24/10/12

Sardinha Assada, por Pontal

É interessante o potencial semiótico da sardinha assada em Portugal. Trata-se de uma comida popular e tem associada uma certa etiqueta de raiz popular. A sardinha é associada a uma certa virilidade, à faina do pescador no mar, à arte chávega, à dureza da vida. Deste ponto de vista o seu contrário semiótico seria, talvez, o iogurte, artificial, engomado em pequenos recipientes de plástico, clean, sem espinhas, artificial e anónimo (ao contrário da sardinha que tem o pescador como pai simbólico ). Do ponto de vista da etiqueta o contrário da etiqueta da sardinha assada seria, por sua vez, a etiqueta muito sofisticada, com excesso de códigos, talvez a da nouvelle cuisine ou outra coisa mais fina que exija muitos talheres...

Como se deve comer numa sardinhada? Pois, a sardinha deve comer-se à mão e acompanhada de broa. É claro que há quem a coma de faca e garfo mas numa festa popular cai mal.É interessante porque neste caso há uma etiqueta que é contrária à tradicional - geralmente quem come à unha é grosseiro mas na sardinha assada isso é bem visto e, pelo contrário, pode cair muito mal comê-la de faca e garfo. Dá um aspecto snob e possidónio.

É por isso que nas festas de reentré, geralmente no Algarve, os partidos políticos não abdicam da sardinha assada e é vê-los, aos políticos, a comer a bela sardinha com broa e, obviamente, à mão. Desta forma, através de um cerimonial alimentar, o polítco procura alcançar a almejada identificação com as massas populares. No fundo,a foto ou o filme do político a comer sardinha assada na festa do Pontal está a dizer: «vejam: sou um de vós, sou mais um». Comê-la de faca e garfo seria um verdadeiro suicídio político.

Haverá mais comidas, como a sardinha, que funcionem como uma espécie de etiqueta ao contrário (isto é, pratos em que a gafe não é não saber nem cumprir uma imensa e sofisticada gramática de etiqueta, mas pelo contrário, em ser o mais rudimentar possível, uma espécie de etiqueta minimal)?
Creio que sim, mas coisas menos sedimentadas na sociedade portuguesa. Os ossos, talvez, que devem ser comidos, roídos à mão, impossíveis de comer de faca e garfo. E também há o caso curioso da ostra que, tal como a sardinha deve ser comida à mão (deve ser levada aos lábios e sorvida directamente), mas aqui com um potencial semiótico completamente diverso da sardinha - erótico ( a ostra também é considerada afrodísiaca) e sofisticado (a ostra deve ser dos poucos alimentos em que é fino comer a mão).

17/10/12

O Dilema, por Alves dos Cantos

Nunca senti por nenhuma selecção portuguesa o que sinto por esta: eles representam portugal e eu sou português, o normal é que, como sempre, torça pelo meu país; no entanto, um a um (com algumas excepções) jogadores e treinador desafiam soco. Não gosto desta gente. O que é mais forte - a minha natural inclinação tuga ou a minha aversão pessoal por estes tipos? Eis o dilema.

Não gosto do carniceiro alves nem do pepe nem do ronaldo-vaidoso, acho o postiga uma ficção de jogador inventada pelo seleccionador, não gosto do micael que me tem sempre ar de quem acabou de snifar um tubo de cola, não gosto do pereirita nem como jogador, acho detestável um tipo com ar de arrumador de automóveis tatuado que costuma lá andar, em suma, não gosto destes gajos. E também não gosto do paulo bento, um treinador burro e orgulhoso que em nome dos seus caprichos e da sua inépcia deixa de fora uma série de jogadores que são indiscutivelmente melhores do que muitos que são cronicamente convocados: como é que bosingwa, ricardo carvalho, sílvio, eliseu, quaresma, manel fernandes, hugo viana ou danny não têm lugar nem nesta última convocatória de segundas linhas? Não têm por duas razões muito simples - por orgulho e por inépcia do treinador.

De maneira que estou assim: só porque os tipos ostentam o rótulo da portugalidade eu não tenho que gostar deles. Neste caso a minha aversão às personalidades destes cromos sobrepõe-se ao portuguesismo. A caixa de comentários está pois aberta para me chamarem «traidor à pátria».

