Mostrar mensagens com a etiqueta Religião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Religião. Mostrar todas as mensagens

12/05/12

O Budismo e a Vida Moral dos Caracóis, por Mara

O Budismo é uma religião/filosofia fascinante. Mas tem alguns pontos que me casuam perplexidades várias. Por exemplo a defesa da reencarnação decorrente do Samsara (a impermanência que caracteriza toda a existência vulgar). A ideia em si é dificil de aceitar e merece-me, quando muito, um complacente agnosticismo.

Mas o caso complica-se quando verificamos a relação que a doutrina de Buda estabelece entre a reencarnação e o Karmma. Ao defender que cada reencarnação depende da qualidade moral das vidas anteriores  dá-se um passo perigoso. Os budistas entendem que o facto de encarnarmos num animal, num ser humano, num Deus ou num demónio, não é fruto do acaso, mas que se deve à lei kármica que rege todo o cosmos. Queres saber o que cada ser foi na sua vida anterior? É só olhares para a sua vida actual...

Esta teoria merece duas objecções imediatas:
Uma - tem implícita uma concepção discriminatória do próximo. Os pobres, os deficientes congénitos, os destituídos,os indigentes não o são por acaso natural mas como resultado das suas acções noutras vidas. Levar este princípio a sério é, de facto cruel e injusto para aqueles que não só têm que suportar o seu handicap como, ainda por cima, levam com o fardo de terem sido os responsáveis por ele, numa outra vida que ignoram completamente. Lembro-me que há uns anos o seleccionador inglês de futebol Glen Hoodle foi obrigado a demitir-se, precisamente, por ter defendido que um deficiente apenas estava a pagar o seu mau karmma noutra vida.

Duas - partindo do mesmo princípio sabemos que um indivíduo que é agora um animal simpático como, vá lá, o meu cão, deve ter sido um razoável patife noutra vida. E se se tratar do elefante do zoológico de Lisboa que vive preso e a fazer fosquetas aos transeuntes só para comer uns amendoins, ainda pior. Agora imaginem a espécie de pulha que teria sido noutra vida, por exemplo, um caracol ou um percevejo. Presumo que uma barata ou uma ratazana serão as reencarnações actuais de um hitler ou de um mussolini. Mas uma vez que a roda dos nascimentos e o próprio samsara não param a pergunta que se impõe é: afinal que precisa de fazer um caracol nesta vida para gerar bom karmma e assim encarnar numa próxima vida numa forma superior? Não se deve babar em público? Não deve atacar as caracoletas mais frágeis?

Quando o budismo liga a moralidade (um dos aspectos centrais para gerarmos bom karmma) à possibilidade de reencarnarmos numa forma de vida superior percebemos a lógica, embora  a possamos discutir. Consigo entender que um ser humano não deve roubar, nem matar, nem difamar e que uma moralidade sã é condição essencial para que se gere um bom karmma que nos beneficiará na próxima vida e nos torna mais próximos do nirvana. Mas o que será a vida moral para um gafanhoto? Estarão estes animais «inferiores» condenados a nunca mais sairem desse nível - ou seja um caracol quando morrer só pode nascer caracol ou bicho pior ainda? Existem karmas tão maus tão maus que nos condenam a níveis de existência dos quais nunca mais podemos sair?

São dúvidas que me assistem. Não digo que o budismo não tenha respostas para as minhas questões - até admito que tem e que sou eu que as ignoro. Mas não há dúvida em que só por mim e com o recurso aos meus pobres miolos tenho muita dificuldade em resolver estes problemas.  Acho que vou mandar um mail à União Budista Portuguesa. Talvez eles me saibam esclarecer e eu possa ter depois uma conversa séria com um caracol.

13/06/10

Slavo Zizek, A Monstruosidade de Cristo, por Cagliostro

Slavoj Zizek é, para mim, um reencontro feliz com a Filosofia. Psicanalista de formação, desenvolve o seu trabalho na Universidade de Liubliana, na Eslovénia. O primeiro livro que li dele foi Bem Vindo Ao Deserto do Real (citação de Matrix do anúncio feito a Neo (Keanu Reeves) quando este tem acesso pela primeira vez à verdadeira realidade). Senti uma vaga reminiscência da euforia adolescente vivida quando contactei pela primeira vez com um livro de Filosofia, andava, à data, no velhinho Liceu D. Maria. Gostei do estilo, da forma híbrida de pensamento que cruza referências de Filosofia, da Psicanálise, da Semiótica e do Cinema.

Mas para além da pertinência dos seus diagnósticos, Zizek interessa-me, também, pelo seu lado estético e hedonista. É uma leitura que dá prazer, sem cair na banalização. Ora essa componente de prazer é uma característica que vem faltando ao discurso filosófico e, só por isso, a descoberta de Zizek já teria valido a pena.

Recentemente li A Monstruosidade de Cristo, reflexão do autor esloveno acerca do duplo estatuto do Deus Cristão, por um lado transcendente, por outro, humano. Não haverá nos cristãos, pergunta Zizek, uma espécie de nostalgia de um Deus «sentado lá em cima», de uma Força Superior impessoal? No livro, Zizek evoca a história bíblica de Job que compara, acertadamente, ao Cristo que sofre na cruz.

Mas o que é muito interessante neste livro é que ele pode ser lido, mesmo sem nos interessarmos, essencialmente, pelo seu tema central. De facto, apesar da sua unidade, A Monstruosidade de Cristo é rico em reflexões que se podem ler de um modo avulso. Aqui encontramos brilhantes reflexões sobre o tema dos sonhos («Porque sonhamos?, Zizek recupera Freud), sobre o cinema de Hitchcock, nomeadamente sobre Vertigo e Psico (notável a forma como o escritor esloveno ensaia o que seria Psico narrado por Kafka e por Hemingway).

Numa das suas observações mais interessantes, o autor faz referência a «uma prodigiosa descoberta recente» citada pela revista americana Weekly World News. Fico sem saber se esta descoberta é fidedigna ou se não passa de uma invenção religiosa-comercial... Mas merece ser aqui relatada: segundo esta revista, um grupo de arqueólogos terá encontrado dez mandamentos adicionais, bem como «sete conselhos» de Jeová ao seu povo, os quais terão sido suprimidos quer pelo Judaísmo quer pelo Cristianismo. O que é curioso é que estes acrescentos, hoje, podem ser lidos, como muito bem entende Zizek, como referências às nossas causas políticas contemporâneas. Mais importante: Deus toma partido nessas causas. Deixo-vos com uma síntese:

Por exemplo, o XI mandamento: «Tolerarás a fé dos outros como gostarias que tolerassem a tua» (na origem este mandamento destinava-se aos judeus que se opunham a que os escravos egípcios que se haviam juntado ao Êxodo praticassem a sua religião. Hoje em dia a actualidade deste mandamento é cristalina...)

O XIV: «Não inalarás folhas incandescendentes numa casa de repasto onde o fumo poderá lesar a respiração de outrem». Familiar? Pois... Dedicado a todos os que ainda duvidam da justiça da lei que poibe que se fume em recintos fechados.

XVII: «Não erguerás um templo de jogo no deserto, onde toda a vontade se tornará lasciva». Embora originariamente referido aqueles que organizavam tendas de jogo nas proximidades de acampamentos judeus, pode ser lido como uma referência à meca do jogo erigida no deserto: Las Vegas!

XIX: «O teu corpo é sagrado e não deves alterar a todo o momento o teu rosto ou o teu peito. Se o teu nariz te ofende, deixa-o intacto». Ui! aqui bate em tanta vaidade á solta. Em particular na cirurgia plástica, na mouche. E como não pensar em Michael Jackson (o nariz...)e na sociedade ciborgue que estamos a criar?

E quanto aos Conselhos:
«Evita a dependência dos negros óleos espessos do solo porque eles vêm directamente do reino de Satanás». E não é verdade que a nossa dependência do petróleo é criminosa e que devemos, sim, investir a sério na energia limpa?

Ou ainda «Não procures a guerra nas Minhas Terras Santas porque elas se hão-de multiplicar e afligir toda a civilização» (O Médio Oriente retratado) e «Não elegerás um louco para te guiar. Se o elegeres duas vezes o teu castigo será a morte por delapidação (Zizek vê aqui uma referência clara a Bush, mas um português medianamente informado o que vê aqui é Sócrates :-).

Já não chegavam 10 Mandamentos. estaremos ainda, como pergunta o Esloveno, dispostos a ouvir a voz de Deus e a obedecer-Lhe?

P.S. O pic retrata o autor, nascido em 1949, com a sua esposa, Analia Hounie...

