prato cheio» que, apesar de toda a sua grandeza, não souberam ou não quiseram ver para lá da propaganda - Sartre e Beauvoir, Régis Debray, Garcia Marquez, Alejo Carpentier, todos eles branqueadores do regime...

Antes que Anoiteça começou a ser escrito muitos anos antes da sua publicação. É um romance (na realidade é a narrativa auto biográfica do autor) duro e cru. Arenas conta que lhe chamou assim porque começou a escrevê-lo numa fase em que vivia como um sem abrigo, escondido dos esbirros da polícia, no parque Lenine em Havana. Escrevia enquanto tinha luz. E assim que a noite caía via-se obrigado a parar. Depois, já no fim da vida, com um diagnóstico de sida que lhe dava um ano de vida, Arenas percebeu que o título ganhara um novo alcance simbólico: escrever ainda e sempre Antes que Anoiteça, isto é antes que a morte viesse e o impedisse de terminar este seu testamento literário. A Noite veio, enfim, em Dezembro de 1990, mas o livro ficou, um dos mais trágicos que alguma vez li.

20/06/11

Tropa de Elite 2 - Portugal 2010, por Taporware


Fui vê-lo já há uns tempos mas ainda deixo aqui algumas impressões sobre o filme. Tropa de Elite 2 de José Padilha é a continuação da primeira saga do capitão Nascimento. Editado em 2010, tornou-se no maior sucesso de bilheteira de sempre de um filme nacional no país irmão com mais de duas dezenas de milhões de espectadores! Claramente dirigido ao universo brasileiro, é, no entanto, curioso o seu visionamento a partir da perspectiva portuguesa. Isto é, visto por por portugueses em pleno 2010, TP2 ganha, subitamente, uma actualidade impressionante. Vê-se TP2 e não se está pensar no Brasil - pensa-se em Portugal, neste Portugal em que vivemos (ou vivíamos).

TP2 é uma espécie de radiografia dura e crua da corrupção e da sua forma orgânica e tentacular. Esta é apresentada como uma espécie de jogo de matriuscas que começa nos interesses do traficante mais miserável, estende-se até ao policiazeco metido no esquema, alastra até ao chefe da esquadra, passa pela conivência do jornalista comprado, chega ao ministério da segurança, aos deputados estaduais e atinge até o governador. Todos umbilicalmente ligados numa teia tenebrosa. O filme passa-se no Rio de Janeiro, mas é óbvio que, visto do lado de cá do atlântico, não parece assim tão longínquo.

Compreende-se porque razão o capitão Nascimento (Wagner Moura) se tornou o maior fenómeno de popularidade recente do Brasil. Este John Wayne tropical tardio é uma espécie de ajuste de contas simbólico com o sistema corrupto e com a criminalidade insana que tem/tinha o Brasil refém.
TP2 centra-se na velha questão ética dos meios e dos fins - como vencer o crime e a corrupção? Poderão os meios violentos do BOP justificar os seus fins de combate ao crime? O capitão Padilha, qual justiceiro numa cidade do faroeste sitiada por bandidos, não recua perante nada e o certo é que, a julgar pelo sucesso estrondoso do filme, os seus métodos são ratificados pelo cidadão brasileiro comum. E cá? A julgar pela algazarra que se ouvia na sala aquando dos ajustes de contas com a mafia, eu diria que o capitão Padilha também cá dava jeito.

17/06/11

Discos que já ninguém ouve mas que são excelentes:Talking Heads e Brian Eno- Fear of Music

Fear of Music (juntamente com o posterior Remain in Light também produzido por Brian Eno) é o melhor disco dos Talking Heads. Até aqui eles não passavam de uma banda pop - ainda que excelente - , mas com Fear of Music alcançam um patamar estratosférico, passeando-se pelas sonoridades planantes da música electrónica, do ambientalismo e da música étnica. Ao contrário do trabalhos anteriores da banda de Byrne, o disco ouve-se pela sonoridade e não só pelo brilho pop das canções. O que é que provocou esta mudança? Pois é, o genial Eno foi o produtor do disco e revolucionou a música dos Heads. Nada que não se repetisse ao longo dos tempos - fez o mesmo com Bowie, com os U2 ou com David Byrne no mítico My Life in the Bush of Ghosts...

