Blog da RS.T - Real Esseponto do Tinto - Coimbra - Os Três Pastorinhos também bebiam o seu copito
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28/07/16
Problemas de Tradução, por Fritz
Leu tanto Heiddeger em Português que acordou um dia a falar Alemão.
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30/04/12
O Chico Esperto Vai a Fátima a Pé, por Asceta
A Busca de Identidade (2009) do filósofo português José Gil é um dos melhores diagnósticos do Portugal socretino que conheço. Neste livro Gil leva a cabo a caracterização do chico-espertismo um dos traços marcantes da nossa personalidade base. O «chico esperto» não é um crimininoso - é uma qualidade larvar que tem a sua genealogia nos bancos da escola primária na figura quiducha do «malandreco». O malandreco é o chico esperto na escola primária, um já-sacana tolerado e até apreciado e incentivado pelos adultos que lhe acham um piadão. «Malandreco» tem um até um sentido de elogio, tanto quanto de censura, porque é um híbrido entre a esperteza desenrascada e o quase crime. Não é bem um malandreo nem, tão pouco, um criminoso. É um malandreco e este «dreco» faz toda a diferença. Quando adulto o «malandreco» torna-se no «chico-esperto».
Diz José Gil que o chico-esperto não é um ladrão nem um assassino nem um criminoso, mas antes aquele patifezeco que vive e se safa nas franjas da lei - é o tipo que dá o golpe na fila de trânsito para ganhar dois lugares, o fura vidas que lá vai passando sem estudar é toda a mentalidade que cria e apadrinha as Novas Oportunidades, a solução socretina para resolver o problema do atraso educativo português e o nosso consequente mau posicionamento nas estatísticas da OCDE.
O chico esperto está em todo o lado mas ontem estávamos, a malta do costume, a beber o tradicional café, quando passa na estrada nacional um exemplar religioso do chico esperto. Talvez mesmo o próprio Chico em carne e osso. Era um peregrino que cumpria a penitência da caminhada até Fátima. Este levava uma cruz às costas,só que a cruz, imagine-se era minúscula e feita de uma madeira que mais parecia cartão. Assim até eu... O nosso L... berrou-lhe do café para surpresa dos presente:
- É batota, isso é uma cruzita de merda!
E imaginámo-lo, ao peregrino, no dia do Juízo a ajustar contas com o S. Pedro:
- Sim, eu disse que ia a Fátima a pé com uma cruz às costas e e fui curado da enfermidade. Mas nunca disse nem escrevi nem o tamanho nem o peso da cruz.
E o S. Pedro vai embatucar. Com o chico esperto português nem os santos levam a melhor.
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30/03/12
Martin Who? por Moscardo
Hoje cruzei-me com um velho amigo que passeava com a filha, estudante do 12º ano, futura médica a julgar pelas notas... A filosofia tirou 20, disse-me, orgulhosa, e com uma professora das velhas. E sabes quem escreveu O Ser e o Tempo (Sein und Zeit), provoquei? Que não, que não sabia... Martin Heidegger. Nunca ouvi falar.Obviamente que a culpa de nunca ter ouvido falar em Heidegger, não é da M... que só pode ser uma excelente aluna. Mas que dizer do curriculo de uma disciplina que, em dois anos, não cita, uma vez sequer, o nome de Martin Heidegger? Quando uma aluna que tira um 20 a filosofia nunca ouviu falar daquele que é, muito provavelmente, o pensador mais importante da história da filosofia do século XX, está tudo dito. A culpa não é da M...., insisto, claro que não. Mas de quem será então? Em que que é que se travestiu o programa de filosofia do ensino secundário?