31/03/09

MARROCOS, A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E O AURÉLIO DAS TINTAS, por Heresiarca



Hoje no Público vinha um artigo meio escandalizado, porque o Reino de Marrocos expulsou três religiosas católicas que foram apanhadas em plena acto de penetração missionária. Perorava depois o artigo sobre a falta de liberdade religiosa em Marrocos.

Ora, eu acho isto muito bem. Proibição e expulsão dos missionários. Todos. São leis benditas que nós devíamos copiar do excelso reino das areias. Os camelos somos nós e não eles. Essas leis são sábias e impedem o proselitismo acéfalo desse exército de marteladores bíblicos, cuja especialidade é tocar campainhas às 10 da matina de domingo e às 11 da madrugada de sábado, acordando do sono bendito o devoto ao Senhor.

Quantos de vocês em vez de açular o rottweiler ao casal de velhos Jeovás, não gostariam de uma leizinha destas, que vos permitisse manter o corpanzil no remanso do leito conjugal e pegar no telemóvel a chamar a GNR: “ - ó Sargento é vir depressa com a brigada que anda aqui uma dessas feras à solta!, rápido senão eles fogem! Tragam as redes e os açaimes”.

Quantos de vocês não prefeririam de ter uma patrulha da PSP a controlar as hordas em parelha de Elders Mórmones da Igreja dos Santos dos Últimos Dias que vos destroem o sossego do disfrute da fruta da amásia, ainda por cima noite e madrugada adentro.

Isto é violência religiosa grave e devia ser controlada. E há casos mais graves ainda. Extremos. Há tempos em plena festa religiosa cristã cá do burgo a milf da Cremilde lá fez as suas caçoiladas de carne assada, que logo na primeira saída do forno regalaram o crente do marido, o Aurélio das Tintas.

No Sábado de festa, o incauto do Aurélio não estava em casa. E perguntam vocês: quem é que apareceu com toda a violência, à bruta e à falsa fé à porta da boazinha e inocente alma de Deus da Cremilde e a desviá-la do bom caminho? Bem perguntado. E eu respondo: nada mais, nada menos, que uma brigada de dois latagões de fatiota engravatada enviados pelo demo que dá pelo nome de Igreja Mórmon Dos Santos dos Últimos Dias. Os latagões, loiraços de olho azul e português americanado, enlevaram a milf Cremilde, que tratou de lhes beber a palavra desencaminhadora e os foi assentar na cozinha. Pior. Lembrou-se em agradecimento ao Senhor pelo envio de tão belos exemplares, de lhes dizer que não se fizessem rogados no caçoilame em exposição.

E como esta gente bebe do bom samaritano e dessas patranhas da oferenda e do lava-pés, dos ungidos e do vinde a mim os esfomeados, e do corpo de Cristo, etc coiso e tal, limpou a primeira caçoila e avançou para a segunda. A boa da Cremilde que encheu um olho com os loiraços, viu logo que lhe ia sobrar algo para o outro, e ainda titubeou, mas não teve coragem de cortar a palavra ao senhor.

É bem de ver que quando o bom do Aurélio das tintas chegou para o almoço de festa, carne assada viste-la, que já ia a caminho do Utah. E o puro do Aurélio não gostou e a Cremilde também não, já que o Aurélio das Tintas lhe afinfou um bom par de bolachadas, que lhe fez dum lado um olho azul e do outro um alto na testa, uma vez que foi bater com cabeça nos caçoilos vazios. E digam lá vocês se não há aqui uma espécie de justiça divina.

É evidente que hoje em dia o que se berra e aparece na estatística é violência doméstica e aqui del-rey que o marido afinfou na mulher. Tá mal. Isto é um caso claro de violência religiosa. Violência religiosa derivada apenas e tão só do facto deste manso país permitir que essa gente ande por aí a cirandar, a moer o juízo ao pessoal com as penas do inferno deles. Já não basta o nosso quando um temente a Deus chega a casa e se dá com as caçoilas vazias!

No fim de semana seguinte os Elders – himselfs – voltaram à casa da Cremilde. Acontece que o Aurélio das Tintas estava à coca. E aí houve de facto violência doméstica. Grave e com latas de tinta à mistura. Porque a religião é uma coisa colorida.

Mas repito, faz-nos falta uma leizita que evitasse este proselitismo desenfreado que por aí anda. Dormíamos mais e melhor e o Aurélio podia abrandar a vigilância.

14/03/09

A crise dos valores, por Memelogista

«Em excelente forma intelectual, Almeida Santos procura reflectir sobre as mudanças políticas e económicas que percorrem o mundo e que, inevitavelmente, segundo o autor, provocarão reconfigurações do poder global. O autor propõe mesmo uma reflexão sobre o fim da civilização ocidental e do modelo capitalista ultraliberal, chamando à atenção para a crise de valores»

In Público, a propósito do livro “Que Nova Ordem Mundial?”, de António de Almeida Santos


O mito é uma das características mais interessante das sociedades humanas. Normalmente a mitologia é relativa ao universo religioso, mas também há mitos seculares. O biólogo e pensador britânico Richard Dawkins inventou para estes a designação feliz de “memes”. Um meme é, basicamente, uma ideia que se torna tendência e ganha foros de certeza.

O pequeno apontamento citado no início (extraído do suplemento de economia de ontem do Público) refere-se a um novo livro do pardo cardeal do PS e chamou-me à atenção, não por causa do livro em si, que nem li nem pretendo fazê-lo, mas porque expressa um dos memes mais frequentes da contemporaneidade. Refiro-me ao mito laico da “crise de valores”, que anda regra geral a par com o mito da “insegurança” ou de que “antigamente é que era bom” e que se reflecte em pormenores como o de Salazar ter hoje, em plena democracia, um índice de popularidade que provavelmente não tinha no seu tempo.

O meme é um conceito que se dissemina pela sociedade como um vírus. A certo ponto, toda a gente, com os jornalistas (a vanguarda memética) à cabeça, o aceita e propaga como se fosse indiscutível. Repare-se, por exemplo, que o autor da breve resenha citada não tem qualquer dúvida: Almeida Santos chama à atenção para a crise de valores. Já quando Almeida Santos expõe o óbvio (que as mudanças políticas e económicas que percorrem o mundo provocarão reconfigurações do poder global*), o redactor do Público sente-se na necessidade de ressalvar que é “segundo o autor”. Já em relação à “crise de valores”, apesar de ser algo que está longe ser óbvio, não é apresentada como uma tese de Almeida Santos (“segundo o autor”), mas sim como uma característica inequívoca da modernidade para a qual o autor alerta.

O meme da crise dos valores não é novo. Já vem da antiguidade e todas as gerações assumem esse discurso, de cariz saudosista. Sócrates, por exemplo, lamentava-se imenso acerca da decadência moral dos jovens da sua altura na antiga Grécia e são inúmeros os escritores ou filósofos que ao longo da História se vêem ocupando desta problemática da “crise de valores“. Como se algures para trás no tempo tenha existido um espécie de era de ouro que se perdeu. O passado (esse local mitológico) sempre foi realmente um sítio fantástico, sobretudo quando a memória é curta. Como se andássemos, de geração em geração, constantemente em busca de uma espécie de paraíso perdido que nunca existiu.

Almeida Santos e o redactor do Público não fazem mais do que perpetuar o meme, dando de barato, erradamente acho eu, que os “valores” estão em crise, sobretudo, o que é mais bizarro, na chamada civilização ocidental - onde o que a realidade concreta, presente e histórica, nos mostra é que os “valores“ nunca estiveram tão bem e nunca foram tão valorizados. Apesar de tudo.

E de que “valores” fala esta gente afinal? O discurso da crise dos valores é frequente, por exemplo, pelas religiões. A Igreja Católica e os muçulmanos  passam a vida a lamentar isso mesmo - há centenas de anos que o fazem, de resto, ou mesmo há milhares se tivermos em conta as narrativas do Velho Testamento - onde Deus, debalde, é suposto ter resolvido esse dilema com os lendários genocídios de Sodoma e Gomorra e do dilúvio. Os massacres divinos não resolveram coisa nenhuma e a “crise de valores” persiste. E isso, a lamentação dos religiosos, compreende-se, porque reflecte a eterna impossibilidade de conciliação entre a doutrina e a condição humana. Na óptica dos estritos padrões morais cristãos ou muçulmanos o mundo esteve, está e há-de estar perpetuamente mergulhado em “crise de valores”. É essa dinâmica irreconciliável, aliás, que alimenta a narrativa apocalíptica e redentora dos monoteísmos em busca de clientela. Já é mais estranho quando gente supostamente mais esclarecida e secularizada (como os almeidas santos e os jornalistas) embarca nessa lógica falaciosa, que radica, digo eu, na ignorância. Principalmente na ignorância do passado. Mas também na incapacidade de olhar para o mundo hodierno sem as palas da ideologia e da teologia.

