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14/08/15

Banhistas, por Ikkil

Playa del Carmen, México, 3 da tarde. Multidão a banhos. Vêm-se cabeças e braços, não se sabe se pertencem a pessoas altas ou baixas, louras ou morenas, mulheres ou homens, pretos ou brancos. Contudo, no meio daquela babilónia, identifico, sem margem para dúvidas, dois indiscutíveis americanos de quem, praticamente, só vejo os braços. E como se reconhecem braços americanos? Fácil: pela forma como lançam a bola um ao outro, a técnica é de basebol. É notável como transportamos a cultura connosco, mesmo imersos a banhos numa praia no meio de uma multidão de cabeças anónimas. Basta um gesto e está lá, agarrada e indissociável,  a marca da identidade.

O japonês, esse só o identifico a postereori: é o tipo de olhos em bico que está há uma hora com água pela cintura a recolher o sargaço-praga-do-mar e a atirá-lo para os lados enquanto roga pragas furibundas de sol nascente. Maldito sargaço que lhe estraga o postal, a praia, as férias, vem um tipo de tão longe para isto...

24/03/09

Grandes Clássicos, por Rafael Ângelo

Claude Lorrain, (1600-1682), foi um dos mais conhecidos pintores franceses do período barroco. É considerado um dos maiores paisagistas do barroco francês e um dos pioneiros do género numa altura em que a pintura de paisagens dá os seus primeiros passos na história da arte ocidental.

Ora há uns tempos, a Sport TV lembrou-se dele e levou a cabo uma campanha baseada nas suas paisagens. A ideia era promover os jogos entre os chamados «grandes» clubes portugueses como autênticos «Clássicos». As paisagens de ambiente rupestre e clássico de Lourrain foram escolhidas para transmitirem ao público-alvo esse ambiente de classicismo. Para associar o futebol e os jogos grandes a este ambiente, os autores da campanha resolveram acrescentar uns jogadores à paisagem, como se vê no pic.Do ponto de vista estritamente publicitário o anúncio até resulta.

Mas do ponto de vista estritamente estético, a campanha é uma contradição nos termos. Lourrain pontuou as suas paisagens com figuras humanas. Mas minimizou-as claramente de modo a que o principal fosse a paisagem. Numa altura em que a pintura de paisagens era quase uma heresia, a introdução de figuras humanas alusivas de motivos bíblicos ou mitológicos foi um recurso usado por Lourrain para não chocar demasiado as consciências. Mas o que lhe interessava era a paisagem e, por isso, as personagens humanas aparecem numa escala ínfima de modo a não desviarem a atenção daquilo que verdadeiramente lhe importava.

Assim, de um ponto de vista estético, quando esta campanha da Sport TV vem acrescentar os jogadores de futebol à paisagem, parece que nos está a dizer que o importante é a paisagem. Na pintura de Lourrain, as figuras humanas só lá estão para disfarçar e, deste ponto de vista, é assim que passams a considerar as figuras dos futebolistas. É como se o anúncio nos dissesse:não liguem ao jogo, o que importa é a paisagem. O que também não deixa de ter a sua piada... Para a porcaria de jogos que vamos vendo na Sport TV...

10/03/09

12-1!, por Dúzia

Membro do Tapor procura urgentemente contactos telefónicos zebórdinguistas. Quem for lagarto e fanático de preferência pode mandar que eu agradeço.
Já depois da coça de 5-0 da primeira mão fiquei com imensa pena de não ter números de tlms de zebórdinguistas como devem ser. E agora o «zebórdem» chupa com mais 7 em cima(atingindo a bonita cifra de 1-12 nos dois jogos) e eu não posso mandar sms a ninguém a chatear? Tá mal... Esta noite fartei-me de rir e perdi uma ocasião histórica de mandar sms do tipo «Vamos ao empate!» e «calma malta, se marcarem 12 ainda passam a elimiatória» ou «deixem-me ver o Liverpool-Real Madrid que está a dar na Sport TV descansado, porra»...
Tá bem eu sei que mais ocasiões haverá. Ao fim e ao cabo, o zebórdem é o único clube que nunca me falha, só me dá alegrias... Mas para a minha alegria ser total tem de ser partilhada e para isso preciso dos vossos números de tlm. Mandem-me números zebordenguistas, carago!