14/10/12

Uma ida à casa de banho na República Chega ou Podemos sempre contar com nuestros hermanos, por Kadlek

Há um mês acordei na República Checa, num sítio onde não conseguia encontrar uma palavra familiar, onde temos bonitas frases como “Jeho tištěná podoba je zpravidla čtvrtletně k dostání ve vsetínském knihkupectví Malina, které se podílí na jeho vydávání”. E não, não faço ideia do que isto significa: copiei a frase do primeiro site checo que encontrei. Acreditem em mim: só depois de “acordar” num sítio assim é que entendemos verdadeiramente a importância da nossa língua.
Estou num restaurante e quero ir à casa de banho. Não há nenhum símbolo indicativo. Tenho apenas duas portas: numa está escrito “muži“, na outra “ženy“. E agora? Entro na dos/das “muži“ ou na dos/das “ženy“? Arrisco-me a entrar na casa de banho do sexo oposto? Espero até voltar para casa?
Poderia ser uma situação desagradável. Felizmente consegui gerir a situação com a maior habilidade. Já adivinharam? Exacto: o que fiz foi dizer com toda a confiança que “ženy“ significava “homens”. Depois, deixei o espanhol que me acompanhava ir à frente. Afinal de contas tinha 50% de probabilidades de acertar. Falhei, claro.
Foi pior para o espanhol que para mim, confesso. Limitei-me a ouvir o berro da senhora quando ele entrou na casa de banho enquanto ria às gargalhadas com a cara dele. E nunca mais me esqueci que “muži“ significava “homens“. Ah… e que no dia em que tiver uma casa de banho na própria empresa vou, sem dúvida, optar por um símbolo que seja interpretável universalmente!

03/10/12

Coração contra Razão, por Pascoal

O jogo de ontem na Luz foi, para mim, um clássico caso de coração- versus - razão. Não me senti dividido porque sou benfiquista acima de qualquer outro clube. Mas foi um confronto entre a equipa que é, desde sempre e incondicionalmente a minha - o Glorioso - e aquela que foi por mim adoptada desde há uns anos a esta parte, simplesmente, porque pratica o melhor futebol que já vi jogar. Coração e Razão.

Nunca tive simpatia especial pelo Barça, mas esta equipa é uma excepção - jogam um futebol magnífico, um assombro de técnica e têm aquele que é, provavelmente, o melhor jogador de todos os tempos, a anos luz de qualquer outro no activo - Leo Messi.

O Benfica perdeu como era expectável e eu não fiquei nem um pouco chateado. A nossa primeira parte foi boa, eles tiveram, como têm de há anos a esta parte seja contra quem for, os mesmos 70% de posse de bola e o árbitro esteve bem (talvez até tenha sido um pouco caseiro).

 No fim não houve surpresa e confirmou-se o que já se sabia - que o Benfica não é a melhor equipa do mundo, que o Busquets é melhor que o Matic, o Xavi que o Enzo, o Pedro que o Salvio, o Fabregas que o Lima, o Iniesta que o Gaitan e que o Messi... Bem o Messi veio de nave espacial e regressou depois ao seu planeta.

27/09/12

The Horror!, por Kurtz

«O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) emitiu um parecer em que defende que o Ministério da Saúde “pode e deve racionar” o acesso a tratamentos mais caros para pessoas com cancro, Sida e doenças reumáticas.»

RTP Notícias

Esta notícia faz-me lembrar a arrepiante cena final de Apocalipse Now: «the horror», dizia o coronel Kurtz, algures, em plena guerra, numa selva profunda do Vietnam. Esta designada «Comissão de Ética» não está nas profundezas do Vietnam, nem no meio de uma guerra sanguinária entre canibais que exibem as cabeças decapitadas dos inimigos; está em Portugal, na Europa civilizada (?) do século XXI! Este não é o parecer de  uma comissão de contabilidade mas, pasme-se, de ética!!!

Como é possível que estes senhores venham defender que, cito de memória, «não se justifica gastar muito dinheiro com pessoas cuja esperança de vida é, por exemplo, de dois meses». Como podem saber que os dois meses de vida que restam a um doente já não justificam despesas «exageradas»? Quem decide o que vale e quanto vale uma vida, a vida de outra pessoa? A partir de quantos meses se justificam os gastos para salvarmos uma pessoa?

