04/09/13

Porque é que não pegam em todos os vossos biliões de dirhams e compram um sítio melhor para lá montarem a vossa cidade? por Mau Mé Mé

O Dubai é uma cidade virtual, uma ficção absurda construída contra a natureza. De um lado a teimosia do homem aliada à força do dinheiro, do outro a implacabilidade da natureza. De um lado o skyline da Marina Dubai, do outro a água do golfo pérsico a 40 graus às onze da noite, os relógios Rolex de 10 em 10 metros num dos maiores aeroportos do mundo e as marcas do tempo a remoerem os arranha céus, a névoa plúmbea que envolve a cidade a contrastar com o azul foto-shop da publicidade, a pequenez sofrida dos trabalhadores africanos, paquistaneses, indianos, filipinos em guerra atroz com o calor insuportável das três da tarde. Se não fosse a aparência high-tech desta cidade sentir-nos-íamos em pleno deserto que é o que, no fundo, é este sítio: um prolongamento das areias ferventes da arábia saudita  até ao mar. O Dubai é uma espécie de bruxa disfarçada de bela donzela - se olharmos bem conseguimos ver as rugas da mulher velha por detrás da sua beleza aparente.

15/08/13

Shoping Center, por Mau Mé Mé

No Dubai Mall, o infinito centro comercial da base do burj al Kalifa, cinco mulheres fardadas de burqa da cabeça aos pés, vigiadas à distância por um xeque ternurento, fazem gincanas entre as lojas de marca, afogadas em sacos de compras. Que levarão nos sacos? Burqas Armani para enfeitar os serões do Ramadão?

Islamismo Anão, por Mau Mé Mé

O desejo de se aproximar dos Céus é próprio da arquitectura religiosa, falemos em catedrais góticas, em stupas orientais ou em mesquitas islâmicas. A mesquita, como os seus congéneres de outras latitudes religiosas, também tem, sempre teve, a pretensão das alturas. A mesquita islâmica pretende ser o edíficio mais alto, o mais próximo de Alá. Durante séculos nas cidades islâmicas foi mesmo proibido - e presumo que, em muitos locais, ainda seja - erguer edifícios mais altos que as mesquitas (ainda recentemente a liberal Suíça teve problemas  com a altura dos minaretes das mesquitas).

A maior mesquita do Dubai é a mesquita Jumeirah. Possui dois minaretes que seriam altos em qualquer outro lugar do mundo. Menos aqui. Apagada no imponente skyline do Dubai, a mesquita de Jumeirah parece um edifício anão. E, comparada com a torre em alfinete do Burj Al kalifa, o maior edifício do mundo, que passa as nuvens e acende-se do outro lado do céu, os minaretes da Jumeirah chegam a parecer rídiculos. Dubai 2013, capital do capitalismo islâmico: em vez de Alá é o Rei-Money quem roça as fronteiras dos céus. Sinais dos tempos.

04/06/13

O Meu Braço de Ferro Com os Grandes Escritores que Não Usam Pontuação no Caraças dos Livros, por Crítico Literário



Há cerca de um ano, aproveitando a visita de um amigo que habitualmente reside em Paris e gosta, como eu, destas coisas da leitura, pedi-lhe uma sugestão. Um novo autor, algo que valha a pena e que aqui desconheçamos. O meu amigo não me faltou (como nunca falta um amigo) e levou-me imediatamente à livraria mais próxima, onde, da estante da letra E, tirou Zone do francês Mathias Énard. Compra-o à confiança. É o melhor escritor francês actual e vai ser o maior nome das letras francesas. Comprei-o, pois.

Mas mais valia estar quieto. Logo ao desfolhar o livro verifiquei que se tratava de mais um exemplar daquela corrente estética (?) que defende que os livros devem ser escritos sem pontuação, sem distinção entre maiúsculas e minúsculas e, sobretudo, sem jamais usar um singelo ponto final. Parece que o autor, segundo li numa entrevista, tentou reproduzir o ritmo de uma viagem de comboio – a história é narrada a partir dessa perspectiva – e como o comboio não para, nós também não podemos ter apeadeiros…

Convém esclarecer que tenho uma espécie de posição de princípio em relação a esse tipo de escrita, que pode resumir-se assim: não leio! Pode tratar-se do mais genial escritor do mundo, não discuto. Simplesmente não leio porque este estilo faz-me sempre sentir gozado pelo autor. Estou a perder Saramago, certa partes de Joyce, algum Lobo Antunes. Talvez, mas felizmente existem muitos outros autores igualmente geniais que usam pontuação. É verdade que digo isto e que depois acabo sempre por dar uma chance (salvo seja)a certos autores. E, por isso, não desisti logo de Mathias Énard e também tentei ler Zone. Tentei, até ao momento de irritação fatal em que, simplesmente, atingi um ponto de saturação tal, que corri à livraria e troquei o livro por outro (por um bom velho e conservador Dostoievsky, se não estou em erro).

