Para começar, o Warhol é um demiurgo mas é o tanas. Tudo ao contrário. O Warhol não sacralizou nada a banalidade. O que ele fez foi banalizar o sagrado, o bom velho sagrado americano, e qualquer parolo do Kentucky sabe isso. O gajo é o anti-Rubliov, capaz de realçar o buço da Virgem Maria e borratar a pintura da Marilyn, fazendo-a parecer um palhaço triste (é claro que era delicado e submisso com quem lhe pagava bem). A arte americana sempre foi figurativa, de uma figuração realista e ao mesmo tempo idealizada. A abstracção e a arte conceptual, de que a pop é bastarda, só chegaram ao outro lado do atlântico no pós-guerra, com o Pollock, o Rothko e outros estrangeirados. A arte original americana sempre foi a arte do quotidiano e da celebração da paisagem, herança do puritanismo dos founding fathers, gente prática pouco dada a expressionismos e estilizações irónicas. E são esses quotidiano e paisagem, habitados por heroísmos vários, que constituem a religião americana. Os ícones americanos são os quadros do Norman Rockwell, com famílias felizes a sorver campbell, acabadinhos de sair de um ritual de masturbação secreta e silenciosa com pin ups de corpo inteiro. E representações de vidas de outros santos, por santeiros anónimos. Heróis do desporto e das telas de cinema. Nisso está muito perto do realismo soviético. Como se pode celebrar a Marilyn com aquelas representações frias, mais do que trágicas? Em que altar se penduram? Para que quer um americano (um americano americano) uma pintura de uma lata de sopa, se já tem as prateleiras cheias com o autêntico e as paredes ocupadas com calendários da Betty Grable nas alturas. Para que quer um americano patriota um quadro do Jasper Johns com a stars and stripes pintada? Que não esvoaça, que não se ergue, que de tão realista se torna cínica? Esses ficam para nós, os que também compram réplicas de ícones do Rubliov para gozo estético ou para entreter a vida com réplicas de misticismo. Dois testes finais: o John Wayne gostava do Warholl? É claro que não! Tivesse ele tido forças e tê-lo-ia chutado para fora do templo, a esse paneleiro vendilhão. E o Warhol lançou o Springstein? Pois não, lançou o Lou Reed, o que não é bem a mesma coisa. E pronto, é isto ou o seu contrário. Mas gosto mesmo é dos Malevitch da fase azul electrolux, bons para relaxar ao som de trinados de periquito. E bacalhau.
Blog da RS.T - Real Esseponto do Tinto - Coimbra - Os Três Pastorinhos também bebiam o seu copito
18/02/04
16/02/04
LAMPREIA-2004
LAMPREIA-2004
34ª PROVA CEGA DE TINTOS
06ª EXPEDIÇÃO PUNITIVA À LAMPREIA DO BERNARDES
46ª NAVEGAÇÃO TERRESTRE PRÓ-EXTINÇÃO DAS ESPÉCIES
1º CLASSIFICADO-76pontos-VALE MEÃO, 2000 (DOURO)-LE VICE-Prémio MALIGNO
título- FALCÃO DA CEPA, de grau 3
2º CLASSIFICADO-70pontos-GOUVYAS, VINHAS VELHAS, 2001 (DOURO)-GALGO
3º CLASSIFICADO-69pontos-CALLABRIGA, 1999 (DOURO)-HOMEM DO CACHIMBO
4º CLASSIFICADO-69pontos-HERDADE DO ESPORÃO, TRINCADEIRA, 2001 (ALENTEJO)-PRESTES JOÃO
5º CLASSIFICADO-68pontos-ESPORÃO, GARRAFEIRA, PRIVATE SELECTIONS, 2001 (ALENTEJO)-TÓZÉ
6º CLASSIFICADO-65pontos-QUINTA DA LEDA, 1999 (DOURO)-F. MARQUES
7º CLASSIFICADO-63pontos-JOÃO PORTUGAL RAMOS, SYRAH, 2002 (ALENTEJO)-NESTUM
8º CLASSIFICADO-62pontos-CORTES DE CIMA, SYRAH, 2002 (ALENTEJO)-O MAU-Prémio VINAGRE
Nota: Segundo a Autoridade o Syrah do Mau era mesmo mau, o pior Syrah do Cortes De Cima dos últimos anos, corrido a nota 4 pelos graúdos do reino vínico. está muito bem em último lugar.
MELHOR NOTA DE PROVA- O HOMEM DO CACHIMBO, com + 17 pontos
PIOR NOTA DE PROVA- PRESTES JOÃO, com - 5 pontos
ass: S.A.R.danápalo
34ª PROVA CEGA DE TINTOS
06ª EXPEDIÇÃO PUNITIVA À LAMPREIA DO BERNARDES
46ª NAVEGAÇÃO TERRESTRE PRÓ-EXTINÇÃO DAS ESPÉCIES
1º CLASSIFICADO-76pontos-VALE MEÃO, 2000 (DOURO)-LE VICE-Prémio MALIGNO
título- FALCÃO DA CEPA, de grau 3
2º CLASSIFICADO-70pontos-GOUVYAS, VINHAS VELHAS, 2001 (DOURO)-GALGO
3º CLASSIFICADO-69pontos-CALLABRIGA, 1999 (DOURO)-HOMEM DO CACHIMBO
4º CLASSIFICADO-69pontos-HERDADE DO ESPORÃO, TRINCADEIRA, 2001 (ALENTEJO)-PRESTES JOÃO
5º CLASSIFICADO-68pontos-ESPORÃO, GARRAFEIRA, PRIVATE SELECTIONS, 2001 (ALENTEJO)-TÓZÉ
6º CLASSIFICADO-65pontos-QUINTA DA LEDA, 1999 (DOURO)-F. MARQUES
7º CLASSIFICADO-63pontos-JOÃO PORTUGAL RAMOS, SYRAH, 2002 (ALENTEJO)-NESTUM
8º CLASSIFICADO-62pontos-CORTES DE CIMA, SYRAH, 2002 (ALENTEJO)-O MAU-Prémio VINAGRE
Nota: Segundo a Autoridade o Syrah do Mau era mesmo mau, o pior Syrah do Cortes De Cima dos últimos anos, corrido a nota 4 pelos graúdos do reino vínico. está muito bem em último lugar.
