Blog da RS.T - Real Esseponto do Tinto - Coimbra - Os Três Pastorinhos também bebiam o seu copito
08/03/11
De olhos bem abertos, por Don Sebastião
09/12/10
A Metamorfose de Franz Kafka, por Melquíades

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na cama metamorfoseado num monstruoso insecto.” Assim começa o Metamorfose e pouca mais acção há. O livro é pequeno, mais novela que outra coisa, e traduz-se nisto: Gregor Samsa, caixeiro-viajante que se mata a trabalhar para prover à família que adora - pai e mãe, já velhotes e uma irmã novinha -, acorda naquela manhã transformado num nojento e gigantesco insecto. Não pode falar, não pode sair do quarto, não pode fugir; e não maltrata ninguém, uma vez que mantém pensamento humano. Reconhece a família e o mal que lhes está a fazer e a família reconhece o insecto de pesadelo como sendo o filho extremoso, Gregor Samsa.
Mas como é que se vive com a monstruosidade? Esta é a pergunta que logo de início nos salta à cabeça, perante a empatia para com a família do mostrengo. Mas a arte de Kafka leva-nos muito mais além do que isto e a pouco e pouco, passado o susto da fantástica metamorfose, já não sabemos quem é o monstro. Começam a aparecer outras monstruosidades ao longo da Metamorfose. A monstruosidade pode estar em qualquer lado e mesmo no meio de nós. Até o leitor pode ser o monstro. Qualquer de nós se identifica com tudo aquilo. De um lado e de outro. Ali não há preto e branco.
Já li e reli “A Metamorfose” muita vez e descubro-lhe sempre uma nova perspectiva. Em regra tenho simpatia pelo novo Samsa. A sua metamorfose é uma reacção à insanidade e ao vazio em que vivia. Foi o corpo e não a cabeça que lhe disse “Não” à continuação da labuta esgotante, transformando-se naquilo que a impossibilitava, a monstruosidade. Transformado o corpo no mostrengo horrendo que nos é descrito, a cabeça de Samsa continuou como até ali, amorosa, subserviente, escrava. O metamorfoseado monstro é a mais humana das criaturas. A família, aterrada e esgotada, e que nos leva de início a maior fatia de simpatia, vai evoluindo ao longo da história e vai sendo objecto de nova metamorfose.
No final, a cabeça humana do monstro físico Samsa, não aguenta o sofrimento (ou a metamorfose) que provoca na família e suicida-se da única forma que aquele corpo lhe permite. À fome. O monstro repulsivo toma a mais humana das atitudes.
10/09/10
O Pensamento Solar de Albert Camus, por Calígula
Leio e ouço muitas vezes referências ao «filósofo existencialista francês Albert Camus». Não me refiro aos ditos dos leigos, mas a manuais vários e a ensaios de alguma responsabilidade. Posso conceder que se chame «francês» a Camus, apesar de ele ter nascido na Argélia e de aí ter vivido a sua infância em Oran.Quanto ao epíteto de «filósofo» foi o próprio que declarou «não sou um filósofo». Não o foi, mas antes um pensador solar, que usou o romance e a literatura e não tanto a filosofia como formas de expressão privilegiadas do seu pensamento. É certo que ele escreveu ensaios brilhantes e que O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado são peças marcantes do pensamento contemporâneo. Mas, ainda assim, são partes de um todo e só podem ser inteiramente compreendidos se articulados com os seus duplos romanescos: O Estrangeiro que está ligado ao Mito de Sísifo e o A Peste em articulação com O Homem Revoltado.
Já quanto ao existencialismo de Camus não posso estar mais em desacordo. Camus detestava esse rótulo. Ele nunca se considerou um existencialista e declarou-o expressamente mais que uma vez. O seu pensamento foi, até certo ponto, anti-existencialista e não sou eu a dizê-lo, mas o próprio. Camus sempre foi um pensador muito mais solar que sombrio e o existencialismo tinha uma aura dark, centro europeia e depressiva que estava nos antípodas do seu carácter. A sua origem argelina e, como tal, o seu fascínio mediterrâneo, pela praia, pelo mar, pela luz marcaram-no. Camus estava fascinado pelos gregos e foi um sensualista. É por isso que, para nós, portugueses (e brasileiros, aí galera!), Camus está muito mais próximo que Sartre e que o pensamento existencialista em geral. Camus, era anti-existencialista antes mesmo de ter convicções filosóficas. Era-o por vocação, por nascimento, por natureza. Ele é, talvez, o mais «tropicalista» dos pensadores europeus. Meursault, por exemplo, o nome do personagem principal d`O Estrangeiro é um trocadilho fónico que aglutina as palavras franceses Mer + Soleil. Meursault é Mar e Sol, perfeito, não é?
20/07/10
Donathien Alphonse François, por Vigário
Acabei de ler Os Infortúnios da Virtude de Donathien Alphonse François. Dito assim ninguém liga. Mas se eu disser que Donathien Alphonse François é mais conhecido por Marquês de Sade, já há quem pense: tarado! Pensa mal. Sade foi muito mais que um devasso e a sua obra vai muito para lá da novela pornográfica a que o senso comum o associou.Sade foi um filósofo e dos bons. O seu pensamento parece ter sido uma espécie de resposta à confiança naif de Rousseau na bondade natural da humanidade. Pelo contrário, para Sade, o homem realiza-se na exploração e na negação do outro. Para ele o objectivo da vida é o prazer mas retira-se tanto mais prazer quanto mais se aniquila a vida. Assim o impulso vital que nos agarra à vida é o mesmo que anseia pela sua destruição. É uma espécie de paradoxo vital.
Sade interessou alguns dos mais importantes filósofos contemporâneos: Maurice Blanchot, George Bataille que lhe dedica um importante capítulo do seu clássico O Erotismo e Sartre que aborda o tema do sadismo no seminal O Ser e o Nada, precisamente no capítulo dedicado às Relações Com O Outro (o amor, o ódio, a indiferença, o sadismo e o masoquismo). E, de facto, as reflexões a que se dedicam os libertinos heróis criados pelo Divino Marquês, justificam inteiramente este interesse de tão importantes vultos da filosofia do século XX.
