24/03/08

Cinema e Política - II, por Mangas

Robert Rossen escreveu argumentos, foi produtor, chegou a estar na lista negra do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas em pleno McCarthismo, primeiro negou, depois bufou para salvar a pele. Fiquemo-nos por aqui. Como ponto alto da sua carreira de realizador, adaptou ao cinema o livro de Robert Penn Warren, All The King`s Men (Prémio Pulitzer, 1946). O romance é inspirado na vida e obra de Huey P. Long que foi comparado por Roosevelt a Hitler e Mussolini. Em privado, Roosevelt terá até confidenciado que a par do General MacArthur, considerava Long um dos dois homens mais perigosos da América. Foi Governador do Louisiana entre 1928-1932 e Senador entre 1932-35 e deixou um legado para a História no Estado que o viu nascer para política. Morreu assassinado com chumbo à queima-roupa em 1935 por um dos muito inimigos que criou durante esse trajecto.

O Poder da Corrupção (Oscar Melhor Filme, 1949), é um filme inteligente, com diálogos perspicazes e raros momentos acusatórios que descerram o pano sob as mil máscaras da mentira, da revelação, da esperança, da traição, da queda, e da subjugação. Ali se contam duas histórias centrais, dois protagonistas cujos destinos dependem intrinsecamente um do outro – a ascensão e queda de Willie Starks (interpretação genial que valeu também a estatueta a Broderick Crawford), e a jornada de Jack Burden, o jornalista, pelas vicissitudes da ilusão e do engano em busca de si mesmo, do seu lugar neste mundo.

Nesta altura importa trazer à lembrança Mr. Smith Goes to Washigton e dele recuperar Jim Taylor, o homem-sombra que mexe as cordas nos bastidores da política e que efectivamente é quem detém o poder, ordenando segundo as suas conveniências a decisão política dos Senadores eleitos pelo povo. Em O Poder da Corrupção, é Tiny Duffy quem dirige a orquestra, nomeia os cargos, impõe pela força ou pelo dinheiro as local politics. Todavia, e contrariamente a Mr. Smith Goes to Washington, no filme de Rossen a desintegração deste processo nunca é posta em risco, pelo contrário, cristaliza-se na prepotência ditatorial de Willie Starks quando é eleito Governador do Estado – apercebendo-se que vai ser um candidato fantoche, carne para canhão na dispersão de votos, decide atacar, trocar as voltas ao discurso e falar à consciência dos homens lembrando-lhes a penúria nos bolsos. Uma vez eleito, e fazendo recurso à chantagem e golpadas selectivas, Starks nunca olhou a meios para atingir os fins e nunca se escondeu de negociar com o Diabo. Do Mal vem o Bem, justificará. Mas dele nunca se poderá dizer que foi um homem incapaz de cumprir promessas. Sangrou as bolsas dos ricos, construiu estradas, libertou os custos de produção dos agricultores, edificou pontes e hospitais, varreu o Estado com medidas de desenvolvimento e reformou o sistema pela centralização do poder na sua pessoa, pelo branqueamento de capitais, pela compra de amigos e adversários que, sem escrúpulos e hesitações, transformou em inimigos. Fascinante percurso o deste campónio iletrado que se agarrou ao curso de Direito por correspondência e alcançou o diploma de chico-esperto Governador Todo-Poderoso.