MELHOR NOTA DE PROVA- O HOMEM DO CACHIMBO, com + 17 pontos
PIOR NOTA DE PROVA- PRESTES JOÃO, com - 5 pontos
ass: S.A.R.danápalo
15/02/04
Heroes (1977) e Quinta de Vale Meão (2000)
Dedico Heroes de David Bowie a mim próprio por ter ganho a Milésima Centésima Expedição Punitiva à Lampreia que teve lugar ontem na Catedral do Bernardes. Este hino é também dedicado ao meu amigo Paulo, que foi quem me ofereceu o fabuloso Quinta do Vale Meão/2000 com que me sagrei vencedor. Bem hajas, Paulo!
We can be heroes
Just for one day
Just for one day
Se há coisas raras de conseguir nesta vida efémera, uma delas é, certamente, um Maligno, o Óscar Negro da Esseponto, pintado e decorado pelas mãos exímias e pela cabeça perversa do nosso pintor, O Artista Anteriormente Conhecido Pelo Nome de Pilas. Ontem foi uma dessas noites raras em que tive os tais 5 minutos de fama e glória de que falava Andy Warhol. Ontem ganhei o meu terceiro Maligno, depois de volumosos anos a meter vinhos de excelência em Provas Cegas ainda mais excelentes.
I, i will be King and you, you will be queen
Though nothing will drive them away
we can beat them just for one day
We can be heroes just for one day.
Though nothing will drive them away
we can beat them just for one day
We can be heroes just for one day.
Heroes começa com a guitarra espacial de Robert Fripp. Brian Eno – outro monstro visionário, acentua o efeito nas teclas e sintetizadores e já estamos em Andrómeda antes do refrão. Heroes é uma viagem interestelar, produzida em plena época do ácido. Quinta do Vale Meão/2000 é um vinho de excepção, um Ambrósio, na terminologia criptográfica da Esseponto. Não é para me armar aos cágados mas todos testemunharão que eu tinha a vitória de ontem como certa. Foi só pensar: já tínhamos provado o Vale de Meão/99 noutra ocasião e considerámos que necessitava de tempo para apurar as potencialidades. Assim, pensei que esta colheita de 2000 estaria agora, quatro anos depois, em condições óptimas, ainda por cima, sendo a lampreia um prato muito forte, a exigir tanino. Foi em cheio! Obviamente os vinhos apaneleirados do João Portugal Ramos e as castas Syrah lixaram-se. E bem – dois vinagres! A lampreia não quer sabores florais, quer alguma adstringência, quer tanino redondo, que não excessivo. Passámos toda a noite à procura dessas qualidades nos vinhos presentes. É certo que as encontrámos noutros vinhos e faço aqui jus aos 4 convidados que estiveram à altura do acontecimento.
I, i wish you could win
Like the dolphins, like the dolphins can swim.
Though nothing, though nothing will keep us together
We can beat them for ever and ever
Oh we can be heroes just for one day
Like the dolphins, like the dolphins can swim.
Though nothing, though nothing will keep us together
We can beat them for ever and ever
Oh we can be heroes just for one day
A voz de Bowie começa a impor-se pela calma, pela tranquilidade. Há um momento na música de perfeita fusão entre o som espacial dos sintetizadores e a placidez de Bowie. Mas depressa se quebra esse oceano da tranquilidade e a música torna-se instável, nervosa, cada vez mais rock, cada vez mais dura… Gradualmente, a guitarra de Carlos Alomar faz-se notar como metal no meio do som planante da dupla Eno / Fripp. A voz de Bowie torna-se cada vez mais agressiva, agora é um grito de raiva, um grito de fé, sim, é verdade we could be heroes…
Com um Quinta da Leda, um Callabriga, um Reserva do Esporão e um Trincadeira (da herdade do Esporão?), os quatro convidados foram quatro magníficos. Estiveram à altura! Mas estiveram abaixo, mesmo assim, do excelente Gouvyas do nosso regressado Lampião e ainda mais do Vale Meão.
Com um Quinta da Leda, um Callabriga, um Reserva do Esporão e um Trincadeira (da herdade do Esporão?), os quatro convidados foram quatro magníficos. Estiveram à altura! Mas estiveram abaixo, mesmo assim, do excelente Gouvyas do nosso regressado Lampião e ainda mais do Vale Meão.
And the shame was on the other side
Oh we can beat them for ever and ever
We could be heroes just for one day
We can be heroes
We can be heroes
Oh we can beat them for ever and ever
We could be heroes just for one day
We can be heroes
We can be heroes
Até por isso mereço a música do Bowie – fomos ameaçados pelas excelentes escolhas dos convidados, mas mais uma vez o Maligno não saiu do Universo Confradal. Não sei se repararam que nunca, em 200 anos de Provas Cegas, um convidado logrou ganhar um Maligno. É obra! Ainda está para nascer o convidado que no arrebate um Maligno – e já muitos, um exército deles, o tentaram. Hoje, lá jazem todos, no pó da arena dos vencidos! Para mim (e para o Paulo) cá vai pois em altos berros:
We can beat them for ever and ever
We could be heroes
We could be heroes…
We could be heroes
We could be heroes…
Le Vaice e Os Mistérios de Uma Vitória, por Mangas
Aos que cá vêm mandar as bojardas que a gente agradece; aos que por cá aparecem para se rirem dos desconcertos, excomungarem as esplêndidas bacoradas ou acrescentar trajectórias aos caminhos do Porco; aos que vêm uma vez e voltam nunca mais e aos que vêm à festa e ficam por cá porque perderam o autocarro; aos que só visitam as fotografias porque são de borla e aos que sofrem do baço também; a todos os leitores do Tapor, informo em primeira mão e em exclusivo, by cable, long-distance, e em pay-per-view, que o Le Vaice ganhou a prova cega na Catedral da Lampreia! Lamento não possuir mais informações sobre o magnífico tinto ou o detalhe da peleja. Muito em breve, serão respondidas questões fundamentais e de interesse público. Tais como: o lobby do escritório estaria a dormir? O D. Corleone perdeu finalmente os três e atreveu o palato? O Mau adormeceu antes ou depois da lampreia? O Xeco apareceu? Se sim, é bem-vindo. Se não, pó caralho! O Sardanápalo borrou a pintura na nota de prova? Quantos sms recebeu o Capitão Nemo das bielorussas? A esta hora, já está na Passerelle? Se não, já vai a caminho? Se não vai a caminho ainda, estará com alguma ciática, cólica renal ou doença prolongada? Os convidados, foram ilustres e espirituosos? Juraram pra nunca mais? O João Pedro, aguentou-se à brocha? Decidiu aumentar a mensalidade do ginásio depois de ver a conta? O Luzi, vai aguentar uma caipirinha ao lado de um gajo a mamar néstum com chocolate, sem vomitar? O Cordeiro ainda se tá a rir? O Vaice ainda está a cantar o Start Me Up?