10/07/06

A Última Copa, por João Bocejo

A Itália ganhou. Perderam a França, o Zizou e o futebol. A França ainda bem que perdeu, o Zizou merecia melhor despedida o futebol perderia mesmo que a França ganhasse. O futebol perderia se a Alemanha ganhasse. Ou Portugal. O mesmo se acaso o Brasil ou a Argentina lograssem o título. Ou qualquer um, à excepção de uma nação africana. Aí sim, aí o futebol voltaria a encantar-me. Confesso que ando desencantado com este desporto, muito particularmente com os campeonatos do mundo. Não falo das suspeitas de manipulação e corrupção. Falo do tacticismo. O jogo está monótono, medroso, maçador, aborrecido e sonolento. Em 120 minutos há dois ou três remates para cada equipa. O resto é ansiedade e nada mais. Não há resquício de espectáculo. Não fora a memória que guardo de grandes campeonatos passados, uns testemunhados, outros apenas vistos em diferido com décadas de permeio, e o jogo não me atrairia minimamente. Compreendo os americanos que, em face das euforias europeias e sul-americanas, bocejam de tédio e perplexidade. O bocejo americano é tão emocianante como a taça Jules Rimet. O preocupante é que isto não é de agora. Desde o Itália 90, ao USA 94 e o Coreia / Japão 2002, com a louvável excepção do França 98, os campeões são indignos, as competições são chatíssimas, não há chama de glória, não há heróis, não há nada de memorável. E porquê? Porque razão o campeonato se tornou um longo bocejo, à excepção do França 98? Eu tenho uma explicação.
O encanto do jogo não é inerente ao jogo, é um acrescento, um suplemento encantatório. Quando inventado, era atlético e tacticista. Os sul-americanos, e muito particularmente os brasileiros, sobrepuseram a fantasia à táctica. A raiz africana e o factor-favela, entre outros aspectos determinantes, fizeram do jogo o espectáculo mais popular do planeta. Foram os anos dourados do Brasil e do Uruguai. O campeonato do Mundo conheceu os seus anos de glória. A par destes sucessos, e por causa da popularidade do jogo, o campeonato tornou-se alvo da cobiça política dos nacionalismos exacerbados. Não apenas dos ditadores, que nunca desprezaram a ocasião para alardearem a idiotice do nacionalismo imperialista. Francisco Franco teve, em 1964 e em casa, a oportunidade de, através de uma roubalheira histórica, humilhar os soviéticos na final. Não foi um Mundial, foi um Europeu, mas se o Caudillo estivesse à espera de um Mundial, ainda hoje era vivo e estava sentado.... à espera. Com outro alcance, já o inspirador Mussolini, mais do que a Itália, vencera em 1934 e 38. De igual modo, a Argentina dos Coronéis roubou indecentemente o Mundo em 1978. Se a roubalheira agrada aos ditadores, os democratas também não desprezaram o Campeonato do Mundo para exibirem as suas virtudes nacionais. Foi o caso da Alemanha reconstruída do pós-guerra que se reabilitou em 54, com uma roubalheira épica, às custas da Hungria. A RFA voltaria a ganhar em 1974, com justiça é certo, sendo que o derrotado, mais do que a Holanda, foi a RDA, incapaz de ombrear com o gémeo capitalista. A Inglaterra de 1966, contra a Alemanha, exibiu o seu chauvinismo com uma soberba autárcica e imperial. Poucos anos após aderiam à CEE. Hoje, permanecem eurocépticos e nunca mais ganharam nada.
A maior demonstração, e mais genial, de manipulação do jogo pelo nacionalismo foi o México 86. Mas, e isto é muito importante, a vingança nacional da Argentina face à Inglaterra, depois da derrota das Malvinas, foi feita com a mais justa batota da história do futebol, a célebre mão de Deus de Maradona. Só que, e a diferença é abissal, o aproveitamento não foi atlético , nem esmagador, nem descarado. Foi sim, mais uma vez, encantatório e apaixonante. A guerra quixotesca que a Inglaterra fez nas Malvinas, vingada por Maradona, foi um anacronismo idiota, pois mostrou o esgotamento do paradigma imperial e do conceito de soberania que vingou no mundo ocidental nos últimos 200 anos. De então em diante, a globalização, a miscigenação, as migrações, o reoordenamento das fronteiras e o realinhamento dos grandes blocos estratégicos, com a reunificação alemã, a implosão soviética, a balcanização de muitas regiões do globo, a criação de um espaço europeu, a clivagem civilizacional com o Islão, entre outros factores, vêm mostrar como o paradigma moderno do Estado-Nação está em desagregação. Ora, os jogos do Campeonato do Mundo assentavam sobre o embate de equipas nacionais. A sua emoção e o sucesso que alcançaram resultavam dessa condicionante. Esgotado o conceito, o jogo tacticizou-se. Foi a era dos Itálias 90, USA 94 e Coreia /Japão 2002. Com a honrosa excepção do França 98. Justamente a equipa mais multinacional e multicultural de que há memória na história da copa. Foi a equipa adequada ao seu tempo: não era uma equipa nacional. Daí a excepção. Outras selecções aceitaram esta imposição moderna e desataram a naturalizar jogadores. Deco, Marcos Senna ou Camoranesi são apenas alguns exemplos, entre muitos outros.
O campeonato que hoje terminou, mais do que a derrota da França, a cabeçada e correspondente expulsão de Zizou, ou a vitória da Itália, mostra como o jogo, já não impulsionado por pulsões nacionalistas, não é mais do que um maçador exercício calculista e tacticista. A asfixia de Ronaldinho e a gordura de Ronaldo foram os factos mais relevantes, por sintomáticos. Por mim, é o fim anunciado. O Campeonato do Mundo não tem futuro.

