11/07/11

Crónicas de Madrid 4, por Valderrama

No Thyssen revi como emoção este Cidade Velha de Egon Schiele. Este é um quadro notável. Acho-o profundamente humano e isso não tem só a ver com as suas qualidades intrínsecas. Acontece que o associo a uma cena comovente que uma vez aqui presenciei e que se acrescentou para sempre à minha memória deste quadro.

Foi há uns anos, eu estava sentado a observá-lo e eis que uma jovem e um casal dos seus 60 anos se aproximam. Inicialmente foi a rapariga que ficou a olhar o quadro com uma expressão feliz. Depois fica muito comovida e chama o casal, dizem qualquer coisa numa língua incompreensível e ficam os três durante uns momentos defronte da Cidade Velha de Schiele. Via-se que estavam claramente emocionados. Chegaram a chorar mas foram lágrimas que não me pareceram desesperadas, foi mais uma coisa nostálgica, como quando recordamos alguém, um amigo ou um familiar que perdemos.

Estamos habituados a emocionarmo-nos (até às lágrimas, por vezes) com uma música, um filme ou um romance. Mas não é tão comum que alguém chegue ao pé de um quadro e fique primeiro numa espécie de estado de contentamento que depois se resolve em lágrimas.Ainda hoje não posso ver A Cidade Velha sem me lembrar do poder que esta pintura exerceu sobre aquelas pessoas, quase como se o quadro fosse um reencontro ou uma porta da qual só eles possuíam a chave. É um dos meus preferidos do Thyssen e voltei outra vez a ficar fascinado a olhar para ele e a pensar naquela misteriosa família (os avós e a neta? Porque choravam? Por quem choravam? Porquê diante do quadro de Schiele?).

08/07/11

Tragicomédia em III actos, por Cão

Contaram-me esta, há anos já largos, como verdadeira. Partilho-a convosco porque é tão mais cómica quão, de base e de facto, trágica.

Uma portuguesíssima família da classe média foi de férias para o Algarve. Todos foram: pai & mãe, avó viúva & netos & cão. Escolheram, decerto por economia e bucolismo talvez, o campismo. A viagem para Sul correu bem. Havia lugar no parque. Armaram a tenda, assaram uma sardinhada, foram arrotar de calções para a praia mais perto, voltaram, assaram uma carapauzada, foram arrotar de calções para a esplanada mais perto, voltaram e ressonaram a primeira noite como anjos urbanos pacificados pela asma mista do mar e dos pinheiros. A tragédia só começou de manhã.

I ACTO: A avó amanheceu morta. Ninguém tinha dado por nada, nem sequer o cão. Pai & mãe mandaram os filhos comer gelados ao bufete do parque e puseram-se a conferenciar. Que as férias estavam estragadas. Que o raça da velha. Que uma coisa daquelas só a eles. Que a carreta fúnebre de lá de cima ir-e-vir ao/do Algarve haveria de ser uma fortuna. Etc. Vai disto, decidiram-se a embrulhar a defunta na barraca, a acondicionar tudo com cuidadinho no tejadilho do carro e a rumar para Norte sem tuge-nem-muge.

Alas que se não fez tarde, assim procederam.

II ACTO: Tendo parado pelo caminho num tasco de bifanas para restauro, retempero e refrigério, não demoraram mais de vinte minutos. Horror: à saída para o estacionamento, só deram com o lugar onde carro e avó os deveriam esperar. Pai & mãe mandaram os filhos comer gelados ao tasco e puseram-se a conferenciar. Tinham de participar à GNR. Como explicar a avó, não sabiam. Logo se veria.

III ACTO: O resto desta tragicomédia, sabe-o o meu leitor tão bem quanto eu. A analogia (para isso são escritas, representadas, vividas e repetidas as tragédias e comédias desta vida) é facílima: a) A viatura roubada faz de Assembleia da República; b) A família viva (cão incluído, naturalmente) é a parlamentar do PSD da era Passos Coelho; c) A avó morta (e embarracada) só pode ser (politicamente, está bem de ver) Fernando Nobre.