Os almeidas santos e os jornalistas referem-se, regra geral, a outra ordem de valores, seculares e republicanos, alguns dos quais coincidem com princípios judaico-cristãos (que estão longe de serem originais, muitos séculos antes de Cristo já outras sociedades e religiões os advogavam), mas que são basicamente herança do iluminismo e do humanismo, da dinâmica cultural, social e económica que arrancou com a expansão ultramarina europeia e com a Renascença, a partir sobretudo do século XVI e que desembocou, no século XVIII (Revolução Francesa, independência dos EUA, etc.) com a republicanização das nações. Basicamente, quando a separação entre Estado e a Igreja finalmente se concretizou. Em termos simplistas, para não tornar o post mais maçudo, este processo histórico de secularização humanista da chamada “civilização ocidental”, acabou por resultar na democracia, nas liberdades cívicas e políticas, no Estado de Direito, no primado da ética e, sobretudo, no conjunto de princípios (valores) condensados na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

A verdade, para além do histerismo mediático, é que nem é preciso conhecer muito de história para perceber, por exemplo, que nunca houve tanta preocupação com esta questão dos “valores“, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial. Em comparação com a miséria, a pestilência e a violência indiscriminada e quotidiana de séculos passados (incluindo a violência completamente discricionária e impune do Estado ou dos poderes religiosos e militares sobre o cidadão), das guerras constantes entre as nações e feudos europeus, da supremacia dos senhores da guerra, os tempos modernos são os mais pacíficos, prósperos e éticos de sempre. Os divertimentos públicos são um exemplo interessante: Há uns séculos atrás as famílias saiam ao fim de semana para assistir a enforcamentos, apedrejamentos e decapitações. Hoje, vamos à bola. Ou ao teatro, ou ao cinema. Ou passear no parque com os miúdos. Miúdos estes que já não se educam à estalada e ao pontapé, mas com muito amor e muito diálogo. Até há umas décadas atrás, as mulheres também eram disciplinadas à estalada e mal podiam abrir a boca. Hoje não há, e bem, quem as cale. Até há umas décadas atrás, um desastre natural era um castigo de Deus que, mal ou bem, se aceitava passivamente. Hoje, um terramoto mobiliza o apoio de milhões de pessoas, particulares, governos ou ONG’s, em movimentos de solidariedade internacional completamente impensáveis no passado.

Sendo óbvio que a explosão demográfica pós-industrial arrastou consigo inúmeros problemas e desafios, sobretudo ao nível das grandes cidades, também não é menos certo que, quer a nível estatal quer a nível associativo ou comunitário, ou mesmo online (o projecto Kiva é exemplar), se multiplicam os projectos e movimentos de solidariedade social. É também óbvio que persistem desigualdades sociais gritantes, mas a magnitude de pobreza não se compara com os níveis trágicos de antigamente, quando os únicos mecanismos de apoio aos mais desfavorecidos, às minorias ou aos deficientes, quando existiam, se limitavam à caridade das instituições religiosas. Basicamente, a miséria e a violência são fenómenos hoje em dia minoritários e não endémicos, generalizados, como eram até tempos muito recentes.

Tudo isto daria pano para muitas mangas, mas para atalhar, em apoio à minha tese, aconselharia que se ouvissem, por exemplo, estes dois senhores, que metem a “excelente forma intelectual” da eminência parda do PS num bolsito: São eles Stephen Pinker e Luc Ferry e podem ser ouvidos aqui e aqui, respectivamente. O primeiro fala do mito e da história da violência. O segundo fala da importância crescente da cultura do afecto nas famílias modernas.

* a este propósito, aconselharia (outra vez) por exemplo este documento norte-americano, que define alguns cenários para as próximas décadas

26/01/09

Da Maria Absoluta e doutros insectos, por Cão

Somos um país de insectos. Como insectos, somos esmagáveis com uma facilidade de chinelada. Vem a imagem lepidóptera (mais a ver com traças do que com borboletas) da tragicomédia em que esta terra se volveu.´
É o tremendo sr. Sócrates a requerer a “Maria Absoluta”, essa gaja tenebrosa.
É o inenarrável sr. Madail, ao arrepio das finanças nacionais, a encomendar o Mundial da Bola 2018, depois do fartote pato-bravo que foi o Euro 2004.
É a “benesse” ético-coisital dos casamentos gay (com adopção ou sem adoção de meninos?).
É o desbocado sr. Policarpo, cuja religião não permite sacerdotisas, a dizer aos papás que livrem as filhas de casamentos com aquela maltosa que passa férias em Guantánamo.(E já que a crónica mete o Cardeal ao barulho, pegue-se na Bíblia, encontre-se o Livro dos Provérbios e leia-se este apotegma: “Por três coisas se alvoroça a terra, e a quarta não a pode suportar: pelo servo, quando reina; pelo tolo, quando anda farto de pão; pela mulher aborrecida, quando casa; e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora.”.)
A “senhora” em causa é, claro, a Maria Absoluta. O “tolo” é quem casa com ela.
Assim andam e desandam as coisas cá pelo “reino cadaveroso”. A canalhada mandante é vil. A desvergonha atinge foros de paroxismo. O saque é geral. A perspectiva é nula. A expectativa é magra. O “poder local” deveria levar “h” depois do “p”. O bacalhau sabe a tainha. O vinho das cooperativas é todo igual ao litro. E a traça nunca será borboleta.
Agora, que o meu leitor volte a cabeça de repente e para cima: vê? É o chinelo.

Crónica nº 87 da série Rosário Breve (O Ribatejo, www.oribatejo.pt)

11/06/08

Portugal, por Um Português


Há uns tempos vim para aqui falar de religião e obtive algumas reacções adversas da parte de alguns confrades, no sentido de que não devia vir para aqui falar dessas coisas. Não porque sejam crentes, os estimados confrades, o que seria mais compreensível para mim, mas simplesmente porque é uma perda de tempo. Não se chega a lado nenhum e é como discutir o sexo dos anjos, é inútil, dizem. O argumento é, de resto, habitual. E continua a ser habitualmente incompreensível para mim, que até gosto de discutir o sexo dos anjos, o feitio dos deuses, o mistério da criação e outras trivialidades inconsequentes. Mas não é por isso que acho essa posição incompreensível.

Quem reflecte e discute com alguma seriedade (isto é, com frequência e liberdade) os deuses, as religiões e as fés, fá-lo porque é um exercício intelectual tão essencial e importante como a filosofia ou a ética; fá-lo porque quer perceber melhor a essência e a natureza das coisas, mas fá-lo, sobretudo, porque as religiões, os deuses e as fés não são assuntos irrelevantes para a nossa existência física, concreta, social, económica e cultural. Afectam profundamente a forma como vivemos, enquanto indivíduos e enquanto comunidade. E nessa medida é tão importante como discutir política, finanças, ciência ou história.

E se compreendo perfeitamente que para um crente essas sejam matérias indiscutíveis - são muito poucos os crentes que façam reflexões críticas acerca da sua religião (entendida aqui como a organização/instituição a que aderem), e muito menos os que o fazem em relação à sua fé obviamente, porque um dogma não se discute - e nessa medida efectivamente de debate inútil, uma evidente “perda de tempo”, já não consigo perceber, nem admitir, que num espaço de liberdade como tem sido o Tapor, essas não sejam matérias de controvérsia. São-no, obviamente, quanto mais não seja porque, havendo ou não liberdade de pensamento, tudo é controverso. E são mais discutíveis, digo eu, do que o torneio europeu de futebol em curso ou a carreira do John Holmes. Para não dizer importantes, pronto já disse. Mas o facto é que, apesar de muito pouco, a religião já foi tema de algum intenso debate aqui no porco, a última de que me lembro foi há cerca de dois anos, em torno do secularismo e da (discutível) contribuição judaico-cristã para o mesmo. Mas por norma é tema alheio ao Tapor.

A prova da sua importância, no entanto, saiu na edição de hoje, Dia de Portugal, do Público.

Portugal é o país mais pobre da Europa Ocidental e só não o é da União Europeia porque os novos países-membros do Leste ajudaram na estatística. Vinte anos depois da nossa entrada na UE, com biliões em subsídios injectados no país para efeitos de “coesão”, a realidade é que não saímos da cepa torta e hoje somos talvez a sociedade europeia menos preparada para os desafios da chamada “globalização” e para a sociedade do conhecimento, a “terceira vaga” que os Toffler anteciparam há umas décadas. Sem falar na impreparação para crises e desafios mais concretos e presentes, nomeadamente os económicos, os relacionados com recursos ou com competitividade global.

