(retirado, com a devida vénia, daqui: http://dromofilo.blogspot.pt/)
Blog da RS.T - Real Esseponto do Tinto - Coimbra - Os Três Pastorinhos também bebiam o seu copito
21/07/12
Manual do Aplicador, por Dromófilo
(retirado, com a devida vénia, daqui: http://dromofilo.blogspot.pt/)
19/06/12
País(agem) bucarestiana, por Cão
Sei
muito bem que não é com crónicas (e muito menos com as minhas) que se resgata o
País do coma induzido em que se (des)encontra. Sei pois. Só que também sei que
os golos do CR7 e as novidades picantes do desquite Djaló/Floribella não hão-de
ser, como nunca foram, capazes de fomentar o emprego a quem, por cândido
civismo, ainda acha que é a trabalhar, e não a roubar, que se ganha a vida.15/06/12
Um pouco de bom senso, por Obikwel
O governo anunciou que a classificação da disciplina de Educação Física vai deixar de contar
para o apuramento da média final dos alunos, não entrando assim em linha
de conta para a nota com que se candidatam ao ensino superior. Cumpre-se ma velha aspiração da generalidade da malta ligada ao tapor: todos estamos de acordo que a actual legislação que o Crato em boa hora vai rever é uma aberração que teve e tem custos graves para muitos jovens. Podíamos ficar aqui a apresentar uma série de argumentos laterais para justificar esta medida do governo. Mas dou só um, o mais importante: BOM SENSO! É absurdo que um aluno fique de fora do curso que pretende seguir porque não sabe jogar futebol, não sabe fazer a espargata ou não é capaz de correr os 100 metros em 20 segundos. Seria a mesma coisa se decidissemos que agora a expressão musical ou a aptidão para o desenho deviam contar para a média. Não contam e bem.
EF é uma disciplina essencial que deve fazer parte do curriculo obrigatório do secundário? Sem dúvida. Deve contar para a média? NÃO! E bem podem os doutores da ginástica esforçarem-se com exercícios retóricos sobre a «transversalidade curricular» e o «analfabetismo motor» (sic) que nada disso anula o simples senso comum.
Na escolas deste país assiste-se frequentemente a estas duas perversões: ou a nota de ginástica é muito mais baixa que a da restante média do aluno; ou, pelo contrário, há profs de ginástica que compensam os alunos na nota para «não os prejudicarem». Nestes casos alunos que deviam ter 11 ou 12 a Ef têm 18 para poderem seguir o seu curso. Isto faz algum sentido?
Nos dois casos os profs de ginástica estão numa situação perversa, injusta e ingrata. Para evitar estes desvios que pervertem completamente a avaliação na disciplina o melhor que há a fazer é o que o actual governo decidiu: não conta. Aprovo e aplaudo esta medida. Não tenho razões para estar contente com o actual ministro da educação. Mas nesta medida, por uma vez, vejo alguma da coerência que lhe notava antes de subir ao poder.
14/05/12
Atira-te ao Mar!, por Xávego
Confesso que me sinto um pouco dividido com aquele espectáculo porque se por um lado gosto da fauna animada dos pescadores, por outro, fico um bocado impressionado com a chacina de tanto peixe. Mas ontem este segundo sentimento venceu largamente o primeiro.
Acontece que nas redes dos pescadores vem sempre uma percentagem brutal de cavala nomeadamente da espécie «parda». São cardumes e cardumes de cavalas que os pescadores depois separam pacientemente dos biqueirões, das sardinhas e dos escassos chocos, robalos ou douradas que por lá caem. No fim enchem-se dezenas e dezenas de caixas de cavala que os homens do mar tentam vender aos curiosos a 5 euros a unidade. Há quem compre. Mas a maior parte da cavala fica por ali. Fiquei pasmado com o que se passou a seguir.
Após a debandada geral dos curiosos, os pescadores pegaram nas caixas de cavala e zás, toca a atirá-las ao mar. Cardumes e cardumes de cavalas que servem de pasto às milhares de gaivotas que fazem um verdadeiro festim com os restos das cavalas. Como é que é possível um tal desperdício? É que aquilo mete dó, quer pela chacina inútil dos peixes quer pelo esbanjamento. Houve um pescador que me explicou porque razão atiravam as cavalas às gaivotas e mais valia eu não saber...
Segundo o homem a UE define a quota de pescado a que portugal tem direito. Como a cavala - principalmente a parda - é uma espécie ameaçada de extinção as quotas de pesca são logo atingidas. E, como tal, nesta altura a cavala já não pode ser comercializada. Mas as redes não sabem nada sobre imposições da UE e continuam a apanhar cavala e mais cavala. Daí que chegadas à praia, das duas uma: ou são vendidas à caixa sem passar pela lota ou voltam para o mar. É o que acontece à maior parte. Isto é uma verdadeira dor de alma, segundo qualquer ponto de vista.
Resta ainda uma terceira opção para o peixe que a UE não deixa vender mas que deixa desperdiçar: às vezes os pescadores levam o peixe para casa e usam-no para estrumar a terra. Assim nem as gaivotas se ficam a rir... Portugal não existe!
08/05/12
Curta, breve e grossa, por Zé dos Santos
02/05/12
O Cavalo Pitagórico, por Cão
Um cavalo de Santana Lopes caiu a
um poço numa quinta de Santana Lopes também. Foi foto-legenda em jornal. O
desenlace da ocorrência é feliz: os bombeiros resgataram-no vivo da aflição com
o voluntário, voluntarioso, estóico, abnegado e glorioso esforço do costume.
Tenho porém um problema. Este: não era nem sobre cavalos nem sobre o, por
piada, ex-secretário de Estado da Cultura, e ex-primeiro-ministro, e
ex-presidente do Sporting, e ex-presidente dos municípios figueirense e
lisbonense, e ex-tudo o mais (ou menos) alguma coisa que eu queria cronicar.30/04/12
O Chico Esperto Vai a Fátima a Pé, por Asceta
25/04/12
Múmias de Abril, por FP25
Manel alegre e mário soares decidiram não comparecer na «casa da democracia», a assembleia da república, nas comemorações oficiais do 25 de Abril, como forma de protesto contra os ataques deste governo às conquistas de Abril.Mas só agora é que as conquistas de abril são postas em causa? Durante seis anos de socretinismo que foram o maior ataque de sempre feito por um governo ao estado social, à educação e à saúde, durante seis anos de total promiscuidade entre governo e lobies económicos, de absoluto deboche da nomenclatura clientelista, de ataques violentos à liberdade de imprensa e à justiça, estes dois solenes veteranos não só andaram calados, como, até, vergonhosamente, branquearam e justificaram o regime que, esse sim, levou o país ao actual estado de ruína.