Cai o pano.

07/07/11

Crónicas de Madrid 3, por Cordobés

No sábado à noite jantamos no Extremadura no bairro da Chueca. Não foi a primeira nem a segunda escolha, mas dificilmente encontraríamos melhor. Primeiro tentámos a Gabinocoteca (http://feriadopessoal.wordpress.com/2010/10/26/la-gabinoteca-pra-comer-bem-e-divertido-em-madrid/), um must madrileno aconselhado em No Reservations, o mítico programa de Anthony Bourdain. Segundo Bourdain, aqui servem-se as melhores tapas de Madrid. Mas já devíamos prever que um restaurante aconselhado por um guru como Bourdain, torna-se imediatamente num local de romaria: não havia mesa disponível e o período de espera era de hora e meia!

Metemo-nos num táxi e rumámos até à Chueca, podia ser que tivéssemos mais sorte num outro must de cujo nome não me recordo mas que era a segunda referência do nosso Livingstone da degustação. Era quase meia noite e a cozinha estava a fechar. O empregado aconselhou-nos o Extremadura, no outro lado da rua e foi assim que lá fomos parar. Sorte a nossa, fomos cair num sítio de excelência (http://www.theplumpoyster.com/restaurants/where-i-like-to-eat/restaurants-spain/)

Sentámo-nos à mesa passava da meia noite (!!!) e fomos excepcionalmente servidos por uma equipa de profissionais. Acabámos de jantar à uma e tal. Espanha até nisto é diferente, não conheço muitos sítios onde nos servissem com esta magnificiência a uma hora tão tardia.

Não vou falar do paté nem da excelente perdiz, nem do cochinilho que papámos. Só queria destacar este vinho: Atteca de 2009 (http://www.verema.com/vinos/31428-atteca-2006), uma excelente pomada de Catalyud, região de Zaragoça, feito com uma casta rara, Garnacha, segundo o G. em vias de extinção. Disse o G. na hora sábia da escolha que estava a um preço acessível mas que é considerado um vinho difícil. Pois que venha, já não somos principiantes, foi o veredicto. E não nos arrependemos: um vinho com uma cor viva, brilhante, bem encorpado, um matulão de 15 graus e um sabor seco a frutos vermelhos muito maduros. Faz lembrar um baga com menos tanino e mais chocolate, não sei se estou a dizer alguma barbaridade… Mas acima de tudo fica a memória de um sabor novo e cru, a fugir à standardização de que padecem os vinhos actuais. Será que encontro este vinho em Portugal?

06/07/11

Crónicas de Madrid 2, por Manolete

No domingo de manhã fomos ao Thyssen. Como, tanto eu como o G. já tínhamos visitado duas vezes o Prado e o Rainha Sofia e apenas uma vez o Thyssen, resolvemos, por unanimidade e aclamação, empatar a contabilidade. É um museu fantástico, um dos meus preferidos, descubro sempre coisas novas. Desta vez, para lá dos nomes mais óbvios (os Goya, Van Gogh, Monet, Rubens, etc, etc), reparei numa série de quadros. E descobrimos um pintor espanhol de quem, ignorância das ignorâncias, nenhum de nós nunca antes tinha ouvido falar: António Lopez. A exposição relativa à sua obra estava esgotada o que foi mais ou menos desesperante, um gajo ali ao pé e não puder «tocar»… Repare-se como ele pinta a Gran Via, como se a grande avenida madrilena tivesse envelhecido de repente ou como se tivéssemos sido transportados para o futuro para, de lá, observarmos as ruínas da cidade tal como era em 2012, possivelmente depois de um um ataque nuclear. Espantoso efeito de anacronismo ou de viajem no tempo.