Enfim, estas e outras fundamentais respostas serão dadas muito em breve, para que tenhamos uma percepção aproximada do que, de facto, aconteceu esta noite pelos lados da Ereira. Seguem-se actualizações desta notícia em "X-Files".
Enfim, estas e outras fundamentais respostas serão dadas muito em breve, para que tenhamos uma percepção aproximada do que, de facto, aconteceu esta noite pelos lados da Ereira. Seguem-se actualizações desta notícia em "X-Files".
Labels:
RS.T
13/02/04
CATEDRAL DA LAMPREIA
E uma vez que alguma confradaria da Câmara-Baixa não vai estar amanhã na Lampreia, aqui se informa que por decisão da Sereníssima Presidência e do Alto Conselho de Sábios e a anuência silenciosa da Guilda dos Senhores da Guerra, será entregue ao Bernardes da Ereira, uma moldura com o reconhecimento confradal da sua Lampreia, ajeitado como se Louvor fosse, embora denominado Catedral, com direito a moldura, demónio, louros e o habitual arranjo destas coisas:
CATEDRAL
REAL Sponto do TINTO
CONFRARIA BRIOSA DE TINTOFILIA & ALAMBAZANÇA
Jesus Cristo Também Bebia O Seu Copito
Às vezes há temíveis sensações de bem-estar
capazes de derrubar montanhas;
há que lutar contra elas com coragem,
como contra um inimigo.
Mas, pensando nas gloriosas jornadas anteriores,
remorde-nos na consciência apenas a ideia de que,
com um pouco mais de aplicação,
ter-nos-ia cabido mais Lampreia no corpo.
Com a gratidão a bailar-nos no olhar
e os recantos do ventre a transbordar das luxurias que levam ao Inferno,
esta confraria,
que pensa que com coisas de comer não se deve brincar,
ajoelha-se perante o Solo Sagrado desta Catedral do Bernardes,
e presta as honras devidas a esta abençoada Lampreia do Mondego!
Palavra do Cela, Palavra nossa.
Palavra da salvação!
Passos da RS.T, 08 de Fevereiro de 2003
pela RS.T,
o Alto Conselho de Sábios,
“O Único Pecado Capital É A Estupidez”
"EMBRIAGAI-VOS", de Charles Baudelaire, por Gótika
Isto é, descaradamente e sem perdão possível, roubado do melhor blog depois do Tapor, que é o blog da ilustre e atenta Gótika, por onde estes estapores também mandam bacoradas. Assim, salvo o devido respeito e com a devida vénia:
"Embriagai-vos!"
É necessário estar sempre bêbedo.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas - de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Charles Baudelaire
"Embriagai-vos!"
É necessário estar sempre bêbedo.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas - de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder:
- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Charles Baudelaire
12/02/04
O País da Canela e a descida do Amazonas, por Mangas
Conta-se que o "País da Canela", era uma terra situada do outro lado da muralha dos Andes na selva Oriental, governada por uma linda índia chamada Gabriela Cravo, e foi o motivo que reuniu os espanhóis Francisco Orellana, na época governador de Guaiaquil e veterano da guerra do Peru, o seu companheiro de armas e matanças Gonzalo Pizarro e o irmão deste Dom Francisco Pizarro, vice-rei do Peru, tão facínora quanto o mano mais velho. Ao ouvirem falar desse fantástico país, onde a canela crescia por todo o lado até mesmo sem fertilizantes nem adubos, os manos Pizarro congeminaram logo ali romper o monopólio dos portugueses sobre as especiarias das Índias Orientais, isto porque os cabrões sabiam que a canela era a especiaria mais procurada na Europa e seu comércio dava muito bago dourado. Conscientes das dificuldades que encontrariam para vencer terras desconhecidas e hostis para chegar ao País da Canela, os Pizarro prepararam-se em terra e montaram uma expedição com 5000 homens, entre índios e espanhóis, 250 cavalos, 4000 lhamas e 900 cães. Durante todo o mês de Fevereiro de 1541, o exército de Pizarro deixou Quito rumo aos Andes, e de lá prás selvas do Oriente que se faz tarde. Orellana, armado em forte e chico esperto, saiu de Guaiaquil com um grupo reduzido de homens para se encontrar com o exército de Pizarro. Mas fodeu-se porque quando chegou a Quito, não encontrou Pizarro, que se cagou literalmente para ele e partiu sozinho à procura País da Canela, pra ser o primeiro a mamar! Encontrar-se-iam quase 10 meses mais tarde, já o frio, a fome, as tempestades, os ataques dos índios, a diarreia e os insectos e as telenovela mexicanas haviam quase dizimado o exército de Pizarro. A ganir de fome e com os expedicionários magros como cães e mortinhos pra lhe fazer a folha, Orellana decidiu descer o grande rio a que chamou Rio das Amazonas, com 57 homens, em busca de qualquer coisa comestível, e regressar logo que a tivesse encontrado. Pizarro, que foi enchertado em corno de cabra e que pra passar o tempo se divertia em moço a rapar pêlos aos porcos com um corta unhas, apesar da péssima situação dos seus soldados, decidiu avançar a pé, mata adentro, com 80 espanhóis. Valente! Após mais dois meses de sofrimento inenarráveis encontraram algumas árvores de canela. Pizarro que assinava de cruz e de biologia conhecia apenas a bolota e o doce de alfarroba, não sabia que aquelas árvores não eram o verdadeiro cinamomo, de onde se extrai o aldeído cinâmico, o constituinte principal do óleo de canela. Tratava-se da laurácea Aniba Canelilla, um arbusto que cresce em vários pontos da região Amazónica. Por seu lado, o comparsa Orellana, analfabeto e de geografia tinha apenas por certo ser o Danubio o maior rio da Europa, também não sabia que graças à sua incursão rio abaixo, em busca da paparoca para matar a fome, passaria à história como o primeiro homem branco a descer o rio Amazonas.