Só agora têm lata para atitudes pseudo dignas de «defesa de abril»!!! Mais vale tarde que nunca... Até podem ter razão, creio que sim. Só que não percebem que perderam o ethos para a terem quando se comportaram vergonhosamente durante o período socretinista. Mesmo tendo razão, o que se lê quando eles dizem que o actual governo está a pôr em causa as «conquistas de abril», é: e onde é que vocês andavam quando o governo xuxa do ingenheiro andou a atolar o país na lama? Calados? Pior que isso: a defendê-lo com unhas e dentes. Por mim dispenso estes moralistas de conveniência armados em grandes figuras.
04/04/12
Ser Benfiquista, por Cavungi
Vivemos num país que eu já não consigo qualificar. Temos uma percentagem brutal de políticos que ocupam cargos nos governos (neste e nos outros), deputados e afins que são maçons e não há problema nenhum. Pior: a promiscuidade entre associações secretas, grandes negócios e jogadas políticas é total, como se sabe. Aí sim, devia existir legislação impeditiva e ninguém se preocupa. Entretanto os senhores maçons que toda a gente sabe que o são assobiam para o lado, recusam assumir-se, divertem-se com trocadilhos bacocos como aquele de serem «discretos» e não «secretos», etc, etc. Ou seja, não se assumem mas inquinam o país com a promiscuidade inadmissível entre as suas funções públicas e as suas filiações privadas.Mas, pelo contrário, assumir publicamente que se é do Benfica parece que se tornou crime. Que o diga o jornalista João Gobern que acaba de ser demitido da RTP, pasme-se, porque ergueu um braço espontâneo de festejo (vide pic) quando o Benfica marcou um golo! Um gesto espontâneo de um benfiquista assumido, num programa sobre futebol, com um defensor acérrimo do porto do outro lado da mesa, vale o despedimento! Vejo todos os dias comentadores desonestos e hipócritas que não preocupam a RTP - Gobern levanta um braço em sinal de contentamento pelo golo do seu clube e ala que se faz tarde. Mas quando é que este governo faz o que prometeu e privatiza de vez este ninho de incompetência que é a RTP?
É que isto ultrapassa o futebol, isto é um espelho da sociedade portuguesa. Diria o mesmo se o Gobern fosse de outro clube qualquer. Depois do triste episódio da professora primária que re-escreveu a música do pau ao gato com um final benfiquista, acontece isto. É a parte II da mesma mentalidade pacóvia...
P.S. Ontem enquanto zapava pelas inanidades da nossa TV apanhei um comentário num programa de debate bolístico em que o comentador Júlio Machado Vaz se referiu a este caso mostrando-se solidário com João Gobern. Miguel-esquece-me-o-nome (vocalista dos blind zero) acrescentou num tom que me pareceu concordante «sobre isso queria dizer que...», quando foi subitamente censurado pelo moderador/censor de serviço que o interrompeu liminarmente, declarou que já tinha sido tudo dito sobre o caso e colocou uma reportagem no ar. No regresso aos comentários o miguel não sei quê não teve coragem para dizer o que queria ter dito e assim seguiu o programinha sem que os participantes fizessem ondas como tinha exigido o censor. Fizeram bem? Ao fim e ao cabo nunca se sabe quando é que nos toca a nós...
18/12/11
Coimbra Incrível, por S. Nicolau
O director da polícia municipal de coimbra enviou a vários funcionários um ficheiro com umas fotos com mulheres vistosas pouco vestidas e votos de «sexo incrível» para o ano novo. Posteriormente, após o chinfrim que se sucedeu na imprensa, alegou ter-se tratado de um falha técnica qualquer. Pode achar-se o envio de votos de «sexo incrível» uma coisa pouco natalícia, invulgar, inadequada ou, simplesmente, sincera.Mas suspender o comandante por isto e abrir-lhe um processo disciplinar é de uma hipocrisia sem limites. Isto é coimbrinha, isto é vitoriano, isto é uma aberração completa! O presidente da câmara, João Paulo Barbosa de Melo, e a vereadora que tutela a PM justificam a sua decisão com o facto de a mensagem ter sido enviada para todos os funcionários, em horário de trabalho e através do e-mail de serviço!!! Santa hipocrisia! Vale tudo neste país e nesta cidade, onde todos os dias vemos e ouvimos coisas, essas sim, verdadeiramente pornográficas. Mas um simples desejo de sexo incrível chega para suspender um funcionário. Vamos longe, vamos e o que vale ao comandante da polícia municipal de coimbra é já não ser tempo do Santo Ofício - o homem ainda devia dar uma vistosa fogueira no famigerado Pátio da Lusa Atenas.
13/10/10
Os Mineiros do Chile, por Buzz
Acompanho com emoção a operação de salvamento dos 33 mineiros no Chile. É um acontecimento histórico, uma tragédia contemporânea vivida em directo que nos confronta com os nossos sentimentos mais básicos e profundos. Acompanho estas imagens com o mesmo sentimento com que vivi - recordo-me vagamente - os regressos dos astronautas das missões Apolo que voltavam da lua. É a mesma sensação - ver os mesmos seres humanos devolvidos à terra/casa depois de tanto tempo perdidos, literalmente, noutro mundo (no espaço, na lua ou no fundo de uma mina).Sinto outra vaga parecença entre os dois acontecimentos quando contemplo o fundo da mina filmado em más condições. As imagens cortadas, as interferências,as cores esbatidas, como se fossem uma ficção de Júlio Verne (Viagem ao Centro da Terra?) filmada pelos irmãos Meliés, tudo aqui faz lembrar os movimentos lentos dos astronautas, perdidos num deserto preto e branco de pó e de rocha. O fundo da mina também parece outro mundo, um mundo inóspito de rochas e breu como a lua de Armstrong e de Aldrin, mas sem as estrelas do firmamento.