Justine ou Os Infortúnios da Virtude tem como tema central a história de uma jovem (Justine) educada segundo os mais sólidos princípios da moral e da virtude. A rapariga é o que se pode chamar uma verdadeira santa e apenas pratica o bem. Mas será que os virtuosos são recompensados pela sua moralidade? Assim deveria ser se houvesse um Deus atento... No entanto é o contrário que se passa. Justine dá esmola a uma mulher miserável e é assaltada por ela; trata um enfermo que foi vítima de um atentado cobarde e é escravizada por este; junta-se a um convento para levar uma vida religiosa e é feita escrava sexual dos padres libertinos que aí residem, etc, etc, etc.
Pelo contrário os seus verdugos são sempre recompensados: os vigaristas enriquecem, os padres são promovidos a cardeais, os criminosos recebem heranças milionárias. Neste mundo a bondade é punida e a maldade recompensada!
Para quem ainda insiste em ensinar aos filhos que devemos ser rectos e justos, que o bem é sempre preferível ao mal, a verdade à mentira e a justiça à injustiça, este livro de Sade dá que pensar... Afinal a Providência não existe e se existe é malévola e premeia os varrascos porque o mundo é feito de varrascos e não de santos. Querer ser santo num universo canalha é ficar em desvantagem.
Tudo isto é escrito num estilo escorreito e elegante. Ao contrário do que eu pensava, a narrativa de Sade não é crua nem directa. São muito mais agressivas as imagens proto-porno que popularizaram o Marquês do que, propriamente, as suas palavras. O seu estilo é alusivo e subtil, o que se compreende tendo em conta o contexto de uma época que, mesmo assim, o levou à masmorra sob a acusação de indecência.
Uma nota negativa apenas para a péssima tradução da edição da Europa-América que parece ter sido feito por um indivíduo que ou não sabe francês ou não sabe português ou ambas. Tá bem que é um livro de Sade, mas escusavam de fazer sofrer tanto os leitores.
17/05/10
O Museu de Erros de 2666, por Archimboldo
E pronto! Ou melhor, quase pronto, estou quase a acabar uma das maiores aventuras literárias da minha vida, a leitura do excelente 2666 do escritor chileno Roberto Bolaño. Foi uma grande aventura literária porque, para além da sua indiscutível qualidade literária, trata-se de um dos maiores senão do maior livro que alguma vez li: nada menos que 1030 páginas de literatura a sério!O livro, editado postumamente, foi saudado como o acontecimento literário do século. O Washington Post considerou Bolaño um «imortal», o the Observer «o fora de série da literatura latino americana» e o Time referiu-se a 2666 como «uma obra prima». Não tenho jeito para tais qualificativos, mas acho que estamos, de facto, perante um livro excelente. Melhor, 2666 não é um, mas cinco livros diferentes que o autor pretendia editar separadamente. Foi a editora que resolveu publicar os cinco num só, uma vez que há aqui uma indiscutível unidade de conjunto.
Não gostei dos cinco livros por igual, mas adorei o primeiro, o terceiro e, particularmente o quinto. Acho notável a remissão que o último livro faz para o primeiro, esta noção que subsiste da íntima ligação entre todas as coisas e todas as vidas. Fica a sensação de que esta enorme narrativa poderia começar em qualquer ponto e que, mesmo assim, continua a existir uma unidade que liga todas aquelas histórias. Faz lembrar um jogo de matrioscas literário, cada história, cada personagem encaixando na vida de uma outra num ciclo que é ao mesmo tempo infinito e fechado.
Não vou alongar-me sobre 2666. Quero deixar aqui, apenas, uma colecção curiosa de alguns erros cometidos por eminentes e distintos escritores. Não se trata de asneiras retiradas de uma qualquer História dos Disparates Ditos Pelos Alunos de História de Portugal, ou algo parecido, mas, supostamente, de verdadeiras gaffes debitadas por grandes nomes da literatura.Um Museu de Erros curiosos que Bolaño se deu ao trabalho de compilar e comentar. Ficam alguns, retirados da página 967 do livro:
«Vamos embora!, disse Peter procurando o seu chapéu para enxugar as lágrimas», Lourdes, Zola.
«O Duque apareceu seguido do seu séquito que ia à frente», As Cartas do Meu Moinho, Alphonse Daudet.
«Com as mãos cruzadas atrás das costas Henrique passeava-se pelo jardim lendo o romance do seu amigo», O Dia Fatal, Rosny.
«Depois de lhe cortarem a cabeça, enterraram-no vivo», A Morte de Mongomer, H. Zvedan.
«Com um olho lia, com o outro escrevia», Nas Margens do Reno, Auback.
e, finalmente, a minha preferida:
«Começo a ver mal, disse a pobre cega», Beatriz, Balzac.
Mas serão mesmo gaffes a que, afinal, nem os grandes escritores escapam? Ou, pelo contrário, são apenas exemplos prodigiosos de linguagem metafórica e poética? Terão estas frases algum sentido plausível que nos escapa à primeira vista? A última e minha preferida, por exemplo, de Balzac, parece-me bastante interessante do ponto de vista literário e não creio que seja, simplesmente, uma gaffe cometida pelo escritor francês. E a vocês? O que é que vos parece?
05/04/10
Varrascos, por Piton
Os grandes escritores dividem-se em dois tipos: os varrascos e os outros. Não sei quais são os mais abundantes, sei que há escritores geniais que são completamente varrascos e outros que continuam a ser geniais sem precisarem de o ser. Há grandes escritores ( e artistas em geral) que arruínam tudo à sua volta - acabam, geralmente, sozinhos, alcoólicos e em manicómios, com todos à sua volta chateados. Tal é o caso dos poetas malditos, dos génios incompreendidos, dos artistas românticos... Eu admiro tanto uns como outros, há-os enormes nos dois lados.Alguns grandes escritores seriam apenas bons escritores se não fossem varrascos. Não lhes bastaria o domínio perfeito da escrita, nem as grandes ideias, nem tão pouco as grandes emoções. Embora tudo isso sejam condições necessárias para fazer um grande escritor, nalguns é ainda necessária a qualidade suplementar da varrasquice. Sem ela estaríamos perante escritores completamente desinteressantes...
A varrasquice é essa qualidade sublime de sermos capazes de contar sem freios tudo o que sabemos acerca de todos. Para nos tornarmos grandes escritores deste tipo, seria, pois, necessário que não tivéssemos decência nenhuma, que cultivássemos a mais absoluta falta de respeito por todos aqueles que conhecemos. Cada um de nós conhece, certamente, muitas histórias fascinantes que, pura e simplesmente, não pode contar porque uma vez conhecidas pelos seus intervenientes provocariam reacções de repercussões imprevisíveis.
