«Em excelente forma intelectual, Almeida Santos procura reflectir sobre as mudanças políticas e económicas que percorrem o mundo e que, inevitavelmente, segundo o autor, provocarão reconfigurações do poder global. O autor propõe mesmo uma reflexão sobre o fim da civilização ocidental e do modelo capitalista ultraliberal, chamando à atenção para a crise de valores»
In Público, a propósito do livro “Que Nova Ordem Mundial?”, de António de Almeida Santos
O mito é uma das características mais interessante das sociedades humanas. Normalmente a mitologia é relativa ao universo religioso, mas também há mitos seculares. O biólogo e pensador britânico Richard Dawkins inventou para estes a designação feliz de “
memes”. Um meme é, basicamente, uma ideia que se torna tendência e ganha foros de certeza.
O pequeno apontamento citado no início (extraído do suplemento de economia de ontem do Público) refere-se a um novo livro do pardo cardeal do PS e chamou-me à atenção, não por causa do livro em si, que nem li nem pretendo fazê-lo, mas porque expressa um dos memes mais frequentes da contemporaneidade. Refiro-me ao mito laico da “crise de valores”, que anda regra geral a par com o mito da “insegurança” ou de que “antigamente é que era bom” e que se reflecte em pormenores como o de Salazar ter hoje, em plena democracia, um índice de popularidade que provavelmente não tinha no seu tempo.
O meme é um conceito que se dissemina pela sociedade como um vírus. A certo ponto, toda a gente, com os jornalistas (a vanguarda memética) à cabeça, o aceita e propaga como se fosse indiscutível. Repare-se, por exemplo, que o autor da breve resenha citada não tem qualquer dúvida: Almeida Santos chama à atenção para a crise de valores. Já quando Almeida Santos expõe o óbvio (que as mudanças políticas e económicas que percorrem o mundo provocarão reconfigurações do poder global*), o redactor do Público sente-se na necessidade de ressalvar que é “segundo o autor”. Já em relação à “crise de valores”, apesar de ser algo que está longe ser óbvio, não é apresentada como uma tese de Almeida Santos (“segundo o autor”), mas sim como uma característica inequívoca da modernidade para a qual o autor alerta.
O meme da crise dos valores não é novo. Já vem da antiguidade e todas as gerações assumem esse discurso, de cariz saudosista. Sócrates, por exemplo, lamentava-se imenso acerca da decadência moral dos jovens da sua altura na antiga Grécia e são inúmeros os escritores ou filósofos que ao longo da História se vêem ocupando desta problemática da “crise de valores“. Como se algures para trás no tempo tenha existido um espécie de era de ouro que se perdeu. O passado (esse local mitológico) sempre foi realmente um sítio fantástico, sobretudo quando a memória é curta. Como se andássemos, de geração em geração, constantemente em busca de uma espécie de paraíso perdido que nunca existiu.
Almeida Santos e o redactor do Público não fazem mais do que perpetuar o meme, dando de barato, erradamente acho eu, que os “valores” estão em crise, sobretudo, o que é mais bizarro, na chamada civilização ocidental - onde o que a realidade concreta, presente e histórica, nos mostra é que os “valores“ nunca estiveram tão bem e nunca foram tão valorizados. Apesar de tudo.
E de que “valores” fala esta gente afinal? O discurso da crise dos valores é frequente, por exemplo, pelas religiões. A Igreja Católica e os muçulmanos passam a vida a lamentar isso mesmo - há centenas de anos que o fazem, de resto, ou mesmo há milhares se tivermos em conta as narrativas do Velho Testamento - onde Deus, debalde, é suposto ter resolvido esse dilema com os lendários genocídios de Sodoma e Gomorra e do dilúvio. Os massacres divinos não resolveram coisa nenhuma e a “crise de valores” persiste. E isso, a lamentação dos religiosos, compreende-se, porque reflecte a eterna impossibilidade de conciliação entre a doutrina e a condição humana. Na óptica dos estritos padrões morais cristãos ou muçulmanos o mundo esteve, está e há-de estar perpetuamente mergulhado em “crise de valores”. É essa dinâmica irreconciliável, aliás, que alimenta a narrativa apocalíptica e redentora dos monoteísmos em busca de clientela. Já é mais estranho quando gente supostamente mais esclarecida e secularizada (como os almeidas santos e os jornalistas) embarca nessa lógica falaciosa, que radica, digo eu, na ignorância. Principalmente na ignorância do passado. Mas também na incapacidade de olhar para o mundo hodierno sem as palas da ideologia e da teologia.
