31/05/04

O caso da moral da porca, por El Perro

O meu vizinho tem uma porca que escapou à morte por causa do cio. Foi ele, não ela, quem mo disse. E eu acreditei e acredito. Acredito mas penso. Várias coisas.
Penso que, afinal, o sexo não é a porcaria que dizem. Pelo menos a partir de sábado passado, dia de matança que não foi de matança.
Reparei há muito no facto português de as quatro letras da palavra “amor” serem as quatro primeiras, também, de “a morte”. Mas isso é ortografia nacional. Este caso da porca ciosa (que se chama Ruça mas é branca e rósea como uma solteirona involuntária) levou-me para outros aléns pensativos. Mesmo. Muito.
Perguntei ao meu vizinho como é que ele sabia. Que ela, enfim, estava “saída”. Ele respondeu: “Anda distraída. E despreza o comer.” Fiquei maravilhado. O povo é deveras o maior sábio. Porque eu quis ver a Ruça. E vi: estava distraída. No olhar, aquela ausência mística de actriz de telenovela. No grunhir, aquela surdina que nasce das trompas do sul do corpo. No mexer, aquela preguiça enérgica de quem iria mas não vai porque só ia se fosse. Na hora, aquele instante de quem, estando ali, estava acolá, perfumando de alma uma essência de corpo, tendo “corpo”, por outra ordem, as mesmas letras de “porco”.
A Ruça não foi abatida no sábado passado. E não o será enquanto estiver como está. O que é bom para os porcos, penso ainda, também há-de ser bom para as pessoas. Sobretudo a moral. Que é esta: se sentirmos a morte por perto, o melhor é comer pouco. Comer pouco e distrairmo-nos muito. O mais possível.

25/05/04

Viva o Olhanense, por Le Chien

Aguentei o que pude. Todos estes anos, aguentei o que pude e como pude. E agora não posso mais, por isso vou desabafar. Aqui vai: eu também gosto de futebol. Mais: e até pratiquei futebol, federado e tudo. Eu sei que é uma vergonha. Peço-vos perdão por todos estes anos de disfarce. Perdão por tantas e tão embrulhadas crónicas intelectualóides. Perdão por tanto umbigo. Perdão por tanta fractura exposta. Perdão por tantas e tão estapafúrdias historietas (d)existenciais. Perdão pelo que fiz com a língua. Era tudo a armar ao cuco literário.
Há, no entanto, um problema: um ex-futebólico não existe. Futebólico uma vez, futebólico para sempre. Nunca pode ser “ex” como um marido, um comunista, um travagante, um voto ou um libris. Ou como um alcoólico, verdade seja dita e à saúde.
De facto, O Processo de Kafka nunca me interessou tanto como o do Valentim Loureiro. E que valem os Cem Anos de Solidão ao pé dos cem anos da FIFA? A ligação aberta do Sartre com a Beauvoir teve muito menos piri-piri do que a das autarquias com os clubes.
Mas vós também deveríeis penitenciar-vos. Yes, vós. Eu sozinho porquê? Vós gostais do Santanaláxia Lopes por causa do Sporting Municipal de Lisboa. E do Benfica porque o Benfica livrou o Eusébio da guerra colonial em Moçambique. E do Belenenses por causa do Américo Thomaz, essa abóbora contumaz de nula memória que foi almirante num país naufragado. E admirais o Pinto da Costa porque nunca o apanharam, nem apanharão. Mas quem se lembra do Olhanense? Na época em que foi primodivisionária, a garbosa equipa algarvia deu 1-0 ao Sporting e foi empatar a duas bolas à Luz logo a seguir. Para minha vergonha, lembro-me eu do Olhanense. Ainda desabafo mais: tenho pena de não ter um filho macho. Se tivesse, inscrevê-lo-ia nas camadas jovens. Nem que fossem de caspa.
Bem tento não ser assim. Mas é que também eu estou entre os que aproveitam não ter TV por cabo em casa para irem ao café ver a bola. Abro um livro e finjo que não ligo. Mas ligo. Pelo periscópio periférico, gosto de ver o Saviola a liquefazer os rins ao Naybet com um tornozelo digital. Gosto da heteronímia babélica das equipas. Se me distraio, esqueço o livro e ponho-me a grunhir GOLO como os meus colegas de chávena e bancada. E já me aconteceu sorrir quando o Rui Jorge, que tem três pés esquerdos (cabeça incluída), consegue finalmente centrar uma de jeito para o Pauleta, esse grande açoriano que nunca jogou num dos três ditos grandes porque não é parvo. Mas não é isto o que aqui me traz hoje.
Vai começar o Euro. Quando o Euro acabar, o País vai ficar com um euro, se tanto. O resto foi derretido nos dez estádios novos. Leiria, por exemplo. Ainda há dois anos a cidade esteve dias a fio sem fio de água potável nas torneiras. Agora, empenhou na banca o futuro de vinte anos. Por causa da bola, claro. Por causa de dois jogos da bola. Quando os holofotes se desligarem, quero ver o saneamento, o ambiente, as estradas, as escolas. Quero ver o futuro dos miúdos que não foram seleccionados para os sub-9, ou sub-13, ou sub-21. Ou sub-10 milhões, que é o que somos todos: sub.
Ah, uma coisa: naquele ano, o Olhanense desceu de divisão. E nunca mais subiu.

22/05/04

Maldito Pioné, por Tinoné

Eu juro que o que vou contar é verdade. Não tenho provas, mas é verdade. Estava eu um dia na Biblioteca da Universidade a ler jornais antigos, que eu gosto de ler jornais velhos e leio-os de cabo a rabo, incluindo os anúncios e a necrologia, e descubro uma pequena nota num exemplar do Diário de Notícias de 192equalquercoisa que dizia mais ou menos assim: “chegou ontem de Newcastle, no paquete tantos, o senhor engenheiro naval Álvaro de Campos, a fim de passar uma temporada em Lisboa. Ao ilustre engenheiro os nossos votos de uma boa estadia”. Fiquei siderado! Mas será mesmo o Alvaro de Campos, o tal, o heterónimo, engenheiro naval e tudo, que vivia em Newcastle, de acordo com a sua biografia oficial? Só pode! Ora uma destas, pensei eu. O Pessoa está a gozar com o pagode. Foi decilitrar ao Abel Pereira da Fonseca com um redactorzeco qualquer do DN e convenceu-o a meter o anúncio por galhofa. Foi de certeza isto. Fiquei a sentir-me como se tivesse descoberto o túmulo do Tutankhamon. Será que já alguém tinha descoberto isto? Para confirmar, que fiz eu? Descobri o telefone da Professora Teresa Rita Lopes, especialista no poeta, e liguei-lhe, meio a tremer. Senhora professora, eu peço desculpa de a incomodar, a senhora não me conhece e tal, mas eu só lhe queria dizer que descobri isto e isto. E a senhora ficou espantada! Ficou mesmo! Disse-me assim, a ver se me lembro: mas isso é espantoso. Lá me pediu as referências do jornal, apontou, agradeceu muito e ainda disse que gostava de me conhecer. E eu que seria um prazer e tal, e lá foram passando os anos e nunca mais falei com a senhora. O pior é que entretanto perdi o papelito onde tinha apontado a data do jornal. Como ainda tinha uma ideia do ano, voltei à biblioteca, estive lá horas, acabei por descobrir outra vez o anúncio e voltei a apontar. Que isto são coisas com que se impressiona a malta! E não é que voltei a perder outra vez o apontamento? Dessa vez, foi assim: eu tenho um placard de cortiça em casa onde espeto papelitos com interesse. Lá afixei o meu tesouro e um dia, imagino eu, o pioné despegou-se, foi tudo ao chão, e varreu-se para o lixo. Mas eu juro que isto é tudo verdade!