05/07/06

POR-TU-gaaaaal...., por Cidadão do Mundo

Hoje é dia de meia-final. Pela segunda vez na história dos campeonatos do mundo de futebol, Portugal joga a possibilidade de aceder à final.
Imaginemos que o resultado dependeria, não do apoio prestado através das bandeiras penduradas à janela, mas.... do número de mamadas que cada cidadão nacional fizesse num cidadão do país adversário! Isto é, a vitória da selecção nacional resultaria do número de mamadas que os "tugas" fizessem em cidadãos franceses! Não esqueçamos que a França tem cerca de 60 milhões de habitantes! O desequilíbrio é enorme! Seria uma espécie de Aljubarrota porno-futebolística. Mas nós somos os maiores! É ou não é verdade? Até onde vai, caro leitor do Porco, o teu apoio à selecção? Serias capaz de participar neste grande empreendimento nacional? Ou és um traidor, um vende-pátrias?

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18/05/06

Jornalismo, isto? por Valhamedeus

O nacional-parolismo não cessa de surpreender. Agora, atingiu novos cumes esquizofrénicos: o Barça, ontem, sagrou-se pela 2ª vez na história campeão europeu. Um grande jogo, com grandes exibições e muita emoção. os jornais portugueses: A BOLA: 1ª página a toda a largura com a eventual vinda de Eriksson para o SLB. RECORD: 1ª página com o balneário (sic!) a dizer que quer o Rui Costa no SLB aos 34 anos!! O JOGO especula com o novo treinador do SLB. Num cantinho, metem uma chamada discreta: Deco (sic. Meu Deus, não é o Barça, não é Ronaldinho, é o discretíssimo Deco) campeão pela 2ª vez! Não há vergonha nos jornais? Não há limites? Qualquer burro pode fazer 1ªs páginas?

08/05/05

Vigor da Mocidade, 75 anos de... vida! , por Mangas

O fiel leitor do Porco que nos perdoe, mas todos nós somos animais de paixões e por elas nos debatemos, sobre elas teorizamos, com elas andamos ao sol, porque a sombra é boa para os pálidos de pele que lhes pica o suor, como cantava o Júlio Iglesias. Quer isto dizer que por aqui, ama-se um filme, como se ama um filho; relê-se um livro, vezes sem conta, porque o Porco é um animal de imaginário e nele viaja ao sabor dos vagalhões. O vinho que demoradamente se saboreia, a caldeirada que se mastiga e o charuto que se esvai na cinza da madrugada, são rituais de ardente religiosidade e inigualável apetite. O deporto em geral, e o futebol em particular, são práticas generalizadas por estas bandas e também fazem parte da lista desse debate ideológico. Como tal, o fiel leitor que nos perdoe a ousadia de encher o chouriço do Tapor com coisas da bola.