Como é possível não olhar para esses/estes homens como heróis? Eles representam o nosso triunfo (raro, momentâneo, efémero)sobre a adversidade, o triunfo de seres tão frágeis sobre a estranheza da imensidão cósmica. E o facto de serem mineiros, derradeiros heróis proletários,que têm que ir onde nenhuma máquina pode ir, símbolos, também por isso, da pequenez e da profunda fragilidade de todos os homens, ainda agudiza mais a dimensão épica da sua odisseia. Mineiros e astronautas, parentes próximos...
Também há coincidências simbólicas:a Fénix, nome da cápsula de salvamento dos mineiros, tem a forma de um foguetão. Embora se desloque, ao contrário dos foguetes espaciais, de cima para baixo e só depois de baixo para cima. Nas Apolo os homens vinham do céu, aqui são salvos das profundezas. Nas Apolo tratava-se de os fazer descer com segurança, agora o problema foi fazê-los subir.
Existem outras semelhanças: ao verem a Terra do espaço, um ponto pequeno a milhares de quilómetros de distância, os vários astronautas fizeram sempre notar que do espaço não se percebem as divisões entre os seres humanos. Vistos de longe não pensamos nos terrestres como americanos, soviéticos ou chineses... Pensamos que somos a mesma família, pensamos na humanidade de todos os homens. É curioso como, à escala mundial, vivemos, no dia de hoje, um mesmo sentimento comovido de identificação com os mineiros. Os mineiros são todos os homens. A Aldeia Global mobiliza-se e interessa-se vivamente pelo destino destes homens - a CNN, a Sky, a al jazeera, a euro news, a rai, a tele 5, a tve, a globo, a sic, a rtp e a tvi, todo o mundo quer ver em directo o salvamento dos heróis. Todos vivemos a sua tragédia e a sua redenção.
E, embora o Chile queira fazer deste caso uma história de orgulho nacionalista - o que é natural - isto nada tem a ver com nacionalismo, mas, pelo contrário, com planetarismo, com cosmopolitismo, com internacionalismo.
É muito duvidoso que o Chile conseguisse, apenas com os seus meios, levar a cabo esta operação. O projecto de salvamento contou com equipas de especialistas de várias áreas oriundos de todo o mundo: há norte americanos envolvidos (e a NASA particularmente), alemães, japoneses, peruanos, austríacos, franceses, equipas de todo o lado que colaboraram em todas as áreas envolvidas um plano desta envergadura (engenharia, mecânica, minas, psicologia, medicina - dermatologia, ortopedia, oftalmologia, etc, etc, etc). A vitória dos mineiros é a vitória da humanidade. E, subitamente, as palavras dos astronautas que regressam da Lua ganham de novo sentido: não há aqui países, nem rivalidades; há apenas um mesmo sentimento que une os homens de todo o planeta em nome da mais profunda solidariedade: a solidariedade de todos os homens contra a morte.
Tudo isto faz-me pensar, ainda, n´A Peste, a obra prima de Albert Camus. Sitiados numa cidade isolada pelo vírus, os homens resistem como podem. Mas é também no meio daquela adversidade terrível que descobrem em si sentimentos que nem julgavam existir: a irmandade de todos os seres humanos perante a morte, inimigo comum. Não é o que vivemos aqui?
Esquecem-se os atritos e os conflitos, tudo o que é negativo desaparece por enquanto: há um mineiro que tem uma amante. E a esposa legítima espera-o em Campo Esperança sentada ao lado da amante. Não revelam ódios entre si. Naquele momento elas estão unidas pelo amor por um homem.
Há um boliviano entre os 32 chilenos e a Bolívia vive dias de tensão com o Chile. Mas o presidente boliviano está presente no Campo Esperança e agradece ao seu homólogo chileno por tudo o que fez para salvar o seu conterrâneo. E agradece, comovido, ao povo do Chile. É notável! Que espécie de magia se criou aqui para que as desavenças mais ou menos profundas se apaguem assim?
Curiosa expressão desse sentimento de solidariedade humana contra a morte: a cápsula de salvamento desce e sobe outra vez para fazer renascer aqueles que já estavam enterrados. Penso nos cemitérios e nas imagens terríveis dos caixões que descem às entranhas do sub solo para levarem para sempre aqueles que amamos. Mas agora é ao contrário: a Fénix é o contrário do caixão, a Fénix salva da morte, faz ocorrer o milagre da ressurreição e resgata a vida das profundezas. Estas imagens são poderosas, estão investidas de uma força poética completamente imprevista. Nunca o nome de Fénix foi tão apropriado.
12/04/10
Aqueles Cujo Nome Não Pode Ser Pronunciado, por Gibson
Ontem o site do excelente semanário Sol (bem haja pela publicação das escutas dos boys) publicava a seguinte notícia:Já leram? Pronto, agora antes de continuarem a ler o post digam lá o que pensaram. Sinceramente, sem censura, sejam honestos. Já pensaram? Pois, certamente pensaram o mesmo que eu e que os milhares de leitores desta notícia. Custa admitir mas a palavra que se acendeu no cérebro de qualquer pessoa que leu esta notícia foi, como é evidente, «ciganos».
Hoje o diário conimbricense dava a mesma notícia. Assim:
«Vários tiros puseram termo (...) a um casamento de etnia cigana, etc...»
Viram a diferença? Pois é, o Sol optou pela formulação politicamente correcta e não noticiou a etnia dos indivíduos envolvidos. As Beiras fê-lo. Qual a opção correcta? O Sol sonegou informação importante. Ontem li esta notícia, tive quase a certeza de que eram ciganos, quis saber se o eram, mas a notícia era omissa. E era importante, para mim que sou de Coimbra, sabê-lo. Foi irritante ter a sensação, quase a certeza de que aquilo foi com ciganos, mas não ter possibilidade de o saber.
