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02/03/11

Um (des)gosto, por Cão

Tenho uma filha com 17 anos feitos que acredita em si mesma. É bom. Também acredita no futuro dela, ela. Já não sei se isso é tão bom. Não sei – e não sei explicar-lhe a minha ignorância.
Tenho outra menina a que pertenço também. Tem 11 anos, vai andando, não sei bem em que acredita ela, vejo-a menos vezes do que deveria.
Uma e outra são portuguesas. Crescem como juncos que o vento matiza de verde. São cidadãs deste tempo.
O problema é este tempo ser destes gajos. Deste país. Desta conjuntura.
A Leonor e a Teresa são exactamente iguais aos vossos filhos e filhas: encarnações floridas com que intentei prolongar a eternidade que o Tempo nos nega. Não o Tempo dos filósofos alemães. Não o Tempo de mármore da Grécia. Não o Tempo cartográfico das caravelas. Este Tempo.
O Tempo dos corruptos/corruptores. O Tempo dos falsos adventistas. O Tempo dos idiotas subidos a lugares de comando. O Tempo dos amigos serem para as ocasiões que fazem ladrões.
A minha Leonor e a minha Teresa foram feitas em Portugal, mas não para ele.
E os vossos filhos e as vossas filhas? Terão sido para gajos de ocasião como estes?
Gostaria de saber o que pensais disso.
Gostaria mesmo.

23/01/11

Beatificação de Carlos Castro já!, por Cão

A tragicomédia da vida nacional não é preguiçosa. Antes pelo contrário, está tão mais viva quão menos recomendável. Seguem-se alguns itens.

Em vertiginoso curso, o processo de beatificação de Santa Frívola, que em vida se chamou Carlos Castro. Martirizado em halo de santidade por um fedelho de Cantanhede deslumbrado com o barulho das luzes ídolo-televisivas, o malogrado “socialite” da escória socio-cor-de-rosa parece importar-nos a todos muito mais do que um tal capitão de Abril chamado Vítor Alves. Vítor quem? Exacto.
GALP & resto da quadrilha gasolineira de volta à hiperinflação concertada dos combustíveis. Deixa andar, povinho, coitado mas é do Carlos Castro.
O versejador de Águeda continua com a mania de que ele é que é o 25 de Abril, a Resistência, a Poesia, a Democracia. Não é nada.
Um tipo mata o amante da ex-companheira com dois tiros pelas costas. Presente ao juiz, certo detalhe técnico fá-lo sair em liberdade enquanto espera julgamento. Certo. Porreiro. Deve ser justo.

Sócrates etc.

Impostos disparam para cima, salários para baixo, desemprego para cima, justiça para baixo: com tanto acimabaixoacimabaixo, isto já parece cópula sexual.

Eu sei, eu sei: a crónica da semana passada prometia melhores notícias para esta. Não fui capaz de encontrar nenhuma. Nem eu, nem a rapaziada do Sporting, clube que cada vez mais se belenensiza. Por falar em Belém, vai haver eleições presidenciais um dia destes.

Mas Carlos Castro não pode já, como sempre esperei, vir a ser Presidente da República. Será, quando muito, santa. Santa no roxo lírio dos nossos corações.
Dos nossos frívolos corações, ó saudoso capitão Vítor Alves.

18/10/10

Semelhança do buraco, por Cão






Os mineiros do Chile foram resgatados. Excelente notícia. O desejo (que todos tínhamos) de que assim acontecesse, foi felizmente satisfeito. O airoso desenlace ficou a dever-se ao heroísmo lúcido dos homens soterrados e à dedicação incansável dos técnicos, que nunca souberam, estes, desistir à superfície, e aqueles idem lá nas profundas. O ocaso deste caso deixa-me, em lugar do desejo único de ver os mineiros cá em cima com as respectivas famílias, dois outros desideratos. Estes aqui: 
1) Que a equipa internacional de técnicos salvadores venha para Portugal formar Governo. Só gente assim, abnegada e competente e capaz e dedicada e desinteressada nos pode tirar de um buraco como aquele em que nos metemos a partir de 1976, ano a partir do qual o PS e o PSD, alternadamente, nos meteram no fundo.
2) Que os 33 mineiros sejam secretários de Estado desses (verdadeiros) engenheiros.

Em lugar de, por mero exemplo, um qualquer José Junqueiro, seria ou não seria excelente termos na Secretaria de Estado da Administração Local um Florencio Ávalos, ou um Victor Zamora, ou um Carlos Barrios, ou um Edison Pena, ou um Jorge Galleguillos, ou um Alex Veja, ou um Mario Gomez, ou um Claudio Yáñez Lagos, ou um José Ojeda, ou um Carlos Mamani, ou um Jimmy Sánchez, hum? Seria pois.
Ou então a presidentes de Câmara, estes e os outros. Haveria de dar para todos. E todos eles nos prestariam um serviço a que não estamos habituados – e com abnegação, coragem, solidariedade, entreajuda, disciplina, contacto, comunicação, comunhão de objectivos, igualdade de ponto de partida, essas coisas que perdemos desde 1976.
Julgo que estes meus desejos, ao contrário do outro que queria ver os 33 trabalhadores sãos e a salvo, não serão resgatados de sua mesma utopia. É pena. Porque no Chile só os 33 bravos é que estavam no buraco. 

Aqui somos dez milhões. E os nossos “engenheiros” são do calibre que são.
Só o buraco é semelhante.

01/10/10

Nome (para o) colectivo, por Cão


Estamos reféns de uma corja de bandalhos. Tenho outras maneiras de dizer o mesmo. Seguem-se elas. Já.

Somos um alfeire sequestrado por uma quadrilha. Vivemos como récua por conta de uma vara. Rebanho que teimamos em ser, trepa-nos pelas canelas uma ninhada ignóbil. Sabeis de que tropa vos falo, claro. De que malta. De que chusma. De que bando. De que choldra. De que ádua. De que matilha. De que ninhada. Claro que sabeis.

Mas sabeis também que aqueles de que vos falo, esmifrando-nos embora os bens, não lograrão nunca extirpar-nos a condição de pessoas de bem. Podem secar-nos o pão, interditar-nos o trabalho, molestar-nos a saúde, injustiçar-nos os direitos, analfabetizar-nos os filhos, corromperem-nos as famílias, emporcalhar-nos as ruas, evacuar-nos as aldeias, atoleimar-nos de bola, senhoradefátimar-nos as mentes, casamentogayzar-nos de pósmodernidades balofas, redbullzar-nos de avionetas para tolos pasmados de corneta no ar, tonycarreirar-nos até que zumbamos, relinchemos, zurremos, chasqueemos, pissitemos, cuculemos, grasnemos, cacarejemos, cucuriquemos, ronquemos, grugulejemos e regouguemos. Poder, podem. E vão continuar a poder enquanto permitirmos que possam. Só que há duas coisas: eles vão continuar bandalhos. E nós vamos continuar alfeire, que é o nome colectivo dos porcos de engorda.

E se isto não é grunhir com razão, não sei o que o seja.

15/09/10

Olarila, maravilha, por Cão

O rolo compressor da Corrupção, a tetraplegia da Justiça, a desumanização da Saúde, a idiotia obrigatória da (des)Educação, o letargo da Economia, a continental falcatrua da Moeda Única, a macrocefalia terraplanadora da Bola, as garraiadas maçónicopusdei da Banca, a sordidez vampiresca das Grandes Obras Públicas, o assoreamento maninho das Pescas, o despovoamento genocida da Agricultura, a criadagem da Comunicação Social, a roubalheira impune das Finanças, a mentira manhosa da Formação Profissional, o preço do Bacalhau, a maltosa das Farinhas, a inocência do Padre (perdão, do Carlos) Cruz, aquela Casa ser mais uma pia do que Pia, os dez milhões de poetas que infestam o Facebook à hora de expediente, o treinador do Sporting nem sobrancelhas ter quanto mais hipóteses, a canalha que carteliza as Gasolineiras, a impunidade do Tubarão e o vais-de-cana-ó-Carapau, a frivolidade da gentalha que alvarmente escouceia pela Pantalha Televisiva, os bem-dispostos-por-profissão da Rádio, o Fado Monárquico-Marialvo-Tauromáquico, a vacuidade da Moda, as abencerragens do Pimba e a ponte de Constança já nos não trazer às Portas do Sol – tudo isto e estes todos tornam o País mais pedinte e mais invernoso. Mas tirando estes e tirando isto, é um sítio maravilhoso.

02/09/10

O Prazer De Ler, por Sapocke

As Listas de Leituras que o Cão aqui publicou há tempos, causaram polémica. No Tapor e lá fora, nos arredores. E o mais engraçado é que foi uma polémica esquisita. Não se discutiu a leitura em si, os autores, os livros, as escolhas, etc, mas sim se seria possível que o Cão, ou sequer alguém, lesse tanto!

Mais do que uma vez, pessoas houve, que me vieram com o desdém sobranceiro do “Ganda galga, aquele Cão”, “como se tivesse lido aquilo tudo”, “nem fazia outra coisa”. Fico e fiquei piurso. Pior ainda, do que quando me chegam a casa e me perguntam para são tantos livros. Em regra procuro ser simpático e digo que é para embrulhar as castanhas. Valha-me deus!. Só de quem não lê e não faz a menor ideia do enorme prazer que se pode ter a ler.