O lugar de Jack Burden na trama do filme é de uma relevância central, quer como narrador e catalisador da trajectória fulgurante de Starks, quer na relação que estabelece entre dois mundos, duas classes sociais diametralmente opostas: as sua origens na nobre tradição do smoking ao jantar em Burden`s Landing onde vivia uma sonata imperfeita, e as ruas empoeiradas de Kanoma City esquecida nas entranhas do Sul profundo. O cordão umbilical e a crueza da privação. A ilha isolada e os pecados dos homens. Como ponte estes dois universos, Burden modifica-os e abala as suas estruturas de forma inequívoca, muitas vezes ultrapassado pelo evoluir das circunstâncias. Essa revisitação do passado/presente em Burdens Landing, essa fuga para um mundo ao qual pertencia por afinidade, mas com o qual já não se identificava, terá os dias contados. A seu tempo chegará a destruição dessa Camelot com o suicídio do Juiz e, com ele, Burden terá a percepção clara que o retorno é irreversível. Brutal. Drama em estado puro. Filmado a várias vozes e à dimensão trágica de preço alto que ambos tiveram de pagar. Nada voltará a ser como dantes. Para o bem e para o mal, Starks será o cordeiro sacrificial que irá consumar a revolta dos oprimidos e instituir o absolutismo, Jack Burden foi o instrumento que lhe deu voz e que no final, perdeu Ann a amada que também não resistiu ao magnetismo de Starks com o qual se enrolou em políticas de alcova.

À semelhança de outros lideres, a suspeição do quanto este poderia trilhar terrenos pantanosos foi-nos logo sugerida no plano de abertura do filme que mostra o meio corpo de um personagem de costas, a discursar sem voz num palanque para a multidão. Três pormenores se retiram deste momento fascista e que provam como uma imagem em cinema estruturado consegue alcançar a mais eloquente expressão dos sentidos e do drama que se anuncia: os gestos, o transe e o fogo que arde em cada palavra, em cada expressão atirada à chusma incendiada: Starks conhecia-lhes de cor a linguagem pois era um deles. E tal como com Lincoln, também a morte acompanha o seu trajecto – sortilégio retorcido pois desta vez é a morte de crianças pelo desmoronar da Escola que lhe dará o impulso e a notoriedade que precisava. Repare-se nos seus olhos surpresos e agraciados no momento do funeral quando é felicitado pelo esforço que fez em embargar a construção da Escola o que teria evitado a tragédia - não há ali luto nem pesar, há ali oportunidade vislumbrada! E é esta subtileza encoberta que nos remete para o homem: Willie Starks era genuinamente um homem que não prestava. O próprio pai lho dirá a certa altura. Pela colagem do personagem ao verdadeiro Huey P. Long no qual é baseado, poder-se-ia estabelecer uma discussão dos princípios morais e questionar Rousseau sobre o estado de natureza e a corrupção através da sociedade. Em O Poder da Corrupção a duvida subsistirá sempre: tirano para uns, Messias para outros, salvador ou carrasco, déspota ou homem do povo, Willie Starks foi um homem que reinou, que podia ter chegado a Presidente e acabou assassinado às mãos da vingança e do ódio que sempre fabricou. They say he is a honest man. O ciclo completa-se. A fábula, porém, mantém-se contemporânea.

23/03/08

Um Livro :Phillip Roth – Todo o Mundo, por Conselheiro Acácio

É um livro sobre a obsolescência do corpo, sobre a decadência física, a solidão, a velhice e a presença constante e concreta da morte. Roth dá-nos páginas e páginas de reflexões feitas pela personagem principal, um homem de 70 anos, acerca do incómodo que é usar pacemakers, do risco de usar medicamentos que tiram a dor insuportável mas que podem provocar um AVC, de como é triste ver a vida a passar, sentir que nascemos para viver e que, contudo, morremos… Como é possível que eu tenha gostado de um livro como este? E no entanto gostei. Gostei mesmo muito…

Espanha - 14 000 - Portugal - 0, por Santa Joana

Hoje, às 2.30, para variar, lá estávamos nós todos a beber o café no Ranhoso. Passámos a agenda da semana a pente fino e o tema do dia foi, obviamente, a agressão da jovem aluna grande e bruta à desgraçada de uma professora pequenina e indefesa. Nuestro hermano, o D. Mau, já vinha preparado e trazia uma notícia do El País lá deles. Em Sevilha, num caso semelhante a este, um tribunal condenou os pais de um estudante agressor de um colega a pagar 14 000 euros de multa. Eu repito de uma forma minimalista para se perceber bem: um caso de agressão de um aluno a um colega em espanha deu 14 000 - catorze mil - euros de multa aos pais do agressor! 14 000!!!

