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19/07/16

Viagens no Tempo II, por Ziggy


No fim do concerto do Iggy (ver post anterior) estávamos sem respiração, eu e o Tex, e a noite estava mais que ganha, mas parecia-me incrível, ainda faltavam os Massive Atack. Tudo na mesma noite! A minha expectativa era enorme porque já os tinha visto naquele  mesmo pavilhão à uns anos por altura da edição de uma das suas obras primas, Mezannine. Esse concerto foi simplesmente fabuloso, um dos melhores que já vi. É verdade que eu perdi um pouco o contacto com os Massive, principalmente depois do insípido 100 Windows, mas recentemente refiz o vínculo com Heligoloand. E o novo EP dos tipos, Ritual Sirit, é MA do melhor! Sabendo da genialidade da banda, conhecendo a sofisticação dos seus shows, eu estava convicto que ia ser grandioso, numa onda completamente diferente da de Iggy, mas grandioso, anyway… E foi!

Aquilo a que assisti não foi um simples concerto – foi algo muito maior, um espectáculo de ambição global, uma super produção (a começar na enorme panóplia de músicos e instrumentos e recursos tecnológicos e audio visuais)… Aquilo é música, dança, artes plásticas, agit-prop, poesia … Como é possível fazerem tão bem coisas tão diferentes? Ouvem-se as primeiras músicas e parece-nos trip-hop, mas também há ressonâncias de rock progressivo, de hard rock, de etno music, de electrónica… É visceral e high tech ao mesmo tempo. Se Iggy foi uma viagem aos anos 70, agora viajamos, claramente, no futuro.
O espectáculo dos MA é demasiado multifacetado para descrever aqui todos os aspectos que me interessaram. Deixo apenas alguns tópicos:

- Esqueçam os hits. O formato comercial do concerto em que as pessoas vão lá para reconhecer as músicas e se entusiasmarem com isso não é para eles. Dos hits da banda, apenas tocaram, um, a  fechar, Unfinished Simpathy (Safe From Harm, a abertura de Blue Lines também pode ser considerado como tal, ok). O espectáculo deles tem uma coerência própria e é isso que nos apresentam, se o hit não cabe, não há cedências.

- A presença da banda em palco é relativamente discreta (a iluminação é geralmente escura e os músicos estão na sombra ou surgem como silhuetas recortadas) mas o espectáculo visual é empolgante. O palco é iluminado com jogos de luzes muito fortes (vermelho e verde vivos, branco, preto, contrastes fortíssimos) que nos absorvem por completo. Eu nem olhei para os écrans laterais, o palco é o próprio espectáculo, o foco de atenção visual e quando digo palco digo as verdadeiras peças visuais que nele ocorrem.  Quem são os MA? Não são apenas os músicos, mas os criadores visuais e os mestres dos textos – embora a música seja fundamental, este espectáculo é, também, visual.

Alguns exemplos dessa qualidade visual-plástica do espectáculo: numa das primeiras músicas passam no écran pequenas frases a uma velocidade tal que não as conseguimos reter. No entanto fixamos, involuntariamente, algumas palavras isoladas destas frases, como Party, Trust, Peace, etc. Numa sequência mais à frente o écran é bombardeado com essas palavras que miraculosamente fixamos no meio de tanta frase disparada a 500 à hora.

- Há placards de aeroportos com horários dos voos e de repente o écran fica vermelho com inscrições de Delayed para todo o lado, numa sugestão de caos que se concilia com a música (Risingson de Mezaninne se não estou em erro). Há explosões de zeros e uns (principalmente em 100 Windows), bandeiras de países mais ou menos hostis, islamistas e outros, logotipos de marcas capitalistas globais…

Um dos jogos mais interessantes é desenvolvido durante a execução de Inertia Creeps: começa com a injecção no écran de frases, em português, sérias e alarmantes, não exactamente as que passo a enunciar: «atentado em Nice faz 30 mortos», «Russos constroem bombardeiro nuclear», «Coreia do Norte ameaça Coreia do Sul», «Atentado em Dallas faz xx vítimas» e, pelo meio aparece-nos um «Carolina Patrocínio apanha um escaldão na praia», e o público reage, finalmente, «Carro bomba explode em bagdad» entrecortado com «Luciana Abreu vende carro» e voltam as mensagens graves, para se seguir, «Portugal é campeão europeu» e a sala vem literalmente abaixo e ainda mais com «milhares de pessoas recebem a secção em lisboa»… Percebe-se a ideia: a denúncia da forma como os media nivelam o grave e o no fútil e, o sério e ridículo, como se fosse tudo igual. Tudo parece ter o mesmo peso quando não tem, efeito perverso da vertigem da velocidade mediática. Pior: a promoção da futilidade que ultrapassa aquilo que realmente importa, como o demonstram as reacções do público que caiu na armadilha ao reagir às notícias fúteis, deixando na indiferença a gravidade. Num écran mais à frente, somos confrontados com mensagens que convidam à reflexão deste estado de coisas como: «quem decide o que vemos? O que vemos é real? Quem somos?, etc… O espectáculo dos MA não é mera diversão, mas tem uma peocupação política e filosófica notória. Eles mostram-nos que é possível voltar a conciliar a dimensão de fruição da grande música urbana com a reflexão inteligente. 

- Musicalmente (eles são músicos em primeiro lugar, não o esqueçamos) houve momentos fabulosos, marcados pelo contraste, pelos crescendos, pela criação de tensões e explosões. Gostei da utilização dos samplers (em Unfinished Simpathy o efeito foi fantástico) e retenho como momento muito alto a actuação dos Young Fathers que acompanharam a banda na execução de Ritual Spirit, o mais recente EP dos Massive. Voodoo in my mind foi superior, outro momento incrível, a coordenação vocal, a coreografia, a combinação entre o ancestral e o tecnológico foi exímia: Adorei Inertia Creeps e Heligoland. 

Eu já sabia que estava perante seres superiores. Não pensei que voltassem ao nível a que tinham estado da primeira vez que os vi. Mas afinal estiveram muito acima. A energia proto-punk de Iggy primeiro e o visceralismo High-tech dos Massive, na mesma noite, uau, afinal as viagens no tempo são possíveis!

Viagens no Tempo, por Ziggy

Todo o melómano que se preze tem o sonho irrealizável de ver o seu ídolo a dar um concerto só para si. Pois bem, ontem foi o que pareceu. O resto do concerto até podia ter sido horrível (não foi, muito pelo contrário, foi excelente), mas a minha entrada no pavilhão atlântico a coincidir com a entrada do Iggy Pop em palco a tocar No Fun, foi um momento absolutamente inesquecível que, só por si, já teria valido a noite.