As pessoas não estranham que o filho possa passar horas diárias alienado em frente ao Gameboy, Playstation ou mesmo a dar cabo dos olhos com o minúsculo écran dum telemóvel. Se a miúda fica acordada até às 2.00 horas da manhã a ver novelas, tudo bem, mas se ficar a ler um livro de luz acesa na cama, levam a desgraçada ao médico e insistem que dará cabo dos olhos antes dos 18 anos. De igual modo, a fêmea que passa horas infindas no shópping, no lifting, peeling, brushing e demais noveling, recebe o assentimento geral. Tal como o nabo que fica horas seguidas na rua a passear o canídeo, na beira da água a dar banho à minhoca, ou na esplanada a coçar a tomateira. É tudo coisas que as pessoas não estranham e compreendem. Porquê? Porque percebem o prazer daí retirado. Não lhes é estranha a tara aí cultivada.

Já um gajo com um livro é uma coisa esquisita. Ler é hoje uma actividade marada, proscrita. Daí a estranheza que provoca. Experimentem sacar de um livro numa bicha de banco ou de repartição, na espera de um tribunal e vejam os olhares abismados, surpresos, confusos e condenatórios. Um livro? Mas que raio faz aquela peça com livro na mão. E está a lê-lo!, ele há cada tarado! Na espera de um banco, uma madura maquilhada sussurrava com estranheza prá amiga: “Deve ser padre, está a ler um livro pequenino!”. Fiz das tripas coração e aguentei. Logo no outro dia, nas Finanças, lá marrava um seboso: “…e depois vêm práqui estes ler livros!”. Ora foda-se, houve tourada!

Experimentem uma vez que seja - não sendo vossas excelências estudantes ou adolescentes, automaticamente desculpados pelos estudos -, ir pela rua com um livro na mão. As pessoas olham, reparam, e julgam. Questionam. Aquilo não computa. Não percebem o prazer. A tara. É fora do comum, quase fora do tempo.

É evidente que ninguém morre por não ler. Há felicidades e impérios inteiros que se construíram sem que se lesse uma página. E não há um livro ou os livros fundamentais, imprescindíveis, ou nos quais se possa basear a iluminação, a certeza ou o conhecimento. Agora, que há o prazer de ler livros, há. Eu espojo-me nele como gente grande. Com fome e sofreguidão. A minha lista de leituras nem a divulgo, pois sei que daria a muita gente, uma coisa má. Mas acreditem em mim, o Cão leu mesmo aquilo tudo. Com gosto e um enorme prazer. Compulsivo, Obsessivo, Tarado claro, como só um Prazer o pode ser!

pic- Mundos Escritos de Rob Gonçalves

30/08/10

Fecha os braços, ó parolo!, por Cão

Determinado banco da nossa praça comercial e financeira garante receber-nos de braços abertos. E determinado homenzinho abre os braços no cartaz para ilustrar o chamariz. O homenzinho é o Tony Carreira. A isto chegámos. Caramba, a isto chegámos.

Antigamente, ainda tínhamos o Tony de Matos. Com o descalabro galopante do 25 de Abril de 1974 e com a selvajaria também galopante do capitalismo, a pimbalhada parece ter-se tornado obrigatória.
Digo-vos, e garanto-vo-lo por minha honra, que nada me move contra o tal homenzinho. Até o acho simpático, coitado. Mas é que gosto mais do Tony de Matos, que sabia cantar. Este banco e este Tony não sabem nada. Este País também não sabe nada. Não sabe nem quer saber. Saber faz doer, parece.

Mas ainda não perdi de todo a esperança. Quero dizer, do 25 de Abril espero nada. Desse e dos outros dias todos do ano, todos os anos. Mas pergunto-vos isto: não seria absolutamente encantador que o Tony Carreira, pago à fartazana pelo tal banco, começasse a trovar cançonetas baseadas em poemas de, digamos, Keats, Marcial, Eurípedes, Safo, Tasso, Wordsworth, Petrarca, Catulo, Lorca, Blake, Ronsard, Colonna, Píndaro ou Thomas? Hm?

Que me diríeis?

Penso que ele não irá por aqui. Porquê? Porque nem ele nem o País conhecem Jorge de Sena, nem José Régio, nem Bernardo Santareno, nem o matemático Pedro Nunes, nem a revolução neurocientífica desbravada por Egas Moniz (não é o da corda ao pescoço, é o médico e biógrafo de Júlio Diniz), nem quem foi Ana de Castro Osório, nem Maria Amália Vaz de Carvalho, nem ninguém que valha a pena.
E eu já nem pena tenho. Nem do Tony de agora, nem do País de antigamente, que por acaso era um sítio com futuro antes da selvajaria da ignorância obrigatória. Era, era. Mas já foi.

13/08/10

Murãgus dassucar é ké!, por Cão

Quão mais gigantesca a crise social, mais fervilham de in(s)anidade os anões que a encadeiam. Veja-se agora o caso do fim das “repetências” no “Ensino”. A tia Alçada, malogranda sucessora da malograda comadre Milu na desventura de um ministério a que só por macambúzia e cabisbaixa piada podemos designar por “da Educação”, não cede – e as nano-inanidades sucedem-se em catadupa.

A miudagem já podia insultar (e insultava) e bater (e batia) nos professores. Já podia faltar às aulas quanto quisesse. Agora, é proibido que chumbem, mesmo que (ou por causa de) não saibam nada de nadinha de népias de nicles. Quer dizer que a criancinha vai conseguir ser catedrática de uma bolonhice qualquer no máximo aos 25 anos de idade. Isto é tudo os anões a segregar mais anões. As insanidades a babar mais inanidades. A desvergonha a rimar com Bolonha.

Tenho uma proposta para remediar a nossa agrura: que passemos a tratar o tal Ministério (dito) da Educação por Ministério dos Morangos de Açúcar. Julgo que nos tiraríamos todos do sério – e prontos, tàzaver, é-assim.

Entretanto, entrámos já no mês-pimba por excelência. Agosto é quando o cheiro da sardinha assada entra pela igreja adentro, é quando os casamentos ajuntam garrafões a moçoilas vermelhuscas que se ajuntaram, para emprenhar ou por haver emprenhado, a rapazolas atordoados pelo martini com cerveja e pela corrente da motorizada, é quando os autarcas arregaçam as camisas e vão receber as hordas de motards às praias fluviais das parvónias, é quando as avós morrem do flato e os avôs de melancolia, é quando eu suspiro pela dour’outonalidade de Setembro, mês que não é já, porém, o do regresso à Escola, mas à TVI em que o desventurado Ensino se tornou.

03/07/10

Villa, agente secreto do TGV, por Cão


De um golpe só, o avançado espanhol David Villa devolveu-nos à temida e temível realidade portuguesa com certeza. Mau golo para os espíritos pobres (quase todos nós), mas golo mau também para os pobres de espírito que nos desgovernam. Quero, com isto, jogar limpo: o desemprego voltou a existir, a in-ducação voltou a existir, as SCUT vão ser pagas pelo pagode e quanto ao pato-bravo TGV espere um bocadinho vomecê que já vê.

Eu cá nunca poria o Pepe de início. Está sem ritmo competitivo, um pouco à maneira dos desempregados de longa data, a quem não dão trabalho porque estão sem ritmo competitivo também. Mesmo assim, ele andam por aí projecções (encomendadas ao gosto do cliente, como todas) que garantem, mesmo assim, coisa de 34 por cento, apesar de tudo, ao PS. Já Miguel Relvas, praticamente sozinho, alcandora-se a 37 por cento. Mesmo assim – e apesar de Edro Assos Oelho. Eu cá, se fosse o professor Queiroz, punha o Relvas de início.
O Relvas e o Tony Carreira, que de vento em popa vai bolinando praças e praças de gastronomia e “cultura” locais. Dois pontas-de-lança à maneira, portanto. Os nove restantes da linha seriam: Moita Flores à baliza a dizer mal dos que bebem vinho, dupla central de desempregados ribatejanos previstos nos tais mesmo-assim-34-por-cento, defesa-direito um gato coxo de Almeirim, defesa-esquerdo um tabuleiro de Tomar. Meio-campo, Cavaco Silva à direita (claro) e a dizer que não pode ir ao enterro do Saramago porque está a jogar contra os espanhóis, Deco ao centro a perguntar como é que é o verso a seguir a “egrégios Avós” e o qu’é que quer dizer “egrégios”, e a médio-ala-esquerdo o João Baião para o seleccionado ser misto. Já vamos em oito. Com o Relvas e o Tony, dez. Falto eu. Mas só jogo se as portagens da SCUT só deixarem passar o Pepe, não o David Villa.

12/06/10

Uma desventura na Educação, por Cão

O primeiro-ministro disse que “seria criminoso não encerrar escolas com vinte alunos”. Disse, disse. E pensa-o. E já deu ordens à “tia” Alçada, a das aventuras aqui e ali no país da deseducação, que as mandasse fechar. E ela mandou.

Ou eu estou doidinho ou a verdade está nos antípodas: criminoso é encerrar escolas. Fechar uma escola no interior é cancelar de vez a interioridade. É como fechar urgências, centros de saúde, tribunais, postos da guarda, fábricas. É a mesma coisa. Fechar uma escola é obliterar a geração presente vezes as futuras em cada município, cada freguesia, cada lugarejo de pastorícia e amanho da nabiça.

