13/07/11

Crónicas de madrid 5, por Pata Negra

Ainda por cima, logo a seguir à Cidade Velha, está uma pintura mais simbolista de Eduard Munch. O quadro, um dos poucos de Munch que se encontram fora da Noruega, chama-se Atardecer. Laura, la hermana del artista (1888) e nele uma rapariga, pintada num primeiro plano deliberadamente exagerado, olha com um ar perdido para lugar nenhum. Ao fundo uma sugestão onírica de encontro. Uma jovem, um casal ao fundo, como o trio comovido diante do quadro de Egon Schiele. Não há dúvida: este bocado do Thyssen é o meu metro e meio preferido de todo o museu!

11/07/11

Crónicas de Madrid 4, por Valderrama

No Thyssen revi como emoção este Cidade Velha de Egon Schiele. Este é um quadro notável. Acho-o profundamente humano e isso não tem só a ver com as suas qualidades intrínsecas. Acontece que o associo a uma cena comovente que uma vez aqui presenciei e que se acrescentou para sempre à minha memória deste quadro.

Foi há uns anos, eu estava sentado a observá-lo e eis que uma jovem e um casal dos seus 60 anos se aproximam. Inicialmente foi a rapariga que ficou a olhar o quadro com uma expressão feliz. Depois fica muito comovida e chama o casal, dizem qualquer coisa numa língua incompreensível e ficam os três durante uns momentos defronte da Cidade Velha de Schiele. Via-se que estavam claramente emocionados. Chegaram a chorar mas foram lágrimas que não me pareceram desesperadas, foi mais uma coisa nostálgica, como quando recordamos alguém, um amigo ou um familiar que perdemos.

Estamos habituados a emocionarmo-nos (até às lágrimas, por vezes) com uma música, um filme ou um romance. Mas não é tão comum que alguém chegue ao pé de um quadro e fique primeiro numa espécie de estado de contentamento que depois se resolve em lágrimas.Ainda hoje não posso ver A Cidade Velha sem me lembrar do poder que esta pintura exerceu sobre aquelas pessoas, quase como se o quadro fosse um reencontro ou uma porta da qual só eles possuíam a chave. É um dos meus preferidos do Thyssen e voltei outra vez a ficar fascinado a olhar para ele e a pensar naquela misteriosa família (os avós e a neta? Porque choravam? Por quem choravam? Porquê diante do quadro de Schiele?).

08/07/11

Tragicomédia em III actos, por Cão

Contaram-me esta, há anos já largos, como verdadeira. Partilho-a convosco porque é tão mais cómica quão, de base e de facto, trágica.

Uma portuguesíssima família da classe média foi de férias para o Algarve. Todos foram: pai & mãe, avó viúva & netos & cão. Escolheram, decerto por economia e bucolismo talvez, o campismo. A viagem para Sul correu bem. Havia lugar no parque. Armaram a tenda, assaram uma sardinhada, foram arrotar de calções para a praia mais perto, voltaram, assaram uma carapauzada, foram arrotar de calções para a esplanada mais perto, voltaram e ressonaram a primeira noite como anjos urbanos pacificados pela asma mista do mar e dos pinheiros. A tragédia só começou de manhã.

I ACTO: A avó amanheceu morta. Ninguém tinha dado por nada, nem sequer o cão. Pai & mãe mandaram os filhos comer gelados ao bufete do parque e puseram-se a conferenciar. Que as férias estavam estragadas. Que o raça da velha. Que uma coisa daquelas só a eles. Que a carreta fúnebre de lá de cima ir-e-vir ao/do Algarve haveria de ser uma fortuna. Etc. Vai disto, decidiram-se a embrulhar a defunta na barraca, a acondicionar tudo com cuidadinho no tejadilho do carro e a rumar para Norte sem tuge-nem-muge.

Alas que se não fez tarde, assim procederam.

II ACTO: Tendo parado pelo caminho num tasco de bifanas para restauro, retempero e refrigério, não demoraram mais de vinte minutos. Horror: à saída para o estacionamento, só deram com o lugar onde carro e avó os deveriam esperar. Pai & mãe mandaram os filhos comer gelados ao tasco e puseram-se a conferenciar. Tinham de participar à GNR. Como explicar a avó, não sabiam. Logo se veria.

