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12/04/10

Aqueles Cujo Nome Não Pode Ser Pronunciado, por Gibson

Ontem o site do excelente semanário Sol (bem haja pela publicação das escutas dos boys) publicava a seguinte notícia:

«Quatro pessoas baleadas durante casamento em Coimbra
Quatro pessoas ficaram feridas na última madrugada num tiroteio numa boda de casamento nos arredores de Coimbra, disseram hoje à agência Lusa fontes policiai.»

Já leram? Pronto, agora antes de continuarem a ler o post digam lá o que pensaram. Sinceramente, sem censura, sejam honestos. Já pensaram? Pois, certamente pensaram o mesmo que eu e que os milhares de leitores desta notícia. Custa admitir mas a palavra que se acendeu no cérebro de qualquer pessoa que leu esta notícia foi, como é evidente, «ciganos».

Hoje o diário conimbricense dava a mesma notícia. Assim:

«Vários tiros puseram termo (...) a um casamento de etnia cigana, etc...»

Viram a diferença? Pois é, o Sol optou pela formulação politicamente correcta e não noticiou a etnia dos indivíduos envolvidos. As Beiras fê-lo. Qual a opção correcta? O Sol sonegou informação importante. Ontem li esta notícia, tive quase a certeza de que eram ciganos, quis saber se o eram, mas a notícia era omissa. E era importante, para mim que sou de Coimbra, sabê-lo. Foi irritante ter a sensação, quase a certeza de que aquilo foi com ciganos, mas não ter possibilidade de o saber.

Hoje As Beiras confirmaram o meu «quase» de ontem à noite. Na notícia das Beiras foi previligiada a informação em detrimento da censura politicamente correcta. Gosto do Sol. Mais que das Beiras. Mas em relação a esta opção editorial, não tenho dúvidas em afirmar, por mais chocante que isto possa parecer a algumas sensibilidades mais delicadas, que prefiro o tratamento que as Beiras deram a esta notícia. O dever de informar, mesmo contra o pensamento instituído, ainda continua a ser um valor fundamental no jornalismo.

31/03/09

MARROCOS, A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E O AURÉLIO DAS TINTAS, por Heresiarca



Hoje no Público vinha um artigo meio escandalizado, porque o Reino de Marrocos expulsou três religiosas católicas que foram apanhadas em plena acto de penetração missionária. Perorava depois o artigo sobre a falta de liberdade religiosa em Marrocos.

Ora, eu acho isto muito bem. Proibição e expulsão dos missionários. Todos. São leis benditas que nós devíamos copiar do excelso reino das areias. Os camelos somos nós e não eles. Essas leis são sábias e impedem o proselitismo acéfalo desse exército de marteladores bíblicos, cuja especialidade é tocar campainhas às 10 da matina de domingo e às 11 da madrugada de sábado, acordando do sono bendito o devoto ao Senhor.

Quantos de vocês em vez de açular o rottweiler ao casal de velhos Jeovás, não gostariam de uma leizinha destas, que vos permitisse manter o corpanzil no remanso do leito conjugal e pegar no telemóvel a chamar a GNR: “ - ó Sargento é vir depressa com a brigada que anda aqui uma dessas feras à solta!, rápido senão eles fogem! Tragam as redes e os açaimes”.

Quantos de vocês não prefeririam de ter uma patrulha da PSP a controlar as hordas em parelha de Elders Mórmones da Igreja dos Santos dos Últimos Dias que vos destroem o sossego do disfrute da fruta da amásia, ainda por cima noite e madrugada adentro.

Isto é violência religiosa grave e devia ser controlada. E há casos mais graves ainda. Extremos. Há tempos em plena festa religiosa cristã cá do burgo a milf da Cremilde lá fez as suas caçoiladas de carne assada, que logo na primeira saída do forno regalaram o crente do marido, o Aurélio das Tintas.

No Sábado de festa, o incauto do Aurélio não estava em casa. E perguntam vocês: quem é que apareceu com toda a violência, à bruta e à falsa fé à porta da boazinha e inocente alma de Deus da Cremilde e a desviá-la do bom caminho? Bem perguntado. E eu respondo: nada mais, nada menos, que uma brigada de dois latagões de fatiota engravatada enviados pelo demo que dá pelo nome de Igreja Mórmon Dos Santos dos Últimos Dias. Os latagões, loiraços de olho azul e português americanado, enlevaram a milf Cremilde, que tratou de lhes beber a palavra desencaminhadora e os foi assentar na cozinha. Pior. Lembrou-se em agradecimento ao Senhor pelo envio de tão belos exemplares, de lhes dizer que não se fizessem rogados no caçoilame em exposição.

E como esta gente bebe do bom samaritano e dessas patranhas da oferenda e do lava-pés, dos ungidos e do vinde a mim os esfomeados, e do corpo de Cristo, etc coiso e tal, limpou a primeira caçoila e avançou para a segunda. A boa da Cremilde que encheu um olho com os loiraços, viu logo que lhe ia sobrar algo para o outro, e ainda titubeou, mas não teve coragem de cortar a palavra ao senhor.

É bem de ver que quando o bom do Aurélio das tintas chegou para o almoço de festa, carne assada viste-la, que já ia a caminho do Utah. E o puro do Aurélio não gostou e a Cremilde também não, já que o Aurélio das Tintas lhe afinfou um bom par de bolachadas, que lhe fez dum lado um olho azul e do outro um alto na testa, uma vez que foi bater com cabeça nos caçoilos vazios. E digam lá vocês se não há aqui uma espécie de justiça divina.

É evidente que hoje em dia o que se berra e aparece na estatística é violência doméstica e aqui del-rey que o marido afinfou na mulher. Tá mal. Isto é um caso claro de violência religiosa. Violência religiosa derivada apenas e tão só do facto deste manso país permitir que essa gente ande por aí a cirandar, a moer o juízo ao pessoal com as penas do inferno deles. Já não basta o nosso quando um temente a Deus chega a casa e se dá com as caçoilas vazias!

No fim de semana seguinte os Elders – himselfs – voltaram à casa da Cremilde. Acontece que o Aurélio das Tintas estava à coca. E aí houve de facto violência doméstica. Grave e com latas de tinta à mistura. Porque a religião é uma coisa colorida.

Mas repito, faz-nos falta uma leizita que evitasse este proselitismo desenfreado que por aí anda. Dormíamos mais e melhor e o Aurélio podia abrandar a vigilância.