É necessário garantir ao primeiro-ministro que a Escola não é um sítio perigoso. Pois se até serve para vender “magalhãeses”… É preciso demonstrar ao primeiro-ministro que a Escola é um sítio a que toda a gente deve ir ao menos uma vez ou duas na vida, já que nem todos os estabelecimentos podem passar cursos por fax.

A sério, a sério, esta gente é perigosa. Ou eu estou doidinho ou está ela, ela esta, esta gente. Acontece que fiz os primeiros quatro anos da minha escolaridade antes do 25 de Abril. Cristo, ao alto da ardósia negra, continuava escoltado, como no Calvário, por dois ladrões, no caso Thomaz e Caetano. Mas aprendi a ler, a escrever e a contar, trindade de competências (como agora se diz em vácuo “eduquês”) que me ajudou, vejam bem, a pensar por minha mesma cabeça.

Se calhar, o busílis do encerramento em massa de escolas não está no frio economicismo de uns tantos tecnocratas de pacotilha simplex. Se calhar, o busílis do encerramento em massa de escolas está, precisamente, no perigo de as criancinhas virem a pensar por suas delas mesmas cabeças.
Ora, sabe quem estudou que o povo mais fácil de governar (ou pastorear) é o ignorante. Quanto mais carneiro for o maralhal, mais o pastor e seus mastins têm direito a cajados de ouro.
Eu não sou carneiro. Mas que isto me chateia os cornos, chateia.

Rosário Breve nº 158 - www.oribatejo.pt

01/06/10

Quanto futuro (não) temos, por Cão

A taxa oficial de desemprego ronda, à hora a que vos escrevo, os 10,8 por cento da população activa também oficial. Quero lá saber disso. Vem aí um mês inteirinho de mundial da bola. É certo que a selecção alegadamente nacional só vai durar três jogos, mas mesmo assim Sócrates e seus acólitos têm razões feriadas para curtir mais uma temporada à nossa pala, mesmo com este alegre tiro no pé desfechado a favor do poeta Alegre.

Tanto desemprego dá muito trabalho. Ou deveria dar. Mas como já não mandamos nisto (porque abdicámos de direitos e porque nos abstivemos de deveres), que se dane.

Onde agora moro, florescem os abates de fábricas e de lojas e de oficinas e de tudo o que outrora deu de comer a quem trabalhava. Em contrapartida, irrompem as grandes urbanizações quadriláteras a juros dispara(ta)dos. Grandes centros comerciais sobem do chão vários patamares para que o nosso insosso povinho tenha por onde passear sem poder comprar nada. A mocidade grafita as paredes, imit’hip-hops lá de fora e anda pelas ruas com as calças a expor o rebordo das cuecas e o traço longitudinal que de cima para baixo dá lugar ao apartamento das pernas. A velhice pasma nos centros de dia a alzheimerar ante a pimbalhada das televisões alegadamente nacionais. A maltosa de meia-idade, essa não sabe nem o que há-de fazer, nem como desfazer o que nunca deveria ter feito, isto é, abdicar sem luta de direitos e abster-se sem ética de deveres.

A coisa não está boa nem vai ficar melhor. Qualquer pequena ilusão só pode gerar desilusão ainda maior. Claro que nem pensar em revoluções. Já não temos educação cívica nem consciência crítica para uma atitude histórica dessa envergadura. Ou seja: já nem uma vassoura sabemos usar, neste tempo de aspiradores industriais.
Vale o mundial. Aqui onde moro, o gajo do café fia as minis e os tremoços, embora só por um mês, que é o exacto tempo que temos de futuro.

03/07/09

O Descalabro - quase poema quase pátrio escrito agora mesmo, tarde de 3 de Julho de 2009, no intervalo das notícias e tal, por Cão

Vale muito a pena ir lendo os livros anteriores a tudo isto.
Isto: esta gente.
Aprender a língua de cá e as outras que por aí andam - vale a pena.
Sair, ir ver o mar, dar uma volta boa pelas cidades outonais que restam, consultar a Primavera possível da luz.
Criar os filhos à imagem e semelhança deles mesmos.
Saber algumas coisas, o porquê dos nomes das ruas, os tipos de árvores que por aqui se dão melhor, guardar os rios da fobia e da avidez suinícola.
Ser eólico, cada um por si a favor do outro.
Estimar o velho que se vê passar aturdido pela pressa do Tempo.
E devolver os cornos a quem no-los põe, em democracia.

Também vale a pena ter pena da pobre gente.
Dessa que não vai ao teatro saber o que fazem as pessoas-personagens.
Dessa que é pobre de bmw por todo o lado.
Dessa que, coitada, nos quer em outra ortografia, outro desespero, outra nova oportunidade perdida.
Vale muito a pena sabermo-la irremediável, triste, bacocazita, suicida defecadora de giletes.

Gosto do nosso descalabro pátrio.
Diverte-me - e é que já vou estando em idade de me não importar doentiamente com a saúde.
Ontem à noite, até interrompi a leitura da poesia de José do Carmo Francisco e de Luís F. Adriano Carlos para ver aquele menino-ministro a fazer aquilo com os dedos na Assembleia "abúlica", como lhe chamou o poeta João Apolinário.

Tenho medo de que não valha muito a pena saber o bom e o mau das coisas.
Sei que vale, mas receio que se não dê valor a saber.
Saber o bom e o mau, o que é uma igreja bem iluminada, um bairro bem ordenado e com árvores e assim.
Conhecer para além do preço das bananas, distinguir a colonização da Nova França de uma caixa de sapatos vazia.
Conhecer que é mais grave a pianista Maria João Pires renunciar à cidadania portuguesa do que as eleições do Benfica.

Também seria bom que nos não pusessem tanto os cornos.

Não espero já que nas escolas a juventude identifique o retrato do senhor Alexandre Herculano.
Espero tão-só que as minhas filhas sejam felizes todos os dias, mesmo quando o dia não for feliz, mesmo quando, sozinhas e por si mesmas, descubram a fundamental infelicidade do País em que nasceram.

Gosto das minhas filhas - como toda a gente gosta dos filhos de que foi capaz.
Não gosto do brasil-ao-contrário da língua falada nas retretes televisivas.
Quase me ri, quando vi a Bethânia com o Marco Paulo cantando compungidamente em Fátima.
Quase já não tenho tempo senão para ser sincero.

Não tem importância que o Joaquim de Almeida, coitado, ganhe a vida a fazer de Nicolau Breyner em Hollywood.
Importância nenhuma.
Nem que o País quase lacrimeje de orgulho a ver aquele rapaz do nariz chamado João Garcia a subir montanhas em vez de traballhar qualquer coisita para o PNB.
Estas coisas fazem parte, elas existem com o mesmo direito natural à estupidez que nos subjaz a todos.
É como chamarem "escritor" ao Peixoto, coitado.
É como delirar com a puerilidade do Mia Couto, coitado.
É como fingir que o papão nosso de cada dia não há - e que se chama Imbecilidade, o papão.

Não, não tem importância.
Por mim, tenho muita pena de não ser o Prévert.
Eu gostaria muito de ser o Prévert: de já ter morrido, de ter escrito aqueles poemas que faz bem ler com um sorriso cúmplice nos beiços.
Cagar e andar, naturalmente, para o Torga, para o Eugénio, para o Ramos Rosa, para a seita toda que não seja Carlos de Oliveira, António Osório, Ruy Belo, Camões.

Aprender a mudar os fusíveis, ser útil aos vizinhos, amar nos animais a memória profunda do nascimento mais inocente.
Matar as moscas à palmada para poucar nos clorofluorcarbonetos que dão cabo do ozono.
Perdoar o catolicismo ao Graham Greene, ir a Peniche adorar a Nau dos Corvos, ler a senhora Rodoreda e recomendá-la às pessoas que desligam a televisão quando nos convidam para jantar.

O senhor Manuel Pinho já não faz mal nenhum.
Pensando bem, nunca fez, coitado.
Ele é só aquilo, coitado, ele se calhar gosta da mulher e da nossa Pátria.
Se calhar, ele não saberia escolher entre Paul Celan e a Júlia Pinheiro.
Ele, se calhar, gosta da Mariza e da Dulce Pontes e assim.
Ele, se calhar, preferiria - como todos nós, homens - ter nascido Richard Gere e não Manuel Pinho: ou até, por baixo, Joaquim de Almeida, Manuel Pinho é que nunca
mais.

O que me fascina nisto é ter em casa só para mim a edição da Ulisseia de "Bosque Proibido", sim, que o antropólogo Mircea Eliade também foi romancista.
Tendo a edição da Ulisseia de "Bosque Proibido", que é que me interessa que um ministro faça corninhos digitais na Assembleia da Abúlica?

O que me fascina nisto é fazer um quase poema quase pátrio sem falar no Chefe, no menino-de-ouro, no Filho que é Pai à direita do Espírito Santo e
dos outros bancos todos.

Nenhum de nós pode nem deve, assim de repente, chegar às aldeias e dizer às mães que telefonam para as rádios locais que na TSF se fala à americana com hãs no intervalo das sílabas para a informação ser mais, precisamente, americana.
Nenhum de nós pode nem deve, assim de repente, chegar às aldeias e dizer às mães que o ensino técnico-profissional pode produzir gouchas apresentadoras, por assim dizer, significando aqui "gouchas" como aportuguesamento de "esquerdas" a partir do francês "gauches".