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19/03/12
O Valor Semiótico do Peido em Peter Sloterdijk, por Kino
Mãos amigas fizeram-me chegar hoje às mãos uma obra mundialmente aclamada na área da Filosofia: falo de Crítica da Razão Cínica do filósofo alemão Peter Sloterdijk. Esclareço já que não li o livro (mas fica na minha lista) e que dele apenas conheço o que desfolhei hoje e o que conversei com o leitor que mo apresentou.Um dos capítulos do livro trata da crítica da fisiologia. Se, como afirmou Paul Watzlawick, «não se pode não comunicar» é muito bem visto que todas as nossas expressões corporais têm um valor comunicativo e que, como tal, são, por direito próprio objectos de interesse semiótico. Daí que, com toda a pertinência, Sloterdijk se refira às várias formas de expressão/comunicação corporal: a face, os seios, o cu, a merda e o lixo e, last but not the least, por mais que ofenda o bom gosto e a razão bem pensante, o peido. Pois é verdade: o grande filósofo dedica uma partezinha da sua crítica fisiológica à flatulência e ao seu profundo alcance semiótico. Sloterdijk reflecte assim sobre a forma como a linguagem da ventosidade anal tem uma potência discursiva que merece análise. Um peido pode significar sarcasmo, desrespeito, humor, desprezo, arrogância... O tema não é tão irrelevante como parece e Sloterdijk lembra mesmo o caso do legionário romano que, em plena sinagoga, se terá peidado. O facto foi interpretado pela comunidade juadaica como sintoma da arrogância romana e levou a uma rebelião da qual resultaram centenas de mortos.
Longe vão os tempos da filosofia platónica preocupada com o reino puro das essências eternas e com a concepção do homem reduzido ao Nous. No seu lento devir a filosofia foi-se corporalizando, gradualmente. Foi descendo da cabeça aos pés. Com Merleau-Ponty, com a fenomenologia, com Sartre, com Foucault, a filosofia fez-se carne e olhou de perto as incidências do corpo. O olhar de Sloterdijk vai mais além, está um passo mais, ia a dizer, à frente, mas em rigor ela está um passo mais «atrás». Agora os filósofos falam do peido, do cu e da merda. O que virá a seguir? Conhecerá algum limite o olhar analítico (cínico) do filósofo? É bom que não coneça, acho eu...
Pic - Max Ernst - A Virgem Castigando o Menino...
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18/09/11
O Paraíso é um Gigantesco Clube do Bolinha, por Cipriano
O filósofo italiano Giorgio Agamben é um dos mais interessantes pensadores da actualidade. Em Nudez (2010, Relógio d`Água) ele recupera algumas das velhas e ociosas questões do pensamento teológico medieval que vale a pena partilhar. Assim, no ensaio O Corpo Glorioso, Agamben reflecte sobre a natureza e os caracteres do corpo dos ressurrectos no Paraíso.«Corpo glorioso» é, precisamente, a expressão que é dada ao corpo ressurrecto por oposição ao corpo terreno maculado.Agamben recupera algumas questões embaraçosas para a teologia medieval, como por exemplo, em que idade deverão ressuscitar os corpos dos ressurrectos? A criança ressucitará no seu corpo imberbe de criança, o idoso no seu corpo decrépito de idoso, o homem maduro no seu apogeu? S. Tomás de Aquino respondeu que o o homem deve ressuscitar sem defeito algum e, portanto, a natureza reportará cada um à sua perfeição que coincide com sua juventude. Isto é, segundo Tomás, mais ou menos aos trinta anos, a idade de Cristo. Claro que existem aqui algumas dificuldades, nomeadamente:
1. E a criança que morreu antes de atingir a sua perfeição?
2. E o velho que já a deixou para trás?
3. Serão mesmo os trinta anos a idade do apogeu do corpo? Na idade média a esperança de vida ia mais ou menos até aos 40-50 anos. Um indivíduo de trinta seria ainda considerado um jovem? O futebol, por exemplo, joga-se muito melhor aos 20 que aos trinta, idade considerada já de pré-reforma para a maior parte dos desportistas. O Eusébio aos trinta estava a jogar no Beira Mar e já metia um bocado, vá lá, de dó vê-lo fintado por um qualquer lateral esquerdo do Leixões, com menos 10 anos em cima. O Eusébio fará falta no Paraíso aos seus vinte e não aos trinta anos e há aqui uma diferença substancial...
Seja como for, se dermos razão a S. Tomás e apontarmos os trinta anos como a idade da perfeição, seremos levados a concluir que o paraíso é um mundo de gente de trinta anos. Mas uma dificuldade acresce. Tal como é lembrado por Agamben o corpo ressurrecto não pode conter imperfeições e terá que ser por natureza perfeito. Logo, não haverá lugar no paraíso para as mulheres dada a evidente imperfeição teológica (reconhecida quer no cristianismo quer no islamismo, por exemplo) da condição feminina.