Na semana passada, porém, voltei a ouvir falar de Mathias Énard a propósito do  lançamento no nosso país de Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes (D. Quixote). A história interessou-me – fala de um convite que foi dirigido ao grande Miguel Ângelo pelo sultão Otomano para que construísse uma ponte em Istambul, projecto já anteriormente tentado, mas não concretizado, por da Vinci. Por curiosidade peguei no livro e desfolhei-o. Primeira surpresa: não está escrito como Zone, Énard escreve respeitando as regras elementares de pontuação! Grande vantagem. Fui entrando no livro e, confesso, pasmei! Quando dei por mim tinha lido 100 páginas de um fôlego. Trata-se de  um livro fabuloso e Énard é, afinal, tão genial como o meu amigo «francês» me tinha dito. A sua escrita é de um lirismo arrepiante, a narrativa, a caracterização (Énard passou três anos a recolher informação sobre o império otomano),a força persuasiva do argumento, é a melhor edição do ano no nosso país… Achei brilhante a  metafísica inerente: tudo é efémero na passagem de Miguel Ângelo por Istambul – da qual nem sequer temos a certeza absoluta de que tenha ocorrido, de facto. Até a sua ponte que terá ruído num terramoto, tal como a sua funesta paixão andrógina e a sua amizade equívoca com o poeta e calígrafo turco que o acolhe… Restou uma ferida de uma adaga a Miguel Ângelo da sua efémera passagem por Istambul – uma ferida que rivaliza para ele com as suas imortais criações. Vou ficar atento à espera do próximo livro de Énard, autor de quem espero grandes feitos literários.

O caso deste autor é um exemplo flagrante de como um pré-conceito estético/estilístico/ideológico pode, facilmente, matar um grande livro e um grande autor. Acredito que, escrito de outra maneira, Zone também poderia ser um grande livro. Ou melhor, acredito que o leria com o mesmo entusiasmo – porque a genialidade do autor ainda lá deve estar - e que poderia retirar dele tanto prazer como retirei de «Fala-lhes de Batalhas». O contraste entre os dois Énards é chocante e, sinceramente, não vejo o que é que se ganha em obrigar o leitor a colocar-se na pele do revisor do texto do autor, obrigando-o a colocar a pontuação que já devia vir feita. Na arte como na vida o preconceito – mesmo quando é assumido com a melhor das intenções – pode ser um defeito terrível. E, não, não conto voltar a reler Zone. Mas espero ansiosamente pelo próximo Énard.

29/05/13

Memory of a Free Festival de Bowie

Memory Of A Free Festival é a faixa que fecha o segundo álbum do jovem David Bowie, Space Oddity, de 1969. Bowie é um camaleão e não apenas pelas surpreendentes mutações que continua a fazer (o seu último disco, o melhor disco dos últimos dez/quinze anos, uma obra prima absoluta, vem prová-lo mais uma vez). Ele é um camaleão porque até as suas velhas músicas, como Memory se transformam com o tempo. Eu nunca havia reparado no clima Sci-Fi desta velha música, nem na sua estrutura desconcertante, nem na voz delicodoce de Bowie. Mas um dia destes deixei correr Space Odity e, mesmo no fim do álbum, deparo-me com esta preciosidade. Agora, não passa outra coisa no meu leitor de cds:


09/05/13

Rui Gomes da Silva sobre nomeação de Pedro Proença

"Se quiserem castiguem-me pelo que vou dizer, não tenho a mínima preocupação. Após a nomeação do senhor Pedro Proença para o jogo de sábado, só se pode chegar à conclusão que este campeonato está comprado. Isto é uma vergonha, é um escândalo, é corrupção."