Nós temos todos é de ser felizes sempre que possível.
Ele ainda há hipóteses.
Uma delas é aproveitar o sol e a chuva e ainda respirarmos e termos sido amados a ponto de amar sabermos.
De modo que Angola não tem importância, o avião presidencial, a filha presidencial, os diamantes, a conversão católica da senhora Maria Barroso, os saiotes melífluos do sacerdote Melícias, a coluna cor-de-rosa do Carlos Castro no "Correio da Manhã", o cinzentismo obrigatório do "Diário de Notícias", o esquerdismo reformado da "Visão-ex-O-Jornal", o mcdonaldismo alegadamente informativo do "Expresso" de trazer nas manhãs-de-saco dos sábados-de-plástico, a Santa TVI analfabetizando militantemente os cafés rurais da Nação - nem a alegada Educação Nacional.

A Educação Nacional, senhores e senhoras: isto dos exames de cacaracacá, isto tão aborrecido de ensinar & aprender a ler-escrever-contar-e-pensar, isto dos professores, coitados, isto das peregrinações-a-Lurdes, coitados.

A Saúde Nacional, senhoras e senhores: as prenhes a desprenhar-se à pressa nas ambulâncias, os centros de saúde infestados de médicos contrariados e de enfermeiras com a menopausa aos coices e de administrativas que jogam ao solitário e ao imeile dos sáites de encontros amorosos com gajos brasileiros e de administrativos que jogam ao solitário e ao imeile dos sáites de encontros amorosos com gajas brasileiras.

A Justiça Nacional, meninos e meninas, cheia de desprovedores por tudo quanto é canto, e de moitas-flores conselheiros por tudo quanto é praça-da-alegria e assim, e de desembargadores embargados de lágrimas de há-ali-gueitór, e de valentins- e-ou-dias-loureiros.

O Bairro Social Nacional, meninas e meninos, carregadinhos até aos dentes dos restos escoriais do colonialismo, atravancadinhos de rendimentós mínimos de rintintinserção-social e outras merdas às cores.

Se me dessem a escolher entre a Pátria e o Descalabro, eu não escolheria o que não pode ser separado.
Se me dessem a escolher entre dormir sexualmente com uma gaja das boas e ter o nº 117 da Colecção Vampiro, eu escolheria o nº 117 da Colecção Vampiro porque a Pátria já não tem gajas boas para dormir sexualmente, só tem descasadas da 24 de Julho e brasileiras dos restantes 364 dias.

Ao contrário, portanto, do que o senhor Manuel Pinho possa pensar, o senhor Manuel Pinho não tem importância, no que, aliás, a Pátria o imita tremendamente.

Quando posso, leio o suplemento "Babélia" do "El País", claro.
Quando posso, vou à Figueira da Foz comer sardinhas assadas e rever aquele amarelo das casas que é único no meu mundo.
Quando posso, vou a Coimbra entristecer deliciosamente entre o Botânico e a Casa do Sal, permeável à nostalgia dos comboios, à graça pobrezinha do Choupal, à humidade da Adelino Veiga, à pederastia gerontológica da Estação Nova, às porcarias de papelão que os ciganos deixam pela borda do rio, ao perfume a lixívia das divorciadas de Celas e dos Olivais, à devastação da ex-Zona ex-Industrial da minha Pedrulha.

Quando posso, sou português sem dizer nada a ninguém.
Só tenho pena é de já não beber.
Quando bebia, era mais fácil indignar-me depressa e sem consequências.
Quando bebia, também andava por aí a fazer corninhos com os dedos.
Quando bebia, também amava muito a Pátria, mesmo com o Scolari.

Agora, dou-me a Préverts e a Eliades.
Percebo a necessidade de Deus em Graham Greene.
E vou à minha vida em português, certo de ter filhas lindas e portuguesas,
mas lindas.

E um dia vamos todos ter duas datas a seguir ao nome
e nenhuns cornos,
finalmente.

16/04/09

Coisas que passei hoje, por Cão

Passei rente a uma creche. Escutei as crianças no recreio: chilreavam como passaritos de bibe. Cada passarito individualizava o Universo.
Vi uns olhos azuis: também universalizavam a individualidade.
Vi o João Paulo G. Está precocemente encanecido. A realidade preocupa-o. Falou-me dos salários escandalosos dos administradores da GALP, dos interesses privados das roubalheiras públicas, das fábricas que fecham o País por todo o lado, de ir para a Suíça no sábado.
Vi uma casa torrada a frio pelo granizo que caía.
Passei por três mulheres ricas e três como os Reis Magos.
Ouvi o lamento fúnebre por um orizicultor afamado do número de amásias que teve, susteve e manteve anos a fio.
Li o nome “Isabel” num poema de jornal, não recordo qual.
Fui diagonal a negro por causa da roupa entre esquinas cinzentas.
Também pensei naquilo dos salários da GALP e no 25 de Abril e no granizo que enregelava as mãos caídas.
Assisti a um incêndio sem bombeiros – mas era só o meu coração sem dinheiro, de modo que não liguei.
Estive numa casa-de-pasto a ouvir falar do Sporting e do Chelsea e dos administradores milionários da GALP e da broncopneumonia de um homem de 51 anos já com netos.
Passei os olhos por uma crónica escrita em Newcastle há 130 anos.
Recebi um telefonema de alguém que, como eu, se enganou neste número.
Estive quase a chorar, mas aguentei-me porque o Liverpool defendeu a sua honra, haja ainda honra, nem que seja de calções.
Ao fim da tarde, a creche tinha fechado, o crepúsculo doía devagar nas últimas montras, as formigas recolhiam às tocas suburbanas, na casa-de-pasto serviam bacalhau, houve referências ominosas ao Porto-Manchester, mas quanto à GALP mais nada, Isabel.

02/03/09

LIDO CO’ LÁPIS – 1: “Incoerências”, por Umberto Araújo

Esta nova série de textos sublinhados a lápis, começo-a com uma nota pessoal de somenos importância. Há quase 25 anos, adquiri (não anotei onde, coisa rara) um exemplar da primeira edição de “Incoerências”, um livrinho esquecível e justamente esquecido da autoria de um também esquecido e esquecível Umberto Araújo.

Foi no dia 10 de 1984 que o volumeco de 86 páginas me chegou à posse.

Vinha sem capa. Sempre gostei de pescar do pó vertical dos alfarrabistas estas pérolas pobres, sobretudo quando devidamente velhas, esquecidas, ignoradas e… autografadas – ou pelos respectivos Autores, ou por os donos anteriores à minha pessoa.

(Uma vez, luxo dos luxos, cacei, mais do que pesquei, em Coimbra, uma cópia - e em primeira edição! – de “Varanda de Pilatos” autografada pelo Autor, um tal… Vitorino Nemésio!!! Corria o mês de Novembro de 1927. Não esquecerei esse dia feliz: 23 de Agosto de 1986. Mas adiante, que o domingo se nos acaba.)

Bem, de volta a Umberto (sim, sem H) Araújo, sempre vos digo que o primeiro dono do meu (muito meu, há quase um quarto de século, sim?) “Incoerências” foi alguém chamado “Manoel Gomes de Mattos…” e não consigo decifrar o último nome do senhor, que o adquiriu, também em Coimbra, aos 20 de Junho de 1925.

Em 1925 foi, precisamente, publicado este Incoerências do Sr. Araújo. Deu-o a lume a “LVMEN – Empresa Internacional Editora LISBOA – PORTO – COIMBRA – RIO DE JANEIRO”. E mais vos informo que “ACABOU DE SE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO AOS DEZASSETE DIAS DO MÊS DE MAIO DE MIL NOVECENTOS E VINTE E CINCO NA TIPOGRAFIA DA “LVMEN”, EMPRESA INTERNACIONAL EDITORA, SITA À RUA DE FERREIRA BORGES, NÚMERO CENTO E TREZ, NA CIDADE DE COIMBRA.”

Tudo coisas lindas, portanto – a começar pela ortografia, que era melhor do que a nossa, esta que, ainda por cima, nos querem prostituir “à la Simplex”…

Seguindo no vento, fiz a leitura do livrinho esta mesma baça tarde dominical e inaugural do mês de Março de 2009, quase 25 anos de o possuir e 84 depois de impresso. “Tempus fugit”, é uma porra.

Foge o tempo e foge-me o conhecimento de quem foi este Sr. Umberto Araújo. Tem, ainda, toda a pinta de coimbrinha, lá isso ninguém lhe tira. Dele, só conheço a leitura que fiz, que inclui o elenco de obras até então publicadas, a entrar no prelo e em preparação por ele, a saber:

PUBLICADAS:

Águias (“LVMEN”, Editora, 1922).

O Terror nas Beiras (Prefácio – Coimbra-Editora, 1924).

Homenagem a António Augusto Gonçalves (Colaboração).

A ENTRAR NO PRELO:

Página Antiga (Cartas de Amor).

EM PREPARAÇÃO:

A Mentira Portuguesa (Impressões Sociais Contemporâneas).

Lírios de Pedra.


E pronto: não sei mais.

Quero dizer: sei o que lapijei (aprendi isto do “lapijar” em “Os Putos”, de Altino do Tojal, era puto eu também) por baixo das Incoerências que li. Dela vos darei, infra, breve antologia. Permiti-me só que vos diga o que me ficou.