06/06/11

ALELUIA! ALELUIA! ALELUIA!, por Roberto Fripó

FINALMENTE! Portugal livrou-se do pior primeiro ministro de que há memória na vida democrática portuguesa ( e a nossa sorte foi ter levado com ele já depois do 25 de Abril...). Politicamente, o ingenheiro era um embuste, o protótipo perfeito do político de carreira que nunca fez nada - nem em termos académicos nem profissionais - para além de andar desde pequenino na politiquice. Aliás quando se fala na sua vida académica pensamos na famigerada licenciatura; e quando pensamos na sua vida profissional pensamos em quê? Pois, nas casinhas...

O sucesso deste homem sempre foi para mim um mistério. Digo sempre e digo bem. Desde os seus primeiros aparecimentos públicos que achei que o homem era risível. Nunca vi nada nele que o distinguisse do vulgar político do interior profundo que, quando muito, podia fazer sucesso como candidato à junta de freguesia da terra. Nisso enganei-me, infelizmente. Quando o vi candidato a secretário geral do ps devo ter rido à gargalhada - para mim não seria muito diferente da candidatura do tino de rãs, sempre vestiu bem melhor, é certo... Mas imaginem o meu espanto quando vejo zé socrates a ser eleito secretário geral do ps! palavra: não acreditei! Achei que o ps caminhava alegremente para o suicídio político e que aquele equívoco não poderia durar muito tempo. Durou seis anos!

Agora, tanto tempo depois e após ter deixado o país neste estado lastimável, vejo que acertei tanto quanto me enganei em relação à personagem. Enganei-me - porque não pensei que um político medíocre, sem consistência,sem convicções, sem cultura, sem curriculum académico e profissional, mal relacionado e com um histórico duvidoso pudesse chegar onde chegou. Enganei-me porque sempre pensei que uma boa agência de propaganda - que ele sempre teve - aliada àquilo que alguns chamam uma «notável capacidade de comunicação» (e a que eu chamo capacidade de fantasiar) pudessem ser suficientes. Aqui enganei-me, de facto, profundamente, eu que nunca quis acreditar que «vender um político ou um sabonete é exactamente a mesma coisa».

Mas acertei em cheio quando, ainda este indivíduo era um mero secretário de estado do ambiente, vi que estava perante um impreparado para gerir a coisa pública. Acertei em cheio quando, desde o primeiro dia, percebi que este homem era perigoso, que ainda íamos pagar caro a sua ambição pessoal. Tive razão e oxalá não tivesse tido, para bem de todos nós...

Ontem, FINALMENTE, os portugueses abriram a pestana e meteram-no a andar, como ele mereceu. Foi preciso que sentissem no bolso a sua acção incompetente e irresponsável. Mas há muito que a sua falta de credibilidade justificava a demissão. Somos um povo de compreensão mais lenta que o normal, mas prontos, mais vale tarde que nunca, o que importa é que as pessoas foram capazes de perceber ao fim de longos seis anos quem era esta gente que nos governava.

Zé socrates conseguiu assim realizar o velho sonho de Sá Carneiro: uma maioria, um governo, um presidente. PSD e CdS agradecem-lhe! Nem Durão, nem Santana, nem Cavaco o conseguiram. Milhares e milhares de portugueses viram-se obrigados a votar no psd e no cds porque, simplesmente, estavam em pânico com a perspectiva do ingenheiro ganhar as eleições. Socrates conseguiu fazer baixar o ps abaixo do nível santana lopes - é obra e é bem feito para um partido que se tornou numa espécie de coreia do norte em versão partidária.

Até na hora da saída este homem foi igual a si próprio. Nem na derrota largou o tele-ponto! Falou durante quarenta minutos, qual Fidel Castro, representando (digo bem: representando)um discurso centrado no seu tema preferido: ele próprio e a sua enorme, galáctica, incomensurável grandeza! O discurso estava antecipadamente redigido e preparado para este cenário e sócrates limitou-se a representá-lo - coisa que aliás faz muito bem. Antevi portugueses a ficarem de lágrima ao canto do olho com pena do grande líder injustiçado. Afinal havia que começar, desde logo, a preparar o futuro. Pode Zelig ser autêntico?