Labels:
História
LE TRICHEUR, de Georges de La Tour
O quadro do Balthus, do jogo de cartas, que o Sofista Prateado aqui veio colocar, sempre me fez lembrar de imediato um outro que me despertou as mesmas sensações, nomeadamente um quadro do La Tour. Vi-o uma vez no Louvre e de vez em quando tropeço nele numa colectânea qualquer. É das melhores coisas do La Tour, que ao que me lembro é um daqueles cultores dos efeitos dramáticos do claro-escuro. A associação entre os dois quadros parece-me que resulta evidente, e tanto quanto me lembro é uma associação minha, e se calhar é calinada prós experts, mas se repararem, temos o mesmo jogo de cartas, o mesmo acto de esconder cartas nas costas, personagens jovens também, e sobretudo a atmosfera que transborda de ambos os quadros de engano, perfídia e maldade. A coisa é mais forte no La Tour, até porque o plano e o pormenor das expressões é outro, mas a coisa é quase similar. Parece-me assim evidente que o Balthus se inspirou neste La Tour, o que não lhe retira qualquer valor, para mais quando em arte e sobretudo em pintura é tradicional a reelaboração contínua das obras. São ambos quadros geniais.
ass.S.A.R.danápalo
PS: e já agora que alguém veja o que é que quer dizer Le Tricheur.
ass.S.A.R.danápalo
PS: e já agora que alguém veja o que é que quer dizer Le Tricheur.
Labels:
Arte
11/02/04
HISTÓRIA DOS "ÉFES", por Dog
Há quase vinte anos, o meu enorme amigo António Cação, de Trouxemil, Coimbra, contou-me uma historieta que tem sido uma das mais seguras alegrias da minha vida. Sempre que, em ambiente de amigos, a conto, o êxito é limpinho. Vou narrá-la pela primeira vez sob a forma escrita. Lembrei-me de o fazer porque esta é também a minha última crónica “Ouro e Sal”. No momento da despedida dos meus muitos e muito caros leitores de “O Eco”, quero, com a história dos “éfes”, deixar-vos o firme e luminoso sinal do melhor dos sentimentos: a Amizade. Obrigado, Amigos. E cá vai a história.
Fulano vai almoçar a um restaurante. É a primeira vez que lá vai. O empregado de mesa, que nunca o viu na vida, desconhece que o tipo só fala por éfes.
-Boa tarde. O que deseja almoçar?
-Frango frito frio.
-E para beber?
-Fundação Fina Flor.
-Como deseja o vinho?
-Fresquinho.
Nesta altura, o empregado, já meio à rasca com a fala do cliente, faz mais perguntas a ver se o tipo se descai com uma palavra que não comece por F.
-E deseja pão?
-Faça favor.
-E como quer o pão?
-Faça fatias fininhas.
O empregado, sem saber o que fazer á vida, continua a tentar.
-E sobremesa, vai querer alguma coisa?
-Fruta, fruta fresca, faça favor.
-Que tipo de fruta?
-Figos. Fresquinhos...
-Figos não temos. Só se for pudim...
-...flanzinho, faz favor!
Completamente enrascado, o empregado deixa-o a comer e a beber e vai fazer queixa ao patrão. O dono do restaurante aproveita para prègar um sermão ao empregado. Diz-lhe que, numa casa aberta ao público, o mais natural é que entrem todos os tipos de pessoas. Mas que ele patrão, lhe vai mostrar como se dá a volta a um tipo esquisito como aquele.
Pensava o patrão...E lá foi ele falar com o cliente dos éfes.
-Boa tarde, caro senhor. Nesta casa, gostamos de praticar uma política de bom acolhimento do cliente, de tal modo que, comendo aqui, todos se sintam como se comessem em sua própria casa. De maneira que gostaria de falar um pouco consigo.
-Francamente! Faça favor! Fale, fale...
-Como se chama o senhor?
-Francisco Ferreira Fagundes Fernandes.
-E é de onde?
-Fortaleza Franca.
-Isso é de que freguesia?
-Freguesia? Figueiró.
-E que faz o senhor na vida?
-Fui ferreiro.
-O senhor fala de uma maneira que deixa pensar que deixou a profissão...
-Fui forçado!...
-E foi forçado porquê?
-Faltou ferro.
Também já completamente à toa, o patrão da casa percebe que o homem é rijo, que não é fácil dar-lhe a volta. Mas, ainda assim, continua a tentar.
-Ouça, mas enquanto ainda era ferreiro, fazia o quê?
-Ffff...fazia facas, farpas, ferraduras, foices, farpões, fogões,...Ferramentas!...
O dono do restaurante aceita a derrota. Percebeu que não é possível dar a volta ao prego a um tipo daqueles. Numa última tentativa, diz:
-Amigo, nunca vi nem ouvi nada como o senhor. Mas digo-lhe: se me fizer mais uma frase de cinco ou seis palavras todas começadas por F, ofereço-lhe o almoço á borla!
-Todo feliz, diz o cliente:
-Foi formidável: fazendo fiado, fiquei freguês!
Como devem calcular, esta história já foi por mim contada muitas vezes. Mas, em Dezembro de 1985, aconteceu-me, por causa dela, uma coisa engraçada. E juro que aconteceu mesmo. Foi assim: estava num jantar entre amigos. Era uma festa de Natal. Eu tinha ido tocar viola, a coisa tinha corrido bem. Pela hora dos digestivos, o pessoal começou a contar anedotas. Eu, é claro, contei a dos éfes. Fartaram-se de rir. E reagiram de uma maneira curiosa. Toda a gente começou a tentar falar por éfes. Mas é difícil. De modo que começaram a adulterar os nomes uns dos outros. O senhor Coelho transformou-se em fenhor Foelho. O Cabanas virou Fabanas. O Zé tornou-se Fé.
Às tantas, uma rapariga (e jeitosa ainda por sinal...) chamou-me:
-Oh Faniel!
Sem pensar no que dizia, chamei-lhe o nome também adulterado pela inicial F. Sabes, querido leitor, como se chamava, para minha vergonha, a rapariga? Juro por Deus que é verdade: chamava-se Judite...
E eu juro que nunca fiz tal coisa à moça.
Fulano vai almoçar a um restaurante. É a primeira vez que lá vai. O empregado de mesa, que nunca o viu na vida, desconhece que o tipo só fala por éfes.
-Boa tarde. O que deseja almoçar?
-Frango frito frio.
-E para beber?
-Fundação Fina Flor.
-Como deseja o vinho?
-Fresquinho.
Nesta altura, o empregado, já meio à rasca com a fala do cliente, faz mais perguntas a ver se o tipo se descai com uma palavra que não comece por F.
-E deseja pão?
-Faça favor.
-E como quer o pão?
-Faça fatias fininhas.