Por isso a maior parte das histórias interessantes, escabrosas, medonhas, horrendas, ridículas que todos conhecemos, simplesmente, ficam no tinteiro. São as melhores, mas não podem ser contadas... Não será, justamente essa qualidade da varrasquice, de se estar nas tintas para os outros que é necessária a um grande escritor do segundo tipo? Ser capaz de sacrificar o seu mundo, ser capaz de sacrificar todos os que conhece à sua arte - eis a condição vital para nos tornarmos grandes escritores. Dito assim, até parece uma coisa nobre!
pic - Klossowski
18/02/10
A Minhas Leituras de 2009, por Adérito

É verdade que estamos no fim de Fevereiro. Mas um blog é assim mesmo: escreve-se quando apetece e só quando apetece. É por essa razão que só agora me decidi a apresentar aqui a minha lista de leituras de 2009. Espero então que os restantes escribas porcinos avancem a seguir com as deles, cumprindo assim uma tradição que já vem do tempo do D. Maria. Aí vai a minha Lista de 2009:
Oliveira Martins – História da Civilização Ibérica, Europa-América. Achei-o demasiado especulativo, com máximas discutíveis do estilo «o espírito espanhol é este, o árabe aquele, o africano aqueloutro». Há um capítulo que devorei pela pedagogia do relato que me fez recordar alguns apontamentos da aula da saudosa professora Deolinda. O capítulo sobre a conquista da Ibéria pelos mouros, as diferentes fases das invasões, os seus protagonista (o árabe Musa, o berbere Tarij, os Almóadas e os Almorávidas, Al Mansur e Yusef). Depois perde-se em metafísica a mais e história a menos..
Chico Buarque – Budapeste, D. Quixote. Comecei a medo, praticamente forçado por um berro do Grão que me espetou com o livro na cara e gritou: «LEVA!». Li as primeiras páginas cheio de preconceitos – afinal um músico genial não pode ser também, um escritor brilhante, há princípios, o Criador não pode deixar que o mesmo homem reúna tanto génio disperso em artes tão diferentes. Mas não é que Budapeste é um excelente livro? O músico Chico acaba por fazer sombra ao escritor Chico – mas este não sai diminuído do confronto e sabendo nós o que o músico vale, imagine-se em que patamar coloco o escritor Buarque.
Haruky Murakami – Sputnick, Meu Amor. Uma escrita solar, luminosa, meridiana. Murakami é um escritor de grande técnica. E o livro associa à técnica um misticismo-existencialista que lhe dá humanidade. Mal o li corri a comprar Norwegian Wood.
Murakami – Norwegian Wood. Manteve o registo que apanhei em Sputnick, E portanto não desiludiu...
Martin Dugard – A Última Viagem de Colombo, Casa das Letras. Naquele registo muito anglo-saxónico que torna a história acessível ao leigo. Venham mais desta escola que fazem falta no nosso país.
Robert Harris – Pátria (Fatherland). 1992, Bertrand. Este deu post no Tapor. Está por ali algures no histórico do blog...
Sérgio Luís Carvalho – O Retábulo de Genebra, Campo de Letras. Mais um que aqui deu post e até, em tempos idos, um feedback do próprio autor.
Cormac Mccarthy – Meridiano de Sangue, Relógio de água. Também deu post e uma boa polémica com o Grunfo. eu não gostei, ele sim...
Arturo Perez reverte – Um Dia de Cólera, Asa. Dos meus Revertes preferidos (e conheço muitos). Também deu post.
Irving Yalom, Quando Nietzsche Chorou, Bertrand. Uma revelação. Não acho que Yalom seja particularmente brilhante, mas consegue aqui uma narrativa muito interessante. Há aqui uma tentativa de deitar Nietzsche no divã que levaria o próprio ao desespero. Teve um efeito muito positivo em mim porque logo a seguir senti urgência em voltar à leitura do grande niilista alemão. o livro que li a seguir foi:
F. Nietzsche – Ecce Homo, Guimarães. Uma espécie de auto-reflexão do autor acerca de si e da sua obra. Inesquecíveis os capítulos «Porque Sou Tão sábio», «Porque sou tão sagaz» e «Porque escrevo tão bons livros»...
Arturo Perez-Reverte – o Mestre de Esgrima, Asa. Reverte é um vício, que hei-se fazer?
Francesco Alberoni e Salvatore Veca – O Altruísmo e a Moral, Bertrand. Não atinge a pertinência de outros do autor, como o célebre Enamoramento e Amor que o lançou a nível internacional.
Carl Sagan – Um Mundo Cheio de Demónios, Gradiva. Ler Sagan é sempre um prazer e uma aprendizagem permanente. Não deve ter existido muita gente com a capacidade pedagógica dele. No entanto - as lições do Mestre dizem-nos para sermos críticos - achei este livro o mais positivista de todos os livros de Sagan. A crença que ele aqui deposita na ciência chega a ser excessiva.
Greg e Paape – Luc Orient (vols 1 a 4). De entre a muita BD que me passou pelas mãos, destaco estas edições do saudoso Luc Orient que apareceram na Fnac no original francês. Um clássico da FC!
Jaques Lamy – A Verdadeira História dos Templários. Confesso: sou fascinado pelo esoterismo templário. Depois de ler alguma bibliografia sobre a Ordem fica-se com uma sensação de déjá vú. Mas há um núcleo duro de conhecimentos acerca do tema. E este livro é uma boa introdução. Sóbrio!
Manuel Vasquez Montalban – Galindez, Caminho. Uma revelação para mim! Um grande escritor catalão, cujos livros não consigo encontrar. Montalban é um mestre da escrita. Aqui cruza o universo pessoal das personagens com a história mais ou menos desconhecida da antiga ditadura da república Dominicana.
Umberto Eco, Baudolino, Difel. Como todos os romances de Eco, não se consegue parar de ler. No fim, como é hábito, fica-me sempre a sensação de que o autor poderia ter sido mais parcimonioso.
Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Ulisseia. Adorei este livro! Foi uma espécie de regresso à História tal como a aprendi na minha infância e um reencontro com histórias que re-conhecia não sei bem de onde. Como se estivesse a ouvir um fado muito longínquo e ao mesmo tempo incrivelmente familiar.