III ACTO: O resto desta tragicomédia, sabe-o o meu leitor tão bem quanto eu. A analogia (para isso são escritas, representadas, vividas e repetidas as tragédias e comédias desta vida) é facílima: a) A viatura roubada faz de Assembleia da República; b) A família viva (cão incluído, naturalmente) é a parlamentar do PSD da era Passos Coelho; c) A avó morta (e embarracada) só pode ser (politicamente, está bem de ver) Fernando Nobre.

Cai o pano.

07/07/11

Crónicas de Madrid 3, por Cordobés

No sábado à noite jantamos no Extremadura no bairro da Chueca. Não foi a primeira nem a segunda escolha, mas dificilmente encontraríamos melhor. Primeiro tentámos a Gabinocoteca (http://feriadopessoal.wordpress.com/2010/10/26/la-gabinoteca-pra-comer-bem-e-divertido-em-madrid/), um must madrileno aconselhado em No Reservations, o mítico programa de Anthony Bourdain. Segundo Bourdain, aqui servem-se as melhores tapas de Madrid. Mas já devíamos prever que um restaurante aconselhado por um guru como Bourdain, torna-se imediatamente num local de romaria: não havia mesa disponível e o período de espera era de hora e meia!

Metemo-nos num táxi e rumámos até à Chueca, podia ser que tivéssemos mais sorte num outro must de cujo nome não me recordo mas que era a segunda referência do nosso Livingstone da degustação. Era quase meia noite e a cozinha estava a fechar. O empregado aconselhou-nos o Extremadura, no outro lado da rua e foi assim que lá fomos parar. Sorte a nossa, fomos cair num sítio de excelência (http://www.theplumpoyster.com/restaurants/where-i-like-to-eat/restaurants-spain/)

Sentámo-nos à mesa passava da meia noite (!!!) e fomos excepcionalmente servidos por uma equipa de profissionais. Acabámos de jantar à uma e tal. Espanha até nisto é diferente, não conheço muitos sítios onde nos servissem com esta magnificiência a uma hora tão tardia.

Não vou falar do paté nem da excelente perdiz, nem do cochinilho que papámos. Só queria destacar este vinho: Atteca de 2009 (http://www.verema.com/vinos/31428-atteca-2006), uma excelente pomada de Catalyud, região de Zaragoça, feito com uma casta rara, Garnacha, segundo o G. em vias de extinção. Disse o G. na hora sábia da escolha que estava a um preço acessível mas que é considerado um vinho difícil. Pois que venha, já não somos principiantes, foi o veredicto. E não nos arrependemos: um vinho com uma cor viva, brilhante, bem encorpado, um matulão de 15 graus e um sabor seco a frutos vermelhos muito maduros. Faz lembrar um baga com menos tanino e mais chocolate, não sei se estou a dizer alguma barbaridade… Mas acima de tudo fica a memória de um sabor novo e cru, a fugir à standardização de que padecem os vinhos actuais. Será que encontro este vinho em Portugal?

06/07/11

Crónicas de Madrid 2, por Manolete

No domingo de manhã fomos ao Thyssen. Como, tanto eu como o G. já tínhamos visitado duas vezes o Prado e o Rainha Sofia e apenas uma vez o Thyssen, resolvemos, por unanimidade e aclamação, empatar a contabilidade. É um museu fantástico, um dos meus preferidos, descubro sempre coisas novas. Desta vez, para lá dos nomes mais óbvios (os Goya, Van Gogh, Monet, Rubens, etc, etc), reparei numa série de quadros. E descobrimos um pintor espanhol de quem, ignorância das ignorâncias, nenhum de nós nunca antes tinha ouvido falar: António Lopez. A exposição relativa à sua obra estava esgotada o que foi mais ou menos desesperante, um gajo ali ao pé e não puder «tocar»… Repare-se como ele pinta a Gran Via, como se a grande avenida madrilena tivesse envelhecido de repente ou como se tivéssemos sido transportados para o futuro para, de lá, observarmos as ruínas da cidade tal como era em 2012, possivelmente depois de um um ataque nuclear. Espantoso efeito de anacronismo ou de viajem no tempo.

