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14/02/11

S. Mateus e o Anjo de Caravaggio, por Herege

Caravaggio pintou São Mateus e o Anjo em 1602 na sequência de uma encomenda que lhe foi feita pela Igreja para decorar o altar da Capela de Contarelli. O primeiro destes pics, a preto e branco, é o retrato dessa obra. Nela vemos o apóstolo S. Mateus a ler as escrituras. O anjo serve de orientador a essa leitura, o que é mostrado de um modo muito directo pelo pintor – a mão do arcanjo está pousada sobre a do apóstolo e condu-la.
 
A Igreja considerou «inapropriada» a forma como Caravaggio retratou esta história. Recusou o quadro e obrigou o pintor a realizar uma nova versão mais adequada ao espírito religioso da época. Quais as razões desta recusa?

Observando o quadro percebemos que ele tem uma ambígua carga erótica que deve ter incomodada a Santa Madre Igreja. S. Mateus parece demasiado perdido, como se travasse uma luta interior para vencer as suas tentações. E o anjo parece, de facto, tentador, demasiado carnal, demasiado sensual. Atente-se nos seus olhos semi-fechados, nos seus lábios, na veste transparente e volátil que lhe deixa ver as pernas e, sobretudo, na sua gestualidade, uma marca dramática omnipresente na pintura do Mestre. Reparem naquela mão em cima da de Mateus. E na outra, lânguida, prazenteira… Este Caravaggio sabia o que fazia…

A igreja não disse isto desta maneira. Mas justificou-se: S. Mateus teria sido representado como um homem humilde, rude, analfabeto. Não se estaria a sublinhar a devida santidade do apóstolo. E o anjo, pasme-se, pisa a terra como um comum mortal. Humano, demasiado humano…

Obrigado a fazer uma nova versão, Caravaggio apresentou o segundo destes quadros, mais de acordo com as exigências do seu cliente. No segundo quadro, o anjo perde a sua perturbadora sensualidade, perde até a sua fisionomia feminina para ganhar um rosto mais andrógino. Além disso, fica reforçada a diferença de planos entre o divino e o profano – o anjo desce do céu, S. Mateus levanta o olhar, mas não há contacto físico entre eles, ao contrário da primeira versão (note-se mais uma vez a diferença na linguagem gestual do anjo, aqui fechada sobre si mesma ao invés do gesto de contacto que vemos no primeiro quadro).

Apesar de tudo, este segundo S. Mateus, ainda mantém algumas características do primeiro: sobretudo, a sua humildade, a sua rudeza, sublinhadas pelos pés descalços e sujos e pelo seu ar ainda hesitante.
Infelizmente, a história tem ironias dos diabos: o segundo quadro encontra-se na Igreja de S. Luís dos Franceses em Roma. Quanto ao primeiro, o meu preferido, foi destruído durante os bombardeamentos aliados da Alemanha durante a segunda guerra mundial. Tudo o que dele resta é esta ténue fotografia a preto e branco. Ele há coisas do caraças…

01/12/10

Um Palhonço No Panteão Da Eternidade, por Sagrado Coração


Comece-se por dizer que o Palhonço conseguiu e realizou o seu grande sonho, que era ser tido como um pintor famoso e gravar para sempre o seu nome no panteão dos grandes. O artista foi famoso em vida e continua na mesma depois de mal enterrado. Os seus quadros, embora não pertencendo à esfera dos colossos, dizem presente nos mesmos sítios onde aqueles estão. Tais quadros tornaram-se mesmo ícones de uma certa forma de pintar (naif) e de retratar alguns ambientes selváticos, aparecendo muitas reproduções das suas pinturas em capas de Gabriel Garcia Marquez, Luís Sepúlveda e de outros autores que agora não recordo.

O mais engraçado é que o artista famoso sabia de tudo menos de pintura que era a única coisa que fazia. O homem não teve qualquer treino, não assistiu ou acompanhou qualquer mestre, não estudou nada de pintura, não tinha qualquer noção de perspectiva, nem qualquer noção das mais elementares regras da pintura, assim como não sabia desenhar, etc, etc, mas teimava em ser pintor e pintava. E pintor ficou. Falo como é evidente do palhonço Henri Rousseau, O Aduaneiro como ficou conhecido.

Henry Rousseau foi um pequeno funcionário da alfândega de Paris durante 22 anos e até aos 41 anos. Nessa idade e a certa altura meteu na cabeça que queria pintar e ser um pintor famoso. Rousseau nada sabia de pintura para além de saber que a coisa se traduzia basicamente em esfregar pincéis com tinta numa tela. Mas sabia como se meter no meio. Afivelou um jeito de palhonço, de coitadinho, desgraçado e engraçado e lá foi para as tascas parisienses do milieu. E a pintura, a verdadeira pintura, engraçou com ele.

Por conta de copos, piadas e boutades, o bom do Rousseau tornou-se “compagnon de route” de Picasso, Gauguin, Signac, Matisse, Pissarro, Redon, Cézanne e outros, que o acolheram e protegeram, fazendo-o inclusive participar nos seus salões de pintura. É certo que algumas vezes o tentaram meter nas salas das artes decorativas, mas Rousseau desculpava-lhes esses lapsos e acartava os seus quadros para as salas de Picasso e Cézanne. A chacota geral prosseguia nas costas do nabo, mas certo certo, é que ele lá estava lado a lado e ninguém tinha coragem de o tirar dali. E de tanto ali estar, ali ficou. No panteão, ao lado dos grandes, que apenas o receberam como bobo ingénuo e como afronta à pintura oficial e institucional.

Apollinaire, então, adorava o homem e defendia a sua pintura contra tudo e todos. Hoje, o Aduaneiro lá consta em qualquer livro ou compêndio de arte como sendo o expoente da pintura naif e a prova provada de que se pode pintar a realidade “sem a intervenção da razão critica e disciplinadora”. Que de facto, Rousseau não tinha. Mas tem quadros no Louvre, no Hermitage, National Gallery, etc.