15/05/04

Fulham 0 -1 Arsenal (9 Maio 2004), por Repórter Alves

10 minutos para o embate. Os últimos adeptos arrumam-se ordeiramente em assentos modestos, mas devidamente numerados. Enquanto isso a maioria entretem-se há algum tempo a entoar cânticos festivos ou a brincar com grandes bolas insufladas que acabam invariavelmente dentro do relvado: entre este e a arquibancada apenas existe um muro de cerca de 80 cm de altura a separá-los. Os stewards, sempre prestativos, vão devolvendo pacientemente as bolas para a multidão, reforçando a boa disposição geral. É o último jogo da época em casa, mas não é por isso que o estádio está a abarrotar. Foi assim toda a época, apesar do clube jogar em casa emprestada, enquanto aguarda pela conclusão das obras dum novo e novo e moderníssimo complexo. A expectativa essa sim é particularmente elevada: recebe-se o Arsenal, virtual campeão ainda invicto depois de 37 jogos, e está em jogo nada mais nada menos que um lugar nas competições europeias da próxima temporada. Ambas equipas, e a de arbitragem, entram lado a lado num campo transformado num autêntico caldeirão musical. A ovação é unânime e estrondosa. Todos os jogadores acenam, indiferenciadamente, para uma e outra claque, num gesto ostensivo de reconhecimento pelo caloroso acolhimento. O árbitro dialoga animadamente com os capitães. Mais parece um reencontro de velhos amigos. Escolhe-se campo e bola e logo de seguida começa a partida. São neste momento exactamente 16 horas e 5 minutos. Olho para o meu bilhete à procura do time of the match, lá está, em bold: 4,05h pm. Os primeiros lances podem definir-se como uma disputa frenética pela posse de bola. Anfitriões e forasteiros apresentam esquemas tácticos similares, 4-1-4-1, com defesa em linha, um trinco, dois médios centrais pressionantes e alas muito colados às linhas. O modelo de jogo acusa porém diferentes abordagens o jogo; enquanto na equipa da casa os jogadores têm posições mais rígidas e o futebol é mais rectílineo e previsível - insistindo em passes por alto para um desamparado ponta de lança - os supercampeões, por seu turno, parecem confiar mais na técnica individual, com gestos simples, recepção-passe, toque de primeira, triangulações fáceis em situações de dois para um, e apostar na movimentação atacante - um sistema elástico que começa com nove jogadores atrás da linha da bola e se desenvolve através duma imediata reposição ofensiva, circulação de bola a toda a largura do terreno e desdobramento dos alas e laterais ao longo das faixas. Mais ou menos 15 minutos de jogo. O guardião da equipa da casa, internacional de grande prestígio e que estará no EURO 2004 a defender as redes de uma das selecções favoritas, recebe junto à marca do penalti, um atraso, seguro, dum colega da defensiva. O avançado da equipe adversária aproxima-se, cumprindo a obrigação de estorvar. Teria sido mais fácil, definitivamente mais fácil, um chute para a galera. Mas não, o keeper da casa tentou um bonito, ousando a simulação. O avançado, talvez adivinhando-lhe os pensamentos, foi mais lesto e interceptou o drible. Estava consumado o desastre. Feito o corte, limpo, ao feliz atacante bastou empurrar a bola para dentro de uma baliza deserta. Surreal. Ao desastrado keeper, coube depois ir buscar a bola ao fundo das malhas, não suficientemente fundo para esconder a suprema humilhação que deveria estar a sofrer. Um golo patético, um falha ridícula, como lhe chamaria, no day after, um afamado cronista local. Um golo que acabaria por ser o único do jogo ditando assim a enésima vitória da equipe invencível e a derrota da equipa da casa, que viu desmoronar-se, num deslize imperdoável, o sonho europeu de um temporada.
Minuto 40 da primeira parte, já com o Arsenal na frente do marcador Lundberg leva um toque e cai junto ao muro onde está encostada a claque do Fulham; não não foi cuspido, não, não levou nenhum soco ou pontapé e ao que pude observar à distância também não apanhou com nenhum rádio ou telemóvel ou cabeça de leitão na cabeça. Um corpulento adepto da equipe da casa estendeu-lhe o vigoroso braço e ajudou-o a erguer-se para marcar a falta e prosseguir o jogo. O árbitro apita para o final do jogo. A claque local está de consciência tranquila. Tal como os jogadores no campo, haviam dado o seu melhor, pois nem o golo surreal havia impedido que tivessem apoiado os seus ídolos um só instante os 90 minutos. Os jogadores trocam camisolas e cumprimentam-se, entre todos, longamente. A partir daqui torna-se quase impossível distinguir quem são companheiros de equipa e quem são oponentes. Alguns começam a dirigir-se para as bancadas, onde todos os adeptos, de pé, prolongam cerimoniosamente o último aplauso. Já não se ouvem cânticos, nem ovações, apenas palmas. Em uníssono. De forma menos ordenada, os jogadores aproximam-se então ainda mais do público para retribuir com aplausos os aplausos recebidos. O guarda-redes da triste figura é dos mais aplaudidos: havia feito um grande época na qual salvara a equipa em diversas ocasiões, e por isso já estava perdoado antes de ter pecado. Multiplicam-se os sorrisos, cúmmplices, entre jogadores e público. Só o muro, que na verdade tanto faz lá estar como não (uma linha no chão teria o mesmo efeito prático), separa assistência e futebolistas, pois no mais já estão equiparados: ambos foram igualmente protagonistas de mais uma tarde inesquecível. Instala-se, em poucos segundos, uma indesmentível nostalgia, própria de final de época, e que só desaparecerá lá para o final do Verão, quando por fim regressar a Premier League.
Foi assim que vi, ao vivo, Fulham X Arsenal, em Loftus Road, no Qeens Park Stadium, propriedade do Queens Park Rangers, localizado no coração dum bairro residencial londrino. Não esquecerei nunca. Porque foi lindo. Só por isso. E também porque descobri que enquanto houver pessoas que amem verdadeiramente o futebol o futebol é possível. Não referi, porque não ouvi, porque não houve, um assobiadela. Apupos, apenas um ou dois, dirigidos ao árbitro, que foi respeitado por todos os jogadores como se de um colega mais velho de equipa se tratasse. Sem alternativa possível vi o jogo junto aos adeptos do Arsenal, concentrados atrás de uma das balizas. Havia velhos, crianças, ladies, old ladies, gente pintada,fantasiada, travestida e até um orangotango. Tanto a entrada - feita cautelosamente num ponto oposto do estádio - como a saída - feita em conjunto - decorreu sem nenhum tipo de problema. E nem sequer fomos insultados, apesar da euforia dos Gunners, depois de estar mais perto de igualar um recorde histórico de terminar o campeonato sem derrotas. Só aconteceu antes um única vez, em 1889...
Como dizia o saudoso Vítor Santos, assistir ao futebol em Inglaterra é como beber vinho na adega e directamente do pipo.

14/05/04

O Nariz. História Infantil, por Tinóni

Era uma vez, num reino distante, um Príncipe Quase Perfeito. Só tinha um defeito: um nariz enorme, um senhor nariz, uma penca que só parou de crescer meia légua depois de nascer. Os pequeninos que não sabem o que é meia légua, imaginem uma légua e tirem-lhe metade. De qualquer forma, a légua é a medida oficial de comprimento das histórias infantis e vocês já deviam saber isso. Bom, mas aquele nariz era um sério entrave ao casamento do príncipe e consequente descendência, factos que numa história infantil como esta andam necessariamente ligados. Nem sequer servia ao príncipe o facto de um nariz assim grande, como os meninos sabem, ser um poderoso símbolo fálico, motivando a admiração geral da populaça e infindas lendas e anedotas sobre a virilidade do seu propriedade.
Era também dessa vez, no mesmo reino distante, uma filha de um pobre sapateiro que, não lhe bastando ser filha de um pobre sapateiro, tinha uns pés de dois quartos de légua. Mais ou menos, enfim, dependendo da estação do ano, pois é sabido que os pés incham quando no Verão. A única consolação da sapateirinha era ter em casa quem lhe fizesse os sapatos pela medida certa. Em casa é modo de dizer, pois toda a família era obrigada a viver no telhado, por causa do espaço ocupado naquela choupana pelo único par sapatos da rapariga. Todo o tempo? Não propriamente. Quando a moça saia à rua para ir buscar água a fonte, levando com ela os seus sapatos, os seus pobres e envergonhados pais aproveitavam para descer e aquecer-se um pouco à lareira da velha choupana.
Aqui chegando, já os pequenos leitores mais perspicazes terão adivinhado o final da estória. De qualquer forma, saibam que não há meio de manter o enredo em suspense, colocadas as coisas como, necessariamente, aqui foram já colocadas. Tirem proveito do (pouco) estilo da prosa e é um pau. Mas para os menos perspicazes, continuemos então.
Um certo dia, decidiram as côrtes do reino que o príncipe se casava, desse por onde desse, mais nariz menos nariz. Coloca-se o príncipe à janela a perguntar quem com ele se queria casar, como se tinha visto fazer a um certo insecto do reino, e está feito. Mas o resultado não foi famoso: mal aquele real nariz assomava à rua, tropeçavam os aldeões e assustavam-se os animais. Que fazer? A solução foi enviar pregoeiros por todo o reino, na esperança de se encontrar uma moça que não se importasse de partilhar o resto da vida com um nariz a que se encontrava agarrado um príncipe de tamanho médio.
E no dia combinado, lá acorreram muitas raparigas. Enfim, sempre se tratava de um príncipe, uma boa vida castelã, pequeno-almoço certo e instalações sanitárias com saneamento básico. Reuniram-se todas num salão e fez-se o teste da valsa. A que se sentisse menos constrangida dançando com o príncipe, seria a escolhida. A primeira esticou os braços o mais que pôde, contornando o apêndice nasal, fez um sorriso amarelo, deitando olhares de lado aos cortesãos, e foi expulsa. A segunda, terceira e quarta levaram o mesmo caminho. Até que chegou a sapateirinha. Ohhh, que grandes pés, pensou o príncipe, sorrindo. Oh que grande pés, exclamou a multidão. E dançaram a noite toda, braços esticados, narizes e pés numa simetria perfeita, duas almas gémeas. E casaram. Algum tempo depois, nasceu um lindo menino com o nariz da mãe e os pés do pai. E passados vinte anos nasceu uma menina com o nariz do avô e os pés da avó, o príncipe e a princesa da nossa estória. E então tudo recomeçou, para gáudio e felicidade dos habitantes daquele reino, que tão poucos motivos de divertimento tinham. Mas esta é outra história, que depois conto se me apetecer. Gostaram desta, petizes?