Eu descrevo melhor: com um atraso de uns bons dez minutos eu e o Tex entramos no recinto do festival; damos uma volta de reconhecimento, o ambiente está bom, o espaço é fabuloso; perdemos mais uns minutos nisto até que olho para o relógio e digo ao Tex, pá, já passa da hora, e dirigimo-nos ao pavilhão que não está lotado, longe disso, está perfeito, carregado de energia e espaço mais que suficiente para nos chegarmos à frente do palco. Ainda estamos a andar e a tentar escolher o lugar onde ficar, quando as luzes se apagam e Iggy Pop é anunciado nos altifalantes. O timing é perfeito, parece que o homem estava à nossa espera para começar o concerto, não começo sem eles, fónix, o que me dá uma vaga sensação de estar a realizar o tal sonho. Iggy, tronco nu pele de couro velho curtido, entra a correr e ouvem-se os acordes de No Fun. No Fun, porra, uma das minhas preferidas, o momento é mágico, o som está no máximo, a ferir os tímpanos, nem se nota a diferença entre o baixo e a guitarra, o efeito é de barragem sonora, um wall of sound ultra energético. Deliro, mas a magia do momento não acaba no fim dos 4 minutos de No Fun porque, é incrível, o tipo esteve mesmo à nossa espera, soam os acordes de I wanna be your dog. Duas das minhas preferidas, do meu álbum preferido dos Stooges, sinto-me na Factory nos anos 70. Com I wanna be your dog o pavilhão vem abaixo e eu também. São dez minutos de pura magia, inesquecíveis!

O resto do concerto sucedeu-se numa sequência imparável de grandes canções, como Passenger, Real wild one, Lust for life, 1969 (outra do primeiro dos Stooges)… Eu esperava ouvir Gardenia do último mas só tocaram Sunday e foi uma pena terem deixado de fora China Girl que a memória de Bowie exigia.

O concerto foi uma viagem no tempo, um regresso a 1970, a um concerto Punk com todos os números do catálogo, desde o salto para a assistência, aos gritos de bad ass, motherfucker e afins. O som estava exageradamente alto e, dois dias depois, ainda sinto zumbidos nos ouvidos, mas punk é punk e é mesmo assim, trata-se de uma explosão de energia e não de um desfile de virtuosismos instrumentais. 

No fim estávamos sem respiração, eu e o Tex, e a noite estava mais que ganha, mas parecia-me incrível, ainda faltavam os Massive Atack. Tudo na mesma noite! 




11/01/16

Where Are You Now?, por The Buddha of Subhurbia

Acordo e ligo o rádio que me diz algo que julgo ter ouvido mal - «morreu David Bowie» - porque os Deuses não morrem. Fiquei a pensar, porque, precisamente, Eles nunca morrem, que só pode ter  sido dos meus ouvidos. Mas a seguir reparo que não é normal passarem na rádio o Young Americans áquela hora da manhã e depois o locutor acrescenta «mais informações no nosso noticiário das 8» e eu vacilo, mas ainda repito que não pode ser, que não é possível... Espero, ansioso, pelo noticiário das 8 e é mesmo verdade: morreu David Bowie e, ainda por cima, passam a minha música preferida, Heroes, aquele misto de revolta, desespero e paixão e é nesse preciso momento que eu me venho abaixo. Nunca julguei que fosse possível que a morte de alguém que não conheço mexesse tanto comigo!

Mas, como diz um amigo comum (meu e dele), é claro que o conheço, ele faz parte de mim, do que sou  e de como sou. É verdade, mas é também por isso que sinto tanto, porque com a sua partida é, também, um pouco (um muito) de mim que se vai para sempre. É certo, a sua obra permanece, as suas músicas estão cá para sempre, mas é triste saber que ele já não me vai voltar a surpreender com a sua espantosa criatividade (e ainda há poucos dias o tinha feito, uma vez mais, com Black Day)...

Um artista é verdadeiramente grandioso quando consegue estabelecer uma relação pessoal, íntima, insubstituível com o seu, não sei bem que palavra escolher, ia a escrever público, mas no momento em que um artista estabelece essa relação pessoal comigo, então eu já não sou público, já não sou fâ, já não sou admirador, já me tornei noutra coisa qualquer mais pequena e maior, um amigo, um íntimo, seja o que for... David Bowie é um dos poucos artistas com quem logrei estabelecer uma relação desse tipo: ele sabia mais de mim do que a maior parte das pessoas com quem convivo no dia a dia. Fã? Público? Não. Nunca fui fã de Bowie, fui e sou algo muito mais forte e por isso  agora me custa tanto que ele tenha partido.

Bowie acompanhou-me ao longo da vida, a partir dos meus 17 ou 18 anos, quando ouvi pela primeira vez Ziggy Stardust, num dia cinzento, ainda me lembro. Foi imediato, não precisei de mais que dois acordes para ficar completamente rendido àquela sonoridade. Num impulso corri a comprar todos os vinis que encontrei e que a minha mesada da altura permitia: Hunky Dory (mas não tinha nada a ver com Ziggy, que era eléctrico e este acústico, sendo, contudo, igualmente genial), Alladin Sane ( ainda rock mas mais pesado, mais básico, o disco de Jean Genie) e Diamond Dogs (com o inesquecível Rebel Rebel). Bowie acompanhou-me  em momentos que não interessam para aqui, mas que foram marcantes para mim e, mais não houvesse, o lugar dele já estaria seguro na minha escala de afectos. Gostei de tal maneira destes discos - os primeiros que dele ouvi - que me recusei a abdicar deles quando a namorada da altura os exigiu para si, a propósito daquelas partilhas infames que ocorrem sempre quando um casal se separa e já não se sabe o que é que pertence a cada qual. Ela não gostava assim tanto do Bowie, queria os discos, suponho, só para me chatear, sabia como eu os adorava e era uma forma cruel de se vingar. Mas não cedi, podes levar a casa, o carro, o dinheiro mas não me levas os discos do Bowie...

Ele voltou a surpreender-me mais tarde quando me rendi - como toda a gente na altura - ao maior sucesso da sua carreira, Let s Dance. Adorei China Girl, um original de Iggy Pop, a que ele deu uma nova dimensão como fez muitas vezes - com Let`s spend the night... dos Stones, com le port de Amsterdam de Brel, com the Long and windin road dos Beatles, com um disco inteiro de covers, Pin Ups, mas que espécie de génio é que desce do seu pedestal de super star para fazer um álbum só com músicas de outros autores? Depois foi a vez de Scary Monsters, outra obra prima absoluta, que eu ouvi milhares de vezes com outro amigo comum - Because You´re Young e o extraordinário Its no game (parte 2) foram marcantes...

Mas o melhor estava para vir quando descobri a frase electrónica dele e a sua parceria com outro génio , Brian Eno, em dois álbuns brilhantes e inqualificaveis (que género de música é aquela?), Low e, sobretudo, o seminal Heroes, para mim , a sua obra prima absoluta . Muito mais tarde, ainda, descobri a sua fase inicial, sobretudo, The man who sold... e space oddity, geniais, mais uma vez (e Memory of a Free Festival, que música!). Vi-o ao vivo, claro, na única vez que actuou em Portugal, na Sound and Vision Tour. Foi fantástico, apesar do estádio cheio e da multidão comprimida...

