28/12/07

Let The Sun Shine!, por Apolo

Raispartam a União Europeia e o caraças da globalização! Muito se fala da uniformização - da comida, da cultura, da diversão, da vida - mas o pior e o mais incompreensível sintoma da standardização da Europa é este intolerável alinhamento do tempo solar pelo tempo da economia. Em nome das Bolsas e dos ritmos dos senhores do capital, decidiram os burocratas do Economês que toda a Europa passaria a reger-se pelo tempo dos nórdicos e dos escandinavos. Resultado: agora fica noite em Portugal às cinco da tarde, como se vivêssemos em Estocolmo, em Oslo ou em Copenhaga!!! E pensar que eles, os nórdicos, desde o tempo dos Romanos que fogem de lá para cá, para se safarem da inclemência das trevas e disfrutarem da dádiva do sol. Pensem como eram os Invernos quando éramos crianças, reparem como o Criador fez tudo certinho para virem, agora, estas alimárias estragar... Dantes anoitecia às sete no Inverno e às nove no Verão. Agora é noite às cinco no Inverno e às dez no pico do Verão! E o burro sou eu?

Estamos de cócoras, toda a Europa do Sul que abdica do seu tempo para se reger pelo dos outros. Mais os portugueses, gente capacho, gente de cócoras, que nisso nuestros hermanos conservam uma hora solar a mais que nós e a siesta ninguém lhes tira(é nesses pormenores que somos diferentes, nós e eles)... Cada dia que passa neste maldito Outono-Inverno gótico apetece-me apertar a garganta aos burocratas que se dizem nossos representantes e que nos traem nos corredores de Bruxelas em pormenores tão simples quanto graves como este. Por causa deles perdemos todos horas preciosas de vida e recolhemos às cinco e meia a casa quando era nosso direito natural contar com luz até às seis e meia-sete. Devíamos meter-lhes um processo colectivo, Portugal contra os seus representantes...

Lembro-me de quando era puto e ficava de olhos esbugalhados quando me diziam que havia países em que o sol se punha às cinco da tarde! Nem queria acreditar... Deve ser por isso que se suicidam, comentava. O pior é que nem percebo que é que se ganha em termos económicos com esta patifaria... Os gastos energéticos são, obviamente, muito maiores, ja que somos obrigados a acender aquecedores, iluminação eléctrica, etc, etc, muito mais cedo do que seria natural. Ainda me custa a crer que tudo isto seja uma mera quetão de unifomização da economia mundial. Se o é não percebo, não temos todos que andar em contra-ciclo por causa dos interesses económicos, isso seria um problema dos economistas, uma especificidade da sua profissão e ponto final. O que é que que tenho a ver com isso? Não somos obrigados a viver de noite - quer dizer, quase que somos - só para andarmos ao ritmo dos guarda nocturnos, dos homens do lixo ou dos porteiros de discotecas, certo?

Só sei que tenho saudades dos dias grandes, do sol de Inverno até às sete da tarde. Só sei que a loucura do sol de Verão na praia até às dez ainda agrava mais esta espécie de esquizofrenia em que temos que viver. A Europa até o sol pretende uniformizar... Tou farto da Europa,fónix!

Pic do mestre da luz, o espanhol J. Sorolla, um artista quase, quase ao nível dos célebres pintores da marina de Vila Moura ;););)

24/12/07

Uma Boa Razão Para Gostar do «Romance Histórico», por Zagazabo

Talvez seja mais uma efeito lateral do fenómeno Dan Brown mas o certo é que, nas livrarias deste país, comecei a dar por uma nova secção a crescer, a crescer, a engordar mesmo, a secção do chamado «romance histórico». Basta passarmos numa das Fnacs do burgo para verificarmos que o espaço concedido a este novo género (?) é largamente superior ao espaço concedido a áreas tão fundamentais como, por exemplo, a História, a Sociologia ou a Filosofia. As três juntas… Compreendo, por isso, a aversão com que um amigo reagia um dia destes ao género.

No entanto sempre existiu romance histórico. Muito antes do actual abastardamento do género, sempre houve autores que se dedicaram a contar histórias – a romancear – que decorrem em períodos históricos já passados. Neste sentido muito lato, qualquer romance é histórico, embora o termo se tenha popularizado enquanto designação de histórias decorridas em épocas mais remotas. Abstraiamo-nos, pois, da actual utilização abastardada da expressão. Confesso que sou um fã do romance histórico e, por isso mesmo, reajo mal à pauperização da designação. Dou-vos uma razão para adorar o género, uma razão bem Portuguesa – chama-se Fernando Campos.

Fernando Campos é, quanto a mim e com toda a subjectividade que uma afirmação deste tipo sempre encerra, o melhor escritor português vivo. Prefiro-o a Saramago que, quanto a mim, nada tem para dizer; prefiro-o a Lobo Antunes – um escritor de centelha genial; não conheço Agustina o suficiente para falar muito… Mas Fernando Campos só não tem marketing, de resto tem tudo.