Muito do problema nacional, por outro lado, prende-se com questões de mentalidade e derivados, como comportamentos, atitudes e padrões culturais. As mentalidades são moldadas sobretudo por tradições e convicções, factores que por seu turno condicionam (e perpetuam) os tais comportamentos, atitudes e padrões. Acresce que o domínio das convicções com impacto social se divide fundamentalmente nas de cariz religioso e nas de natureza ideológica (i.e., políticas). E isto para concluir que sim, são questões importantes e discutíveis e que, em meu entender, os portugueses são como são e Portugal é como é, em primeira instância, devido à religião e à política, dois mundos simbióticos quando não estão devidamente separados um do outro.

De resto, todos os países são fruto e reflexo das mais diversas crenças e tradições. E nós, portugueses, somos fruto e reflexo do catolicismo romano e das políticas que este credo foi avalizando ao longo dos séculos.

O Público chamava, enfim, a atenção para um estudo internacional promovido pelo projecto Social Survey Program. O estudo versa o tema “identidade nacional” e há-de estar por aí melhor explicado pela net (aqui, por exemplo). O que interessa, para o caso, é que as gordas da primeira página do jornal gritavam: “Ser português é ser católico, pensa a maioria”. Lá dentro mais gordas assustadoras: “Em Portugal, nação e Igreja são equivalentes”. Os dados do estudo, acrescentava o jornal, «revelam que mais de dois terços dos portugueses consideram a religião um factor de identidade nacional, muito mais que em outras nações da União Europeia. O estudo mostra ainda que o orgulho nacional está muito ligado à História». Isto reflecte um pouco a ideia genérica que fazemos de nós próprios, enquanto povo, e é como tal talvez pouco fiável em relação às dinâmicas sociais efectivas e presentes, mas é extremamente revelador no que respeita a convicções (no caso, a ideia que fazemos de nós próprios) e tradições. Logo, a mentalidades e atitudes. «Ser português equivale a ser religioso, e mais concretamente católico: é assim que pensam 68,5 por cento dos cidadãos» portugueses, segundo o estudo, que abrangeu 34 países (nenhum dos quais muçulmano e vinte dos quais europeus). Portugal está em sétimo da geral, na importância dada «à religião como elemento definidor da identidade nacional. Na União Europeia, só é ultrapassado pela Polónia e Bulgária».

O estudo é muito interessante e aborda outras questões, como o facto da nossa fonte primordial de orgulho (para uma esmagadora maioria de quase 99 por cento) seja o passado (quantas vezes mitificado...), ou seja, não o que somos, mas o que supostamente fomos. «Nesta postura, Portugal está muito mais próximo de alguns países do Leste, como a Bulgária, a Eslováquia ou a Rússia, do que dos seus pares ocidentais. “Um enorme fosso”, constata Sobral (José Sobral, historiador e um dos coordenadores do estudo em Portugal). Para os portugueses, a grandeza continua então a ser pertença do passado», acrescenta o artigo.

O factor religioso, no entanto, foi o que mais surpreendeu (apesar de toda a evidência!...) os estudiosos, que concluíram que «o sentimento religioso faz parte de um bolo que nos afasta da maioria dos nossos parceiros europeus». Mas vale a pena perceber melhor o “fenómeno”, que estas coisas das identidades nacionais são efectivamente muito interessantes. Para José Sobral, esta mentalidade tem raízes tanto longínquas como recentes. «Recuando à época medieval, os portugueses viam-se e eram apontados, nas narrativas nacionalistas, “como tendo uma relação especial com Deus”: eram uma espécie de povo escolhido”, a quem fora dada a missão de espalhar a fé pelo mundo. “Este sentimento foi reforçado de modo a legitimar a expansão imperial”, frisa Sobral. Apesar do abanão da I República, o catolicismo voltou a florescer no Estado Novo, tendo-se reconstituído como um pilar do “nacionalismo oficial”, promovido por Salazar».

O paralelo com a vizinha Espanha (cujo desenvolvimento disparou desde que saiu da ditadura franquista e abriu a sua economia e, sobretudo, desde que aderiu à União), país que também encarnou nos mesmos católicos moldes essa missão evangelizadora e imperial, é fantástico e é sublinhado pelo historiador. «É revelador que, apesar dos reis católicos e da conquista, da guerra civil, do longo reinado de Franco e da relação especial que este manteve com a Igreja Católica, “apenas” 44,2 por cento dos espanhóis acreditam hoje que ser religioso é um atributo significativo da sua identidade. Em França e nos países nórdicos, esta percentagem está abaixo dos 20 por cento.».

É esta, enfim, a relevância de discutir religião. Por que se somos assim, pobres, tristes e iletrados, em muito grande medida o devemos à religião. Aliás, em grande medida o devemos a não se discutirem temas como a religião. Somos como somos porque estivemos durante séculos mergulhados em tradições e convicções religiosas de determinada natureza. Tradições essas extremamente convenientes à classe dirigente, a governantes como Salazar, homem mais pragmático do que propriamente crente, para quem a preponderância da religião, sobretudo de uma que prega a submissão e o conformismo (porque a recompensa está no céu e etc.), era uma questão essencialmente instrumental, no sentido da pacificação social - cumpre lembrar que os “católicos progressistas” eram não só uma pequeníssima minoria entre a população nacional, circunscreviam-se praticamente a Lisboa, como eram segregados e criticados pela instituição e pela generalidade dos paroquianos menos dados às rebeldias. Para os poderosos, com efeito, esta associação com a igreja sempre foi ouro sobre azul.

Os efeitos nefastos da preponderância política e social das religiões é mais gritante nos países islâmicos, obviamente, mas o caso português é exemplar no lado ocidental, pela negativa, dos respectivos malefícios sobre uma sociedade. Refiro-me criticamente e especificamente à Igreja Católica Apostólica Romana, tradição e convicção que tem imperado em Portugal desde há quase mil anos e que moldou decisivamente (desgraçadamente, digo eu, mesmo que nem tudo seja mau...) a atitude e o modo de ser português.

Nem todas as religiões, por outro lado, terão os mesmos efeitos que a religiões católica ou muçulmana, estruturalmente conservadoras e tradicionalistas, mais avessas à inovação e à diferença. O caso dos Estados Unidos, por exemplo é muitas vezes invocado pelos crentes como uma prova de que uma sociedade pode ser religiosa e ao mesmo tempo progressista e próspera. É certo. Os norte-americanos são esmagadoramente religiosos. O que falta referir é que professam, desde que são nação, uma religião bem diferente da nossa. Quer os norte-americanos quer os europeus do Norte (essa outra parte do mundo atrasada e analfabeta) são sobretudo povos de tradição protestante. E isso faz, como fez, uma enorme diferença na forma como os países evoluíram, mesmo que o Deus seja o mesmo...

Neste caso já não me estou a referir ao sexo dos anjos, estou a falar de ética, moral e comportamentos, usos e costumes, questões concretas que dizem respeito ao discutível universo religioso. O que a realidade nos mostra (por muito que alguns militantes religiosos apregoem a falácia da “falência dos valores” nas sociedades seculares) é que as sociedades mais religiosas, ou pelo menos, as mais adeptas de determinadas religiões, são invariavelmente as mais atrasadas – o drama do continente africano é um assunto diferente e muito particular.

O que este estudo confirma, quanto a mim, é a Igreja católica enquanto causa profunda e persistente do nosso atavismo, da nossa forma de ser conservadora, ignorante e fatalista, dos políticos medíocres a que nos conformamos e do estado em que estamos, mesmo atendendo aos sinais positivos para o futuro, que também os há nas novas gerações, cada vez com mais “mundo” e consciência dos novos desafios (globais) que têm de enfrentar. São também, sintomaticamente, gerações cada vez mais secularizadas, urbanas e menos dadas às crenças, às tradições e aos rituais religiosos institucionalizados, sendo significativo o crescimento, exponenciado pela net, do ateismo, do agnosticismo ou de correntes espirituais alternativas, nomeadamente as conotadas com a “new age”. Ou da simples indiferença. Mas a realidade que este estudo aflora é que a maioria ainda sente que é religiosa e que é isso que ainda a identifica enquanto nação, enquanto principal elemento agregador. Uma nação católica apostólica romana, fiel ao Papa, como no tempo dos afonsinhos.