Bom, eu não posso mencionar aqui todas as sucessivas descobertas que fiz de Bowie ao longo da vida, posso só tentar exprimir a noção de que ele me acompanhou sempre,mas sempre, que foi a banda sonora de grande parte da minha vida, dos minhas angústias e alegrias, das minhas viagens interiores e exteriores. E é incrível, que homem é este que se multiplicou em tanto ser diferente, vertiginosa mas sempre, fielmente? Pode ser-se genial numa área específica; Bowie era-o em muitas, era uma espécie de personagem renascentista que transformava em ouro tudo aquilo em que tocava sem conhecer fronteiras de qualquer espécie. Talvez nos meados anos 80-90, assim reza a crítica , ele tivesse cedido um pouco, com alguns álbuns menos interessantes, como never let me down ou tonight. Mas recentemente reencontrei pérolas perdidas da sua discografia quando comecei a ouvir os seus discos pós-Hearthling. Todos os que ele fez depois...

E, ainda não estava refeito do espanto da descoberta deste último Bowie pós -Hearthling, eis que surge The Next Day, genial em tudo, até na capa espantosa, no sincretismo, na amargura de Where are We Now? (do melhor que ele fez). Ainda por cima, descobri este disco, da mesma forma genuína que descobri outros Bowies no passado: entre amigos, durante uma longa viagem de carro. The Next Day tem vida agarrada. E há aquela lição magistral que confirmamos, por exemplo, nos vídeos do álbum: Bowie assume sem medo as marcas («scars») do tempo, os golpes da velhice no seu rosto, a angústia do fim. É um álbum triste mas irresistível.
Na semana passada saiu Black Star e, mais uma vez, foi para mim um espanto absoluto (mas este homem não tem limites? Tinha, afinal, maldito noticiário das 8...). Até certo ponto parecia-me uma continuação de The Next Day, outra vez o mesmo esforço de síntese do passado e do futuro, o cruzamento de influências (jazz, ambientalismo, rock, sinfonismo...), o mesmo clima de fim de mais um ciclo e de início de outro (Lazarus...) e, acima de tudo, aquela proximidade da morte, a sua própria morte, que percebe-se agora, ainda faz parte deste disco. The Next day era a angústia do tempo que se lhe escapava;  Black Day é, uma aproximação da morte ( a faixa homónima) como eu só conhecia nos grandes requiens da grande música.




13/11/12

Ay Carmela, por Falâncio

Vi ontem o último filme (2012) de Phillip Kaufmann, «Heminghway e Gellhorn».Trata-se de um tema recorrente na obra de Kaufmman - os casais literários. O realizador já tinha filmado Henry and June sobre a relação do escritor americano Henry Miller, sua mulher June (Uma Thurman) e Anais Nin (Maria de Medeiros). Nada de especial. Este Heminghway e Gellhorn segue o trilho e narra a relação atribulada entre o autor de Por Quem os Sinos Dobram e a sua mulher Martha Gellhorn (Nicole Kidman). Os filmes não são maus mas também não são nada de especial. Mas numa coisa temos que dar mérito a Kaufmann: o homem tem olho para escolher actrizes!

Apesar de não ter ficado muito impressionado, houve, contudo, um aspecto mais ou menos lateral que me impressionou. Refiro-me a uma música antiga, imemorial, daquelas que estão indelevelmente gravadas na nossa memória mais recôndita. Onde terei ouvido aquela música tão antiga? Algures na minha infância no velho rádio lá de casa? Alguém a terá cantado ao vivo? Não sei, mas a música soou-me familiar.

Procurei no google e descobri-a. A música chama-se Ay Carmela, mas segundo li, já foi conhecida por muitos outros nomes. É obviamente uma música icónica das forças revolucionárias espanholas em luta contra os franquistas e tem essa carga ideológica e mítica. É dedicada à Quinta Brigada, uma brigada revolucionária composta por militantes antifascistas voluntários internacionais e espanhóis. Mas o mais interessante é que esta música não foi criada durante a guerra civil espanhola. Não, ela provém, pelo menos do século XIX, e era cantada pela resistência espanhola que fez frente às tropas gabachas de Napoleão aquando da invasões francesas. Já no século XX, durante a guerra civil, foi adoptada pelos revolucionários e rebaptizada - foi Ay carmela (o nome de uma revolucionária), Viva la Quinta Brigada, Marchamos contra los Moros, etc. Esta música tem uma carga mítica que não passa despercebida - está viva e bem viva, sabe-se lá o que ainda lhe reserva o futuro... Aqui fica a versão mais antiga de Rolando Alarcon, que é preferível à do filme:


10/11/12

I was born in a crossfire hurricane, por Dandelion

Era o tempo em que eles estavam no auge - 1972, Texas, os Rolling Stones num dos concertos da digressão mais incrível de toda a história do Rock, a insana e fabulosa STP, a Stones Tour Party. Este vídeo, uma peça de museu, mostra os Stones numa versão electrizante de JJFlash. Mick Taylor, à data, o novo guitarrista da banda sobrepõe-se ao próprio Richard. Depois dele sair nunca os Stones recuperaram aquele efeito de solos em arabesco - ganhou-se o efeito de conjunto, dizem alguns. Ok, mas mas perdeu-se a selvajaria solista de Taylor, um factor maravilhosamente dissonante que acentua a anarquia sonora característica dos Stones. O som dos Stones, depois dele, tornou-se mais integrado, é certo, mas acontece que a desintegração é que foi, sempre, a marca da banda.

Este vídeo tem uma particularidade engraçada - ao minuto 3.29. Alguém percebe o que acontece? A gaffe ocorrido torna esta excelente versão de JJFlash, uma peça digna de colecção - como aquelas obras de arte que têm um defeito indelével que acaba por lhes dar ainda mais cor. Minuto 3. 29... What happened?

07/11/12

Jagger ou Richards?, por Dandelion

Os meados dos anos 80 foram tramados para os Rolling Stones. Em 1986 fizeram um dos seus piores álbuns de sempre, o famigerado Dirty Works, claramente marcado pelos atritos entre os glimmer twins. Pelo meio Mick Jagger resolveu que queria tentar uma carreira a solo - em 85 gravou She´s the Boss e em 87 Primitive Cool. Keith Richards haveria de se confessar chocado com o novo rumo do amigo e acusou Jagger de egocentrismo, de pensar na banda como Mick Jagger and The Rolling Stones...

Richards respondeu aos anseios individualistas de Jagger lançando dois discos de originais (Talk is Cheap de 88 e Main Offender de 92). Na altura a carreira a solo de Jagger teve muito mais impacto mediático (She`s the boss é até um belíssimo disco). Richards estaria então perdido no meio de uma banda de negros, os Xpensive Winos e eu nem dei por ele.