Hoje As Beiras confirmaram o meu «quase» de ontem à noite. Na notícia das Beiras foi previligiada a informação em detrimento da censura politicamente correcta. Gosto do Sol. Mais que das Beiras. Mas em relação a esta opção editorial, não tenho dúvidas em afirmar, por mais chocante que isto possa parecer a algumas sensibilidades mais delicadas, que prefiro o tratamento que as Beiras deram a esta notícia. O dever de informar, mesmo contra o pensamento instituído, ainda continua a ser um valor fundamental no jornalismo.
27/03/09
Oh No, Not Again!, por F111
Nos anos 80 a Guerra fria estava no auge. Foi uma chatice quando a extinta URSS resolveu instalar os famosos mísseis SS 20 nos países comunistas fronteiriços aos países da Nato! Na RDA, na Polónia, na Ucrânia e nos Estados Bálticos, os soviéticos montaram um verdadeiro arsenal de capacidade nuclear que, em caso de conflito atingiria as principais capitais da Europa ocidental (Lisboa incluída). Além disso a capacidade militar convencional também foi reforçada nos países de Leste principalmente com a colocação de divisões blindadas soviéticas nestes países. A esta política agressiva do Pacto de Varsóvia respondeu a Nato (ou o Tio Sam, depende do ponto de vista) com medidas agressivas do mesmo tipo. Assim, em 1981 a Nato instalou mísseis Cruise no território Europeu e acrescentou-lhes os Pershing II, de capacidade nuclear. Tudo material Made in Usa. Para os Americanos não era mal visto. Em caso de guerra seria a Europa o cenário de um conflito nuclear e eles ficariam mais ou menos protegidos do outro lado do Atântico.
Quem viveu esta época lembra-se do clima de prenúncio apocalíptico. Foi um período tenso. Recordo-me dos filmes dos anos 80, por exemplo de The Day After, que simulava o dia a seguir a um ataque nuclear vivido em Londres; recordo-me dos Frankie Goes to Hollywood e do seu seminal Two Tribes (com o fantástico vídeo que mostrava o Brejnev numa luta de golpes baixos num rinque de boxe com o Reagan Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=yWLHK2h8EBQ).;
lembro-me da fantástica letra de The Russians de Sting (aqui: http://www.youtube.com/watch?v=pezAKWVgOvU)
dos crachats Nuclear Não Obrigada! (ou No Nukes!), das brigadas de pacifistas a lutarem contra a polícia para evitarem a instalação dos Pershing na Alemanha;
dos meteóricos Sigue Sigue Sputnick, punks pós apocalípticos (Aqui, o clássico Love Míssil F11 - http://www.youtube.com/watch?v=pk30a0qsVIk)
e dos Plasmatics, espécie de no futur musical(aqui http://www.youtube.com/watch?v=3_0r9OysZt)...
Vivia-se um terrível clima de tensão mundial, como não se via desde a crise dos mísseis de Cuba, 20 anos antes. Na altura cheguei a desenvolver um pesadelo que nunca mais vim a ter - é verdade, sonhava que a bomba tinha rebentado... A coisa não parecia nada ficção. Pelo contrário parecia estar bem perto de nós. E a verdade é que estava.
Felizmente tudo acabou bem. Gorbachchev subiu ao poder em 1985 e levou a cabo a Perestroyka que haveria de abrir a Rússia e os regimes de leste e desanuviar o mundo. O projecto Guerra das Estrelas da administração Reagan também ajudou, claro. Inicialmente considerado mirabolante, a verdade é que teve um efeito dissuassor real.
Entre as várias medidas tendentes ao desanuviamento, Gorby anunciou a retirada dos mísseis nucleares e dos blindados soviéticos, tendo como contrapartida idêntica retirada da parte da Nato. A Europa respirou fundo. Estávamos livres da incómoda situação de um frente a frente nuclear no palco europeu.
A história haveria de declarar – e Reagan também! – que o Ocidente vencera a Guerra Fria sem disparar um único míssil nuclear. O Pacto de Varsóvia dissolveu-se em 1990. Os filmes apocalípticos perderam o seu impacto, os Sigue Sigue Sputnick reformaram-se e a Wendy Williams, ex-estrela porno e vocalista dos Plasmatics, desapareceu para sempre deixando-nos os seus vídeos no you tube para matar saudades. O Sting, esse fez uns álbuns porreiros e virou-se para as causas ecológicas como as dos índios do Amazonas; os manifestantes anti-nuckes foram fazer moinhos eólicos para a serra dos candeeiros e eu, bem, eu deixei de sonhar com cogumelos nucleares e passei a sonhar com a Kim Basinger que era muito melhor que a Guerra Fria. Tudo bem quando acaba bem. Mas acaba mesmo?
O problema é que a Kim Basinger envelheceu e eu também, mas a loucura dos homens, essa é eterna e parece que a guerra-fria está de volta de novo. (CONTINUA)
18/12/08
Russofobismo, por Russofubu
Da mesma forma que duas mãos cheias (?) de génios criadores não fazem da Idade Média uma era de conhecimento e inovação, também duas mãos cheias de grandes artistas ou cientistas não fazem da Rússia uma referência de criatividade e sabedoria. Um Dostoievski não faz a Primavera e a Rússia apesar da antiguidade ainda é um pais politicamente incipiente e culturalmente segundo-mundista.Os prémios Nobel, já agora, são uma batata mas também um bom indicador do grau de maturidade/produtividade intelectual de um país. É evidente que pode ser discutível, este critério, mas não tenho dúvidas de que é um indicador de qualquer coisa daquele género. Por exemplo, uma comparação do tipo guerra-fria: Os Estados Unidos têm 309 e a Rússia 22 (menos que, por exemplo, a Grã-Bretanha com 114, a Alemanha com 101, a França com 57 ou a Suíça com 25). Se pela produção intelectual se mede a maturidade cultural e criativa de um “povo”, então a Rússia é um adolescente - os países islâmicos serão catraios ranhosos, como aquelas pessoas que envelhecem mas não crescem. O que se torna mais estranho, dada a dimensão e os recursos do país, eventualmente à escala dos EUA ou maior.