Mas, para terminar este ciclo de sapientes dissertações à volta do fenómeno futebolístico e desanuviar o ambiente, contar-vos-ei uma história que se passou comigo. Descansem: não vos trago a análise detalhada do jogo sustentado, tão pouco a observação in loco da pré-época do poderoso Chelsea ou do gigante A.C. Milan. O que compartilho com vocês é a face copo&bucha do amadorismo na Divisão Distrital. A grande diferença está no poder do negócio, no dinheiro envolvido, nas infra-estruturas, e enfim, em tudo o resto do qual a poderosa máquina do profissionalismo suporta e sustenta. Asseguro-vos porém que durante um jogo dos Distritais, o apoio dos sócios, vizinhos ou simpatizantes, namoradas, esposas, filhos e enteados, patrões ou colegas da fábrica, vale o mesmo que os cânticos de uma claque organizada nas bancadas do Cam Nou! E um derby entre equipas de terras vizinhas ou da mesma freguesia, não tenham dúvidas, é a doer! No seio de qualquer equipa, é limpinho que as faltas ou atrasos aos treinos são penalizadas com multas para um saco comum que revertem numa jantarada no final de época; quando os desafios são decisivos e podem ditar uma subida ao escalão superior, fazem-se pequenos estágios antes dos jogos, quase sempre em tasco patrocinador a designar pelo presidente ou na sede do clube onde o rancho, os matrecos e uma suecada antes da palestra do Mister, ajudam a relaxar os mais calmeirões antes da refrega e a fortalecer o espírito de grupo. É assim que pelas Distritais deste país se vive a paixão pelo futebol. Devo dizer-vos também, e por uma questão de justiça, que não são raros os casos em que clubes são veículos genuínos na prestação de bons serviços à comunidade, quer pela organização de iniciativas desportivas e recreativas, quer pelas Secções criados no seu seio de apoio a modalidades e ocupação de tempos livres para rapaziada mais nova.

Esta aconteceu-me a mim, que durante alguns anos dividi os ossos do ofício entre os crónicos do hospital e os cromos do Grupo Recreativo Vigor da Mocidade, esse Clube baluarte de Fala, que este ano comemora o 75º aniversário e ao qual se presta, com esta narrativa verídica, uma homenagem saudosista desses bons velhos tempos. O Vigor jogava nessa época 98-99 na 1ª Divisão dos distritais de Coimbra e o treinador, apologista dos jogos-treino a meio da semana com outras equipas, marcou a quinta-feira para irmos ao campo do Mirandense. Era Fevereiro e chegámos a Miranda debaixo de temporal! Chuva intensa, frio, fortíssimas rajadas de vento, trovoada. O único abrigo resguardado de toda aquela tempestade medonha era dentro do balneário. Um bom balneário, devo acrescentar, ao contrário dos muitos que apanhei, como em Gavinhos, onde havia apenas três chuveiros alimentados por uma caldeira ferrugenta lá fora, na parede esburacada junto ao solo barrento que escoava as mijadelas lá de dentro. O do Mirandense, não. Era grande, asseado, azulejos brancos, duches com saboneteira, tudo impecável. O jogo-treino em si foi uma desgraça! Campo completamente alagado a dificultar a progressão da bola, vento traiçoeiro, lama, aos suplentes nem havia coragem para lhes pedir que fossem aquecendo - ficavam-se nas imediações do balneário, enroscados nos impermeáveis como pintos, debaixo dos telheiros contíguos. Foi um alívio geral quando aquilo acabou e um duche quente era um prémio mais do que merecido a todos aqueles bravos que tinham para ali andado a saltar obstáculos 90 minutos como andorinhas na borrasca.