10/05/04

ROMERIJO, RIBERA DEL MARISCO, EL PUERTO DE SANTA MARIA,por AnimalDeEstimação

Se há uma coisa que detesto é o desporto motorizado! Este é um ódio de estimação que me vem de pequeno, dos Rallyes de Portugal, em que me obrigavam a subir a penantes a Serra da Lousã. Duas horas de Automotora nojenta, quatro horas de penantes Serra acima, pra ver a Michelle Mouton a curvar a 100 à hora durante precisamente meio segundo.
Mas há ainda pior que isto, na pessoa dos fanáticos dos carros e motores. Gajos que falam e discutem as bielas, os platinados, os carters, os segmentos e as barras de direcção. Temos por cá dois desses espécimes na Confraria, o que até nem é muito em 17 porcos imundos, mas temos a sorte de se calarem com as bielas e os platinados logo à primeira arrochada.
Mas ainda pior que tudo isto, é a Fórmula 1. Meu Deus! Que coisa atroz. Mas qual é o interesse de ver uma série de carros todos iguais, que fazem no mesmo sitio 100 voltas em redondo. A grande emoção, é que, às vezes, numa das cem voltas, um deles ultrapassa outro. Parece que tal acontece umas duas ou três vezes, por corrida.
Daí que, quando aqui há uns anos dei por mim a parar num artigo sobre Formula 1, quando en passant passava os olhos pelo Público, estranhei! É que, não obstante a tradicional carripana de F1 na foto cimeira, as gordas falavam era de marisco! Bogavantes? Langostinos? Eh lá, destes bólides de F1, já eu gosto!
E vai de ler a coisa em pormenor. Em pormenor e com direito a imediato recorte e religiosa guarda, que com estas coisas não se brinca. Foi a primeira vez que ouvi falar do Romerijo. E a coisa resume-se em três penadas. O artigo era sobre o Grande Prémio de Espanha de F1, que pela primeira vez se disputava no novel Autódromo de Jerez de La Frontera. O Jornalista enviado à última da hora pelo “Público”, além de não conseguir já qualquer acreditação para o tourel, onde não pôs sequer os pés, só veio a conseguir alojamento numa pensão manhosa de Puerto de Santa Maria, cerca de 20 km a sul. E como não pôde falar de F1, a não ser dos resultados que viu na televisão, falou em pormenor do que descobriu na desembocadura do Rio Guadalete: a Ribera del Marisco e o Romerijo.
Aí, no maior porto marisqueiro de Espanha e da Europa, encontra-se o Romerijo. Que é nem mais nem menos que o maior mayorista y minorista de marisco y pescados de España, e que ali na Ribera del Marisco, alimenta diariamente, com frescura, cozedura e fritura inigualáveis, dois estabelecimentos tamanho-gigante, que frente a frente na rua e mano a mano na lide, alimentam a horda insaciável.
De um lado da rua, temos o Cocedero e do outro, a Freiduria, sendo que pelo meio, em esplanadas, arcadas, jardins, pérgolas e salas intermináveis, se abanca na Cervecería.
O mastigante depois de passar pela caça à mesa (a pior critica que fazem ao Romerijo, com sites de discussão na net) vai de Cocedero e dali traz para a mesa a preços catitas em cartuchos de papel, raciones de gramas ou kilos, de tudo quanto seja marisco cozido, inteiro ou partido, grande ou pequeno, raro ou comum, às cores ou às riscas.
Ali me apresentei eu às Galeras de Peníscola, às Nécoras Galegas, aos Percebes Gigantes da Mujía, aos menos gigantes de Marrocos, às Patitas de Santola, às Coñetas, aos Canaíllas, às Patas Rusas e aos Bigaros. Ali travei cerrados duelos florais com Bueys de Mar, Cigalas Gordas, Bocas Chicas, e Quisquillas. Ali prestei honras aos Langostinos, Bogavantes, Langostas e Camarões Tigres como Bengalas. Ali confraternizei com Camarões de toda a áfrica de Madagáscar aos Camarões. Ali se me embaciaram de comoção estes olhos gulosos, perante tantos tamanhos e proveniências de búzios, burriés, ameijoas e ostras, conquilhas e caranguejos, gambas e cabra-cegas. De certeza que metia dó olhar para a beiçaria gulosa deste lambão. E nem digo mais, que a alembradura é dolorosa.
Logo que abastecido de cocidos, o mastigante atravessa a rua e vai à Freiduria. Ah, a Freiduria! Um regalo, de sabor e de preços. Abastecimento completo: Chipirones, Puntillitas, Ovas Adobadas, Huevas de Atún, Acedias, Gambas Rebozadas, Sardinhas tamanho petinga, Cazón, Merluza, Calamares, Pijotas, Rabas, etc, etc, tudo fritinho e quentinho. As Puntillitas que estalam na boca, as Gambas crestantes de sabor adocicado, o Cazón exquisito que corta o adocicado. Tudo à bruta e à fartazana. Fresco que até doi. Bem frito, num polme inigualável como só os nuestros hermanos sabem fazer.
Prá mesa traz-se tudo em cartuchos de papel. De pratiduras, só os copos da cervejola Cruzcampo, que garçãos atenciosos trazem a toda a hora. Como o pessoal que ali vai não facilita e abanca e afinfa como se aquela fosse a última ceia, a garçonage traz também para a mesa um Balde, grande, tamanho-famelga, destinado a servir de caixote de lixo. Talheres não há e Guaranás, por mais que peçam, também não. E convém não insistir, que os garçãos aturam tudo, mas há limites!
No mais, resta avisar a trupe ecologista de que é melhor nem se aproximar da Ribera del Marisco ou do Romerijo. Até a mim, alambazante empedernido, aquilo por vezes dói. E o mais engraçado, é que quanto mais me dói no cérebro, melhor me sabe no estômago. Imagino que ali, um defensor de bichinhos, pura e simplesmente, cai pró lado fulminado. É que muito do que por ali se come é do tamanho com que o espécime saiu da gravidez materna. Ilegal, portantos. Criminoso, mesmo. Em qualquer mesa de Portugal ia logo tudo pá Esquadra. Mas em España, essa coisa dos tamanhos são pormenores, minudências legais de Bruxelas, que não afectam a mastigação e só melhoram o sabor apimentado da bicharada.
Perdoai-lhes Senhor, porque eles sabem o que fazem!

07/05/04

A LIÇÃO DE GUITARRA, de BALTHUS, por BeloZebu

[ver quadro em tamanho maior: click aqui]Na senda da discussão sobre a Arte e a Pornografia e o que é uma e outra, eis aqui A LIÇÃO DE GUITARRA, (Óleo sobre Linho, 1,61x1,38cm, Colecção de Thomas Ammann, de Zurich, pintado em 1934, por Balthus - Balthasar Klossowski de Rola; Francês, 1908–2001).
E antes de mais cumpre relembrar aqui o Mefistófeles, que há tempos aqui trouxe um outro Balthus, e admirado ficou de eu ter levantado a questão da sexualidade e da perversidade imanente ao quadro por ele apresentado. E admirado fiquei eu com a admiração dele.
Balthus é também um dos meus pintores modernos preferidos, mas a obra dele, o grosso dela, é hoje quase maldita. A coisa não se encaixa no politicamente correcto reinante e nem as palavras de profunda admiração do Albert Camus o safam da fogueira que à volta dele vão ateando.
O quadro anexo é o mais polémico de Balthus. Nele como em nenhum outro ele se afirma como um pintor de sexualidades e perversidades. Há até um critico que o classificou como “pintor de lolitas com luz”.
Se em muitos dos quadros de Balthus a teens e pré-teens (estas duas palavrinhas vão-nos render 2 milhões de visitantes a partir das pesquisas do Google), são retratadas em posições de equivoco e mistério, a meio caminho entre a inocência e a perversidade, aqui a coisa é clarinha e a perversidade é plena. Este quadro levanta-nos desde logo uma interrogação fundamental: Arte ou Pornografia?

06/05/04

TINÓ, TINÓ, TINÓNINÓNINÓ, TINÓ, TINÓ, TINÓNINÓNINÓ...A música da minha vida, por Derviche Rodopiante