O empregado, sem saber o que fazer á vida, continua a tentar.
-E sobremesa, vai querer alguma coisa?
-Fruta, fruta fresca, faça favor.
-Que tipo de fruta?
-Figos. Fresquinhos...
-Figos não temos. Só se for pudim...
-...flanzinho, faz favor!
Completamente enrascado, o empregado deixa-o a comer e a beber e vai fazer queixa ao patrão. O dono do restaurante aproveita para prègar um sermão ao empregado. Diz-lhe que, numa casa aberta ao público, o mais natural é que entrem todos os tipos de pessoas. Mas que ele patrão, lhe vai mostrar como se dá a volta a um tipo esquisito como aquele.
Pensava o patrão...E lá foi ele falar com o cliente dos éfes.
-Boa tarde, caro senhor. Nesta casa, gostamos de praticar uma política de bom acolhimento do cliente, de tal modo que, comendo aqui, todos se sintam como se comessem em sua própria casa. De maneira que gostaria de falar um pouco consigo.
-Francamente! Faça favor! Fale, fale...
-Como se chama o senhor?
-Francisco Ferreira Fagundes Fernandes.
-E é de onde?
-Fortaleza Franca.
-Isso é de que freguesia?
-Freguesia? Figueiró.
-E que faz o senhor na vida?
-Fui ferreiro.
-O senhor fala de uma maneira que deixa pensar que deixou a profissão...
-Fui forçado!...
-E foi forçado porquê?
-Faltou ferro.
Também já completamente à toa, o patrão da casa percebe que o homem é rijo, que não é fácil dar-lhe a volta. Mas, ainda assim, continua a tentar.
-Ouça, mas enquanto ainda era ferreiro, fazia o quê?
-Ffff...fazia facas, farpas, ferraduras, foices, farpões, fogões,...Ferramentas!...
O dono do restaurante aceita a derrota. Percebeu que não é possível dar a volta ao prego a um tipo daqueles. Numa última tentativa, diz:
-Amigo, nunca vi nem ouvi nada como o senhor. Mas digo-lhe: se me fizer mais uma frase de cinco ou seis palavras todas começadas por F, ofereço-lhe o almoço á borla!
-Todo feliz, diz o cliente:
-Foi formidável: fazendo fiado, fiquei freguês!
Como devem calcular, esta história já foi por mim contada muitas vezes. Mas, em Dezembro de 1985, aconteceu-me, por causa dela, uma coisa engraçada. E juro que aconteceu mesmo. Foi assim: estava num jantar entre amigos. Era uma festa de Natal. Eu tinha ido tocar viola, a coisa tinha corrido bem. Pela hora dos digestivos, o pessoal começou a contar anedotas. Eu, é claro, contei a dos éfes. Fartaram-se de rir. E reagiram de uma maneira curiosa. Toda a gente começou a tentar falar por éfes. Mas é difícil. De modo que começaram a adulterar os nomes uns dos outros. O senhor Coelho transformou-se em fenhor Foelho. O Cabanas virou Fabanas. O Zé tornou-se Fé.
Às tantas, uma rapariga (e jeitosa ainda por sinal...) chamou-me:
-Oh Faniel!
Sem pensar no que dizia, chamei-lhe o nome também adulterado pela inicial F. Sabes, querido leitor, como se chamava, para minha vergonha, a rapariga? Juro por Deus que é verdade: chamava-se Judite...
E eu juro que nunca fiz tal coisa à moça.
Pastéis de Belém e Tentugal, por Mangas
Confesso que nunca fui especialmente amante de doçaria, conventual ou regional. Os meus gostos são simples e não exigem requintes elaborados de ovos e açúcar, para além do arroz doce submerso em canela feito pela minha mãe, ou de uma mousse de chocolate que ela faz todos os natais absolutamente soberba, camadas finas de natas cobertas de outras mais espessas e duradouras de chocolate até ao topo, e pelo meio, escondidas entre duas bem aventuradas colheres de paraíso, amêndoas torradas, cortadas a meio ou inteiras que conferem aos maxilares, ao palato e ao gosto, breves, mas inextinguíveis razões de existência. Abro aqui uma excepções para os meus dois doces regionais favoritos e dos quais nunca me abstenho, assim essa oportunidade venha ao meu encontro, de comer e saborear meia dúzia ou os necessários até consolar a pança. O pastel de Belém e o pastel de Tentugal. Sobre o primeiro não me vou alongar muito, pois é sobre o segundo que vos queria falar. Conheci os pastéis de Belém quando era estudante e fui estagiar para o Hospital Egas Moniz em Alcântara, em 1986. Recordo-me bem que saía do hospital às 3h da tarde, em Março já o sol me apanhava na rua a espreguiçar os apontamentos e os processos dos doentes, mortinho para me pôr dali a andar em direcção a Carnaxide estava eu!, apanhava o eléctrico até Belém numa viagem curta sem pausas e com Tejo a poente, descia em Belém e passo acelerado entrava na Antiga Confeitaria de Belém (penso que é assim que se chama), e já saía dali aviado. Nada de açúcar em pó! O pastel de Belém já tem doce quanto baste e o único complemento que admite é a canela! Não precisa, nem deve levar açúcar correndo o risco de se tornar excessivamente adocicado e ser cortado naquele travo único do creme macio e sereno ao paladar, quando saboreado abundantemente com dentadas frugais mas respeitosas, porque majestoso é o pastel. A besta que considera um pastel de Belém igual ou uma variante do pastel de nata, é bronco ao paladar, simplista na apreciação e ofensivo à verdadeira essência das coisas, da vida e dos deleites que a sustentam. Adiante. O pastel de Tentugal chegou ao meu conhecimento pela televisão. Era eu miúdo e via sempre um programa chamado Sopa de Pedra, com um fulano gordo e barbudo que vestia o hábito de monge e visitava as capelinhas gastronómicas deste país. Lembram-se? O tipo aparecia nas cozinhas, falava com os cozinheiros das iguarias, dos pratos que celebrizaram cada região ou ermo perdido e alambuzava-se no final, antes de seguir caminho de rota batida para outro paraíso à mesa. Um desses episódios foi filmado em Tentugal. Muitos anos mais tarde, comi finalmente um desses pastéis. Hoje, esse gesto tornou-se uma rotina mais ou menos desprezada. Não terá em si, o mesmo significado místico de provar um vinho ou saborear um cubano, mas continua a ser uma invocação de prazer e bem estar. Um dia destes, estava eu sentado a ver o GNT, quando sou surpreendido com uma reportagem sobre os pastéis de Tentugal. Os brasileiro vieram cá e