Ficou-me a ideia de o Sr. Umberto Araújo ser um cabotino do mesmo calibre daqueles que cerceia à pàzada de caneta em oito dezenas de páginas. Misantropo (mas lúcido), misógino (até à quinta casa), finissecular (apesar de publicar a o cabo do primeiro quartilho do novo século XX), decadente, português afrancesado “au (de)goût de l’époque” dita “belle”, o diabo a quatro, enfim.

Certo, certinho, é que a leitura me deu gozo, a ponto de querer partilhar algo dela convosco. São citações de um moralista-antimoralista-moralista, não sei se me faço entender.

O homem venerava, por cá, o Eça (vá lá…), o Camões (vá lá…), o Camilo (de quem Araújo diz que “foi o Wagner do pensamento e da morte”), o Antero, o Guerra Junqueiro (Umberto escreve do poeta de “A Velhice do Padre Eterno”, a páginas 81, isto: “Depois de morrer GUERRA JUNQUEIRO, tenho a impressão de que ninguém mais vive no universo…” – Chiça, digo eu…).

E borrava-se todo, por lá, com o Nietzsche (que epigrafa o livro com isto: “A única coisa que se proíbe é a Verdade.”), o Rabelais, o Diderot, o Picasso (já então, sim), o Tolstoi, a Sarah Bernhardt (saiu “Bernardth”…), o Victor Hugo (claro, só podia), o Molière, o Dante, o Schiller, o Verdi, o Anatole France, o Zola, o Goethe, o Verne, enfim.

Notas paralelas a anteceder a selecção de (anti)moralidades deste Sr.:

- “OCTÁVIO MIRABEAU é um estrangulador de almas.”

- de Ibsen, diz que “foi um sacrílego da vida”, porque “a sua obra dá a impressão extraordinária de um riso de pedra num cemitério adormecido…”;

- a António Nobre, chama-lhe “larvado, trágico e doente”, pois que “foi uma flor nascida em lama, sem virilidade e sem perfume…”;

- de Gomes Leal, que “foi o Aretino do século e um velho dandy sentimental”;

- de “A Velhice do Padre Eterno”, “parece que foi obra de um Satan vencido, caído à terra como uma ave despenhada…”;

- de certo filósofo alemão, “Deus fez muito mal em ter criado SCHOPENHAUER. Antes, em vez dele, tivesse dado vida a um burro…”

- de Maeterlink, quando o lia, tinha “a impressão de que andam no ar murmúrios supremos de velhas almas estranguladas…”;

- do, por assim dizer, paulo-coelho da altura, deixou uma engraçada: “Admiro GABRIEL D’ANNUNZIO. Porque é o maior bêbedo de glória da raça latina.”

- daquele que foi preso por gostar de rapazes, deixou araujamente estatuído que “OSCAR WILDE é um rouxinol com reumatismo e sapatinhos de seda…”;

- e, para acabar co’ baile de bufas laterais, fixou que o plácido “LUCRÉCIO foi um sujeito de muito bom estômago e de muito boa pança…”.

Prontos, prontinhos. Dito isto, vamos à amorosa selecta do anónimo Sr. Umberto Araújo:

AMOROSA SELECTA
DO ANÓNIMO SR.
UMBERTO ARAÚJO

-“Coimbra transformou-se últimamente em alfôbre de meninos de côro e em biberon maligno de intelectuais de contrabando.”
(Boa, boa!)

- “A teologia, na sua ânsia de imperialismo espiritual, envolveu na sua lógica todas as invenções, resumiu em si mesma a página ancestal e misteriosa da natureza.”

- “O equilíbrio é uma mentira. O movimento impulsiona a sua essência, e jàmais adquirirá a inércia que a poesia reclama.”

- “Quando a tarde estua nas vibratilidades poderosas dos seus vícios, o ar azul impregna o éter de miasmas, proclamando o império da patologia.”

- “O absoluto é uma negação dentro da complexidade do universo.”

- “A luz, quando rasga o hímen das alturas para chegar aos olhos da humanidade, vibra nas suas eternas espirais dominada pela atracção irresistível dos astros, e quando se transforma em calor poderoso, quando abrasa de evocações o oceano incomensurável da paisagem, vem dirigida em linha recta, numa gloriosa descida de avião pilotado pelo infinito, ungida pela sublime inconsciência das leis do movimento.”
(…da-se!…)

- “O estilo é o homem, disse alguém.
Mentiu.
O estilo é a alma.”
(O catano!, digo eu. E o “alguém” foi o Buffon, totó!)

- “Não há bons livros nem maus livros.”
(Hmm, cheira-me que não te safas assim com essa facilidade toda…)

- “Os corpos nús são a tradução das almas.”
(O que tu queres, sei eu, menino, olha se não sei, ando pràqui ó mesmo el’á séculos…)

- “Finge-se por instinto e por necessidade.”

- “A Arte, como as almas e como as mulheres, quero-as e sonho-as absolutamente núas.”
(Eu nã’ t’o tinha dito, meu?)

- “O manto diáfano da fantasia passou ao museu arqueológico das convenções estreitas (…)”
(Compreendi-te p’feitamente…)

- “É mais fácil derrubar um touro que dominar um insolente.”

- “Quereis fazer de um homem inteligente um cabotino, de uma alma boa um autêntico bandido, de um ajuizado um miserável louco, de um justo uma fera, de um santo um monstro, de um sensato um leviano, indicai-lhe apenas um caminho: o casamento.”

-“Não há amor como aquele que faz envelhecer.
A dôr redime e a felicidade engana.”

- “Os homens conhecem-se pelas invejas que levantam.
E as mulheres pelas leviandades que praticam.”

- “Defende-se com mais facilidade um criminoso que um inocente.
Porque os homens foram feitos de barro – e o barro confunde-se muitas vezes com a lama…”

- “Todas as vezes que ladram um cão nascem um orador e um poeta na terra portuguesa.”
(Mas isso do cão é comigo, meu? Mas isso do poeta também, meu?)

- “Sou herói todas as vezes que fôr preciso.
Basta uma mulher, um pedaço de terra, um punhado de oiro e um cântaro de vinho.”

-“O primeiro beijo pode ser a última virtude.”

-“Um pobre que pede é um insulto que passa.”

-“Mulher por mulher, antes quero a que se vende
A que se dá, procura sempre dominar pela brutalidade da sua soberania…”

-“A mulher que eu amei e que me roubou metade da vida, nem sequer já se lembra da sua virgindade. E assim anda levando a vida, roubando as outras vidas…”

-“As mulheres são a maior futilidade do universo.
Mas ainda assim ponha-as o destino à minha porta…”

-“Quando beijo uma mulher, tenho a impressão de que sou o conviva de uma banquete que terminou há muito.”

-“O adultério de certas mulheres é como o casamento de muitos indivíduos…”

-“A beleza é uma anomalia dos sentidos.”

-“Os exércitos são a maior chaga de corrupção que inventou o espírito do homem. Por cada quartel, levanta-se uma taberna e abre-se um lupanar.”

-“Devíamos andar nús.
Os vestidos são os assassinos do ritmo e da graça…”

-“O ódio é o amor exagerado.
Não esqueçamos que Satan foi um dos anjos predilectos de Deus…”

-“Filosofar é apenas escarnecer.
A Verdade nunca se encontra nem nunca se conhece.”

-“No dia em que me falta o dinheiro, não tenho nem um só dos meus amigos.”

-“ Gosto da morte.
Porque não me insulta e porque me não mente.”

-“Sempre que me falam em amor lembro-me logo da sífilis…”

-“Quiseram fazer-me padre.
Mas esqueciam-se de que eu era homem…”

-“Esmaga-me a todos os momentos a ideia de que a vida continuará na sua indiferença e no seu egoísmo depois da minha morte.”

-“O jornal é o trapo do progresso.
Por isso é sempre sujo, mísero e maldito.”
(Lá nisso…)

-“A mulher que eu amo verdadeiramente, é aquela que só vejo uma vez, que desaparece e passa…”

-“Há bandidos que parecem santos.
E há justos que parecem feras.
É apenas uma questão de oportunidade.”

-“Os artistas que eu conheço não alem tanto como o aranhão que faz sôbre a minha cama a sua caprichosa teia.”

-“As levianas são as mulheres mais sérias.
Simplesmente porque não se preocupam em forjar mentiras.”

-“O Estado é a mama generosa dos ladrões e dos vagabundos.”
(Lá nisso…)

-“Não odeio os homens nas suas preversidades (sic).
Apenas, como NIETZSCHE, aprendi muito cedo a desprezá-los.”

“Se não fôsse o amor, a ida nem sequer seria uma loucura.”

-“As andorinhas gorgeiam (sic) nos beirais do meu telhado. Mal sabem elas, coitadinhas, que cantam sôbre um túmulo!”

-“Tenho desflorado mulheres perdidas…
As virgens só existem nas telas dos artistas e nos mármores dos museus…”

-“A instrução é a inimiga do progresso.
Maldito seja quem nos ensinou a ler!”

-“O amor, para mim, é o cântico da carne.
Quero a mulher, mas só para a devorar…”

-“Se nos víssemos por dentro, não haveria na terra senão feras e bandidos.”

-“A pobreza é o estímulo da Verdade.”