05/07/11

Crónica de Madrid 1, por Galo

Este fim de semana fomos a Madrid. Lá chegados, ainda de carro, vimos um indivíduo que vestia umas cuecas e uns suspensórios e calçava umas botas. Mais nada. Comentámos que a fauna nas grandes cidades era uma coisa do caraças. Mais à frente vimos grupos de mulheres bonitas com vestidos vaporosos. Depois vimos um diabo. Mais à frente dois anjinhos de mãos dadas. Comentámos que Madrid estava muito à frente desde a última vez em que qualquer um de nós ali tinha estado. Depois demos com a primeira rua cortada pela polícia. Depois com a segunda. Terceira, quarta. Começámos a desesperar (entretanto víamos agora bandos de drag queens. E um cow boy de collants). Mas só quando avistámos, ao longe, a plaza del sol completamente inundada por uma multidão impressionante e por bandeiras do arco íris é que percebemos o que estava a acontecer. Madrid estava literalmente sitiada por uma parada gay que contou, segundo li depois, com cerca de um a dois milhões de pessoas na rua! Todas as ruas estavam cortadas e demorámos duas horas a chegar ao hotel.


O que mais chama a atenção na multidão de pessoas que, literalmente, atulhou as avenidas, as praças e as ruas madrilenas, não é a sua identidade homossexual. É verdade que se vêm grupos de indivíduos depilados e musculados de t shirts apertadinhas a fazerem peitaça e pares incontáveis de barbudos a beijarem-se na boca. Mas, se observarmos bem, o traço identitário mais marcante daquela gente não é a sua homossexualidade mas a sua promiscuidade. Não uso esta palavra em sentido pejorativo: ela traduz um facto, o da mistura, o vale tudo, independentemente do seu sexo, do seu número, do que quer que seja. Porque não vemos só gays e lésbicas, vemos muitos heterossexuais, travestis, bissexuais e outras faunas. E, sobretudo, vemos grupos que estão claramente envolvidos, três mulheres meio nuas de mãos dadas, multidões venezianas que caminham para o mesmo baile de máscaras, grupos de homens e de mulheres autenticamente engalfinhados nos passeios. Talvez fosse mais correcto mudarem o nome: parada do vale tudo em vez de parada gay.

01/07/11

Discos que já ninguém ouve mas que são excelentes - Haircut 100, Pelican West: música de verão para ouvir em descapotável

Há quem classifique a música em função do tempo e do espaço. Brian Eno, por exemplo, compôs excelente música «para elevadores» e «para aeroportos» e existem, mesmo, casos de música para consultório de dentista. Assim como há música para o verão e para o inverno, para a manhã (de que o célebre here comes the sun dos Beatles é o exemplo mais claro)e para a noite (os Nocturnos de Chopin). Pois bem, os Haircut One Hundred inventaram, nem mais nem menos, música de verão para descapotável.

A banda de Nick Heyward é um ícone pop, melhor, da efemeridade do Pop. Só fizeram dois discos, Pelican West de 82 e Paint and Paint de 84. O segundo não é grande coisa e o primeiro não chega a ser um grande álbum. Mas tem canções fabulosas! Os Haircut One Hundred nunca fizeram um grande álbum. Mas fizeram meia dúzia de excelentes canções e valem por isso o que já não é pouco. As canções deles não foram feitas para resistir à poeira dos tempos. Pelo contrário, são singelos exemplos da nobre arte do efémero que é a Pop. Não fizeram mais que canções-bolas-de-sabão que são bonitas mas rebentam passado pouco tempo. Não há mal nenhum nisso. Há borboletas lindíssimas e nenhuma dura mais que escassos dias (em contrapartida bichos monstruosos como os cágados podem viver 200 anos).

Favourite Shirts, Love plus One (David Fincher, suprema ironia, incluiu-a na banda sonora de um filme tão dark e invernal como Seven), Fantastic day, Lemon Fire Brigade, continuam a ouvir-se como há trinta e tal anos, quando foram editadas. Re-descobri-as há pouco tempo, de verão, noto, como é forçoso. Agora falta-me o descapotável...