O Apartamento era magnífico. Um quarto andar a 50 metros da praia e a 150 do mar imenso. Carote, como se impõe a um prédio de avenida marginal ao mar em pleno Reino dos Ingleses e dos Algarves. Varandim contínuo e aberto, a lamber directamente da maresia contagiante. Uma delícia, acordar de manhã com o barulho da rebentação e o cheiro da espuma das ondas. O adormecer, era sobre o mais longo e prateado luar de mar de que há memória.
Mas não há rosa sem espinho, nem bela sem senão. E o senão, o zenão, o zangão e o caralho que a foda e a puta que a pariu, era aqui personificado por uma sacana de uma máquina caça níquel, daquelas de abanar o cú a criancinhas, que ao nível do chão e colocada na esplanada de um café, fazia sempre a mesma música simples e irritante: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
A coisa fazia chaminé de som até ao 4º andar e se no primeiro dia era ligeiramente irritante, no segundo dia era infernal. Ao terceiro dia, já lá ia às 4 da matina enfiar-lhe chiclets na goela. Mas não resultou, e logo de manhã, um cabrão dum fedelho saca uma moedinha ao merdas do avô e saca de um pauzito nojento, limpa a chiclet e zás, a maldita a azucrinar: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
Nesse dia – Domingo – a coisa má, não mais parou, acordou-me, irritou-me o pequeno almoço, estragou-me o almoço, a sesta e o jantar. A puta da maquineta, uma espécie de burro do oeste onde os rebentos que me rebentavam as timpaneiras se sentavam, era incansável: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
E de madrugada, pior ainda, quando já me preparava para novos assaltos de chave de fendas, lá vinham das discotecas a corja de jovemzarros que achava muito impressionante para as teenagers fazer a cavalgadela na maquineta infame. As namoradinhas queriam certamente outra coisa, que não a nojice que me abrasava a mioleira, mas qual quê: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
Foram quinze dias de martírio. Para evitar o delírio, já ficava na praia a ler até ser de noite e a mulher telefonar prá janta. Mas à hora da janta a coisa era ainda pior. As putas das criancinhas faziam bicha e zás: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
Fiz de tudo àquele martírio em forma de far-west, chiclets, patadas, chave de fendas na ranhura, água pró dentro e até areia trouxe da praia e cheguei a obrigar a minha filha a andar naquela merda só pra poder judiar daquilo, enquanto supostamente procurava meter a moeda. Népias. A máquina do demo nunca abrandou: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
E o pior de tudo, é que a nojenta, a infame melodia encasquetou-se-me no subsconsciente e ainda hoje, anos depois, meia volta distraio-me e dou por mim a cantarolar: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....
Fico fodido e pior do que isso praguejo e dá-me prá asneira o que me torna incompreensível e demente para quem está ao lado.
Não sei se é a puta da máquina a vingar-se das tropelias que lhe fiz, se é o meu subconsciente a avisar-me que não me vai dar descanso enquanto não puser pés ao caminho e não voltar a Monte Gordo de propósito, numa noite fria e escura de inverno, foder o cabrão do: tinó, tinó, tinóninóninó, tinó, tinó, tinóninóninó....

29/04/04

Porcos ao serviço de Espanha, por Mangas

Anarquia controlada
A coisa foi assim: partimos de Coimbra sábado bem cedinho direitos ao sul de Espanha, apenas com a certeza que haveríamos de voltar. Poucas mais certezas se poderiam ter naquele momento. Experimentem compartilhar o espaço de um carro, durante dez horas, com três insaciáveis operários de provocações, bandas sonoras, excertos de viagens, livros, capelas de devoção gastronómica, artes variadas e geografias mil, sendo vocês o quarto e o mais faminto de todos, e perceberão onde quero chegar. O universo inteiro resume-se a isso; quer dizer, naquelas horas, tudo o que um tipo diz ou faz resulta numa gargalhada em uníssono ou numa saraivada de retaliações violentas cujo propósito último é ouvir outra para continuar a malhar ou a rir. Vulgares pombos grasnam, rouxinóis cantam, mas um porco caminha sobre as águas ainda que elas ardam, porque o inferno é um belo lugar para queimar os chispes; bebe do cálice ainda que ele arranhe, e quando metade dele se tiver ido, deverá dizer com contagiante espanto e indisfarcável alegria: "E ainda só vou a meio!" Foi nisto que nos metemos.

O presunto de Jabugo e Cela Tendo resumidamente explicado os votos e chicotadas que presidiram ao passeio, e sem mais delongas, passo à navegação propriamente dita. Almoçamos em Jabugo, na serra de Aracena, onde as palavras do grande Camilo J. Cela não deixaram contas por saldar às queixadas esganadas porque aí ?se criam uns presuntos e uns paios de lombo dignos de um rei?. Ficou-se a saber que lagarto, são pequenas e suculentas tiras de carne retiradas do espinhaço do porco, servem-se fritas com finas rodelas de batatas levemente alouradas e acompanhadas de um frugal refogado de cebolas, pimentos e tomate. Que cocido é uma sopa de grão e feijão verde toscamente cortado que dá cor a um poderoso caldo de porco. Que Veja Real 2000, de Rioja, é um vinho aromático e guloso, bendita foi a hora que àquele tinto trouxe a sede e o sabor do presunto. Perdoa-nos Cela porque as fatias eram ?fatiazinhas muito finas e transparentes?. Heresia maior seria contrariar os costumes da boa gente que no-las serviu. Já bem basta a coca-cola que por lá se bebeu, nojo de nomeada e inenarrável, teimoso como o pagão que o pratica continuamente. Adiante. Dali até Conil foi uma estirada a ar condicionado, Ben Harper, Tom Jobim, As Bodas de Figaro e Stones, sempre os Stones! A imensidão da planície andaluza. Coisas do género: não haja dúvida que estes cabrões dos espanhóis sabem marcar as estradas!; se a Monica Lewinsky tem feito um broche ao Kennedy, não ficava com nenhuma mancha de certeza, lê aí esse parágrafo da Mancha Humana do Philip Roth; os ingleses andavam há séculos a lixar os campos de Rio Tinto perto de Huelva com as minas de ferro e pirite etc... Entre os quatro, metemos 123 filmes nos 10 melhores de sempre, três mandaram pastar um Derviche Rodopiante, dois mamaram os caramelos todos, mas só um deles contou fábricas de celulose. Por essa altura, os Jardins Genoveses de Cádiz eram uma promessa a cumprir no dia seguinte.

Conil Conil é ensolarada e ventosa. Trato-a por fêmea porque a sua marginal parece ter sido tomada por uma população de machos-Jorges, dentro de carros vulgares mas com aparelhagens de som estrondosas, audíveis a léguas, baixos ensurdecedores, autênticas discotecas ambulantes e insuportáveis que nem bardos gauleses! Jorges, por cá são aqueles que têm uma Famel Zundap XF-17 Super com jantes de duro alumínio e radiador a óleo e usam porta-chaves Ferrai à tira colo. Por Conil, também os há pelos vistos, só que requintaram a escolha, meteram ailerons nos Ibizas, cromados e escapes duplos de recuperação. Fazem uma procissão de vaidades sonoras estrada-acima-estrada-abaixo, devem meter tampões nas orelhas, ou então, são surdos como a puta que os pariu!

A tomada de Cádiz e o quase motim em Puerto de Sta Maria Cádiz pela noite dentro recebeu-nos de portas abertas. Só no-las fechou quando, por erro estratégico, mandámos o Sofista e o Milu à frente, arranjar quarto no hotel. Qualquer recepcionista sensível ao perigos de um atentado terrorista, olhando o perfil de um espécime de beduíno, cabelo rapado, olhar gazeado e tez morena, a tartamelar um castelhano à crioulo colonizado, hesita. Lógico. Evidente. Faz um esforço para tentar perceber aquela amálgama de sons sem descodificação possível ou aparente. Porém, eis que desvia o olhar para o parceiro que o acompanha, mãos nos bolsos dos jeans azul lixívia, bodyguard à civil, mortinho para dar a marrada e, tá tudo lixado: os dois quartos disponíveis há quinze minutos atrás...? já no los tiengo! Mas pronto. Lá se arranjou guarida a preço de ouro, estacionamento pago à parte e sem direito a pequeno almoço, o que não impediu um papa croissants de encher a mula às 11h. da manhã, bem convencido que estava tudo incluído no preço, pagou e nem verificou e só quando foi impiedosamente humilhado pela conta que lá deixou, é que percebeu de onde vinham os extras, o cavalgadura...! Contrariando a lógica enciclopédica do Grunfo que pensava estar o Romerijo de pernas abertas e com marisco aos saltos, à nossa espera, às 0.30h dessa noite, o que lhe ia valendo um motim a bordo seguido de empalação sumária, só no dia seguinte pudemos devorar umas quantidades generosas de marisco variado regado com umas cervejas bem geladas. Os viajantes, que não tinham pressa nos pés, nem impaciências nos espíritos, saborearam tranquilamente a luz solar daquela tarde numa esplanada rodeada por árvores seculares, entre a mansidão das sombras e o deleite de um Montecristo Nº2 oferecido pelo animal, que assim arrematou o banquete e se redimiu de um erro colossal.

A Catedral de Sevilha antes do regresso Em Sevilha, ficou-nos a admiração repetida pela Catedral, primeira vez para mim que nunca tinha medido de perto a distância colossal do solo às cúpulas, onde cabem 117 anos de construção e labor, talvez a inspiração fosse divina, mas o génio foi humano, de certeza. Bebeu-se orchata no Parque Maria Luísa, contemplou-se o encanto e a formosura tão peculiares das sevilhanas, tendo-se até e a propósito, teorizado sobre tão feliz refinamento genético e encontrado razões de origem na secularidade do império, no clima temperado e na paixão moura pelas coisas da beleza, e do prazer pelo requinte. Os viajantes entraram em Portugal no dia 25 de Abril pela tarde, por uma estrada de construção recente sem marcação alguma que não fosse um gigantesco placard que dizia ?Welcome to Stadium of Europe?, para os que chegavam e ?See You Soon?, para os que partiam. Os viajantes pensaram estar a desembarcar no porto de Dover ou nas docas de Jacksonville, depressa se recompuseram, mandaram algumas caralhadas, é certo, e outras considerações que não são para aqui chamadas. Mas talvez e porque acham que a liberdade não se celebra, vive-se, recusaram-se a ter sede ou direcção, destino ou sossego, e foram jantar e beber um copo, prometendo partir em expedição sempre e em toda a parte, navegando por terra e por onde lhes cheire.