Mas a promessa Jagger não se confirmou nos álbuns seguintes, o homem aligeirou-se, tornou-se cada vez mais pop, pelo meio fizeram-no sir, e podemos hoje afirmar com segurança que a carreira a solo de Mick Jagger contribuiu, em grande medida, para desfazer a lenda que ele era enquanto líder dos Stones. Felizmente, ambos, Jagger e Richards, perceberam que os Rolling eram mais importantes que cada um - e também davam muito mais dinheiro. A banda voltou a juntar-se e as suas digressões foram as mais memoráveis e lucrativas da história do rock. E no regresso da banda Reef tornou-se muito mais importante do que fora antes, ao invés de Jagger, que viu reduzida a sua importância. Passados estes anos ficou-me uma curiosidade por desfazer - qual dos dois se saiu melhor, afinal, nos seus trabalhos a solo?

Não tenho dúvidas na resposta (com tudo o que isto tem de subjectivo): Keith Richards fez dois álbuns excelentes ao passo que Mick Jagger se perdeu no emaranhado do seu vedetismo pop. Richards fez músicas dignas de figurarem nos melhores álbuns dos Rolling; Jagger nem tanto. Para um Stoniano fica sempre a mágoa de pensar o que os Stones poderiam ter feito se eles não tivessem dispersado a sua energia criativa durante aquele período. Mas, ao passo que a voz de Jagger a solo se tornou um repositório de tiques mais ou menos irritantes, Richards aperfeiçoou o seu lado marginal, a sua face dark e roufenha. E o som da sua guitarra continuou a ser, do meu ponto de vista, o autêntico traço de personalidade dos Rolling Stones. Depois ainda há a feliz associação de Richards a músicos tão talentosos como os Xpensive Winos. O resultado é que, tantos anos depois, re-descobri os álbuns a solo de Richards e com eles soube para onde tinham ido os Rolling Stones nos meados dos anos 80 - tinham estado onde sempre estiveram, no fundo da alma rebelde de Richards e na negritude dos Winos. Deixo-vos com Make No Mistake, uma pérola de Talk is Cheapr, uma balada fabulosa que deveria ter feito parte de um grande disco dos Rolling Stones. Não precisam de agradecer, tou cá para isto...

09/07/12

Porque é que o Jornal de Negócios não faz uma lista dos trinta melhores negócios em vez das trinta melhores canções dos Rolling Stones? por Dandelion

Os Rolling Stones estão a fazer 50 anos de carreira. os aniversários dos mitos são sempre ocasiões propícias ao aparecimento de críticos de cepa recente. Subitamente descobrem-se stonianos encartados nos jornais do burgo. Agora foi o caso do Jornal de Negócios que ousou dedicar quatro folhas a um exercício sempre perigoso para leigos na matéria. Pela pena de um senhor João Cândido da Silva, resolveu o JN, eleger as 30 melhores músicas dos Stones a partir de 17 álbuns. É claro que o exercício tem muito de subjectivo, mas que raio, há mínimos. Acontece que os critérios do escriba são demasiado privados, para que o homem assine um artigo sobre os stones, ainda que num jornal dedicado aos negócios. Há omissões gravíssimas e alguns erros pelo meio. Ainda bem que se escreve sobre os Stones, é melhor do que o silêncio. Mas convinha que quem o fizesse estudasse um pouco o assunto. O que não foi, claramente o caso.

1. O primeiro e mais grave erro da selecção de JCS é simplesmente colossal! JCS escolhe 17 álbuns dos Stones, para seleccionar 30 canções e, azar dos azares, deixa de fora aquele que é um dos se não o mais importante álbum da banda: o seminal Let it Bleed! Como é possível que o álbum de You can´t always get what you want (provavelmente a melhor canção da banda e não surge nas 30 melhores!!!!) fique de fora? Midnight rambler, gimme shelter, You got the silver, nenhuma destas obras primas é uma das melhores músicas dos Stones? Deixar de fora let it bleed é como pretender escrever sobre islamismo e esquecer-se de citar o Islão, sobre o benfica sem falar do eusébio, sobre o brasil sem passar pelo Rio?

2. O capítulo dos álbuns ao vivo. JCS cita Get Yer... e Flashpoint - este último, porque nele é incluído em versão cd, o single, Highwire. Highwire, escrito a propósito da guerra do iraque é uma boa canção. Mas uma das trinta? Ok, get yer é um bom álbum ao vivo, mas o melhor live da banda é o grandioso Love you Live, com a melhor versão de sempre de Honky Tonk Women e uma versão live de You can´t always get... que rivaliza com a de estúdio... Love you live fica de fora em 17 álbuns... Ou este gajo não vê um boi de stones ou não sei...

3. A melhro versão de simpathy for the devil é a original de beggars banquet e não a de get yer ya ya s out.

4.Their satanic majesties request é um dos piores discos dos stones, um desvario pelo rock psicadélico, na esteira dos beatles. Ok, she´s a rainbow é um clássico, mas incluir este disco nos 17... E citadel a melhor música do álbum?! De qualquer modo eu passo sempre por cima deste disco.

5. Um dos maiores erros desta lista é a confusão que o JCS faz entre as edições originais (inglesas) e segundas versões (americanas) dos primeiros discos da banda. Ponto de ordem: quando os stones começaram o formato principal era o single. Alguns dos maiores clássicos surgiram por isso nesse formato e não em álbum ( o LP era para um registo mais conceptual, digamos assim). Por isso, quando surgiram os primeiros álbuns dos stones (até aftermath de 66), os maiores sucessos da banda não saiam em LP.
Só posteriormente por razões comerciais é que foram editadas, a pensar no mercado americano, as segundas versões dos álbuns com os singles que lhes foram contemporâneos. Assim a segunda versão de Out of Our Heads ((65) inclui Satisfaction e the last time, mas a edição original não. O mesmo para between the buttons (67) que inclui lets spend the night together e ruby tuesday apenas na segunda versão.
Além disso o álbum Now (65) não figura como original da banda, mas como colectânea. Quanto a mim, para fazer jus aos singles imprescindíveis dos stones, é impossível não se citar o triplo The London Years que inclui os singles até let it bleed.
Nada disto é esclarecido no trabalho de JCS, pelo contrário ele dá como adquirido que as segundas versões dos álbuns a que me refiro, são as originais e não são. Grande confusão, mas compreende-se. Não é tão fácil como parece conhecer os originais da banda (Aftermath, por exemplo, chegou a ter uma versão americana sem goin home, a faixa de 11 minutos considerada um exagero para o gosto americano).

6. Há muita música que tinha que ser referida, pelo menos isso: como é que o primeiro disco dos stones não é citado? Tá bem que é um álbum de versões mas tem uma música que não poderia deixar de ser incluída num trabalho deste tipo - precisamente a primeira composição de sempre da dupla jagger/richards, Tell Me (you re coming banck), assinada pelo duplo pseudónimo Naker/Phelge.