Só um exemplo: A tendência católica, tal como o maometismo, privilegia conceitos morais como a caridade e a aceitação. E isso gera uma mentalidade assistencialista, de ajuda piedosa ao doente e ao desafortunado. Não é de resto por acaso que uma das chaves do sucesso de facções muçulmanas como os xiitas de Moqtada Al Sadr no Iraque, do Hezbollah no Líbano ou do Hamas em Gaza, são as redes de assistência social às populações, que monopolizam a ajuda em certas zonas. É óbvio que se trata de uma questão de conquistar simpatias, mas trata-se também da mesma lógica assistencialista profunda que anima a tradição católica, que cada vez menos monopoliza, de resto, a assistência aos pobres e aos desvalidos.

O protestantismo, pelo contrário, assumiu uma tradição ética e moral muito diferente, estimulando sobretudo a iniciativa individual, o empreendedorismo e a insubmissão. Desde logo em relação à doutrina papal; à autoridade centralista do Vaticano, que se exercia com um peso brutal nos governos terrenos das nações e à teologia romana oficial. O protestantismo chegou e traduziu a Bíblia para vernáculo, para a língua do povo, deixou de ser exclusivo em latim para meia-dúzia e passou a ser vox-populi, permitiu que cada um fizesse a sua pequena exegese, fragmentou-se em milhares de sub-cultos evangélicos (além das principais sub-divisões originais, a luterana, a calvinista e a anglicana) e, sobretudo, permitiu um espírito (uma mentalidade) mais livre, crítico e dinâmico, mais facilitador de educação, ciência e cultura, mais adepto de ensinar a pescar e menos de oferecer o peixe. E também menos intolerante.

Ora, tudo isto fez toda a diferença, na forma como as diferentes sociedades evoluíram, já que quer o catolicismo romano quer o islamismo, se deixados à “rédea solta”, como aconteceu em Portugal até 1974, se assumiram como forças paralisantes e castradoras. O catolicismo, quanto a mim, tem a vantagem de, apesar de tudo, se adaptar melhor às mudanças e às novidades do mundo e de ser mais aberto à dialéctica. Mas isso não o torna imune à crítica e acho que já vai sendo tempo destes assuntos e destas responsabilidades históricas serem discutidas, deixarem de ser tabu ou, pior, mito.

Pronto, para já era só isto.

26/01/08

Feda`is Dentro de Nós – Parte II, por Mau Mé Mé

Inicialmente eu tinha pensado em transcrever, simplesmente, a solução, melhor A Solução, do enigma do post que está logo aqui em baixo intitulado «E Você Também Tem um Feda`i Dentro de Si?». Retomo a magna questão: «Quem está mais próximo de Alá: o Profeta ou o arcanjo Gabriel?».
Mas entretanto choveram comentários que põem seriamente em causa a dogmática oficial Ismaelita. Claro que são interpretações heréticas que condenam irremediavelmente os seus autores aos tormentos dos Infernos. Mas como condenados já estamos todos, eu não resisto a publicar aqui uma súmula livre das principais posições defendidas nos comments ao referido post.

Assim conclui-se em primeiro lugar que os Comentadores fugiram à resposta clara e inequívoca: tirando o Gabar El que responde «o arcanjo, claro» (mas sem justificar, o que faz da sua resposta uma nulidade teológica), mais ninguém é taxativo na resposta.
No entanto percebe-se que a inclinação dominante dos ilustres Comentadores vai para o Arcanjo. O Arcanjo está mais próximo de Alá que o Profeta. Isso mesmo se depreende do comentário inicial do Britannicus que apoia a sua tese (a qual contudo, não chega a formular expressamente) na biografia do profeta. Pois não foi ele, cita retomando a célebre música dos Lamb, quem terá dito:
« i can fly
but I want his wings
i can shine even in the darkness
but I crave the light that he brings
revel in the songs that he sings
my angel gabriel»
E lembra ainda o Brit que «quem recitou as suras e a palavra ao ouvido do profeta foi o sobredito arcanjo.» Logo, conclui-se, o Arcanjo é o mais próximo.

Já o Oto, nick name de um trabalhador dos estaleiros da Lisnave em pausa para almoço, faz a coisa descambar para a escatologia, imaginando cenário orgiástico entre o Profeta, o Arcanjo e o autor do Post.

Por sua vez o Grunf porta-se como um hooligan teológico: não só não responde à questão como insulta tudo e todos , desde o arcanjo ao próprio Alá, em termos que o decoro religioso e o medo das labaredas do inferno me impedem de aqui reproduzir. Alá fez então a sua primeira aparição aqui no Porco avisando os hereges que depois terá uma conversinha de Deus pra homem com os dito cujos. Rezou assim a teofania porcina:
«E aos blasfemos, hei-de fodê-los nos Infernos, prometo.»
Alá

Veio aqui também o Allgarve que gostou, prontos. E sobre a matéria em questão nada disse.

Fugindo à corrente dominante veio também o TNT que disse de sua justiça:
«O Gabriel zela pelas bem aventuranças. O profeta é uma reminiscência de Alá, uma extensão do braço divino, numa versão mais terrena. Assim sendo, quiçás, o Gabriel dever-se-á prostrar ante Alá, tombado à direita deste... Se assim não é, devia... Ou então andam os dois encavalitados, a disputar a primazia das bem aventuranças...»

Pergunta-se se não será o TNT um pseudónimo do ex presidente Sampaio, já que este comentário dá para tudo consoante a interpretação: tanto se pode entender que é o arcanjo o mais próximo, como o profeta, como nem um nem outro.

Finalmente, reapareceu o Brit, para argumentar que, cito integralmente, porque este comentário é francamente notável:
«Caríssimos,em verdade vos digo que a vaidade é soberba e esforço vão de cingir o vento! Não esqueçam que a a palavra basilar e humílima do islão é a palavra "submissão".Não me parece, pois, boa ideia grafar o nome do profeta na caixa de comentários de um blog com o nome de Tapornumporco.
Aqui vai!
Segundo a sura XVII do Corão, o profeta teria realizado uma noite uma viagem. Enquanto dormia perto da Caaba, em Meca,teria sido acordado pelo Arcanjo Gabriel que, depois de lhe ter dado a sabedoria e a fé, o teria levado,na garupa do cavalo Al-Burac de Meca até Jerusalém,e dali teria subido ao céu.O pormenor significativo desta história (não se esqueçam que Deus está nos pormenores, tal como o Diabo está na prega) não é a dádiva da fé e da sabedoria, mas o facto do cavalo ter cara de mulher e cauda de pavão. Ora, ninguém montado em tal montada entraria no céu, que é lugar onde o ridículo é demasiado grave para sobrepairar etéreo acima do mundo terreal. Donde se conclui quod erat demonstrandum: que o profeta não está nem esteve no céu e, portanto,não pode estar mais próximo de Alá do que o Arcanjo Gabriel.Como bom muezzin tenho a obrigação de chamar os fiéis para a prece. Vou ao minarete! Um abraço!»
Bom minarete, Brit! O Brit parece insistir na superioridade do arcanjo sobre o profeta, embora não seja inteiramente claro, como é próprio de um Comentador que se preze. Tem ainda o mérito de recordar quão inapropriado é o nome deste blog, boçal evocação do animal esconjurado pela Verdadeira Fé: o Porco.

Feita a síntese dos Comentários dos nossos Exegetas verifica-se que, contra todas as expectativas, nenhum poderia alguma vez ser um verdadeiro Feda`i. Mordam as maõs de desespero, mas é assim! Ninguém deu a resposta certa. E qual é ela?

Segundo o dogma oficial é, de facto, o Profeta e não o Arcanjo Gabriel quem está mais próximo de Alá. É certo que somos tentados, superficialmente, a julgar a natureza divina do Arcanjo como superior à natureza terrena do Profeta. Mas isso é pura tentação com que Alá nos enebria. O Profeta está mais perto de Alá como justifica o Infalível e Supremo Da`i Ismaelita Abu Ali no momento da revelação da Verdade aos jovens candidatos a Feda´i. Cito, de Alamut de Bartol, página 178, a justificação insofismável confirmada pelo próprio Abu Ali:


«Alá enviou o arcanjo Gabriel em pessoa para anunciar a Maomé a sua missão profética. Se Alá não tivesse tido a intenção de distinguir precisamente Maomé diante de todos, teria podido contentar-se em confiar directamente a missão profética ao seu anjo. Se não o fez, foi porque reservava a Maomé um papel verdadeiramente único. Deste modo, é óbvio que este último tem no paraíso uma posição superior à de Gabriel».