Posted by Mangas Fernandes to at 4/28/2004 11:16:49 PM

19/04/04

EU E OS GALÁCTICOS, por Le Vice

INTRÓITO
Eu tinha feito uma promessa a mim mesmo que era a de não puxar o tema da bola (quer dizer, do ponto de vista da discussão tifósica) para o tapor. Achei que era um tema adequado aos mails, mas que debatê-lo nas páginas do tapor ia inundar o Porco de literatura de cordel acerca da bola. Ora para isso basta-nos o Ranhoso ao sábado à tarde.
Infelizmente o meu amigo xiita não foi da mesma opinião, pelo que ao abrir as hostilidades num post sobre o Grande Real Madrid (ou sobre o Vice?), deixa-me à vontade para encher o Porco com páginas sem fim acerca de futebol. Prevejo a perda drástica de alguns leitores ou pelo menos a mudança do seu perfil. Falo por mim, que quando ando na blogosfera e me deparo com comentários sobre bola, a primeira coisa que faço é zarpar. Não é que não seja um tema do meu agrado, mas porra!, o que não falta neste país é discussão sobre futebol: na rádio, na tv, na imprensa escrita... E agora na blogosfera? E até no tapor? Ná.

Mas também é verdade que o Tapor não tem temas tabu e por isso, iniciadas as hostilidades pelo xiita, vai de amandar uns palpites sobre bola. Se bem que o dito post do xiita me deixe um pouco baralhado. Não sei se o tema daquilo é o Real Madrid ou eu próprio. Não sei se o título não devia ser «O Meu Amigo Vice». Pareceu-me mais um texto sobre a minha pessoa que outra coisa, mas enfim… De qualquer modo aproveito para agradecer as referências elogiosas, embora discorde totalmente do que foi afirmado: eu não vejo um boi de filosofia, nem de música, muito menos de cinema. Eu percebo é de bola porque, como diz o Mangas, foram muitos anos de cheiro a balneário, ao contrário do autor do referido texto que jogou basket quando era pequenino e se revela actualmente – justiça lhe seja feita – um exímio praticante de golf.

BOLA
Feito este curto intróito, vamos então ao que interessa: bola. O Real Madrid é ou não é a melhor equipa que já vi jogar? Figo está ou não a fazer a melhor época de sempre em Espanha?
Se alguém ainda me está a ler nesta altura – eu já tinha vazado – quero dizer que, de facto, eu respondi afirmativamente às duas questões anteriores. Mas as minhas afirmações foram ditas no contexto de guerra de café e obviamente devem ser lidas, nesse contexto, como naturalmente hiperbolizadas. O que o xiita faz é retirá-las do seu contexto real e atribuir-lhes um valor literal que não têm. Para ser rigoroso eu devia ter dito «O Real Madrid de 2003/04 é uma das melhores equipas que já vi jogar futebol» e «O Figo está a fazer a melhor época desde que está no Real e talvez a segunda melhor desde que está em Espanha». Agora pegar em frases de efeito bombástico que se dizem no meio de berros e provocações e caralhadas no Ranhoso e metê-las aqui com o valor facial literal não me parece correcto. É como se eu agora viesse para aqui fazer um post porque um de nós em pleno devaneio tarado-sexualista comentou em voz alta que «aquela gaja é melhor que a jennifer lopez» ou «comi-a toda» ou «gosto mais daquela gaja que da malta do tapor». O que eu pretendi foi lançar um slogan, ser provocador…

No entanto, assumo: é para mim evidente que o Real é uma das melhores equipas que já vi jogar a bola. Até podem perder os jogos todos daqui em diante, mas isso já não invalida as belíssimas exibições que os Galácticos já nos deram a ver, inalcançáveis para o comum dos futebolistas. Acontece que o futebol para mim é arte, geometria criativa, arquitectura, ballet, dança, tudo à mistura… Algumas das melhores equipas que vi jogar perderam as competições em que se envolveram. Mas nem por isso deixaram de ser as melhores, as que perduraram na memória, as que fizeram o futebol avançar 10 anos, mesmo perdendo. Quem é que ainda hoje recordamos: o Brasil que perdeu o Mundial de Espanha ou o escrete burocrático que o ganhou no mundial dos EUA? Quem é que fez avançar o futebol uma década, a Alemanha caceteira e militarizada que ganhou o mundial de Itália ou a Argentina do Maradona que ganhou o do México?
Pois é, o critério do xiita para julgar o Real Madrid é um bocado primário; resume-se a isto: ganham são bons; perdem são um grupo de starlettes… Logo o Real perdeu a final da taça e os quartos da Liga, é mau. E quem é que é bom? Quem ganhou, o Mónaco, essa grande equipa e, acima de tudo e de todos, o porto, claro… Atão não se vê logo que o Beckham é uma vedeta que de futebol não percebe nada e bom, bom é o Manique? Que o Zidane é uma vergonha e que o deco é muito melhor? Que o Figo tá velho e o Sérgio Conceição e o Maciel tão novos? Que o Ronaldo tá gordo é o macarteney tá magro? Que o casilhas tá demasiado novo e o baía no ponto? Que o Raul é franzino e o jancaúscas é que tem cabedal? Que o roberto Carlos é tosco e o Nuno valente um tecnicista do caralho? Que o guti não sabe acertar numa bola e o costinha é que tem técnica e por aí fora? É que «como toda a gente sabe» (excelente argumento do post do xiita!!!) os galácticos do real são vedetas de cinema e não jogadores de futebol. Possivelmente as excelentes exibições que já fizeram este ano - por exemplo com o Barça em Nou Camp (por acaso venceram, 20 anos depois…), com o Valladolid (7-2, classe pura, empolgante…), com o Bayern, com o Múrcia (em que viram um 2-0), com o Bilbao, com o Atlético Madrid (no Bernabéu), com o Maiorca, com o Sevilha em Madrid (a vingança), com o Mónaco na primeira mão, etc, etc, etc - foram filmes de Hollywood protagonizados pelos tais bons actores. E. obviamente, o Figo passou ao lado disto tudo e só joga porque é português e o treinador é amigo dele… Também é claro que para perceber o que afirmo era preciso, pelo menos, ter visto os jogos, senão é como a anedota do gajo que censura Deus porque não lhe sai a lotaria, ao que Deus responde, aparecendo-lhe num estádio de futebol com a cara do zidane «mas faz ao menos uma cautela, pá»…

Mas sejamos, então rigorosos: a melhor equipa que vi jogar – se é que isto se pode dizer – talvez tenha sido o Brasil do Mundial de Espanha, com Zico, Sócrates, Júnior, Éder, Falcão, Leandro… Perdeu nos quartos de final com a Itália de Rossi, boa, mas muito inferior. De quem é que nos lembramos? Da Itália? Não. Do Brasil.
No mesmo mundial – o melhor de todos os que vi – a França de Platini, Giresse, Tigana e Battiston foi eliminada nas meias pela Alemanha de Stielicke com uma patada de Schumacher em Batistton (perna partida) decisiva no resultado final. Garanto-vos que preferia os passes do Platini às patadas do schumacher. Mas os alemães venceram.
No mundial de 74 a melhor equipa – isto é, a que praticava o futebol-arte de que eu gosto - era a Laranja Mecânica de Cruijjf, Rep, Neeskens e Kroll. Mas perdeu a final com a Alemanha, também uma excelente equipa, mas não tão boa.
No Mundial da argentina a Holanda de Haan, dos irmãos Kerkof, de Neeskens e Rensenbrink perdeu a final com uma argentina que comprou o Peru.
E, diz a história já oficial, que uma das melhores equipas que já pisou o planeta, a Hungria de Puskas e Czybor, perdeu com um grupo de caceteiros alemães a final do mundial de cinquenta e qualquer coisa. Aos 10 minutos o Puskas já estava lesionado…
Podia multiplicar os exemplos de grandes equipas que perderam com equipas inferiores – o Barcelona de Cruijjf treinador, de Romário e de Stoichkov perdeu 4-0 (quatro) com o Milão de Capello guiado por um Massaro que não tinha lugar na equipa B do Barça.
O fantástico Barça de Figo, Ronaldo, Cocu e Luís Henrique, perdeu o campeonato para o Atlético Madrid de um tal Panic, quem sabe a que é que o homem se dedica agora… E quem não se lembra da Dinamarca de Elkajer Larsen e Marten Olsen que levou 4 da quinta del buitre, mesmo sendo a melhor equipa? E o Dínamo de kiev de Yaramthchuk, de Belanov, de Dassaev, de Rats, de Demianenko que só ganhou uma taça das taças frente a um modesto Atlético de Madrid? Quem não se lembra que este mesmo Dínamo, anos mais tarde e já com alguns destes jogadores na sua fase final mas ainda excelentes, perde a meia final da taça dos campeões para um porto inferior que deixa no banco Madjer (o génio só joga a final com o bayern porque Gomes se lesiona entretanto)? Como esquecer a União Soviética de Blokine que também morreu no mundial aos pés de uma Bélgica menor? E as grandes equipas da Jugoslávia de Stoykovic que nunca ganharam nada? Ou, mais recentemente, a Espanha do último mundial, ou mesmo Portugal, eliminados pela modesta Coreia do sul?