O que estes senhores da ética proclamam é a mais cruel das insensibilidades: o abandono de outro ser humano perante os inimigos que a todos nos acossam - a morte, a doença, o sofrimento. Albert Camus rejeitava a pena de morte porque consistia, precisamente, na deserção do homem perante o sofrimento que, a todos, nos faz  «próximos», homens e mulheres, pretos e brancos, justos e injustos, polícias e ladrões...  Neste caso é do que se trata é de algo muito pior que a condenação à morte de um criminoso - aqui trata-se de cortar o apoio a quem dele mais necessita. É o Inimigo Comum que nos faz a todos seres humanos - mas em que é que nos tornamos quando esta solidariedade que a todos deve unir é esquecida? Que diria Camus?

No país das reformas pornográficas, das mordomias e dos salários estratosféricos de alguns, das obras faraónicas, dos governantes das frotas de automóveis, há uma comissão de ética (?!) que está preocupada com os gastos excessivos com aqueles que sofrem atrozmente. Está tudo do avesso quando aquilo que devia ser prioritário é desprezado. Sabem quando devemos abandonar os doentes terminais e as vítimas de doenças terminais? Isto eu sei: nunca, enquanto houver um tostão neste país.

Nestes casos nem se aplica o conceito de «despesa excessiva», tenho dificuldade em pensar que há gente que enche a boca com a ética capaz de conjugar a linguagem da solidariedade para com um doente de cancro com a dos «gastos excessivos». Portugal, afinal, não é assim tão diferente da selva profunda de Apoclypse Now...

18/09/12

Paulo Morais: fixem este nome, por Cândido

 Trata-se do vice-presidente da associação cívica Transparência e Integridade, uma organização que se vem destacando no estudo e na denúnica da corrupção em Portugal. O diagnóstico de Paulo Morais é simples e certeiro: estamos numaa situação de falência devido à corrupção que grassa à solta em Portugal. A corrupção organizada e institucionalizada levou-nos à ruína.

O diagnóstico  de Paulo Morais contrasta brutalmente com a candura da sra cândida da procuradoria geral da república que diz que não, não senhor, os nosso políticos não são corruptos. Mas as organizações internacionais que monitorizam a corrupção, dizem que Portugal de 2000 até até 2012 (e em velocidade acelerada nos últimos três anos), desceu de vigésimo terceiro para trigésimo segundo. Só há dois países europeus atrás de nós: a itália com a sua «cosa nostra» e a grécia ( mas no caso da itália também é verdade que a corrupção é punida, coisa que cá não acontece).

Portugal é um charco, o estado da degradação da nossa vida pública é uma realidade. Paulo Morais tem do país a mesma visão que eu tenho. Este homem diz o que tem de ser dito - falta fazer o que ele diz para resolver o problema. Ontem apanhei este programa, por acaso, enquanto zapava. Foi uma revelação. Este homem é digno de admiração. E o programa de ontem devia ser obrigatório para todos nós:


13/09/12

Bardamerda!, por Major

As recentes medidas de austeridade anunciadas pelo governo merecem o consenso de toda a sociedade portuguesa, da esquerda à direita, de patrões a empregados, da manela ferreira leite ao francisco louçã: são uma asneira monumental, uma injustiça flagrante e uma burrice incomensurável. Todos de acordo.

Mas mete-me nojo, é o termo, ver como, de repente as ratazanas xuxas que andavam metidas nas tocas, perderam a vergonha, levantam as cabecitas e entopem os media com declarações escandalizadas de protesto contra o governo. É vê-los, os galambas, os silva pereiras, as edites, os soares, os alegres, os almeida santos e uma imensidão de ex-ministros que deviam estar arrumados definitivamente num canto negro da nossa história recente, a multiplicarem-se em declarações. Esta gente, pura e simplesmente, não tem vergonha na cara. Foram eles que fizeram o país chegar ao estado de falência em que se encontra!

Uma parte deles devia ser responsabilizada criminalmente e anda a curtir alegremente «la douce vie». Onde estavam os comentadores indignados que agora pedem a revolução, que agora declaram o ambiente irrespirável, quando zé socas e a sua tralha levaram este país à ruína? Durante dois mandatos e oito longos anosdefenderam-nos sem pudor e agora reencontram, finalmente, o sentido de decência perdido? É bom recordar que os portugueses foram obrigados a votar em passos para se livrarem da maior doença da democracia portuguesa - zé socas. Não, não pega, esta gente perdeu o ethos...