Irvin Yalom, A Cura de Schopenhauer, Bertrand. Yalom, mais uma vez, a fazer render a receita que aplicou no livro anterior. Desta vez Schopenhuer faz de Nietzsche.
John Updike, Brasil, Civilização editora. Updike foi, para mim, a grande descoberta de 2009. adorei este livro e não parei - ainda não parei - de ler Updike a partir daqui. Saiu post.
André Gide – A Sinfonia Pastoral, Âmbar. Saiu post. Um livro genial de um escritor genial! Este foi só o primeiro Gide de 2009. Seguiram-se:
André Gide, A Porta Estreita, Visão. A matriz freudiana do livro é clara. A rapariga que ama mas que se impede de amar, que ama o fantasma que cria na distância mas que não o consegue suportar enquanto presença real.Outro grande livro!
André Gide, Os Moedeiros Falsos, âmbar.... E vão três Gides de seguida...
John Updike – S., Livros do Brasil. De Gide voltei a Updike que me tinha deixado exclente impressão. Confirmada por este S. de contornos budistas.
14 Novelas Históricas de Portugal, Vários (Eça, Júlio Dantas, D. João de Castro, Henrique Lopes de Mendonça, Alexandre Herculano, Antero de Figueiredo). A feira das velharias na praça 8 de Maio que o Grunfo tá sempre a recomendar tem destas coisas.
Indro Montanelli, História de Roma. Óptima leitura para uma viagem de avião. Foi o meu fiel companheiro nestas férias em Cartago.
Pierre Grimal – História de Roma, Texto Gráfica, 2003. Depois de ler o anterior, a leitura deste Grimal tornou-se redundante.
John Updike – O Terrorista, Civilização editora. Acerca dos meandros psicológicos dos jovens terroristas islâmicos. Não é do melhor de Updike. Mantém a qualidade de escrita mas a narrativa é um pouco action movie.
Brian Ward-Perkins, A Queda de Roma e o Fim da Civilização, Aletheya, 2005. Este também deu post. Foi uma leitura diferente e marcante porque é uma obra de um arqueólogo.
Fernand Braudel – O Mediterrâneo. O livro é dirigido por Braudel mas tem vários autores. Achei particularmente interessante o texto de George Duby sobre a história e o fascínio do mediterrâneo. Foi leitura de Setembro quando andei particularmente interessado na civilização do mar do meio.
The Best stories of superman evertold, vol.2, vários. Descobri-o na Fnac e devorei-o. Tenho pena que sejam tão raras as minhas histórias de infância do Super Homem.
Dostoievsky – O Jogador, Presença. Um clássico de um grande escritor.
José Norton – O Último Távora, D. Quixote. Para além de ter mandado quase toda a família Távora para o cadafalso, o marquês de Pombal ainda se deu ao luxo de educar, sob seu controlo, o descendente directo da família, Pedro de Almeida Portugal, futuro marquês de Alorna. Este livro segue a sua história, desde menino até à morte, passando pela crepuscular participação na campanha napoleónica na Rússia.
J. Lúcio de Azevedo, O Marquês de Pombal e a Sua Época, Alfarrábio. Mais um documento sobre um os maiores sanguinários da história moderna de Portugal.
Manuel Vasquez Montalban – Erec e Eneide, Caminho. Yesss! O grunfo tinha lá este Montalnán perdido. Devorei-o rapidamente e fiquei a chorar por mais. Desta vez a referência é a mitologia céltica.
Dan Brown – O Símbolo Perdido, Bertrand. Uma perda total e absoluta de tempo. Dan Brown segue a receita que tanto sucesso lhe deu no Código Da Vinci. Mas nem sequer é mais do mesmo porque para isso tinha que ter a garra do Código e é demasiado plástico. Pergunto-me como suportei tal estopada até ao fim...
A. Perez-Reverte – O Clube Dumas, Bertrand. Eu não digo que o Reverte está sempre a aparecer? Em todo o caso, achei-o um dos seus livros menos conseguido. Pese embora ter sido precisamente este que deu origem a um filme de Roman Polansky.
J. Updike – Corre Coelho, Bertrand, Civilização. Lynchiano! A aparente modorra existencial conflui para um epílogo trágico. Em certos aspectos faz lembrar Camus, mas com uma dimensão trágica que este não tem nos seus romances. Um dos melhores Updikes que li...
Carlos Oliveira – Uma Abelha na Chuva. Ainda não tinha lido este quase conterrâneo, natural de Febres (hello Tinó, are you there?). O livro é, obviamente, marcado pelo neo-realismo: os maus são os agrários e os ricos; os pobres são simplesmente inocentes e explorados pelos primeiros…
Audrey Niffnegger – A Mulher do Viajante do Tempo, Presença.
Uma boa ideia, um indivíduo que sofre de uma disfunção temporal que o leva a dar saltos no tempo involuntariamente. Interessantes as micro-narrativas. Mas o livro torna-se palavroso e redundante. É como na arquitectura ou na escultura: há aqui um problema de volumetria. Seria um bom ponto de partida para um outro livro muito melhor.
08/11/08
O Saramaguito, porque As Vacas Não São Sagradas
Fora dos livros, Saramago é um homem sem grandeza. Um cidadão com ideias regra geral banais, desinteressantes, pequeninas e azedas. E com uma forte tendência para o disparate. Uma espécie de Noam Chomski dos pobrezinhos. Ou de Soares da literatura. E o Nobel e o filme do brasileiro agravaram-lhe os piores tiques, como a vaidade, não que seja má coisa em si mesma, mas no sentido em que lhe dá mais vontade de falar, sente-se legitimado para a pregação, para dizer o que pensa aos quatro ventos. Então em alturas de lançamentos, quando está realmente por todo o lado, é um fastio ainda maior.Gosto de alguns livros dele, mas, de facto, nunca simpatizei com a personagem. Talvez, inicialmente, por influência de convívio com colegas jornalistas mais velhos, daqueles que conheceram o homem nos tempos do PREC e de outros arraiais dos nossos seventies, de jornais nacionalizados e controlados pelo PCP e de censuras e saneamentos e coisas antipáticas afins, e de como Saramago era um dos intelectuais de estimação e de serviço do pessoal moscovita. Aliás, ainda é, pelo menos de estimação; mas até nisso é pequenino, é vira o disco e toca o mesmo. E repete um discurso que continua a não trazer nada de excitante, de mobilizador, de original. Mas acho, basicamente, que é um tipo filosoficamente pobre.