O argumento, defendido por alguns opositores de S. Tomás, de que as mulheres não podem ressuscitar dá que pensar: eu não gostaria muito de nascer como uma das setenta mulheres virgens que estão no paraíso à espera de um barbudo malcheiroso do Cairo ou de Meca. Aquilo pode ser um paraíso para o Moahmed Atta mas nunca ninguém pensou no ponto de vista das desgraçadas 70 virgens que estão lá à disposição das suas taras? É esta a recompensa de uma vida terrena passada a esconder a cara? O paraíso do fundamentalista deve ser o inferno das suas 70 mulheres.
Donde, para evitar estas aporias, deve concluir-se que, muito possivelmente, não há no Éden lugar para mulheres ( e assim se evita a imperfeição e se garante boa frequência do Estabelecimento). Todos os que forem salvos renascerão como homens! De trinta anos... O Paraíso é,então, um lugar frequentado por multidões de homens de trinta anos onde não há espaço para uma única mulher! Desconfio que um paraíso como este não deve ser lá grande coisa...
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10/09/10
O Pensamento Solar de Albert Camus, por Calígula
Leio e ouço muitas vezes referências ao «filósofo existencialista francês Albert Camus». Não me refiro aos ditos dos leigos, mas a manuais vários e a ensaios de alguma responsabilidade. Posso conceder que se chame «francês» a Camus, apesar de ele ter nascido na Argélia e de aí ter vivido a sua infância em Oran.Quanto ao epíteto de «filósofo» foi o próprio que declarou «não sou um filósofo». Não o foi, mas antes um pensador solar, que usou o romance e a literatura e não tanto a filosofia como formas de expressão privilegiadas do seu pensamento. É certo que ele escreveu ensaios brilhantes e que O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado são peças marcantes do pensamento contemporâneo. Mas, ainda assim, são partes de um todo e só podem ser inteiramente compreendidos se articulados com os seus duplos romanescos: O Estrangeiro que está ligado ao Mito de Sísifo e o A Peste em articulação com O Homem Revoltado.
Já quanto ao existencialismo de Camus não posso estar mais em desacordo. Camus detestava esse rótulo. Ele nunca se considerou um existencialista e declarou-o expressamente mais que uma vez. O seu pensamento foi, até certo ponto, anti-existencialista e não sou eu a dizê-lo, mas o próprio. Camus sempre foi um pensador muito mais solar que sombrio e o existencialismo tinha uma aura dark, centro europeia e depressiva que estava nos antípodas do seu carácter. A sua origem argelina e, como tal, o seu fascínio mediterrâneo, pela praia, pelo mar, pela luz marcaram-no. Camus estava fascinado pelos gregos e foi um sensualista. É por isso que, para nós, portugueses (e brasileiros, aí galera!), Camus está muito mais próximo que Sartre e que o pensamento existencialista em geral. Camus, era anti-existencialista antes mesmo de ter convicções filosóficas. Era-o por vocação, por nascimento, por natureza. Ele é, talvez, o mais «tropicalista» dos pensadores europeus. Meursault, por exemplo, o nome do personagem principal d`O Estrangeiro é um trocadilho fónico que aglutina as palavras franceses Mer + Soleil. Meursault é Mar e Sol, perfeito, não é?
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23/06/10
O Eterno Retorno, por Dalai Larai
Uma das noções que sempre me intrigou no pensamento de Nietzsche foi a do Eterno Retorno. O autor refere-se desenvolvidamente a esta noção no seu famoso Assim Falou Zarastustra. Trata-se de uma das ideias mais obscuras e de digestão filosófica mais difícil da obra do grande filósofo alemão. A resistência do Eterno Retorno às categorias racionais da Filosofia Ocidental é radical. E geralmente esta ideia é deixada na sombra pelos especialistas, com uma espécie de complacência tolerante, como se se tratasse de um devaneio poético do filósofo. No entanto Nietzsche sempre considerou esta intuição como uma das mais importantes da sua filosofia.Como entender a mais misteriosa das intuições de Nietzsche? De um modo mais romântico e light como o faz Irving Yalom em Quando Nietzsche Chorou, ficção inspirada na figura do filósofo, mas sem pretensões de rigor biográfico ou ideológico? Ou de uma forma mais pesada e existencialista como decorre da leitura de Eugen Fink, um dos maiores intérpretes do trabalho de Nietzsche?