21/03/13

Onde é que eu assino?, por Metenojo

Mais cedo do que esperávamos, ele aí está, o regresso do maior responsável pelo lodaçal pestilento e falido em que o país se tornou. Socas volta e com ele a tralha xuxa que tinha feito um período de hibernação prudente. Ainda agora passei pelas televisões e lá estavam o coelhone, o clone silva pereira, o teixeira dos santos e mais uns sem vergonha que têm estado prudentemente escondidos.

A decisão do director da RTP de convidar um personagem como zé socas a fazer um programa permanente na rtp é escandalosa e injustificável. Socas na RTP, uma televisão pública paga com o nosso dinheiro?Se dúvidas havia acabaram-se agora - privatizem aquela porcaria, já!

Chega agora o choradinho da censura ao socas... Que a malta das petições está a censurar a pobre vítima e etc e tal...  Mas qual censura ao socas? As pessoas parece que já não sabem o significado das palavras. Eu sou censurado por não ter um programa permanente na RTP? Não pois não, mas não tenho... Quantos de nós vão à TV dizer de sua justiça? E quantos têm acesso livre à RTP num programa em permanência? Se é uma questão de censura achar ofensivo que um indivíduo destes tenha todo este tempo de antena num canal público de televisão, então temos para aí 9 milhões de cidadão censurados neste país. Não, isto não tem nada a ver com censura...

O que está em causa não é o direito deste indivíduo dizer o que pensa: é a aberração de um critério editorial que resolve dar um tempo de antena num mass media pago com dinheiros públicos - portanto por nós - a um indivíduo que é o principal responsável pelo lodaçal em que vivemos. Eu também gostava de ter acesso a um programa de TV diário e à borla para pedir esclarecimentos a personagens como este socas. Mas não tenho, venho aqui ao Tapor e é bem bom.

Acho uma ofensa para todos nós que andamos a pagar esta crise e a suportar as teias da corrupção que se teceram neste país nos últimos anos que se dê tempo de antena permanente num media público a gente desta. Noutros países estes «gestores» da desgraça não tiveram tempo de antena, mas outros destinos, esses sim, merecidos. Esta provação é um teste ao que resta do sentimento de dignidade da população portuguesa: se consentirmos nesta abjecção, isso significa que não aprendemos nada e que merecemos tudo o que nos está a acontecer. Onde é que eu assino a petição para impedir esta indignidade?

P.S. - Já agora ficam algumas sugestões temáticas para o novo comentador político da RTP:
- O fripó;
- a licenciatura farinha maizena;
- o aterro da cova da beira;
- as casinhas do eixo covilhã- castelo branco;
- o prédio de luxo;
- as contas de milhões da família;
- os contratos ruinosos  para o estado (tantos, tantos!!!) e as suas cláusulas punitivas;
- as escutas do face oculta;
- o godinho e seus godões;
- os off shores
- la vie en rose;
- a jota pê sá couto;
- a parque escolar
- a brisa;
- o primo shaolin;
- a tentativa de silenciamento de jornalistas;
- as perseguições ao blogger do Portugal Profundo.
- etc...

Pensando bem, tenho que admitir, por outro lado, que o homem dava só por si um programa diário para os próximos tempos.

16/03/13

O Director de Turma é o grau zero da hierarquia mundial dos Directores, por DDT



O termo Director faz sentido quando se dirige uma empresa (por pequena que seja), um clube de futebol (mesmo que seja o Sporting), um departamento do governo (por incompetente que seja), uma instituição de solidariedade… Mas um Director «de Turma»? Hello! Os dois termos são uma contradição em si: Director parece que puxa para cima, mas depois, acrescenta-se «de Turma» e dá a impressão que estão a gozar connosco

Nos grandes encontros de negócios, os líderes das empresas trocam cartões de identificação entre si – António Lallande, Director da Sonae, Miguel do Vale, Director da CGD, Onésimo Botelho da Silva, Director da Galp… Cai bem não cai? Mas «Manuel dos Santos, Director de Turma»… Não soa bem, arranha… Acho que me desmanchava a rir se alguém se me apresentasse  com um cartão destes. Perdia logo toda a pouca credibilidade. E por escrito, ainda por cima num cartão oficial, Director de Turma soa muito pior do que só dito.