Acho que ele é o último dos escritores antigos e não sei o que acontecerá aquela forma de escrever português quando ele desaparecer. Quando o leio sinto que apanho uma corrente, a corrente que se deseja imortal da grande literatura portuguesa – é como se ele fosse a sequência natural dos nossos grandes prosadores, de Vieira, de Camilo, de Herculano, de Eça... Sente-se-lhe a tradição agarrada à escrita. As fotografias de Campos nas contra capas dos seus livros fazem-me lembrar os mais velhos e mais sábios dos meus professores da faculdade. A escrita dele é labor árduo, investigação, pesquisa aturada, disciplina pura e dura. Acho-o brilhante, mas o seu brilhantismo não é o daqueles gajos que se acham eleitos, escolhidos pela iluminação divina. Os seus livros são o resultado de anos e anos de pesquisa histórica rigorosa e, para além do puro gozo que há em lermos a sua escrita refinada, complexa, sofisticada, temos sempre a sensação de estar a aprender. É uma felicidade que um país com a riqueza histórica de Portugal, única em toda a Europa, possa contar com um escritor com as características de Campos. Porque a nossa história é um manancial imenso por explorar e as gerações futuras agradecerão – se não se perder, é claro, esta ideia cada vez mais peregrina de que o conhecimento do nosso passado é fundamental e se não nos tivermos transformado, entretanto, numa colónia de férias e em empregados de camisinha branca dos europeus do Norte.

Aconselho-vos qualquer um dos três livros que li dele: a Casa do Pó de 1986, o seu primeiro, uma obra prima absoluta, que tem como pano de fundo um mistério baseado em factos reais passado no século XVI acerca da identidade de um frade de nome Pantaleão; O Cavaleiro da Águia de 2005, de trama quase policial que tem como personagem central uma das mais eminentes figuras portucalenses da reconquista: Gonçalo Mendes da Maia, braço direito do primeiro rei de Portugal; e A Sala das Perguntas de 1998, inspirado na vida e obra da grande figura que foi Damião de Góis, tesoureiro do rei D. João III na Flandres no século XVI, Humanista convicto que privou com Erasmo e Lutero e conheceu as contradições do Portugal glorioso dos Descobrimentos e o fanatismo da Inquisição. Denominador comum aos três romances: a viagem. Pantaleão viaja até à Terra Santa, passando por toda a bacia mediterrânica nas mãos de Venezianos e Turcos. Góis percorre toda a Europa Central em plena convulsão reformista e Gonçalo é também, à sua escala, um viajante. Campos é, pois, um escrito de viajens mas na sua obra o distante, olongínquo cruzam-se habilmente com o próximo. Há uma espécie de argúcia, de mestria nesta forma de os falar de Aveiro e de Coimbra e do Rio Mondego e, simultaneamente, de Anuérpia, de Jerusalém e de Constantinopla.

Podia dar-vos outras boas razões para explicar o meu fascínio pelo romance-histórico- como-deve-ser: Amin Maalouf. Tracy Chevalier. Collen McCullough. Ficarão para um próximo post. Entretanto se alguém quiser ler Fernando Campos é contactar o nosso Grão. Ele tem lá alguns. Embora, estranhamente, confesse não ter gostado lá muito d`A Casa do Pó, vá lá um gajo saber porquê…

18/12/07

E-Gov, por Capitano Nemo

Há dias em que mesmo que nada corra mal temos vontade de desancar alguém e de fazer sempre melhor do que os outros. Era o dia para mim, e enquanto tentava levantar o meu ego ouço no rádio a notícia que menos de cinquenta por cento dos Portugueses usa o computador e só quatro em cada seis habitações têm acesso à Internet; seis por cento das pequenas empresas portuguesas não têm computadores e doze por cento não estão ligadas à Internet!!!!

Irra. É difícil entender isto após ser constantemente bombardeado por noticias de que o governo aposta fortemente no e-gov, de que o país vai de vento em poupa no que respeita à informatização etc etc.

Foda-se. Mas eu estou maluco ou os nossos governantes substituíram o cérebro por estrume.

Não vêm isto?? Não ouvem??

Então querem colocar os velhinhos a apresentar declarações de IRS pela Net quando eles nem sabem pronunciar a palavra computador??? Bestas quadradas estes gajos que nos governam, não conseguiam eles próprios apresentar as declarações de IRS pela net e agora andam a embandeirar em arco com a informatização do país?

Gajos destes fariam uma proposta para levantar o PIB dos esquimós através da venda de frigoríficos no pólo norte.

E isto não é um grito à velho do Restelo, é uma indignação profunda contra pessoas que não têm a noção do equilíbrio e que em vez de tentarem subir o nível médio de vida de uma população que vive com salário de dieta gritam atoardas vazias e medíocres e abrem cursos de costura.

Vamos para África e em força, pelo menos lá ainda se podem comer bolas de Berlim na praia.

12/12/07

Ibéria F.C., por Mister Mr.

Há muitas e boas razões para se ser iberista. Aí vai mais uma: já viram a selecção ibérica que faríamos se juntássemos, numa só equipa, os melhores jogadores de futebol espanhóis e portugueses? Podáimos jogar com este onze, por exemplo (entre parêntesis algumas alternativas possíveis):
Guarda redes - Casillas (Reyna);
Defesa direito - Sérgio Ramos (Bosingwa);
Centrais - Ricardo Carvalho e Pepe (Jorge Andrade e Meira);
Defesa esquerdo - Puyol (Miguel Torres):
Médios - Deco, Marcos Senna e Fabregas (Albelda, Xavi e Iniesta);
Extremos - Cronaldo e Quaresma (Simão e David Silva);
Ponta de lança - Fernando Torres (David Villa).