No meio daquela encenação (mais uma: o teatro é a sua essência mais profunda) uma coisa falhou: o fiel Luís («Ó Luís fico melhor assim ou assim?») desta vez parece tê-lo abandonado. Não previu bem os efeitos cénicos de discursar durante quarenta minutos na cave de um hotel e o «animal feroz», desta vez, suava em bica e limpava a testa com a mão. Suava, suava, suava mas os «animais ferozes» não suam assim.

05/06/11

Correr com eles!, por Cicuta

Nestas eleições a principal questão é muito simples: correr com o socas e sus muchachos! É claro que há outras muito importantes. Mas nada poderá ser feito se, antes, não arrancarmos estas lapas que se agarraram ao poder. Esqueçam os preconceitos ideológicos e concentrem-se apenas nisto: qual o melhor voto para correr com esta doença que enfermou Portugal? O país não pode aguentar mais quatro anos do bancarrota. Agora ponham-se com paleio de chacha, tipo eu sou de esquerda e de direita e do benfica e do sporting e do lourosa, dispersem os votos e depois venham queixar-se.
Há um abismo de divergências entre todos os que já não podem ver esta maltosa à frente, eu sei... Mas deixem isso para depois. Neste momento a questão principal é só uma: correr com eles!

02/06/11

Quem é Este gajo?, por Mister X

O célebre quadro de Rafael, A Escola de Atenas, sempre suscitou grande controvérsia acerca da identificação das personagens nele retratadas. Por exemplo, o gajo do pic de cima que aparece num dos planos mais centrais da pintura é identificado na maior parte dos sites que consultei como sendo o grande Heraclito, o Obscuro, talvez o maior de todos os pré-socráticos. Essa é, de resto, a opinião mais comum: a figura representa o carácter taciturno e solitário de Heraclito que foi, efectivamente, enquanto filósofo um aristocrata anti-social.

No entanto em A História da Beleza (Difel, 2002), uma obra coordenada por uma sumidade tão prestigiada como Umberto Eco, diz-se claramente na p. 226 que a referida figura é o geómetra Euclides. Girolamo de Michele, autor do texto, interpreta assim este presumível Euclides:

«O homem barroco que aqui se prenuncia, indaga as bibliotecas e os livros e, já melancólico, deixa cair a ferramenta ou segura-a inactiva entre as mãos».

Este pretenso Euclides representa, pois, a melancolia do barroco que tem raiz na «ferida narcísica» (Freud) infligida ao ego humano com a revolução coperniciana e com os desenvolvimentos seguintes das ciências físicas e astronómicas. O homem do Barroco espanta-se ao descobrir que, afinal, não é o centro nem o senhor do universo, mas um ponto insignificante na imensidão cósmica. Paradoxalmente é o progresso do saber que produz a própria crise do saber. A figura retratada por Rafael, não por acaso um matemático, não por acaso Euclides, representaria, assim, a melancolia aberta por esta fenda narcísica.

Fico, pois, na dúvida: afinal quem é este gajo? Heraclito como sempre se disse? Ou Euclides? É que num livro coordenado por um génio como Eco, esta assumpção de que o gajo é Euclides não pode ser um erro inocente nem um desleixo. Eco e Michele hão-de ter alguma razão para discordar da interpretação corrente que atribui a identidade do «gajo» a Heraclito, embora nada digam sobre isso. Eu é que acabo por ficar na dúvida: Heraclito ou Euclides? E, no caso de ser mesmo Euclides, quem será o outro personagem que aparece no pic aqui mais abaixo a quem se atribui pacificamente a identidade, aqui sim, de Euclides?