O Director de Turma é uma não-figura, um vazio funcional, um verbo de encher que passa as manhãs a apontar as faltas dos alunos, a justificá-las mesmo quando são injustificáveis, a psicanalisar sem psicanálise pais traumatizados e filhos teimosos e mal educados. O Director de Turma é um padre sem sacramentos nem Espírito Santo, um psiquiatra sem prozac, um sargento sem boina, um polícia sem cassetete. Um nada burocrático tolhido por uma legislação idiota que lhe retira toda e qualquer réstea de autonomia. O DT não decide nada – lê a legislação e discute com os outros verbos de encher que são os colegas DTês as consequências do novo Decreto 768/22 de 12 de Fevereiro que vai corrigir as limitações do 31/23 de 219 de Junho. Um bom Director de Turma é o que sabe esta cantilena mentecapta dos decretos e dos regulamentos e que a aplica escrupulosa e absurdamente. DT é o nome pseudo pomposo que se dá a um desgraçado que não é mais que um mangas de alpaca, um zelota da burocracia. Esta personagem digna de um filme de fantasmas porque não existe nem autonomia tem para decidir não marcar uma reunião. Que são obrigatórias. Que há muito se fazem na escola do lado. Que é o que diz o artigo 18 do Regulamento em conformidade com o decreto 10/879 de 21 de Agosto. Tens de marcar. Mas se não há nada para tratar... Mesmo assim. Marca. É de lei.

Abaixo do Director de Turma só conheço o chefe de turma que agora não se chama assim, mas Delegado de Turma e que é o aluno em quem a turma votou para ir às reuniões ao fim do dia, depois das aulas, e para tirar as fotocópias para os colegas. Tem ainda menos poder que o Director de Turma, decide ainda menos, e nem sequer tem o título Monthy Python de «Director». É só um Delegado. E de «turma», como se não chegasse. O Director de Turma assegura a seriedade e a legalidade do processo da sua eleição, providencia uma acta da coisa em modelo regulamentar, relatório D047 sacado do programa de DTês e anexa com as devidas assinaturas no Dossier de Turma.
 
O Dossier de Turma é o Rigveda do Director de Turma. O seu Alcorão, a sua Tora, o seu livro sagrado… Uma  coisa absurda com centenas de chachadas inúteis. Mas ai do DT que não tiver o seu Dossier em dia… As fotocópias dos horários dos professores. O horário da turma. A hora de atendimento do DT. A caracterização da turma. Os gráficos de queijo e de barras da caracterização da turma. A hermenêutica da caracterização da turma. As folhas com os registos dos contactos com os encarregados de educação. A legislação em vigor devidamente anotada e sublinhada. As justificações de faltas. Os atestados médicos. As transferências. As participações disciplinares. As notas do fim de período de cada um dos 30 alunos. As respectivas avaliações intercalares. A avaliação qualitativa. A avaliação quantitativa. A síntese da avaliação. Os planos de intervenção rápida. Os PIT. Os Nés. As estratégias de remediação. Os planos de diferenciação pedagógica. Os relatórios de actividades. As recuperações de faltas. Os modelos de convocatórias de reuniões. As convocatórias das reuniões. As actas das mesmas. O projecto de educação sexual da turma. O PES. As planificações das disciplinas. Os critérios de avaliação.

Ai do DT cujo Dossier Sagrado não contém todos estes e outros versículos – o Coordenador do Não Sei Quê, o Director dos Directores de Turma (o único verbo de encher que é ainda maior e mais vazio que o DT, o Nada Vezes Nada é Nada das escolas), o Inspector (o Kafka, o cardeal da vacuidade, o zelota mor do absurdo), todos, caem-lhe em cima se, tremam DTês de todo o mundo, «o dossier de turma não estiver em ordem»! E o Director de Turma cumpre o absurdo da sua vida e perde o seu tempo ingloriamente a encher o seu Rigveda de baboseiras sagradas. São mantras, senhor.

Em tempos muito remotos, muito antes de ser director de turma, o director de turma era professor. Era no tempo em que lia livros. Agora lê o diário da república. Dantes falava de Melville, de Hegel e de Eça. Agora discute com o colega DT como é que se consegue sacar do programa de directores de turma, o relatório P056C que traz a preciosa informação de quantas faltas deu o aluno durante o último mês mas apenas das 2 às 4.

Dantes as escolas eram baluartes da cultura. Agora são os últimos lugares do mundo onde se pode ouvir falar de literatura, de filosofia, de ciência, de arte, de história. É mais provável ouvirmos falar destas coisas num bar, numa cervejaria ou numa taberna que numa escola. Agora as salas de profs são salas de Dtês e as conversas versam as últimas novidades do diário da república.