05/07/11

Crónica de Madrid 1, por Galo

Este fim de semana fomos a Madrid. Lá chegados, ainda de carro, vimos um indivíduo que vestia umas cuecas e uns suspensórios e calçava umas botas. Mais nada. Comentámos que a fauna nas grandes cidades era uma coisa do caraças. Mais à frente vimos grupos de mulheres bonitas com vestidos vaporosos. Depois vimos um diabo. Mais à frente dois anjinhos de mãos dadas. Comentámos que Madrid estava muito à frente desde a última vez em que qualquer um de nós ali tinha estado. Depois demos com a primeira rua cortada pela polícia. Depois com a segunda. Terceira, quarta. Começámos a desesperar (entretanto víamos agora bandos de drag queens. E um cow boy de collants). Mas só quando avistámos, ao longe, a plaza del sol completamente inundada por uma multidão impressionante e por bandeiras do arco íris é que percebemos o que estava a acontecer. Madrid estava literalmente sitiada por uma parada gay que contou, segundo li depois, com cerca de um a dois milhões de pessoas na rua! Todas as ruas estavam cortadas e demorámos duas horas a chegar ao hotel.


O que mais chama a atenção na multidão de pessoas que, literalmente, atulhou as avenidas, as praças e as ruas madrilenas, não é a sua identidade homossexual. É verdade que se vêm grupos de indivíduos depilados e musculados de t shirts apertadinhas a fazerem peitaça e pares incontáveis de barbudos a beijarem-se na boca. Mas, se observarmos bem, o traço identitário mais marcante daquela gente não é a sua homossexualidade mas a sua promiscuidade. Não uso esta palavra em sentido pejorativo: ela traduz um facto, o da mistura, o vale tudo, independentemente do seu sexo, do seu número, do que quer que seja. Porque não vemos só gays e lésbicas, vemos muitos heterossexuais, travestis, bissexuais e outras faunas. E, sobretudo, vemos grupos que estão claramente envolvidos, três mulheres meio nuas de mãos dadas, multidões venezianas que caminham para o mesmo baile de máscaras, grupos de homens e de mulheres autenticamente engalfinhados nos passeios. Talvez fosse mais correcto mudarem o nome: parada do vale tudo em vez de parada gay.

01/07/11

Discos que já ninguém ouve mas que são excelentes - Haircut 100, Pelican West: música de verão para ouvir em descapotável

Há quem classifique a música em função do tempo e do espaço. Brian Eno, por exemplo, compôs excelente música «para elevadores» e «para aeroportos» e existem, mesmo, casos de música para consultório de dentista. Assim como há música para o verão e para o inverno, para a manhã (de que o célebre here comes the sun dos Beatles é o exemplo mais claro)e para a noite (os Nocturnos de Chopin). Pois bem, os Haircut One Hundred inventaram, nem mais nem menos, música de verão para descapotável.

A banda de Nick Heyward é um ícone pop, melhor, da efemeridade do Pop. Só fizeram dois discos, Pelican West de 82 e Paint and Paint de 84. O segundo não é grande coisa e o primeiro não chega a ser um grande álbum. Mas tem canções fabulosas! Os Haircut One Hundred nunca fizeram um grande álbum. Mas fizeram meia dúzia de excelentes canções e valem por isso o que já não é pouco. As canções deles não foram feitas para resistir à poeira dos tempos. Pelo contrário, são singelos exemplos da nobre arte do efémero que é a Pop. Não fizeram mais que canções-bolas-de-sabão que são bonitas mas rebentam passado pouco tempo. Não há mal nenhum nisso. Há borboletas lindíssimas e nenhuma dura mais que escassos dias (em contrapartida bichos monstruosos como os cágados podem viver 200 anos).

Favourite Shirts, Love plus One (David Fincher, suprema ironia, incluiu-a na banda sonora de um filme tão dark e invernal como Seven), Fantastic day, Lemon Fire Brigade, continuam a ouvir-se como há trinta e tal anos, quando foram editadas. Re-descobri-as há pouco tempo, de verão, noto, como é forçoso. Agora falta-me o descapotável...