7. Satisfaction não é uma das 30 melhores????

8. Nem Brown sugar? Nem tumbling sice? Nem Happy, Rocks off, Street fighing man, wild horses, Cant you hear me knoking, Under my thumb, Stray cat blues, angie, star star? O autor pretendeu fugir à unanimidade? Ok. Mas então salth of the earth? lovin cup? let it loose? Sway? dead flowers? E acima destas elege off the hook, out of tears, surpise surprise, blinded by love? Valha-me deus... Some girls do álbum homónimo preterida? Memory hotel de black and blue não é melhor que, por exemplo till the next good bye de its only r`n`r (por falar nisso onde está a faixa que dá nome a este disco)? Como é que uma das melhores pérolas interpretadas por Richards, como How can i stop de Bridges to Babylon não aparece? E waiting on a friend? Farways eyes de fora? E as tears go by? Get off my cloud não das melhores da primeira fase?

Ok, isto é muito subjectivo, mas aqui é demais, alguém que conheça minimamente a discografia dos stones não cairia num cite´rio tão individualista. Mesmo em arte, um crítico que fale da obra de Picasso e deixe de fora Guernica, de Coppolla sem se referir a Apcalipse Now ou dos Beatles sem citar Sgt Peppers, não estaria a ser, simplesmente, subjectivo. Estaria a fazer, objectivamente, um mau trabalho.

Deixo em tube Gimme Shelter uma das grandes canções de let it bleed - para JCS não é uma das trinta melhores, mas também há gajos que acham que o Messi não devia ser titular do Barcelona...


04/06/12

Chuto nos Xutos, por Pontapé

É uma velha questão: até que ponto podemos continuar a gostar de um músico, de um pintor, de um escritor que se revelam medíocres na vida? Não se trata de exigir que o artista seja um padre, nem por sombras, mas há limites. Por exemplo, eu gosto do filósofo Heidegger, mas como posso não ser influenciado pela sua opção política de apoio ao nazismo? Conheço quem adore o escritor Garcia Marquez, mas como ignorar o branqueamento que ele fez do regime castrista? Gosto de Bob Dylan, mas não gostei nada quando soube que o homem tinha acções na indústria do armamento. And so on...

O mesmo se passa com os xutos e pontapés cá do burgo. Achava-os a melhor banda de rock em portugal. Adorei quando editaram o Sem Eira Nem Beira (a tal do ingenheiro...) que entendi - eu e toda a gente, os xuxas incluídos - como um manifesto político claramente dirigido e mais que evidente. Por isso mesmo foi para mim uma grande decepção quando li o branqueamento que cheirou a encomenda que o zé pedro fez numa célebre entrevista em que veio dizer, mais coisa menos coisa, que a música não tinha o ingenheiro pinóquio como destinatário, que não era nada um manifesto político, que estava lá ingenheiro como podia estar arquitecto... Conta-me histórias... Percebeia-se nas  entrelinhas dessa entrevista que os rapazes estavam só a ter juizinho, a tratar da «puta da vida», não fosse dar-se o caso de ainda serem prejudicados... A partir daí nunca mais gostei dos xutos da mesma maneira e agora quando olho para eles e penso na  figurinha a que se prestaram só penso: bolas, estes gajos estão gordos!

Por isso foi para mim uma surpresa quando os ouvi no rock in rio de ontem a inventarem um novo verso numa canção que dizia assim:

«Coelhinho, se eu fosse como tu/ tirava a mão da troika e metia-a no cu.

Até pode ser... Mas são estes os gajos que agora se vêm armar em nobres activistas políticos? Os mesmos que renegaram a música do ingenheiro da cova da beira? Os mesmíssimos que tiveram juízinho e que agora, quando convém, voltam a vestir a conveniente farpela dos rockers rebeldes? Não que tenha uma simpatia especial pelo coelho visado no verso. Fossem os xutos coerentes e eu estava agora aqui a aplaudir. Mas assim... Achei repugnante que eles não tivessem percebido que perderam toda a credibilidade que já tiveram. Que se assumam como o que são realmente - uma banda de divertimento que trata da vidinha e não se mete em política. Zé Pedro, pá: devias ter vergonha do autocolante a dizer Rock Against Racism que tinhas colado na guitarra. Os Clash, meu,  nunca se renderam ao poder político. E o Keith Richards nunca quis ser sire.

03/06/12

Bryan Adams e Vanessa Silva - Who´s that girl?, por Índio

Foi espontâneo? Vanessa estava, simplesmente, no local certo à hora certo? Ou já estava escolhida à partida para subir ao palco do Rock in Rio ontem à noite? Teria sido um meio termo - a Vanessa preparou-se porque sabia antecipadamente que alguém ia ser chamado ao palco? Seja como fôr, ainda que tivesse sido antecipadamente escolhida para subir ao palco (eles dizem que não), nada retira o à vontade e qualidade da miúda que não se atemorizou com o monstro que é ter pela frente 70 000 pessoas. Vanessa brilhou. Podem dizer que teve sorte ao ser escolhida ou, pior ainda, que já estava escolhida. Seja como fôr nada disso lhe tira o mérito...

17/04/12

... And Now, for something completely diferent: É Bairrada!

Chamam-se The Macaques (pronuncia-se de macáques). Assumem que não são poetas e portanto não querem entrar em complexidades na utilização da língua. Daí a simplificação minimalista das letras, verdadeiros hinos de concisão, como os hits «zé mourinho» ou «ana bacalhau». Mas acima de tudo gramei imenso esta obra prima da moderna música portuguesa: É Bairrada! Os homens são uns misteres ( e reparem só na qualidade do vídeo)!

21/02/12

Decca Records - Malta Com Olho, por Lantern

Em 1962 os Beatles davam os primeiros passos. Guiados por Brian Epstein, o manager que os transformou nos meninos bonitos do Reino de Sua Majestade, foram fazer audições à poderosa editora discográfica Decca Records (na altura não era fácil gravar um disco). Mas chumbaram! Os espertos da Decca acharam que os rapazolas tinham jeito mas que jamais dariam que falar. Em vez dos Beatles a Decca preferiu assinar um contrato com uns formidáveis Já-Ninguém-se-lembra-Deles.
Os Fab Four interpretaram, à data, esta versão de Besame Mucho agora recuperada pelo you tube e que constava dos arquivos da editora. Mais tarde os Beatles voltaram a cantar a mesma canção numa audição da EMI que assinou com eles o contrato da sua vida e foi o que sabe... E vocês - também rejeitariam os Beatles a cantarem Besame Mucho?

Mas a história não acabou aqui. Um ano mais tarde, em 63, a Decca viu-se obrigada a assinar um contrato a peso de ouro com uma nova banda londrina que estava a dar os primeiros passos, forçada apenas pelo receio de perder dois fenómeno de massas em apenas dois anos seguidos. Desta vez tiveram sorte: a nova banda era os Rolling Stones!

01/11/11

O Pensador Pensou Demais, por Tupiniquim

Ontem o Gabriel veio à Latada aqui em Coimbra. O concerto foi bom mas teve coisas completamente escusadas. Por exemplo, eu nunca tinha visto antes um músico a desfazer, enquanto não estava a tocar, aquilo que tinha conseguido quando estava a tocar. Eu explico: em certas músicas o homem conseguiu atingir climas bastante interessantes. Mas depois, no intervalo de cada música, o Pensador falava durante cinco minutos de como é bom estar no país irmão e na académica e na mística de coimbra... Foi uma espécie de back to reality permanente, uma espécie de corrente que nos impedia de ascender aos cumes emocionais que a música, aqui e ali, conseguia criar.