Apesar de não saber pintar, Rousseau, homenzinho ridículo e pretensioso, envolvia-se a si próprio numa aura de grandeza que de tão atroz se tornava cómica e apreciada. A certa altura numa das jantas com Picasso e outros, Rousseau vira-se para este e diz-lhe: “ – Nós os dois somos os maiores pintores da nossa época, tu no estilo egípcio e eu no moderno.”. Nem mais.

Mas Rousseau levava-se a sério, tão a sério que distribuía cartões de visita, onde mandou imprimir por debaixo do nome a referência de “Pintor de Arte”. Os seus quadros que mais não querem do que imitar os mestres da época, são na sua maioria de um ridículo alucinado. As figuras são mal desenhadas, não há qualquer noção de perspectiva ou jogo com ela. Há figuras copiadas de caixas de chocolates e mesmo a sua famosa série das pinturas na selva era decalcada por projecção de fotografias. A sensação de mistério e de intranquilidade que transmitem mais não resulta do que da obsessão de Rousseau de acabar e encher os seus quadros até ao limite do insuportável. Cézanne por exemplo fazia-lhe confusão. A certa altura vira-se para Cézanne e diz-lhe: “ – Como sabe, eu podia acabar todos estes quadros.”

02/03/10

Nos Também Temos uma Peça da Joana Vasconcelos, por Tó Minimalista

O Centro Cultural de Belém apresenta actualmente uma exposição sobre a obra da artista portuguesa Joana Vasconcelos que merece o nosso destaque. Confesso que a obra dela já me tinha chamado a atenção. Muito particularmente aquele sapato alto enorme feito de panelas que é um verdadeiro desafio às leis da gravidade e um primor de engenharia. Gostei daquela obra porque tenho um fetiche confesso por sapatos altos - a peça mais importante do arsenal de sedução feminino - e também achei aquelas panelas luzidias um objecto plasticamente muito bonito. Nunca tinha reparado como as panelas podem ter um brilho tão glamouroso, assim novinhas, ainda não conspurcadas pelas fogueiras inquisitoriais das cozinhas. as panelas são uma coisa numa cozinha e outra diferente numa sala do CCB.

Recentemente a Joana Vasconcelos chamou-me a atenção, ainda por outra razão, esta um pouco a montante das nobres e puras razões artísticas: pelo preço exorbitante que uma peça sua - uma marilyn - atingiu na Sothebys, qualquer coisa como cerca de 500 mil euros! Pois bem, os manguelas dos Lisboetas estão, uma vez mais, cheios de sorte: o Joe Berardo resolveu fazer uma retrospectiva da obra da artista no CCB.

Mas eu queria lembrar toda a gente e, especialmente, os meus conterrâneos conimbricenses que nós aqui somos pequenininhos mas também temos uma peça da artista plantada mesmo no centro do nosso recreio. Refiro-me ao campo de pitch and putt da Quinta das lágrimas, onde passamos uma boa parte do nosso tempo (para dizer a verdade já passámos mais). Pois é verdade, quem conhece o campo e até quem não conhece, pode ver uma baliza plantada lá mesmo no meio. Aquela baliza é que é a tal peça da Joana Vasconcelos! Ainda me lembro quando ela lá foi plantada, aqui há uns anos, por altura do Euro no nosso país. A artista construiu uma rede com umas flores coloridas meio psicadélicas do género das que enfeitam os carros da Queima das Fitas e chamou à escultura «Ópio do Povo». Com o tempo as flores de papel bio-degradaram-se, de maneira que, agora, já só lá resta baliza.

Não sei se a ideia era essa, ficar ali no meio do campo de golfe uma baliza de futebol, mas creio que a intervenção perdeu força. Agora quando olho para aquilo já não vejo uma referência ao futebol-alienação. Vejo apenas uma baliza que dizem ter custado 8 mil contos ao Júdice. Mas, possivelmente, o homem ainda ganhou dinheiro com isso. O berardo não pagaria o dobro para ter a nossa baliza no seu museu? Vá lá malta, organizem-se e visitem a baliza da Joana de Vasconcelos que está na Quinta das Lágrimas. Enquanto podem, que daqui a uns tempos se a quiserem ver têm que se meter no carro e fazer 200 klm até Lisboa.

Pic - Dorothy de J. Vasconcelos

02/11/09

Piero Manzoni, por PrimaDaObra


Num dia destes andava o núcleo duro do Porco em peregrinação entre as estantes de livros e as estantes de vinhaças duma mercearia do Belmiro, quando um confrade saca de um expositor uma latita de sucedâneo dinamarquês feito de ovas de lampreia. Questionado, o gourmet avança com a palavra “Caviar”. O Xiita, que é rapaz de poucas palavras, mas de fácil sentença, opinou de imediato: “Caviar? Isso? Melhor do que isso cago eu e não sou esturjão!”

Piero Manzoni, um famoso pintor italiano de arte contemporânea dos anos 50 e 60, na senda de Duchamp e do seu famoso urinol, resolveu fazer um manifesto anti-pop-art e um ataque directo ao mercantilismo da arte e das galerias da altura e cavalgou a onda dos limites da arte, do surrealismo e da arte dada e zás, se bem o pensou comó Xiita, melhor o fez.

E vai daí, em 1961 tratou de cagar – merda genuína dele – para 90 latas. 90 latitas de merda italiana, genuína, de artista. O difícil deve ter sido acertar nas latitas que eram pequeninas e aí se revelou a mestria da coisa. Depois do alivio, Manzoni fez selar as latitas, como mandam as regras e os standards da indústria alimentar. Numerou-as, assinou-as e vendeu-as ao peso, sendo a grama de lata de merda vendida ao mesmo preço da grama de oiro na época. As latas além de numeradas e assinadas têm três faces ou inscrições que dizem sucessivamente : “Merda D`Artista”; “Merde D`Artiste” e “Artists Shit”. A autenticidade do produto é garantida pela inscrição: "Merda d’artista, numerata, firmata e conservata al naturale".