Entretanto, por cá, o valter - marco- paulo- lemos e a sinistra ministra da educação continuam a achar que a agressão na Escola carolina Michaelis a uma professora é só um caso excepcional. Não é: o you tube está cheio de vídeos semelhentes. Este blog, por exemplo, chega mesmo a fazer uma singela compilação destas atrocidades, aqui http://democraciaemportugal.blogspot.com/. Agressões como esta são apenas a pequeníssima parte visível de um tenebroso iceberg. As estatísticas tão queridas deste governo de pseudo-cientistas dizem tudo: no último ano houve 185 agressões a professores! 185 denunciadas, porque as que nem chegam a saber-se - por medo ou por vergonha dos profs completamente desprotegidos por uma legislação elaborada, sem dúvida, por palermas que devem ter armado em jovens irreverrentes quando andaram na escola sem se aperceberem que os tempos, agora, são outros - as que nem chegam a saber-se, dizia, serão concerteza muitas mais. Ora, num ano lectivo de 180 dias, temos mais que uma agressão em média por dia! Mas a sinistra ministra e sus valteres de estimação acham isto «normal» e «irrelevante» e preferem denegrir e desproteger os safardanas dos professores, o que é muito mais fácil, muito mais barato e, sobretudo, dá muitos votos num país que cultiva o ódio psicanalítico ao prof.

Só para se ter uma ideia do ponto a que isto chegou neste país da treta, basta pensar-se que a medida mais grave de coacção prevista pela actual legislação para casos deste género é a... mudança de escola!!! O menino agride o prof? Geralmente não acontece nada ou, quando acontece, o menino leva com o preenchimento de umas fichas de auto-formação elaboradas pelo professor-vítima ou vai fazer um trabalho de auto-educação para a biblioteca, etc, etc. Quando o assunto rebenta na comunicação como, excepcionalmente, foi este caso, é provável - apenas provável - que a menina ou menino sejam obrigados a mudar de escola! É de estarrecer ou não é? Entretanto o prof que ature o próximo energúmeno e aguente a humilhação porque passou junto da turma que lá fica... Edificante! Ganda Sinistra! Ganda valter! Ganda Pedreira! Ganda Socas! É em frente, é malhar-lhes...

Volto à notícia do El País que o nosso amigo espanhol brandia hoje no Ranhoso como se fosse - e é - um estandarte do desenvolvimento cívico do seu povo. Em Portugal um aluno agride uma professora e a culpa é dos professores; em Espanha um aluno agride um colega e responsabilizam-se os pais do aluno. É por estas e por outras que eles estão 20 anos à nossa frente. É por isso que eles são um povo verdadeiramente desenvolvido e nós não passamos de uma nação raptada, refém de uma chusma de iletrados que são indignos do enorme lastro histórico do nosso país. E é nestas alturas que eu penso, com uma imensa tristeza é certo, que deve ser muito bom ser Espanhol...

20/03/08

As Música do Porco - Discos que já Ninguém Ouve Mas que São Excelentes, por Juke Box

Ginno Vanelli – A Pauper in Paradise. Vannelli é quase piroso em certas músicas. Mas A Pauper in Paradise com uma Face A orquestral e uma Face B Pop concilia, como poucos, o erudito e o popular. E aquela maneira de cantar, talvez demasiado personalizada e teatral, é um traço afirmativo deste cantor italiano de formação clássica. Gosta-se ou detesta-se. Este é o disco de Surest Things Can Change, banda sonora das minhas conversas mais pessimistas com o A.C..