PERDER E GANHAR
Quando o Zico e o Sócrates e o Falcão perderam aquele mundial, a compra e a circulação de mega cracks disparou em flecha e o futebol atingiu o estatuto de manicómio económico. Essa equipa contribuiu, como nenhuma outra para a explosão da paixão-futebol e para a nova era do futebol-business. A procura e o interesse dispararam em flecha em todo o mundo e praticamente todos os cracks brasileiros acabaram a jogar em Itália.
Ao contrário da ideia que geralmente passa na populaça, no futebol, o mais importante não é ganhar. É no imediato, no queimar das paixões volúveis. Mas as equipas que fazem com que o futebol seja o melhor jogo da história, que lhe dão uma durabilidade de mais de um século, que nos ficam na cabeça como ficam os saltos macacos do Mick Jagger quando tinha menos vinte anos, essas foram muitas das que citei: o Brasil do mundial de Espanha e não o do Mundial dos states; a laranja mecânica e não a Alemanha dos foerster e stielikes; a França de platini e não a Bélgica de pfaff; a argentina de maradona (aliás a equipa era só maradona, o melhor futebolista que já vi) e não a Alemanha de briguel; a Itália do mundial da argentina e não essa mesma argentina; o Barcelona de romário e não o milan de massaro; os Camarões de Milla e não a Inglaterra de Hateley; e, enfim, last but least, o Real Madrid dos galácticos e não o Mónaco honesto dos giulys e o fcporto foleiro dos costinhas e maniques…
E eu aposto que, daqui a uns anos, quando se falar na presente edição da Champions League (que já perdeu toda a piadinha sem as melhores equipas), vamo-nos todos lembrar não de uma banal final entre duas equipas medianas, mas do jogo dos quartos de final em que os galácticos do Real Madrid se deixaram perder com uma equipa voluntariosa de quem não recordamos o nome de mais do que um jogador.

PS – por acaso, quem pôde ver o atlético – real do último sábado, lá teve que gramar com mais uma lição de carácter daquele grupo de «estrelas de cinema». Viraram o jogo só com dez, pormenorzito de chacha…. O Figo esteve nos dois golos, levou a equipa literalmente às costas com arrancadas coast to coast, levou porrada e, como sempre, não se acobardou. Mas parece que «toda a gente sabe» que ele tá velho e que já foi declarado incapaz para a prática do futebol por quem percebe verdadeiramente da modalidade. No próximo jogo só não fica no banco porque o Queirós é português e nacionalista ferrenho.

16/04/04

Opus Pistorum Pornográfico? Avalie você mesmo

Andam por aí a afirmar que o «Opus Pistorum» do Henry Miller é literatura. E com L grande. Outros haverá que acham que é pornografia. Com p pequenino, eventualmente. Ora, a malta aqui no Tapor acha que deve ser cada um a avaliar por si. Seleccionámos pois um excertozito do dito livro, um soft, sem anões, cães, bacanais, crianças, mijadelas, cenas com mãe e filha, etc. Deixamos essas cenas para os curiosos. São necessárias algumas cautelas, pois basta lembrar que já houve quem, aqui na confraria, tenha emprestado o livro a uma mãe de família! A senhora devolveu-o passados dois dias, dizendo que era um bocadito forte. A besta do confrade em causa, quando chamado a justificar tamanha audácia, limitou-se a responder:
- Eu avisei, ela é que pediu!
'Tá mal! Para um livro destes não bastam os avisos. Não se deve ligar às insitências e aos pedidos veementes. Nunca! Quem quiser que pegue nele e o leia por sua conta e risco. Por isso, escolhi uma cena soft. Se acha, caro leitor, que tem estômago para as partes hardcore, faça o seguinte:
1- Compre uns óculos escuros, cabeleira postiça, bigode postiço e gabardine comprida,
2- Mascare-se,
3- Dirija-se a um hipermercado às 8h00 da manhã e compre o livro. Misture-o no meio de 50 kg de batatas, tomates, cebolas, 3 pacotes de fraldas Dodot, guardanapos de papel, cleenex e o que mais lhe der jeito até encher o carrinho,
4- Pague em dinheiro e não olhe de frente para a moça da caixa,
5- Durante 15 dias não volte ao local,
6- Leia o livro em local ermo.
7- Guarde-o em local inacessível. Fora do alcance de tudo e de todos. De preferência destrua-o. Ou então, encape-o com um papel discreto.
Vamos ao excertozito:
«Entre as nádegas Snuggles é quase totalmente desprovida de cabelos. Tem o ânus róseo e apertado, o que o torna uma tentação irresistível. Percorro-o com um dedo e meto-lhe a ponta lá dentro. Snuggles meneia-se um pouco mais, mas parece não se importar. Finalmente meto o dedo todo, só para ver a sua reacção...e então não é que a putazita começa a mexer-se para trás e para a frente, empalando-se a si própria...
De súbito páro de lhe fazer minete e, em troca, começo a chupar-lhe o ânus. Não me perguntem porquê.... está ali e tem um aspecto que desperta desejos de o chupar... Lambo-o um pouco, beijo-o... e enfio a língua lá dentro.
Snuggles quase me arranca o caralho com a violência com que me chupa.
Não preciso que me diga que se está a vir... Eu sei-o... e eu também estou. Ponho-me em cima dela para a agarrar melhor, de modo que, mesmo que ela mude subitamente de ideias, não me deixa a golfar esporra sobre os lençóis e enfio-lhe tudo na boca, excepção feita aos tomates.
"Engole-me isso, minha puta doida!" grito-lhe, quando John T. [é assim que o narrador chama o seu membro] dispara. "Engole-me isso, ou juro por Deus que to faço marchar pela boca abaixo com uma mijadela!»
Fim de citação. Então? Que tal? Que acha: literatura com L grande ou porno com p pequeno? Comente, s.f.f.
PS- Ainda bem que aqui vigora o anonimato.
PS2- Se achou pesadote, por favor diga que a gente começa a escrever sobre S. Tomás de Aquino. Mas volte, não fique zangado(a) connosco.

15/04/04

A pornografia na História, por Zé Manel Piroca

A pornografia na História. Um pudibundo contributo (onde não se explica qual foi e como foi a melhor foda da história do cinema pornográfico): A arte de foder para entreter
A arte de foder para os outros verem é tão antiga, ou quase, como o homo sapiens. Ou seja, tão antiga como foder por prazer e quando apetece. E na medida em que as criaturas irracionais praticam cópula sem arte ou sentido lúdico. De facto, inúmeros indícios têm surgido, revelando o carácter lúbrico, por exemplo, das célebres vénus, estatuetas pré-históricas de gajas gordas com volumosas mamas e largas ancas. Para além do seu carácter proto-religioso e místico, símbolos de fecundidade primordial, as figuras seriam objectos eróticos, equiparados, noutra ordem de grandeza, aos fálicos menires, monumentais na sua erecta masculinidade. Não quer isto significar que os nossos antepassados se masturbassem à sombra do menir, mas não deixam de constituir representações de natureza sexual. Uns milhares de anos mais tarde, o surgimento da escrita (e estou a limitar a prosa ao mundo ocidental/europeu, porque o Oriente tem pano para muitas mangas, e alguém, outro, que se ofereça para contar a história condensada da pornografia japonesa ou indiana) proporcionou-nos, a nós contemporâneos, uma compreensão mais detalhada dos impulsos pornográficos da espécie ao longo dos tempos. Um dos primeiros e mais celebrados exemplos será O Banquete, do amigo Platão, ao tempo dos filósofos pedófilos, onde surge, pela voz do narrador Aristófanes, a complexa figura sexual do andrógeno, criatura de dois sexos e muita lubricidade. Isto num contexto histórico local de grande paneleiragem e devassidão, sobretudo nas escolas de filosofia. Em termos de representações pictóricas (pinturas ou gravuras, mas representações pictóricas é muito melhor), lembramo-nos, por exemplo, das luxuriosas representações orgíacas pintadas nas paredes romanas, tão a gosto e de moda ao tempo de cavalheiros recomendáveis como Nero ou Calígula.
Arriscaremos, no entanto, que o ofício de fornicar ou mostrar fornicação a fim de entreter/satisfazer terceiros só começou a arrepiar um caminho sério e coerente, no sentido da sua industrialização actual, após a longa noite de casta e evangélica repressão medieval da sexualidade. E arrancou logo no século XIV com um verdadeiro marco literário: O Decameron, do italiano Bocaccio, onde nobres e fidalgos dados à promiscuidade e à corneação expunham as suas peripécias sexuais. Esta obra, de resto, foi séculos mais tarde transposta para o cinema pelo não menos depravado, italiano e paneleiro Pier Paolo Pasolini, que realizou outras fitas também muito engraçadas.
Desde aí até à actual banalização hedonista dos costumes, e à completa desintelectualização (se esta palavra não existir avisem) e ausência de subtileza do erotismo foi um fartar vilanagem, particularmente a partir da abertura cultural providenciada pelos Descobrimentos e pela Renascença. Alguns casos cimeiros: os contos eróticos de Aretino ou os mediáticos Marques de Sade (séc. XVIII), na França, e Leopold Sacher-Masoch (séc. XIX), na Áustria, com o seu seminal e auto-biográfico Venus das Peles, onde se lançam as bases do sadomasoquismo moderno.
Um pouco mais tarde surge outra bíblia do erotismo literário, na Inglaterra: Fanny Hill, de John Cleland e já em finais do século XIX, Oscar Wilde apresenta o seu Retrato de Dorian Gray, que causou grande furor na moralidade vigente. Estas breves referências constituem passos firmes e hirtos em direcção ao processo de massificação da pornografia hoje em vigor. O cinema, a imagem em movimento, veio revolucionar também esta realidade, principalmente a partir da liberalização cultural, social e económica dos pós-guerra, nos anos 50 e 60 do século XX, começando a impor-se, designada e principalmente nos Estados Unidos, onde na literatura pontuavam gajos como o Henry Miller, e onde surgem maravilhas como as casas de strip-tease, as sex-shops, as revistas Playboy, Penthouse ou Hustler. Na Europa surgem fenómenos literários como as novelas do filósofo perverso George Battaille, e as suas histórias do olho (que curiosamente só viram a luz do dia porque o autor foi convencido a isso pelo psicanalista) ou as caralhadas poéticas de esgalhados como Mário Cesariny ou Luiz Pacheco.
Quanto à pornografia, pura e dura, sem alguém a pensar pelo meio, só a partir dos anos sessenta se pode começar a historiar. No contexto europeu, a partir de finais dessa década, é fundamental o papel dos países escandinavos no desenvolvimento desta indústria, onde pontuaram nomes como o realizador de origem italiana Lasse Braunto (pseudónimo de Albert Ferro), na Dinamarca, que aprofundou temas como a vida sexual dos Vikings e a penetração anal («Deep Arse»), ou um ex-vendedor de carros, Berth Milton, na Suécia, que em 1965 lançou a «Private Magazine», a primeira revista do mundo que publicou, legalmente, uma penetração explicita. Depois a rapaziada não precisa de desenhos, e conhece bem a carreira de mulheres como Traci Lords, que ainda antes de fazer 18 anos já cobrava um milhão por fita, produzia, escrevia e financiava os seus projectos ou, na Europa, Cicciolina que popularizoo fungagá da bicharada. Os filmes caseiros, a indústria e as produções manhosas mas arrojadas, a revolução do vídeo, a internet, o cabo e o satélite, a tecnologia de pirataria, conferiram outra dimensão ao universo da pornografia e hoje O Banquete é uma história da carochinha. Mas o menir continua a ser um calhau em forma de caralho.