Os almeidas santos e os jornalistas referem-se, regra geral, a outra ordem de valores, seculares e republicanos, alguns dos quais coincidem com princípios judaico-cristãos (que estão longe de serem originais, muitos séculos antes de Cristo já outras sociedades e religiões os advogavam), mas que são basicamente herança do iluminismo e do humanismo, da dinâmica cultural, social e económica que arrancou com a expansão ultramarina europeia e com a Renascença, a partir sobretudo do século XVI e que desembocou, no século XVIII (Revolução Francesa, independência dos EUA, etc.) com a republicanização das nações. Basicamente, quando a separação entre Estado e a Igreja finalmente se concretizou. Em termos simplistas, para não tornar o post mais maçudo, este processo histórico de secularização humanista da chamada “civilização ocidental”, acabou por resultar na democracia, nas liberdades cívicas e políticas, no Estado de Direito, no primado da ética e, sobretudo, no conjunto de princípios (valores) condensados na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
A verdade, para além do histerismo mediático, é que nem é preciso conhecer muito de história para perceber, por exemplo, que nunca houve tanta preocupação com esta questão dos “valores“, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial. Em comparação com a miséria, a pestilência e a violência indiscriminada e quotidiana de séculos passados (incluindo a violência completamente discricionária e impune do Estado ou dos poderes religiosos e militares sobre o cidadão), das guerras constantes entre as nações e feudos europeus, da supremacia dos senhores da guerra, os tempos modernos são os mais pacíficos, prósperos e éticos de sempre. Os divertimentos públicos são um exemplo interessante: Há uns séculos atrás as famílias saiam ao fim de semana para assistir a enforcamentos, apedrejamentos e decapitações. Hoje, vamos à bola. Ou ao teatro, ou ao cinema. Ou passear no parque com os miúdos. Miúdos estes que já não se educam à estalada e ao pontapé, mas com muito amor e muito diálogo. Até há umas décadas atrás, as mulheres também eram disciplinadas à estalada e mal podiam abrir a boca. Hoje não há, e bem, quem as cale. Até há umas décadas atrás, um desastre natural era um castigo de Deus que, mal ou bem, se aceitava passivamente. Hoje, um terramoto mobiliza o apoio de milhões de pessoas, particulares, governos ou ONG’s, em movimentos de solidariedade internacional completamente impensáveis no passado.
Sendo óbvio que a explosão demográfica pós-industrial arrastou consigo inúmeros problemas e desafios, sobretudo ao nível das grandes cidades, também não é menos certo que, quer a nível estatal quer a nível associativo ou comunitário, ou mesmo online (o projecto
Kiva é exemplar), se multiplicam os projectos e movimentos de solidariedade social. É também óbvio que persistem desigualdades sociais gritantes, mas a magnitude de pobreza não se compara com os níveis trágicos de antigamente, quando os únicos mecanismos de apoio aos mais desfavorecidos, às minorias ou aos deficientes, quando existiam, se limitavam à caridade das instituições religiosas. Basicamente, a miséria e a violência são fenómenos hoje em dia minoritários e não endémicos, generalizados, como eram até tempos muito recentes.
Tudo isto daria pano para muitas mangas, mas para atalhar, em apoio à minha tese, aconselharia que se ouvissem, por exemplo, estes dois senhores, que metem a “excelente forma intelectual” da eminência parda do PS num bolsito: São eles Stephen Pinker e Luc Ferry e podem ser ouvidos
aqui e
aqui, respectivamente. O primeiro fala do mito e da história da violência. O segundo fala da importância crescente da cultura do afecto nas famílias modernas.
* a este propósito, aconselharia (outra vez) por exemplo este documento norte-americano, que define alguns cenários para as próximas décadas