- Amigo, quanto nos cobras até à fábrica dos Partagás? - 8 pesos - disse ele, um valor estapafúrdio para a distância a percorrer. - É muito, amigo. Vim de coco-táxi desde a praça da revolução por 6 pesos e ainda são uns bons kilómetros... Acordámos em 3 pesos, um preço óptimo para ele.
A viagem de bicitáxi até à fábrica de charutos Partagás pareceu-me durar horas e distar kilómetros, apesar do percurso não ser de mais que 500 metros. O homem da bicicleta transpirava e bufava de esforço sob o inclemente sol dos trópicos e o riquexó praticamente parava nas subidas. Eu fiquei atordoado e já nem conseguia olhar para os belos edifícios decadentes de Havana nem para os fabulosos cadillacs, fords e ladas dos anos 50 que se cruzavam connosco. Olhava para o homem e sentia-me envergonhado de me deslocar assim. Parecia-me que era a cidade que me via, capitalista explorador, e não eu que a via a ela.
- Quer que desçamos? - disse-lhe numa subida mais íngreme. Que não, respondeu-me com orgulho profissional e continuou a pedalar.
Chegados ao destino deixei-lhe 5 pesos em vez dos 3 combinados e ele agradeceu-me com um polegar ao alto e um sorriso de orelha a orelha, mas jurei que nunca mais andava numa coisa daquelas. O que talvez não seja mais que uma resolução egoísta da minha parte: afinal de contas, se mais ninguém se deslocasse de riquexó de que viveriam milhares de cubanos que alugam a força das suas pernas pelas ruas de Havana?
Atravesso a ilha, de Varadero, no estreito da Florida, até Trinidade, património mundial da humanidade, no outro lado da ilha, em cima do mar Caribe. Toda a paisagem está impregnada de cartazes com citações revolucionárias. Frases de Fidel, de Raul, de Che, de Camilo ou simplesmente de lugares comuns do ideário comunista:
«O sacrifício pela revolução não é um acto de heroismo mas o dever de todo o cubano»; «Trabalha mais e critica menos» (Che), à entrada de uma plantação de cana, a roçar, perigosamente, o célebre Arbeit Macht Frei; «Fomos, somos e seremos socialistas»; «Temos a obrigação de vencer»; «Cana: tradição, cultura e identidade»; «Playa de Girón: cemitério do imperialismo»; «Serra de Escambray: berço da revolução» e o omnipresente «Hasta la victoria siempre»...
Sinal curioso, este superpovoamento da paisagem real com os dizeres ideológicos... Como se houvesse necessidade de forçar a realidade a explicar-se, até mesmo de negá-la, impondo-lhe legendas e, com elas, a Leitura do que se vê. Esta impregnação ideológica da paisagem ensina-nos a ver: não, não são kilómetros e kilómetros de campos de cana o que vês à tua esquerda, à tua direita, à frente e atrás, mas «a nossa cultura, a nossa identidade a nossa tradição» (mas que tradição? A da escravatura dos escravos haitianos? Que cultura? A do trabalho de sol a sol sem descanso nem direitos? Que identidade? A das máscaras de estanho que os senhores da fincas colocavam aos escravos para que estes não comessem o açúcar enquanto trabalhavam no corte? Ou a dos trabalhos forçados dos presos políticos do regime castrista?). Não, não estás a ver um povoado miserável nem crianças andrajosas que brincam em poças de lama da água da chuva - o que estás a ver é antes a resistência do povo cubano que recusa e recusará sempre render-se ao imperialismo. Como é seu dever...
A impregnação ideológica da paisagem cubana é um dos sinais mais evidentes da esquizofrenia do regime. A realidade virtual em Cuba não tem nada a ver com computadores (de facto, em Cuba há sites e fóruns proibidos e a internet é mais lenta que a máquina a vapor). Pelo contrário, é ao longo dos campos da imensa paisagem rural cubana que melhor compreendemos o que é realidade virtual em todo o seu esplendor alucinante. A saturação ideológica da paisagem rural cubana faz lembrar o universo Matrix em versão low-tech. De Varadero a Trinidad parece que ressoa por toda a paisagem a célebre frase dita por Morpheus a Neo: «Bem Vindo ao Deserto do Real»!