Dantes um professor de português não podia confessar que nunca lera Camilo. Agora o Amor de Perdição é banido da escola, para gáudio de DTês que nunca o leram mas que já não têm vergonha em confessá-lo. Dantes falava-se português; agora vomita-se eduquês. Dantes usava-se adjectivos, substantivos, verbos e pronomes. Agora debita-se siglas – Pits, Pes, Nees, Pzeros… 

Tenho vergonha daquilo em que se tornou a escola, um sítio onde não interessa nem o que se ensina nem o que se aprende mas apenas se a papelada acéfala está em ordem e se os ex-profs, actuais DTês, estão a massacrar-se o suficiente em reuniões bacocas para preparar novas reuniões preparatórias das próximas reuniões.

Quando é que tudo isto começou? Acho que foi quando, um dia, um senhor mandão se lembrou de meter os profs a registar as faltas dos alunos e a fazer matrículas – assim poupavam-se os ordenados dos funcionários que seriam necessários para essas tarefas. E de tarefa em tarefa, a burocracia é hoje a principal função de um professor. Acho que foi esse mesmo senhor mandão que inventou a designação de Director de Turma… Era esperto, o senhor, e tinha um óptimo sentido de humor – se dissermos ao arrumador de automóveis que ele é um Técnico Profissional de Manutenção Urbana, o homem fica muito mais contente. Mas a esse, ainda lhe dão um boné e, às vezes, até uma farda catita. Ao DT, nem isso. Mas fica-lhe o título, como a um nobre arruinado – «muito prazer, Manuel da Silva, Director de turma».

19/02/13

O bom gosto da vaia no relvas, por Mao Me Me

Hoje o Relvas foi vaiado pelos alunos do ISCTE. Não conseguiu botar faladura, como pretendia e acabou, literalmente, a fugir da multidão que gritou constantemente «demissão, demissão». O video está no you tube e vale a pena. Pessoalmente gostei, gostei muito e dou os meus parabéns à malta do ISCTE. E tanto gostei que apetece-me parafrasear o primeiro ministro passos coelho, agora com muito mais propriedade:

«- De todas as formas de protesto esta - vaia no relvas, perseguição ao relvas, fuga do relvas - é, sem dúvida, a de maior bom gosto». 

14/02/13

A Exposição do Pedro Calapez Ainda Deve Estar no Colégio das Artes, que Sei Eu?, por Hermano S.

Há dois anos visitei Havana. Na altura, pensando no estado degradado da cidade, do seu centro histórico e dos seus monumentos em estado pós-apocalíptico, tive a sensação de estar a olhar para o passado. As cidades europeias não são assim. Mas agora, durante os passeios que dou por Coimbra, parece-me, pelo contrário, que, afinal, estava o olhar para o futuro, para o futuro da minha cidade. É certo que Coimbra ainda não atingiu o estado de degradação da capital cubana. Mas para lá caminha a passos largos. Um dia, não muito longínquo, será possível visitar a biblioteca joanina  e tropeçar em dejectos de uma tribo de gatos que lá terá acampado. Foi assim que me sucedeu no Capitólio em Havana. Ficção apocalíptica? Já foi mais. Deixem-me contar-vos a minha tarde de terça feira.

Na terça passada, o M. lançou a ideia de irmos ver a exposição do Pedro Calapez ao Colégio das Artes de Coimbra. O programa foi aprovado por unanimidade, até porque, para além do pintor, havia o aliciante extra de visitarmos um edifício emblemático da cidade que não conhecemos bem. Mas foi uma odisseia. Em primeiro lugar o edifício não tem nada a ver com fotos como a do pic que ilustra este post. Esta foto é mentira! A realidade está muito pior, aquilo está a cair de podre, está sujo desleixado, tem tralha e entulho por todo o lado. Já não é só a evidência de que não deve haver dinheiro para ali fazer obras urgentes. É a degradação, o desleixo a que aquele sítio foi abandonado. Que diabo, não há uma instituição na cidade a quem compita, ao menos, mandar uns homens limpar aquilo, tirar dali o entulho e o lixo, lavar os pisos com água e sabão macaco? O N. comentou que um verdadeiro ministério da cultura num país como o nosso não devia dar verbas para o que quer que fosse antes de pôr em ordem todo o nosso imenso património que está a cair aos pedaços. Talvez seja uma opinião radical, mas o estado do Colégio das Artes é revoltante.