28/06/11

Dito com os nervos, por Cão

Só num país miserável é que um centro de saúde obriga os respectivos utentes a medirem a tensão na farmácia mais próxima, digo-o eu com os nervos.
Só um país infecto é que obriga um ex-primeiro-ministro a ir de fax estudar filosofia em “francês técnico” para Paris-de-França.
Só um país vazio é que dá tanta atenção a um acidente de automóvel tripulado por “celebridades” vácuas.
Só um país irresponsável é que tem no calendário uma época de incêndios tão certinha como a morte e os impostos.
Só um país bovino muda de ortografia como quem não muda de preservativo.
Só um país com 860 quilómetros de costa mata as pescas, Aníbal.
Só um país com tanta terra e tanto sol aniquila a reforma agrária, Barreto.
Só um país sem uma pinga de sangue nas fuças admite que a família do derradeiro director da PIDE possa processar um teatro e gente de bem por causa de uma peça que relembra os crimes torcionários da polícia política criada por esse morcego eunuco que se chamou Salazar.
Só um país sem cuecas nem parte da frente se abstém de tudo o que não seja o emprego da sobrinha, a cunha da cunhada, a fuga ao fisco, a escolaridade sem esforço, o empenho do anel, o garrote do dedo, a mariquice a tiracolo e a mãe que o teve atrás de uma moita.
Só um país inimputável é que aceita esperar 15483940593847 dias por uma cirurgia que tantas vezes significa essa desprezível diferença entre a vida e a morte.
Só um país irreciclável é que tem de trocar tampinhas de garrafas de plástico por cadeiras-de-rodas.
Só um país sem lei nem moral nem ética nem toga nem nada é que não investiga, não esclarece e não pune um grupo de candidatozecos de dentro a juízes de fora que copiançam à fartazana em testes “amaricanos” tipo nóvóportunidades.

Tenho por isso, Zé, de te dedicar em bom francês este fecho de crónica: Je ne crois pas du tout, mon petit rien, que tu sois capable d’entendre l’acceptable minimum d’un Althusser, d’un Greimas, d’un Foucault, d’un Camus, d’un Kierkegaard, d’un Schopenhauer, d’un Nietzsche, d’un Marx ou même d’un Tony Carreira version camembert tipo serra-da-estrela. Sais-tu pourquoi, pá ?
Parce que, lá-haut, à Paris, on n’achève jamais des cours au dimanche, que é como quem diz ao domingo.

22/06/11

O Inferno de Arenas, por Astaroth

O escritor cubano Reinaldo Arenas foi um dos muitos mártires do regime fascista instaurado por Fidel Castro. Foi perseguido, humilhado, brutalizado e martirizado pela cáfila castrista durante toda a vida. Por duas razões, ambas intoleráveis aos olhos do regime: era homossexual e «anti-revolucionário».

Arenas conseguiu publicar os seus romances no estrangeiro fazendo-os passar clandestinamente para fora de Cuba. Foi perseguido. O regime aproveitou o facto da sua homossexualidade assumida para o acusar de ofensas várias à moral e para o enviar para Forte del Morro e para Villamarin as piores prisões do regime, submetendo-o a torturas dignas do pior catálogo da Pide. Arenas não cedeu e conservou até ao fim o sentido da sua dignidade.

Conseguiu fugir para Miami metido na confusão vergonhosa que foi a deportação de milhares de cubanos na sequência do escândalo da embaixada do Peru (e como pôde Garcia Marquez, que Arenas apelida de «hipócrita», apoiar Castro em mais essa infâmia?). Anos mais tarde, acabaria por morrer, vítima da Sida. Tornou-se um símbolo de coragem e resistência, era o anti-homem -novo, o anti-cristo do comunismo castrista. Tornou-se também um símbolo da inteligência corajosa capaz de pagar com o sofrimento de toda uma vida a denúncia da opressão - Arenas, como Cabrera-Infante, Heberto Padilla ou Zoè Valdés são, nesta matéria, o oposto dos grandes escritores de «prato cheio» que, apesar de toda a sua grandeza, não souberam ou não quiseram ver para lá da propaganda - Sartre e Beauvoir, Régis Debray, Garcia Marquez, Alejo Carpentier, todos eles branqueadores do regime...