Um dos maiores mistérios da história recente de Cuba é o chamado «internacionalismo cubano». Que poderosa razão terá justificado a mobilização para África de cerca de 200 000 cubanos só entre 1975 e 1991 (como se sabe a presença de tropas cubanas em África, desde logo, a partir de 1963, é uma realidade embora não tão expressiva)?
Che Guevara e o seu Comando Um foram os pioneiros na Argélia, mas durante a guerra civil angolana (75-91) os números são de, facto, avassaladores. Argélia, Guiné Bissau e Guiné Conakry, Congo, S. Tomé e Príncipe, Angola, Etiópia,todos receberam milhares de tropas de Fidel para lutar pela «nobre causa do comunismo universal». Como é natural morreram milhares de cubanos nesta epopeia, principalmente na guerra civil angolana, mas os números oficiais são simplesmente ridículos. Por exemplo, o eminente sociólogo da universidade de Havana, Piero de Gleijeses, numa investigação (?) com o sugestivo título de «Cuba e África: a causa mais bonita», diz que apenas 2077 cubanos perderam a vida em Angola entre 75 e 91! E mais 200 noutra partes de África, principalmente na Etiópia!!! (Gleijeses, Cuba e Angola, Ciencias Sociales, 2007, p.68). Como estudo imparcial estamos conversados. A verdade é que, pelo contrário, a chaga do morticínio de cubanos nas guerras africanas continua muito presente na população, como qualquer turista pode perceber desde que consiga levar o cidadão comum a falar nisso.
Segundo este eminente investigador, a principal razão que terá levado os cubanos a engrossarem o contingente angolano do MPLA terá sido, pasme-se, o idealismo, a generosidade, a vontade férrea e genuína de lutarem pela «causa mais bonita» do comunismo universal. Ele chega a defender que os soldados cubanos iam de livre vontade combater para África e que eram entrevistados antes da mobilização, podendo trocar o serviço militar em Angola por serviço no país! Gleijeses defende ainda que Fidel nunca foi um fantoche da URSS, longe disso... Pelo contrário antecipou-se aos soviéticos em várias ocasiões e terá chegado a liderar o processo de envio de tropas para Angola.
É incrível que uma tamanha mistificação ideológica assuma tão despudoradamente a capa da «investigação sociológica»! Isto é como defender que a expansão portuguesa ultramarina se deveu a puras e simples razões de missionarismo religioso. A terminologia usada no livro acima citado também é curiosa: a presença de tropas cubanas em angola ao lado do MPLA é designada, eufemisticamente, de «internacionalismo cubano». Já o contingente de tropas sul-africanas que lutaram ao lado do FNLA e da UNITA merece entre outros, epítetos como «invasores sul-africanos», «tropas racistas», «exército de racistas e de mercenários portugueses», etc, etc...
Na realidade as motivações do «internacionalismo cubano» são bem mais prosaicas do que as altas motivações invocadas por Gleijeses. Basta recordarmos o facto de Cuba ter sido, até à Perestroika, a menina bonita da URSS. Durante décadas os russos injectaram fortunas colossais na ilha: construíram estradas, desenvolveram a indústria, a educação, a saúde, exportaram sementes e máquinas agrícolas, armas e outros bens materiais. Não por capricho mas porque, no contexto da guerra fria, o valor simbólico-ideológico e estratégico de Cuba justificavam este investimento. A ilha de Fidel, pretendiam os russos, deveria funcionar como uma espécie de paraíso socialista no quintal da América (hoje há uma espécie de inversão deste simbolismo: Cuba funciona, para os USA, como exemplo da falência comunista mesmo ali ao lado). Nos anos 70-80 Cuba tornou-se uma bandeira da capacidade comunista. No desporto olímpico, por exemplo, os Cubanos foram verdadeiros papa-medalhas durante estas décadas (agora não há dinheiro para bolas nem sequer para alimentação e os estádios estão decadentes). O cabaz alimentar made in URSS distribuído pela regime de Castro era, então,cerca de cinco vezes maior do que é hoje, entregues que estão os cubanos aos seus próprios recursos.