É aqui que a drama se precipita. Já com os jogadores todos debaixo do banho temperado, num ambiente característico de descompressão e espuma, entre a discussão calorosa daquele livre que podias ter dado para o lado e uma densa neblina de vapor condensado que tornava a coisa próxima de uma sauna colectiva, ouve-se um estrondoso relâmpago e falta a luz. Fica tudo às escuras. A primeira reacção foi uma assobiadela monumental, protestos, caralhadas, e quem é o filho da puta que me tirou a toalha! Passou-se um minuto, dois, o coro de protestos aumenta, a confusão é tão geral como o apagão, alguns jogadores apanhados a meio da secagem não conseguem localizar as roupas e berram com frio, o desconforto é cada vez maior. E é aqui que eu entro. Iluminado por uma ideia simples e armado em McGyver com moleirinha de Prof. Pardal, lembro-me que o no meu saco está a luz que iluminará as trevas. É que os vulgares sprays milagrosos têm na sua composição cloreto de etílico que em contacto com a atmosfera cria uma reacção de baixa temperatura que actua instantaneamente sobre a dor. Daí o lendário epíteto de spays milagrosos. Porém, esta composição é altamente inflamável e enquanto estudante, raros foram os estágios fora de casa em que um frasco não desse para assar, pelo menos, meia dúzia de chouriças. Os frascos que trazia naquela noite, ainda por cima, eram munidos de um dispositivo protector da natureza, sem SFC adicionado, logo sem pulverização, logo, mistura pura e líquida, logo, mais chama, mais luz. Brilhante! Desnecessário será descrever-vos os breves segundos que se seguiram à primeira esguichadela de cloreto de etílico no chão do balneário e ao resultado do fósforo que lhe deu vida: uma chama bonita, azulada e bem definida que resgatou das trevas e do frio aqueles rapazes. Pobres almas... Soubessem eles o que os esperava a seguir e não teriam aplaudido, cantado e sacudido os corpos nus à volta da fogueira, como demónios ressuscitadas.

Aquilo encheu-me a alma, caralho! Era o meu golo de penálti! Os cânticos saudavam o meu nome com o mesmo frenesim que o Profeta teria sido aclamado, alguns até dançavam como índios em homenagem ao grande Manitou. No espaço de um minuto, fiz outra fogueira, e outra, e outra, multipliquei a luz, era o Senhor das Fogueiras, o Feiticeiro das Labaredas que excomunga o medo da noite. Nem no Paleolítico os gajos celebraram tanto, acreditem-me! Mas a química não joga aos dados e os Deuses iraram-se com a minha cagança de alquimista distrital: o vapor circundante dos banhos impediu a propagação no ar do gás tóxico resultante das várias combustões e este condensou-se na atmosfera. Factor “X”: the unexpected. Nunca tinha visto, nem cheirado coisa semelhante àquela malina fétida e mortal, garanto-vos! Awschvitz devia ter começado assim. Rapidamente, uma onda gasosa impossível de respirar entranhou-se-nos nas gargantas, como cactos pela goela abaixo. Era como aspirar um veneno ácido que bloqueava os pulmões. Imaginai-vos a inalar uma espécie de água tónica sulfurada no estado gasoso, numa tarde quente de verão, dentro de uma sauna escura: assim era o tormento! Alguém tosse, ouço gritos de pânico e pressinto os primeiros sinais de perigo! Começo a apagar os pequenos infernos, (o que não foi fácil, como calculam!) e a encaminhar os rapazes para a porta. Por nesta altura, vários tossem em simultâneo e distingo claramente os berros de vários jogadores misturados pelos quatro cantos do balneário à procura da porta de saída. A visibilidade era quase nula, as tosses sufocadas multiplicam-se, e apercebo-me então que alguns conseguiram escapar e andam lá fora como Nosso Senhor os trouxe ao mundo, à procura de oxigénio como do pão para a boca, debaixo da chuva gelada batida a vento. Rapidamente e aos encontrões, seguiram-se-lhes os restantes com a ajuda de alguns directores que vieram em auxílio. Eu continuei lá dentro, já sem os anéis de pirotécnico iluminado e com uma toalha húmida no rosto para continuar a respirar, tentando desesperadamente certificar-me que não tinha ficado para trás nenhum defesa central latagão com perda de consciência. A cada passo, prometia ao Todo Poderoso um donativo generoso as bombeiros se, no final da tragédia, só sobrassem risos. Tentava gritar: “Está aí alguém?”, mas cada vez que abria a boca, a mistura pestilenta invadia-me os pulmões e bloqueava a respiração. Era escusado. Quando saí, os olhos ardiam-me e os brônquios ameaçavam saltar-me pela boca a cada inspiração. Tão célere foi o salvamento, como fugaz tinha sido o triunfo.

E só sobraram os risos. Felizmente. A luz veio logo a seguir e acabámos a noite a comer umas sandochas, a beber uns tintos para desentupir as goelas e a rirmo-nos do incidente. Não houve vítimas nem constipações, pois que no Vigor as gentes e os atletas são como o aço! Gente boa e generosa que ao longo dos anos sempre me privilegiou com amizade e afecto.