É certo que existem todas as razões e mais algumas para censurarmos este governo, para nos escandalizarmos, para nos revoltarmos. Mas atenção: nem todos temos legitimidade para o fazer. Os xuxas - corresponsáveis pelo caos - não têm esse direito. Tão simples como isso. Se lhes sobrasse um pingo de decência voltavam a enfiar-se nos buracos fétidos onde têm estado. Deviam estar caladinhos - como disse alguém, «governaram como se não houvesse futuro e agora comentam como se não tivessem passado».

05/09/12

Toni em grande, por Mangas

Para ver até ao fim.

http://www.miragens.abola.pt/videosdetalhe.aspx?id=17280

21/07/12

Manual do Aplicador, por Dromófilo




Quando, há alguns anos atrás, o Ministério da Educação publicou essa magnus opum sobre o comportamento decente do docente /vigilante às provas de aferição do 9ºano, o Manual do Aplicador, desde logo se soube que o pouco siso daria lugar ao riso e ao absurdo. Quando, há alguns anos atrás, o furor regulamentador do ministério da educação definiu, até ao ridículo e à ninhice, todo o processo de aplicação dos exames, tratando os professores como imbecis, a derrisão já espreitava, escarninha, mofenta. Esta gente não percebe que quando se quer ser obsessivamente minucioso a minúcia nunca basta, e desatou, insensatamente, a regulamentar o bom senso como se ele fosse a coisa mais mal distribuída nos professores. E, nas reuniões preparatórias, perguntou-se: a que velocidade deve andar na sala o professor vigilante para não perturbar a quietação do momento? As escolas darão graciosamente umas pantufinhas furta-passos? A garridice do vestuário é permitida? Não ofuscará a inteligência do examinando? Os rótulos das garrafas de água devem ser retirados? Não podem conter informação à sorrelfa?
O ministério diz que há centenas de queixas: alunos que encasquetam o tictac dos professorais relógios e desatinam; alunos perturbados pela garridice taful e tamanho de saias, blusas e demais formosuras das professoras; alunos nevrosados pela chiante meia-sola; alunos a quem petrifica o miolo pelo simples olhar do professor vigilante. Há queixas que não lembram ao diabo, mas a minudente lógica ministerial a todas provê,  prevê, regulamenta e, finalmente, a todos arregimenta para o seu zeloso cumprimento.
Agora que os exames se preparam para ser a grande via crucis para a perfeição do sistema, as notícias não são boas. Preparem-se, amigos professores! Ouve-se e teme-se. Ouve-se que o ministério se prepara para reeditar, em edição revista e aumentada (dois volumes, 500 páginas) o Manual do Aplicador. Ouve-se que no índice remissivo só a palavra fraude terá 232 a entradas. Temem-se longas sessões de laboriosa exegese, milhentas horas de formação creditada, quiçá teses de mestrado e doutoramento. Teme-se que o Manual seja uma espécie de Código de Hamurabi, a Cabala. Teme-se, enfim, que não responda à presuntiva questão: e se, de repente, um examinando lhe oferecer flores?

(retirado, com a devida vénia, daqui:  http://dromofilo.blogspot.pt/)

10/07/12

Salazar e os «safanões», por Ferrinho

Em 1933 António Ferro, o grande propagandista do Estado Novo, levou a cabo uma série de cinco entrevistas ao Presidente do Conselho, Salazar, o próprio. Pretendia «desfazer algumas dúvidas» sobre a personalidade do homem que reconstruíra o país. Ferro passou dias em entrevistas com o ditador e, com base no espólio que dessas conversas recolheu, escreveu Salazar, O Homem e a sua Obra, editado pela Empresa Nacional de Publicidade. Este seria, na versão dos apologetas do regime, o livro que nenhum português de boa cepa poderia deixar de ter em casa. Hoje tornou-se uma peça de culto. Encontrei uma primeira edição em casa de um familiar e li com olhos heréticos os hossanas de Ferro ao senhor presidente do conselho. Não direi que o homem estivesse errado em tudo o que dizia, longe disso, a crítica que salazar faz aos partidos, por exemplo, continua certeira hoje, como então, talvez mais hoje ainda do que então. Já a posição de sua excelência sobre o tema delicado dos maus tratos infligidos nas prisões do regime seria hilariante se não fosse escabrosa:

- «Quero informá-lo de que se chegou à conclusão de que os presos maltratados eram sempre ou quasi sempre, terríveis bombistas que se recusavam a confessar, apesar de todas as habilidades da polícia, onde tinham escondido as suas armas criminosas e mortais. Só depois de empregar esses meios violentos é que eles se decidiam a dizer a verdae. E eu pergunto a mim própprio, continuando a reprimir tais abusos, se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não vale bem, não justifica largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras...»