E pronto! Atirem-se ao mar ou ao abismo mais profundo da montanha: pra Feda`i vocês não têm jeito. Pode ser que nas obras…

22/01/08

E Você? Também Tem um Feda`i Dentro de Si?, por Ali O Químico

Ando a ler Alamut do escritor esloveno Vladimir Bartol, mais uma preciosa sugestão literária do nosso Grão. Alamut relata a saga de Hassan Inb Saba, O Velho da Montanha, e da sua famosa Seita dos Assassinos, constituída no século XI.

Esta seita do ramo Ismaelita é considerada precursora dos actuais «mártires»/suicidas islâmicos já que os seus operacionais participavam em atentados suicidas deliberadamente votados ao martírio.

Sobreviver era desonroso; deixar-se abater, a Glória Suprema, como hoje... Alamut era o nome do quartel general da seita, uma fortaleza considerada inexpugnável, situada algures nas montanhas do norte da Pérsia. Este é o terceiro livro que leio sobre Alamut e sobre Hassan Ibn Saba. O primeiro que li foi o genial Samarcanda de um dos maiores escritores vivos da nossa era: o Libanês Amin Maalouf. O segundo foi um ensaio de Bernard Lewis, intitulado Os Assassinos - Uma Seita Islâmica Radical. O tema é fascinante, acho que não vou parar por aqui.

Nas páginas 177-178 doo livro de Bartol há uma questão fabulosa que é colocada aos jovens candidatos a Feda`i (a guarda de elite do velho Hassan). Da resposta correcta a esta pergunta dependia a consagração do jovem candidato a Feda`i. A pergunta era: «Quem está mais próximo de Alá: o Profeta ou o arcanjo Gabriel?»

Até um leigo como eu percebe a pertinência da questão, uma vez que é o arcanjo Gabriel quem revela a Maomé a sua missão. Qual a resposta a esta pergunta sacramental? Haverá, de entre os leitores do Porco, alguém suficientemente sábio para responder (justificadamente) a esta pergunta? Respondam nos comments. Para sabermos se há entre nós feda`is em potência... No próximo post publico a resposta correcta nas palavras do grande da´i de alamut Abu Ali, braço direito do próprio Velho da Montanha. Prometo.

24/08/07

Deus Existe? por Leviatã

A TSF divulgou: Madre Teresa de Calcutá tinha dúvidas de Fé. Possivelmente esta notícia vai passar despercebida, atulhada em mais uma torrente de tricas politiqueiras e lesões de jogadores de futebol. Para mim é a notícia do ano.

Um livro a publicar em breve nos Estados Unidos dá conta da correspondência pessoal de Madre Teresa de Calcutá em que esta confessa sérias dúvidas sobre a existência de Deus. Esta crise de fé terá durado cerca de 50 anos – todo tempo passado na Índia. Nestas cartas a Missionária escreve coisas como:

«(Os) condenados ao inferno sofrem um castigo eterno porque perderam Deus. Na minha própria alma sinto uma dor enorme com esta perda, sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que, na realidade, não existe».

Noutros passos confessa o martírio e suplício que foi a sua vida e o sofrimento dos que acompanhou.

Madre Teresa de Calcutá pareceu-me sempre um exemplo de serenidade: Pareceu-me notável o seu exemplo prático enquanto resposta a uma das perguntas mais prfundas da humanidade: como conciliar Deus, a sua Bondade e Omnipotência, com a existência da morte, do Mal e do sofrimento?A imagem que tínhamos dela mostrava ser possível manter a crença em Deus mesmo no meio do mais absoluto desespero e do horror mais tenebroso que possam existir. Agora, estas cartas permitem-nos olhá-la segundo um novo ângulo, nem por isso menos nobre. Afinal, ela duvidava, embora mantivesse uma imagem pública de heroína da fé, por amor aos outros, sem dúvida. Não comento mais. Chega-me. As afirmações da santa são a notícia do ano.

foto de Joel-Peter Witkin

22/12/06

O Poder é uma Batata, por O Poder do Acho Eu de Que o Poder Está na Verba

Então é assim.
Desconfio, à cabeça, de gente com convicções “profundas” ou “arreigadas”. Acho, nesse sentido, extremamente sábia a visão taoista da vida, que centra a sua filosofia na dualidade dos contrários universais. Como explanou Lao Tsé, tudo na existência possui uma faceta negativa e outra positiva, da electricidade à natureza humana, tudo é dual, tudo é uma coisa e o seu contrário. As convicções não são excepção a essa regra e se a elas se devem inúmeras conquistas e realizações positivas, também contêm em si a semente do ódio e da destruição. Um terrorista islâmico ou nacionalista é um homem profundamente convicto da sua crença, por exemplo. Da mesma massa mas em sentido oposto é feita gente como Ghandi ou Madre Teresa de Calcutá.
Um homem convicto, no entanto, e por norma, é um homem dogmático e prisioneiro das sua verdade. O mesmo se aplica, naturalmente, a um homem agnóstico ou que faça da dúvida o seu método, se não houver o essencial equilíbrio e moderação entre as paixões opostas. Dai a importância de uma conduta pessoal ética, humanista e universal, igualitária e transversal, supra-confessional e supra-ideológica: tolerante. Esta circunstância dualista do homem e das coisas, que tanto pano tem dado para as mangas de autores e filósofos desde o dealbar da História, aplica-se também à história do cristianismo e à das religiões em geral.
É desse modo que o cristianismo e o catolicismo romano em particular, consegue oferecer do melhor e do pior, a paz e a guerra, o amor e o ódio, a intolerância e a incondicional aceitação do “outro” diferente. Por essas e outras nuances, a história do cristianismo é uma realidade extremamente complexa e dualista, um caminho de luz mas também de sombra e sofrimento. É também por isso que o pequeno ensaio do Borat pode ser lido como um manancial de contradições. Precisamente porque a história da sua fé é também tecida de profundas contradições. É normal e é humano.
Ao sustentar que a sua é uma igreja pioneira e revolucionária na separação de poder temporal e espiritual (o que nem é mentira na sua génese doutrinária, nas tais palavras revolucionárias de Cristo) Borat acaba por encher a sua prosa de exemplos precisamente do contrário, de casos em que foi e é flagrante a promiscuidade entre os dois poderes, de Constantino ao César-papismo, da coroação de Carlos Magno em Roma à Inquisição, da capacidade papal para destituir ou entronizar príncipes e reis às teorias de São Bernardo, do cisma Protestante ao banco Ambrosiano, o percurso da Igreja Católica está cheia de exemplos marcantes da interferência religiosa no governo dos homens e das coisas da terra – basta lembrar que se calcula que na Idade Média a Igreja do Vaticano controlava/possuía cerca de um terço das terras cultiváveis da Europa, como verdadeiros senhores feudais. Aliás, desde 756 que o Papa era o administrador político do Património de São Pedro, o Estado da Igreja, constituído por um território italiano doado pelo rei franco, Pepino. Se isso não é poder temporal, o que será?
Por todas estas e outras manifestações ou emanações do poder terreno do Vaticano, não admira portanto e por exemplo que a Revolução Francesa tenha vitimado sobretudo a nobreza e o clero. Não foi certamente porque o Clero andava a dar milho às pombas e aos pobres, mas era provavelmente porque as vozes de gente boa como o celebrado Francisco de Assis chegou mais profundamente aos peixes e a uns poucos cristãos do que à estrutura ortodoxa da Igreja. Assim como também não foi certamente por capricho que Lutero se revoltou contra a ortodoxia católica papista dominante e as suas indulgências e vida mundana, pregando em 1517 as suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg.
O facto é que nada disto é linear e muito menos simples e que vai uma grande distância entre o universo cristão, latu sensu e o sub-universo católico.
Nesse contexto tendo a achar que razão tinha Antero de Quental na célebre conferência do casino dedicada às “Causas da decadência dos povos peninsulares”, onde traça uma clara demarcação entre cristianismo e catolicismo. Para o grande Antero, depois do Concílio de Trento, o Cristianismo, "que é sobretudo um sentimento", afastou-se radicalmente do culto Católico, "que é principalmente uma instituição". Segundo o autor, se o primeiro vive da fé, o outro medra do dogmatismo e da disciplina cega. A mesma que levou a iniquidades como a Inquisição ou a evangelização forçada de milhares e milhares de seres humanos, não à força do sacralizado “Verbo”, mas tão só à força da maior força, que em nome da Cruz arrasou culturas e credos milenares um pouco por todo o planeta.
Antero de Quental, recorde-se, foi também dos mais ferrenhos denunciadores do poder temporal da Igreja Católica no nosso país. Esse facto, de resto, levou a que as Conferências fossem proibidas por portaria real e por pressão da Igreja. Pressão essa que se manifesta ainda hoje em inúmeros capítulos da vida social e cultural e que de espiritual tem muito pouco.
É neste sentido que acho que uma coisa são as boas intenções e as boas palavras, outra bem diferente são os factos e as suas consequências efectivas. Por isso é que eu acho (e o eu, já agora, sou os eus celebrados na capa da Time aqui reproduzida nuns postes abaixo e que anuncia ao mundo a revolução “achista”) que uma coisa é a alegada mensagem de Jesus Cristo (é preciso não esquecer que os Evangelhos que compõem o Novo Testamento só começaram a ser escritos quase um século após a sua crucificação e muita coisa foi deturpada pelas conveniências do contexto ou da vontade do escriba) e outra bem diferente é a organização religiosa e doutrinal que a partir daí se foi desenvolvendo e enriquecendo, moldando-se às conveniências do momento histórico. E essa (lá está a qualidade dualista das coisas) acaba por ser também a vantagem do catolicismo sobre religiões como o islamismo, muito menos permeável à mudança e à força das circunstâncias.
Não obstante e dada a sua natureza tendencialmente “imutável”, a Igreja Católica associa-se regra geral às tendências políticas mais conservadoras e reaccionárias (salvo raras excepções, como a citada pelo Borat “teologia da libertação” na América Latina, proscrita de resto pelas chefias eclesiásticas). Se no Portugal da guerra civil dos anos trinta do século XIX a Igreja se posicionou, realmente, do lado das derrotadas forças absolutistas (apoio concreto e que traduz só por si uma manifestação de interferência no «poder temporal»), não admira também que tenha sido um dos esteios fundamentais da ditadura salazarista (“Deus, Pátria, Família”), ainda que para o final da sua vida e do seu consulado o presidente do Conselho tenha perdido totalmente a fé no ideário católico, como bem lembra Fernando Dacosta no seu excelente “As máscaras de Salazar”.
Tudo isto são também factos, e tudo isto e a História mostram à exaustão como é falaciosa a tese da Igreja Católica enquanto expoente da “separação de poderes”. Teoricamente até será assim, e era bom que assim fosse e que a Igreja se reduzisse ao seu ministério espiritual, mas a prática vivida é uma realidade bem diferente e, por outro lado, há imensas formas, mais ou menos dissimuladas, mais ou menos directas, de condicionar ou interferir nos assuntos temporais e concretos da nossa vida social, económica, cultural ou política.
Diz o Borat que a Igreja é “simplesmente” uma “comunidade de crentes”. «Não uma hierarquia, nem uma instituição, não uma ortodoxia nem um Estado, não uma tradição nem um poder. Simplesmente uma comunidade de crentes». Não concordo. Por um lado, todas as igrejas, seitas, religiões ou cultos são obviamente comunidades de crentes. Por outro, a Igreja de Borat também é uma hierarquia, também é uma instituição, também é uma ortodoxia, também é um Estado, também é obviamente uma tradição e também é muito naturalmente um poder. E esse poder, basta olhar para o tema desapaixonadamente, tanto é espiritual como concreto.
Quanto a caberem lá todos, como já afirmei, conheço poucos cultos religiosos onde não caibam todos os que assim queiram e creiam. Se isso é ser “universal”, repito, todas as religiões o são. E isto não sou só eu a achar, é o poder da evidência. Para terminar, apenas lembro que além de não haverem verdades absolutas e definitivas, principalmente nas matérias do espírito e do sentido mais profundo da vida, a Igreja Católica, como todas as outras, é uma Igreja de homens para homens, e tanto é humana nas suas virtudes como nos seus defeitos e um destes, como sublinhava por exemplo Nietzsche, é a sede de poder, de supremacia, seja qual for a sua natureza, a que ninguém é imune, muito menos os homens que compõem a Igreja Católica Apostólica Romana, que é grande, mas é apenas uma entre muitas. Em si mesma nem boa nem má; em si mesma, por ser humana, má e boa em simultâneo. É tudo relativo, enfim, por muito que o senhor Ratzinger não goste.

