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04/07/10

Time, por Leonardo

Em vez de anos e de meses que são coisas mais ou menos anónimas, devíamos medir a nossa vida pelas coisas boas que nela acontecem. Por exemplo: uma pessoa via o Zé Tó na rua e dizia «olha, lá vai o Zé Tó. Tá conservado. Não parece mas já tem 100 idas ao Tromba Rija e 200 ao Manel Júlio. E uns 3000 cohibas fumados, mais coisa menos coisa».

Imaginem que nos encontrávamos com aquela antiga namorada da adolescência. Pensem no diálogo: «Mas tás na mesma. Parece que ainda só tens 150 quecas (mesmo que o aspecto dela denuncie prá aí umas 15000).»
Normalizar a idade, reduzindo-a à escala neutra dos anos, meses, semanas, horas e minutos é que não. Tá mal! A escala subjectiva da medida do tempo permitiria até um acréscimo de informação. Já imaginaram como seria fisicamente o Acácio, rapaz prás suas 15 idas ao Vila Lisa, 20 namoradas, 3 garrafas de Barca velha e 5 Mundiais de Futebol ?Ou o António com 35 campos de golf, 7 dos quais estrangeiros, num total de 500 green fees, 10 pratos de trufas e 5 toneladas de marisco? Ou o Francisco 5 vezes nas Caraíbas, 200 linhas de coca e 30 rave partys?

Imaginamo-los mais facilmente do que se disséssemos simplesmente que uns têm 37 e os outros 42 ou 24 anos ou não é? É muito mais informativo, se contarmos a idade em coisas boas - uma pessoa imagina logo o Zé Tó, por exemplo, tal e qual como ele é com uma barriga proeminente, ar bonacheirão e charuto a poluir o ambiente. Mas dizer de alguém que tem 25 anos? De que adianta? Afinal existem milhões de pessoas que têm 25 anos, mas apenas uns quantos exactamente com 3 casamentos, 11 mundiais de futebol, 20000 euros e 2 viagens à Austrália.

23/06/10

O Eterno Retorno, por Dalai Larai

Uma das noções que sempre me intrigou no pensamento de Nietzsche foi a do Eterno Retorno. O autor refere-se desenvolvidamente a esta noção no seu famoso Assim Falou Zarastustra. Trata-se de uma das ideias mais obscuras e de digestão filosófica mais difícil da obra do grande filósofo alemão. A resistência do Eterno Retorno às categorias racionais da Filosofia Ocidental é radical. E geralmente esta ideia é deixada na sombra pelos especialistas, com uma espécie de complacência tolerante, como se se tratasse de um devaneio poético do filósofo. No entanto Nietzsche sempre considerou esta intuição como uma das mais importantes da sua filosofia.

Como entender a mais misteriosa das intuições de Nietzsche? De um modo mais romântico e light como o faz Irving Yalom em Quando Nietzsche Chorou, ficção inspirada na figura do filósofo, mas sem pretensões de rigor biográfico ou ideológico? Ou de uma forma mais pesada e existencialista como decorre da leitura de Eugen Fink, um dos maiores intérpretes do trabalho de Nietzsche?

Segundo a versão mais ou menos light de Yalom, o Eterno retorno significa uma valorização extraordinária de todas as nossas escolhas, da mais simples à mais transcendente. Porque se tudo se repete eternamente, isso quer dizer que temos uma grande responsabilidade na opção que fazemos em cada momento: é que aquilo que eu escolher viver agora, vou vivê-lo para todo o sempre. Opto por comer mais um doce que sei que me provocará uma dor de barriga tremenda? Então estou condenado a viver essa dor durante toda a eternidade. Se não o comer evitarei uma dor eteerna e não só neste momento. Em cada opção carregamos a responsabilidade de toda a eternidade. Consequência desta concepção: uma espécie de revalorização eufórica do momento. Aproveita o dia, vive cada momento plenamente pois ele será repetido para todo o sempre.

Eugen Fink, um dos maiores comentadores de Nietzsche, por sua vez, encara o Eterno Retorno de outra maneira. Menos romântica, mas baseada na leitura efectiva e documentada do filósofo alemão, em particular em Assim Falou Zaratustra. Segundo Fink o sentido do Eterno Retorno relaciona-se com uma concepção de infinitude do tempo. O passado é para Nietzsche infinito, tal como o futuro. Isto quer dizer que todas as possibilidades do acontecer temporal já se passaram e passar-se-ão forçosamente no futuro. Se o tempo até ao presente tem uma extensão infinita isso quer dizer que a causa A que produziu o efeito B já se passou, mas igualmente a causa Não A que produziu o efeito Não B. E no futuro a mesma coisa.

Portanto todas as possibilidades que podem ocorrer vão forçosamente ocorrer quer no passado quer no futuro. No passado eu já escrevi este texto e voltarei a fazê-lo de novo no futuro; mas também já aconteceu o computador pifar e impedir-me de o fazer e, portanto, haverá também um futuro em que eu não escreverei este texto. Existe um passado em que Portugal deu 7-0 à Coreia do Norte que se repetirá eternamente, assim como um outro em que seremos nós a levar os mesmos 7 da Coreia. E no futuro voltaremos a viver as duas situações...

A visão de Yalom acaba por sublinhar o valor inestimável do momento. Desemboca numa espécie de carpem diem no qual a ideia de liberdade é valorizada (mas como é que eu posso ser livre se o meu presente já está determinado por uma escolha que eu já fiz algures no passado? Como conciliar a liberdade da escolha com a pré-determinação de um passado que já aconteceu, que eu não posso mudar e que, fatalmente, se repetirá?).

A de Fink, por sua vez, conduz a uma certa indiferença existencial. Fink não afirma um determinismo radical - eu não estou condenado a fazer algo pré determinado, pelo contrário eu tenho infinitas possibilidades de escolha. Mas, uma vez que toda a multiplicidade infinita de existências temporais ocorreu, ocorre e ocorrerá, forçosamente, que pertinência terá a minha liberdade? Afinal escolher uma coisa ou o seu contrário acaba por ser relativamente indiferente porque todas as possibilidades têm que ocorrer numa eterna repetição. Se tudo o que pode acontecer já aconteceu e acontecerá, de que nos serve a liberdade? Tanto nos faz escolher A como B... Ambos aconteceram e acontecem eternamente. Há um passado em que já me saiu o euro milhões, mas há um outro em que eu sou mendigo. O valor da nossa vida é, pois, muito relativo e devemos, talvez, digo eu, encará-la com alguma indiferença.

Yalom e Fink - duas leituras muito diferentes do Eterno Retorno Nietzschiano. Não sei de qual me aproximo mais, talvez da de Fink. O que sei é que não é fácil discutir este assunto à luz das categorias filosóficas racionais. Estamos no limiar da poesia, da religião (as ressonâncias budistas do Eterno Retorno estão aqui presentes), até do misticismo. É por isso que Niezsche sempre foi, filosoficamente, um apátrida.