Mas, obviamente, toda esta generosidade do irmão russo tinha contrapartidas. À boa maneira capitalista, as dádivas tinham que ser pagas. E como? Mediante a mobilização e recrutamento de carne cubana para canhão fornecida pelo regime de Fidel Castro para ir combater nas guerras africanas longínquas que os soviéticos travavam no contexto da guerra fria. É cristalino: em troca dos apoios russos que fizeram de Cuba um exemplo de «sucesso socialista», Fidel, numa operação que só pode ter sido negociada, exportou milhares e milhares de compatriotas para lutarem, principalmente, em Angola. Os russos forneceram a tecnologia, as armas, o treino e os quadros militares; os cubanos a carne para canhão (com a vantagem acrescida da maior afinidade racial com os africanos).
Os cubanos actuais questionam-se ainda hoje acerca do absurdo que foi terem sido mandados combater para países tão estranhos e distantes. E choram as suas perdas familiares - a guerra de Angola, lá como cá, também foi uma tragédia para as famílias cubanas, embora mitigada pela barragem ideológica do regime. A história é, muitas vezes, irónica: de 1961 a 1974 milhares de portugueses perderam as suas vidas nas guerras coloniais. Um ano depois do 25 de Abril de 1974, o primeiro contingente cubano de 36 000 homens (dados de Gleijeses) entrava em Angola para lutar ao lado do MPLA. De 75 a 91 morreram em Angola milhares de Cubanos deixando uma chaga bem viva nesta sociedade.
Muitos portugueses ( e muitos outros não), ao menos, deram a vida pela defesa de uma terra que acreditavam - bem ou mal - ser sua. Mas os cubanos que lutaram em Angola nem essa ilusão tinham e nunca chegaram a perceber bem (como ainda hoje não percebem) porque é que estavam a morrer nas terras longínquas de África. Os portugueses - muitos deles - deram a vida por uma terra que acreditavam ser sua - os cubanos, mais prosaicamente, por um cabaz familiar made in URSS.
O quadro Mundo Soñado (1995) do pintor cubano Tonel ocupa um lugar de destaque no Museu Nacional de Cuba. O quadro de 270x480 constitui um bom exemplo do sonho internacionalista cubano, mas a realizar-se de facto, constituiria um autêntico pesadelo mundial. Tonel construiu um mapa mundo a partir de réplicas com a forma da ilha, entendidas, portanto, como uma espécie de sintagma (é pena que nem na net se encontrem imagens com um mínimo de qualidade dos artistas cubanos. Não foi só com Tonel que tive dificuldade em encontrar pics).
A mensagem é simples e directa: Tonel sonha com um mundo com a forma de Cuba, um mundo em que todos os países seriam uma reprodução do país de Fidel. Um pesadelo, pois! O quadro é pois uma representação fiel do chamado internacionalismo comunista cubano que levou, por exemplo, de 1961 até ao fim da década de 90, à mobilização de cerca de 200 00 cubanos para missões militares em África (Angola, Guiné, Etiópia, Argélia, etc).
Tive oportunidade de ver este trabalho ao vivo e achei curioso que nos pedaços de Cuba que correspondem à península ibérica falte, precisamente, o que corresponde a Portugal. A peça correspondente, por incrível incúria do staff do Museu, caiu, perdeu-se, esfumou-se. Pensei no imprevisto sentido que este desleixo deixou em aberto. Podemos interpretar o apagamento de Portugal como uma espécie materialização da ficção de Saramago - Tonel ou a manutenção do Museu sem o saber, materializou pictoricamente a Jangada de Pedra. Ou podemos pensar que o internacionalismo comunista realizaria a erradicação nuclear de Portugal...
De qualquer modo, no espaço que corresponde a Portugal, ficou um rasto sujo de cola (a cola com que a peça-sintagma tinha sido colada). Portanto, no lugar de Portugal, neste Mundo Soñado por Tonel, resta agora um sujo vestígio . Afinal sempre teremos deixado uma marca da nossa presença no mundo. Um ténue e persistente rasto de sujidade...