18/03/09

Como Defender-se de um Ataque de Mitras, por Maldini

Numa altura em que os números da insegurança no nosso país disparam para valores assustadores, o tapor sente que é sua obrigação fazer qualquer coisa para combater o flagelo. Assim, com a devida vénia, reproduz-se o excelente post que se segue (daqui:http://vaipaselva.blogspot.com/), baseado num facto verídico, repito, verídico e que nos dá preciosas indicações sobre o que fazer em caso de ataque de mitras. Leia-o com atenção: poderá fazer toda a diferença na sua vida.

Vou contar O segredo para te safares das abordagens agressivas dos mitras..

Um dia, houve um jantar de natal (já não me lembro quando), mas depois ia à sessão da meia-noite ver o Hulk com o john Terry, o Macaco e o dono dos tecidos. O dono dos tecidos já estava à espera no dv.. Vou eu o terry e o macaco a descer a Elisio de Moura e eles decidem que contornar um prédio era mais rápido. Conclusão, esconderam-se e acabei sozinho na minha caminhada para o DV. Estava a passar as anexas na rua entre o DV e a ESEC estavam à vontade 25 mitras! (era naquela altura da onda de assaltos, deviam estar a ver o que é que cada um tinha gamado). Mal me vêm um dirige-se a mim a dizer: "Kid anda cá!" e eu: "anda cá anda" (pensei para mim..) e não fiz mais nada..

DESATEI A CORRER PELA RUA A BAIXO sem olhar para trás até ao Dolce Vita..

=D

14/03/09

A crise dos valores, por Memelogista

«Em excelente forma intelectual, Almeida Santos procura reflectir sobre as mudanças políticas e económicas que percorrem o mundo e que, inevitavelmente, segundo o autor, provocarão reconfigurações do poder global. O autor propõe mesmo uma reflexão sobre o fim da civilização ocidental e do modelo capitalista ultraliberal, chamando à atenção para a crise de valores»

In Público, a propósito do livro “Que Nova Ordem Mundial?”, de António de Almeida Santos


O mito é uma das características mais interessante das sociedades humanas. Normalmente a mitologia é relativa ao universo religioso, mas também há mitos seculares. O biólogo e pensador britânico Richard Dawkins inventou para estes a designação feliz de “memes”. Um meme é, basicamente, uma ideia que se torna tendência e ganha foros de certeza.

O pequeno apontamento citado no início (extraído do suplemento de economia de ontem do Público) refere-se a um novo livro do pardo cardeal do PS e chamou-me à atenção, não por causa do livro em si, que nem li nem pretendo fazê-lo, mas porque expressa um dos memes mais frequentes da contemporaneidade. Refiro-me ao mito laico da “crise de valores”, que anda regra geral a par com o mito da “insegurança” ou de que “antigamente é que era bom” e que se reflecte em pormenores como o de Salazar ter hoje, em plena democracia, um índice de popularidade que provavelmente não tinha no seu tempo.

O meme é um conceito que se dissemina pela sociedade como um vírus. A certo ponto, toda a gente, com os jornalistas (a vanguarda memética) à cabeça, o aceita e propaga como se fosse indiscutível. Repare-se, por exemplo, que o autor da breve resenha citada não tem qualquer dúvida: Almeida Santos chama à atenção para a crise de valores. Já quando Almeida Santos expõe o óbvio (que as mudanças políticas e económicas que percorrem o mundo provocarão reconfigurações do poder global*), o redactor do Público sente-se na necessidade de ressalvar que é “segundo o autor”. Já em relação à “crise de valores”, apesar de ser algo que está longe ser óbvio, não é apresentada como uma tese de Almeida Santos (“segundo o autor”), mas sim como uma característica inequívoca da modernidade para a qual o autor alerta.

O meme da crise dos valores não é novo. Já vem da antiguidade e todas as gerações assumem esse discurso, de cariz saudosista. Sócrates, por exemplo, lamentava-se imenso acerca da decadência moral dos jovens da sua altura na antiga Grécia e são inúmeros os escritores ou filósofos que ao longo da História se vêem ocupando desta problemática da “crise de valores“. Como se algures para trás no tempo tenha existido um espécie de era de ouro que se perdeu. O passado (esse local mitológico) sempre foi realmente um sítio fantástico, sobretudo quando a memória é curta. Como se andássemos, de geração em geração, constantemente em busca de uma espécie de paraíso perdido que nunca existiu.

Almeida Santos e o redactor do Público não fazem mais do que perpetuar o meme, dando de barato, erradamente acho eu, que os “valores” estão em crise, sobretudo, o que é mais bizarro, na chamada civilização ocidental - onde o que a realidade concreta, presente e histórica, nos mostra é que os “valores“ nunca estiveram tão bem e nunca foram tão valorizados. Apesar de tudo.

E de que “valores” fala esta gente afinal? O discurso da crise dos valores é frequente, por exemplo, pelas religiões. A Igreja Católica e os muçulmanos  passam a vida a lamentar isso mesmo - há centenas de anos que o fazem, de resto, ou mesmo há milhares se tivermos em conta as narrativas do Velho Testamento - onde Deus, debalde, é suposto ter resolvido esse dilema com os lendários genocídios de Sodoma e Gomorra e do dilúvio. Os massacres divinos não resolveram coisa nenhuma e a “crise de valores” persiste. E isso, a lamentação dos religiosos, compreende-se, porque reflecte a eterna impossibilidade de conciliação entre a doutrina e a condição humana. Na óptica dos estritos padrões morais cristãos ou muçulmanos o mundo esteve, está e há-de estar perpetuamente mergulhado em “crise de valores”. É essa dinâmica irreconciliável, aliás, que alimenta a narrativa apocalíptica e redentora dos monoteísmos em busca de clientela. Já é mais estranho quando gente supostamente mais esclarecida e secularizada (como os almeidas santos e os jornalistas) embarca nessa lógica falaciosa, que radica, digo eu, na ignorância. Principalmente na ignorância do passado. Mas também na incapacidade de olhar para o mundo hodierno sem as palas da ideologia e da teologia.