Segundo a versão mais ou menos light de Yalom, o Eterno retorno significa uma valorização extraordinária de todas as nossas escolhas, da mais simples à mais transcendente. Porque se tudo se repete eternamente, isso quer dizer que temos uma grande responsabilidade na opção que fazemos em cada momento: é que aquilo que eu escolher viver agora, vou vivê-lo para todo o sempre. Opto por comer mais um doce que sei que me provocará uma dor de barriga tremenda? Então estou condenado a viver essa dor durante toda a eternidade. Se não o comer evitarei uma dor eteerna e não só neste momento. Em cada opção carregamos a responsabilidade de toda a eternidade. Consequência desta concepção: uma espécie de revalorização eufórica do momento. Aproveita o dia, vive cada momento plenamente pois ele será repetido para todo o sempre.
Eugen Fink, um dos maiores comentadores de Nietzsche, por sua vez, encara o Eterno Retorno de outra maneira. Menos romântica, mas baseada na leitura efectiva e documentada do filósofo alemão, em particular em Assim Falou Zaratustra. Segundo Fink o sentido do Eterno Retorno relaciona-se com uma concepção de infinitude do tempo. O passado é para Nietzsche infinito, tal como o futuro. Isto quer dizer que todas as possibilidades do acontecer temporal já se passaram e passar-se-ão forçosamente no futuro. Se o tempo até ao presente tem uma extensão infinita isso quer dizer que a causa A que produziu o efeito B já se passou, mas igualmente a causa Não A que produziu o efeito Não B. E no futuro a mesma coisa.
Portanto todas as possibilidades que podem ocorrer vão forçosamente ocorrer quer no passado quer no futuro. No passado eu já escrevi este texto e voltarei a fazê-lo de novo no futuro; mas também já aconteceu o computador pifar e impedir-me de o fazer e, portanto, haverá também um futuro em que eu não escreverei este texto. Existe um passado em que Portugal deu 7-0 à Coreia do Norte que se repetirá eternamente, assim como um outro em que seremos nós a levar os mesmos 7 da Coreia. E no futuro voltaremos a viver as duas situações...
A visão de Yalom acaba por sublinhar o valor inestimável do momento. Desemboca numa espécie de carpem diem no qual a ideia de liberdade é valorizada (mas como é que eu posso ser livre se o meu presente já está determinado por uma escolha que eu já fiz algures no passado? Como conciliar a liberdade da escolha com a pré-determinação de um passado que já aconteceu, que eu não posso mudar e que, fatalmente, se repetirá?).
A de Fink, por sua vez, conduz a uma certa indiferença existencial. Fink não afirma um determinismo radical - eu não estou condenado a fazer algo pré determinado, pelo contrário eu tenho infinitas possibilidades de escolha. Mas, uma vez que toda a multiplicidade infinita de existências temporais ocorreu, ocorre e ocorrerá, forçosamente, que pertinência terá a minha liberdade? Afinal escolher uma coisa ou o seu contrário acaba por ser relativamente indiferente porque todas as possibilidades têm que ocorrer numa eterna repetição. Se tudo o que pode acontecer já aconteceu e acontecerá, de que nos serve a liberdade? Tanto nos faz escolher A como B... Ambos aconteceram e acontecem eternamente. Há um passado em que já me saiu o euro milhões, mas há um outro em que eu sou mendigo. O valor da nossa vida é, pois, muito relativo e devemos, talvez, digo eu, encará-la com alguma indiferença.
Yalom e Fink - duas leituras muito diferentes do Eterno Retorno Nietzschiano. Não sei de qual me aproximo mais, talvez da de Fink. O que sei é que não é fácil discutir este assunto à luz das categorias filosóficas racionais. Estamos no limiar da poesia, da religião (as ressonâncias budistas do Eterno Retorno estão aqui presentes), até do misticismo. É por isso que Niezsche sempre foi, filosoficamente, um apátrida.
13/06/10
Slavo Zizek, A Monstruosidade de Cristo, por Cagliostro
Slavoj Zizek é, para mim, um reencontro feliz com a Filosofia. Psicanalista de formação, desenvolve o seu trabalho na Universidade de Liubliana, na Eslovénia. O primeiro livro que li dele foi Bem Vindo Ao Deserto do Real (citação de Matrix do anúncio feito a Neo (Keanu Reeves) quando este tem acesso pela primeira vez à verdadeira realidade). Senti uma vaga reminiscência da euforia adolescente vivida quando contactei pela primeira vez com um livro de Filosofia, andava, à data, no velhinho Liceu D. Maria. Gostei do estilo, da forma híbrida de pensamento que cruza referências de Filosofia, da Psicanálise, da Semiótica e do Cinema.Mas para além da pertinência dos seus diagnósticos, Zizek interessa-me, também, pelo seu lado estético e hedonista. É uma leitura que dá prazer, sem cair na banalização. Ora essa componente de prazer é uma característica que vem faltando ao discurso filosófico e, só por isso, a descoberta de Zizek já teria valido a pena.