E ainda ficavam de fora, Raul, Reyes, Vicente, Morientes, Nani, Miguel Veloso, Petit, Maniche, Figo, Guti, Miguel e Joaquin, entre muitos outros.
E digam lá que esta equipa não era a mais séria candidata a ganhar o Mundial?

10/12/07

Tacho, Disse Ele!, por Anarco Sindicalista

Ontem conheci um típico rapaz de boas famílias que tem 29 anos e cara de 17. Descobri com espanto, quando lhe perguntei o que é que estava a estudar que, afinal, já concluiu o curso em Psicologia Antropológica ou lá o que era. E trabalhas? Onde? - perguntei-lhe. Numa das muitas veneráveis instituições criadas pelos políticos manda-chuvas, mais uma dedicada a estudar «a conjuntura da estrutura da valência da realidade sócio-económica da comunidade envolvente», vulgo Comissão Coordenadora de Qualquer Coisa... O que me espantou é que, quando ele me disse onde trabalhava, mostrou-se genuinamente orgulhoso. Fiquei baralhado. É que eu, no lugar dele, era capaz de corar um bocadito...

06/12/07

Silvas, por Adérito Laranjeira

Foi o próprio Silva quem me explicou. Parece que nomes como Oliveira, Pereira ou Carvalho têm uma origem judaica, não percebi bem porquê. Mas há uma razão para as pessoas terem estes nomes de árvores, de arbustos ou de frutos: o antepassado remoto do actual sr. Oliveira teria sido assim chamado porque no lugar onde morava, isto é, na sua propriedade, havia muitas oliveiras. O mesmo para os Carvalhos que teriam a quinta cheia dos dito cujos, prós Amieiros ou para os Videiras. Percebem agora porque é que os Silvas se chamam Silva? Pois é. Parece que o antepassado original de todos os Silvas tinha a propriedade rural ao abandono e, em vez de macieiras, oliveiras ou abrunheiros, aquilo eram silveiras por todo o lado. Langão.

Tenho para mim que os nomes dizem muito das pessoas, como dos povos. Há indivíduos com caras de Zés, de Manéis e até de Felisbelos. Os espanhóis parecem-me Pacos e os alemães soam-me todos a Fritz. Silva é um nome icónico, um símbolo de uma nação como Smith o é de Inglaterra ou Dupont da França. Não deixa, pois, de ter a sua piada que o nome icónico de Portugal remeta, etimologicamente, para a preguiça dos proprietários que deixavam as suas terras ao abandono. No fundo nem é de admirar: somos um povo de mandriões e tu ó Silva do camandro, vê lá se plantas umas nespereiras pelo menos para disfarçar…

Para Albert, ao Sol, por Cão

Para Albert, ao Sol é a crónica nº 28 da série Rosário Breve, todas as sextas-feiras, como hoje, 30 de Novembro de 2007, n'O Ribatejo (http://www.oribatejo.com/).
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Para Albert, ao SolCostumo comprar umas páginas de fiambre, manhã muito cedo, no minimercado da Vila. Saio, sento-me ao sol num muro e como-as sem metafísica nem pressa. Não como tudo. Na manhã que o sol não aquece, dou uma volta por ruas calçadas de bossas de granito e vou distribuindo fragmentos dessa literatura rósea e quase transparente aos carnívoros mais pobres da localidade: cães e gatos que vivem do tesouro simples ensinado por Albert Camus. Que tesouro simples?“ (…) achei-me colocado a meia distância entre a miséria e o sol.”, escreveu o Autor argelino-francês nascido em Mondori a 7 de Novembro de 1913 e nobelizado há precisamente 50 anos. Em 1935/36, com apenas 22 anos de idade, Camus publicou uma admirável colecção de prosas breves intitulada “O Avesso e o Direito”. Na década de 50, última que viveu por completo, reeditou tal obra fundadora, juntando-lhes os também admiráveis “Discursos da Suécia”, que orou, há meio século, nas cerimónias sequentes ao maior galardão literário do planeta.Entre aquele minimercado e esta pastelaria onde exerço a suave tristura da crónica, Camus dá comigo fiambre a cães e a gatos neste “mundo de pobreza e luz”. Tenho, portanto, um bom companheiro, aqui na serra e na terra.Foi já no entardenoitecer de 30 de Dezembro de 1983 que adquiri o livro (edição da Livros do Brasil, de que há ainda exemplares em livrarias tradicionais não “fnac-izadas” ainda). Na altura, folheei-o apenas. Ainda bem que o não li todo, então. Obra de jovem, “O Avesso e o Direito” é para ler e aproveitar na maturidade.A maturidade, sim, este limbo em que até os cães e os gatos sabem que umas páginas de fiambre são para ler ao sol: sem grande miséria, sem grande metafísica e sem pressa alguma.

04/12/07

Jazz de Câmara, por Cantaloupe

Blues on Bach do The Modern Jazz Quartet, editado em 1973, é uma obra prima. O disco combina coisas aparentemente inconciliáveis como o rigor matemático da música barroca e a liberdade de improviso do jazz.