Os almeidas santos e os jornalistas referem-se, regra geral, a outra ordem de valores, seculares e republicanos, alguns dos quais coincidem com princípios judaico-cristãos (que estão longe de serem originais, muitos séculos antes de Cristo já outras sociedades e religiões os advogavam), mas que são basicamente herança do iluminismo e do humanismo, da dinâmica cultural, social e económica que arrancou com a expansão ultramarina europeia e com a Renascença, a partir sobretudo do século XVI e que desembocou, no século XVIII (Revolução Francesa, independência dos EUA, etc.) com a republicanização das nações. Basicamente, quando a separação entre Estado e a Igreja finalmente se concretizou. Em termos simplistas, para não tornar o post mais maçudo, este processo histórico de secularização humanista da chamada “civilização ocidental”, acabou por resultar na democracia, nas liberdades cívicas e políticas, no Estado de Direito, no primado da ética e, sobretudo, no conjunto de princípios (valores) condensados na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

A verdade, para além do histerismo mediático, é que nem é preciso conhecer muito de história para perceber, por exemplo, que nunca houve tanta preocupação com esta questão dos “valores“, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial. Em comparação com a miséria, a pestilência e a violência indiscriminada e quotidiana de séculos passados (incluindo a violência completamente discricionária e impune do Estado ou dos poderes religiosos e militares sobre o cidadão), das guerras constantes entre as nações e feudos europeus, da supremacia dos senhores da guerra, os tempos modernos são os mais pacíficos, prósperos e éticos de sempre. Os divertimentos públicos são um exemplo interessante: Há uns séculos atrás as famílias saiam ao fim de semana para assistir a enforcamentos, apedrejamentos e decapitações. Hoje, vamos à bola. Ou ao teatro, ou ao cinema. Ou passear no parque com os miúdos. Miúdos estes que já não se educam à estalada e ao pontapé, mas com muito amor e muito diálogo. Até há umas décadas atrás, as mulheres também eram disciplinadas à estalada e mal podiam abrir a boca. Hoje não há, e bem, quem as cale. Até há umas décadas atrás, um desastre natural era um castigo de Deus que, mal ou bem, se aceitava passivamente. Hoje, um terramoto mobiliza o apoio de milhões de pessoas, particulares, governos ou ONG’s, em movimentos de solidariedade internacional completamente impensáveis no passado.

Sendo óbvio que a explosão demográfica pós-industrial arrastou consigo inúmeros problemas e desafios, sobretudo ao nível das grandes cidades, também não é menos certo que, quer a nível estatal quer a nível associativo ou comunitário, ou mesmo online (o projecto Kiva é exemplar), se multiplicam os projectos e movimentos de solidariedade social. É também óbvio que persistem desigualdades sociais gritantes, mas a magnitude de pobreza não se compara com os níveis trágicos de antigamente, quando os únicos mecanismos de apoio aos mais desfavorecidos, às minorias ou aos deficientes, quando existiam, se limitavam à caridade das instituições religiosas. Basicamente, a miséria e a violência são fenómenos hoje em dia minoritários e não endémicos, generalizados, como eram até tempos muito recentes.

Tudo isto daria pano para muitas mangas, mas para atalhar, em apoio à minha tese, aconselharia que se ouvissem, por exemplo, estes dois senhores, que metem a “excelente forma intelectual” da eminência parda do PS num bolsito: São eles Stephen Pinker e Luc Ferry e podem ser ouvidos aqui e aqui, respectivamente. O primeiro fala do mito e da história da violência. O segundo fala da importância crescente da cultura do afecto nas famílias modernas.

* a este propósito, aconselharia (outra vez) por exemplo este documento norte-americano, que define alguns cenários para as próximas décadas

12/05/06

De Fátima a Coimbra: uma breve trajectória pela parolice nacional. Por Pequeno Burguês (PBatatum)