Antes que Anoiteça começou a ser escrito muitos anos antes da sua publicação. É um romance (na realidade é a narrativa auto biográfica do autor) duro e cru. Arenas conta que lhe chamou assim porque começou a escrevê-lo numa fase em que vivia como um sem abrigo, escondido dos esbirros da polícia, no parque Lenine em Havana. Escrevia enquanto tinha luz. E assim que a noite caía via-se obrigado a parar. Depois, já no fim da vida, com um diagnóstico de sida que lhe dava um ano de vida, Arenas percebeu que o título ganhara um novo alcance simbólico: escrever ainda e sempre Antes que Anoiteça, isto é antes que a morte viesse e o impedisse de terminar este seu testamento literário. A Noite veio, enfim, em Dezembro de 1990, mas o livro ficou, um dos mais trágicos que alguma vez li.

20/06/11

Tropa de Elite 2 - Portugal 2010, por Taporware


Fui vê-lo já há uns tempos mas ainda deixo aqui algumas impressões sobre o filme. Tropa de Elite 2 de José Padilha é a continuação da primeira saga do capitão Nascimento. Editado em 2010, tornou-se no maior sucesso de bilheteira de sempre de um filme nacional no país irmão com mais de duas dezenas de milhões de espectadores! Claramente dirigido ao universo brasileiro, é, no entanto, curioso o seu visionamento a partir da perspectiva portuguesa. Isto é, visto por por portugueses em pleno 2010, TP2 ganha, subitamente, uma actualidade impressionante. Vê-se TP2 e não se está pensar no Brasil - pensa-se em Portugal, neste Portugal em que vivemos (ou vivíamos).

TP2 é uma espécie de radiografia dura e crua da corrupção e da sua forma orgânica e tentacular. Esta é apresentada como uma espécie de jogo de matriuscas que começa nos interesses do traficante mais miserável, estende-se até ao policiazeco metido no esquema, alastra até ao chefe da esquadra, passa pela conivência do jornalista comprado, chega ao ministério da segurança, aos deputados estaduais e atinge até o governador. Todos umbilicalmente ligados numa teia tenebrosa. O filme passa-se no Rio de Janeiro, mas é óbvio que, visto do lado de cá do atlântico, não parece assim tão longínquo.

Compreende-se porque razão o capitão Nascimento (Wagner Moura) se tornou o maior fenómeno de popularidade recente do Brasil. Este John Wayne tropical tardio é uma espécie de ajuste de contas simbólico com o sistema corrupto e com a criminalidade insana que tem/tinha o Brasil refém.
TP2 centra-se na velha questão ética dos meios e dos fins - como vencer o crime e a corrupção? Poderão os meios violentos do BOP justificar os seus fins de combate ao crime? O capitão Padilha, qual justiceiro numa cidade do faroeste sitiada por bandidos, não recua perante nada e o certo é que, a julgar pelo sucesso estrondoso do filme, os seus métodos são ratificados pelo cidadão brasileiro comum. E cá? A julgar pela algazarra que se ouvia na sala aquando dos ajustes de contas com a mafia, eu diria que o capitão Padilha também cá dava jeito.

17/06/11

Discos que já ninguém ouve mas que são excelentes:Talking Heads e Brian Eno- Fear of Music

Fear of Music (juntamente com o posterior Remain in Light também produzido por Brian Eno) é o melhor disco dos Talking Heads. Até aqui eles não passavam de uma banda pop - ainda que excelente - , mas com Fear of Music alcançam um patamar estratosférico, passeando-se pelas sonoridades planantes da música electrónica, do ambientalismo e da música étnica. Ao contrário do trabalhos anteriores da banda de Byrne, o disco ouve-se pela sonoridade e não só pelo brilho pop das canções. O que é que provocou esta mudança? Pois é, o genial Eno foi o produtor do disco e revolucionou a música dos Heads. Nada que não se repetisse ao longo dos tempos - fez o mesmo com Bowie, com os U2 ou com David Byrne no mítico My Life in the Bush of Ghosts...