18/03/08

We Could Be Heroes, por Peter Parker

Já se tem defendido aqui no Porco que a Série Televisiva é um novo género artístico. Assim como a fotografia, o cinema ou a Banda Desenhada tiveram que lutar para serem considerados géneros artísticos por excelência, não hão-de vir longe os tempos em que à Série televisiva também será reconhecido idêntico estatuto. Há entre nós verdadeiros cultores do género, o mais eminente dos quais, o nosso Grão. Ele é assim como que uma espécie de xamã que vai adivinhando o que de mais importante acontece neste mundo, para depois nos passar a Palavra (e não só – geralmente, a Palavra vem acompanhada de um amável dvd com os episódios para gáudio dos fiéis).

Há entre nós fãs das mais variadas séries: o Mangas continua a falar de Reviver o Passado em Bridshead como uma peça sagrada; O Grão é um incondicional dos Sopranos, de Seinfeld, do mais recente Dexter e da Maya a mítica personagem do Espaço 1999 que tinha o mais espantoso poder que já alguma vez foi concebido por qualquer tarado… Temos um consumidor do House em versão cassete pirata, e incondicionais de Star Treck, de Easy Larry e de The Sex and the City.

Pois bem, recentemente, descobri a nova coqueluche, o case study mundial e objecto de culto de metade da população civilizada do globo – Heroes (só para se ter uma ideia veja-se este blog brasileiro, um entre milhares, inteiramente dedicado à série: http://heroesbrasil.blogspot.com/). Pára tudo – Heroes é a série mais genial de todos os tempos! Tenho cá em casa as 18 horas correspondentes à 1ª temporada e confirmo a sua absoluta genialidade. O difícil é parar de ver, aquilo torna-se um vício pior que a droga e substitui a própria vida real. Durante uns tempo julguei que cada episódio demorava apenas meia hora. Recentemente fui chamado à atenção – dura 50 minutos e eu estava a ver aos 3 e 4 episódios por noite!

Tim Kring é o autor da série que estreou na NBC no dia 25 de Setembro de 2006 e conta com o imenso Stan Lee entre os seus colaboradores. Génesis, o primeiro episódio, parte da intuição darwiniana: o destino das espécies é a evolução. As mais poderosas são as que sobrevivem e o processo de selecção natural não está concluído, mas é um processo dinâmico. Temos tendência a pensar que a espécie humana é um produto definitivo, mas realmente não é assim. Nenhuma é. A nossa espécie continua a desenvolver-se e há já entre nós humanos que desenvolveram capacidades e poderes que mal podemos imaginar. Mas essa nova vaga de super-homens pode tornar-se um perigo e há uma estranha organização, assim como vários personagens (Sylar, Mr Lindermann e mais alguns outros) que tentam acabar com eles, ou para lhes absorver os poderes ou por razões que ainda não descortinei totalmente, pelo menos, depois de ter passado cerca de 16 horas a ver os episódios até hoje. A missão destes heróis é muito simples: salvar o mundo.

O universo de referência de tudo isto é a BD. Muitos destas personagens são alter-egos dos clássicos da Marvel, da DC Comics e da ficção científica em geral: Jessica/Niki é, no fundo, o esquizofrénico Hulk; Claire é Plastic-Man; há o Homem-Invisível; Flash; o Tocha Humana em versão nuclear; há pré-cogs extraídos directamente do universo SCI-Fi de Phillip Dick; Tele-cinésicos que remetem para Matrix; há um telepata que ouve os pensamentos, há poderes de Super-Man à solta, dispersos por vários personagens (super-audição, super-velocidade, capacidade de controlar o fluxo espacio-temporal, etc), enfim, Heroes sintetiza décadas e décadas do melhor que as culturas Comics e Science-Fiction conseguiram criar.