Feita a cagada e o embalamento do “caviar”, Manzoni fez uma das suas habituais exposições e lá meteu as latitas de “Merde D`Artiste”. Vendeu tudo como papos-secos. Hoje as latas de Merda do Manzoni são um ícone da arte conceptual, da qual se considera Manzoni um precoce percursor, constituindo tais merdas uma raridade que os coleccionadores e museus se cagam todos para obter.

E aqui chegados não resisto a contar duas histórias das latas que conheço.

A primeira passou-se com o Randers Museum of Art of Danmark em 1994, que para uma exposição e retrospectiva, pediu emprestada uma latita do Manzoni à John Hunov Colection. Pelo meio da exposição a latita começou a verter, merda como é bom de ver, e vai daí, foi tudo para tribunal discutir indemnizações milionárias. O Museu defendeu-se considerando que se tratou da degradação natural da lata. A John Hunov Colection contra-atacou dizendo que o Museu expôs a lata à luz, coisa que não devia ter feito e estava recomendado de não fazer. Enfim mais uma merda para os advogados ganharem dinheiro.

A segunda história catita da latita, passou-se na Tate Gallery de Londres que também tem uma lata de merda do Manzoni. Acontece que a lata começou a verter. Merda, como é evidente. E a Tate ficou sem saber o que fazer. Solda-se a lata? Mete-se a merda que escorre lá pra dentro? ou deixa-se a merda escorrer à vontade até à liquefacção completa da merda e da lata? A intervenção tinha o “pecado” de se estar a alterar a obra de arte. Ao invés “o deixar andar” tinha a chatice de aquilo cheirar mal que se fartava, o que incomodava os visitantes e conspurcava a galeria. Para desempatar os seus próprios experts, a Tate Gallery chamou especialistas de fora que pensaram o malcheiroso assunto. Estes opinaram maioritariamente que não se pode intervir na obra de arte sob pena de a adulterar e de modificar a intenção do artista, altura em que se mata a obra de arte; contudo, para se resolver o problema higieno-sanitário, a latita de merda a escorrer devia ser posta dentro de um cubo de acrílico, transparente, estanque e isolante, onde a obra de arte pudesse seguir o seu percurso natural, longe da mão do homem e longe do nariz também. Brilhante. A Tate acatou e assim fez.

Warholl vendeu a lata de Sopa Campbell`s, mas Manzoni vendeu Latas de Merda e ao preço do oiro. Que é de Artista é, mas será arte?

24/03/09

Grandes Clássicos, por Rafael Ângelo

Claude Lorrain, (1600-1682), foi um dos mais conhecidos pintores franceses do período barroco. É considerado um dos maiores paisagistas do barroco francês e um dos pioneiros do género numa altura em que a pintura de paisagens dá os seus primeiros passos na história da arte ocidental.

Ora há uns tempos, a Sport TV lembrou-se dele e levou a cabo uma campanha baseada nas suas paisagens. A ideia era promover os jogos entre os chamados «grandes» clubes portugueses como autênticos «Clássicos». As paisagens de ambiente rupestre e clássico de Lourrain foram escolhidas para transmitirem ao público-alvo esse ambiente de classicismo. Para associar o futebol e os jogos grandes a este ambiente, os autores da campanha resolveram acrescentar uns jogadores à paisagem, como se vê no pic.Do ponto de vista estritamente publicitário o anúncio até resulta.

Mas do ponto de vista estritamente estético, a campanha é uma contradição nos termos. Lourrain pontuou as suas paisagens com figuras humanas. Mas minimizou-as claramente de modo a que o principal fosse a paisagem. Numa altura em que a pintura de paisagens era quase uma heresia, a introdução de figuras humanas alusivas de motivos bíblicos ou mitológicos foi um recurso usado por Lourrain para não chocar demasiado as consciências. Mas o que lhe interessava era a paisagem e, por isso, as personagens humanas aparecem numa escala ínfima de modo a não desviarem a atenção daquilo que verdadeiramente lhe importava.

Assim, de um ponto de vista estético, quando esta campanha da Sport TV vem acrescentar os jogadores de futebol à paisagem, parece que nos está a dizer que o importante é a paisagem. Na pintura de Lourrain, as figuras humanas só lá estão para disfarçar e, deste ponto de vista, é assim que passams a considerar as figuras dos futebolistas. É como se o anúncio nos dissesse:não liguem ao jogo, o que importa é a paisagem. O que também não deixa de ter a sua piada... Para a porcaria de jogos que vamos vendo na Sport TV...

02/03/09

A Origem do Mundo de Courbet, por Magiar


Nos últimos tempos, presume-se que devido ao incidente troliteiro de Braga, tem-se assistido a um verdadeiro recorde de entradas no Porco em busca deste texto, publicado vai para aí um ou dois anitos. Pela sua actualidade e para facilitar a vida aos súbitos interessados em pintura, aqui se posta de novo. E um obrigado à polícia de Braga que, sem querer, está a cativar o interesse das pessoas para as grandes questões da filosofia da arte.

Charles Darwin com o seu Darwinismo veio colocar a origem do homem na cloaca oceânica dos primórdios brumosos do tempo. O Criacionismo Bíblico foge às brumas e postula claramente que Deus mandou fazer luz, do barro fez homem e duma costeleta fez a mulher

Gustave Courbet, pintor francês do séc. XIX, esteve-se nas tintas prós dois Ismos e pintou a Origem do Mundo. Há assim uma terceira via, realista, para explicar a origem do homem. Courbet dizia que nunca tinha visto Deus ou Anjos e que quando os visse os pintaria. Até lá, pintava o que via. Daí que a sua pintura seja o expoente do movimento realista

Os nus, sobretudo os femininos, que até então eram pintados sob a aura mitológica de ar ausente, tornaram-se com ele, crus, carnais e sensuais. Apelidaram-no de “pintor do feio”, mas ele esteve-se nas tintas e quando em 1855 os juizes da Exposição Universal de Paris, excluíram os seus quadros da mostra, Courbet montou uma barraquita ao lado da entrada, pôs os seus quadros lá dentro e meteu um placa por cima da entrada: “Le Realisme – G. Courbet.