The Modern Jazz Quartet foi formado em 1952 por Milt Jackson (vibrafone), John Lewis (piano, director musical), Percy Heath (contrabaixo), e Kenny Clarke (bateria). Em 1955 Connie Kay substituiu Clarke. Para além do brilhantismo dos seus intérpretes, a banda ficou na história pela criação daquilo que podemos definir como um novo género musical: o «jazz de câmara», isto é a tentativa de combinar o jazz e a música clássica. A ideia não foi muito bem recebida nem pelos puristas da clássica nem pelos do jazz. Os primeiros viram naquela música uma pauperização da música erudita; os segundos acusaram o MJQ de intelectualizarem o jazz, seja lá o que isso for. Os velhos complexos da contaminação entre os níveis culturais high e low que segundo os fundamentalistas não se podem misturar…

Às vezes estou a ouvir Blues on Bach e pergunto a alguém que esteja presente que género de música acha que é esta. Ainda não houve ninguém a dizer simplesmente jazz nem clássica. As pessoas ficam confusas: parece música barroca, mas este vibrafone… E bateria? É estranho…
Quem ouve este disco tem a sensação de que Bach é um compositor contemporâneo e não o mais genial dos compositores barrocos de toda a história. Ouço Precious Joy e imagino um Bach americano e preto e não alemão e branco a tocar vibrafone e não órgão. De facto o disco foi gravado em 1973 mas podia perfeitamente ter sido ontem. Ou amanhã.

Conciliando brilhantemente duas linguagens aparentemente inconciliáveis – o jazz e a música erudita, The Modern Jazz Quartet consegue criar uma nova forma de expressão musical. É claro que eles não são os únicos músicos de jazz a fazerem incursões no território da música clássica. Basta lembrar as excelentes interpretações de Keith Jarreth de Mozart. Mas aqui o MJQ dá um passo mais além: é que, sendo excelentes, as interpretações de Jarreth não são muito diferentes da interpretação de outros músicos de formação clássica. Ouvimos os concertos para piano de Mozart ou as variações Goldberg de Bach, interpretadas por Jarreth, e a linguagem é clássica. Não sabemos, a não ser que nos digam, que é um músico de jazz que está a tocar. Mas a interpretação de Bach do MJQ é feita na linguagem jazz e não na linguagem clássica. É nesse sentido que – podendo gostar-se ou não – o MJQ vai mais além que tudo o que foi feito neste domínio.

Mas apesar dos intérpretes serem tão heterodoxos sente-se que é ainda Bach que estamos a ouvir. E, como tudo o que é Bach, estas composiçõoes roçam a perfeição. Dir-se-ia que estas músicas não foram inventadas, mas descobertas. Simplesmente estavam lá e Bach limitou-se (!) a descobri-las. A música de Bach tem a simplicidade (ou a complexidade como se preferir) da matemática: quando somamos 2+2 o resultado é necessariamente 4 e não pode ser outro. E estas músicas têm a mesma consistência ontológica: não há na música de Bach notas a mais nem a menos. São aquelas porque, como na matemática, só podiam ser aquelas nem mais nem menos e nenhumas outras.

São assim os grandes génios, sinto o mesmo quando ouço Mozart, dá a impressão que estas músicas já existiam algures num eterno limbo Platónico e que estes génios foram lá acima descobri-las e recolhê-las para nossa felicidade. É também nisso que este disco é brillhante - apesar da apropriação criativa que fazem da música de Bach, os intérpretes respeitam os limites, não deixam que Bach seja um simples ponto de partida um motivo para desvarios e improvisos sem norte (às vezes isso irrita-me nalgum jazz). Não. Do princípio ao fim do disco eles têm sempre presente a música de Bach. E embora a interpretem à sua maneira, é o rigor, a perfeição e a matemática de Bach que ainda reconhecemos aqui.

30/11/07

O Experimentador, por Babalu

Série: Novas Profissões – Parte 3

O Experimentador é uma profissão nova e com muita procura. E bem paga também. As milhentas casas de alterne que invadem a noite deste país, precisam destes profissionais como do pão prá boca, não vá a Asae questionar que o produto está fora de validade ou não obedece às directivas de higiene e segurança da UE. Daí, o Experimentador.

Diga-se em abono da verdade que o Experimentador é um profissional perseguido. Clandestino. Tem a sua liberdade cerceada por um sistema judicial que impede a experimentação. A incompreensão dos nossos tribunais, revelou-se em toda a sua perfídia quando há uns anos condenaram a prisão maior um honesto e incompreendido profissional, que na barra do julgamento explicou pacientemente a ouvidos judiciosos e que o não mereciam, que ele nada a tinha a ver com o crime. O tráfico de carne branca do leste e as bandalheiras dos quartos do primeiro andar da Madame Filipa, nada tinha a ver com ele, pois que ele era apenas o Experimentador. O encarregado de experimentar as meninas novas que apareciam na casa, com vista ao seu controle e bom desempenho profissional. Mais candura que isto não há. Mas os brutos da barra que não estão habituados à verdade, assustam-se quando a ouvem e puseram o homem à experiência na Regional de Coimbra. Um insulto ao verdadeiro sentido do dever.

Contudo, internacionalmente o Experimentador é um profissional conceituado e celebrizado. Tem até o seu líder carismático na pessoa da estrela francesa Pierre Woodman, um mestre e um senhor. Quando a poderosa multinacional do porno sueco, a Private Media Group, resolveu abrir a leste em 1992, precisava de um porco desinibido cujo porte contrastasse com a beleza e a inocência escondida a leste. Da escolha resultou o Pierre Woodman, basicamente um Ron Jeremy europeu.