A própria estrutura narrativa segue o esquema das primeiras tiras publicadas nos jornais de origem da Banda Desenhada. Cada episódio começa com uma reconstituição dos anteriores, no estilo mais puro e redundante do velho Lee Falk, o criador de Mandrake, e de Fantasma. Mas à medida que os episódios se acumulam torna-se tudo num complicado puzzle cujas peças vamos conseguindo juntar, a pouco e pouco. Quem chegar a meio depara-se com um enredo intricado e pode até ter alguma dificuldade em ligar todas as pistas que vão surgindo. Só para se ter uma ideia: na série o fluxo temporal não é respeitado e os personagens lutam entre si em tempos diferentes. Podemos estar a ver um episódio em que Ando está no futuro, apesar de sabermos que ele já morreu no passado; podemos assistir à morte em directo de Mendez às mãos de Sylar, no entanto no episódio seguinte ele volta a aparecer no passado, quando ainda estava vivo. E dá-se até o caso de Hiro se encontrar com ele próprio no futuro, passando o seu ego-futuro a colaborar directamente com o seu ego-passado. Em Heroes não sabemos, sequer, exactamente, quem são os principais vilões e os próprios personagens podem ter um papel positivo num determinado segmento temporal – como Parkman no presente – e negativo noutro – como o mesmo Parkman no futuro. Confusos? Ainda não viram nada… Depois de gramarem com as 18 horas (só me faltam duas) correspondentes à primeira temporada, garanto-vos que nunca mais conseguirão olhar para um estranho sem desconfiarem que tipo de poder especial é que ele possui. Ainda me falta toda a segunda e a terceira temporada que, há quem garanta, são ainda melhores que a primeira. Não acredito - se for verdade, ainda me vou tornar no Homem da Noite...

14/03/08

A Cidade - I, por Mangas


Um homem caminha na direcção do cais, a mão direita no bolso do casaco, a esquerda segura três balões presos por fios uns palmos acima da cabeça. Está um chinês sentado junto à margem com um macaco nos ombros. O macaco come diospiros. Nunca vi nenhum chinês usar óculos quadrados. São sempre redondos como os diospiros.

Matulões escanzelados que vendem recuerdos aldrabados, sorvetes remelosos, cadeiras ao sol, mercenários armados de Ray-Ban modelo aviador-sem-asas. Domingo à tarde no parque com as famílias são convenientes para sacudir o jejum dos sapatos. Perseguem os putos divertidos fingindo que são monstros quando passam o resto da semana a fingir que o não são. Um negro infectado por um trompete murmura o voo das aves migratórias quando sopra. Delicadas improvisações de mágoa e furor. A minha missão é traduzir esses acordes para decifrar o silêncio que pressinto em meu redor, em redor das gentes cujas paixões os fragiliza e faz deles criaturas nuas e crentes. Abrir as portas do sol, é incitar as formigas a rastejar.

Um tipo a cair de bêbado aproxima-se do pontão sobre o oceano e começa a mijar. Explica em voz alta que mija para as cinzas da mulher que foram lançadas ao mar. É como se mijasse para a sua campa. Solta uma gargalhada. Sai dali, move-se entre os passos e o bar mais próximo. Se lhe meterem um pepino nas mãos, transforma-se em pickle.

Um fio dourado de luz reflecte o castanho das árvores abandonadas. Algumas andorinhas sobre as quais o Zeca Afonso tropeça os olhos como no voo de uma gaivota. Há uma harmonia superior e imprevisível no meio disto tudo que me aplaca o cinismo. Aproximo-me do tipo dos balões e proponho-lhe comprar um. Que não. Que o perdoasse, mas não estavam à venda. Confessou-me que os segurava apenas para que o mantivessem de pé, na vertical.

Eu também nunca disse que não acreditava em Deus. Acredito apenas que Ele não existe, nem nunca existiu. Esta deve ser a minha confissão, mas eu não peço perdão.
Foto: Rodney Smith

13/03/08

O Emblema!, por Boca Aberta

Enquanto o sinistro governo do Ingenheiro está a ser acossado por todos os lados, o principal partido da oposição está entretido a discutir... o emblema. Primeiro houve bronca no PSD por causa de uma questão de pagamento de cotas que ninguém percebe. Não contentes deicidiram inventar mais uma magna questão que está a preocupar o país: se o emblema deve ter uma, duas ou três setas, se as mesmas devem ser cor de laranja ou azuis, magras ou gordas! Fónix, peçam emprestado o emblema ao Benfica, carago! Com 6 milhões de adeptos deixava de haver discussões e tínhamos oposição ao governo. Digo eu...