No “Origem do Mundo” a figura deixa o mito e a ausência para ser premente e tocável. Aquela é uma mulher real como nunca, carnuda, sensual e brutal na exposição a que se oferece. É talvez o primeiro quadro da história a suscitar a eterna polémica sobre a fronteira entre a arte e a pornografia. Mas a realidade está sempre aí, nunca foge, como Courbet provou, armando barraca."

01/08/07

Berardo em Belém

Joe Berardo conquistou a imortalidade possível. A partir do momento em que a sua colecção de arte contemporânea ocupou o Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém, é possível visitar a Praça do Império em Lisboa sem ir aos Jerónimos e sem ver o túmulo de Camões. Assim fiz. Berardo entrou directamente e emvida para o coração simbólico da lusitanidade. Tal é o poder da arte, não só, ou nem tanto, de quem a produz, mas de quem a detém e exibe. A única coisa que eu lamento é que o Estado português não tenha entendido a importância de construir uma colecção de arte contemporânea. Devemos ser o único país ocidental que não curou dessa tarefa fundamental, pelo que ficamos agora reféns de Berardo. Serralves, e agora a colecção Berardo, são de iniciativa de fundações privadas, tal como o Centro Gulbenkian. A coisa mais contemporânea que o Estado português tem é o Museu do Chiado! Incrível! O Ministério da Cultura negociou assim em posição de fraqueza e necessidade. Berardo, naturalmente, avantajou-se, tirando partido da situação. Claro que, em face do sucesso, quando chegar o dia de o Estado exercer o direito de opção para a aquisição da colecção, vai ter que se sujeitar às condições impostas por Berardo.

Na foto, um óleo de Eric Fischl datado de 1984, intitulado Mather and Daughter, pertencente à colecção Berardo.

24/06/07

A obra de arte mais antiga do mundo


Um mamute com 3,7 cm, 7,5 gramas e 35 000 anos, encontrado o ano passado na gruta de Vogelherdhöhle, na Alemanha.

fonte: El País

23/04/07

Afinal o Povo Cheira Mesmo a Ambiente?, por Luís XIV


Pieter BRUEGEL, o Velho
Casamento aldeão (Boda de camponeses) c. 1568 óleo sobre madeira, 114 x 164cm Kunsthistorisches Museum, Viena, Austria.

Neste quadro, Bruegel retrata uma festa de camponeses que celebram um casamento. O olhar de Bruegel sobre os aldeões é particularmente cruel. Ele trata-os como brutos e desmiolados. Repare-se no ar bovino da noiva de bochechas rosadas, ao centro. O noivo, por sua vez, tem o nariz vermelho e a sua grande preocupação é levar uma colherada à boca. São ambos assim pó gorducho e estão afastados um do outro, a boda é festa da aldeia isso é que importa.
À entrada do celeiro (?) onde decorre a boda as pessoas parecem amontoar-se para poderem entrar. Atropelam-se, mesmo, umas às outras! Dá a impressão que a fome é muita. E, no primeiro plano, há um rapazito patusco com um chapéu enorme enfiado na cabeça a lamber os dedos. Há uma cabra a espreitar por debaixo da mesa, enfim, tudo aqui é burlesco.

O olhar de Bruegel não é ternurento, é distante, irónico e gozão. Mas, apesar de tudo sente-se aqui uma alegria pura, uma naturalidade que cativa. Eu não gostaria de estar numa festa daquelas, mas acho piada áquela alegria, vista de fora. Olha-se para este quadro com uma vaga nostalgia da pureza perdida. Talvez seja por isso que eu gosto de Bruegel. Mas há outras visões do bom povo, quase opostas a esta. Como é o caso do Angelus de Millet…

10/03/07

David La Chapelle, A Arte do Cliché, por Menino D`Oiro


O fotógrafo americano David LaChapelle chamou-me recentemente a atenção pela exuberância do seu trabalho. La Chapelle trabalhou para as principais revistas internacionais de referência; da Interview (fundada por Andy Wharol) à Face, passando pelas incontornáveis Vogue, Vanity Fair, Rolling Stone, I-D ou Vibe não houve uma que lhe tivesse escapado. Somou a isto o seu trabalho no mundo da publicidade da moda: L’Oreal, Iceberg, MTV, Ecko, Diesel Jeans, Sirius, Ford…


Esta foto não é exemplicativa do trabalho de LaChapelle. Creio que lhe falta a exuberância habitual e é circunspecta na cor. Mas acho-a um bom exemplo de como um cliché pode ser bem dito, melhor dito do que até então. A foto tem o título da modelo: chama-se Elisabeth Hurley e é da série Heaven and Hell. É uma interessante «imagem narrativa» quer dizer, possui o condão de nos fazer efabular como os quadros do Balthus, do Hopper ou da Paula Rego. Olhamos e ficamos a pensar o que se terá passado…


O homem foi expulso do Céu e vai para o Inferno? Ou depois de se ter servido da mulher, abandona-a, o ingrato? Nesse caso é ela a vítima que se agarra desesperadamente à criança e é o homem o vilão…
Mas ela está vestida. Não significa esse facto uma superioridade evidente sobre o homem nu e de costas? Qual dos dois corporiza o Poder? Qual, a Submissão? E quem é o bom e o mau nesta história?
E qual é o papel do bebé no meio disto tudo? É só um inocente, um ser angelical ou é um daqueles querubins demoníacos usados e abusados nos filmes de terror (John Carpenter, A Cidade dos Malditos, Poltergeist, Shining..). Não será ele a personagem mais poderosa do quadro?