Pessoalmente também achei muito exagerada a exploração dos mitos academistas: o homem entrou em palco em fato académico, vestiu uma camisola da AAC, uivou o famigerado «coimbra tem mais encanto» e ainda tivemos que gramar com um tal de Diogo que terá sido jogador da Briosa em tempos idos. Eu sei que o Mick Jagger se embrulha à bandeira da argentina em buenos aires e que entra em palco em L.A. com um equipamento de futebol americano, mas esses são símbolos mais poderosos. Os símbolos da AAC não têm aquela carga, são um bocado pífios, pelo menos quando explorados tão exageradamente. Eu, pelo menos, fico sempre com a noção daquela coimbrinha muito pequenina a cantar os mesmos eternos clichés como um cão que morde o próprio rabo (ou então isto é uma característica minha que me arrepio até com a parolice dos hinos nacionais cantados nos estádios da bola).

Finalmente, do ponto de vista estritamente musical, notei a falta das teclas no show. Perdeu-se, assim, a componente melódica da música de Gabriel e aquilo ficou só ritmo. O que funciona bem quando se trata de um rap (excelente aquele efeito Limp Biskit dos dois cantores da banda, um deles irmão do próprio Gabriel) ou de um reggae mas fica sempre um sabor a «falta alguma coisa» noutro género de músicas. Pelo meio ainda assisti a uma ou duas cenas de porrada e aos clássicos nocautes de miúdas que não aguentam o álcool (e as drogas) tanto como gostariam.

01/07/11

Discos que já ninguém ouve mas que são excelentes - Haircut 100, Pelican West: música de verão para ouvir em descapotável

Há quem classifique a música em função do tempo e do espaço. Brian Eno, por exemplo, compôs excelente música «para elevadores» e «para aeroportos» e existem, mesmo, casos de música para consultório de dentista. Assim como há música para o verão e para o inverno, para a manhã (de que o célebre here comes the sun dos Beatles é o exemplo mais claro)e para a noite (os Nocturnos de Chopin). Pois bem, os Haircut One Hundred inventaram, nem mais nem menos, música de verão para descapotável.

A banda de Nick Heyward é um ícone pop, melhor, da efemeridade do Pop. Só fizeram dois discos, Pelican West de 82 e Paint and Paint de 84. O segundo não é grande coisa e o primeiro não chega a ser um grande álbum. Mas tem canções fabulosas! Os Haircut One Hundred nunca fizeram um grande álbum. Mas fizeram meia dúzia de excelentes canções e valem por isso o que já não é pouco. As canções deles não foram feitas para resistir à poeira dos tempos. Pelo contrário, são singelos exemplos da nobre arte do efémero que é a Pop. Não fizeram mais que canções-bolas-de-sabão que são bonitas mas rebentam passado pouco tempo. Não há mal nenhum nisso. Há borboletas lindíssimas e nenhuma dura mais que escassos dias (em contrapartida bichos monstruosos como os cágados podem viver 200 anos).

Favourite Shirts, Love plus One (David Fincher, suprema ironia, incluiu-a na banda sonora de um filme tão dark e invernal como Seven), Fantastic day, Lemon Fire Brigade, continuam a ouvir-se como há trinta e tal anos, quando foram editadas. Re-descobri-as há pouco tempo, de verão, noto, como é forçoso. Agora falta-me o descapotável...

30/10/10

Ontem esteve um Pouco do Brasil no Palco do Coliseu do Porto, por Néguinho

Eu estive lá. Foi ontem, quinta feira. Ouçam só este vídeo e vejam como o artista se comove até às lágrimas. No concerto foi simplesmente comovente... Seu Jorge (aqui sem Almaz): emoção em estado puro!

03/10/10

360 graus, Coimbra, por Numb

E prontos: os U2 lá tocaram ontem no meu quintal! Tocaram é como quem diz... O espectáculo que apresentam não pode ser visto como estritamente musical: é um espectáculo multi média high tech em que a música é uma componente (fundamental, claro!), mas não a única. Montar um espectáculo destes envolve coisas tão diferentes como a engenharia e a arquitectura (a solução do palco a meio do relvado como uma enorme ilha cercada pelo mar revolto da multidão, a forma da garra, a alusão à nave espacial), luz, cor, som, performance, etc, etc. Vai longe o Verão de 1982 quando vi estes mesmos U2 em Vilar de Mouros, à data uma pequena banda irlandesa que despontava, dois discos gravados, apenas um (Boy) editado em Portugal. Lembro-me que eles cairam cá por acaso, para substituírem um grupo que falhou à última hora - já não me lembro do nome desse grupo mas nunca mais perdi os U2 de vista, já então me pareceram uma super banda com uma energia fantástica. Nessa altura apenas tinham essa energia e uma música do outro mundo. Fiquei impressionado com aquele guitarrista, The Edge, que tanto tirava sons planantes da guitarra como riffs distorcidos e com a vitalidade do vocalista, Bono Vox que, nesse concerto, para desespero da segurança resolveu escalar as colunas do palco até ao cimo. Nesse concerto Bono fez um número que repetiu ontem: sacou uma fã para o palco e pôs-se a dançar com ela. Resulta sempre, a malta fica em delírio...

Os U2 que vi ontem já pouco têm a ver com os jovens irlandeses de 82. Mantêm a mesma vitalidade, mas o espectáculo é outro, uma espécie de celebração religiosa dos mega hits que o grupo foi editando eo longo de décadas de carreira. Em muitas músicas Bono nem precisa de cantar, o público está lá para isso, para as palminhas colectivas e para os coros dirigidos pelo maestro Bono. Aquilo é um ritual. Os U2 já não dependem tanto da música como em 82.

Mas tudo isto é natural. Os tempos são outros, a banda tornou-se a segunda maior do planeta (a seguir aos velhos Stones), eu sabia perfeitamente que o formato é agora este.

O concerto abriu com Beatiful Day, depois de uma introdução gravada a anunciar o clima sideral do concerto com Space Odity de David Bowie. Seguiram-se, por esta ordem, I will follow (um regresso ao concerto de 82 e um dos momentos da noite), get on your boots, magnificence e depois perdi-lhes a conta. Sei que tocaram elevation, i still haven`t found what i`m looking for, she moves (in misterious way), where the streets have no name (outra grande execução numa colagem a uma balada que tocaram antes), sunday bloody sunday, city of blinding lights (outro grande momento, o culminar dos efeitos especiais) vertigo (fantástico), miss sarajevo (fabuloso com Bono a fazer de Pavarotti nas partes em italiano), moment of surrender, i go grazy, one, walk on, e fecharam com with or without you. Pelo meio tocaram mais umas músicas cujo nome não sei.