Feio, gordo, peludo do pescoço aos pés, careca e mal jeitoso com umas manápulas que assustam o medo. Este seboso, ao contrário do Ron Jeremy nem sequer grunhe. Não fala, não diz, e não faz qualquer expressão. Estar ali ou comer tremoços é o mesmo para o gorduroso. Aponta, agarra, atraca e entranha-se. Nas suas mãos peludas a inocência entra temerosa e sai desinibida com a arte de cavalgar toda a sela.

Pelo meio há um famoso e iniciático Dedo e um célebre ponto G anal que desinibe e enlouquece. Woodman esconde o segredo, e nas sucessivas entrevistas nada revela. Mas elas, Anita Dark, Monica Roccaforte, Nikki Anderson, Rita Faltoyano, Tania Russof e muitas outras descobertas suas, confirmam o dedo poderoso e o ponto fantástico que as fez maravilhar. Em 15 anos de trabalho duro no leste, o Experimentador fez mais de 7000 castings. Este homem fez mais pela abertura a leste que milhentos reagans ou gorbatchovs. Os intelectuais chamam-lhe “técnica anal woodman”, os puristas apelidam-no de “abre-cus”, mas o segredo permanece. Certa vez perguntaram-lhe se esse ponto G anal também existe nos homens. O Experimentador fez cara de caso e limitou-se a afirmar que a Private nunca lhe pediu para ir por aí. Um perigo. Por ele e se lhe pedissem, o varrasco, até aí ia. Porco sujo. Perigoso. E se a malta passasse a gostar? Apre. Vade retro criatura demoníaca!

28/11/07

A Quarta Mulher, por Bonanza

Os westerns ensinaram-me que há dois tipos de mulheres: as que ficam em pânico a chorar num canto da cena enquanto o cowboy luta com o índio; e as que pegam na espingarda e dão um tiro no índio.

Mas a vida ensinou-me que afinal há ainda mais um terceiro tipo: as que ficam num canto do cenário a rir às gargalhadas enquanto o cowboy luta com o índio. E recentemente descobri ainda mais um quarto: as que pegam na espingarda e dão um tiro no cowboy.

O APONTADOR, por Medalhinha

Série: Novas Profissões – Parte Dois
Imagine-se um funcionário público. Típico. Imaginamos uma repartição pública minúscula, forrada com estantes cheias de Diários da República e amontoados de papel uns ao lado dos outros. Entre os pilares de folhas encontramos um espécime humano, escanzelado, com uns jeans Lee e um camisolão de lã até ao queixo. Ah!! Não podemos esquecer os óculos, o ar totó e os maguitos pretos nos braços. E pronto, a nossa imaginação levou-nos ao funcionário público por excelência.

Um funcionário público é, normalmente, aquela pessoa de quem todo o pessoal se queixa, mas que todo o pessoal sonha ser! Sim…, quem não gostaria de não contribuir para o PIB, ou de permanecer no local de trabalho de forma limitada (com prolongadas ausências físicas e/ou intelectuais); de tratar mal o pessoal que faz perguntinhas do lado de lá do balcão; ou de fazer tricô nas horas de expediente. Quem não gosta do dinheirinho garantido aos 21 de cada mês, e dos privilegiozinhos da ADSE, e de todos esses miminhos?

Ora bem, um Apontador é um funcionário público e tem todas as regalias da função pública. Daí a nossa aposta como segunda profissão a ser apontada. E a função pública precisa de muitos apontadores. Não falamos obviamente dos escrivães apontadores, mas sim dos homens do terreno. Que enchem a mão e apontam, corajosamente e sem medos. Sim porque isto é uma profissão de risco. Um Apontador é como se fosse a mão de Deus a auxiliar a Mãe Natureza.

Esta espécie rara e altamente seleccionada, serve o Estado Português e exerce as funções inerentes à sua categoria profissional na antiga Coudelaria Real, hoje conhecida como Coudelaria de Alter. Com o objectivo de assegurar a continuidade do Cavalo Alter, o Estado Português providenciou pela pontaria do equídeo! Um Apontador é a garantia de qualquer potro marca Lusitano.

A profissão não é de acesso fácil, mas a respectiva categoria é bem paga. Embora não seja dos serviços mais limpos e seguros é inegável a sua acutilância e honradez. É um trabalho de mão cheia. Quantas vezes não vimos nós já no YouTube ou na National Geographic, o desespero do equídeo que martela, martela e não há meio de acertar no ponto G. Daí a importância do apontador. E o estado português atento às necessidades da bestialidade, arranjou o Apontador. E pergunta-se: Quantas vezes não falhamos nós por falta de pontaria? Será que não podia incluir o serviço de Apontador nos benefícios da ADSE? Certamente que haveria menos surpresas e berraria por essas camas e noites afora!

27/11/07

Quadro de Mobilidade, por Hiper Camarada

- Olá Tó Pê, tás bom, não te via à uns tempos...
- Mais ou menos, mais ou menos...
Fiquei um pouco baralhado por ele ter respondido a sério ao meu cumprimento de circustância. Mas o Tó Pê estava mesmo mais ou menos, menos que mais. Contou-me: é funcionário público, um desses decretados milhares de parasitas pelo governo da república. Sempre o conheci como funcionário de um Ministério cujo nome não vem ao caso por razões óbvias. O Tó Pê vai agora na dolorosa casa dos 50 e, subitamente, viu o seu nome na tenebrosa «lista de mobilidade» do governo. Vai ser despedido e não sabe o que fazer à vida e o homem tem mulher e duas filhas a estudarem, uma delas na ex-Universidade Pública Tendencialmente Gratuita que agora é paga e bem paga.