Será tudo isto uma alusão a uma espécie de complexo de Édipo invertido – o pai, vê o seu lugar (o Céu) ocupado pelo filho (no seu antigo lugar sobrou uma estátua orgulhosa e imóvel, símbolo do seu passado glorioso) e sai para as trevas (o Inferno), derrotado e enciumado, expulso do Paraíso…


As obras de arte só valem a pena quando mexem assim connosco. De outro modo são borboletas mortas que positivistas castrados guardam em vitrines em classificas por ordem alfabética.Já sei que o David LaChapelle não suscita grande simpatia à intelectualidade dominante. Mas lá que as suas fotos têm qualquer coisa, isso é verdade…

14/12/06

A Solução, por Nikki

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Breve comentário às Hipóteses em estudo

Hipótese A

Caracteriza-se pela configuração de um L constituído por dois corpos que albergam diferentes funções; um de uso mais reservado, basicamente ocupado pelo escritório e pelos corpos e outro de uso mais ‘público’ – o da cozinha, das salas e do alpendre. A fechar o L uma fileira de arvores de frutos ajuda a compor uma espécie de pátio voltado a Sul e no qual o destaque vai para a piscina ecológica, espelho de água que permitirá vislumbrar a casa de diferentes maneiras e pontos de vista.

Como aspectos a salientar nesta proposta, a economia das circulações – reduzidas a um mínimo com um desenho cruciforme alongado – e a correcta relação que se estabelece com o terreno, com a paisagem e com os pontos cardeais. (…) Como seria de prever numa solução tipo casa-pátio, que não é verdadeiramente, mas que também não deixa totalmente de o ser, trata-se de uma proposta menos virada para a paisagem circundante; uma solução, portanto, mais fechada sobre si própria, mais concentrada sobre os elementos que a compõem e sobre as suas relações funcionais.

Hipótese B
Distingue-se claramente da anterior pela definição da casa em um só volume, embora subdivido em três corpos justapostos: o dos quartos, voltado a Nascente, o do escritório, salas e cozinha, voltado a Poente. Entre os dois, o corpo das circulações, desenhado sob a forma dum pátio interior sobre o comprido, poderá receber luz zenital e de Sul, luz essa que irradia para os corpos contíguos, principalmente para o das salas-cozinha. Nesta solução o acesso ao piso inferior faz-se pela parte central do volume havendo uma tendência para que a cave fique quase totalmente enterrada. O corpo dos quartos ficará parcialmente cravado, permitindo que a transição entre corpos se faça sempre de nível e assegurando uma ligação também de nível entre o corpo das salas e o jardim.

Novamente a piscina ecologia, com o seu magnífico espelho a reflectir a casa a nascente e as colinas a Poente, atrai os olhares e direcciona a vivência doméstica.

Como pontos-chave desta proposta, por um lado, a forte articulação entre os espaços interiores, interligados através dum corredor-pátio para onde dão todas as divisões. Por outro lado, a relação da casa com a paisagem (ao fundo), enfatizada pelo enorme e ininterrupto envidraçado que atravessa todas as zonas de uso menos reservado. (…)

Hipótese Alternativa

Paralelamente a uma solução mais lógica, de compromisso, como seria a da hipótese A – e a uma solução conceptualmente mais radical, de cariz quase funcionalista – como seria a da hipótese B – perfila-se uma terceira via, de maior complexidade formal. A esta última, surgida in the last minute, por virtualmente exceder o que é solicitado, designou-se como hipótese alternativa. Na verdade, e apesar da sua aparente originalidade, não passa de ser uma variante da hipótese A. Desde logo, recupera a ideia dos dois corpos e a respectiva disposição ortogonal em planta. Porém, nesta nova versão, abdica-se da comodidade de circulação de nível, presente nas soluções anteriores, inusitando-se a sobre elevação do corpo dos quartos que se assume volume independente. Apesar do corpo da cozinha-salas manter-se como em A a discordância altimétrica dos volumes dá parece dar à casa um novo fôlego: a casa é a casa é agora menos compacta, menos previsível também.

Como resultado da elevação do corpo dos quartos foi então possível recriar de modo bem mais elegante o hall de entrada que ganha um duplo pé direito e adquire ambiguidade na sua relação com os espaços interiores e exteriores. Este soltar de corpos antes fundidos, como em acontecia em B, ou linearmente combinados, como em A, permite ainda tratar de modo mais individualizado as superfícies do novo volume: ora se deixam rasgar em longas aberturas, ora se fecham, ora se convertem em panos envidraçados revestidos por ripados que controlam a relação com a luz e com a envolvente. Note-se como a posição elevada inaugura uma diferente relação dos quartos e respectiva zona de circulação com a linha do horizonte. Por fim, o efeito de quase prestidigitação deste corpo paralelipipédico, pairando no ar sobre esbeltas colunas permite introduzir, por baixo, um amplo espaço coberto; um espaço de usos multifuncional: parqueamento, área de jogos (ping-pong, dardos, cartas, etc) zona de repouso, zona de convívio-barbecue, mirante sobre o jardim e sobre o vale, sauna envidraçada, voltada para o pôr-do-sol,...

Esta solução, ao contrário das anteriores, preocupa-se, antes de tudo, em libertar o chão, tornando o próprio terreno, logo pela manhã, quando o sol varre todo o comprimento do lote, no primeiro protagonista da casa e do seu dia a dia.

A partir daqui, a piscina, a zona relvada por detrás das árvores, as montanhas, o vale, o sol nascente e o sol poente, e céu e as estrelas, sempre visíveis, sempre próximos, tornam-se, de forma indelével, parte intrínseca do quotidiano de quem habita.

Paisagem, Terreno, Escritor, Casa e Cosmos num todo indivisível.

As funções que na solução anterior aparecem enterradas poderão continuar a existir, e na mesma projecção horizontal do corpo dos quartos, muito embora a garagem, na acepção de parqueamento, poderia ser substituída, com algumas adaptações, pela área coberta exterior.

13/12/06

A Encomenda

A/C de Nikki, o Arquitecto:

Meu caro, gostaria que me desenhasses uma casa com base no esqueleto que vou tentar descrever-te. Deverá ter 4 quartos, uma cozinha com bastante luz solar, uma sala ampla com lareira e um pequeno desnível entre o “estar” e o “jantar”; um escritório e uma biblioteca; uma cave/garagem onde também possa ter uma garrafeira sempre vazia porque a felicidade dos vinhos é poder bebê-los.