Ah, fadista...

09/07/12

Porque é que o Jornal de Negócios não faz uma lista dos trinta melhores negócios em vez das trinta melhores canções dos Rolling Stones? por Dandelion

Os Rolling Stones estão a fazer 50 anos de carreira. os aniversários dos mitos são sempre ocasiões propícias ao aparecimento de críticos de cepa recente. Subitamente descobrem-se stonianos encartados nos jornais do burgo. Agora foi o caso do Jornal de Negócios que ousou dedicar quatro folhas a um exercício sempre perigoso para leigos na matéria. Pela pena de um senhor João Cândido da Silva, resolveu o JN, eleger as 30 melhores músicas dos Stones a partir de 17 álbuns. É claro que o exercício tem muito de subjectivo, mas que raio, há mínimos. Acontece que os critérios do escriba são demasiado privados, para que o homem assine um artigo sobre os stones, ainda que num jornal dedicado aos negócios. Há omissões gravíssimas e alguns erros pelo meio. Ainda bem que se escreve sobre os Stones, é melhor do que o silêncio. Mas convinha que quem o fizesse estudasse um pouco o assunto. O que não foi, claramente o caso.

1. O primeiro e mais grave erro da selecção de JCS é simplesmente colossal! JCS escolhe 17 álbuns dos Stones, para seleccionar 30 canções e, azar dos azares, deixa de fora aquele que é um dos se não o mais importante álbum da banda: o seminal Let it Bleed! Como é possível que o álbum de You can´t always get what you want (provavelmente a melhor canção da banda e não surge nas 30 melhores!!!!) fique de fora? Midnight rambler, gimme shelter, You got the silver, nenhuma destas obras primas é uma das melhores músicas dos Stones? Deixar de fora let it bleed é como pretender escrever sobre islamismo e esquecer-se de citar o Islão, sobre o benfica sem falar do eusébio, sobre o brasil sem passar pelo Rio?

2. O capítulo dos álbuns ao vivo. JCS cita Get Yer... e Flashpoint - este último, porque nele é incluído em versão cd, o single, Highwire. Highwire, escrito a propósito da guerra do iraque é uma boa canção. Mas uma das trinta? Ok, get yer é um bom álbum ao vivo, mas o melhor live da banda é o grandioso Love you Live, com a melhor versão de sempre de Honky Tonk Women e uma versão live de You can´t always get... que rivaliza com a de estúdio... Love you live fica de fora em 17 álbuns... Ou este gajo não vê um boi de stones ou não sei...

3. A melhro versão de simpathy for the devil é a original de beggars banquet e não a de get yer ya ya s out.

4.Their satanic majesties request é um dos piores discos dos stones, um desvario pelo rock psicadélico, na esteira dos beatles. Ok, she´s a rainbow é um clássico, mas incluir este disco nos 17... E citadel a melhor música do álbum?! De qualquer modo eu passo sempre por cima deste disco.

5. Um dos maiores erros desta lista é a confusão que o JCS faz entre as edições originais (inglesas) e segundas versões (americanas) dos primeiros discos da banda. Ponto de ordem: quando os stones começaram o formato principal era o single. Alguns dos maiores clássicos surgiram por isso nesse formato e não em álbum ( o LP era para um registo mais conceptual, digamos assim). Por isso, quando surgiram os primeiros álbuns dos stones (até aftermath de 66), os maiores sucessos da banda não saiam em LP.
Só posteriormente por razões comerciais é que foram editadas, a pensar no mercado americano, as segundas versões dos álbuns com os singles que lhes foram contemporâneos. Assim a segunda versão de Out of Our Heads ((65) inclui Satisfaction e the last time, mas a edição original não. O mesmo para between the buttons (67) que inclui lets spend the night together e ruby tuesday apenas na segunda versão.
Além disso o álbum Now (65) não figura como original da banda, mas como colectânea. Quanto a mim, para fazer jus aos singles imprescindíveis dos stones, é impossível não se citar o triplo The London Years que inclui os singles até let it bleed.
Nada disto é esclarecido no trabalho de JCS, pelo contrário ele dá como adquirido que as segundas versões dos álbuns a que me refiro, são as originais e não são. Grande confusão, mas compreende-se. Não é tão fácil como parece conhecer os originais da banda (Aftermath, por exemplo, chegou a ter uma versão americana sem goin home, a faixa de 11 minutos considerada um exagero para o gosto americano).