pasme-se, demoraram três quartos do programa a mostrar passo a passo a feitura, não do recheio ou do pastel no seu todo, mas do folhado que o cobre. E fiquei a saber o que até então nunca eu tinha imaginado. A coisa faz-se assim: no centro de uma sala enorme e preparada para o efeito, coloca-se sobre um tecido branco com a largura e comprimento da sala, um bloco de massa feita exclusivamente com farinha e água, segundo a D. Fátima que até tem nome de santa e abençoadas devem ser as suas mãos. Depois, de forma progressiva, firme, e segura, vai-se esticando essa massa do centro para a periferia. Movimentos a duas mãos, sincronizados para não abrir brechas na elasticidade da massa, no sentido dos ponteiros do relógio. Estica, puxa, estica, puxa. A massa vai-se tornando cada vez mais fina e extensa, como devem calcular. A certa altura, após uma ou outra esticadela, o ar invade o espaço entre a massa e o chão criando um efeito de balão: a massa chega quase a tocar o tecto, como um enorme pára-quedas a abrir-se para logo a seguir, descer quando o ar se escapa, muito lentamente, até ao pano branco outra vez, onde assenta. Incrível! Nem um golpe na sua integridade, nem uma brecha por ali se mostra. No final, a massa ocupa agora todo o perímetro da sala. Não imagino, mas seguramente alguns 10mx10m, talvez. Está agora reduzida à espessura de uma folha de papel transparente. Literalmente! É então que os bordos irregulares são cortados de forma geométrica, para em seguida se proceder ao corte de pequenos quadrados, centenas deles, que sobrepostos em quantidades proporcionais vão receber o recheio de ovos, ser enrolados e acabar no forno. Achei aquilo tudo de uma mestria absolutamente única. A manualidade, a simplicidade e ao mesmo tempo a complexidade do processo, fizeram-me achar que era algo digno de pertencer a este espaço e olhar para os pasteis de Tentugal com outros olhos, ainda que com a mesma boca.
Labels:
Comida
10/02/04
Balthus, La partie de cartes, 1948-50, 55 x 76 in. / 140 x 194 cm (Thyssen-Bornemisza), Por Olho Vivo
Gosto particularmente de Balthus. Partida de Cartas que está no Thyssen-Bornemisza em Madrid é um dos meus quadros preferidos. Leva a um expoente máximo algumas das qualidades que aprecio neste pintor. A obliquidade de um mundo que nunca é o que parece, uma desordem e uma tensão latentes, prestes a explodir num mundo aparentemente banal... Faz lembrar uma orelha cortada que, subitamente, aparece na calma verde da relva de um jardim (Blue Velvet, lembras-te Mangas?)...
Este é um quadro oblíquo - a aresta da mesa é que parece estar em primeiro plano, como o joelho do rapaz empoleirado no banco. Quando vemos o quadro, parece que estamos com um defeito nos olhos, as arestas impõem-se sobre as formas das coisas, e o olhar dos personagens foge do quadro e foge-nos a nós. E porque é que temos a sensação de que ambos, o rapaz e a rapariga, estão a fazer batota no jogo de cartas? Neste quadro, nada é o que parece ser e é esse o seu mistério e o seu encanto.
Este é um quadro oblíquo - a aresta da mesa é que parece estar em primeiro plano, como o joelho do rapaz empoleirado no banco. Quando vemos o quadro, parece que estamos com um defeito nos olhos, as arestas impõem-se sobre as formas das coisas, e o olhar dos personagens foge do quadro e foge-nos a nós. E porque é que temos a sensação de que ambos, o rapaz e a rapariga, estão a fazer batota no jogo de cartas? Neste quadro, nada é o que parece ser e é esse o seu mistério e o seu encanto.
Labels:
Arte
09/02/04
TANTO MAR, por Cão
Nunca percebi muito bem por que razão trabalham as pessoas que vivem ao pé do mar. Como conseguirão elas, dentro dos locais de trabalho, ignorar que ali tão perto vive e respira essa descomunal fonte de toda a nostalgia? Como? Eu não sei. Sei apenas que, se me fosse dado viver na vizinhança do oceano, descuraria tudo e todos, passando a viver os meus dias na contemporaneidade do sal, na lição melancólica das ondas, na dulcíssima tristeza das madeiras náufragas. Juro.
Como não posso viver assim, vivo assado. De manhãzinha, acordo para um mundo repetido. Meto-me no meu carro velho, paro para uma chávena de café e um comentário sobre futebol, chego à secretária, mexo em papeis, vou almoçar sem graça nem glória a uma pensão com quadros de barcos sem mar na parede, volto aos papeis, volto ao carro velho, volto a casa, janto sem glória nem graça numa cozinha que me viu crescer, vou sorver outro café e outro comentário sobre futebol e pronto: estou pronto para a morte diária do sono.
Adormeço. E lá está ele: o mar. Na minha cabeça, ondas, sal, barcos e madeiras, gaivotas e crianças, cores e muito mar. Atiro-me à água, nado olimpicamente, chego a uma ilha, estendo-me na areia. O sol desenha uma sombra nova junto de mim. É a de uma rapariga. A coisa melhora. Mas a rapariga é afinal a minha mãe, que tem setenta e cinco anos e não perde a mania de me acordar cedo para que me deixe de navegações e vá trabalhar, que se faz tempo.
Como não posso viver assim, vivo assado. De manhãzinha, acordo para um mundo repetido. Meto-me no meu carro velho, paro para uma chávena de café e um comentário sobre futebol, chego à secretária, mexo em papeis, vou almoçar sem graça nem glória a uma pensão com quadros de barcos sem mar na parede, volto aos papeis, volto ao carro velho, volto a casa, janto sem glória nem graça numa cozinha que me viu crescer, vou sorver outro café e outro comentário sobre futebol e pronto: estou pronto para a morte diária do sono.
Adormeço. E lá está ele: o mar. Na minha cabeça, ondas, sal, barcos e madeiras, gaivotas e crianças, cores e muito mar. Atiro-me à água, nado olimpicamente, chego a uma ilha, estendo-me na areia. O sol desenha uma sombra nova junto de mim. É a de uma rapariga. A coisa melhora. Mas a rapariga é afinal a minha mãe, que tem setenta e cinco anos e não perde a mania de me acordar cedo para que me deixe de navegações e vá trabalhar, que se faz tempo.