- Pois é, as pessoas votaram nestes socialistas e agora olha... A mim, o aldrabão nunca me enganou.
- A mim enganou. Nunca pensei que fosse acontecer uma coisa destas, já viste, famílias inteiras destroçadas, não sou só eu...
Despediu-se de mim sem sequer me falar no jogo do Sporting, logo à noite em Manchester. Tá mesmo mal, pensei eu.

Quando, como se pode ler uns posts abaixo, cascamos aqui no Porco, forte e feio, no péssimo governo de burocratas e contabilistas acéfalos que nos governam, não estamos simplesmente a discutir ideias. Acontece que este governo decide primeiro e só depois repara nas consequências sociais desastrosas das suas políticas. É assim na saúde, na educação, na justiça, na segurança social, em tudo... Actualmente dou por mim irritado a discutir política. E é por isto, por casos como este. É que estas políticas selvagens ultra-liberais e anti-sociais passam-se com gente de carne e osso. Quando os rídiculos ministros do pinto de sousa enchem a boca com o «emagrecimento da função pública» e com a «flexisegurança» é disto que estamos a falar, muitas vezes - de gente de carne e osso, que não pode ser assim descartada como se fosse a peça de um aparelhómetro que já não funciona. Eu sei que tem que haver contenção e isso, mas que diabo, não vejo os políticos a cortarem nas suas mordomias nem os Belmiros, nem a Banca e afins a darem o seu contributo para vencermos a crise. Pelo contrário. O que vejo é um ataque imoral à classe média. O que vejo é o Tó Pê no olho da rua aos 50 anos, sem saber o que fazer à vida nem como é que vai pagar as próximas prestações do apartamento nem os estudos das filhas.

É por isso que, quando criaturas como o X-Jota, que até é um gajo fixe e tudo, me aparecem aqui a defender o mentiroso que nos governa, eu passo-me dos carretos. Sei que não devia e peço desde já desculpa ao X-Jota e aos gajos como ele que ainda continuam a apoiar o governo merceeiro de portugal, mas é mais forte que eu. Dá a impressão que há gente que vive em redomas de vidro e que já não contacta com os Tó Pês deste país. Por isso X-Jota não venhas ali nos comments com o habitual paleio do «lá está este gajo a jeremiar»... Eu lanço-te daqui um desafio, mene: vai lá abençoar o pinto sousa nas barbas do Tó Pê. Vais ver que ele é mais bruto, muito mais bruto, que eu...

23/11/07

O Merdalheiro, por Babalu

Série: Novas Profissões – Parte Um

O Merdalheiro. Ora aqui está uma nova profissão tão desaproveitada pela nossa juventude. Eu próprio, postador atento às novas realidades, desconhecia até há pouco as vicissitudes e esplendores de tal profissão.

Estava eu em Braga e perante Juiz Conselheiro, para em Tribunal Arbitral julgar um processo de acidente de viação, quando se me deparou um profissional do ramo. Um acidente de merda, diga-se. A minha cliente e Seguradora, era atacada porque o seu segurado conduzindo um tractor de merda, havia salpicado e provocado riscos em jeep de yuppie. Despachado o depoimento do engravatado, o Conselheiro procedeu à identificação do nosso segurado, perguntando-lhe depois pela profissão:

“ – Merdalheiro, Xôtor Juiz.
- Como, Medalheiro?
- Não Xôtor, mesmo Merdalheiro, de merda mesmo, com licença da palavra e da casa.
- À vontade, homem, aqui é a casa da verdade e não é o cheiro que nos afasta, atão diga lá…”

Concluído o julgamento, chamei o nosso segurado a parte. “ – Ó homem, Merdalheiro? – Assim é Xôtor, e não me queixo. – Mas isso rende? – Dá muito dinheirinho Xôtor, é que num há concorrência sabe, e merda para acartar é o que num falta por aí, pena é que os mes filhos doutores num queiram seguir isto.”

E por ali fiquei a saber que o Merdalheiro pega no tractor e auto-tanque e anda por aí a esvaziar as fossas de merda deste país. Ora como por essas aldeias a fora, continua a não haver redes de esgotos e as fossas enchem com frequência, é a própria GNR, Câmaras e Delegações de Saúde e do Ambiente, que obrigam quem não quer e chamam o Merdalheiro. E sem concorrência, o Merdalheiro factura o que quer. Pega na merda, mas paga-se bem.

O homem até me explicou que o gosta é de esvaziar as merdas das indústrias lá da zona e que aí factura a doer. São merdas que rendem mais. Por outro lado não gostava das merdas mais finas das casas tipo maison dos patos e novos ricos, que enfernizavam o homem com o mau cheiro e os salpicos. O homem vinga-se na factura e não limpa os salpicos. Segundo ele a merda é deles.