26/05/11

Casar com a F(MI)rancelina e com a Ana DesGoverno, por Cão

Há duas mulheres com quem eu me casaria ao mesmo tempo sem olhar para trás nem para a frente. São de Celorico de Basto, mas mesmo assim lograram a fama e o desproveito. Chamam-se Francelina R. e Ana Maria C. Foram condenadas em Santarém por dezenas de burlas e demais falcatruas feias, como aquela de drogarem a comida e a bebida a um velho amoroso da Ribeira de Santarém chamado Agostinho S.P.
E por que me casaria eu com estas duas aves não raras? Porque tal equivaleria a casar-me, de uma tiroleira assentada, com o desGoverno do “engenheiro” e com o FMI. Pois, tal como aquelas duas jeitosas, não praticam estas duas não respeitáveis nem respeitadas instituições não dezenas mas milhares de figurativas inoculações de benzodiazepinas económicas, financeiras, apocalípticas, manhosas, pró-amnésicas e o Diabo a quatro pintado a sete com zero à Esquerda e à Direita?
Ser casado com a Francelina e com a Ana Maria ou matrimoniado com os aparelhos clienteleiros desGoverno /FMI não me parece em nada – em absolutamente nada – diverso. É tudo uma questão de escalas e desproporções. Preferi-las-ia, porém, porque elas nunca fizeram ao emprego, ao ensino, à saúde, à justiça, à ortografia, à comunicação social, à moral, ao ambiente, ao poder local, à ferrovia, à rodovia, a Portugal e às muitas mais vias da vida individual e colectiva o que o “engenhoso” e o tenebroso Fundo (muito fundo) Monetário contranacional já fizeram, fazem e vão continuar a fazer.
No fundo (muito Fundo), amo-as. À Francelina e à Ana. Tenho a certeza, aliás, sobretudo nesta altura, de que Passos Coelho, esse paradoxal transmontano de Massamá, também as amaria, se o coração dele, à maneira de um tal Alberto Caeiro, as sentisse pensando.
Os nossos filhos (meus e da Francelina e da Ana Maria) só poderiam chamar-se Furto Miguel, Burla Vanessa, Droga Maria, Amnésia do Patrocínio, Roubo Micael e Zé S. Eu sei. Mas sempre haveria de ser um casamento melhor do que aquele que neste momento pratico, que é nenhum, à imagem triste e à triste semelhança do nosso futuro português, até que a morte (em vida) nos separe.

22/05/11

São Rosas, Senhor!, por Rainha Santa Isabel

Hoje fui ver bola de manhã. À saída do desafio, um grupo de distribuidores de propaganda eleitoral esperava - algo timidamente, reconheço agora - pela saída do jogo para distribuir material. Mau!, pensei, serão xuxas? Eram. Um jovem do rebanho estendeu-me um jornaleco com as ventas do artista, «faz favor»...
Pensei: essa porcaria nem pra papel higiénico. E respondi em versão light: «por amor de Deus, tire-me isso da frente, deviam ter vergonha, depois de terem afundado o país»... Esperei a carga violenta da manada mas, para minha surpresa, o jovem cola cartazes trocou um olhar comprometido com os outros e nenhum deles foi capaz de piar o que quer que fosse... Nada, nem uma sílaba, ficaram todos mudos, calados e comprometidos. Talvez tenham mesmo vergonha, sabe-se lá, eu tinha...

21/05/11

Balanço do Debate: O Ser e o Nada, por Castor

Ficou clara uma coisa: Passos Coelho apresentou propostas concretas, boas ou más, depende do ponto de vista, mas concretas e precisas; o artista de circo que estava do outro lado contrapôs com generalidades, vacuidades, banalidades e criticou as propostas concretas do interlocutor. Passos apresenta números e prazos para efectivar a proposta de redução da TSU; o feirante do outro lado da mesa diz que «vai estudar para propor» sabe-se lá o quê, votem em mim que depois vêm...

Mal ou bem Passos apresenta propostas para enfrentar o problema do desemprego; o Houdini disse que ia, mais uma vez, apostar na juventude, na qualidade científica, no desenvolvimento tecnológico e na formação dos portugueses.

Não sei se Passos Coelho convenceu os portugueses de que deve ser o líder do próximo governo porque aquelas propostas podem ser duras . Mas são. São alguma coisa. As do vendedor da banha da cobra é que não chegam a ser nada e, ao menos, essa diferença, entre o ser e o não ser ficou clara. Tirem daqui as ilações...

17/05/11

O Enigma Strauss-Kahn Segundo a Jornalista da RTP, por Mateus




Segundo a enviada especial do Jornal da Noite de ontem, Strauss-Kahn terá forçado a tal empregada do hotel o ter sexo oral e anal. E as provas não mentem: ele apresenta vestígios de arranhões nas costas. Importa-se de repetir? Obrigou-a a ter sexo oral e anal e ele apareceu com as costas arranhadas?