11/03/08

Evolução das Explicações Dadas Pelo Governo Acerca da Contestação dos Professores, por Telescópio Hubble

No princípio, vivia o sr. Ingenheiro o seu estado de graça e ainda podia fazer tudo o que entendesse que não se ouvia um ai na comunicação social, a estratégia ainda podia ser a da negação. Total, despudorada e absoluta: «Não existe contestação», dizia, então, o valter, curiosamente agora muito caladito...

Depois começou-se a perceber que sim, que existia, que até havia gente a fazer barulho quando o Ingenheiro ou a Sinistra Ministra apareciam, por acaso, numa escola. E a explicação mudou: «Afinal existe contestação. Mas são uma minoria; a maioria dos professores está connosco e apoia a política de educação do ministério.»

Mas as coisas tornaram-se cada vez mais feias. E a versão mudou para: «A contestação existe mas não passam de sindicalistas.»

Infelizmente para o governo começou a ser demasiado claro que era cada vez mais gente a contestar, para serem só sindicalistas. E seguiu a nova versão, Forças do Demo Alargadas: «São os comunistas…» Cruzes credo, t`arrenego Satanás!

Até que a coisa se tornou tão óbvia, mas mesmo tão óbvia, foram tantos e tantos milhares a protestar que já nem a Sinistra Ministra conseguia negar que tinha os professores unidos contra ela, contra o seu ministério e contra o governo do Ingenheiro. E disse a senhora: «Tá bem. A maioria dos profes está contra nós. Mas é porque estão mal informados…» Pasme-se: agora os profs estão mal informados, haja Deus! E concluiu com chave de ouro: «Se fosse prof não sei se não estava lá também…»

No sábado levou com 100 mil em cima numa jornada histórica da vida democrática portuguesa. Os pê-esses já não disseram que eram os sindicalistas nem os comunistas. Já não foram capazes de negar que quem ali esteve foi a esmagadora maioria dos profs destes país. Limitaram-se a voltar à estratégia da avestruz e teimam em berrar que não cedem. Este governo mete os pés pelas mãos e já não sabe o que diz em matéria de educação, como nas outras. São fraquinhos e teimosos.

É óbvio que a sinistra ministra não tem qualquer margem para continuar: só lhe resta um caminho, como ao Ingenheiro e a todo o executivo pê-esse: demitam-se, pá! Aquela manif – e as outras todas, já agora – era mesmo pra vocês. Não era pró Camacho que nem precisou de 100 mil na Avenida, chegou-lhe 20 mil no Estádio da Luz.

pic extraído de http://sixhat.net/2008/03/09/marcha-da-indignacao/

06/03/08

Olhares-Voodoo, por Caixa de Óculos

Esta questão deu-me que pensar: quando se faz um retrarto de alguém é mais fácil se conhecemos ou até se seomos amigos dessa pessoa ou se ela é, para nós, um perfeito desconhecido?
Quando se faz um retrato de alguém - que não tem que ser uma foto, pode ser escrever sobre essa pessoa, por exemplo, pode ser filmá-la, etc - o que é que pretendemos? Apanhar-lhe um bocado da alma? A arte do retrato - escrito, falado ou pintado- será uma espécie de sucedâneo do Voodoo? É pelo menos assim que pensa aquela gente dos países africanos ou árabes que não se deixam fotografar. Literalmente, receiam que lhes aprisionemos a alma, que lhes roubemos um pouco deles.