6. Há muita música que tinha que ser referida, pelo menos isso: como é que o primeiro disco dos stones não é citado? Tá bem que é um álbum de versões mas tem uma música que não poderia deixar de ser incluída num trabalho deste tipo - precisamente a primeira composição de sempre da dupla jagger/richards, Tell Me (you re coming banck), assinada pelo duplo pseudónimo Naker/Phelge.

7. Satisfaction não é uma das 30 melhores????

8. Nem Brown sugar? Nem tumbling sice? Nem Happy, Rocks off, Street fighing man, wild horses, Cant you hear me knoking, Under my thumb, Stray cat blues, angie, star star? O autor pretendeu fugir à unanimidade? Ok. Mas então salth of the earth? lovin cup? let it loose? Sway? dead flowers? E acima destas elege off the hook, out of tears, surpise surprise, blinded by love? Valha-me deus... Some girls do álbum homónimo preterida? Memory hotel de black and blue não é melhor que, por exemplo till the next good bye de its only r`n`r (por falar nisso onde está a faixa que dá nome a este disco)? Como é que uma das melhores pérolas interpretadas por Richards, como How can i stop de Bridges to Babylon não aparece? E waiting on a friend? Farways eyes de fora? E as tears go by? Get off my cloud não das melhores da primeira fase?

Ok, isto é muito subjectivo, mas aqui é demais, alguém que conheça minimamente a discografia dos stones não cairia num cite´rio tão individualista. Mesmo em arte, um crítico que fale da obra de Picasso e deixe de fora Guernica, de Coppolla sem se referir a Apcalipse Now ou dos Beatles sem citar Sgt Peppers, não estaria a ser, simplesmente, subjectivo. Estaria a fazer, objectivamente, um mau trabalho.

Deixo em tube Gimme Shelter uma das grandes canções de let it bleed - para JCS não é uma das trinta melhores, mas também há gajos que acham que o Messi não devia ser titular do Barcelona...


08/07/12

A Minha Selecção do Euro, por Gabriel

O Euro já lá vai e, entretanto, não havia ainda aqui uma lista da selecção dos melhores jogadores. Aqui fica ela, como é da praxe, com indicação do melhor para cada posto e das melhores alternativas. Tive como critério escolher os que me pareceram os melhores mesmo que trocando-lhes as posições. Foi o caso da defesa onde tive que passar o melhor defesa do mundo, Sérgio ramos, para a lateral direita:

Melhor guarda redes - Casilhas (Esp). É indiscutível.

Alternativas - Buffon (it) e Neuer (Al). O italiano poderia mesmo ter sido o melhor se a Itália vence a final, até porque foi colossal no jogo das meias com a alemanha. Foi vítima da equipa nesse jogo.

Defesa direito - Sérgio Ramos (esp). Ramos jogaria em qualquer lugar da defesa, já que é fantástico em qualquer um. Na minha selecção jogaria à direita por uma questão de rentabilização dos centrais.

Alternativas - Srna (Croa).

Centrais - Pepe (port) e Piqué (esp). Sim, eu desfazia a dupla piqué/ramos, mas com ramos à direita e a inclusão de pepe, não ficaria a perder.

Alternativas - Hummels (al) e Bonnucci (it).

Defesa esquerdo - Lahm (al). Pela experiência, pela qualidade técnica pela forma como apoia o ataque. É um defesa cerebral que não tem a velocidade das alternativas mas compensa com a qualidade técnica. Não parece um defesa. Gosto mais dele na direita e nesse caso entraria Alba para a esquerda mas então sairia Pepe. E era uma pena...

Alternativas - Alba (esp) e Coentrão (port).