Labels:
Ficção
04/02/04
Be hot. Be cool. Just be
As minhas amigas da escola estão a participar no Campeonato Mundial de Escolíadas que será disputado no mês de Março. Para quem não sabe, as escolíadas é uma espécie de Jogo da Cornélia - aquele concurso dos anos 70 com o carlos cruz - esse.. - e o tal de solnado, cuja filha anda metida com Deus. Elas têm que preparar e apresentar performances várias de teatro, de dança, de música, de poesia e outras actividades cultas.
Hoje as minhas amigas da escola pediram-me ajuda. Pedem-me elas que invente slogans, frases, ditos e aforismos, até poemas, se for capaz, acerca do tema que elas escolheram. Eu não sou capaz, mas lembrei-me que a malta aqui do tapor, os crónicos, os menos crónicos e os visitantes, todos podíamos ajudar. O tema delas é mais ou menos isto «não somos anjos nem demónios, somos como somos». Eu já as adverti que vai sair esterco no tapor, mas também sei que passado o gozo ritual inicial, sobra sempre alguma coisa. Ou se calhar não e sai só bacorada... Em todo o caso vá lá pessoal vejam se sai alguma coisa de jeito.
Hoje as minhas amigas da escola pediram-me ajuda. Pedem-me elas que invente slogans, frases, ditos e aforismos, até poemas, se for capaz, acerca do tema que elas escolheram. Eu não sou capaz, mas lembrei-me que a malta aqui do tapor, os crónicos, os menos crónicos e os visitantes, todos podíamos ajudar. O tema delas é mais ou menos isto «não somos anjos nem demónios, somos como somos». Eu já as adverti que vai sair esterco no tapor, mas também sei que passado o gozo ritual inicial, sobra sempre alguma coisa. Ou se calhar não e sai só bacorada... Em todo o caso vá lá pessoal vejam se sai alguma coisa de jeito.
NOSTALGIAS, by Grão dos Invinófilos
Mensagem enviada pelos Infamigerados à Sponto algures em 2003, agora recuperada poque estava a ocupar muito espaço na memória do pc:
Caro Vice da RS.T
Venho, na qualidade de Grão da RCI, destruir-Vos algumas ilusões e tranquilizar-Vos quanto às preocupações Estético-Ideológico-Filosóficas.
Todos nós temos colecções consideráveis de vinil sagrado nas prateleiras empoeiradas na nossa adolescência. Para alguns de nós, o John Lennon não é um mito, era um gajo muito pedrado que comia japonesas em directo, gostava de "morangos" e de "mulheres". É certo que nas fantasias juvenis, substituímos o nariz fálico da Barbara Streisand pelos "talentos" da Samantha Fox, mas também, quem é que pode condenar...?
Para nós, a Madonna chegou a ser virgem e o Sá Carneiro foi obviamente um Primeiro-Ministro vivo! As primeiras miúdas foram seduzidas em festas mal iluminadas em garagens escondidas, ao som do vinil ou de cassetes com gravações mal sobrepostas. Para nós, a Abelha Maia não é um insecto de uma civilização perdida nas américas, mas uma estrela de TV. Todos aprendemos que os telefones são uns grandes monos pretos presos às paredes e todos nos lembramos do momento mágico em que lá em casa se fez a substituição da televisão a P/B pela TV a cores. Todos terminámos a licenciatura sem conhecer a Internet e fomos grandes especialistas em computadores Spectrum e Timex, com jogos sofisticados gravados em cassetes que comprávamos em lojas que só os entendidos conheciam. Todos nós provámos as moelas do Arco-Bar às 4 da manhã e chorámos no cinema quando o E.T. não conseguiu ligar para casa .
Quando queremos um TWIX, continuamos a pedir um SNICKER. HAL-9000 é a personagem principal do 2001 - Odisseia no Espaço, e não um nickname dos chats online. O Star Wars é um clássico e a Galáctica também. A Quinta Dimensão era um culto e o John Wayne um herói. Para nós, não há pastilhas elásticas depois das GORILA. Os piercings são ultramodernices que provocam electricidade estática e a Manuela Moura Guedes é uma cantora frustrada que agora é jornalista.
Assim, caro Vice, como podeis achar-nos tão diferentes de Vós? Somos o fim da Vossa geração, mais novos é certo, mas ainda a tempo de salpicar a adolescência com as mesmas referências e de ter muita dificuldade em compreender a linguagem desta gente mais nova...
Levaremos Vinil para sofisticar os decibéis, MPB por certo, Smiths também, e outros mais inesperados. E prometemos ainda levar o melhor tinto!
Cumprimentos Invinófilos
Caro Vice da RS.T
Venho, na qualidade de Grão da RCI, destruir-Vos algumas ilusões e tranquilizar-Vos quanto às preocupações Estético-Ideológico-Filosóficas.
Todos nós temos colecções consideráveis de vinil sagrado nas prateleiras empoeiradas na nossa adolescência. Para alguns de nós, o John Lennon não é um mito, era um gajo muito pedrado que comia japonesas em directo, gostava de "morangos" e de "mulheres". É certo que nas fantasias juvenis, substituímos o nariz fálico da Barbara Streisand pelos "talentos" da Samantha Fox, mas também, quem é que pode condenar...?
Para nós, a Madonna chegou a ser virgem e o Sá Carneiro foi obviamente um Primeiro-Ministro vivo! As primeiras miúdas foram seduzidas em festas mal iluminadas em garagens escondidas, ao som do vinil ou de cassetes com gravações mal sobrepostas. Para nós, a Abelha Maia não é um insecto de uma civilização perdida nas américas, mas uma estrela de TV. Todos aprendemos que os telefones são uns grandes monos pretos presos às paredes e todos nos lembramos do momento mágico em que lá em casa se fez a substituição da televisão a P/B pela TV a cores. Todos terminámos a licenciatura sem conhecer a Internet e fomos grandes especialistas em computadores Spectrum e Timex, com jogos sofisticados gravados em cassetes que comprávamos em lojas que só os entendidos conheciam. Todos nós provámos as moelas do Arco-Bar às 4 da manhã e chorámos no cinema quando o E.T. não conseguiu ligar para casa .
Quando queremos um TWIX, continuamos a pedir um SNICKER. HAL-9000 é a personagem principal do 2001 - Odisseia no Espaço, e não um nickname dos chats online. O Star Wars é um clássico e a Galáctica também. A Quinta Dimensão era um culto e o John Wayne um herói. Para nós, não há pastilhas elásticas depois das GORILA. Os piercings são ultramodernices que provocam electricidade estática e a Manuela Moura Guedes é uma cantora frustrada que agora é jornalista.