16/05/11

Salazar - Uma Biografia Política, de Filipe Ribeiro Menezes, por Vasco da Gama

É uma óptima sugestão de leitura. Durante muitos anos foi praticamente impossível discutir a figura história de Salazar com um mínimo de objectividade. As razões foram mais que compreensíveis: o professor de Coimbra liderou durante meio século governos autoritários cujas marcas violentas ainda estavam muito frescas. A visão ideológica da nossa esquerda pós 25 de Abril fez o resto: Salazar foi definitivamente arrumado na prateleira dos fascistas do século XX, ao lado de Hitler, de Franco ou de Mussolini.

É compreensível - embora não deixe de causar espanto - que só agora, tantos anos depois do 25 de Abril de 74 se comece, finalmente, a discutir a figura e o regime de Salazar com um mínimo de objectividade. Podemos agora interrogar-mo-nos sobre ideias feitas e clichês ideológicos - tanto de esquerda como de direita - que têm impedido a realização de um debate sério sobre a figura de Salazar. Agora vemos pontos de interrogação onde até há bem pouco tempo víamos pontos finais: O Estado Novo foi realmente um regime fascista? Um um regime autoritário ditatorial conservador mas, ainda assim, diferente dos fascismos espanhol e italiano e substancialmente diferente do nazismo ou do estalinismo? E Salazar, foi apenas um ditador obcecado com o poder? Como conciliar essa visão do homem com a sua enorme erudição, a sua profunda formação académica, a sua dimensão, reconhecida internacionalmente nalgumas fases da sua governação, de grande estadista? O Estado Novo foi sempre despótico e violento? A sua vigência durante as décadas de 20 e de 30 - o célebre «milagre económico» - foi negativa? E a política de neutralidade levada a cabo por Salazar durante a segunda guerra foi censurável? A violência do regime foi comprável à de outros regimes da época - aos fascismos, ao estalinismo? E como julgar a teimosia de Salazar em manter-se no poder, depois da segunda guerra mundial? Como encarar a sua política repressiva para com a oposição - os casos do bispo dom António Ferreira, Humberto Delgado, Álvaro Cunhal, o Tarrafal, etc, etc? Não foi um erro histórico crasso a tentativa de manter as colónias contra a política dos EUA, da URSS, da Inglaterra, do mundo? Que dizer de claros excessos do ditador, como a sua dureza desnecessária para com Aristides de Sousa Mendes ou para o com general Vassalo e Silva e os 3500 soldados portugueses que nada puderam fazer em Goa aquando da anexação do território pela União Indiana? Que dizer da Pide? Etc, etc, etc, Salazar e o Estado Novo são realidades muito mais complexas do que os clichês esquerdistas ou direitistas pretendem.

Este livro de Filipe Ribeiro Menezes não responde a nenhuma das questões que aqui elenquei. Não é esse o seu papel. Mas baseando-se num acervo notável consultado pelo autor, num exaustivo trabalho de investigação, lança dados objectivos que ajudam a ver o ditador português sobre um outro prisma. Este trabalho, desenvolvido numa linguagem que foge aos academismos, é uma referência já que cria bases para que, finalmente, consigamos olhar o Estado Novo e o Salazarismo de acordo com uma perspectiva mais objectiva. Nos seus defeitos e- heresia das heresias! - nas suas virtudes!

10/05/11

Tribalistas, por Gungunhana

Um dia destes vi um reality show televisivo que ultrapassa largamente a fronteira da idiotia - os vips na tribo ou os perdidos na tribo ou os burros na tribo, mais coisa menos coisa. A ideia é meter uns pseudo-distintos jet-sets tugas a viverem durante um mês entre tribos nativas de regiões tão distantes como a Etiópia ou um arquipélago algures no sudeste asiático ou assim.

Passo por cima da idiotia dos representantes da civilização tuga que os leva a falar em português com os nativos como se eles percebessem alguma coisa do que ouvem. O que me chamou a atenção é que este programa já está a desenvolver nos telespectadores um imbecil efeito de etnocentrismo. Já me aconteceu falar com uma ou duas pessoas que acham que aquela gente é realmente atrasada e que a nossa cultura é muito superior!