De fora ficaram algumas das minhas preferidas mas ficariam sempre fosse o que fosse que eles tocassem. Mas tive pena de não ouvir pride, zoostation, zooropa, numb, gloria,lemon, gloria, bad, baby face... Mas reconheço-lhes o mérito de não fazerem do concerto uma parada de hits. Nem isso seria coerente com a postura da banda.

Do que não gostei mesmo foi do volume de som nas músicas mais rápidas e conhecidas. Acho que nessas músicas eles abusaram da potência e o resultado foi um efeito de barragem sonora em que não dá para reconhecer os diferentes instrumentos. É estranho que a guitarra do the edge surja compactada numa massa sonora indistinta. Os riffs de vertigo, de get on your boots ou de beatiful day mal se reconheciam no meio daquela amálgama sonora, quando deviam perceber-se claramente. Acho que nestas músicas o excesso de volume tirou energia quando era suposto produzi-la.

Quanto ao palco, a famosa garra de 360 graus é uma grande ideia. No início pareceu-me não resultar muito bem porque se perdiam os efeitos de fundo que existem nos palcos tradicionais. Mas depois percebeu-se que isso foi apenas uma opção na primeira parte do concerto. A partir da segunda série de músicas, a «nave espacial» foi ligada e somos esmagados com toda a panóplia de efeitos especiais aguardados. Há uma declaração de um astronauta numa estação espacial, sunday bloody sunday é tocado num fundo verde (Irlanda), mas curiosamente, as imagens são de intifadas em países muçulmanos, aparecem imagens de apoio a Aung Suu Kiy e até o bispo Desmond Tutu aparece numa mensagem a dizer-nos que as pessoas que venceram com Luther King, com Mandela e outros contra os regimes despóticos, são sempre as mesmas e estão ali... somos nós ( e eu pensei que esta mensagem é irónica quando dirigida a um povo que vota duas vezes num tiranete e que, portanto, é um exemplo não só de amorfismo, mas de amorfismo masoquista. Não, não somos nós um bom exemplo de um povo que derruba farsantes).

Hoje os U2 voltam ao meu quintal e está a chover. Seria lamentável se o concerto fosse cancelado por esse motivo. Espero que não. O pior do concerto de ontem foi quando recebi um sms do meu amigo roberto que teve convite para a zona vip. Dizia: «as gambas não estão más». E eu apertadinho na relva, em luta desesperada por um cantinho conquistado à custa de muita cotovelada não tive outra hipótese que não fosse remeter-lhe um «pó caralho». Até nos U2 há classe sociais, fónix...

27/09/10

Os U2 No Meu Quintal, por Numb

É já no próximo dia 2 de Outubro e eu vou lá estar. Os U2 vêm tocar ao meu quintal. O bilhete para um sítio excelente, caiu-me praticamente do céu, uma sobra de um amigo que não gosta o suficiente da banda para enfrentar uma multidão. Eu também confesso que acho que os U2 resvalaram há muito para um terreno pop que não traz nada de novo. Boas canções que ficam no ouvido, mas não passam disso, a banda há muito que deixou de ser original. E se despirmos aquela música do tratamento high-tech em que vem embrulhada, não sobra muito. Já lá vai o primitivismo da fase irlandesa, o experimentalismo noire de Brian Eno, vá lá, a energia megatron de Zooropa e Achtung Baby. Os U2, musicalmente, já não são o que eram. Mas ao vivo não deve haver no planeta um espectáculo tão sofisticado do ponto de vista tecnológico, efeitos especiais, som, luz... E, portanto, são imperdíveis ao vivo, ainda por cima vindo tocar à minha porta.

De qualquer modo, sejamos justos: apesar da sua deriva pop, o último No line on the horizon é um belíssimo disco. Não fossem as expectativas serem tão altas e, possivelmente, eu estava aqui a desfazer-me em elogios... Não acreditam? Get on your boots:

26/04/10

Who`s Next, por Moonlight

A música pop é como o futebol: assim como há um treinador de bancada em cada um de nós, também há um crítico de Rock. Não há dois críticos de rock que estejam de acordo sobre a qualidade das bandas e dos jogadores. e eu assumo aqui essa radical e deliciosa subjectividade da crítica rock.

O post anterior, de homenagem ao líder dos Type O Negative, Peter Steele, recentemente falecido, trouxe à baila a velha controvérsia sobre os caminhos seguidos, entretanto, pelo rock. Eu tenho andado a pensar que o rock pesado entrou, depois dos Led Zeppelin, num desvario volumétrico que conduziu a um impasse criativo. A «evolução» metálica do hard rock descambou num culto do décibel e do volume gratuito, num goticismo rococó cujos frutos criativos foram, do meu ponto de vista, decepcionantes. Pessoalmente não vejo diferenças substantivas entre a maior parte dos géneros e sub géneros metálicos. Aquilo padece, invariavelmente, do mesmo pecado original: mesmo quando há algum cuidado estrutural, o excesso volumétrico acaba por se impor a tudo o resto. Como um vinho que até pode ter todos os ingredientes necessários, mas que depois tem uma nota excessiva (de álcool, de adstringência, de acidez, etc) que acaba por desiquilibrar o conjunto e estragar tudo. Talvez o caminho do rock esteja numa espécie de regresso ao passado. Proponho um recuo no tempo, um regresso a uma banda e a um disco absolutamente espantosos: Who´s Next dos The Who.

Who`s Next, editado em 1971, aparece numa fase em que os The Who já se tinham consagrado como uma das grandes bandas da história. O álbum surge logo a seguir à famosa ópera rock Tommy - para muitos, não para mim, o melhor álbum da banda. E, de certo modo,Who`s Next é um grito de revolta dos The Who. É esse mesmo o significado (pelo menos um dos significados) da capa do disco: esta retrata um monólito a fazer lembrar o ícone de 2001, Uma Odisseia no Espaço de Kubrick editado uns anos antes. E que fazem os membros da banda? Mijam no imponente monólito. Os The Who expressam assim a sua vontade de se libertarem das prisões criativas de Tommy: a banda não queria passar o resto da sua vida a tocar o feel me, touch me, see me etc...

Por outro lado, as inovações tecnológicas da época - especialmente ao nível da qualidade de som e da utilização de sintetizadores - levam o som da banda a um nível de sofisticação como nunca se tinha ouvido. Os puristas dos primeiros álbuns do grupo e do seu som mood mais primitivo, reagem mal.O álbum é pois um corte com o passado do grupo, com a sofisticação pseudo-romântica de Tommy, mas também com o primitivismo juvenil dos primeiros discos.

Do meu ponto de vista é em Who´s Next que o equilíbrio sonoro da banda atinge um ponto mais perfeito: a sofisticação tecnológica cruza-se com a violência dos rifs de Townshend que soam como uma energia Rock inigualável. A secção rítmica Entwistle/Moon adquire um protagonismo raro nas grandes bandas de rock. As canções são excelentes, Who´s Next está cheio de clássicos como Baba o`Riley e Won`t Get fooled again - espantoso o contraste entre o som planante dos sintetizadores e a violência das «explosões» sonoras da guitarra de Townshend. Tem baladas imortais, daquelas que estão sempre a suscitar novas versões, como Behind Blue Eyes (vide a versão dos Limp Bizkit) ou The song is over...