A resposta para a disparidade criativa está, naturalmente, no campo da política, e sobretudo no campo dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. A Rússia é, antes de mais, um país democraticamente muito imaturo, mais imaturo do que Portugal e mais imatura até que a generalidade das novas repúblicas africanas pós-colonialismo – neste aspecto a Rússia “beneficia”, em termos de maior estabilidade social, de uma maior antiguidade enquanto estado nacional. Mas de facto, a experiência democrática russa tem pouco mais do que uma década e é extremamente deficiente e traumática. Como se o povo russo, depois de séculos de czares, imperadores vermelhos e pensamento único, tivesse sido formatado para a tirania. É óbvio que não, e que a persistência secular de uma administração estatal extremamente centralizada e autoritária, que o actual czar pós-estalinista Putin perpetua, é um factor determinante para que a democracia e as liberdades cívicas e económicas não floresçam. Mas a julgar pela popularidade maciça de Putin e do seu politburo de fiéis devotos do KGB (porque não existem ex-KGB’s), questionamo-nos realmente acerca da apetência democrática daquela gente.
Acho até que os chineses, precursores do chamado capitalismo de estado (sistema que o Kremlin está a tentar abraçar atabalhoadamente) lá chegarão mais depressa, à democracia de estilo liberal, às liberdades e a uma globalização mais ética e sustentável. Tenho a impressão, por exemplo, que os líderes chineses, apesar de tudo, são menos dogmáticos e mais pragmáticos, cada vez menos ideológicos. A China sonha com uma futura Era de Ouro, a Rússia sonha com uma era passada que só foi de ouro para as chefias e para a tropa.
As eleições presidenciais norte-americanas foram, a propósito, um banho e uma lição de vitalidade democrática e de como uma sociedade tão complexa, enorme e plural como é a norte-americana consegue mudar de rumo sem sangue nem revoluções.
Por tudo isto e mais alguma coisa, a Rússia, a par com o terrorismo, sobretudo islâmico, e os desastres naturais, é uma das grandes ameaças ao nosso futuro comum. É um país com mentalidade de cerco, sedento de replicar glórias equívocas, com gravíssimos problemas internos - do envelhecimento populacional à decrepitude das infra-estruturas civis e militares, passando pelo alcoolismo, uma riqueza gerada e distribuída ao estilo saudita e pelo crime organizado - e, como sempre, uma miragem de estado de direito. E é a segunda maior potência nuclear do mundo. Com um controle muito duvidoso desse arsenal. Tudo isto parece muito dramático e se calhar a realidade não é assim tanto e sou eu que tenho mentalidade de cerco, mas vem isto a propósito de uma notícia mais ou menos esquecida de 2008, lembrada pela revista Foreign Policy, numa lista de factos importantes do ano que passaram mais ou menos despercebidos. A propósito do “cerco” energético russo à Europa, em que caímos que nem uns patinhos, cantando e rindo. A propósito de gás e a propósito das zilionárias recentes investidas do Kremlin, por via das suas empresas estatais, em África. Sobretudo no Norte de África e em investimentos em infra-estruturas que, a vingarem os negócios, farão com que a Europa (toda a Europa, incluindo Portugal) esteja quase totalmente dependente de torneiras russas.
E se algo corre mal? E se algo semelhante à Georgia ocorre na Ucrânia? E se os polacos e os eslovacos e os checos e toda essa gente que já conheceu os russos mais de perto se envolvem? E se a coisa alastra? Que pode a Europa, ou a Nato, fazer perante um cenário de guerra regional ou mesmo perante uma agressão russa? Népias, zero, nada, não nos podemos mexer porque os homens cinzentos de Moscovo têm as mãos nas torneiras e podem paralisar a Europa num fósforo…
Não sei porquê, deve ser por gostar tanto de história, mas este tipo de notícias deixa-me perturbado.
10/12/08
Atenas está a arder! por Hefestos
Como é óbvio a dimensão da guerra civil que está agora a ocorrer nas ruas da capital helénica, já nos tinha feito pensar que os gregos não protestam só por causa da morte (grave, claro) de um jovem por um polícia. O caso em referência foi apenas o catalisador de uma enorme tensão que se acumulou, como nitroglicerina, no interior da sociedade grega. Afinal, porque protestam os gregos encabeçados por jovens universitários armados de pedras e cocktails molotofs?Percorro as notícias dos vários jornais e ouço/leio algumas das razões dos protestos: a política anti-social do governo que agravou nos últimos anos o fosso entre ricos e pobres (como cá, penso...); o desemprego crescente (como cá); a corrupção dos políticos (como cá) e a ineficiência da Justiça que não pode ou não lhes quer chegar (como cá); a protecção descarada dada pelo Governo aos bancos atulhados de lucros (como cá) cujos balcões foram dos primeiros a ser atacados no centro de Atenas; o ataque à escola e as políticas de educação do governo (COMO CÁ!) - os professores gregos entraram numa greve de proporções inéditas recentemente. Durou meses- os docentes iam-se revesando para poderem aguentar; o desinvestimento no ensino superior (como cá) que levou estudantes e professores universitários à vanguarda desta luta.
É impossível não vermos na situação helénica um espelho do portugal socretino e das suas políticas: ataque continuado à educação e à escola pública; apoio escandaloso aos bancos privados e ao grande capital, insensibilidade social permanente como imagem de marca (confundida com uma ideia mentecapta de autoridade). Também cá o que vemos é corrupção, desleixo e mediocridade da classe política; descrédito total da «classe» política (vidé o extraordinário caso das faltas ao Parlamento dos deputados e as desculpas esfarrapadas dos responsáveis ou o famigerado caso da licenciatura de socras, as reformas chorudas dessa gente, etc, etc, etc). Também por cá estamos perante uma Justiça que não chega aos poderosos, os quais ainda por cima se safam com indemnizações chorudas; também por cá assistimos à destruição lenta e penosa do sistema nacional de saúde e à privatização gradual e sistemática daquilo que devia ser a missão do estado (mas parece que não, parece que a missão do Estado é, afinal, proteger as grandes fortunas investidas nos BPP); também por cá assistimos ao desinvestimento no ensino superior que asfixia lentamente.