-“Olho as estátuas e pergunto: qual de nós é que anda adormecido?”
(Ora deixa-me cá pensar…)

-“As bonecas são as melhores noivas que podem encontrar-se.
Simplesmente porque não falam e porque… não mentem…”

-“A verdadeira mulher é aquela que nunca desejou ser homem.”
(Este não chegou a conhecer o “Conde”…)

-“O homem só será justo quando viver sósinho (sic)…”

-“Até hoje ainda não consegui adquirir a máscara de vier.”

-“Conheço dois homens que se odeiam profundamente, como dois tigres.
E tanto assim que desejam ambos que um dêles se case…”

-“Mentir é dizer a verdade à natureza.”
(Esta foi bem…)

-“A aviação é o bandoleiro futuro do território das aves, das almas e da luz.”

-“Um monumento aos mortos?
Ergam antes, na praça, um cadafalso aos vivos…”

-“Um criminoso é apenas um tipo que não teve sorte.”

-“As mamãs são as alcoviteiras oficiais do amor das filhas.”

-“A geração do meu tempo parece que nasceu para envergonhar a humanidade.”
(A minha também; e eu também, deixa lá…)

-“Uma mulher linda é um azulejo de carne viva…)
(Diz-lh’ agora que sim…)

-“Um mulher núa é um fio de leite coalhado.”
(Porcalhão…)

-“Uma virgem é uma bela hipótese a demonstrar.”
(Lá nisso, menino, lá nisso…)

-“Conheço muitos patriotas que pregam a moral.
Mas, no fundo, nem um só se esquece de que tem um estômago.”
(Certo, sô Zé.)

-“As catedrais são gotas de mármore tombadas do céu…)
(Lindo, lindo…)

-“A virtude maior é sempre a que se confunde com as coisas mais pequenas.”
(Bem esgalhada, esta.)

-“Se me perguntarem qual é o conceito que eu tenho da humanidade, eu direi abertamente: em mil almas há novecentos ladrões, cincoenta verdugos e cincoenta doidos.”

-“Não há perfeição nem equilíbrio na humanidade.
Ainda há-de vir o primeiro ser que me desminta.”
(Não hei-de ser eu, meu.)

-“Os reis são os únicos homens que nunca poderam (sic) a andar sósinhos (id.).”

-“A vida nada mais é que o festim ininterrupto e constante dos mortos que passaram.”

-“Um casamento é um funeral que se faz à pressa por causa do contágio.”

-“A natureza é tão hábil e tão astuta, que sem darmos por isso conseguimos envelhecer.”

-“Certas mulheres para se despirem não precisam senão dos olhos…”

-“A pedra tem os estremecimentos da carne.
E por isso tem a preferência até nos túmulos.
(Atão nã’ sejas calhau…)

-“Um banquete de anos é uma afronta.
Ah! quem pudesse antes desfazê-los!

-“Onde começa e onde termina a minha individualidade?”
(Onde terminou, sei eu…)

-“Um beijo, por amor, vale mais que um milhão por esmola.”
(O Tanas, meu, o Tanas e o Jêtas da Ponte.)

-“O amor é uma triste brincadeira que traz o mundo eternamente ridículo e parvo.”
(Bistes?)

-“No dia em que terminasse a vaidade muitos pobresinhos (sic) deixariam de comer.”

-“A arte é como um fruto proïbido (sic) que Deus criou para castigo dos impotentes…”

-“Uma guitarra nas mãos de um português é um sino de aldeia a anunciar finados…”

-“O talento é a primeira qualidade para se morrer de fome.”
(Não debes-de-ter morrido magrinho, ó jeitoso, ó coimbrinha!)

-“Admira-se muita gente de que certos sujeitos sejam hoje monárquicos, ámanhã republicanos, ontem conservadores, agora demagogos, há duas horas democráticos e há cinco minutos socialistas.
Em todo o caso cuido que não há motivo para apreensões. É da própria psicologia do político a tendência ao direito de ser pulha.
(Certinho, certinho…)

E FINALMENTE, DEIXEMOS O SR. UMBERTO ARAÚJO A REQUIESCATAR-SE IN PACE COM ESTA:

Os filhos são o prolongamento lógico das anomalias paternas.
De modo que a natureza, por uma astuciosa irreverência, consegue manter sempre à face do universo um enorme superavit de bandidos…

04/02/09

DO PATRIOTISMO E ARREDORES, por Cão

O patriotismo é a fórmula que o inconsciente colectivo encontrou para amar a merda.
Posso dizê-lo de outra maneira – e tenho-o feito – mas fica esta: amar a merda.
O inesgotável filão de imbecis desta puta-pátria tem o seu quê de transcendente, de quase divino, por tão humano e imanente e imbecil.
Eu deste país de merda só queria meia dúzia de oliveiras, talvez nem tanto.
Manhãs rentes ao mar, ele há muitas noutros países.
Isto é tudo tão merdoso, que nem me cansa.
Para me cansar, teria de correr – e estes paços não merecem um passo sequer.
Falo a sério, chiça.

Os insuficientes mentais da rádio-televisão, a quadrilha dos bancos, as seitas evangélicas, os poetas, os de Braga, os actores, os engenheiros, os anais e os menstruais, os cancerosos, os que alugam barcos, os à esquerda da direita e os do avesso da esquerda, os solícitos solicitadores, os abstémios, os não-fumadores, os de Setúbal, os filhos-da-puta em geral e as mães deles em particular, os sindicalistas que não fazem boi e os bois que vão para sindicalistas, os bulímicos, os químicos, os de Abrantes, os que usam cachecol, os que usam o Estado, o estado do uso, o estudo do abuso, os coimbrinhas, os que só dão o cu mas aparecem de piça à lapela, os tónico-capilares, os bic-laranjas, os rosa-cristal, os ciganos e os cigmeses e os cigsemanas e os cigdias e os cigminuto-a-minuto,, os lopes, os palopes, os motores, os promotores, os disto e os daquilo, os reformados, os reformistas, os reformadores, os formadores, os dores, os de Beja, os taxistas, os utentes, os entes, os doentes, os hirsutos, os mansos e os brutos, os anémicos, os da Pampilhosa, os que tossem, os que rumorejam, os do cinema de produção nacional, os nacionais de produção teatral, os que cortam árvores, os que rotundam, os que se arredondam, os que vendem a salvação em brasilês, os que dizem é-assim de cinco-em-5 segundos, os que dão aulas e os que faltam às aulas, os que superbockam, os que acham bem tant’auto’strada entre nenhures e sítio algum, os que amocham com o andor nas procissões, os que mesmo não sendo mulheres não têm colhões, os que tendo mulheres as deixam ir a pé a Fátima ou sabe-se lá aonde, os de Leiria, os cabeleireiros mais fêmeos do que o elástico dos soutiens, os que já redigem sutiãs, os que se pudessem não deixariam ninguém poder, os suinicultores, os que mexem nas partes dos netinhos, os netinhos, os de Tavira, os que mordem a haste dos óculos, os que bebem o vermute com o mínimo esticadinho até à unhaca de tirar cerume dos pavilhões capiloso-auditivos, os dentistas, os aut(omobil)istas, os que têm o cu virado para África, os que nos venderam a Bruxelas, os que estão em Bruxelas a vender-nos ao resto da Bélgica, os que estão em Bruxelas mas voltam, os que rogam por-obséquio, os que pedem tenhamos-a-fineza, os que nunca leram o Nuno Bragança, os que lêem o Torga, os que vomitam, os que crocitam, os que caganitam, os que gritam, os que se vêm mas não se vêem, os que compram nos chineses camisolas para levar à manifestação contra o desemprego, os secredromedários de Estado, os mais altos camelos da Nação, os do Porto, os do FC do Porto, os que têm cataratas no olho-do-cu, os que têm dois-olhos-do-cu na cara, os que fumam mentol, os que dizem cagalhão com boquinha francesa, os que estão sempre a falar no exílio de Argel, os que expectoram pescada, os das poupanças-reformas, os pais-natais, os meninos-jesuses, os das rifas, os do vê-mazé-se-te-abifas, os do torrão-de-Alicante, os de Nelas, os da tropa, os da Europa, os que põem as filhas no ballet ao dispor dos pedófilos que dão Religião & Moral, os que põem os filhos na heroa, os que dolcegabanam e os que só abanam, os que confundem os canhões de Navarone com a ponte do rio Kwai, os que são mágicos, os trágicos, os que são marítimos, os histamínicos, os cómicos, os noz-vómicos, os da Covilhã, os que trocam a rata da mãe por duas embalagens de bacalhau pré-demolhado, os que são trocados pelas mães, os de Bragança, os de Silves, os do Funchal, os do Pico, os de Cantanhede, os de Viseu, os de Peniche, os de Évora, os de Aveiro, os de Pinhel, os de Newark, os de Portalegre, os de Goa, os da Trofa, os de Sacavém, os de Berna, os só-de-taberna, os de S. Paulo, os de S. Paulo de Frades, os de Oliveira de Azeméis do Hospital de Frades do Bairro, os que paulocoelham, os que siddhartam, os que se peidam que nunca se fartam, os que dizem ámen e os que amenizam, os que vertem e os que entornam, os que tornam, os que se encornam, os que se autorretratam e os que nunca se retractam, os que vêem o telejornal, os que já viram ovnis chamados ufos, os bufos, os tartufos, os alecrínicos e os manjerónicos, os que blogueiam, os que bloqueiam, os que manoeldoliveiram no pátio das cantigas, os que nunca se movem, os que se comovem, os que bradam, os que ladram, os que votaram neste cabrão mas agora juram que não, os não foram eles, os que são outros em vez deles por não ter sido o pai deles a foder a mãe deles, os que mandam nas urgências, os médicos, os que têm tétano por profissão, os que fazem do tédio negócio e os do ódio ócio, os ósseos, os seminais, os seminaristas, os sacerdotais e os chupistas, os que foram às urgências para morrer em casa, os que nascem em ambulâncias, os que nem casa têm onde cair mortos, os de Alenquer, os sibaritas, os hermafroditas, os foditas, os jesuítas, os juristas, os naturistas, os que chupam cabeças, os da bandadalém e os que ficam sempre aquém, os de Sintra, os da Madragoa, os porteiros, os parteiros, os excêntricos, os teocêntricos, os dos amanhãs-que-cantam-quando-a-galinha-tiver-cáries, os de Pombal, os que anoitecem de manhã, os que tonycarreiram, os que encarreiram, os que encarneiram, os do poder local, os do foder boçal, os que vendem meias a paraplégicos, os que ladram Deus ao domingo, os que arrolam testemunhas na esquadra de Jeová, os holocáusticos de David, os do tremoço e os da pevide, os que não comem carne de porco sabe Deus porquê, os que dão sangue mas só o do fim da borbulha, os do Estoril e eu também – tudo merda.