13/04/04

Sável, burros, patos, Figo e algo mais

Aqui há uns dias fomos jantar ao «Pátio», no lugar do Cabouco, concelho da Mealhada. O sável com peixinhos da horta estava bom. Vinagre no ponto de desfazer a espinha, bem frito. Comemos ainda raia frita e grelhada, cabrito assado no forno e uns bifes de vaca. Tudo bem regado. Embora não sendo uma prova oficial, concordámos que o melhor vinho foi um Quinta da Dôna 2002. Um excelente Bairrada que não parece Bairrada. Ainda mais este, que eu levei e ao qual o Valdemar da «Dom Vinho» acrescentou um «CC». Explicou que a coisa era oficiosa e servia para identificar um lote que foi submetido a um tratamento especial pelo novo proprietário da marca cujo nome, Carlos Campolargo ou coisa que o valha, ele abreviou no monograma. Recomenda-se o restaurante, o vinho e a loja de vinhos.
Serviu o jantar para que a malta do Benfica - Mangas, JP e Nini - saldasse a dívida contraída à malta portista - Grunfo e eu - e ao Pilas, um academista sem outra preferência mas que não é burro. Estávamos todos felizes e uma das razões era justamente o facto de não haver burros. Mas havia patos. Refiro-me aos confrades que apostaram que o Benfica passaria a eliminatória do Inter de Milão. Foderam-se, claro. Perderam a aposta e pagaram o jantar e, ainda por cima, voltaram a apostar para o final da Taça de Portugal. Lá terá que ser....
Um dos temas discutidos foi o futebol. E aqui, temos que falar do Vaice. O Vaice não é burro. É até brilhante em muitas matérias: filosofia, arte, música, vinho, cinema, literatura. O Vaice fala sobre tudo com cabimento e sabedoria. Quando não sabe ouve. É um regalo lê-lo, ouvi-lo, falar com ele. O Vaice é culto, inteligente, bom conversador, fala bem, escreve bem, enfim, está acima da média. E é excatamente isso que torna as coisas surpreendentes e enigmáticas. Deve ser um sindroma ou qualquer coisa esquisita. Um fenómeno, um enigma, algo de absolutamente intrigante e inexplicável. Eu já pensei se o gajo não terá dado uma queda quando era pequeno. Sei lá, a mãe distraiu-se, o Vaice escorregou da banheira e acertou com a secção inferior do parietal direito na borda da sanita, ficando irremediavelmente afectada a zona cerebral que controla os assuntos futebolísticos. Ou isso ou um mosquito, ou qualquer coisa que comeu. Não sei o quê, mas alguma coisa o gajo tem. Se eu fosse médico de família fazia-lhe um TAC. O caso é o seguinte: como é que um gajo inteligente como o Vaice pode ser tão idiota no que toca às coisas do futebol. É que o gajo não vê um boi de bola. Nada, zero, rien. E o pior é que está convencido que sabe muito. Isto torna-se desesperante. A amizade que nutrimos por ele impede-nos de, simplesmente, o ignorar. Por outro lado, os atributos que lhe reconhecemos não nos consentem que o deixemos sem resposta. Caímos então na pior das experiências: discutir futebol com ele. É que não dá. É como discutir o Orçamento Geral do Estado com a irmã Lúcia, explicar os Direitos Humanos ao Pol Pot ou levar o Santana Lopes a sério.
O Vaice acha que o actual Real Madrid é a melhor equipa de futebol que ele alguma vez viu e que o Figo está a fazer a melhor época de sempre. O leitor estava à espera de um exemplo, não estava? Ora aí está ele. Agora já acredita? Pois é verdade, foi o Vaice que afirmou isto. Nós ouvimos e não resistimos. Eu discordei e o Vaice mandou-me calar com o poderoso argumento:
- Tu 'tá mas é calado porque tu não vês os jogos, tu não tens Sporttv e não podes falar.
Posso não ter Sporttv mas isso não me retira autoridade para comentar o que se passa no Real Madrid. E o que se passa é o que toda a gente pode ver, desde que queira ver: o Real Madrid não é uma equipa de futebol, é antes um conjunto de superstars galácticas, mimadas e com dinheiro a mais. A «Marca», que não a Sporttv, escrevia que no dia em que foram derrotados pelo Mónaco e afastados da Champions League, as estrelas do Real partiram de avião privado para destinos exóticos. Outros, incluindo Figo, ficaram em Monte Carlo por certo a afogar a tristeza da eliminação em taças de champanhe, caviar, roleta e iates. Alguns dias após, levam três secos do Osasuna no Santiago Bernabéu. Eu não vejo a Sporttv, mas vi os resumos e li os jornais: Casillas frangou, Ronaldo, felizmente para ele, lesionou-se sozinho, Raul não jogou um caralho, Figo andou aos papéis e, coisa rara, teve um comportamento incorrecto, e Beckham não jogou um caralho. Aliás, o que por estes dias se discute são as amantes de Beckham. Se é uma, se são duas, se são mais, se a Posh sabe ou se não sabe e até o pai de uma das pretensas amantes veio falar ao Mundo. E vieram os advogados anunciar que vão processar os jornais. É curioso esta merda: por mais voltas que isto dê vai sempre ter aos advogados. Toda a gente se fode, o Beckham, a mulher encornada, as amantes, o pai da amante, os tablóides, o Real Madrid, o Queiroz, tudo! Tudo menos os advogados, claro. Esses facturam!
Voltando à vaca fria para dizer que a situação vivida no Real Madrid mostra bem que o Real não é uma equipa. Pode o Vaice dizer que o Real é a melhor equipa que já viu. Vale-nos de pouco isso, e, de tamanho disparate, só se pode retirar uma de duas: ou viu pouco, ou gosta simplesmente do que vê, seja bom ou seja mau, gosta sempre. Eu por mim fico imensamente satisfeito pelo colapso do Real. Nada me move contra o Real, apenas que o colapso prova que uma equipa não se faz coleccionando superstars. Se assim fosse, fazia-se um campeonato com o Abramovich, o Florentino e os outros capitalistas dos grandes clubes, sentavam-se todos à roda de uma mesa e via-se quem passava o cheque com mais zeros. Tal significaria a aquisição dos melhores jogadores e, automaticamente, a conquista dos títulos. Felizmente não é assim, e é por isso que o futebol é um jogo bonito. Nas meias-finais da Champions temos três equipas modestas, de bairro: os parolos do cabo da morte da Coruña, até há poucos anos desconhecidos e desprezados na Europa e sobretudo na própria Espanha, os do Mónaco e os do Porto. Não há cá Milan, nem Real, nem Arsenal, Marselha, Juventus, Bayern, Manchester, etc. É por isso que eu gosto muito de futebol. E não me venham dizer que esta é uma das melhores épocas de sempre do Figo. Não é, claro que não é. E não é só porque agora foram afastados de todas as competições. Já não era antes. Os adeptos e a imprensa, há já muito que, respeitando embora o Figo e tendo-o em altíssima consideração, faziam notar o seu cansaço, apatia, desinteresse, saturação. Coisa própria de quem já atingiu o cume, não tem mais motivação e espera apenas o momento para sair. Só não percebeu isto quem se agarra à Sporttv e aos comentários dos analistas lusos. Quem percebe de futebol já notara que os anos de ouro do Figo foram em Barcelona e quem, para além de perceber, gosta de futebol, acha bem que o futebol seja um jogo. Pois se o não fosse, seria necessária a intervenção divina para que o David fodesse o Golias. Como é um jogo, substitui-se a intervenção da Divina Providência pela casualidade e, principalmente, acredita-se na vitória dos pequenos pelo uso da determinação contra o ócio e apatia dos poderosos. Um Benfiquista jamais entenderá isto, pois a mentalidade benfiquista é hegemónica e totalitária. Em tese, consumar-se-á plenamente no dia em que não tiver oposição. Tal se supõe na estratégia galáctica do Real Madrid também: dominar imperialmente sobre tudo e sobre todos. Ser do Porto, rejubilar com o colapso do Real, não idolatrar nem Figos nem Beckhams são diferentes facetas daqueles que se realizam não na hegemonia mas na negação da tirania do domínio absoluto.