15/12/06

O Islão para Principiantes – 1: Não Agarrarás a Piça com a Mão Direita. Por Borat

Iniciamos hoje uma nova secção que visa esclarecer os leitores acerca de alguns assuntos relacionados com a religião islâmica. Vivemos sob a ameaça de um conflito civilizacional. Teme-se um confronto entre o Islão e a Cristandade. Nós, envergonhadamente cristãos, respeitamos na outra parte, assumida e orgulhosamente mussulmana, muito que não deveríamos respeitar. Por reverente ignorância. Para se entender o mundo de hoje, para perceber o fundamentalismo islâmico, é necessário conhecer os seus aspectos caricatos. Não são poucos. É quase tudo. O Islão é uma religião irracional e fanática, tribal e avessa à modernidade, inimiga do progresso e desrespeitadora dos outros, desprovida de alcance filosófico e profundidade teológica. Todavia, não se defende aqui que o conflito seja uma inevitabilidade, nem sequer se propõe a Cruzada. Esta atitude, praticada no passado e insensatamente proposta por muitos na actualidade, conduziria à perversidade de nos igualar ao nível do que repudiamos. O Cristianismo, como única religião Universal concebida pelo Homem, caracteriza-se pela sua capacidade de integrar o outro no que tem de válido, compreendê-lo, argumentar através da palavra e do exemplo, aquilo a que Roger Bacon chamava sermo potens, isto é, o poder do Verbo.
Posto isto, lembremos que o Islão não se fundamenta só no Corão, mas também na Suna, isto é, a Tradição, a memória da vida de Maomé, a compilação dos ditos atribuídos ao Profeta. O Corão e a Suna constituem a Charia, a Lei Islâmica.
Há inúmeras compilações da Suna, todas elas elaboradas entre os séculos IX e XII, que chegam a reunir mais de um milhão de ditos (Hadiths). Nem todas as recolhas são reconhecidas pelas autoridades clericais como autênticas, sendo todos dizeres avulsos, sem qualquer sistematização ou comentário. Uma das colectâneas mais conhecidas é a do sírio Sahih al Bukhari (século IX), que validou 7 000 dizeres. É aqui, neste conjunto desconexo de frases, que os crentes encontram as normas orientadoras da sua vida. De carácter jurídico e comportamental, modos de conduta e regras para o uso quotidiano, enfim, e em suma, os princípios orientadores da sua vida. Completamente idiotas, diga-se. Como esta:
«O Profeta disse: sempre que um de vocês urinar, não deve segurar o pénis ou limpar as suas partes íntimas com a mão direita.» (Hadith nº 156 do 4º livro de Bukhari). Isto é mais ou menos a Summa Theologica lá deles.

18/09/06

Somos Todos Católicos?, por Constantino

Há uns meses atrás, um jornal nacionalista dinamarquês, num exercício livre de xenofobia dissimulada e (bem) consentida pelas leis ocidentais de liberdade de expressão e imprensa, publicava uma série de caricaturas que desafiava o maior tabu religioso e cultural das centenas de milhões de crentes islâmicos espalhados por todo o Mundo: dava rosto a Maomé! Todos se recordam do escândalo e das reacções dos fanáticos muçulmanos. Todos se recordam dos excessos e das pressões inimagináveis exercidas sobre o director do jornal e sobre a diplomacia dinamarquesa que se recusou (bem) a pedir desculpa, argumentando que o poder político é separado da imprensa e que a liberdade de expressão é sagrada no Ocidente. Todos se lembram das manipulações das multidões e da guerra de informação. Na altura, nos jornais e na blogosfera houve muitos que se solidarizaram com a diplomacia dinamarquesa e, retomando Kennedy, gritaram inflamados: «Somos todos dinamarqueses!»
Agora, há uns dias atrás, o papa Bento XVI proferiu uma lição numa universidade alemã onde (bem) citou um imperador bizantino para demonstrar, a propósito da recusa deste em se converter ao Islão a pretexto da violência da Jihad, como a guerra é contrária ao sentimento religioso. O papa, não tão inflexível quanto a diplomacia dinamarquesa, até porque o seu múnus assim o determina, esclareceu e pediu desculpas por eventuais ofensas. A verdade é que, apesar disso, as reacções dos fanáticos aí estão. O primeiro-ministro turco reagiu solidarizando-se com o Islão ofendido, contrariamente ao governo dinamarquês que se demarcara de tomar uma posição sobre assunto religioso, na Somália mataram uma freira italiana, na Índia queimam efígies de Bento XVI, apedrejam igrejas e manifestam-se na praça pública. «Somos todos católicos?» - pergunto eu.