Andam as estradas portugueses cheias de peregrinos. Vão para Fátima. Com um prudente e fosforescente colete verde, caminham imprudentemente pelas estradas de Portugal. Pessoalmente, e sem que daí se retire qualquer ofensa, acho lamentável. Primeiro porque é perigoso. A peregrinação atenta contra a integridade física dos próprios e dos utentes da estrada. Segundo, porque é improdutivo. Nenhum bem vem daqui à sociedade. Terceiro, porque entendo a religião na sua dimensão íntima e espiritual. Acho que a fé, ainda que possa e deva ter expressão institucional e social, é essencialmente uma vivência interior que dispensa o suplício exibicionista e a auto-punição corporal. Finalmente, porque acho estas manifestações típicas de uma mentalidade pré-moderna em que a vontade humana se submete ao desígnio da Providência e se torna, desse modo, comprometedor da livre iniciativa e do livre arbítrio, do mérito e da criatividade. Foi contra estes condicionalismos que se fez a modernidade. O mérito individual e a soberania da vontade em vez da subordinação a um desígnio transcendente, o empreendedorismo contra o estaticismo orgânico de uma sociedade sacralizada, o trabalho como via de ascensão social. De preferência o trabalho intelectual, pois que o ofício mecânico era visto como vil. A lavoura era sinal de uma sujeição ao dono da terra. O ofício artesanal era sujo. As artes liberais permitiam as mãos limpas e facultavam a ascensão social, para além de promoverem a mobilidade ascendente pelo exercício do mérito e do trabalho. O mérito individual, bem como a dignidade de um trabalho que já é intelectual e não manual são dois valores que caracterizam sociologicamente a mentalidade burguesa. O desprezo para com a ordem nobiliárquica é outro traço desta mentalidade. Além disso, verberam o clero e a religião que consideram manifestações de obscurantismo, instrumentos de domínio social e obstáculos ao progresso. Encaram a exibição da fé como sinal de atraso e dependência. Este vanguardismo burguês, radical, ateu e jacobino, não tardará a moderar os seu discurso. A razão é política e cultural. Prende-se com aquilo a que os revolucionários chamaram a "traição burguesa". Ou seja, as classes médias, na sua esmagadora maioria provenientes dos estratos médios do campesinato e do operariado suburbano, viram na escola e no estudo universitário um irrecusável processo de ascensão e afirmação social. Almejavam um emprego na administração pública ou nas profissões liberais. Buscavam um ofício que lhes conferisse prestígio social e dignidade intelectual que os diferenciasse do grosso popular. Por isso, ao ódio inicial que endossavam à nobreza e ao corpo clerical, dirigem agora o desprezo e a sobranceria para as classes populares. Ao mesmo tempo, nas esferas mais elevadas, buscam título de nobreza e elegem as virtudes cristãs como modelo de conduta social. Uma nobreza reformada e um idealismo cristão anti-ultramontano. É neste contexto que a Universidade de Coimbra se torna um dos principais meios de ascensão social desta pequena burguesia que procura desesperadamente a realização pessoal pela ascensão social. Basta ler os livros de Camilo e de Eça para se perceber como aos intelectuais este tipo social causava repugnância e era alvo das maiores ironias. O bacharel de Direito é, para Eça mas também para Torga, o exemplo mais ridicularizado de uma mentalidade mesquinha e ensimesmada.
A partir dos anos 60, apesar do Estado Novo, a Universidade iniciou um processo de massificação que encontraria o seu auge nos anos dourados do cavaquismo. Floresceram universidades em todas as esquinas. Este facto, aliado ao crescimento económico, permitiu que as famílias possuíssem os meios financeiros para enviar os filhos para a Universidade. Em Coimbra, retomaram-se as tradições académicas, nas restantes universidades, órfãs de tradição, copiou-se o modelo conimbricense. Os trajes, as praxes e as festividades académicas que antes eram prática de grupos minoritários massificam-se agora a todas as cidades e a todas as instituições. Públicas ou privadas, universitárias ou politécnicas. Podemos dizer que se consumou um processo iniciado a partir da 2ª metade do século XIX, acelerado na República e irremediavelmente confirmado a partir da década de 60.
Estes jovens estudantes, naturalmente, não escondem o orgulho. Eles resgataram séculos de submissão. Eles são a razão de ser do sacrifício das famílias. Os pais não regateiam recompensas. É o carro, os livros, a mesada, a capa e batina, o computador portátil e o que mais calhe. Que a contenção não comprometa o futuro dos filhos. E os pais vão ao Cortejo da Queima, quando a estadia coimbrã se aproxima do final, largar uma lágrima de comoção. Os jovens quartanistas vêm para o espaço público alardear o novo estatuto. Distanciam-se da proveniência social de origem, demarcam-se relativamente ao gosto popular, exibem erudição, mostram os livros e as sebentas, encaixilham o diploma, encadernam as fotografias, mitificam a juventude num culto geracional que os auto-engrandece e auto-glorifica. Constroem uma memória triunfante. Vão ao baile de gala, cópia abastardada dos ambientes dos salões aristocratas. Deixam-se fotografar abraçados a moças trigueiras enfiadas em tules espalhafatosos e que não conseguem ocultar o seu digno estatuto de origem. Basta ver o «Diário de Coimbra» de hoje com o seu suplemento social dedicado ao evento. Fazem álbuns fotográficos que um dia mostrarão aos filhos, bem como os versos e as anedotas. Rir-se-ão, um dia, todos à lareira. O avô, o filho e o neto, uma dinastia de bacharéis por Coimbra! Que lindo é sonhar! O Cortejo é a ocasião para todos os excessos. É uma celebração colectiva, orgíaca, que, pelo excesso etílico e já não pelo excesso místico, como em Fátima, conduz a um êxtase, um adormecer da conscência que torna a experiência única e marcante.
O sonho é que os filhos ingressem na mesma Academia, que triunfem igualmente, numa estratégia de sucessão geracional equiparável à dos burgueses que deixam a presidência do conselho de administração ao filho dilecto. Assim se vence a morte e se conquista um espaço na memória futura. Pelo caminho, dão a mão às meninas da casa Elísio de Moura, numa muito digna e cristã prática pública da caridade, mostrando deste modo que o jacobinismo burguês está ultrapassado e que a síntese com os velhos alicerces da sociedade está retomado. Mesmo que abdiquem das práticas dominicais, das confissões e das devoções mais maçadoras, continuarão a casar pela igreja com cerimónias de arromba devidamente documentadas para a posteridade e a baptizar os pequerruchos.
O Cortejo da Queima das Fitas, visto muitos anos depois, alimenta as saudades. «Saudades de Coimbra»... Ó Meu Deus, as saudades de Coimbra, o Choupal e o Penedo da Saudade... Tornam-se estes lugares-comuns, de um sentimentalismo pacóvio, num traço de identidade desta mentalidade pequeno-burguesa. Perdoam-se os excessos da juventude de uma forma paternalista e condescendente. «São jovens, como nós fomos». Eu acho isto, mais uma vez, lamentável. Que me perdoem os adeptos da farra. Eu não gosto! Gosto da genuinidade do S. João do Porto, ou das sardinhas assadas na rua do Stª António de Lisboa. Gosto da Tomatina despretenciosa e excessiva, embora lá nunca tenha ido. Isso eu gosto.

30/09/05

Morreu Antunes Varela, por Cap. Haddock

Morreu Antunes Varela. Li algumas notícias em jornais sobre a sua morte com pequenas referências ao seu passado. Há de facto uma ligação de Antunes Varela ao Governo de Salazar, mas nem isso dá o mínimo de sombra à sua obra e às suas imensas capacidades.Testemunho-o na qualidade de aluno. Era um grande mestre, sabia ensinar, sabia escrever, sabia muito, mesmo muito de direito, e quando foi responsável pelo processo civil Português tinhamos de facto uma legislação boa, pensada, lógica, segura e útil.Depois dele só vi mediocridade assente em curiosos cola cartazes licenciados em Direito que vomitaram e cagaram leis sem nexo, a atropelarem-se e pior, a atropelar os direitos dos cidadãos. Junto a Antunes Varela o actual ministro da justiça não existe nem é nada, e pior, não sabe nada!.Notem bem que ninguém coloca em causa o mérito profissional e as capacidades do jurista Antunes Varela, independentemente de preferências politicas. São assim os grandes e insignes homens e neste caso as suas qualidades permitiam-lhe distinguir preferências politicas (interesses pessoais) das necessidades do Estado e de um país, coisa que os actuais pseudo governantes não sabem, uma vez que navegam ao sabor do interesse politico do partido a que pertencem, são portanto pessoas medíocres e governantes incompetentes.Aliás, lamento mesmo muito que uma cidade dê o nome de um estádio a um jogador de futebol novo, vivo e que nada fez pela cidade e quase se recuse a colocar um busto do Mestre num Tribunal, mais um acto vergonhoso de idiotas vestidos de políticos.O homem morreu há dois dias e já se sentem saudades da sua competência, tal é o vazio deste governo do Portugal dos Pequeninos…


Nota: este post foi colocado a partir de um comentário do capitão Haddock, sem que ele fosse consultado. O Administrapor é que achou o comentário digno de ser publicado como homenagem a um homem inteligente, culto e com currículo académico. Injustiçado, morre anónimo. Prova disso, é que a foto minúscula que ilustra este post é a ÚNICA que se pode encontrar na net. Quer dizer, a net tem milhões de putas e não tem espaço para um catedrático de Direito? É o Putapower! O Poder é das Putas!