06/06/11

ALELUIA! ALELUIA! ALELUIA!, por Roberto Fripó

FINALMENTE! Portugal livrou-se do pior primeiro ministro de que há memória na vida democrática portuguesa ( e a nossa sorte foi ter levado com ele já depois do 25 de Abril...). Politicamente, o ingenheiro era um embuste, o protótipo perfeito do político de carreira que nunca fez nada - nem em termos académicos nem profissionais - para além de andar desde pequenino na politiquice. Aliás quando se fala na sua vida académica pensamos na famigerada licenciatura; e quando pensamos na sua vida profissional pensamos em quê? Pois, nas casinhas...

O sucesso deste homem sempre foi para mim um mistério. Digo sempre e digo bem. Desde os seus primeiros aparecimentos públicos que achei que o homem era risível. Nunca vi nada nele que o distinguisse do vulgar político do interior profundo que, quando muito, podia fazer sucesso como candidato à junta de freguesia da terra. Nisso enganei-me, infelizmente. Quando o vi candidato a secretário geral do ps devo ter rido à gargalhada - para mim não seria muito diferente da candidatura do tino de rãs, sempre vestiu bem melhor, é certo... Mas imaginem o meu espanto quando vejo zé socrates a ser eleito secretário geral do ps! palavra: não acreditei! Achei que o ps caminhava alegremente para o suicídio político e que aquele equívoco não poderia durar muito tempo. Durou seis anos!

Agora, tanto tempo depois e após ter deixado o país neste estado lastimável, vejo que acertei tanto quanto me enganei em relação à personagem. Enganei-me - porque não pensei que um político medíocre, sem consistência,sem convicções, sem cultura, sem curriculum académico e profissional, mal relacionado e com um histórico duvidoso pudesse chegar onde chegou. Enganei-me porque sempre pensei que uma boa agência de propaganda - que ele sempre teve - aliada àquilo que alguns chamam uma «notável capacidade de comunicação» (e a que eu chamo capacidade de fantasiar) pudessem ser suficientes. Aqui enganei-me, de facto, profundamente, eu que nunca quis acreditar que «vender um político ou um sabonete é exactamente a mesma coisa».

Mas acertei em cheio quando, ainda este indivíduo era um mero secretário de estado do ambiente, vi que estava perante um impreparado para gerir a coisa pública. Acertei em cheio quando, desde o primeiro dia, percebi que este homem era perigoso, que ainda íamos pagar caro a sua ambição pessoal. Tive razão e oxalá não tivesse tido, para bem de todos nós...

Ontem, FINALMENTE, os portugueses abriram a pestana e meteram-no a andar, como ele mereceu. Foi preciso que sentissem no bolso a sua acção incompetente e irresponsável. Mas há muito que a sua falta de credibilidade justificava a demissão. Somos um povo de compreensão mais lenta que o normal, mas prontos, mais vale tarde que nunca, o que importa é que as pessoas foram capazes de perceber ao fim de longos seis anos quem era esta gente que nos governava.

Zé socrates conseguiu assim realizar o velho sonho de Sá Carneiro: uma maioria, um governo, um presidente. PSD e CdS agradecem-lhe! Nem Durão, nem Santana, nem Cavaco o conseguiram. Milhares e milhares de portugueses viram-se obrigados a votar no psd e no cds porque, simplesmente, estavam em pânico com a perspectiva do ingenheiro ganhar as eleições. Socrates conseguiu fazer baixar o ps abaixo do nível santana lopes - é obra e é bem feito para um partido que se tornou numa espécie de coreia do norte em versão partidária.