Mas ainda hoje, quando algum dos sobreviventes da noite mais tenebrosa dessa época gloriosa em que subimos à Honra, me procura para lhe tratar o joelho, enfrenta-me com um sorriso malandro a bailar-lhe nos olhos e atira-me, à procura da cumplicidade daqueles breves segundos que pareceram uma eternidade:
“- E naquela noite em que você nos ia assando a todos como a leitões nos fornos? Lembra-se...? AHAHAHAHA!”

Eu vou atrás da gargalhada, mas humildemente e num gesto discreto, levo a mão ao peito para tocar o crucifixo e lembro-me de dar outro donativo aos Bombeiros.

15/05/04

Fulham 0 -1 Arsenal (9 Maio 2004), por Repórter Alves

10 minutos para o embate. Os últimos adeptos arrumam-se ordeiramente em assentos modestos, mas devidamente numerados. Enquanto isso a maioria entretem-se há algum tempo a entoar cânticos festivos ou a brincar com grandes bolas insufladas que acabam invariavelmente dentro do relvado: entre este e a arquibancada apenas existe um muro de cerca de 80 cm de altura a separá-los. Os stewards, sempre prestativos, vão devolvendo pacientemente as bolas para a multidão, reforçando a boa disposição geral. É o último jogo da época em casa, mas não é por isso que o estádio está a abarrotar. Foi assim toda a época, apesar do clube jogar em casa emprestada, enquanto aguarda pela conclusão das obras dum novo e novo e moderníssimo complexo. A expectativa essa sim é particularmente elevada: recebe-se o Arsenal, virtual campeão ainda invicto depois de 37 jogos, e está em jogo nada mais nada menos que um lugar nas competições europeias da próxima temporada. Ambas equipas, e a de arbitragem, entram lado a lado num campo transformado num autêntico caldeirão musical. A ovação é unânime e estrondosa. Todos os jogadores acenam, indiferenciadamente, para uma e outra claque, num gesto ostensivo de reconhecimento pelo caloroso acolhimento. O árbitro dialoga animadamente com os capitães. Mais parece um reencontro de velhos amigos. Escolhe-se campo e bola e logo de seguida começa a partida. São neste momento exactamente 16 horas e 5 minutos. Olho para o meu bilhete à procura do time of the match, lá está, em bold: 4,05h pm. Os primeiros lances podem definir-se como uma disputa frenética pela posse de bola. Anfitriões e forasteiros apresentam esquemas tácticos similares, 4-1-4-1, com defesa em linha, um trinco, dois médios centrais pressionantes e alas muito colados às linhas. O modelo de jogo acusa porém diferentes abordagens o jogo; enquanto na equipa da casa os jogadores têm posições mais rígidas e o futebol é mais rectílineo e previsível - insistindo em passes por alto para um desamparado ponta de lança - os supercampeões, por seu turno, parecem confiar mais na técnica individual, com gestos simples, recepção-passe, toque de primeira, triangulações fáceis em situações de dois para um, e apostar na movimentação atacante - um sistema elástico que começa com nove jogadores atrás da linha da bola e se desenvolve através duma imediata reposição ofensiva, circulação de bola a toda a largura do terreno e desdobramento dos alas e laterais ao longo das faixas. Mais ou menos 15 minutos de jogo. O guardião da equipa da casa, internacional de grande prestígio e que estará no EURO 2004 a defender as redes de uma das selecções favoritas, recebe junto à marca do penalti, um atraso, seguro, dum colega da defensiva. O avançado da equipe adversária aproxima-se, cumprindo a obrigação de estorvar. Teria sido mais fácil, definitivamente mais fácil, um chute para a galera. Mas não, o keeper da casa tentou um bonito, ousando a simulação. O avançado, talvez adivinhando-lhe os pensamentos, foi mais lesto e interceptou o drible. Estava consumado o desastre. Feito o corte, limpo, ao feliz atacante bastou empurrar a bola para dentro de uma baliza deserta. Surreal. Ao desastrado keeper, coube depois ir buscar a bola ao fundo das malhas, não suficientemente fundo para esconder a suprema humilhação que deveria estar a sofrer. Um golo patético, um falha ridícula, como lhe chamaria, no day after, um afamado cronista local. Um golo que acabaria por ser o único do jogo ditando assim a enésima vitória da equipe invencível e a derrota da equipa da casa, que viu desmoronar-se, num deslize imperdoável, o sonho europeu de um temporada.
Minuto 40 da primeira parte, já com o Arsenal na frente do marcador Lundberg leva um toque e cai junto ao muro onde está encostada a claque do Fulham; não não foi cuspido, não, não levou nenhum soco ou pontapé e ao que pude observar à distância também não apanhou com nenhum rádio ou telemóvel ou cabeça de leitão na cabeça. Um corpulento adepto da equipe da casa estendeu-lhe o vigoroso braço e ajudou-o a erguer-se para marcar a falta e prosseguir o jogo. O árbitro apita para o final do jogo. A claque local está de consciência tranquila. Tal como os jogadores no campo, haviam dado o seu melhor, pois nem o golo surreal havia impedido que tivessem apoiado os seus ídolos um só instante os 90 minutos. Os jogadores trocam camisolas e cumprimentam-se, entre todos, longamente. A partir daqui torna-se quase impossível distinguir quem são companheiros de equipa e quem são oponentes. Alguns começam a dirigir-se para as bancadas, onde todos os adeptos, de pé, prolongam cerimoniosamente o último aplauso. Já não se ouvem cânticos, nem ovações, apenas palmas. Em uníssono. De forma menos ordenada, os jogadores aproximam-se então ainda mais do público para retribuir com aplausos os aplausos recebidos. O guarda-redes da triste figura é dos mais aplaudidos: havia feito um grande época na qual salvara a equipa em diversas ocasiões, e por isso já estava perdoado antes de ter pecado. Multiplicam-se os sorrisos, cúmmplices, entre jogadores e público. Só o muro, que na verdade tanto faz lá estar como não (uma linha no chão teria o mesmo efeito prático), separa assistência e futebolistas, pois no mais já estão equiparados: ambos foram igualmente protagonistas de mais uma tarde inesquecível. Instala-se, em poucos segundos, uma indesmentível nostalgia, própria de final de época, e que só desaparecerá lá para o final do Verão, quando por fim regressar a Premier League.
Foi assim que vi, ao vivo, Fulham X Arsenal, em Loftus Road, no Qeens Park Stadium, propriedade do Queens Park Rangers, localizado no coração dum bairro residencial londrino. Não esquecerei nunca. Porque foi lindo. Só por isso. E também porque descobri que enquanto houver pessoas que amem verdadeiramente o futebol o futebol é possível. Não referi, porque não ouvi, porque não houve, um assobiadela. Apupos, apenas um ou dois, dirigidos ao árbitro, que foi respeitado por todos os jogadores como se de um colega mais velho de equipa se tratasse. Sem alternativa possível vi o jogo junto aos adeptos do Arsenal, concentrados atrás de uma das balizas. Havia velhos, crianças, ladies, old ladies, gente pintada,fantasiada, travestida e até um orangotango. Tanto a entrada - feita cautelosamente num ponto oposto do estádio - como a saída - feita em conjunto - decorreu sem nenhum tipo de problema. E nem sequer fomos insultados, apesar da euforia dos Gunners, depois de estar mais perto de igualar um recorde histórico de terminar o campeonato sem derrotas. Só aconteceu antes um única vez, em 1889...
Como dizia o saudoso Vítor Santos, assistir ao futebol em Inglaterra é como beber vinho na adega e directamente do pipo.