Assim, caro Vice, como podeis achar-nos tão diferentes de Vós? Somos o fim da Vossa geração, mais novos é certo, mas ainda a tempo de salpicar a adolescência com as mesmas referências e de ter muita dificuldade em compreender a linguagem desta gente mais nova...
Levaremos Vinil para sofisticar os decibéis, MPB por certo, Smiths também, e outros mais inesperados. E prometemos ainda levar o melhor tinto!
Cumprimentos Invinófilos
Labels:
RS.T
02/02/04
JESUS CRISTO TAMBÉM BEBIA O SEU COPITO, por Sardanápalo
A propósito de um post publicado no Blog Espectadores, a coisa parece realmente especulativa. Mas a análise que feita nesse blog também abusa do simplismo da coisa. O que o programa fez e fê-lo declaradamente, e se é que estamos a falar do mesmo programa, até porque acho que vi aquilo no Odisseia, foi pegar nas partes obscuras e não documentadas, nem referenciadas com clareza, da vida do JC, e assumindamente fazer várias conjecturas especulativas. Vale o que vale, mas que tem piada e interesse isso tem.
E a relação do JC com a Madalena nunca me enganou. E fica-se sempre na dúvida onde andou o manganão dos 14 aos 20 e tal anos. Assim como a história da ressuscitação levanta as maiores dúvidas, e isto dando de barato a fé-zada de que o gajo se levantou e fugiu do túnel branco. É que os vários apóstolos apresentam versões diferentes. Os primeiros relatos não falam de ressuscitação nenhuma, só dizem que chegaram lá depois e o corpo népias. O primeiro texto a falar de ressuscitação surge 200 anos depois da diat cuja. E a ressuscitação como hoje a conhecemos é mais uma elaboração medieval a partir dos relatos desencontrados, que outra coisa.
Mas enfim, eu falo do programa mais como efabulação do que outra coisa. O JC é um gajo catita, teve a sua piada e até bem aos pobres fez. Bebeu uns tintóis como nós e se cá andasse ainda estava nesta Confraria de santos a fazer o milagre da multiplicação dos leitões e das lampreias. Aí é que eu acreditava em tudo e até na pureza da Madalena.
E atenção que eu gosto da Biblia, é um dos meus livros de cabeceira e de casa de banho preferidos. Mijo-me a rir com aquilo. Atão com o velho testamento é um fartote. E as órgias que prá-li-vão? as escravas a rodos, as esposas submissas e a chicote, o sangue com fartura, cow-boys e far-westes, incestos e sodomias, taradeiras, vinhaças, mariscos e bebedeiras. Uns pandegos aqueles apóstolos, juro pelos doze, que salvo a melhor blasfêmea inclui o Judas, o gajo das anedotas. Já o Apocalipse do João é um delirio tremens completo. O eremita tava cuma pedrada terrível quando fez aquilo e pra mim que gosto das bestas todas à desfilada pelo vale das sombras da morte por onde caminham os abençoados que protegem os seus irmãos das iniquidades dos homens maus (esta última parte não é do apocalipse mas sim do Pulp Fiction, com base no Ezequiel, mas já li o Ezequiel todo à conta do cabrão do Tarantino e num tá lá isto), mas como ia a dizer, o bom do joão só foi bem interpretado na idade média, quando rotulavam o seu escrito de herético, loucura e ganza total e obviamente mandavam prá fogueira os gajos que se entretinham a ler aquilo.
Agora vê lá, não metas isto no Tapor, que ao ler isto há muita gente por aí a que começa logo a acender fósforos e eu gosto é de leitão assado, não é de porco queimado. Já a Lampreia pode ser de vinagreta, ó JC, se faz favor!
ass: o amigo das albizzias
E a relação do JC com a Madalena nunca me enganou. E fica-se sempre na dúvida onde andou o manganão dos 14 aos 20 e tal anos. Assim como a história da ressuscitação levanta as maiores dúvidas, e isto dando de barato a fé-zada de que o gajo se levantou e fugiu do túnel branco. É que os vários apóstolos apresentam versões diferentes. Os primeiros relatos não falam de ressuscitação nenhuma, só dizem que chegaram lá depois e o corpo népias. O primeiro texto a falar de ressuscitação surge 200 anos depois da diat cuja. E a ressuscitação como hoje a conhecemos é mais uma elaboração medieval a partir dos relatos desencontrados, que outra coisa.
Mas enfim, eu falo do programa mais como efabulação do que outra coisa. O JC é um gajo catita, teve a sua piada e até bem aos pobres fez. Bebeu uns tintóis como nós e se cá andasse ainda estava nesta Confraria de santos a fazer o milagre da multiplicação dos leitões e das lampreias. Aí é que eu acreditava em tudo e até na pureza da Madalena.
E atenção que eu gosto da Biblia, é um dos meus livros de cabeceira e de casa de banho preferidos. Mijo-me a rir com aquilo. Atão com o velho testamento é um fartote. E as órgias que prá-li-vão? as escravas a rodos, as esposas submissas e a chicote, o sangue com fartura, cow-boys e far-westes, incestos e sodomias, taradeiras, vinhaças, mariscos e bebedeiras. Uns pandegos aqueles apóstolos, juro pelos doze, que salvo a melhor blasfêmea inclui o Judas, o gajo das anedotas. Já o Apocalipse do João é um delirio tremens completo. O eremita tava cuma pedrada terrível quando fez aquilo e pra mim que gosto das bestas todas à desfilada pelo vale das sombras da morte por onde caminham os abençoados que protegem os seus irmãos das iniquidades dos homens maus (esta última parte não é do apocalipse mas sim do Pulp Fiction, com base no Ezequiel, mas já li o Ezequiel todo à conta do cabrão do Tarantino e num tá lá isto), mas como ia a dizer, o bom do joão só foi bem interpretado na idade média, quando rotulavam o seu escrito de herético, loucura e ganza total e obviamente mandavam prá fogueira os gajos que se entretinham a ler aquilo.
Agora vê lá, não metas isto no Tapor, que ao ler isto há muita gente por aí a que começa logo a acender fósforos e eu gosto é de leitão assado, não é de porco queimado. Já a Lampreia pode ser de vinagreta, ó JC, se faz favor!
ass: o amigo das albizzias
Subscrever:
Mensagens (Atom)