O quarto principal deverá ter anexada uma cabine de sauna, bem vês, gosto de sauna, faço sauna o ano inteiro no ginásio e pago-a a 4 duros a sessão – quando chegar a casa, de rastos, depois de “another day in paradise”, quero transpirar como porco escaldado antes de adormecer no enlevo dos lençóis de linho. Com sauna e linho quem é que precisa de pérolas, concordas...?

A minha sala deverá ter uma parede de outra cor que não o branco. Uma cor forte, intensa, salmão fumado parece-me uma boa solução. Outra característica fundamental da sala será nela afirmar-se uma lareira. Uma lareira grande, imponente, aberta, onde se alcance o fogo e as brasas com o olhar – informo-te já que não confio em fogo que não vejo!

Uma cozinha prática e funcional com rentabilização e aproveitamento de cada canto. Uma ilha a meio com um local de encaixe cimeiro onde pretendo pendurar facas, facalhões e cutelos para cortar delicado sushi à lâmina e cabrito à cacetada.

Um pequeno escritório de trabalho. Este espaço deve servir os propósitos da informática, pastas, arquivos, impostos, reclamações e outros assuntos kafkanianos aos quais temos de regressar de tempos a tempos. Gostava que este escritório tivesse uma parede de tijolo, (cada bloco unido por cimento branco ou o que quer que seja que une os tijolos e contraste com a cor terra que lhes dá o carisma), posto lá de forma quase grosseira, como o resultado de um labor manual e imperfeito, mas sólido e sustentado como o argumento de um policial negro. Entendes-me?

A Biblioteca – questão fundamental. Gosto de bibliotecas, sempre gostei de bibliotecas. Daquelas bibliotecas onde William de Baskerville mergulhou o fascínio do conhecimento e pelo meio resolveu os crimes em O Nome da Rosa; daquelas bibliotecas onde somos possuídos pelo encantamento alienado de poder consultar, ler ou apenas contemplar tantos livros. A minha biblioteca não precisa de ter dimensões desmesuradas, porque o meu conhecimento dos livros também não o é. Mas tenho alguns quantos. E alguns quantos filmes. E cds. E recortes, e textos soltos, e artigos sobre receitas, charutos ou a cultura do chá que fui de forma tão apaixonada quando desordenada guardando ao longo dos anos. E é nessa biblioteca que quero arrumar as palavras e preservar a memória das imagens. Em prateleiras e estantes voltadas para uma secretária em madeira e uma bela poltrona de couro onde irei escrever barbaridades e estrebuchar delírios para o Tapor. Algures, uma garrafa de cognac Napoleon ao lado de uns puros cubanos onde o Grunfo irá pendurar as beiçolas como um pitbull ao cheiro da alcatra. Uma biblioteca tão pessoal quanto plural. Ocorreu-me que a biblioteca poderia ser o núcleo central da minha casa. A célula onde todos os caminhos vão dar. Como a Roma. De que forma e com que disposição geométrica? Não faço a mínima ideia, mas se te agradou, podes voltar a chamar-me Senador!

Um braseiro para assar carne e beber tintos. Com forno a lenha para cozer pão, assar leitões e chanfana. Uma grande mesa de madeira ao centro para celebrar muitas Últimas Ceias depois do golfe, ou as partidas de nuestros hermanos bascos para Bilbau. O espírito de Revenga sem portas nem sub-solo.

Pátios, varandas ou afins. São elementos fundamentais. Quero varandas em todo o perímetro da casa. A casa pode ser percorrida por esse lado exterior, à sombra dos pequenos telhados, em toda a sua dimensão. Haverá pequenas mesas de madeira com cadeiras de encosto nesse resguardo a céu aberto. Como nas casas do deep south americano, Mississipi, Louisana e nos arrabaldes de New Orleans, onde a Harper Lee se sentava ao luar com o pai e aprendeu a escutar os sons das cigarras e a as histórias dos homens contadas por Aticus Finch, e a escrever, muitos anos mais tarde, o Não Matem a Cotovia.

Uma piscina deve ser prevista, centrada com o verde da relva que quero plantar, a oeste dos pessegueiros e cerejeiras que quero fazer crescer ao fundo do terreno. O jacarandá, a magnólia e outras sombras com raiz, ficarão em lugar a destinar e perto de água abundante.

Gosto de matérias que provêm da terra - madeiras, pedra tosca, tijolos, barro. Gosto de cores com o mesmo genótipo – castanhos claros, mel, laranjas, Agosto em final de tarde, tonalidades quentes, mas também azul marinho, verdes ciprestes. Gosto de linhas direitas, da austeridade japonesa, de arrumações compartimentadas e simples, de geometria recta e desprovida de ornamentos, de portões, das colunas do Parthenon e de candeeiros estilo postes de iluminação iguais àqueles para os quais mijava o Vasco Santana no Pátio das Cantigas. Gosto das formas simplistas e térreas dos motéis americanos, das suas linhas carregadas de horizontalidade. Detesto candelabros, cristais, brilhos ofuscantes, estilos rebuscados e com muitas curvas, cornucópias como as das gravatas italianas, classicismo rococó, pormenores acentuados. Sou um gajo informal de hábitos e simples de trajes – gosto de andar descalço dentro de casa sem correr o risco de apanhar uma pneumonia ou fungos nos pés.

A terminar, e se é possível acrescentar algo mais à minha modesta capacidade para visualizar a minha casa, deixo-te a mais simples e memorável descrição de uma casa-lar que já ouvi. É do filme O Gladiador. Na fria e distante Germânia, após a batalha, Marcus, o Imperador pede a Maximus, o General, que lhe fale da sua casa. Uma felicidade pacífica e serena irradia de Maximus à medida que as palavras lhe saem da boca.

Diz Maximus:
«A minha casa situa-se nas Colinas acima de Trujillo. É um lugar muito simples, feito de pedra cor-de-rosa que aquece ao sol. Jardins que cheiram a ervas aromáticas durante o dia e a jasmim à noite. Para lá do portão existe um enorme pomar. Figos, maçãs, peras. O solo, Marcus, negro... negro como o cabelo da minha mulher. Videiras no terreno a sul, oliveiras a norte. Cavalos selvagens perto da casa costumam brincar com o meu filho. Ele quer ser um deles.»
Fico à espera da tua resposta e inspiração, aquele abraço,

Mangas.