17/08/05

Pena, por Cão

Vale a pena estar vivo, embora não se saiba por ou para quê.

Este é o país a que chamamos nosso, apesar de ser deles. Deles: dos que mandam pôr a arder, dos que põem a arder mesmo sem mando, dos que ganham com o que ardeu.
Perante o flagelo anunciado de cada Verão (que, com a seca, começou este ano em Janeiro), alguém acredita na senhora-de-fátima o suficiente para encomendar submarinos em vez de helicópteros.
Nas festas flavas do T-Clube, a nacional aristocracia achinela-se untada de banha e idiotia.
Enquanto isso, nós engarrafamos clios e eskorts na curva de Buarcos, entre peões de tanga que carregam tremoços e feijoadas e mães solteiras buscando alemães que não virão, verão.
Vale a pena estar vivo, mas não ser vivo, ici.

Este é o país a que chamamos osso, porque a carne é deles. Eles, quem?

A ver:
O pivô-chorão do telejornal.
O Marcelo Rebelo de Sousa, de olhos muito abertos de coruja que não dorme para nos velar.
O Mário Soares, que não morre nem que o matem.
O Pateta Alegre, que já morreu mas não sabe.
O coiso dono da Vivenda Mariani.
O Obikwelu a tocar o hino das quinas em congas e bidons.
O Nino Vieira a passar anos de férias cá antes de ir mamar de novo lá.
O Pinto Balsemão sempre a cocar e o directorzito do Expressozito dele.
A Catarina Furtado a dar cabo ao nome do pai.
O Joaquim Furtado a criar uma filha para isto.
O Nicolau Breyner, que, via RTP, está encarraçado no pêlo do Orçamento de Estado há coisa de 40 anos.
O Herman José, que tem tanta piada como uma anedota pedófila e/ou de peidos.
O Moita Flores, esse grande guionista e grande amigo do Carlos Cruz.
O Carlos Cruz.
O Benfica, o Sporting e os coisos das Antas.
O viveiro-PS e o viveiro-PSD.
O mexilhão e a alforreca.
O Fausto Correia hirsuto e o Albarran careca.
O Carlucci da CIA e da EuroAmer.
O Talon e o Tyson.
A Pasta Medicinal Couto e a placa da Lili Caneças.
O Santana Lopes e o Sentido de Estado.
O Vasco Pulido Valente e o século XIX Fraco.
O Sampaio a chorar como se fosse pivô de telejornal.
A família Câmara Pereira e as pragas de gafanhotos bíblicas.
O riquinho que é presidente da Câmara de Aveiro.
O idem que é ibidem da homóloga de Ílhavo.
A calcinada tristeza de Coimbra, sob todos os aspectos.
Os indígenas de lata da Cova de Papelão da Moura.
O Zezé Camarinha, tão algarvio como o coiso da Vivenda Mariani.
A Igreja de Viseu.
O sertão de Bragança.
O Bispo de Braga.
A Josefa d'Óbidos.
As alcunhas alentejanas que passam a nome de família à hora da sesta-baptizado.
A Reserva Territorial aposentada da Tropa a gozar o prato nas termas.
A maltosa sueca da celulose.
O Pacheco Pereira a garantir que é a reencarnação do Che mas em Rumsfeld.
O Rumsfeld e a Condor Lisa, a preta que lá está a fingir que a MerdAmérica do Norte não é dos brancos wasp.
A Nancy Reagan, que é viúva há 80 anos e só agora é que lhe disseram.
O Giuliani no baile dos bombeiros antes do baile da Casa Branca.
A maltosa toda a dizer “é assim”.
O Luís Represas no elevador a fazer muzcas pró dito.
As manas Pinto Correia muito muito Fundação do Gil.
O Padre Fontes a cozer chás de bruxas em chaleiras de ouro bento.
O Moniz e a cova da Moura Guedes.
A TMN a mandar uma optimus fodavone.
O preço do tabaco.
A sangria atada do gasóleo.
O Bibi a fazer bobós a bebés.
O socrático Carrilho e a platónica Guimarães.
O bebé deles com nome daquele rei que plantou pinhais para ter onde cagar no intervalo das cantigas de amigos e das guerras com o filho.
D. Afonso Henriques, o primeiro presidente do Conselho de Administração da Gulbenkian, cujo complexo de Édipo fundou um país lamentável.
O próprio Gulbenkian, que quis fazer outra merda desta merda e que fez.
Os reformados a votarem lanigeramente nos gajos que lhes mamam as reformas de mama.
As reformas educativas e os professores e os alunos e os resultados das reformas educativas e dos exames, menos os de consciência.
A água das torneiras.
Os rios, mortais casas dos peixes.
Os suinicultores de galochas e os porcos descalços.
Timor e a Religião e Moral obrigatória.
O Rato Zinger, Mickey em alemão.
O futsal e o futebol de praia.
O voleibol de praia e o Maia e o Brenha.
A Madeira e o coiso.
USAçores.
O Graça cova da Moura, poetastro oficial cujo nome de tradutor é maior do que o traduzido Dante.
O Prado Coelho, coelho oficial.
O Guterres nos ugandas e nos sudões a benzer refugiados e a dizer “tenham paciência, tenham paciência, vão lá com Deus”.
A Maria Barroso e o padre Melícias a irem lá com Deus.
A fanhosice perpétua do Herdeiro do Trono de Portugal, que parece ‘cosa mentale’ mas não deve ser.
O Feytor Pinto e as camisas-de-vénus, hoje sim por causa do cancro ou lá como se chama aquela moléstia que dá de comer à Margarida Gorda dAbraço, amanhã não por causa da moral.
A moral.

E a pena.