Ainda por cima, por cá, não sei se por lá, temos um primeiro ministro que reage a tudo isto com o riso pateta de quem não está bem a ver a dimensão do que o rodeia. Parece um lunático que vive num mundo de fantasia que só existe na sua imaginação - o Portugal do choque tecnológico, da ciência e do progresso, das grandes obras públicas, do «rigor», da «autoridade», do fatinho Armani, valha-o Deus...
Há uma diferença, claro, entre os casos grego e português. O Governo grego é conservador e é o PS de lá quem está na oposição. Ca é ao contrário. Mas isso só torna mais grave a política dos xuxialistas nacionais que, no nosso país, levam a cabo políticas que são precisamente o contrário do seu património histórico/ideológico e, mais que isso, são políticas mentirosas porque o que foi referendado em eleições era, precisamente, o oposto. Deviam era ter vergonha na cara, pê-esses a fingir!
Podiam ao menos aprender alguma coisa com a guerra civil de Atenas... Mas não: a julgar pelas declarações autistas e pelo sorriso parvo do primeiro ministro, parece que as políticas actuais são para prosseguir, alegremente. Qualquer dia admiram-se que o mesmo se passe em Portugal. Eu não, já não me admiro de nada nesta amostra de país. Tivéssemos ao menos um décimo da capacidade de indignação dos gregos - porque também não era preciso tanta, digo eu - e as coisas seriam muito diferentes.
04/08/07
Em Roma sê romano
Entre as duas comissões de serviço, lendo os jornais atrasados na internet, vi no DN uma peça sobre uma entrevista que a jornalista Márica Rodrigues, da RTP, fez no passado dia 27 de Julho com o embaixador iraniano em Lisboa. Não acreditei nem nas palavras do jornal, nem nas fotos. Fui ao You Tube e vi então o que me recusava a acreditar.
A "jornalista" ganhou direito às aspas. A minha alma ficou parva. Não aguentei a ira, a indignação e a revolta. a "jornalista" vestia-se a rigor, de acordo com as imposições islâmicas fundamentalistas para entrevistar o embaixador do Irão em LISBOA! Toda de negro, com véu e luvas! Incrível! maquilhage discreta, ar reverente e submisso. Inaceitável!
É certo que em Roma devemos ser romanos. Mas porra, estamos em Lisboa! Ainda podia aceitar que, em Teerão, e por razões de força maior, se pudesse aceitar uma imposição desta ordem, tendo em vista um interesse superior que seria o de ouvir uma personalidade importante, sobre um tema de grande interesse num momento certo. Mas porra, estamos em Lisboa e o senhor embaixador não disse mais do que palvras de circunstância e aproveitou o tempo de antena para propaganda gratuita.
A "jornalista" prestou um mau serviço ao Jornalismo, a Portugal, à União Europeia, à presidência portuguesa da União Europeia, às mulheres iranianas e a todas as mulheres submetidas à tirania e à prepotência tradicionalista dos fundamentalistas islâmicos.
Eu considero que a maior conquista da Humanidade é a instituição civilizacional do princípio da igualdade. Todos somos iguais em direitos e dignidade, independentemente da cor, da força física, da fé, da idade, da opção sexual e do sexo. Uma das maiores realizações do Homem é a aceitação da paridade estatutária entre os sexos. Milénios de discriminação, opressão, violência, humilhação e segregação dos homens sobre as mulheres ainda não foram inteiramente superados. Há ainda, mesmo entre as sociedades ocidentais, muito caminho a percorrer. Um dos pontos em que as sociedades fundamentalistas islâmicas revelam precisamente a sua faceta mais desumana, bárbara, arrogante e prepotente é no modo como tratam as mulheres. Há um grande caminho a percorrer no sentido de oferecer a milhões e milhões de mulheres islâmicas aquilo a que têm direito: DIGNIDADE e IGUALDADE.
Márcia Rodrigues está do outro lado, está do lado dos fanáticos islâmicos. Em Lisboa sejamos livres, tal como em Roma, em Londres, em Paris, em Nova Iorque, em Sidney, em Brasília, em Toronto e onde quer que calhe no mundo ocidental. Já que em Teerão não é possível. Por enquanto.
01/08/07
Berardo em Belém
Joe Berardo conquistou a imortalidade possível. A partir do momento em que a sua colecção de arte contemporânea ocupou o Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém, é possível visitar a Praça do Império em Lisboa sem ir aos Jerónimos e sem ver o túmulo de Camões. Assim fiz. Berardo entrou directamente e emvida para o coração simbólico da lusitanidade. Tal é o poder da arte, não só, ou nem tanto, de quem a produz, mas de quem a detém e exibe. A única coisa que eu lamento é que o Estado português não tenha entendido a importância de construir uma colecção de arte contemporânea. Devemos ser o único país ocidental que não curou dessa tarefa fundamental, pelo que ficamos agora reféns de Berardo. Serralves, e agora a colecção Berardo, são de iniciativa de fundações privadas, tal como o Centro Gulbenkian. A coisa mais contemporânea que o Estado português tem é o Museu do Chiado! Incrível! O Ministério da Cultura negociou assim em posição de fraqueza e necessidade. Berardo, naturalmente, avantajou-se, tirando partido da situação. Claro que, em face do sucesso, quando chegar o dia de o Estado exercer o direito de opção para a aquisição da colecção, vai ter que se sujeitar às condições impostas por Berardo.Na foto, um óleo de Eric Fischl datado de 1984, intitulado Mather and Daughter, pertencente à colecção Berardo.
24/07/07
ESCÂNDALO!