20/02/04

Descobri finalmente por que é que a AAC passa a vida a ser enrabada e a descer de divisão: é um código!

Li no «Público» de hoje, 19 de Fevereiro de 2004: «A direcção de uma escola norueguesa está a pedir aos seus alunos entre os seis e os 12 anos que deixem de usar as pulseiras de cor que estão a fazer furor entre os jovens e que, sendo aparentemente inofensivas, são utilizadas para fazer passar "mensagens sexuais escondidas". A directora do estabelecimento de ensino de Sotra enviou uma carta aos pais dos alunos, pedindo-lhes que impedissem os filhos de ir para a escola com estas pulseiras coloridas de plástico que, na verdade, funcionam como um "código sexual". As regras do jogo são estas: quando um miúdo tira a pulseira a outro, este último fica obrigado a praticar um determinado acto físico, determinado pela cor do "beijo" estampado. Pulseira rosa significa um abraço, azul é sexo oral e negro implica a obrigação de ter relações sexuais. O último incidente ocorreu quando um miúdo de nove anos foi apanhado a dar um grande beijo a uma colega. De acordo com a directora da escola, "70 a 80 por cento dos 300 alunos usam esta pulseira e a grande maioria está ciente do que ela significa". A loja mais próxima deste estabelecimento de ensino já quase não tem pulseiras pretas, anunciou a rádio pública.» BRIOOOOOOOOOOOOOOOOOSA!
Agora já entendo: é do equipamento. Se uma pulseira dá o que dá, imaginem uma equipa toda vestida de preto. Se querem ficar na 1ª, o melhor é mudarem de cor! Desculpem ter voltado a este tema da sodomia, sexo, enrabadela e tal, mas tinha que ser!