01/08/05

O Código da V., o Galo de B e o JR dos S., por Cão

Chegou Agosto, o mês dos parolos.
É o tempo dos nossos lusocranianos de mala de cartão.
Neste dia, lembro-me sempre daqueles que andam lá fora a lutar pela vida mas que nunca lá ficam.
Dedico-lhes estes aforismos anémicos.

1- Ler ‘O Código da Vinci’ é exactamente o mesmo que pôr o colete fosforescente no banco do condutor.

2- O verdadeiro Galo de Barcelos faz manguito com a asa.

3- A verdadeira senhora-de-fátima dá horas na base da azinheira de baquelite.

4- O perfume da sardinha assada é vaporizado de um frasco formato-pimento.

5- Perdoar Valentim Loureiro e o Futebol é dar a outra nádega, como mandamentam a Bíblia, a Bola e o Record.

6- O País arde todo o ano, mas só no Verão é que passa na TV.

7- Num país civilizado, gente como o José Rodrigues dos Santos seria obrigada a ir de mochila no metro.

8- Avelino Ferreira Torres e Fátima Felgueiras deveriam ser casados, um contra o outro.

9- Gostar de Portugal não é a mesma coisa que admirar o Ricardo Espírito Santo ou o José António Saraiva.

10- Deveria nascer um eucalipto nas badanas do cu do Jorge Gabriel. Não desejar o mesmo ao Manuel Luís Goucha é evitar-lhe uma satisfação.

11/05/05

Subtilezas, por Ó Jóta Arrendonda a Saia Ó Jóta Arrendonda-a Bem da Imaculada Conceição

Há pouco tempo falou-se aqui da relação entre o cliente/cidadão/consumidor e o trinómio instituições/comércio/serviços. Mestre Mangas trouxe para este fórum suino a sua gratificante experiência com uma cadeia de hamburgarias dos States, que trata os clientes nas palminhas e atende, de facto, às reclamações, por mais ridículas que pareçam. Em contraponto, claro está, ao panorama terceiro-mundista e relaxado do nosso país. Pelo meio, aconteceu-me um caso que pode ser encarado como uma excepção exemplar, além de remeter para a polémica da “arte útil” no que respeita à sinalização pública.
Há algum tempo fui a Serralves, aos jardins, ao Siza, etc., corri aquilo tudo. No fim, à saída do Museu de Arte Contemporânea, dei com a caixa de reclamações e sugestões, um grande cubo transparente, vazia e a pedir estreia. Peguei no papelito, elogiei o que havia para elogiar e fiz um reparo, relativamente à sinalética, designadamente aos símbolos abstractos que diferenciam os sexos nos sanitários, bonitos, talvez, mas incompreensíveis para o comum dos cidadãos. Por mais de uma vez passei perto dos wc’s e o panorama era sempre o mesmo: Senhoras e senhores, meninos e meninas, completamente baralhados, a olhar para os bonecos nas portas como bois para um palácio e a fazer complexas equações de cabeça para descobrir a qual pertenciam. Muitos, obviamente, arriscavam às “cegas” e entravam numa qualquer. Não raro, iam ao engano e saíam a fugir aos gritinhos, “ái que me enganei!”. Enfim, uma bonecada completamente abstrusa e nada prática ou informativa. Afinfei no papelito e sai dali satisfeito.
Passado cerca de um mês recebi via correio electrónico a seguinte carta, assinada nem mais que pela excelentíssima senhora doutora Directora Geral, Odete Patrício:

Exm. Senhor,

Gostaríamos, antes de mais, de agradecer a visita que efectuou à Fundação de Serralves, bem como a comunicação que nos endereçou e que mereceu toda a nossa atenção.
É para nós fundamental dispor das opiniões e apreciações dos nossos visitantes, para que possamos implementar acções que visem a constante melhoria dos serviços que prestamos. O nosso objectivo primordial é transformar cada visita efectuada à Fundação de Serralves numa experiência única e muito agradável.
Relativamente ao comentário que formalizou aquando da sua visita, não queríamos deixar de lhe referir o quanto o mesmo nos deixa satisfeitos por se traduzir na confirmação dos nossos objectivos diários. Quanto à sinalética dos sanitários estamos cientes que é bastante subtil mas faz parte integrante do projecto do Arq. Álvaro Siza, pelo que não a podemos alterar.
Aproveitamos para informar que no próximo dia 7 de Maio vamos inaugurar 3 exposições dedicadas às obras de Paulo Nozolino e Gregor Schneider no Museu e Ana Jota na Casa de Serralves, as quais, estamos certos, merecerão uma visita especial. Para mais informações acerca das nossas actividades, sugerimos uma consulta ao site www.serralves.pt, o qual é actualizado regularmente ou tornar-se AMIGO de Serralves usufruindo assim dos benefícios previstos para este núcleo de visitantes.
Agradecendo a disponibilidade em nos ter contactado, ficamos ao seu inteiro dispor para qualquer informação adicional através da DG – Relações Públicas – Assunção Cálem (22 615 65 28).

Com os nossos melhores cumprimentos,

tal e tal,

27/04/05

"O cliente em sempre razão, made in USA. Por Mangas

A propósito do post do Manelinho veio-me à memória uma situação semelhante pela qual passei no verão de 94, em Flint, Michigan. Devo dizer que neste aspecto das reclamações em estabelecimentos comerciais, sejam eles restaurantes, lojas de vestuário ou animais decorativos, os americanos, (de acordo com a minha experiência), têm uma concepção muito pragmática de resolver as situações com o mínimo desgaste possível para o cliente e sempre na perspectiva de evitar males maiores para a loja – processos judiciais que, para além de serem péssima publicidade, podem acarretar grossas indemnizações. Por isso, deitam-se ao chão, literalmente! Têm, atrevo-me a dizer e sem excepção, em cada loja, um departamento vocacionado para atender as reclamações dos clientes e fazem-no não como se nos estivessem a prestar um favor, mas com aquele sorriso colgate para amansar os espíritos reclamantes mais incendiados.

Assisti a várias situações destas. Não há ali trombas, ou “o senhor não se soube explicar no pedido que efectuou”, ou “não podemos trocar porque o produto já foi usado”, ou desculpas burocráticas de quem quer salvar uns cobres ao patrão. Nada disso. Vê-se que aquele pessoal sabe o que está a fazer, tem a lição bem estudada porque certamente teve formação específica, sabe de relações humanas, tem meios para accionar com a maior brevidade possível os mecanismos que compensem o prejuízo de quem reclama, salvaguardem a credibilidade do estabelecimento e devolvam a satisfação ao cliente. O cliente tem sempre razão, nunca me pareceu mais verdade do que ali.