É preciso dizer de forma veemente: a actual ministra da educação não tem qualidades de nenhuma espécie para desempenhar o alto cargo que ocupa. A sua insensibilidade, arrogância e incompetência são chocantes e inadmissíveis. Não se entende como é professora universitária. A senhora não demonstra, nos seus actos políticos e nas suas decisões, qualidades que se exigem a um professor. Não tem pensamento estratégico, não tem inteligência nem sabedoria que oriente as suas acções, não tem cultura democrática, não tem capacidade de liderança, não se sabe aconselhar junto de gente qualidade, não tem vergonha.A política da senhora professora Maria de Lurdes Rodrigues é desumana e incompetente. Lembro, a prová-lo, que a senhora professora afirmou em tempos que um acórdão proferido por um tribunal açoriano não é válido em Portugal! Esta inanidade foi vendida como gaffe. Não é, é ignorância, da mais profunda, e falta de cultura cívica. É de uma gravidade que, por si, justificaria um despedimento sumário. Mas as trapalhadas e atropelamentos à lei e à Constituição não se ficaram por aqui: o caso dos exames de Química, os disparates e hesitações quanto ao lugar da disciplina de Língua Portuguesa no ensino secundário, o TLEBS, a desqualificação da Filosofia e a promoção da Educação Física, os erros sucessivos e sistemáticos nas provas de exame, as ilegalidades das aulas de substituição e as mentiras proferidas quanto à assiduidade dos professores, as listas de grevistas, os processos disciplinares abertos pelos serviços que tutela directamente e arquivados por pressão da opinião pública etc.
21/07/07
Outra vez as caricaturas
Em 1992, o cartoonista António publicou no jornal expresso uma caricatura do Papa João Paulo II com um preservativo no nariz. O caso causou polémica e as opiniões dividiram-se. Uns defendiam a liberdade de expressão como direito fundamental, outros antepunham-lhe o respeito devido ao Papa e ao que significa para os milhões de católicos. Eu achei que, embora a caricatura de António ocultasse uma intenção indeclarada para além da crítica à posição do Vaticano sobre o uso do preservativo, o direito à liberdade de expressão sobrepõe-se e que o caricaturista tem o direito de veicular as suas opiniões, explícitas ou indeclaradas, omissas ou subliminares, tanto faz. A haver prejuízo do visado, persiste o recurso aos tribunais, pois que a lei protege tanto a liberdade de expressão quanto o bom nome. Os ofendidos devem recorrer aos tribunais em vez de alardearem o discurso justiceiro, normalmente por mãos próprias e modos violentos. Em Fevereiro de 2006, um jornal nacionalista dinamarquês de extrema-direita publicou umas caricaturas xenófobas e preconceituosas de Maomé. A polémica incendiou a diplomacia internacional e azedou as relações com o mundo árabe. Houve, então, uma defesa unânime da liberdade de expressão como um valor fundamental do Ocidente. Eu achei as caricaturas lamentáveis e criticáveis, mas não censuráveis, no sentido em que se possa advogar a sua proibição. Mais uma vez, achei que por detrás da crítica estava algo de dissimulado, que era um sentimento preconceituoso do nacionalismo xenófobo relativamente às minorias. No entanto, e mais uma vez, compete aos tribunais agir em caso de ofensa e não às turbas ululantes nem aos demagogos justiceiros, o que só contribui para a vitimização do radicalismo xenófobo.
Agora foi em Espanha, na Catalunha, em Barcelona. Uma revista satírica, El Jueves, foi retirada das bancas por ordem expressa do juiz da Audiencia Nacional, a suprema autoridade judicial do país vizinho, porque na capa colocava uma caricatura com o príncipe das Astúrias em doggy style, com D. Letizia. Pretendia a publicação criticar as medidas do governo de Zapatero de promoção da natalidade através da atribuição de um subsídio de 2500 € por nascimento. Também aqui acho que a verdadeira mensagem está implícita e se deve relacionar com o republicanismo secessionista e radical da Catalunha que, pela ridicularização da família real, símbolo máximo da unidade espanhola, busca dissimuladamente um objectivo que vai muito para além do explicitado. Acho a caricatura de mau gosto. Não lhe acho graça absolutamente nenhuma, acho-a criticável. Mas, mais uma vez, não a acho censurável. Cabe recurso aos tribunais. Ao suspender a publicação, ao ordenar a sua retirada dos pontos de venda e ao encerrar o sítio na internet da revista, a Audiencia Nacional de Espanha está a fazer o jogo dos radicais. Por outro lado está a impor o respeitinho devido aos grandes de Espanha como valor que se sobrepõe ao da Liberdade, além do que não entende que na sociedade contemporânea, não se pode mandar encerrar e retirar uma revista. Isso era no tempo do senhor intendente Pina Manique que proibia a entrada no reino das gazetas vindas de França que propalavam ideais subversivos. Agora há a internet.
Por fim, cabe ainda perguntar se a Audiencia Nacional proibiria o que proibiu acaso o ofendido fosse o Papa, como no caso de António em 1992, ou o Profeta como no caso da Dinamarca? É que, quer em 92, quer em 2006, de Espanha ouviram-se palavras de solidariedade para com os caricaturistas e não consta que os desenhos fossem lá interditos. Haverá, no reino vizinho, dignidades incriticáveis que estão acima do Papa e do Profeta?
19/01/07
Três tópicos acerca da questão do aborto. Por Eusébio Chupaconas
Entre as diversas razões que me levarão a dizer “não” no referendo que se aproxima, interessam-me agora três que não tenho visto suficientemente explanadas:a) Em primeiro lugar uma razão histórico-civilizacional. A maior realização da humanidade não foi a conquista do Espaço, nem o microprocessador, nem os avanços da ciência médica, nem qualquer outra maravilha da ciência e da técnica. A maior realização da Humanidade foi a construção da ideia de Humanidade! Foi um percurso longo, feito de árduas conquistas e ainda não concluído. Desde a aurora dos tempos em que nos desbestializámos, iniciamos um processo cultural de construção de uma identidade social e colectiva que, partindo da ideia de clã, foi evoluindo até se gerar a ideia de Humanidade. Um conceito fundado numa expectativa de concretização à escala Universal e na consagração dos princípios humanistas que conferem ao Homem uma dignidade especial, seja na perspectiva judaico-cristã, seja pela via do antropocentrismo renascentista ou do racionalismo iluminista e seus derivados. Ao longo dos tempos, foi-se gerando o que designo como o alargamento progressivo do conceito de Humanidade. Foram sendo integrados os bárbaros, foram sendo concedidos direitos de cidadania aos estrangeiros, aboliu-se a escravatura, dignificou-se o estatuto da criança, combateu-se o infanticídio e o abandono, os deficientes ganharam dignidade cívica e moral, os velhos, os pobres, os mendigos, os não-crentes foram equiparados em direitos e estatuto, aboliu-se a discriminação ditada pela fé, pela raça ou pelo sexo. A emancipação cívica da mulher é das mais brilhantes realizações do género humano, juntamente com a aquisição de direitos cívicos por parte das classes populares, a abolição da escravatura e da pena de morte em muitos países. Combate-se o analfabetismo e a exclusão, a pobreza e a marginalidade. Conferem-se direitos aos idosos e aos loucos. Os doentes comatosos adquirem dignidade. As prostitutas e os toxicodependentes são respeitados. O estigma da homossexualidade tende para a superação. Enfim, e em suma, os avanços são muitos e muito ainda há para fazer. Desde o conceito inicial em que a dignidade era privilégio exclusivo de um grupo restrito até à actualidade, muito se fez. A liberalização do aborto representa um retrocesso civilizacional. Pela primeira vez se tende a legislar no sentido de restringir o processo histórico-civilizacional de alargamento progressivo do conceito de Humanidade, cuja aplicação se procura restringir.