Recentemente li A Monstruosidade de Cristo, reflexão do autor esloveno acerca do duplo estatuto do Deus Cristão, por um lado transcendente, por outro, humano. Não haverá nos cristãos, pergunta Zizek, uma espécie de nostalgia de um Deus «sentado lá em cima», de uma Força Superior impessoal? No livro, Zizek evoca a história bíblica de Job que compara, acertadamente, ao Cristo que sofre na cruz.
Mas o que é muito interessante neste livro é que ele pode ser lido, mesmo sem nos interessarmos, essencialmente, pelo seu tema central. De facto, apesar da sua unidade, A Monstruosidade de Cristo é rico em reflexões que se podem ler de um modo avulso. Aqui encontramos brilhantes reflexões sobre o tema dos sonhos («Porque sonhamos?, Zizek recupera Freud), sobre o cinema de Hitchcock, nomeadamente sobre Vertigo e Psico (notável a forma como o escritor esloveno ensaia o que seria Psico narrado por Kafka e por Hemingway).
Numa das suas observações mais interessantes, o autor faz referência a «uma prodigiosa descoberta recente» citada pela revista americana Weekly World News. Fico sem saber se esta descoberta é fidedigna ou se não passa de uma invenção religiosa-comercial... Mas merece ser aqui relatada: segundo esta revista, um grupo de arqueólogos terá encontrado dez mandamentos adicionais, bem como «sete conselhos» de Jeová ao seu povo, os quais terão sido suprimidos quer pelo Judaísmo quer pelo Cristianismo. O que é curioso é que estes acrescentos, hoje, podem ser lidos, como muito bem entende Zizek, como referências às nossas causas políticas contemporâneas. Mais importante: Deus toma partido nessas causas. Deixo-vos com uma síntese:
Por exemplo, o XI mandamento: «Tolerarás a fé dos outros como gostarias que tolerassem a tua» (na origem este mandamento destinava-se aos judeus que se opunham a que os escravos egípcios que se haviam juntado ao Êxodo praticassem a sua religião. Hoje em dia a actualidade deste mandamento é cristalina...)
O XIV: «Não inalarás folhas incandescendentes numa casa de repasto onde o fumo poderá lesar a respiração de outrem». Familiar? Pois... Dedicado a todos os que ainda duvidam da justiça da lei que poibe que se fume em recintos fechados.
XVII: «Não erguerás um templo de jogo no deserto, onde toda a vontade se tornará lasciva». Embora originariamente referido aqueles que organizavam tendas de jogo nas proximidades de acampamentos judeus, pode ser lido como uma referência à meca do jogo erigida no deserto: Las Vegas!
XIX: «O teu corpo é sagrado e não deves alterar a todo o momento o teu rosto ou o teu peito. Se o teu nariz te ofende, deixa-o intacto». Ui! aqui bate em tanta vaidade á solta. Em particular na cirurgia plástica, na mouche. E como não pensar em Michael Jackson (o nariz...)e na sociedade ciborgue que estamos a criar?
E quanto aos Conselhos:
«Evita a dependência dos negros óleos espessos do solo porque eles vêm directamente do reino de Satanás». E não é verdade que a nossa dependência do petróleo é criminosa e que devemos, sim, investir a sério na energia limpa?
Ou ainda «Não procures a guerra nas Minhas Terras Santas porque elas se hão-de multiplicar e afligir toda a civilização» (O Médio Oriente retratado) e «Não elegerás um louco para te guiar. Se o elegeres duas vezes o teu castigo será a morte por delapidação (Zizek vê aqui uma referência clara a Bush, mas um português medianamente informado o que vê aqui é Sócrates :-).
Já não chegavam 10 Mandamentos. estaremos ainda, como pergunta o Esloveno, dispostos a ouvir a voz de Deus e a obedecer-Lhe?
P.S. O pic retrata o autor, nascido em 1949, com a sua esposa, Analia Hounie...
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