Fiz uma descoberta sensacional! Descobri um segundo Grunfo mas especializado em clássicos do cinema. O Grunfo é uma espécie de mediateca aqui da malta porcina, uma Fnac à borla que ainda por cima tem gosto em emprestar o material que lá tem, especilamente os livros que são muitos e bons. Agora descobri que o L., vamos chamar assim ao segundo grunfo,também tem um impulso coleccionista mas a este deu-lhe prás obras primas do cinema. Bem haja! E, portanto, estas férias fui-lhe lá a casa e saquei-lhe sacadas de filmes geniais. Vou deixando por aqui umas notazitas sobre os que vi até hoje, obrigado L. por me fazeres um gajo ainda mais feliz do que já sou. Começo por este:
Vittorio de Sica, Ladrões de bicicletas (1948). Vittorio de Sica e este seu Ladrões de Bicicletas é um bom exemplo de como os rótulos são tramados. Este filme levou com o malfadado rótulo de filme neo-realista e uma pessoa fica logo de pé atrás. «Vittorio de Sica? Ná, não gosto de neo realismo». Mas esqueçamos os rótulos e tentemos apreciar o filme apenas pelo que ele é. É excelente!
Foi num magistral documentário de Scorsese sobre o cinema italiano que LB me chamou a atenção. Scorsese adorou-o e eu também! Acho notável a simplicidade sofisticada do argumento: a forma como uma bicicleta é, para um desempregado miserável, a coisa mais valiosa do mundo comove-nos. Uma bicicleta não é nada mas para ele é condição de uma vida digna. Há aqui uma referência ao tema do fetichismo (Marcuse) próprio da sociedade capitalista e à forma como esta impõe o culto perverso dos objectos, um tópico que pode ser levado muito longe...
Mas é o lado humano do filme o que mais enternece. A relação entre o pai e o filho e o exagero sentimental que decorre da sua condição miserável, entre o ridículo e o dramático… A dupla faz lembrar um outro par adulto/criança do cinema -Chaplin e a criança. De Sica dá neste filme uma lição de como é possível andar na fronteira entre a lamúria ideológica e a pieguice sentimental sem nunca para lá resvalar. É um território muito instável e difícil, como caminhar num trapézio sem rede, mas ele consegue-o de uma forma brilhante. Outros mais recentes bem o tentaram, mas, claro, deu asneira e precipitaram-se no abismo da lamechice – falo dos insuportáveis Bellini e Tornatore, incomparavelmente ligeiros ao lado da magnitude de de Sica e deste Ladrões de Bicicletas. Sem dúvida, tarde mas a tempo, este tornou-se num dos meus filmes preferidos (obrigado mais uma vez,L., mafrende!).
... E pronto, acabei de ler Life, biografia oficial de Keith Richards. O livro foi editado originalmente o ano passado e conta com a co-autoria de James Fox, amigo de Richards desde os anos 70. Life é o que se podia esperar de uma biografia directa e sincera e conta na primeira pessoa o que foi a vida do guitarrista dos Rolling Stones até hoje. Está, pois, lá tudo (ou quase) naquelas 630 páginas. O que interessa e o que não interessa também (como as receitas culinárias de Richards, os pormenores da sua infância e um excesso de detalhes familiares).
Mas vamos ao quase... Achei demasiado omissa a abordagem à morte de Brian Jones e fica até um travo de amargura pela forma como este foi tratado pelos Stones - a história em que Keith lhe rouba a namorada, Anita Pallenberg, numa célebre viagem a Marrocos, por exemplo, dava cabo de qualquer um. Keith e Anita chegaram ao ponto de abandonar o amigo/namorado doente em Barcelona, tendo seguido os dois até Marrocos. «Vai lá ter de avião, mene, a gente encontra-se lá em baixo». Um bocado chato...
Mas é claro que Brian também não era exactamente um santo - Keith conta que os membros da banda só souberam tardiamente que Brian ganhava um cachet especial da editora por se fazer pasar por líder dos Stones, apesar das músicas da banda serem uma criação Jagger/Richards. Mas a morte de Brian e as marcas desse suposto trauma ocupam pouco espaço no livro, comparativamente, por exemplo, com a importância que Keith dá à sua banda a solo, os X-Pensive Winos.
Achei o mesmo sobre o processo Brian Taylor - muito omisso. É conhecido o mito (ou realidade) que atribui a Keith ciúmes de Taylor pelo seu virtuosismo, com histórias de desentendimentos entre os dois (http://tapornumporco.blogspot.com/2009/08/o-outro-mick-por-dandelion.html). Life quase passa ao lado de Taylor, parece que foi apenas mais um que para ali andou com a banda e não é verdade, ele está no melhor e mais criativo período da vida dos Stones. Era um introspectivo, diz Keith. Ok, mas Bill Wyman também não era propriamente um exemplo de boa disposição...