10/12/06

26/11/06

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1923 - 2006

06/09/05

De Lascaux a NY: uma breve história da arte ocidental, por Argonauta Tatuado

Há umas dezenas de milhares de anos alguém pintou às escuras animais selvagens nas inacessíveis grutas da Dordogne, como se fossem úteros. Assim tudo começou ou é, pelo menos, um bom começo. Pela presentificação plástica e simbólica da ausência se inicia um percurso de onde nascerá toda a metafísica, toda a teologia, toda a moral e todas as utopias. A existência declara-se insuficiente, a inexistência torna-se suposição e ganha forma, tal como o desejo pelo tempo se faz história. Os gregos esculpiram deuses com forma humana, monges irlandeses pintaram minuciosas iluminuras na superfície sagrada dos bíblicos pergaminhos como se fossem grutas paleolíticas. Villard de Honnecourt rabisca catedrais com paredes de vidro onde se narram histórias sagradas e coloridas, como se fosse BD. Desde os tempos dolménicos que somos nós a fazer grutas. É isto a arquitectura. As catedrais góticas, apontadas ao céu e cheias de luz como se fossem vítreos arranha-céus novaiorquinos, são as mais belas. A Sagrada Família é a mais bela das mais belas, pois que na sua incompletude estatutária remata o processo dolménico, fazendo com que o misticismo escolástico se equipare a uma fantasia que lembra a Disneylândia. Somos fazedores de espaço com a razão ou com o sonho. Seja pelo alargamento do espaço físico ou pela invenção do espaço simbólico. Por isso a invenção das leis da perspectiva é contemporânea de Galileu e das grandes viagens transoceânicas, tal como Einstein que desfez a imagem clássica do Universo é contemporâneo de Picasso que bidimensionando nos libertou da tirania renascentista. O caminho de Picasso leva-nos ao quadrado de Malevich, onde se nega todo o legado clássico: cor, profundidade, figura e técnica. Outro caminho, iniciado em Goya, supera o cânone racionalista libertando fantasias e subjectivando o mundo. Se o Renascimento inventou a ideia de génio, Pollock destruirá o mito pois que no dripping não há autoria porque não há consciência. Deste beco sairá Warhol reinventando a arte como objecto de consumo de massas e produção mecânica, até que Haring nos resgatou desta banalização irónica. Nas galerias subterrâneas do metropolitano de NY, a Lascaux americana dos finais do século XX, Keith Haring reactivou uma reminiscência original pintando graffitis pictográficos como quem pinta animais selvagens, devolvendo à arte o simbolismo primitivo e descobrindo depois em Grace Jones, que cobriu de adereços e pinturas neo-primitivistas transformando-a numa divindade totémica, uma essencialidade original que afinal nunca se perdeu, onde o corpo se revela outra vez como objecto e instrumento privilegiado da expressão artística. Como nunca deixou de ser e já era antes de Lascaux.

07/05/04

A LIÇÃO DE GUITARRA, de BALTHUS, por BeloZebu

[ver quadro em tamanho maior: click aqui]Na senda da discussão sobre a Arte e a Pornografia e o que é uma e outra, eis aqui A LIÇÃO DE GUITARRA, (Óleo sobre Linho, 1,61x1,38cm, Colecção de Thomas Ammann, de Zurich, pintado em 1934, por Balthus - Balthasar Klossowski de Rola; Francês, 1908–2001).
E antes de mais cumpre relembrar aqui o Mefistófeles, que há tempos aqui trouxe um outro Balthus, e admirado ficou de eu ter levantado a questão da sexualidade e da perversidade imanente ao quadro por ele apresentado. E admirado fiquei eu com a admiração dele.
Balthus é também um dos meus pintores modernos preferidos, mas a obra dele, o grosso dela, é hoje quase maldita. A coisa não se encaixa no politicamente correcto reinante e nem as palavras de profunda admiração do Albert Camus o safam da fogueira que à volta dele vão ateando.
O quadro anexo é o mais polémico de Balthus. Nele como em nenhum outro ele se afirma como um pintor de sexualidades e perversidades. Há até um critico que o classificou como “pintor de lolitas com luz”.
Se em muitos dos quadros de Balthus a teens e pré-teens (estas duas palavrinhas vão-nos render 2 milhões de visitantes a partir das pesquisas do Google), são retratadas em posições de equivoco e mistério, a meio caminho entre a inocência e a perversidade, aqui a coisa é clarinha e a perversidade é plena. Este quadro levanta-nos desde logo uma interrogação fundamental: Arte ou Pornografia?

29/03/04

Santa Fé, de Robert Frank
Por Olho Vivo

Que vêm aqui? Será uma simples foto de bombas de gasolina numa estrada secundária, algures na América profunda (Santa Fé)?
Só aparentemente estamos perante uma imagem banal. O cenário lembra vagamente um pequeno cemitério, cujas campas seriam as bombas de gasolina. Curiosas campas, que mais parecem robôs mecânicos a imitarem homenzinhos com cabeças ocupadas a marcarem os preços e os litros da gasolina.
Ao alto, num estandarte que lembra vagamente a meta de uma corrida, a palavra-chave: Save. Perturbação irónica que mistura deliberadamente a metáfora religiosa (salvação) e económica (to save = economizar, poupar, amealhar). A sugestão da mortalidade implícita na lembrança das tumbas, cruza-se assim com a promiscuidade semântica economia/religião, materialismo/espiritualismo. Será por isso que esta imagem é um ícone da América capitalista e materialista. O dinheiro e, mais remotamente, o petróleo, são a Nossa Senhora de Fátima dos Americanos.
Hoje, quando as cruzadas parecem ter voltado e se fala cada vez mais no «choque das civilizações», esta foto de Robert Frank tem ainda mais força do que quando foi feita. Quem sabe se não foi assim que Moamed Ata viu a América na noite de 10 de Setembro de 2001 quando foi festejar num bar de de estrada o dia do juízo final… Só é pena que o Robert Frank nunca se tenha lembrado de ir tirar fotos para a Arábia Saudita.