Certo, certo é que o homem factura bem e queixa-se da falta de ajudantes e de concorrência. Acaba por ser merda a mais para um homem só. Mas rendosa. O homem apertou-me a mão, despediu-se e enfiou-se num reluzente jeep BMW novinho em folha. Eu, apertei o comando do meu hondazito e vociferei um sonoro: “ – Profissão de Merda!”. A minha, claro!

O Porco Na Vanguarda E Pronto A Ajudar o Sócretino, por Babalu

Série: Novas Profissões

A partir de hoje o Porco vai procurar abrir novos caminhos à nossa juventude desempregada. O Sócretino não se descose com os seus 250.000 novos empregos e os poucos que abre, exigem altos estudos e rendem cada vez menos. Faltam boas e rendosas profissões, que não dependam de canudo ou cartão do partido rosa.

A malta anda perdida e abala para Badajoz a marrar nos calhamaços de medicina de nuestros hermanos e quando voltar vai ver que os SAPs fecharam todos e as urgências estão cheias de uruguayos que já navegam rio da plata acima e aqui direitinhos. Outros sobem para Vila Nova de Famalicão a doutorar-se em direito e no regresso tropeçam num calhau em Santo Tirso, de onde saltam 40 advogados e 400 candidatos a juízes. Não dá. Esqueçam os doutores. Isso é mentalidade dos vossos pais. Vão-se esfalfar a marrar, apenas para marrarem com os cornos na conta do canalizador que vos vai arrancar os olhos da cara.

O Porco preocupado, vai assim apontar novos rumos e modestamente tentar contribuir para a abertura de novos horizontes profissionais aos nossos jovenzarros. E atenção, não vamos falar de canalizadores, electricistas e talhantes. Isso são profissões velhas, relhas e concorridas. Não senhora. Aqui há inovação. E a verdade, a mais cristalina das verdades. Vamos apontar novas profissões, altamente rendosas e para as quais faltam candidatos. E profissões que não precisam de grandes estudos ou sequer de grandes treinos. Basta vontade e a quarta classe. O que se quer. Vamos a elas.

Da minha parte começarei pelo Merdalheiro, seguindo-se depois o Experimentador, o Leitoeiro, o Sarrafeiro, o Cobridor, o Fungueiro, o Boleiro e terminarei com o Ranhoso, se outras e catitas profissões não me saltarem à alembradura. Os outros Porcos de serviço podem e devem pegar nas mesmas profissões e dizerem de sua justiça. E se souberem de outras, venham elas. Vamos ajudar quem precisa.

19/11/07

Arcadas da Capela Live, por Estrela Miquelina

Na semana passada fui jantar a um restaurante fantástico e disse logo que tinha de fazer um post aqui pró Porco. O Porco já se transformou numa espécie de Forte Knox das experiências dos que nele escrevem e eu não podia deixar passar esta em claro. Fui jantar ao Arcadas da Capela, o fabuloso restaurante da Quinta das Lágrimas em Coimbra. Foi soberbo!

O Arcadas é o único restaurante a sul do Tejo que possui, actualmente, uma estrela Michelin. Não há mais nenhum de Lisboa para norte que a mereça, segundo os eminentes críticos da mais prestigiada instituição crítica de gastronomia do mundo. Para quem não faz a mais pequena ideia do que representa uma estrela Michelin ou pensa que a Michelin é, simplesmente, uma marca de pneus digo-vos só que, aqui há uns anos atrás, houve um chef de cuisine parisiense que se suicidou porque o seu restaurante perdeu uma estrelita! Matou-se, pum, pum! Este esclarecimento sobre o significado das estrelas Michelin é muito importante porque ainda há pouco li na imprensa portuguesa uma referência às suas famosas estrelas «miquelinas». Adiante.

Demorei uma semana para fazer este post por uma razão muito simples: é que não consegui decorar o nome das muitas iguarias que experimentei. Lembro-me dos sabores, guardei muitos deles num canto qualquer da minha memória. Como fui ao menu degustação, não veio lista e os pratos eram simplesmente anunciados pelos garções. Os nomes dos pratos, compreensivelmente, não há cabeça que os decore, aquilo é mais complicado que um livro de Martin Heidegger… Até que neste fim de semana tive a oportunidade de encontrar o responsável pelo Arcadas a quem pedi a lista do menu degustação que tive o privilégio de experimentar. Assim de memória ele deu-me a lista que eu escrevi num bilhete de comboio. Tenho aqui e, com algumas falhas (porque nem ele se lembra de tudo nem eu percebo bem a minha letra escrita no maldito bilhete), aqui vai a lista. Roam-se de inveja, carago!

Começámos com uma flute de Champagne Pommery ao que se seguiu um amuse bouche. O amuse bouche é a expressão francesa que designa a preparação das pupilas gustativas para o que se segue. Como o amuse bouche é muito variado, dependendo da criatividade de momento do chefe de cozinha, o meu informador não me soube dizer o que é que provámos ao certo à uma semana atrás. Lembro-me que na altura fiquei a olhar para aquilo porque não me havia talheres, mas a Joaninha que me acompanhou e sabe destas coisas explicou que a terrina em que a coisa estava servida era uma espécie de colher. Aquilo bebia-se. Foi o que fiz e era bem bom.

Veio a seguir um vinho que serviu como aperitivo, uma colheita tardia, Casal Figueira, devidamente adocicado mas sem excessos. A coisa prometia, o escanção era comunicativo e puxava por nós. Veio primeiro prato.