Ora isto é um perfeito disparate porque omite que aquilo que vemos na TV é um concurso, um reality show e que, portanto, aqueles primitivos não podem ser tidos como amostra representativa da sua cultura original. Presumir que o que vemos ali é um encontro - ou um choque - de culturas é disparatado pela simples razão que o lado de lá está a fingir e a representar tanto como o de cá. Quando os «primitivos» obrigam os homens-tugas a dormirem com o resto da tribo numa palhota, isso foi programado, não é, certamente, genuíno. Quando os chefes tribais falam com maus modos e dão ordens, em tom agressivo, áquela malta ou comparam as mulheres a porcos, fazem-no porque assim foram instruídos pela produção do programa que está interessada - pelo menos para já - em criar esse efeito de choque cultural.

Não sabemos como seria o encontro genuíno de um tuga mais ou menos bronco como o fernando mendes ou de uma aventesma como o castelo branco com uma tribo da Etiópia. Mas não seria decerto assim. Quem fala pela boca dos chefes da tribo é a produção do programa. Tudo o que vemos ali é artificial, um mero produto de fancaria que pretende confundir a ficção com a realidade. E, portanto, não há nada mais estúpido que encarar aquela coisa como um testemunho sociológico. É só um espantalho, nada mais que um espantalho.

02/05/11

A Noiva, por Cão

Aqui há uns anos, um rapaz e uma rapariga marcaram casamento. Trataram das coisas comuns que havia a tratar. Quanto às particulares, trataram-nas particularmente. Ela arranjou um vestido branco. Ele mandou fazer um fato noutra cidade. Um dia antes do domingo marcado, o noivo meteu-se no carro e foi buscar o fato. Nunca mais voltou.
Nunca mais voltou – não porque se tenha arrependido, desistido e fugido. Nunca mais voltou porque teve um acidente mortal na estrada. Em casa, solteira ainda e para sempre, a rapariga ria-se com as amigas experimentando as rendas brancas, o branco chapéu, a cauda nívea do vestido inicial.
Quando a notícia chegou com a morte pela mão, a rapariga viu-se sozinha numa praia com muito mais areia do que mar. Só se apercebeu do mar pelo som dentro da cabeça: uma espécie de asma eléctrica que se ouvia em espiral-dentro da cabeça, em espiral-dentro da cabeça, abafando o coração.
Desmaiou, levaram-na para a cama, chamaram um médico. Ninguém se lembrou de que ela continuava vestida de noiva. Conseguiram acordá-la por alguns instantes, o tempo suficiente para engolir dois comprimidos com um pouco de chá de folha de laranjeira. No dia seguinte, o domingo continuava marcado.
O sol cegava na cal da igreja. A multidão enegrecia de roupa a própria sombra. Rezada a missa de corpo presente, trouxeram a urna para a luz inclemente. As flores sufocavam o carro fúnebre. Então, alguém gemeu de surpresa. E depois o silêncio ferrou os colmilhos na multidão: ela tinha aparecido para acompanhar o funeral. Sempre vestida de noiva.
Ninguém sabia o que fazer, de modo que ninguém fez nada. Ela tinha um ar calmo. Aceitou um lugar no banco de trás do carro fúnebre e esperou. Já então, ela era especialista na difícil arte da espera que se chama desespero.
No fim do enterro, trouxeram-na para casa. A mães e as irmãs conseguiram que despisse por si mesma o vestido de casamento. Dobrou-o muito bem dobrado e guardou-o na caixa. Depois, guardou a caixa no armário alto. Guardou o chapéu na caixa própria. Depois, guardou também essa caixa. Sentou-se na cama e sorriu um pouco.
Ela celebra, até hoje, o aniversário do seu casamento. Veste-se de noiva e vai ao cemitério. Depois, volta para casa, despe-se sozinha, guarda o vestido na caixa, guarda a caixa no armário, guarda o chapéu na caixa, guarda a caixa no armário. E depois fica à espera dele mais um ano.


Rosário Breve nº 204- www.oribatejo.pt