Tudo.

26/01/09

Da Maria Absoluta e doutros insectos, por Cão

Somos um país de insectos. Como insectos, somos esmagáveis com uma facilidade de chinelada. Vem a imagem lepidóptera (mais a ver com traças do que com borboletas) da tragicomédia em que esta terra se volveu.´
É o tremendo sr. Sócrates a requerer a “Maria Absoluta”, essa gaja tenebrosa.
É o inenarrável sr. Madail, ao arrepio das finanças nacionais, a encomendar o Mundial da Bola 2018, depois do fartote pato-bravo que foi o Euro 2004.
É a “benesse” ético-coisital dos casamentos gay (com adopção ou sem adoção de meninos?).
É o desbocado sr. Policarpo, cuja religião não permite sacerdotisas, a dizer aos papás que livrem as filhas de casamentos com aquela maltosa que passa férias em Guantánamo.(E já que a crónica mete o Cardeal ao barulho, pegue-se na Bíblia, encontre-se o Livro dos Provérbios e leia-se este apotegma: “Por três coisas se alvoroça a terra, e a quarta não a pode suportar: pelo servo, quando reina; pelo tolo, quando anda farto de pão; pela mulher aborrecida, quando casa; e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora.”.)
A “senhora” em causa é, claro, a Maria Absoluta. O “tolo” é quem casa com ela.
Assim andam e desandam as coisas cá pelo “reino cadaveroso”. A canalhada mandante é vil. A desvergonha atinge foros de paroxismo. O saque é geral. A perspectiva é nula. A expectativa é magra. O “poder local” deveria levar “h” depois do “p”. O bacalhau sabe a tainha. O vinho das cooperativas é todo igual ao litro. E a traça nunca será borboleta.
Agora, que o meu leitor volte a cabeça de repente e para cima: vê? É o chinelo.

Crónica nº 87 da série Rosário Breve (O Ribatejo, www.oribatejo.pt)

14/11/08

Terminação do Anjo, por Leitor Intermitente

O último livro do Abrunheiro é como a Coca Cola do Pessoa. Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Entrei mal na obra. Talvez porque não tenha uma relação fácil com a poesia em geral – gosto apenas de alguma pouca em particular, mais por falta de disponibilidade que por aversão, é daquelas coisas que estou a guardar para a velhice porque pressinto que são preciosas demais para se desperdiçarem em idades sem tempo para as verdadeiras preciosidades. Mas seja como for a poesia nunca foi o meu território literário de eleição. E o último livro do Daniel é, digo eu, um poema disfarçado de romance.

Comprei um exemplar no lançamento, abri-o expectante na primeira noite e confesso que comecei por não gostar. Custou-me a entrar naquele emaranhado de palavras exóticas. Demasiado palavroso, demasiado estiloso, demasiado objecto indeterminado, demasiado ovni. Resultado, o mecanismo da leitura padrão emperrou. Pelo meio (intro)meteu-se uma Grã Bretanha no meu caminho. Mas de regresso, já este mês, retomei a obra. Voltei ao início, disposto a não me deixar abater pelas primeiras impressões. Em boa hora.

Há livros difíceis. “Terminação do Anjo” não é um livro fácil. Isto é dito por alguém que adora palavras. Adoro o que elas significam, mas também me apaixona a forma como elas significam. Durante anos, antes de o matar, tive um blog chamado palavrar, um termo que descobri posteriormente foi também utilizado por Pessoa num dos seus versos. Palavrar celebra para mim o potencial plástico da palavra, aliás, celebra o potencial total das palavras, mas traz também para relevo o prazer da forma. Que é importante, quanto a mim, no mesmo sentido em que os poetas de antigamente e alguns de agora obedecem a regras métricas e a rimas estéticas: por uma questão de estilo. Porque “soam”, além de significarem. A junção das duas coisas numa frase, num texto, num verbo, num livro, resulta numa experiência ao mesmo tempo didática e estética. Pode ser boa, pode ser má, depende; nos dois sentidos ou apenas num. Mas pelo menos numa obra literária espera-se que as palavras sejam belas, além de sábias. As duas coisas juntas em maior intensidade, profundidade, mestria e criatividade, resultam por norma numa obra de génio.

Que se perceba, enfim, que gosto de palavras, das escritas. Em pessoa sou lacónico mas a escrever sou palavroso. E gosto de Mia Couto e de todos os novos autores de língua portuguesa espalhados pelo mundo a inovar com a língua, a mudá-la, a transfigurá-la, a não a deixar morrer ou a estagnar, a criar novas formas de e para a linguagem. Mas também gosto da ideia de equilíbrio e ao princípio o livro do Daniel foi-me desagradável, porque me pareceu de certa forma desafinado, com um sobre-peso de virtuosismo estético, na profusão vocabular. “Virtuosismo gongórico”, foi uma das expressões que me vieram à cabeça e que vim a saber mais tarde serem cruéis e injustas.

Apesar de ser algo que nunca escapa ao olhar de qualquer leitor experiente, as figuras de estilo normalmente escondem fragilidades, mas no caso deste livro percebi que é pelo contrário. Que é talvez mais uma excepção que confirma a regra, mostrando que também há casos em que palavrar demasiado é uma forma de encriptar informação preciosa.

Retomando, entretanto ultrapassei a Inglaterra e regressei ao livro, que se encontrava na mesinha de cabeceira, exactamente como se encontrava há três meses atrás, com a marca ainda esquecida para aí na página 40. Como se tivesse esperado por mim, paciente. Ou teimoso. Dei-lhe uma nova oportunidade e voltei ao início. Ao início da viagem de Camilo Ardenas, num autocarro expresso em direcção a Coimbra numa noite de Inverno. Curiosamente, à segunda deixou de ser tão difícil. E acabei por devorá-lo em duas noites, como quem devora um objecto estranho mas irresistível, tipo sopa agri-doce. Venci a repulsa inicial e consegui finalmente ver para além da beleza das palavras, ou melhor, consegui ver a beleza das palavras por dentro. Como quem diz, “desta vez percebi!”. Vi para além da embriaguez palavrosa e percebi uma obra grande, abundante em novidade, emoção e ensinamento. Recomecei e pouco depois estava a lê-lo na sua justa medida de poema em prosa. Que é isso que o Daniel Abrunheiro faz quanto a mim melhor: poesia.

Como o próprio título indica, esta é a história de um anjo terminal, perdão, terminador. Um anjo fatal e trágico como os anjos dos filmes de Wim Wenders, desses que andam ao nosso lado pelas ruas das nossas cidades familiares. Não me lembro dela ser alguma vez nomeada no livro, mas essa cidade por ondeia vagueia o anjo negro é Coimbra. E como sempre Daniel não faz cerimónias com a cidade, uma cidade que não é “enxuta” e onde pululam “poetas municipais”. Putas e vinho verde, diz a Coimbra do Daniel. Trata-se também de uma história (porque há uma história) em torno de livros e da paixão dos livros. Da paixão de os escrever, como se verá em última instância, mas inicialmente de os ler. E da paixão de os ter, que também é focada.

Mas “Terminação do Anjo”, não obstante ser também uma história, é um livro de poesia, tem a volúpia descontrolada da poesia, e a poesia, como se sabe, não se explica, lê-se e experimenta-se. Há uma narrativa, mas por todas as linhas deste ensaio sobre a memória há lirismo. E é assim, acho eu, que se lê melhor este último/primeiro/maisoumenos romance (« talvez») do Daniel Abrunheiro, mais um escritor a acrescentar definitivamente ao rol dos inovadores da língua portuguesa. E que merece e deve ser lido. Quem não acredita que vá ao blog dele.

O que acho mesmo é que sobretudo os amantes da veia poética do Daniel, se forem persistentes, vão gostar muito deste livro sobre a arte de criar histórias, de criar (e tirar) vidas. Sobre mais uma série de temas, anatomias, almas e geografias interessantes. Mas se à primeira não entrar, salvo seja, poderá não ser má táctica fazer como eu fiz, ler primeiro uma parte, viajar e voltar uns tempos depois para ler o resto. É um livro a que vale a pena regressar.