Mas ainda mal tínhamos começado o nosso programa cultural. Ao entrarmos nos claustros tivemos que enfrentar um cãozarrão que nos ladrou ameaçadoramente. Para maior segurança o M. agarrou logo num bocado de ferro e seguiu armado, não fosse o cão, que não parou de ladrar o tempo todo, armar-se em parvo. Eu fiz o mesmo e agarrei numa marreta ferrugenta que por ali estava aos caídos. Sempre ameaçados pelo animal lá nos conseguimos aproximar da porta onde se via um cartaz da exposição. Dizia que não estava ninguém mas que podíamos telefonar para um nº que ali era indicado ou dirigirmo-nos à porta do guichet nº 6 que alguém nos havia de orientar.

Dirigimo-nos à porta do guichet 6 que fica no primeiro andar de novo ameaçados pelo cão. O N. comentou que deviam avisar as pessoas que querem visitar a exposição que deveriam ir armados ou pelo menos levarem uma armadura e um capacete. Coimbra deve ser a única cidade do mundo onde se corre perigo para ver uma exposição de pintura.

Chegados ao guichet 6 do primeiro andar uma senhora informou-nos que esse assunto era no rés do chão no guichet 2, primera porta à direita. Descemos a escadaria e dirigimo-nos ao guichet 2. Fechado. Uma senhora simpática tentou ajudar-nos mas constatou, como nós, que a porta estava fechada.

Voltámos à primeira porta para tirarmos o número de telemóvel, sempre ameaçados pelo cão. Entretanto o M. insultou uns indivíduos que estavam lá perto porque lhe pareceu serem os donos do cão. Eles não responderam e eu meti-me ao barulho e reforcei os insultos aos donos do cão. Eles voltaram a não responder e percebemos que, afinal, não eram os donos do cão. Engolimos em seco, voltámos a apanhar os cacetes de ferro e conseguimos aproximarmo-nos da porta. Telefonámos dez vezes para o número que lá era indicado. Ninguém atendeu e o cão continuou a ladrar-nos. O N. lembrou que o Pedro Calapez é um bom pintor, que podia haver um interessado que se tivesse deslocado de Lisboa ou do Porto para ver a exposição. Seria muito chato ter que lutar com um animal irado para o conseguir fazer e, o mais certo, é que sem as nossaas barras de ferro ainda saísse maltrado.

Desistimos da nossa visita, claro, demos graças a Deus por Coimbra ainda não estar tão má como Havana. Afinal, disse o M., tinha sido muito pior se em vez do cão houvesse lá um fosso de crocodilos. Ou snipers. Pois é, ou mesmo junkies a ver se apanham um gajo e lhe sacam uns trocos pó cavalo. Mas isso é no Teatro da Cerca, lembrou o M. Ah pois é. Resta dizer, para acabar em beleza, que no magnífico Colégio das Artes funciona uma faculdade da nossa cidade: nem mais nem menos que a Faculdade de Arquitectura de Coimbra. Ironia do caraças...

11/02/13

O Absurdo, por Lince da Serra da Malcata

Samuel Beckett é, não duvido, um dos grandes génios literários do século xx e sou eu que, duvido ainda menos, não tenho miolos para atingir os cumes literários da sua escrita. Mas diga-me quem souber o que quer dizer esta frase que se pode ler na sua obra prima Murphy:

«Era o motivo de terem partido juntos etc como Murphy tinha demonstrado várias vezes em Barbara, Beccardi e Baroco, embora nunca até este momento em Bramantip». 

 Eu, por acaso, até sei...

27/01/13

A Minha Lista 2012, por Adérito

Com algum atraso, segue nos próximos posts a lista das minhas leituras do ano que passou. Foi assim:



Janeiro 2012
Fernando Campos – A Rocha Branca
O ano começou bem com o último de Fernando Campos, inspirado na história de Safo – mas uma Safo nos antípodas do folclore que é associado a esta personagem histórica. Não desmerece em nada o conjunto da obra do autor. E sendo Campos, o mais subvalorizado dos grandes escritores portugueses, percebe-se o significado que tem para mim esta afirmação.