01/04/04

LINDA BOREMAN, por MenteContusa

Acedendo ao pedido das várias familias – gótika, semiótika e palavrótika – aqui vai um ensaiozinho porno duro. Às Almas perdidas que por aqui erram, fica o aviso: “perdei toda a esperança, vós que entrais, que para lá destas portas é só perdição e maldição. Arredai e vão ler o Pipi!”.
Não é fácil porno-ensaiar, que a matéria é extensa e difícil de pegar. Como que pegajosa, mas enfim, o serviço é porco, mas alguém tem que o fazer. Dada a extensão da matéria, alguns posts futuros se seguirão concerteza, pelo que seria de uma extrema deselegância desrespeitar a história e os mitos. Assim, este post vai-se debruçar para já sobre a antiguidade clássica.
Ora meter as mãos no porco, digo, no porno, implica começar pela primeira Super Star da história da coisa: A Linda Boreman. Pois já sabia, ninguém conhece! E que tal Linda Lovelace ou Garganta Funda. Pois, já vi que arregalaram os olhos. A linda também. Arregalava tudo. Esta cachopa foi uma pedrada no charco do porno. Um poço sem fundo. O argumento do Deep Throat é uma idiotice completa – dizer isto do porno é uma La Palissada, mas este era especialmente idiota – uma vez que assentava no facto de a estrela não poder gozar normalmente porque tinha o clítoris (o único órgão do corpo humano exclusivamente dedicado ao prazer) no fundo da garganta, daí que tinha de engolir a coisa toda até ao fundo para poder gozar. E a boa da Linda engolia tudo, até o John Holmes e até ao fim. Hoje a habilidade é comum e muitas o fazem, mas naquele tempo era uma lança em áfrica, isto é, uma lança no estômago.
O mais engraçado é que a lindinha até nem fez muito pela vida. Filmou apenas cinco horas de porno, mas dessas cinco, uma era de Deep Throat e esse filme fez dela uma Super Star, a primeira do cine porno, e conseguiu colocar toda a gente, mas literalmente toda a gente a ir ao cinema. Às escondidas, mas iam. Em 1972, ano da estreia, 10.000 milhões de americanos viram o filme. Por cá em 1974, o MFA interrompeu plenários para ir ver uma sessãozinha. Frank Sinatra diz que aprendeu muito e até um Vice Presidente americano confessou que o viu. O Clinton não viu de certeza ou não andava a estragar charutos. O filme foi um fenómeno completo. São 64 minutos, sim 64 e não 69, filmados em seis dias em New York e Miami, com um custo de 23.000 dólares. Rendeu 600 milhões de dólares. Sensivelmente o mesmo em Euros. Para quem não sabe fazer contas e a ver se alguém se entusiasma, qualquer coisa como 120 milhões de contos. Para um custo de 4.000 contos, não está mal. A esforçada da Lovelace é que não viu muito disto, até porque os financiadores era pessoal da Máfia Nova Iorquina. Em 1973, um Juíz de Nova Iorque, Joel Tyler sentenciou o filme como “obsceno” – observador o rapaz - e declarou que “aquela era uma garganta que merecia ser cortada” (um porco imundo este juíz) e multou os exibidores em 3.000 milhões de dólares. Mais rendeu a coisa. Nada como o perfume do escândalo e da proibição para a coisa render. Nisso os americanos nunca aprendem.
Mas em 1980, a Lindinha autobiografou-se e veio rejeitar o filme e renegar a coisa. Diz que aquilo que víamos era uma violação. Se era, estava muito bem feita. Disse que só fez o filme e os outros seguintes, obrigada pelo chulo do marido. Não esclareceu sobre os softs a seguir nem sobre os stags anteriores (bicharada, e fiquemos por aqui).
E a Deep Blue tornou-se então porta-voz do lobby americano anti-pornografia, o terceiro mais poderoso depois da National Riffle Association e dos produtores de Leite da American Milf, digo, American Milk. O arrependimento da Lovelace fez surgir o novel “The Lovelace Syndrom”, doença que depois também atacou com força a Samantha Fox.
Foxe como fosse, certo é que a Linda lhe deu com força, arrependida ou não. Em 2002, bored with all the shit, a Boreman espatifou-se de carro. Foi-se.
Deus lhe dê descanso, a ela e às amígdalas dela, que bem precisam.

31/03/04

"OLÉ TUS COJONES !"
EL TORO DE OSBORNE, por AlquimistaDaDor

O animal vê-se de longe, de muito longe. Sempre ao cimo de um monte, sempre a abarcar a plenitude do horizonte. O bicho é altivo, soberbo, um miúra de força e pujança. Um toiro de colhões salientes e bem salientes. Um Toro de Cojones, de raça. Na planície que galgamos, o Osborne cresce para nós e investe destemido. A negra e colossal presença é enigmática e ofuscante. Um colosso de 14 metros de altura e 4.000 kg de chapa negra. Politicamente incorrecto, quer pela cornadura publicitária e arrogante, quer pelos cojones avantajados. Não tem olhos, mas enfrenta-nos com o olhar mais poderoso de que há memória. Um caso feliz de síntese entre o ícone publicitário e o sentir das gentes de españa.
Estou a falar obviamente dos 91 "El Toro de Osborne" que estão plantados ao longo de toda a tierra de nuestros hermanos. Passamos por eles a alta velocidade e muitas vezes não pensamos sequer na renhida luta que o Toro teve que travar para ali estar a pastar. Belo, belíssimo. Poderoso e misterioso.
El Toro Osborne viu a luz em 1957, como suporte publicitário do brandy espanhol Veterano, do grupo de bebidas Osborne, que faz brandys, jerez, faz uma marca do nosso vinho do porto e há pouco tempo comprou também a marca de presunto pata negra Sanchez Romero Carvajal, de Jabugo. Um mimo, mas larguemos o pata negra para outra altura, que hoje é só toiro.
A partir de 1957 a Osborne espalhou os toros por toda la españa e a manada engordou até aos 91 exemplares.
Ao início El Toro não era todo negro, mas a negritude vinha a caminho. O animal magnífico tinha pintado no corpanzil as referências ao brandy Veterano e à Osborne.
Mas El Gobierno, essa besta infame, veio em 1988, com a Ley General de Carreteras ordenar a eliminação de toda a presença publicitária en las carreteras e fuera de los tramos urbanos.
El Toro tremeu, mas não caiu. A Osborne vai de pincel e tinta e zás, pintou de negro toda a manada, apagando os vermelhos das referências publicitárias. Logo nesse cerco, sucumbiu a restante zoologia estradal. Mas o animal magnífico, agora pleno de negritude e mistério, aguentou-se.
Mas a besta infame voltou à carga e em 1994, el Gobierno (hay Gobierno? soy contra!) mandou publicar el Regulamento General de Carreteras que veio apertar a malha e ordenar a eliminação de toda a manada. El Toro era claramente o visado nesta ley de perfídia.
Mas já era tarde. El Gobierno descuidou-se. Já eram muitos os anos de presença do animal magnífico pelas carreteras hermosas. Nuestros hermanos, ao fim de 37 anos de lide tinham-se afionado à presença do miúra. Já não era uma marca, um brandy, mas sim um compadre! Era Espanha, OLÉ! Com Cojones e tudo. E la gente d`españa, d`afició (em valenciano no original!) com los cojones en su sitio, gritou "OLÉ TUS COJONES !". Povão e classe artística partiu em defesa da manada. Houve petições, manifestações, lutas de rádio e tv e a coisa chegou aos média internacionais e ao Tribunal Supremo.
El Gobierno acagaçou-se, que diabo era só um Toro e nem sequer votava, e suspendeu a morte da manada, a aguardar a decisão do Supremo.
E el Tribunal Supremo, outros toros de cojones, vieram a criar o que hoje é conhecido como "El Indulto D`El Toro", criando uma excepção à Ley e determinando que o Osborne "tinha superado o inicial sentido publicitário e tinha-se integrado na paisagem"
A manada salvou-se a afirmou-se como símbolo de toda a Espanha. Mas também permanece como imagem de marca da Osborne, cumprindo assim o sonho de qualquer publicitário, de transformar em mito reconhecível por todos o logotipo do produto.
Hoje, El Toro aí está como símbolo das gentes de Espanha, afirmando-se mais do que tudo, como um traço de união de um embrião de nação, que a Espanha ainda não é. Não são nação ainda, mas têm Toros e Toros de Cojones.

"Ólha pai, ólha ali outro, estes gajos que falam mal, gostam mesmo de toros pai, não é?"