b) Em segundo lugar, considero que a liberalização do aborto se deve compaginar com uma estratégia de domínio social que tem como instrumento a restrição da natalidade. Explico-me: pelo menos desde a emergência do Cristianismo que a definição doutrinária e / ou jurídica de princípios reguladores da actividade reprodutiva se deve associar a uma estratégia de conquista ou manutenção do poder. Isto é, o apelo ao aumento da natalidade e a promoção de políticas de fomento demográfico visam constituir uma base demográfica capaz de sustentar uma política expansionista. Ou então, quando os poderes instituídos fomentam as práticas reprodutivas e incrementam medidas tendentes ao expansionismo demográfico é porque encontram aí a condição necessária para obtenção de mão-de-obra exigida para uma política de enriquecimento das elites pela exploração do trabalho alheio. Desde a Roma antiga até ao Brasil anterior à lei Áurea de
c) Porque o capitalismo burguês encarava as altas taxas de natalidade do mundo operário e do campesinato como uma forma de garantir um campo de recrutamento barato e permanente, de explorar portanto a força de trabalho dos operários, a prática abortiva era apresentada como um direito da mulher. A restrição da natalidade era encarada como uma forma de emancipação da mulher relativamente a uma moral puritana e hipócrita que encarava o ventre feminino como uma fábrica de gerar mão-de-obra que iria alimentar a ganância burguesa. Essa moral propalava a virtude e a castidade e praticava a violação e o abuso. Essa moral tornou-se ideológica e encontrou suporte na doutrina da Igreja. A hipocrisia e o abuso, a violação e a prepotência dos poderosos burgueses expressaram-se numa imensa taxa de abandono de crianças e infanticídios, de aborto clandestino e ilegal. Mulheres que eram abusadas pelo poder masculino dominante, pelo patrão. Sopeiras da província que eram violentadas, operárias que seduzidas e logo abandonadas ao seu destino pelo superior hierárquico, jovens que enganadas e depois abandonadas e anatemizadas pela sociedade. O quotidiano dos inícios do século, até aos anos 60, era feito destas práticas e destas indignidades. Álvaro Cunhal, em 1940, no ano da Concordata com a Santa Sé e no ano da comemoração do Duplo Centenário da Fundação e da Restauração de Portugal em que o nacionalismo salazarista, com algumas facetas eugénicas, comemora a sua vocação imperial e estabelece como prioridade a implementação de políticas de fomento demográfico com vista à colonização interna e, principalmente à colonização do Império Colonial, - sendo que mais uma vez as políticas demográficas são subsidiárias de um projecto político - Álvaro Cunhal, dizia, defende a sua tese de licenciatura na Faculdade de Direito de Lisboa. A tese, intitulada «O Aborto. Causas e Soluções», foi recentemente (1997) republicada pela editora Campo das Letras.
Este corpo de ideias, aqui genericamente traçado, ainda hoje constitui a base do argumentário usado pelos defensores da liberalização do aborto. Devo dizer, sem reservas, que até acho que, considerando a época e apesar de alguns aspectos discutíveis, a validade de alguns argumentos era defensável. A União Soviética era apresentada ainda como o paraíso terreal em construção, a terra de todas as promissões. Por outro lado, no ano da Concordata, a aliança entre a Igreja e o Estado Novo Salazarista instituía uma moral retrógrada e limitadora da liberdade individual, nomeadamente ao limitar o divórcio e ao submeter as mulheres à esfera familiar e a um estatuto de subalternidade em relação ao marido, amputando-as igualmente dos seus direitos cívicos. Os abusos e desigualdades eram frequentes e recorrentes. A lei não protegia a mulher nem as crianças. Os maltratos eram frequentes, tal como as violações e as explorações. Hoje, a situação é diferente. A revolução sexual dos anos 60 introduziu profundas alterações sociais, mentais, culturais e políticas. A mulher emancipou-se, a pílula mudou radicalmente os modelos de comportamento, o movimento estudantil, o movimento pop e a contracultura denunciaram as hipocrisias da sociedade burguesa. As mulheres vestiram mini-saia e queimaram soutiens. Começou a falar-se abertamente de sexo e contracepção. Nunca se falou tanto de sexo como hoje. Ao pai burguês já não compete reprimir comportamentos, mas informar. Ao Estado já não compete incutir modelos morais, mas sim proteger e fornecer meios de planeamento e aconselhamento. A violência doméstica está criminalizada, não necessitando de queixa. A mulher tem acesso pleno à educação e ao mercado de trabalho. O assédio sexual é crime. O acesso á justiça é fácil. A educação está generalizada. Já ninguém pode alegar ignorância. Os meios de planeamento familiar são muito diversificados e acessíveis. A informação está disponível em todo o lado. O casamento está dessacralizado e o divórcio é fácil e comum. Já não há o estigma moral do divórcio. A mãe solteira já não é amaldiçoada publicamente, ainda que possam subsistir mentalidades retrógradas. A sociedade urbanizou-se. A lei prevê as situações extremas em que o aborto pode ser praticado: violação, má-formação e perigo para a vida da mulher. Utilizar o argumentário de Álvaro Cunhal nos anos 40 é anacrónico e desresponsabilizante.
Foto: Catarina Eufémia no blog «Estudos sobre o Comunismo»