19/03/04

Oh Captain, my Captain!

Cheguei a Madrid de manhã cedo e, depois de um sólido pequeno – almoço, enfiei-me no Prado a ver a exposição de um dos meus pintores – fetiche, que eu tinha como um segredo bem guardado: Caspar – David Friederich, um romântico alemão, meticuloso, alucinado e luminoso. E, porque nunca o verei vezes que cheguem até que a morte nos separe, gastei ainda meia – hora, entre encontrões, excursões e raros momentos de trégua, diante do mais fantástico quadro que alguma vez alguém pintou ou pintará: As Meninas, do Velásquez.
Junto à Plaza Mayor, procurei e descobri um restaurante basco cuja recordação guardava num canto da memória. Comi o que eles chamam de “besugo” e que eu chamo de pargo e a que os deuses chamarão milagre. Esta, para mim, é a melhor cozinha do mundo e este primeiro dia “na Europa” começara esplendorosamente: Velásquez, Caspar – David Friederich, besugo à basca e, a seguir, um Partagas Lusitano, de uma caixa de 25 que comprei à saída do restaurante e que fumei sentado na mala que carregava comigo desde que saíra do comboio, encostado a um muro da Plaza Mayor, sob um céu finalmente cinzento e prometendo chuva.
(excerto de “Viagem”, do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”, de Miguel Sousa Tavares)

09/03/04

OS COMEDORES DE BATATAS, por Simplista Complicado

Há muitos anos, sempre para mais de 16, quando andava eu nas minhas rondas de paquete jurídico, pelas aldeias dos arredores de Coimbra, dei comigo numa saleta de agricultor, modesta e apertada, onde pontificavam quatro reproduções de pinturas conhecidas. Obviamente más reproduções. Além do eterno e sempre presente Menino a Chorar, com a lágrima a escorrer, uma coisa em forma de assim, que ainda ando para descobrir de quem é, lá estava também a sempre presente Menina a Ler do Fragonard e o eterno Carro do Feno do Constable. Coisas apelativas e sempre presentes neste tipo de saletas rurais. Destoava do conjunto a presença d`Os Comedores de Batatas de Van Gogh. O quadro é uma brutalidade de negritude, rudeza e pessimismo. É uma ode ao negro, é tudo menos apelativo e destoava dos outros três. Cumpridas as formalidades do trabalho jurídico e em plena feitura das honras da casa, com o sempre presente copázio de carrascão, a que era impossível dizer não, lá expus a minha curiosidade:
- Ó Ti Custódio, aqueles três quadros são o oposto daquele ali, aquilo até mete medo, home!
- Ó Dr. aquilo é tudo coisas que nós trouxemos da Bélgica. Aqueles três “xaropes” são da minha mulher e da minha filha. Este aqui é meu. Está aqui desde que a gente regressou e é uma guerra permanente com “as minhas mulheres” mantê-lo ali. Mas dali aquilo não sai. Já me disseram que é de um tal Van Gogo e que é horrível, mas horrível ou não, aquilo é a miséria da minha família em pequeno, que eu bem me recordo de como jantávamos. Aquele é o meu pai, ali a minha mãe e só falta o número certo de filhos, porque nós éramos 9, mas aquilo é a miséria que eu passei antes de ir prá Bélgica e daquela parede aquilo não sai, doa a quem doer!
Nunca mais encontrei ninguém que gostasse tanto d`Os Comedores de Batatas comó Ti Custódio da Zouparria do Monte, e muito pouca gente é capaz de gostar de um quadro tão directo, crú e rude, brutal mesmo. Estava ali, porque o tocou e o emocionou, na sua rudeza de camponês em Portugal e de pedreiro na Bélgica. E dali não saía.
Ao contrário do pensamento comum, só muito raramente os grandes da pintura atingem o nível de obra-prima. Daquelas que basta olhar e nos fulminam a todos, pedreiro ou catedrático. Gauguin das centenas de quadros que fez, ponderava ter realizado 4 ou 5 obras-primas. O resto eram primas da obra. Com os Comedores de Batatas, Van Gogh atingiu o Ti Custódio da Zouparria e atingiu pela primeira vez a Obra-Prima.

03/03/04

A Girl and a Dog de Lucien Freud, por Andy Cap

É triste. Mas gosto da ambiguidade deste quadro de Lucien Freud. Nele tudo é ambíguo. A mulher é tão vagamente velha como nova, parece e não parece um objecto de desejo. Não sabemos bem se é uma mãe ou uma mulher da vida. Mas se é uma mãe é profundamente provocador o seio que mostra, também ele pairando algures num limbo feito de desejo e da falta dele.

O cão adormecido, tranquilo e dócil é um símbolo masculino. A sua inércia satisfeita pode ser lida como uma espécie de rendição viril. O cão é feliz, tudo o que deseja é estar ao pé desta mulher, seguro e protegido como uma criança pequena. Metáfora de uma felicidade contraditória e doméstica que se consuma na apatia do sofá, tão próxima da morte. A felicidade do cão – vê-se-lhe nos olhos baços - é uma felicidade triste, pesada como o tempo.

Reparo ainda na corda do roupão que mais parece a serpente bíblica, mas estranhamente caída, vergada como o cão e como a própria mulher. O cordão é a chave do corpo da mulher, escondido e revelado – tenuemente revelado, mais uma vez – pelo roupão. O cordão/serpente é ainda a continuação do corpo dela, a serpente é ainda a mulher, de certa maneira, e daí aquela cumplicidade latente. Mas também a serpente está como que abatida. Não há aqui indícios de vitalidade. Todos – o cão, a mulher, a serpente - parecem ter desistido, no mundo amarelado deste quadro, em que até os sofás estão protegidos do pó por grossas tecidos, dos que se usam nas casas abandonadas. Gosto deste quadro de Lucien Freud. Gosto da sua ambiguidade sem fim.