18/06/08

Todos ao Chiado!, por Adepto do Daniel

Atenção, muita atenção!

Lançamento de novo romance de Daniel Abrunheiro e Relançamento da Portugália Editora

24 de Junho de 2008 às 18h30 na Livraria Sá da Costa em Lisboa

– Rua Garrett 100 102| Chiado –


Confesso que não tenho lido nos últimos anos muita nova literatura portuguesa. Vou lendo sobretudo uns excertos, na net, em jornais ou revistas ou em visitas mais prolongadas às livrarias e não muito mais. Tive também uma recente experiência de cerca de ano e meio na gestão de uma livraria e muitas vezes, nas horas mais mortas, que eram bastantes, tentava entrar nos novos autores que lá arribavam. Raramente passava das primeiras páginas - esta experiência serviu, entre outras virtudes, para perceber a gigantesca avalanche de mediocridade que se publica todos os dias neste país...

Seja como for, também sou uma tentativa de escritor e tento andar atento às novidades, às entrevistas e às críticas.

Tenho andado entretido com outras leituras ("so many books, so little time"...), mas só para situar um pouco estilisticamente, também, não apreciei por aí além algumas incursões a novos valores como o José Luís Peixoto, e muito menos dos best-sellers Rodrigues dos Santos ou Sousa Tavares (este último, no entanto, melhor que o penúltimo. Mas pior que o primeiro). Gosto mais de Pedro Paixão, ou de Pedro Rosa Mendes, por exemplo, e nos menos novos prefiro o universo pessoal e criativo (e a escrita) do Lobo Antunes ao Saramago.

Dos que eu vou conhecendo, no entanto, há um novo escritor português que me cativa. É o Daniel Abrunheiro e também é por sermos amigos. Distantes, mas de longa data. A amizade, neste caso, conta apenas por ter sido a porta de entrada para a sua obra e para a sua escrita. Confesso que se não fosse um amigo provavelmente não me teria dado ao trabalho de conhecer mais e melhor. Teria perdido uma pérola. Mas o facto é que nunca fomos amigos chegados, daqueles com quem se troca confidências ou meras conversas de café. Geografias, afectos, obrigações e outras determinantes da vida afastaram-nos de um contacto mais chegado. Conheço-lhe a intimidade sobretudo pela escrita, dos livros, da poesia, dos blogues, dos jornais.

A circunstância de ser um amigo, como tal, não me torna mais parcial o julgamento em relação à criação. E o que eu acho é que é uma leitura cativante, enriquecedora e, principalmente, um universo literário, uma poética, original, que é das coisas mais raras e preciosas de se encontrar num escritor.

É uso e costume nestas coisas traçar paralelos e esmiuçar referências. Na criação literária do Daniel, por exemplo - além de nomes entretanto esquecidos como Altino do Tojal ou algum do "realismo mágico" português encarnado em certa escrita de Gomes Ferreira, por exemplo - leio Lobo Antunes nas entrelinhas. Sobretudo o fabuloso Lobo Antunes das crónicas. Pelo domínio das palavras, uma escrita rica, livre e criativa que ganha uma vida muito original nas páginas dos dois autores, mas acima de tudo pela paixão das pequenas coisas e gestos, pelo olhar compassivo sobre as pessoas reais e quotidianas, pela atenção dedicada à espuma dos dias, à vanguarda da vida onde tudo se esgota em turbilhão num momento.

Os budistas creio que acreditam que esse momento em que coisas acontecem, essa espuma fugaz dos dias, o pequeno gesto, é na verdade a essência da vida e da realidade, e que tudo o resto, passado e presente, é construção da nossa mente. E escritores de quotidianos como Daniel Abrunheiro ou Lobo Antunes navegam em águas profundas mas estão lá, na crista, atentos e respeitosos ao gesto e ao momento, atentos ao que passa e é mais importante, atentos e sensíveis às emoções e aos dias dos outros. É essa, em meu entender, a essencialidade e a importância da sua obra.

O Daniel Abrunheiro vem agora ao caso porque vai lançar um novo livro. E ainda por cima um romance, obra de fôlego que o autor vai parir em Lisboa depois dos livros de curtas e da poesia digital (talvez a faceta literária mais exaltante do amigo autor, digo-o eu que infelizmente nem sou muito dedicado à poesia). É e vai ser assim, segundo Abrunheiro no seu blog:

«Sob a égide do Grupo Editorial e Livreiro da Fundação Agostinho Fernandes, renasce publicamente em Lisboa, no próximo dia 24 de Junho (às 18h30, na Livraria Sá da Costa em Lisboa, na Rua Garrett 100-102, ao Chiado), a Portugália Editora. À Portugália, surgem associados dois outros nomes de importância maior no panorama da edição em língua portuguesa: Livraria Sá da Costa Editora e Buchholz. Deram-me estes senhores a honra de integrar o catálogo por eles chancelado. Entre 24 de Novembro de 2006 e 8 de Abril de 2008, escrevi uma coisa chamada Terminação do Anjo. É um romance, talvez.»

Sem ter a ver com amizades, mas apenas com a expectativa de um aficionado perante o nascituro e com as qualidades artísticas do pai, é com prazer e honra que aconselho vivamente a presença no renascimento da Portugália e no parto da “Terminação do Anjo”, que já ganha como um dos melhores títulos do ano. Um acontecimento literário a não perder!

Ps.: Entretanto descobri um excerto do novo livro noutro blog da vizinhança e roubei-o porque fazia aqui falta:

"Um estremeção mudo tirou o homem de entre os vivos.
Camilo Ardenas, no assento da coxia, soube de imediato que à janela tinha passado a viajar um morto.
O expresso da noite continuou a rolar com suavidade. Dentro, as luzes de presença aureolavam a galeria de cabeças adormecidas. Fora, a fronteira de chapa da auto-estrada exilava do País as matas e os casais. Os postes intermitentes alinhados ao longo das margens da via permitiram a Camilo confirmar o estupor congelado na cara do defunto: acima do protesto inutilizado na boca, os olhos muito abertos e o cabelo já quebradiço e desumano.
Agiu com rapidez. Cerrou as pálpebras ao cadáver. Fê-lo com uma espécie de carinho frio. Esperou um pouco. Verificou o alheamento dos outros passageiros. Então, inclinado para o morto como um pássaro carnívoro, soergueu-lhe a lapela e retirou a carteira do bolso interior. Havia muito dinheiro na carteira. Guardou as notas, separando duas de vinte e uma de cinquenta. Devolveu as noventa coroas ao morto para que ele não amanhecesse sem recursos. Antes de repor a carteira no bolso do defunto, consultou-lhe a identidade terminada".

20/09/07

Pois é, Tó-Zé – por Cão



Já não bastava o Governo. Já não bastava o Scolari. Agora, até o Tó-Zé Brito está de volta. Só me apetece chorar.

Eu e os grunhos carecas da extrema-direita amamos muito a Pátria, claro. Mais Deus ali, menos Família acolá, amamos muito a Pátria. Olá se amamos. Mas caramba: Governo, Scolari e Tó-Zé Brito? É muita coisa junta a perdoar ao mesmo amor.

Dou por mim fumando as aritméticas da utopia. Género: Scolari com Tó-Zé Brito mas sem o senhor do fax. Ou: Tó-Zé Brito, Mike Sergeant, Teresa Miguel e Isabel Ferrão ressuscitando os Gemini de 1976, mas sem o Scolari e sem o senhor do fax. O Scolari obrigado a cantar o repertório de 1972 dos Green Windows acompanhado pelo senhor do Governo a tocar percussão na tampa do fax. O Tó-Zé Brito a cantar a lambada à brasileira, primeiro, e ao sérvio, depois.

Nisto, entra em tango o José Cid só de tanga. Atrás dele, à bateria, o Paulo de Carvalho. Ao lado, o Carlos Mendes a meter cunhas para o filho continuar a mostrar a placa na rêtêpê. Um bocadito mais ao lado, dá-se o inevitável: aparece o Tony Carreira a tocar cavaquinho ao ritmo diário das licenciaturas por fax e dos despedimentos por SMS. Mas não é tudo.

Irritado por ter nascido só uma vez, surge o José Mourinho com o seu inglês de mecânico de bicicletas a dizer mal do Scolari mas bem do Tó-Zé Brito. “Isso não se fax, isso não se fax”, diz o rapaz que era tradutor da União de Leiria. “Quando eu for seleccionador, o senhor Scolari nem nas Janelas Verdes tem entrada”, promete o rapaz que está para o senhor Abramovich como os arrumadores estão para o vereador do trânsito. Esta boca do José é muito apreciada pelo Tó-Zé, que sabe muito bem que Janelas Verdes são Green Windows em inglês, ah pois é, Tó-Zé.

Para não chorarmos em público, eu e os grunhos da extrema-direita costumamos ir à Shell (que agora é Repsol, a gente sabe, mas é que somos tradicionalistas) e cervejamos as mágoas cantando coisas dos Heróis do Mar com a mesma devoção com que os nossos compatriotas da selecção de rugby cantam o hino antes de amocharem na pá com cento e tais da Nova Zelândia, país que, exportador mundial de ovelhas e de carneiros, nos percebe melhor do que ninguém, à excepção do Scolari, do senhor do fax e do Mike Sergeant, que significa Tó-Zé Brito em inglês.