Penso que muitos factores estarão subjacentes a esta filosofia de transacção/assistência que não se esgota quando o produto ou bem é vendido. Ocorrem-me dois: a competição feroz do mercado americano e o quanto ele é fértil em exemplos de avultadas indemnizações, porque sim, porque o cliente tinha legitimidade na sua reclamação e a razão estava do seu lado, ou por toma lá aquele palha, e afinal o manual de instruções do micro-ondas não dizia nada sobre os efeitos da sua utilização em gatos vivos ou porque a Philip Morris não advertiu por escrito que o Marlboro pode provocar cancro da laringe.

A minha única experiência. Uma bela tarde a caminho de casa, paro no Rally`s Hamburger, - os melhores hamburgers americanos! -, peço um combinado com batatas fritas e coca-cola, instalo-me confortavelmente no sofá para ver o Brasil-Suécia na televisão para o campeonato do mundo 94, dou a primeira trincadela no hamburger e sabe-me a sal. Excessivamente salgado. Porra! Dou o benefício da dúvida, abocanho mais uma vez e sabe-me a salgado novamente! Na América sê americano, pensei, agarro no cupão que vinha dentro do saco, ligo o número grátis de reclamações, atendem-me de Kentucky, explico o que se passou à operadora de serviço, esta ouve-me até ao fim, desfaz-se em amabilidades e desculpas, pergunta-me que pedido tinha eu feito, pede-me a minha direcção e a localização do Rally`s onde fiz a compra. Diz-me que iria imediatamente entrar em contacto com a loja e em breve receberia notícias. Ponto final. Não dei mais importância ao assunto, era só um hamburgeur afinal de contas, mas passados exactamente dois dias recebo uma carta no correio que guardo até hoje e passo a transcrever:

« To :Mr. F.
Endereço, Flint, Michigan

Dear Mr. F:
Obrigado por ter despendido do seu tempo para telefonar para o nosso Courtesy Department com os seus comentários. Sem sombra de dúvida, a parte mais frustrante do meu trabalho é quando ouço que um Cliente teve uma experiência menos que perfeita num dos nossos restaurantes.

A filosofia do Rally`s é servir os nossos Clientes sempre com a mais elevada qualidade, produtos frescos, de forma rápida e cortês. Graças aos nossos altos standards de exigência, tornamo-nos no #1 na indústria do fast food, em três áreas que são as mais críticas para o nosso sucesso: valor, qualidade e serviço.

Por favor, permita-me endereçar-lhe as minhas mais sinceras desculpas pelo pedido insatisfatório que recebeu. Ainda que a sua chamada tenha sido atendida pela Connie do nosso Courtesy Dept., posso assegurar-lhe que cada um e todos os níveis responsáveis pela gestão do nosso restaurante em Flint, já receberam uma cópia com os seus comentários. Quando receber esta carta, todos esses níveis de gestão já tomaram medidas para corrigir os problemas que o senhor encontrou.

Quando regressar ao nosso restaurante em Flint, se a sua visita não estiver ao nível das suas exigências, por favor telefone-nos novamente. Sem este tipo de feedback, muitos “serious issues”, não seriam detectáveis. Obrigado pela sua preocupação e por ser uma parte grande e importante do nosso sucesso!

Sincerely,
David Peterman, Executive Vice President Operations
Endereço, Louisville, Ky, 40223, (502) 245-8900 »

Resta acrescentar que junto vinha um cheque-vale para o Rally`s no valor do pedido que eu tinha feito dois dias antes. Simpático, breve, eficaz. E nunca deixei de ir ao Rally`s que tinha umas óptimas batatas fritas com pele. Nesta conjuntura de reclamações e atendimento, ficavas tu sem escrever um único Tratado Taurino, Chibanga...!