Who´s Next é uma obra prima! Foi considerado o 13º melhor álbum de sempre pela Rolling Stone, valha isto o que valer... É certo que o Roger Daltrey é um cantor excessivamente maneirista, mas é impossível resistir a Who´s Next! Pessoalmente gostaria muito que as bandas de putos voltassem a este disco ou, pelo menos, a esta banda. Quem sabe o que podia surgir daí... Da última vez que uma geração se lembrou de o fazer nasceu o Punk - e com ele os Sex Pistols e os Clash, digam lá que não valeu a pena.

21/04/10

Peter Steele, by Supernova


Chemical joy turning thee paranoid
Recently buried deep Greenwood Cemetery, now
I had no pulse last time I checked
I d trade my life for self respect
So I say with my ass whipped
There are some things worse than death
I cant believe I died last night - oh God Im dead again
I cant believe I died last night - Im fucking dead again

O mundo perdeu um dos melhores, a música vinda de Brooklyn nunca mais será a mesma.
Obrigado pela companhia e pelas horas, acabaram por ser poucas, em que os cd’s giraram sem fim.
That was a hell of a ride!

Hey peter, where are you going with that axe in your hand?”

08/02/10

Ana Moura no Cae da Figueira da Foz, por Marceneiro

No sábado passado fui ver a Ana Moura ao Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz. Pois, da Figueira da Foz... Não tenho nada contra - pelo contrário - a oferta de espectáculos de qualidade no CAE da Figueira. Quantos mais melhor!

Mas não consigo perceber porque é que a Ana Moura, a excelente Ana Moura, dá um concerto na Figueira e Coimbra fica de fora. Não é só de agora: há muitos anos que Coimbra, a «cidade da cultura e do conhecimento» (deve ser ironia), fica fora dos roteiros de espectáculos deste país. Tá bem, falam-me dos U2 ou dos Stones, mas isso é a excepção. E acho que seria mais positivo para a cidade se se apostasse numa certa regularidade em espectáculos de qualidade, do que trazer uma vez de 5 em 5 anos uma grande banda. Preferia que o hábito da fruição cultural fosse uma possibilidade real na minha cidade e não é. Pena...

Bom, como estava a dizer, lá fui à Figueira ver a Ana Moura. O concerto foi bom, descontando o escasso tempo da sua duração. A Ana começou a cantar já o Benfica jogava em Setúbal e acabou ainda o Cardoso não tinha falhado aquele maldito penalti. É pouco tempo.

De resto a fadista confirmou tudo o que eu já aqui escrevi acerca dela (uns posts mais abaixo, s.f.f.). É uma super star de uma beleza estrondosa, tem uma voz invulgar e uma presença arrasadora. O espectáculo está muito bem pensado, também do ponto de vista cénico. A entrada da Moura, de vestido preto e xaile sobre os ombros é majestosa, os gestos e as poses são cuidados e, acima de tudo, ela tem a qualidade vocal e a alma das grandes intérpretes. Mais uma vez, o espírito de Amália esteve presente, embora Ana Moura faça lembrar mais uma outra fadista, Teresa de Noronha, pela sua pose aristocrática. De facto, ao ouvir Ana Moura quase me esqueço de um certo lado folclórico e popularucho do fado: aquilo é ascético, nobre, espiritual. No fim ela temperou esse cunho mais aristocrático com a interpretação de um malhão que fez as delícias do povo ancião presente. E que bem que ficou à Ana a frase: «gosto de malhões!»...

Uma nota final: embora ela seja, efectivamente, uma grande artista, parece-me que o reportório que apresenta, não sendo mau, não está à sua altura. É ela que transcende aquelas canções, não as canções que a levam mais longe, de um modo geral. Falta-lhe, parece-me, descobrir o seu Alain Oulman (o homem que redimensionou a música da Amália). Acho que uma cantora com a dimensão da Ana não pode andar a catar canções do Tó Zé Brito e do Jorge Fernando. Acredito que no dia em que ela encontrar o «seu» compositor a música dela vai atingir um nível ainda mais estratosférico. Mas até lá o que podemos ouvir/ver já é de outra galáxia!

02/01/10

A Star is Born, por Sr. Alfredo

Ana Moura não é apenas uma cantora de fado, uma excelente cantora de fado. Ela tem algo mais, tem presença, tem aura... Faz lembrar uma sibila, tem uma aura antiga e pagã e o facto de ser cantora de fado não é alheio a esta evocação. Com certeza, se fosse cantora de um outro género musical que não o fado, não despertaria esse sentimento. Mas, sendo como é uma espantosa fadista, não posso deixar de a ver como a continuadora de uma longa tradição que vem de Amália, de Teresa de Noronha, de Marceneiro... Ela não é só ela: é ela e esta grandiosa tradição. Ana está, umbilicamente, ligada ao nosso passado mais profundo.

Mas, simultaneamente, Ana Moura tem uma inequívoca dimensão de super star que é imediatamente perceptível, mesmo sem a ouvirmos cantar. Quem já a viu/ouviu em corriqueiras entrevistas televisivas sabe do que falo. Ela tem uma presença absorvente, não é uma simples mulher bonita. Enche o écran, como deve encher o palco (ainda não a vi ao vivo). Sabe exprimir-se e, ainda que não seja verdade (não sei se é nem se não), dá-nos a impressão de uma grande autenticidade. Ela é, pois, do passado e do futuro, é tradicional e moderna ao mesmo tempo,é xaile negro e glamour, é sibila e super-star...


Tim Ries, saxofonista de longa data dos Rolling Stones reconheceu-lhe o carisma quando a convidou para o projecto Stones World. Ries reuniu músicos de diferentes géneros musicais para gravar novas versões dos clássicos da banda. A Ana coube No Expectations e Brown Sugar. Mais tarde haveria de ser convidada por Jagger e por Richards para cantar com a banda, em pleno estádio «Alvalixo», No Expectations (diga-se de passagem que não correu nada bem, embora por motivos alheios à fadista: o som estava péssimo!). E, mais recentemente, foi Prince quem se apaixonou pela sua música (só?). O Artista veio a Portugal, Ana tem ido a Detroit e estamos à espera de um disco do duo...

O seu penúltimo disco, Para Além da Saudade, é o que mais passa no meu leitor de CDs. Tenho uma sensação que deve ser parecida com a dos meus pais quando apareceu a Amália. Até ouvir este disco eu pensava que o fado era um género musical prisioneiro dos velhos cds da Amália. Mas agora vejo que não. A Ana Moura não é a Amália e nunca virá a sê-lo. Mas é sem dúvida um imenso sopro de vida num género musical que precisava desesperadamente de uma estrela a sério e não só de simples estrelas locais. Ana Moura, que é antiga e moderna, por mais paradoxal que isto possa parecer, é essa super-star.