Médios - Pirlo (it), Xavi (esp) e Iniesta (esp). Pirlo e Iniesta (justamente consagrado o melhor jogador do euro) são indiscutíveis. Já Xavi não foi regular, como é seu hábito. Mas depois da sua fantástica exibição na final, como deixá-lo de fora?

Alternativas - Khedira (al), Moutinho (port) e Modric (croa). Mas também Alonso (esp) e Busquets (esp). Tenho grande dificuldade em fazer uma selecção de médios...

Avançados - Ozil (al), Ibraimovic (Sue) e Ronaldo (port). Ok, falta um extremo direito de raiz. Mas Ozil chegou a fazer a posição nalguns jogos da alemanha e foi titularíssimo numas das melhores selecções da prova. Poderia funcionar como um criativo solto a apoiar o meio campo, um pouco ao estilo de fabregas na espanha. Ronaldo fez duas das maiores exibições individuais do euro (com a holanda e a república checa) e Ibraimovic confirmou a classe, embora não possa fazer muito numa selecção relativamente frágil como é a sueca.

Alternativas - Fabregas (esp), Balotelli (it) e Mandzukik (Ucrânia).

Revelações:
Deixo uma nota final para dois polacos que não conhecia: o lateral direito Pieszcek (escreve-se assim?) e o médio ala direito, Blaszykowsky  formaram uma das melhores alas do euro. Noutra selecção dariam cartas (de resto no Dortmund foram campeões da bundesliga).
O médio direito ucraniano Konoplyanka também mostrou qualidade, principalmente no último jogo da sua selecção. Mas o melhor jogadro ucraniano foi o ala esquerdo, Yarmolenko, um jovem jogador com grande futuro.
Uma referência final, ainda, ao russo Dzagoev, um goleador que poderia ter ido longe, não fosse a negligência da sua selecção no jogo com os gregos...
Apesar do fracasso das respectivas selecções gostei de Ribéry (Fr) e de Walcott (Ing) cuja não titularidade não entendo numa selecção quadrada como a da inglaterra. Welbeck (ing) marcou um golo fabuloso e é um jogador de futuro, mas ainda não foi consistente.
Manzukik da croácia foi uma boa surpresa, é uma alternativa de primeira para um sitema de 4-4-2. Aliás, toda a equipa esteve bem (principalmente o meio campo e os alas) mas teve azar com a a itália e uma arbitragem infeliz com a espanha.
Fnalmente, não percebi o acesso de personalidade do seleccionador alemão Low que resolveu pôr-se a brincar às selecções: o que é que lhe deu para não dar a titulraidade absoluta a um jogador como Gomez que estava a ser o melhor marcador do euro? Gomez esteve bem e só não foi o avançado que conheço do Bayern porque low não quis. Porque não apostou na nova coqueluche do futebol germânico, Goetze? Até gosto do seleccionador alemão, mas não percebi o que lhe deu para se pôr a inventar. Foi castigado e bem feito, para a próxima, se quiser brincar que brinque ao fifa 2012 no pc lá de casa...

Melhor equipa:
Para finalizar, uma última referência aquela que é uma das melhores selecções de todos os tempos: La Roja! Qualquer jogador desta equipa, mesmo os suplentes, tinha qualidade para ser titular de todas as outras. Torres, por exemplo, não foi titular e foi o melhor marcador; Silva fez coisas geniais, Mata marcou um golo num minuto e vinha de um título de campeão europeu, Navas continua uma locomotiva, Pedrito esteve ao nível do que faz no barça, uffff.... E vejam só os que nem jogaram: Llorente nem entrou em campo e seria uma solução de sonho, por exemplo para a equipa portuguesa. O próprio Soldado que nem foi convocado entrava de caras na nossa selecção, a pé coxinho... E que dizer de Xavi Martinez? De Alonso? Do magistral Busquets, um dos melhores médios do campeonato? E, ainda por cima, a espanha tem o melhor jogador do euro - Iniesta! Esta é uma das melhores selecções de sempre, a rivalizar com a do brasil de 82 e de 70, com a alemanha e a holanda de 74, com a argentina de maradona (e com o brasil de 58, de garrincha e pelé, reza a história que eu não vi)... Achei um piadão aos arautos do fim de ciclo da selecção de Espanha. Como seria se não estivéssemos em fim de ciclo? Nem queria ver...