 Keith Richards – Life
Desta vez em Português… Comprei e li a edição inglesa em 2012. Pensei que não teria tradução portuguesa e enganei-me. Li-o de novo que sempre se perde alguma coisa numa língua estrangeira.

 Fevereiro:


Cervantes – D. Quixote, vol. II. Tinha começado a ler  o Quixote no ano passado. Agora concluí o segundo volume de uma das grandes obras primas da literatura universal. Confere…

Celso – Contra os Cristãos. Muito interessante. Curioso como alguns dos argumentos que Nietzsche virá invocar contra o cristianismo já aqui estão na sua forma essencial. Nietzsche dá-lhes o brilhantismo do seu estilo romântico e profético, ao passo que Celso procura reduzi-los à sua essência lógica. Como o nome indica o livro apresent uma série de argumentos contra a nova seita cristã que então se afirmava. Celso estava preocupado que a coisa alastrasse e, pelos vistos, tinha razão…


Alan Posener, John Lennon, Expresso. Mais uma boa biografia da colecção do Expresso. É o clássico non stop reading...

24/01/13

Mais «Especialidade» da Deputada - 2.41, por Talocha

A «especialidade» continua. Hoje leio a notícia de que a Deputada-2.41, citada no post anterior a este, faltou durante a semana sequente à piela ao seu local de, chamemos-lhe assim, «trabalho», o parlamento. A justificação foi que esteve doente.

Só que a lei - mais uma especialidade feito pelos srs deputados, para os senhores deputados -  não a obriga a apresentar atestado médico...Se fosse um de nós, nabos, teria que apresentar atestado médico. Mas suas excelências deputadas são consideradas pessoas «responsáveis» e, como tal, basta a declaração da própria a dizer que esteve doente.

Ou seja, se eu faltar ao trabalho e não apresentar atestado perco o vencimento e posso mesmo ser despedido. Mas os deputados da nação, pelo contrário, são pessoas responsáveis (e nós somos o quê? Trogloditas?). Sinceramente: existem leis destas? Há gente que aprova e mantém leis destas? Quantos princípios de elementar justiça esta porcaria viola? E depois esta gentalha politica quer respeito? Eu dava-lhes o respeito...

Especiais de Corrida, por Trolha

Esta senhora tem aspecto de reformada? Não tem, pois não... Mas é. Esta é uma foto da presidente da câmara de palmela, moçoila com 47 primaveras, que acaba de se reformar com cerca de 1800 mocas por mês. Embrulha! Entretanto, nós, os nabos, continuamos a trabalhar cada vez mais e a receber cada vez menos em nome dos sacrifícios e da austeridade que politiquelhos como esta madame nos pedem. Grande exemplo! A culpa nem é da senhora que apenas aproveita a lei feita pelos seus colegas políticos. Ela limita-se a ser medíocre, prontos... O problema é mesmo que ainda existam leis destas e que isto seja possível, um político reformar-se aos 47 anos quando toda a restante população tem que vergar a mola até depois dos 60.

Já me pareceu culpa da própria vir auto-justificar-se que acha bem a lei porque enfim, «os políticos e os autarcas são pessoas especiais que exercem funções especiais». E não quer sua excelência definir o que entende por «funções especiais»? E porque não se reconhece que ser mineiro, carpinteiro, médico, cientista, coveiro, professor ou empreiteiro também são, cada um à sua maneira, «especiais»? Pois, não sei. Só sei que a especialidade de políticos que temos neste país da tanga só lá ia à bazuca.

Esta outra senhora é deputada pelo PS foi apanhada a conduzir com uma taxa de alcoolémia de 2.41 Uma taxa acima dos 2 pontos não é uma coisa venial do descuido de um copito a mais na asa... Há uns tempos eu e um amigo bebemos uma litrosa de tinto só os dois. Apanhámos uma brigada de transito e ele  acusou menos de 1 ponto.
Imaginem agora o que é preciso beber para se acusar 2.41... E dão a um caso destes imunidade parlamentar? Eu pensava que a imunidade parlamentar era só para casos em que o deputado eventualmente violasse a lei mas em casos relacionados com a sua actividade, por exemplo no exercício de um excesso de liberdade de expressão. Mas que eu saiba beber uns valentes copos e a seguir meter-se a conduzir não é uma especificidade parlamentar. E daí, talvez seja. Deve ser isto que a outra senhora quer dizer com «funções especiais» dos nossos políticos.