26/01/04

Feher: a morte em directo

Ponto de ordem: a morte do futebolista húngaro é obviamente uma tragédia e um choque profundo a que ninguém fica indiferente. Como foi a morte de Vivien Foe ou de Pavão em 1973… De resto, faz hoje, precisamente um mês, que um terrível terramoto matou 40 000 pessoas na cidade iraniana de Bam. Nenhum destes eventos me/nos abalou tanto como a trágico fim do futebolista do Benfica…

Então o que faz parecer a tragédia de Feher ainda mais colossal que qualquer outra (se é que podemos medir o tamanho da tragédia pelo número de vítimas)? Porque é que eu hoje não dormi? Porque é que acordei com o nome de Feher a matraquear-me os sonhos e uma lágrima no canto do olho a querer explodir?

A tragédia de Feher tornou-se, de certo modo, a minha, na medida em que a vi a directo. A morte dele, entrou-me pela casa dentro, em tempo real, perturbou-me a calma segurança do sofá. Eu e todos aqueles que assistíamos ao Guimarães/Benfica fomos testemunhas de uma morte real. Não era ficção! Por isso a tragédia do jogador húngaro tornou-se a minha e dos meus filhos que comigo viam o jogo. Eu – e eles! – nunca mais vamos esquecer aquelas imagens.

São os riscos da «sociedade em directo» em que vivemos. Pavão é para mim um nome abstracto na medida em que dele só soube a sua morte em diferido em notícias e artigos de jornal. A sua tragédia foi uma tragédia privada, mais privada pelo menos, apenas para as 20 000 pessoas que nesse dia foram às Antas. Bam são imagens de um sítio longínquo. Em todos esses casos houve mediação – no tempo e no modo - entre mim e os factos. Agora faltou essa mediação; o que houve foi mediatização. E eu e todos os que assistíamos ao jogo fomos apanhados de surpresa, atingidos por uma enorme bomba nuclear em cheio na cabeça e na alma desprotegidas.

A imagem de Feher é ainda impressionante, para mim, porque representa a fragilidade incrível da nossa vida. Feher era um guerreiro, um herói de uma espécie determinada nos campos de futebol, um Gladiador – não era um jogador técnico nem um malabarista; era a imagem da força, da potência, da raça e da juventude. Feher era um Guerreiro. Camacho lança-o naquele jogo – depois de não sair do banco nas três ou quatro jornadas anteriores – por saber isso: que num jogo que decorre num lamaçal, sob as bátegas de um temporal, só um gladiador poderoso poderia levar a tarefa a bom termo. Feher está na jogada do golo do Benfica – cumpriu a sua missão e gozava o estatuto merecido do Herói. Nota-se a sua felicidade em campo…
No cartão amarelo que antecede a sua morte, Feher, sorri para o árbitro. E num segundo, o herói, o Gladiador Indestrutível – ainda por cima aureolado com a camisola mística do Benfica – cai por terra. Num ápice. Passa de um sorriso eterno de Vencedor à condição finita e mortal. Somos assim tão frágeis? Até os heróis acabam num repente? Podemos morrer desta maneira, num segundo, numa ridícula fracção de segundo, sem motivo, no auge da glória?

Ao contrário das primeiras páginas de choque da maioria dos nossos jornais- mesmo da imprensa «séria» - e das imagens techno das nossas televisões que nos matraqueiam com o horror da repetição e do pormenor insuportáveis, o jornal A Bola, fez uma das poucas primeiras páginas ainda possíveis de fazer para nos devolver a ilusória imagem da imortalidade e indestrutibilidade do Guerreiro: a foto do último sorriso de Miklos Feher. Hoje, como sempre, eu comprei A Bola. E, por breves instantes, o sorriso de Feher, no segundo anterior à sua morte deu-me um pouco – muito pouco! – de alento. Para ele não deve ter sido assim tão terrível!

Le Vice