Primeiro prato - terrina de foie gras com pistachios e alperces e vinagreta de maracujá. Tudo acompanhado por um vinho branco de cujo nome nem eu nem o meu informador nos lembramos.

Segundo prato – Creme de cebola gratinada com tostas de queijo. Trata-se de um sabor muito forte e o vinho que se lhe seguiu foi uma verdadeira obra-prima: um Quinta dos Roques de uma secura extrema que combinou, por contraste, com o sabor personalizado do creme de cebola. Foi um dos momentos altos da noite e por aqui se vê como é de todo impossível que um jantar destes seja acompanhado só de água ou de arrghh!, coca cola e quejandos. Um miserável abstémio que aqui se fique pela sua fanta de laranja, pura e simplesmente, não pode perceber a combinação, a subtileza ou o contraste puro e duro de sabores. Eu acho que deviam proibir os abstémios de entrarem em sítios destes. Por mais dinheiro que tenham, não dá, é ridículo, é como ir ver um concerto do Caetano Veloso com um ouvido tapado, prontos. Os abstémios são os para-olímpicos da gastronomia!

Terceiro prato- não me lembro o que era, mas sei que era com tinta de chocos, vieiras e já não me lembro do resto… Aqui veio outro vinho excelente, um belíssimo branco. O escanção lançou-nos o desafio de o servir sem nos dizer o que era. Claro que ninguém foi capaz de o identificar, mas era excelente: um Luís Pato Vinha Formal. Entretanto aquilo que me parecia ser uma multidão de empregados de trato impecável, mas eram apenas dois ou três bons e atentos profissionais, mudava de copos de cada vez que era servido um novo vinho. E de pratos e de talheres também, claro.

Quarto prato – seguiu-se camarão, lavagante e pregado com molho de vinho moscatel, gengibre e pimenta nova. Um mimo!

A seguir veio um sorvete de limão com a função de preparar a transição para o prato de carne que foi:

Quinto prato – Lombo de porco preto, foie gras e molho de trufa preta. Tive, enfim, a oportunidade de provar a mítica trufa, essa espécie de cogumelo subterrâneo ou lá o que é que os franceses pagam como se fosse caviar e que, reza a lenda, encontram usando porcos para darem com elas pelo cheiro (actualmente parece que são cães devidamente treinados a fazerem de suínos). E perguntam vocês, que tal a trufa? Pois, aqui devo dizer que não fiquei com memória nenhuma da especialidade. Como a trufa é estupidamente cara só tivemos direito a uma lasca (literalmente). Entretanto foi servido o único tinto da noite, um Jota do enólogo Jorge Moreira de taninos apurados, as tradicionais notas de frutos vermelhos e uma intensidade memorável. Um vinho que só por si já fazia a noite e nos fez reflectir de novo acerca da deficiência que é ser-se abstémio e não se poder apreciar devidamente obras primas como estas.

6º prato- chegámos aos queijos o que, para mim, é sempre um momento altíssimo de qualquer refeição. A tábua dos respectivos era simplesmente divinal. Foram trazidos por uma menina muito apresentável que os anunciou como quem anuncia a entrada de diplomatas. Dos mais fracos para os mais fortes, estava lá do melhor: Niza, serra da estrela, da ilha de s. Jorge (mas não tinha nada a ver com os que eu compro no Belmiro), de Castelo Branco, os camembert, bries, roqueforts (Societé e tudo!), Gorgonzola e Shilton, entre outros. Os meus companheiros de luta escolheram três ou quatro e eu fui a quase todos e só não fui a todos porque a jornada já tinha puxado muito por mim. Moderação? Não. Tudo em excesso, a moderação é prós monges!

7º prato – Sobremesas: leite creme queimado e aromatizado mais gelado de café e telha de sementes de sésamo e papoila para os cavalheiros (quem nós?) e soufflé de chocolate com pêssego gratinado e gelado de amêndoa amarga para as senhoras. E no fim ainda vieram uns brigadeiros sensacionais. Confesso que não sou grande adepto de sobremesas mas gostei mais do soufflé de chocolate das ladies. A acompanhar um Porto Vintage de 98, mas já não me lembro de onde. E no fim de tudo isto, rejeitámos os digestivos e optámos por um excelente chá verde com aroma de menta de cuja marca não me recordo, mas que era bom, era.

O jantar começou a ser servido por volta das 20 30. Era 23 40 quando nos levantámos da mesa. Estivemos num ambiente de excepção e fomos tratados principescamente por profissionais irrepreensíveis. Não registei uma única falha no serviço, nem uma única. Acho que nem o nosso Grão conseguiria embirrar com aquela malta. No fim pensei que naquela noite não teve lugar um simples jantar: foi como ir ver um concerto, um bailado, uma exposição. Foi mais uma experiência estética dirigida ao palato, criada e organizada por verdadeiros artistas. Fiquei a pensar que os artistas deviam ter vindo ao palco fazer as vénias do costume no fim das suas actuações. Se o tivessem feito, garanto-vos que me levantava do meu cantinho perfeito e aplaudia-os como aplaudiria o Ryuchi Sakamoto, o Lou Reed ou os Samshing Pumpkins. E quando me lembro que já paguei mais de 100 euros para ver os Stones em Alvalade, fico a pensar que o «concerto gastronómico» do Arcadas da Capela até foi barato…