Achei impressionante a narrativa dos anos 70 e, em particular, do tour americano de 72, a famosa STP (Stones Tour Party). Foi nesta digressão que os Rolling Stones, já então uma super banda, se consolidaram como Rock Stars. Keith não esconde que aquilo foi um forró permanente, um cocktail explosivo de orgias, drogas duras e rock n roll. Conta que no intervalo das canções chegavam a dar um pulo aos bastidores para snifar uma linha de coca e narra os seus incríveis tormentos com tentativas de cura, ressacas e «cold turkeys». É deste período o célebre filme de Robert Frank (autor da capa de Exile on Main Street) cuja exibição pública foi impugnada pelos Stones - Cock Sucker Blues, assim se chama o filme, era demasiado forte até para eles (mas no you tube, claro, lá está ele).
Também fui particularmente sensível às histórias relacionadas com as músicas: Keith explica como inventou uma nova forma de tocar e conta como foi a criação dos grandes clássicos como Satisfaction, JJF, Simpathy, Gimme Shelter, Brown Sugar, etc. E é espantoso que ele considere How can i Stop, uma música recente de Bridges to Babylon, uma das melhores canções de sempre dos Stones. É que eu pensava que só eu gostava dessa música! Para Richards, Exile é o melhor álbum da banda, eu não sou capaz de ser tão peremptório, mas é, sem dúvida, um dos que eu levaria para a cova.
Bem o livro tem milhões de pormenores que eu não posso aqui descrever. Estive atento, também, à relação entre Riff e Jagger, desde os tempos em que foram Nanker/Phelge (nome de um colega de quarto e pseudónimo da sua primeira música em co-autoria). Keith começa a separar-se de Jagger nos anos 70, aquando do exílio francês da banda por questões fiscais: Jagger começara a tornar-se socialite e Keith estava mais rebelde que nunca, metido a fundo no pavoroso mundo das drogas e das curas de desintoxicação. Conta como, já nos anos 90, Jagger pretendia fazer da banda qualquer coisa como «Mick Jagger and the Rolling Stones», o que enfureceu Richards e Watts e desenvolve os pormenores de excesso de ego de Mick Jagger e as suas imposições do tipo «ou sai o teu manager ou não faço o tour com a banda»... Amigos como sempre? Keith inventa uma fórmula interessante a esse respeito: «somos mais irmãos que amigos»...
E a ironia mortal por Mick se ter tornado sir, aceitando a homenagem da casa real? Ui, Keith é «homenzinho verde» (private joke aqui da malta porcina)... No fundo percebemos que Richards achou aquilo uma quase traição, uma cedência àqueles que durante uma vida inteira quiseram prendê-los injustamente em vários processos ligados ao consumo de drogas. A impiedade de Richars em relação ao poder é um espectáculo: ele conta que, aquando da recuperação de uma queda de uma célebre palmeira nos Barbados que lhe poderia ter sido fatal, recebeu, entre muitas outras uma carta de Tony Blair. O primeiro britânico começava por se declarar um grande fã de Richards e congratulava-se pela sua rápida recuperação. Ao que chegou a Inglaterra, comenta Riff, quando os nossos fãs já controlam o país! Veneno puro.
É pena que o livro não esteja traduzido em português, mas não temos mercado para isso (os brsileiros e os espanhóis já têm as suas traduções, mas nós somos pequenos). Bom, serve para dsenferrujar o inglês de praia! E, felizmente, nem a música dos Stones nem a música de Richards, precisam de tradução para serem apreciadas. Por falar nisso, Keith editou dois álbuns a solo, Talk is Cheap (88) e Main Offender (92). Ouçam-nos, por favor, são uma prova de que enquanto Richards estiver vivo, o Rock ainda tem esperanças:
Publico aqui a capa do Jornal de Notícias de 22/7/11 porque se trata de um número histórico. Aparentemente é uma primeira página banalíssima, indistinta de milhares de outras tantas que fazem a imagem de marca deste jornal. Mas se repararem bem, mesmo ao fundo, a letras cinzentas, há uma notícia (?) espantosa. Leram bem, escreve o jn na sua primeira página que: «professor badalhoco aperta o pescoço a funcionária zeloza».