Por esses e outros episódios, atitudes e palavras, lá fui concluindo ao longo dos anos que o senhor é um bom artesão de letras mas efectivamente não tem grandeza universal, muito menos a que costuma vir associada a um Nobel, que o transformou também numa espécie de embaixador português no mundo. É o Ronaldo e o Saramago. São as nossas duas grandes figuras de referência no mundo. E isso é triste. Eu acho. Até o Eduardo Lourenço faria melhor figura. Ou o Lobo Antunes, que é um tipo sem dúvida nenhuma muito mais interessante e inteligente. Até o pedantismo cínico do Antunes é superior ao pedantismo árido do Saramago. O Miguel Esteves Cardoso, que regressa à ribalta em grande forma, outro tipo muito mais interessante e importante, por exemplo. Só em Portugal há mais e melhor.
Mas, definitivamente, no palco internacional nota-se muito mais a diferença e Saramago não tem a grandeza de espírito nem a sabedoria de uma Doris Lessing, de um Orhan Pamuk ou mesmo de um Gunter Grass, só para mencionar alguns contemporâneos, que realmente interessa ler e ouvir com atenção. Ou mesmo na sua área política, um Slavoj Zizek. Nem de longe nem de perto. A entrevista que saiu ontem num dos suplementos do Público e a conversa recente com Carlos Vaz Marques na TSF, confirmaram as minhas suspeitas. As ideias do Saramago esgotam-se nos livros.
Diz que este último, o do elefante que vai morrer à Áustria, é decente. Espero que sim, e que seja um sucesso e que o homem continue a ganhar muito dinheiro com a sua escrita. Para mim, fora dos livros, é um Saramaguito.
Mas quem quiser perceber melhor do que aqui falo, por favor verifique as diferenças, entre um intelectual interessante e outro nem por isso.
22/06/08
“Maria, Apetece-me Algo” ou “O Génio”, por Trê Jóli
“Maria Kodama riu-se com as perguntas de Saramago sobre a vida dela com Borges”. Era assim que o suplemento P2 do jornal Público de hoje anunciava uma reportagem de duas páginas sobre um qualquer evento em que participaram a viúva de Jorge Luís Borges e o escritor português, que estaria ali na qualidade especial de entrevistador. O título da reportagem era: “Kodama entre o génio de Borges e as perguntas geniais de Saramago”. A ex-senhora Borges ficou, desta forma, esmagada entre dois monstros sagrados, um aparentemente morto e outro aparentemente vivo.
E de que forma sobrou o grandioso génio de Saramago para a extasiada plateia e a deslumbrada jornalista do Público? Sobretudo com perguntas como: “Como é que Borges dizia que te queria? Explica-nos, explica-nos!”... A convidada, aparentemente, divertiu-se muito com o interesse de Saramago acerca da vida íntima do casal. E a jornalista achou que as perguntas de Saramago eram o supra-sumo da genialidade.
É óbvio que a senhora ex-Borges, além da cortesia do riso, replicou com um labirinto, à moda do defunto marido. Mas é de reter a curiosidade lúbrica do velho escritor. De facto, não deixa de ser uma dúvida inquietante: Como é que um Borges daquela envergadura pedia à esposa para lhe fazer um broche, por exemplo? Escrevia uma quadra? Improvisava uma frase enigmática a rimar com chupa-chupa? Não dizia nada e abria a braguilha, como os bebés que abrem a boca a pedir papa? Labirinto…
Ficamos, elás, sem saber como se comporta um génio literário nestas circunstâncias domésticas, porque a ex-esposa deve achar (com razão) que mais ninguém tem nada a ver com esse assunto. Mas Portugal ganhou um comunicador. Daqueles que chegam ao receptor com simplicidade e que fazem as perguntas que os simples querem ver respondidas.
21/02/08
Jack London, por Ja'kim Inuit
Há muito, muito tempo, escrevi aqui um post dedicado a filmes de gajos (acho que se chamava mesmo “fitas de ménes”), filmes viris onde as mulheres são pouco mais que adereços. Nesse post escrevi de duas obras de estimação, o “Lawrence da Arábia” (onde a coisa mais feminina que existe é o Peter O’Toolle) e o “Dersu Uzala”, do Kurosawa. E hoje venho aqui para falar um pouco acerca de um dos grandes mestres da literatura de barba rija: Jack London. Há muito tempo que não revisito o London, mas é uma das minhas referências e, goste-se ou não, é um escritor incontornável e muito mais prolixo do que imagina quem o conhece mal. Desde logo, London não é só histórias de aventuras (e mesmo que fosse…): escreveu mais de cinquenta livros, além de inúmeros contos e outras prosas. Títulos como O Lobo do Mar, o Apelo da Selva, A Febre do Ouro ou compilações de curtas magníficas como os Contos do Extremo Norte, são sem dúvida uma excelente porta de entrada para a leitura para os mais novos, mas na mesma medida em que o será Huckleberry Finn, por exemplo, que é só um marco da literatura universal. Tal como a de Mark Twain, a obra de London tem muito que se lhe diga.
Para quem tem de London “apenas” (com muitas aspas porque a literatura juvenil também tem muito que se lhe diga…) a noção preconceituosa de escritor de aventuras imberbes, aconselho a ler, por exemplo, o romance Martin Éden. Sim, entram mulheres e não, não é passado no Alaska entre inuits e ursos. Não será uma obra-prima, muito menos para os padrões exquisitissimos aqui dos taporquenses, mas pode ser uma excelente surpresa. É de facto um grande livro. Depois, a criatura escreve muitíssimo bem e é uma leitura muito escorreita e cativante. Terceiro, teve um percurso de vida simplesmente extraordinário que só por si lhe daria entrada directa num qualquer panteão de homens “maiores do que a vida”. Como afirmou uma das mulheres da sua vida, Anna Strunsky, London tinha “o corpo de um atleta e a mente de um pensador”.