Até na hora da saída este homem foi igual a si próprio. Nem na derrota largou o tele-ponto! Falou durante quarenta minutos, qual Fidel Castro, representando (digo bem: representando)um discurso centrado no seu tema preferido: ele próprio e a sua enorme, galáctica, incomensurável grandeza! O discurso estava antecipadamente redigido e preparado para este cenário e sócrates limitou-se a representá-lo - coisa que aliás faz muito bem. Antevi portugueses a ficarem de lágrima ao canto do olho com pena do grande líder injustiçado. Afinal havia que começar, desde logo, a preparar o futuro. Pode Zelig ser autêntico?

No meio daquela encenação (mais uma: o teatro é a sua essência mais profunda) uma coisa falhou: o fiel Luís («Ó Luís fico melhor assim ou assim?») desta vez parece tê-lo abandonado. Não previu bem os efeitos cénicos de discursar durante quarenta minutos na cave de um hotel e o «animal feroz», desta vez, suava em bica e limpava a testa com a mão. Suava, suava, suava mas os «animais ferozes» não suam assim.

05/06/11

Correr com eles!, por Cicuta

Nestas eleições a principal questão é muito simples: correr com o socas e sus muchachos! É claro que há outras muito importantes. Mas nada poderá ser feito se, antes, não arrancarmos estas lapas que se agarraram ao poder. Esqueçam os preconceitos ideológicos e concentrem-se apenas nisto: qual o melhor voto para correr com esta doença que enfermou Portugal? O país não pode aguentar mais quatro anos do bancarrota. Agora ponham-se com paleio de chacha, tipo eu sou de esquerda e de direita e do benfica e do sporting e do lourosa, dispersem os votos e depois venham queixar-se.
Há um abismo de divergências entre todos os que já não podem ver esta maltosa à frente, eu sei... Mas deixem isso para depois. Neste momento a questão principal é só uma: correr com eles!

02/06/11

Quem é Este gajo?, por Mister X

O célebre quadro de Rafael, A Escola de Atenas, sempre suscitou grande controvérsia acerca da identificação das personagens nele retratadas. Por exemplo, o gajo do pic de cima que aparece num dos planos mais centrais da pintura é identificado na maior parte dos sites que consultei como sendo o grande Heraclito, o Obscuro, talvez o maior de todos os pré-socráticos. Essa é, de resto, a opinião mais comum: a figura representa o carácter taciturno e solitário de Heraclito que foi, efectivamente, enquanto filósofo um aristocrata anti-social.

No entanto em A História da Beleza (Difel, 2002), uma obra coordenada por uma sumidade tão prestigiada como Umberto Eco, diz-se claramente na p. 226 que a referida figura é o geómetra Euclides. Girolamo de Michele, autor do texto, interpreta assim este presumível Euclides:

«O homem barroco que aqui se prenuncia, indaga as bibliotecas e os livros e, já melancólico, deixa cair a ferramenta ou segura-a inactiva entre as mãos».

Este pretenso Euclides representa, pois, a melancolia do barroco que tem raiz na «ferida narcísica» (Freud) infligida ao ego humano com a revolução coperniciana e com os desenvolvimentos seguintes das ciências físicas e astronómicas. O homem do Barroco espanta-se ao descobrir que, afinal, não é o centro nem o senhor do universo, mas um ponto insignificante na imensidão cósmica. Paradoxalmente é o progresso do saber que produz a própria crise do saber. A figura retratada por Rafael, não por acaso um matemático, não por acaso Euclides, representaria, assim, a melancolia aberta por esta fenda narcísica.

Fico, pois, na dúvida: afinal quem é este gajo? Heraclito como sempre se disse? Ou Euclides? É que num livro coordenado por um génio como Eco, esta assumpção de que o gajo é Euclides não pode ser um erro inocente nem um desleixo. Eco e Michele hão-de ter alguma razão para discordar da interpretação corrente que atribui a identidade do «gajo» a Heraclito, embora nada digam sobre isso. Eu é que acabo por ficar na dúvida: Heraclito ou Euclides? E, no caso de ser mesmo Euclides, quem será o outro personagem que aparece no pic aqui mais abaixo a quem se atribui pacificamente a identidade, aqui sim, de Euclides?