02/07/12

O Abajur Lilás, por Othelo


Começo com uma confissão: raramente fui ao teatro. E das vezes que lá fui, tirando uma única excepção (um monólogo de Mário Viegas com base em textos de Mário Henrique Leiria) mais valia ter ficado em casa. Nesta sexta feira enchi-me de coragem e voltei a ver uma peça de teatro. E desta vez, gostei. Gostei a sério da peça O Abajur Lilás do dramaturgo brasileiro Plínio Marcos interpretada pela Escola da Noite no Teatro da Cerca em Coimbra.

Pus-me pensar porque é que foram tão negativas as minhas experiências anteriores... Pela falta de condições físicas e técnicas, talvez – pelo contrário o Teatro da Cerca é um espaço com belíssimas condições para o teatro. E, sobretudo, pela qualidade dos actores. Os actores de O Abajur Lilás eram bons, coisa que não acontecia com a imensa prole de amadores das peças que tinha visto até agora. O teatro amador devia ser proibido (just jocking). Ou pelo menos a sua exposição pública. É que, como eu, há milhares e milhares de potenciais aficionados de teatro que se perderam por causa das experiências traumáticas que tiveram com peças amadoras

O Abajur Lilás desenrola-se no quarto de um bordel. Há três putas que trabalham para um paneleiro. E há um candeeiro que aparece quebrado, uma e outra vez por uma das mulheres. Embora sabendo qual das três partiu o abajur, para o proxeneta trata-se de as fazer delatar a colega. É só isso que lhe interessa – não saber, realmente, quem partiu o abajur lilás, mas sim quebrar a dignidade daquelas mulheres, torná-las sórdidas, fazer delas delatoras. A peça gira em torno desta questão da dignidade daqueles seres humanos que também são prostituas. Apesar das aparências aquelas mulheres conservam uma nobreza essencial enquanto resistirem à tortura e à humilhação da delação. Pode uma puta ser digna? Eis como… A peça é, ainda, uma metáfora da ditadura brasileira, uma referência ao ambiente sórdido da tortura, da repressão, do clima de delação então vivido

Uma nota final: esta peça começava às 9. 30. Cheguei com dois minutos de atraso e pedi desculpa quando comprei o bilhete. Não há problema, disseram-me, só começa daqui a 15 minutos. Fiquei intrigado mas depois percebi. Às 9.45 estávamos cinco pessoas na sala: eu, um indivíduo de suspensórios e camisa verde e uma senhora de cabelo curto e um senhor já de idade com a filha que conversavam sobre o neto. Percebi porque é que a peça se atrasou 15 minutos: estavam à espera de mais espectadores e eu fui o último. Cada um pagou 10 euros, a receita foi de 50! No palco eram também cinco actores. No fim levantámo-nos todos os espectadores e aplaudimos, parece que estávamos a aplaudir cada um o seu actor. Acho admirável o trabalho deles nestas condições, não deve ser fácil e eles foram extremamente profissionais.

No Brasil, no Rio e em S. Paulo, esta mesma peça de Plínio Marcos esteve esgotada . Mas, isto é a maior evidência do mundo, Coimbra nem é o Rio nem é S. Paulo. Mas há que ver as coisas pela positiva: não é todos os dias que, por apenas 10 euros, temos o privilégio de ver tão bons actores a actuarem praticamente em privado. No fundo é como se, passe a comparação, os Rolling Stones actuassem apenas para nós.´Não é melhor que vê-los a bombarem para 100 000 mecos aos saltos?

PIC:  Miguel Lança, Maria João Robalo e José Russo, "O Abajur Lilás" (foto: Paulo Nuno Silva)

26/06/12

Alberto Moravia – Eu e ele, por Adérito


Este é um livro anacrónico. Parece que estou a ver os personagens de calças à boca de sino, suíças e cabelo comprido. Mas se fossem só os personagens até se percebia, já que o livro foi editado em 1970... O problema é que são as ideias que cheiram a naftalina, não só os personagens. «Ele» é nada menos que o margalho descomunal de um tipo; «Eu» é o próprio indivíduo, isto é, o seu lado social. Eu e Ele é pois uma versão mais ou menos grosseira dos princípios freudianos da realidade e do prazer. O resultado é uma amálgama mal amanhada de psicanálise cruzada com marxismo.
Não sei como é que cheguei ao fim deste livro. Mas cheguei, o que quer dizer que Moravia é um bom escritor, malgré ça…