Em termos literários, London não é só histórias aventurosas de gajos rudes em ambientes inóspitos, mas mesmo que injustamente, o cliché colou-se-lhe e foi efectivamente com essas histórias no Klondike ou nos Mares do Sul que ganhou fama e muito proveito. E é também por essa vertente da sua obra que vai para o rol genérico de escritor macho, membro de uma linhagem norte-americana de grandes escritores iconoclastas, beberrões, caçadores, aventureiros, brigões e putanheiros (Hemingway, Miller, Mailer, Vonnegutt, etc.). Apesar de injustamente rotulado como autor menor por alguma inteligência, London é uma figura central das letras norte-americanas, tendo inspirado de forma determinante gerações de escritores de charneira como os da beat generation, por exemplo.
Toda a existência de London, sobretudo a partir dos 14 anos, altura em que saiu de casa para ir comprar chupas e nunca mais voltou, por outro lado, é uma existência de gajo com G grande. A vida dele não só dava muitos livros, como deu, já que a generalidade da obra é de natureza auto-biográfica (muitas daquelas peripécias radicais, o homem realmente viveu-as!). E o que mais espanta é perceber como é que o homem, alcoólico convicto, conseguia produzir tanta letra talentosa com uma vida tão preenchida noutras frentes. O facto é que a criação literária era para London uma forma como outra qualquer de ganhar dinheiro para estoirar em aventuras e nesse sentido era um escritor pragmático. Definitivamente, não fazia como o outro, que passava uma manhã inteira para mudar uma vírgula. Como em tudo na sua vida, também a escrita era sôfrega: «Não podemos esperar pela inspiração. Temos de ir atrás dela com um pau», disse uma vez. Isto de alguém que também afirmava escrever mil palavras por dia, todos os dias, em média… esta abordagem “mercenária” à escrita era, de resto, assumidíssima (desculpem lá mas não me apetece traduzir esta) «I write for no other purpose than to add to the beauty that now belongs to me. I write a book for no other reason than to add three or four hundred acres to my magnificent estate”. Nem mais. O facto é que tentou mil e um ofícios antes de concluir que só conseguia ganhar dinheiro a sério a escrever ficção.
Mas sobre o escritor e a sua curta mas fascinante vida escreve melhor do que eu por exemplo o José Vítor Malheiros, numa sinopse no Público online. E além disso a internet está cheia de informação sobre este assunto, por isso não vale a pena estar aqui a chover no molhado. Este post serve essencialmente para cativar leitores e porque havia uma lacuna londiniana no tapor. E porque me apeteceu de repente escrever qualquer coisa para o blog, depois do lancinante apelo postal do Grão, e não me lembrei de mais nada assim de repente e de repente saiu isto.
E porque concordo com Vítor Malheiros quando ele diz o seguinte: «Durante anos, London foi vítima dos preconceitos de eruditos e críticos, que acreditaram nas próprias declarações do escritor segundo as quais a sua literatura apenas servia para lhe pagar as contas e o classificaram apressadamente como um escritor de histórias de cães (há muitas, de facto) e de aventuras para rapazes sem interesse de maior. O estudo de London alargou-se, porém, nos últimos anos e as suas edições críticas têm surgido a bom ritmo, acompanhadas por um extenso trabalho de investigação sobre a sua vida e obra, que hoje é reconhecida como profunda e inovadora. O que é talvez mais importante é que London é, porém, um daqueles autores capaz de despertar, apenas com um livro, aquela paixão da leitura que pode iluminar toda uma vida.».
É verdade, comigo foi assim. Tanto que por causa dele nutro desde pequeno uma paixão assolapada e bizarra pelo Alaska e até já jurei a mim próprio que não hei-de morrer sem lá ir. Mas Jack London é acima de tudo uma excelente porta de entrada no mundo da grande literatura.
Ps: Jack London é o nome artístico de John Griffith Chaney, cidadão que veio à luz
Pss: O gajo da direita na foto é o poeta George Sterling
24/12/07
Uma Boa Razão Para Gostar do «Romance Histórico», por Zagazabo
Talvez seja mais uma efeito lateral do fenómeno Dan Brown mas o certo é que, nas livrarias deste país, comecei a dar por uma nova secção a crescer, a crescer, a engordar mesmo, a secção do chamado «romance histórico». Basta passarmos numa das Fnacs do burgo para verificarmos que o espaço concedido a este novo género (?) é largamente superior ao espaço concedido a áreas tão fundamentais como, por exemplo, a História, a Sociologia ou a Filosofia. As três juntas… Compreendo, por isso, a aversão com que um amigo reagia um dia destes ao género.No entanto sempre existiu romance histórico. Muito antes do actual abastardamento do género, sempre houve autores que se dedicaram a contar histórias – a romancear – que decorrem em períodos históricos já passados. Neste sentido muito lato, qualquer romance é histórico, embora o termo se tenha popularizado enquanto designação de histórias decorridas em épocas mais remotas. Abstraiamo-nos, pois, da actual utilização abastardada da expressão. Confesso que sou um fã do romance histórico e, por isso mesmo, reajo mal à pauperização da designação. Dou-vos uma razão para adorar o género, uma razão bem Portuguesa – chama-se Fernando Campos.
Fernando Campos é, quanto a mim e com toda a subjectividade que uma afirmação deste tipo sempre encerra, o melhor escritor português vivo. Prefiro-o a Saramago que, quanto a mim, nada tem para dizer; prefiro-o a Lobo Antunes – um escritor de centelha genial; não conheço Agustina o suficiente para falar muito… Mas Fernando Campos só não tem marketing, de resto tem tudo.
Acho que ele é o último dos escritores antigos e não sei o que acontecerá aquela forma de escrever português quando ele desaparecer. Quando o leio sinto que apanho uma corrente, a corrente que se deseja imortal da grande literatura portuguesa – é como se ele fosse a sequência natural dos nossos grandes prosadores, de Vieira, de Camilo, de Herculano, de Eça... Sente-se-lhe a tradição agarrada à escrita. As fotografias de Campos nas contra capas dos seus livros fazem-me lembrar os mais velhos e mais sábios dos meus professores da faculdade. A escrita dele é labor árduo, investigação, pesquisa aturada, disciplina pura e dura. Acho-o brilhante, mas o seu brilhantismo não é o daqueles gajos que se acham eleitos, escolhidos pela iluminação divina. Os seus livros são o resultado de anos e anos de pesquisa histórica rigorosa e, para além do puro gozo que há em lermos a sua escrita refinada, complexa, sofisticada, temos sempre a sensação de estar a aprender. É uma felicidade que um país com a riqueza histórica de Portugal, única em toda a Europa, possa contar com um escritor com as características de Campos. Porque a nossa história é um manancial imenso por explorar e as gerações futuras agradecerão – se não se perder, é claro, esta ideia cada vez mais peregrina de que o conhecimento do nosso passado é fundamental e se não nos tivermos transformado, entretanto, numa colónia de férias e em empregados de camisinha branca dos europeus do Norte.