Não li mais, não sei mais nada, mas é espantosa a adjectivação que marca uma autêntica revolução no jornalismo mundial. Possivelmente acabámos de entrar numa nova era. Se a moda pegar, vai ser bonito... Já imaginaram as capas que aí vêm, tipo: «taxista filho da puta insulta cliente cuidadoso» ou «empregado de restaurante mal cheiroso agredido por técnico de contas tinhoso» ou «advogado cabrão atira código civil a juiz ranhoso»... Vai ser lindo, vai, ganda JN.
O Público de ontem noticia que «Cerca de um terço dos deputados da anterior legislatura – 70 dos 230 – tinham também assento em empresas do Estado, muitas vezes com interesses cruzados com os assuntos que defendiam no Parlamento.»
Saúda-se a publicação da notícia que não a própria. Mas é pena que seja incompleta: falta agora publicar a lista desses "senhores" e os decretos lei que aprovaram para ver se houve interesses cruzados. E, se quiserem ir mais ao fundo (ir ao fundo é a imagem certa, neste caso) podiam ainda investigar - não necessariamente o Público, claro - se há participações de familiares de mais «senhores» nas tais empresas, tipo aquela coisa das esposas empresárias e das santas mãezinhas com queda («queda» hehehehe) a negócios e assim...
Já da primeira vez que vim ao Thyssen tinha reparado neste Fachada Ocidental de Santa Maria de Utrecht (1662) de Peter Saenredam (1597-1665). Agora vi-o de outra forma: o quadro dá uma impressão semelhante à que anotei em Richard Estes no post anterior de ultrapassagem da realidade pelo seu excesso realista (note-se também a perspectiva geometrizante da realidade comum aos dois pintores).
O contraste entre a compacidade do edifício e a volatilidade do céu, cria um efeito de «realidade irrealista» que é quase onírico. A velha catedral parece reinvindicar uma força ontológica especial, destacando-se pelo seu excesso de substancialidade do céu etéreo envolvente.Talvez as origens do hiper realismo contemporâneo se possam procurar nos pintores flamengos dos séculos XVI-XVII como este Saenredam.
Os quadros de Richard Estes – o Thyssen tem três, se não estou em erro - causaram-me uma forte impressão. Veja-se este Cabinas Telefónicas de 1967. À primeira vista olha-se para os quadros de Estes e parecem fotos extremamente realistas. Nada que o hiper realismo não tenha já mostrado ao mundo (e por isso Estes aparece geralmente filiado neste movimento juntamente com nomes de referência como Chuck Close) . Mas depois começamos a reparar e nada daquilo é o que parece.
Em primeiro lugar não se trata de fotografias mas de pinturas (embora produzidas frequentemente a partir de fotos). Mas tão realistas que parecem fotos. Mais: reparando melhor estas imagens são demasiado realistas para serem reais, quer dizer, ultrapassam a realidade, criando uma certa aura de irrealidade (daí a importância do trabalho pictórico que se exerce sobre a foto inicial). Aquilo que nos parecera um retrato fiel está afinal demasiado afastado da realidade precisamente pelo seu excesso realista. Ou seja, Estes faz o contrário de movimentos como o impressionismo, o cubismo ou o expressionismo: aqueles subverteram a imagem comum do real mostrando-o de tal maneira que, muitas vezes, temos até dificuldade em discernir se são figurativos; Estes faz o inverso e subverte a realidade pelo seu excesso realista.
Anoto ainda dois tópicos de leitura acerca da obra de Estes – as referências Pop (frequentemente enquadradas por um tratamento geometrizante que contribui para aquele clima geral de criação da tal aura de irrealidade) , a sua valorização do banal e dos objectos de consumo; e a referência permanente no seu trabalho ao tema dos espelhos e das suas imagens desfocadas, cruzadas, ampliadas, invertidas. O pintor americano parece estar mais atento às perspectivas que os espelhos dão das coisas concretas que à contemplação directa dessas mesmas coisas. Como se duvidasse que as coisas fossem mais reais que as suas imagens (des)focadas nos espelhos que estão em toda a parte. Afinal, parecem gritar os quadros de Estes, o que é a realidade? Se nos concentrarmos nas imagens deformadas dos espelhos tudo parece ser tão diferente…