foto: http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/4495835.stm

14/02/06

O Islão, esse Conhecido, por Burro Anónimo

Quem gosta de certezas fixa-se no horizonte limitado do presente. Quando recorre ao passado é de modo interesseiro. Quando não interessa, planta o esquecimento, banaliza a História. O estudo do passado leva à relativização das nossas certezas, tomamos a linha em vez do ponto. Por isso, o desprezo pela História é tão típico das sociedades do esquecimento. Estamos a um passo da discricionaridade, da subjectivação total do mundo social, cada um diz o que lhe apetece e tudo é válido.
Vem o prolegómeno a propósito de um dito e redito, aqui na acesa polémica do Tapor a propósito do Islão e dos cartoons, segundo o qual nós dispensamos a atenção e o estudo necessários ao nosso passado islâmico. Bastar-me-ia a imagem colocada como ilustração ao post para negar, definitiva e categoricamente, este disparate. Contextualizemos: Em 2001, na sequência do enorme êxito da edição da «História de Portugal» dirigida pelo prof. José Mattoso, o Círculo de Leitores decidiu prosseguir com um plano editorial contemplando uma série de publicações e colecções de temática histórica. Encomendou a redacção e direcção dos trabalhos aos mais proeminentes académicos que publicaram obras de referência nos mais diversos domínios: da história militar à história da arte, a expansão portuguesa, a história da história em Portugal, a história dos municípios e do poder local. Académicos de primeiro plano como César de Oliveira, Paulo Pereira, Reis Torgal, entre outros, editaram obras incontornáveis para a historiografia portuguesa contemporânea. Não estamos pois a falar de uma edição qualquer, nem de uns quaisquer autores, nem de uma editora de vão de escada. Ora, foi neste contexto que o Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, uma das melhores e mais prestigiadas instituições nacionais de ensino superior, sob a direcção de Carlos Moreira de Azevedo, coordenou a publicação de um «Dicionário de História Religiosa de Portugal». São quatro grossos volumes, com mais de 500 páginas cada um, em bom papel, ilustrados e encapados. E é nesta obra que em meia dúzia de linhas se despacha uma entrada sobre o islamismo. Não, não é um assunto menor. O Islão chegou aqui em 711 e só foram expulsos nos finais do séc. XV. Isto é negligência, não estamos a falar de um tema qualquer. Não é possível fazer uma história religiosa de coisa nenhuma, muito menos na Península Ibérica, sem um extensíssimo artigo sobre o Islão. E por fim, espero que sem ironia, remete-se o leitor para o artigo sobre as cruzadas. Faltaria acrescentar: e é se quer!
Dir-me-ão que é um caso isolado. Não, não é. Não só se repete, como é sintomático. A História de Portugal dirigida por João Medina, em 20 volumes de cerca de 500 páginas cada (cerca de 10 000 páginas) reserva 85 para a ocupação islâmica! 0, 85% ! Os estudos islâmicos são desprezados em Portugal. Contam-se pelos dedos de uma mão os académicos que se dedicam ao estudo da realidade cultural do Islão, e sobram dedos. Basicamente quatro: António Dias Farinha, Helena Catarino, Santiago Macias e Claudio Torres. Menção ainda para David Lopes, já falecido, e para o clássico de Borges Coelho, «Portugal na Espanha Árabe». Fora isto, um deserto!
No entanto, convinha que conhecêssemos a pujança cultural da antiga Silves, Mértola ou Lisboa. Nomes como o do poeta Abu-l Walid al-Baji são menos conhecidos do que o Geraldo Geraldes o Sem Pavor, ou qualquer arranca-cabeças da Reconquista. Abu Muhammad Abd Allah ibn Muhammad ibn al-Sid al - Batalyawsi (nome esquisito), autor de um «Livro dos Círculos», considerado uma obra prima e que Borges Coelho considera um dos maiores pensadores que nasceu no solo que hoje é português. A sua teologia e argumentação é, segundo os entendidos, semelhante à de S. Tomás de Aquino. Afonso Henriques nem sabia ler e só a custo assinava o próprio nome. Porém, a poesia islâmica não consta de nenhuma selecta de leitura, mas poetas como, dizem os especialistas que eu também sou ignorante, Ibn Ammar, Ibn Abdun, Al- Abdari, ou tantos outros, estão banidos da história e da memória. Porém, não fossem eles, e outros como eles, mais de metade do legado grego estaria perdido. Foram as escolas de tradução da Península Ibérica que traduziram do grego clássico os textos dos autores helénicos. Não fora isso, essa abertura cultural que o Islão teve, e o Ocidente teria perdido as suas referências matriciais.
Resta dizer que não sou um adepto do Islão. Orgulho-me da cultura europeia. Não tenho medo de proclamar a superiridade civilizacional do Ocidente que assenta no princípio da universalidade: da fé, da razão e do direito. Porém, deve dizer-se que esta superioridade não radica noutro sítio senão aqui: a nossa abertura cultural, a capacidade de entender o outro e integrar os contributos alheios. Todos os grandes vultos da cultura ocidental são grandes porque contribuiram para a concepção de uma ideia universalista: a Humanidade. Os piores momentos da nossa história foram os de fechamento cultural, de desprezo pelo outro, de fixação no presente, desprezando as heranças e os legados. Promover o desconhecimento do outro, menorizando a sua capacidade de reformulação, é uma forma de fechamento cultural.
E por favor, não insinuem que eu estou a minimizar os actos inqualificáveis dos fanáticos fundamentalistas. Não estou.

02/02/04

JESUS CRISTO TAMBÉM BEBIA O SEU COPITO, por Sardanápalo

A propósito de um post publicado no Blog Espectadores, a coisa parece realmente especulativa. Mas a análise que feita nesse blog também abusa do simplismo da coisa. O que o programa fez e fê-lo declaradamente, e se é que estamos a falar do mesmo programa, até porque acho que vi aquilo no Odisseia, foi pegar nas partes obscuras e não documentadas, nem referenciadas com clareza, da vida do JC, e assumindamente fazer várias conjecturas especulativas. Vale o que vale, mas que tem piada e interesse isso tem.
E a relação do JC com a Madalena nunca me enganou. E fica-se sempre na dúvida onde andou o manganão dos 14 aos 20 e tal anos. Assim como a história da ressuscitação levanta as maiores dúvidas, e isto dando de barato a fé-zada de que o gajo se levantou e fugiu do túnel branco. É que os vários apóstolos apresentam versões diferentes. Os primeiros relatos não falam de ressuscitação nenhuma, só dizem que chegaram lá depois e o corpo népias. O primeiro texto a falar de ressuscitação surge 200 anos depois da diat cuja. E a ressuscitação como hoje a conhecemos é mais uma elaboração medieval a partir dos relatos desencontrados, que outra coisa.
Mas enfim, eu falo do programa mais como efabulação do que outra coisa. O JC é um gajo catita, teve a sua piada e até bem aos pobres fez. Bebeu uns tintóis como nós e se cá andasse ainda estava nesta Confraria de santos a fazer o milagre da multiplicação dos leitões e das lampreias. Aí é que eu acreditava em tudo e até na pureza da Madalena.
E atenção que eu gosto da Biblia, é um dos meus livros de cabeceira e de casa de banho preferidos. Mijo-me a rir com aquilo. Atão com o velho testamento é um fartote. E as órgias que prá-li-vão? as escravas a rodos, as esposas submissas e a chicote, o sangue com fartura, cow-boys e far-westes, incestos e sodomias, taradeiras, vinhaças, mariscos e bebedeiras. Uns pandegos aqueles apóstolos, juro pelos doze, que salvo a melhor blasfêmea inclui o Judas, o gajo das anedotas. Já o Apocalipse do João é um delirio tremens completo. O eremita tava cuma pedrada terrível quando fez aquilo e pra mim que gosto das bestas todas à desfilada pelo vale das sombras da morte por onde caminham os abençoados que protegem os seus irmãos das iniquidades dos homens maus (esta última parte não é do apocalipse mas sim do Pulp Fiction, com base no Ezequiel, mas já li o Ezequiel todo à conta do cabrão do Tarantino e num tá lá isto), mas como ia a dizer, o bom do joão só foi bem interpretado na idade média, quando rotulavam o seu escrito de herético, loucura e ganza total e obviamente mandavam prá fogueira os gajos que se entretinham a ler aquilo.
Agora vê lá, não metas isto no Tapor, que ao ler isto há muita gente por aí a que começa logo a acender fósforos e eu gosto é de leitão assado, não é de porco queimado. Já a Lampreia pode ser de vinagreta, ó JC, se faz favor!
ass: o amigo das albizzias