Aconselho-vos qualquer um dos três livros que li dele: a Casa do Pó de 1986, o seu primeiro, uma obra prima absoluta, que tem como pano de fundo um mistério baseado em factos reais passado no século XVI acerca da identidade de um frade de nome Pantaleão; O Cavaleiro da Águia de 2005, de trama quase policial que tem como personagem central uma das mais eminentes figuras portucalenses da reconquista: Gonçalo Mendes da Maia, braço direito do primeiro rei de Portugal; e A Sala das Perguntas de 1998, inspirado na vida e obra da grande figura que foi Damião de Góis, tesoureiro do rei D. João III na Flandres no século XVI, Humanista convicto que privou com Erasmo e Lutero e conheceu as contradições do Portugal glorioso dos Descobrimentos e o fanatismo da Inquisição. Denominador comum aos três romances: a viagem. Pantaleão viaja até à Terra Santa, passando por toda a bacia mediterrânica nas mãos de Venezianos e Turcos. Góis percorre toda a Europa Central em plena convulsão reformista e Gonçalo é também, à sua escala, um viajante. Campos é, pois, um escrito de viajens mas na sua obra o distante, olongínquo cruzam-se habilmente com o próximo. Há uma espécie de argúcia, de mestria nesta forma de os falar de Aveiro e de Coimbra e do Rio Mondego e, simultaneamente, de Anuérpia, de Jerusalém e de Constantinopla.
Podia dar-vos outras boas razões para explicar o meu fascínio pelo romance-histórico- como-deve-ser: Amin Maalouf. Tracy Chevalier. Collen McCullough. Ficarão para um próximo post. Entretanto se alguém quiser ler Fernando Campos é contactar o nosso Grão. Ele tem lá alguns. Embora, estranhamente, confesse não ter gostado lá muito d`A Casa do Pó, vá lá um gajo saber porquê…
13/05/07
O Elogio de Lourenço
Vitorino Magalhães Godinho, Vasco Pulido Valente, Fernando Catroga e Eduardo Lourenço são, na minha opinião, os mais brilhantes intelectuais portugueses vivos. Todos têm em comum a portucalidade como objecto, o discurso histórico reflexivo como método, o género ensaístico como forma preferida de expressão, a pedagogia indissociável do discurso ideológico, a desmistificação e dessacralização da memória colectiva, o descomprometimento em relação a qualquer ortodoxia, o rumo errante que não compromete a coerência da obra e a profundidade do pensamento.29/01/07
Não Se Pode Enforcar Um Homem-Tronco, por PercaDoNilo
“(…) - Estou a pensar no aleijado. Que presunção! A quem lhe der ouvidos até há-de parecer que as mulheres andam mesmo atrás dele.
- Não te esqueças, senhor oficial, de que aquele mendigo, por causa das mutilações, representa uma mina de ouro. As mulheres que o cortejam são interesseiras.
- Seja como for! Uma criatura tão hedionda!
- Não há nada que seja hediondo. Este homem-tronco faz amor tão bem como qualquer outro. E até melhor, se bem entendo e a julgar pelo que me foi dado ouvir. Digo-te eu que os gritinhos de volúpia da mulher não eram fingimento. E confesso ser tal coisa bastante animadora.
- A que chamas tu animadora?
- Olha - disse Gohar -, reconforta saber que até um aleijado como aquele pode dar prazer.
- Semelhante monstro?!
- Este monstro tem sobre nós uma vantagem, senhor oficial. Sabe o que é a paz. Não tem nada a perder. Pensa-me só nisto: não há nada que alguém lhe possa tirar.
- Pois tu julgas então que é preciso chegar a esse ponto para uma pessoa ter paz?
- Não sei - respondeu Gohar. - Talvez seja necessário um homem tornar-se homem-tronco para atingir a paz, para a conhecer. Imagina só a impotência do Governo perante um homem-tronco. Que poderá o Governo contra ele?
- Pode enforcá-lo - disse Nur El Dine.
- Enforcar um homem-tronco! Não, Excelência, de maneira nenhuma. Não há governo nenhum com humor para isso. Seria belo demais. (…)”
Este diálogo foi extraído do livro “Mendigos e Altivos” de Albert Cossery. Cossery é um escritor algo esquisito, inclassificável mesmo. Nasceu e cresceu no Cairo e mantém ainda a nacionalidade egípcia, mas há mais de 60 anos que se auto-exilou em Paris, onde teve como compinchas de boémias Albert Camus e Jean Genet. Escreve em francês, mas todos os seus livros remetem para o Egipto em geral e o Cairo em particular. Filho de pai francês e mãe árabe, foi educado no Cairo em escolas francesas. Apesar da educação e do exílio francófono, a cabeça de Cossery e a sua escrita nunca abandonaram os bairros e as gentes miseráveis do delta do Nilo.
Cossery diminui as mulheres, e faz a apologia do sono, da sesta e do silêncio. Nos seus livros não há grande história ou intriga intensa. Existem alguns incidentes e depois Cossery faz desfilar diante de nós toda uma panóplia de personagens fabulosas. Como a acção é escassa, as páginas vão-se virando com falas, pensamentos e formas de estar. Com Cossery está-se. E no entanto, tudo acontece. As personagens são do mais abjecto, marginal, desprovido e preguiçoso que se possa imaginar, mas Cossery fugindo aos estereótipos da lamechice realista, constrói a partir delas uma realidade poética e apaixonada. A ironia, o sarcasmo e o gozo a tudo o que seja poder, instituição, ordem ou progresso é uma constante. O moderno, o herói, o conquistador ou o sucesso, tudo merece de Cossery o mais profundo desprezo. A adjectivação é excessiva e assumida.