16/04/05

Prosa Pós Profes, por Profe (Jocta) Panhanha phd em reportáge

Movido por um misto de curiosidade pessoal e profissional, ontem ao fim da tarde fui ouvir o profe Marcelo Rebelo de Sousa, ao Casino da Figueira da Foz. O homem veio encerrar umas jornadas da Associação de Jovens Advogados do Centro e do Arquivo da UC. Veio falar das suas memórias de professor universitário de Direito, sobretudo na alma mater Universidade de Lisboa (UL), onde se formou a rebentar a escala, se doutorou em Ciências Jurídico-Políticas e é hoje professor catedrático. Não dei o tempo por perdido. O profe, perito em sínteses e em cativar audiências, discorreu durante cerca de uma hora em grande aceleração verbal pelo seu passado de, precisamente: profe. Desde os princípios dos anos 70, passando por uma revolução («tive a felicidade de ter podido viver uma revolução aos 23 anos, é a melhor altura da vida para se viver uma revolução», disse Marcelo com saudades) e atravessando estas três décadas democráticas. Não se falou de política (pelo menos directamente), não se falou do Expresso nem das dezenas de livros que produziu, nem das obras jurídicas. Foi sobretudo em torno da sua experiência enquanto professor, professor e comunicador por vocação e distinção. Uma aula que o magnífico gongórico Rui de Alarcão apelidou, extasiado, de «magnificente» no final. A sério. Fez uma breve regressão a um passado mais fundo da vida, no início, para dar contexto familiar à vocação, e ao convívio íntimo do pai com Marcelo Caetano, que já em criança lhe despertava a vontade de ser quando fosse grande «professor catedrático».
Fait divers: Marcelo Caetano não foi padrinho de baptismo do profe, apesar de convidado pelo pai Baltazar, invocando uma questão de princípio para recusar: Os padrinhos não devem ser mais velhos que os pais, para poderem estar lá em apoio do afilhado quando os pais falecerem, em princípio mais cedo. A sério.
Marcelo, liberal e pró-democrata apesar das simpatias familiares, foi sintomaticamente dos poucos profes, na altura assistente, a não ser saneado pelos comités revolucionários, sobretudo estudantis, que tomaram conta do poder nas universidades após o 25 de Abril. Se a de Coimbra foi tomada pelos comunistas, apesar de tudo uma malta mais “soft”, da UEC, na UL venceram os radicais maoistas do MRPP, gente de gadelha sebenta até aos mamilos adepta do livrinho vermelho chinês, como Durão Barroso ou Ana Gomes na vanguarda em Direito. Na UL foi quase tudo varrido dos corpos docentes, já que eram raros os que não tinham colaborado com o regime anterior, seja como membros de governos, seja como procuradores das câmaras corporativas, etc. Em Direito só ficaram três, um deles Marcelo. O outro, Marcelo, foi para o Brasil. Em suma, o profe saiu também por solidariedade para com os saneados, mas achou, ou pelo menos é assim que hoje sente esse passado, aquilo tudo uma grande excitação! O homem é de facto uma força da natureza e faz lembrar uma mosca, atenta e rapidíssima, sem perder a compostura, o charme e a simpatia. Depois é enciclopédico, e até as maiores banalidades lhe saem com brilho e graça. Um predestinado da docência com um currículo de 350 páginas. «Os fins de regime são sempre esteticamente bonitos», esta frase foi uma das poucas que acabei por registar no bloco, a velocidade do discurso tornava quase impossível a tarefa e a partir de um certo ponto deixou de me interessar a caneta e o bloco, fiquei absorto e tentei registar com a memória. Aqui vos deixo um cheirinho, só para dar nota da análise que o profe faz, nestes trinta anos de ensino, às diferentes gerações de alunos que lhe têm passado pelas salas de aula. A partir dos anos 90 foi sempre a descer. Primeiro, ao contrário do espírito mais solidário que se vivia entre os estudantes nos anos 70 ou 80, começou a imperar a parir daí o individualismo feroz, fruto de uma concorrência que já se fazia antever de um mercado de trabalho cada vez mais esgotado, começaram aí os principais e primeiros problemas de acesso de licenciados ao emprego. «Cada qual por si e Deus por todos e, para os não católicos, ninguém por ninguém», seria genericamente o lema. Depois começou a instalar-se rapidamente a mancha negra da ignorância, boi que o profe não quis chamar pelo nome, relativizando o fenómeno com o excesso de informação que lhes entra hoje nas cabecinhas: «Não têm tempo para gerir tanta informação, há menos qualidade». Por um lado uma crescente incapacidade de perceberem um conceito abstracto, que tem de ser explicado tim tim por tim tim como se explicam coisas às crianças, e acima de tudo como se toda a anterior escolaridade tivesse desaparecido por um vórtex ao fundo do cerebelo, por outro graves lacunas culturais e educacionais de base. «Grandes buracos formativos de base», nas palavras do profe, que ainda não se habituou ao tratamento de polé que é dado, mesmo pelos melhores alunos do curso, à língua portuguesa. Isso, ou um confrangedor desconhecimento sobre história, em localizar e explicar factos e pessoas no passado. «Não têm, por exemplo, noção do que era o país antes do 25 de Abril, não percebem, é outro mundo (…) Passámos a ter de explicar coisas óbvias, têm uma dificuldade enorme de conceptualizar, não sabem lidar com conceitos. Mesmo os melhores alunos têm lacunas em coisas muito sérias», admite Marcelo num lamento, mais sofrido pela crescente falta de respeito pelos mais velhos e pelos profes em geral. Incluindo as instituições. Comparou a esse propósito visitas que faz com alunos a Belém, e as respectivas atitudes, com gerações anteriores. Estas últimas compostas, curiosas e respeitosas. Hoje em dia entram em cena num perfeito circo infantil e desbocado, espalhando-se de imediato, qual bando de pardais à solta, pelos recantos mais sombrios dos jardins do palácio cor-de-rosa para «namorar». Depois de muita trabalheira a arrebanhar os quase “doutores” de Direito, explica o profe, lá entram, e por regra ignoram completamente as prelecções (algumas interessantíssimas, garante o profe, sobretudo com Soares) do Presidente, e alguns até vão remexer na secretária de trabalho do PR virando decretos para promulgar e objectos pessoais. Retive, enfim, uma frase do profe a propósito da degradação do ambiente familiar neste país stressado, citando o desabafo de uma aluna, a quem aconselhava apoio entre a família: «Sabe sôtor, a casa é um bocadinho uma paragem de autocarro, temos todos horários diferentes e falamos pouco». Não há tempo. Os pais e os profes têm cada vez menos tempo, interesse ou autoridade e estamos a fazer um país de idiotas funcionais.

09/01/04

DEUS DESAVENHA QUEM NOS MANTENHA, por DR ABRANCHES E MENEZES


fls 46
Cascais, 20 de Dezembro de 2003

Exmo. Senhor
Dr. Juiz Presidente do Tribunal Judicial do Porto
Av. São João
4050-214 PORTO
(entrada na secção central em 30/12/03)

V/Refª. 244854 – Proc. 934/03.3TBPLS


Excelência.

Há momentos na vida em que gostaríamos de ser grandes, quer dizer, ser assim um pouco maiores para poder agarrar nos outros como quem pega numa criança e dar-lhes uma palmadinha no rabo, ou então dizer-lhes: o menino é malcriado, o menino não tem futuro! Pois é sr. Dr. Juiz era precisamente isso que eu gostaria de fazer ao sr. advogado que apresentou queixa nesse tribunal para que eu pagasse algo que nunca adquiri.
Nunca fui a Arouca nem tão pouco conheço a empresa que forneceu a ardósia ao Sr. António Marques Lusitano. Acredito plenamente que este sr. não pagou a ardósia mas o que não me entra na cabeça é que o sr. que andou a gastar o dinheiro dos pais para se formar em direito só se preocupe em encontrar um António Marques Lusitano e não saiba analisar uma factura (2) para ver que o comprador não reside na Rua do Sarmento em Cascais. Será que não lhe passou pela cabeça que podem existir duas ou mais pessoas com o mesmo nome?

Os meus pais não tiveram possibilidades financeiras para me dar um curso superior, mas ensinaram-me a ser honesto e cumpridor das minhas obrigações pelo que se deduz que se tivesse comprado a ardósia tinha-a pago e se não tivesse dinheiro não a comprava.

Junto fotocópia do meu cartão de contribuinte para provar que não corresponde com o que está nas facturas, que era por aí que o sr. Dr. de Coimbra devia ter começado, não acha Sr. Dr.?
Com os respeitosos cumprimentos



António Marques Lusitano

Anexo – Fotocópia cartão de contribuinte

Carta registada com aviso de recepção