No mais é ouvi-lo. Já li tudo o que dele se publicou em português, há alguns de que não gostei, mas há três deles que são puro prazer de leitura: “Mendigos e Altivos”, “Uma Conjura de Saltimbancos” e “Os Homens Esquecidos de Deus”. Aqui ficam alguns excertos:
“(…) O guarda Gohloche tinha nascido carrasco. Os seus olhos reflectiam uma estupidez que matava. (…) O guarda Gohloche personificava a maldade mais detestável: a maldade posta ao serviço dos grandes da terra. Uma maldade paga. Já não lhe pertencia. Tinha-a vendido a gente mais competente que a usava para subjugar e mortificar todo um povo miserável. Já não era senhor da sua maldade. Devia conduzi-la e dirigi-la segundo certas regras cuja atrocidade não variava.
O guarda Goloche morava na viela Negra, mas exercia as suas funções de tirano no centro da cidade europeia. E era para ele uma espécie de morte. Definhava. Num meio assim, frequentado geralmente por europeus, a sua vigilância encontrava sérios obstáculos. Não podia expandir-se à vontade. E então Goloche transferia o seu ódio para tudo o que o elemento indígena fornecia em matéria de escravos: vendedores ambulantes, mendigos, pequenos apanhadores de beatas, leprosos, cegos e toda a tribo de vagabundos que não conseguiam morrer porque se levava muito tempo a matá-los. Essa escória, vinda de toda a parte para dar à cidade europeia um ar de Oriente exótico, era numerosa. Um abençoado alimento para os olhos dos turistas. Mas o guarda Goloche não era turista e não entendia nada de exotismos. (…)”
“(…) - Que bem escreves - disse a moça. - Bem se vê que andaste na escola.
Ele respondeu sem a olhar:
- Pois andei. E tu, não andaste na escola?
- Ora, por que havia eu de ir à escola? - respondeu Arnabá em tom de desprezo. - Eu cá sou uma puta. Quem tem um bom traseiro não precisa de saber escrever.
- Tens razão - disse Gohar. - Nunca ouvi nada mais acertado. (…)”
“(…) É muito simples, vou dar porrada na minha mulher -, declarou Hanafi com voz sombria e fatal. - Não há outra coisa a fazer.
- Porquê? É ela que tem o dinheiro?
- Não, quem o tem é a minha sogra. E é uma pessoa de bom coração. Não gosta de ver bater na filha. Percebes? (…)”
“(…) Abou Chawali aborda o assunto que o traz preocupado.
- Procurei-te, efendi Gad, para te falar de um perigo que ameaça o mundo dos pobres.
- Que perigo, mestre?
- O perigo da fantasia.
- Fez-se um silêncio, durante o qual Gad tenta escapar ao professor. No fundo, o meio onde é obrigado a viver horroriza-o. Sente um nojo instintivo por todo esse mundo real e miserável. Gosta mais de se divertir em situações extraordinárias. O domínio da fantasia é tão variado. Pensa na galinha de penas douradas e olhos de mulher voluptuosa, que de súbito desapareceu. Há na vida coisas fantásticas e Gad gosta dessas coisas. No entanto, volta-se para Abou Chawali e pergunta com um ar interessado:
- Que estavas a dizer, mestre?
- Dizia, efendi Gad, que para nós a fantasia é um perigo. Precisamos de outra coisa.
- E de que precisamos nós, mestre?
- Precisamos de realismo -, afirmou com força Abou Chawali.
A palavra realismo paralisa todas as faculdades de Gad. Não sabe que responder. Pergunta a si próprio se não faria bem em falar ao professor da galinha dos olhos magnéticos, que tentou seduzi-lo como uma prostituta. (…)”
Com Cossery, o Cairo esquecido de deus, entra-nos pelos olhos dentro. A sordidez e o absurdo caminham de mão dada com uma vida pujante e demente. É uma terra estranha, com uma vida estranha aquilo que se nos entranha a cada página. Páginas onde é rei um homem-tronco, garanhão de fêmeas sedentas de tudo. Um homem impossível de enforcar, como diz Cossery. Ninguém tem um tal sentido de humor. Seria belo demais.
22/10/06
Delibes, por Urko
A passada noite lia uma entrevista a Miguel Delibes, e confessava este que “"Antaño, todo hombre nacido de mujer se consideraba portador de cosas positivas, de algo digno, algo noble, unos valores, en suma. Pero la descendencia de Caín pesaba sobre nosotros, y el hombre que era portador de reservas morales se convirtió en un ser peligroso, maligno, de difícil definición. Ahora, el hombre miente, ataca, mata, hiere, viola y su presencia lógicamente engendra desconfianza. El hecho de ser parido por mujer no lo dignifica ni quiere decir nada".Miguel Delibes é um dos melhores escritores de língua castelhana da segunda metade do século XX. Ainda hoje com 87 anos continua assistindo as tertúlias no café Continental e trata de corresponder aos seus conterrâneos que o cumprimentam durante o seu habitual passeio matinal no Campo Grande da cidade de Valladolid – berço e vida do seu quotidiano.
Don Miguel fazia esta confissão, quando se referia ao grave problema da imigração dos países africanos, que forma já parte do noticiário habitual no pais de al lado. O cenário dantesco se banaliza, é uma noticia diária, umas vezes cruel e outras vezes pior. Africanos adultos, adolescentes, crianças e grávidas, morrem o sobrevivem numa aventura para um destino aparentemente paradisíaco, vem desde as costas da Guiné, Gâmbia, Senegal ou Mauritânia, traçando uma travessia quilométrica em condições extremamente desumana, inenarráveis. Durante o percurso vão encontrando cadáveres - o mar também cobra a sua quota -, não desistem, antes a morte. Assistidos nas costas españolas uma maioria são repatriados -já são 76.000 os repatriados neste ano - outros sem identificação possível ficam em centros de acolhimento, a espera de não se sabem bem o quê, centros de portas abertas que os deixam soltos como se fossem cães vadios, – eles se crêem afortunados, pensam que assim é melhor, tal vez, uma boa oportunidade surja. No entanto, o pior só acaba de começar. À espera há policias e funcionários corruptos que prometem documentos em troca duma enorme suma de dinheiro, o simplesmente se apoderam de suas roupas, o favores sexuais em troca de nada, o são escravizados por salários inexistentes para mais tarde ser expulsos ou simplesmente denunciados. É este tipo de podridão que o nosso amigo Don Miguel, vê tristemente emergir nesta sociedade do bem-estar.