A questão segue esta linha de entendimento, parece-me. É natural que quem conhece muito bem a pessoa fotografada fique com a ideia de que o retrato nunca é fiel, de que a «alma» daquela pessoa nunca está ali naquele bocado de papel. Quando não conhecemos a pessoa retratada essa sensação não existe, simplesmente, porque não temos a sensação de que a conhecemos bem para podermos confrontar a imagem fotográfica com a imagem que temos dessa pessoa. Por isso o retrato de um desconhecido parece-me sempre mais fácil, deste ponto de vista: ela nunca é ensombrado pelo meu «conhecimento» da pessoa. O desconhecido pode ser o cliché, aquela rapariga magra e alta pode ser a Angelina Jolie se eu não a conheço; pelo contrário sei sempre que a minha amiga Antónia não é a AJ, ainda que se possa parecer com ela. Daí a sensação de que a dificuldade é maior quando conhefcemos a pessoa. No fundo o eu-fotógrafo percebo, nese caso, que, ao contrário do que pensam os árabes e os africanos que me fogem da câmara, nunca lhes apanho a alma.


Mas esta questão só seria mais completamente respondida se se pronunciassem os modelos. E eles? Que ideia têm, estão em maior «risco» perante o fotógrafo conhecido ou desconhecido? Eis o que seria interessante saber... Sabemos todos porque já todos fomos e somos fotografados que há uma espécie de pudor em saber que a nossa imagem é pertença de olhos desconhecidos. Não me faz impressão a foto em que pareço um sapo quando ela não sai de um restrito núcleo familiar - eles já sabem que eu sou um sapo, em certos momentos da minha vida, e eu também. Mas se essa foto em que eu sou um sapo sai desse núcleo restrito, esse facto perturba-me, como se essa verdade da minha alma fosse de repente posta a nu perante olhos impuros,como se fosse surpreendido na retrete. A net é um bom exemplo disso: os hi 5 misturam desgraçadamente o registo privado/íntimo com o registo público e o resultado é a sensação de devassa. Os hi 5 Porcas/os exploram essa ambiguidade: a foto que num registo privado e restrito era sexy torna-se, subitamente, ridícula, obscena, quando não pornográfica.

Eis-nos assim chegados à velha questão do olhar: o olhar do outro rouba-nos sempre aquilo que somos, dizia o velho míope Jean-Paul Sartre. Sartre foi o filósofo que melhor tratou este tema. No seu monumental L' Être et le Néant chega a comparar esse terrível poder do olhar alheio ao olhar de Medusa que nenhum ser vivo podia suportar sem ficar petrificado. O Inferno são, pois, os outros, como dizia o filósofo. O inferno não é um mundo de labaredas e monstros inomináveis a torturarem pecadores mas um simples quarto de hotel onde eu estou fechado sem remissão para toda a eternidade com mais algumas pessoas cujo olhar não controlo e que têm o poder de me perscrutar eterna e fatalmente.

05/03/08

And The Winner is..., por Poupas

A lista dos 10 futebolistas mais bem pagos do mundo em 2007 segundo a Futebol Finance é a seguinte:

1.º Kaká (AC Milan) – 750.000€/mês
2.º Ronaldinho Gaúcho (Barcelona) – 741.000€
3.º Frank Lampard (Chelsea) – 680.000€
4.º John Terry (Chelsea) – 680.000€

5.º Fernando Torres (Liverpool) – 660.000€
6.º Andriy Shevchenko (Chelsea) – 650.000€
7.º
Michael Ballack (Chelsea) – 650.000€
8.º Cristiano Ronaldo (Manchester United) – 640.000€ (que com o novo contrato passará para primeiro brevemente)
9.º Therry Henry (Barcelona) – 640.000€
10.º Steven Gerrard (Liverpool) – 640.000€

Nos 50 mais bem pagos entram ainda mais quatro Blues: Drogba (7,3 milhões ano), Essien (5 milhões ano), Joe Cole (4,6 milhões ano ) e Cech (4,3 milhões ano).

Serve esta estatística para recuperar um post que escrevi aqui há uns tempos atrás em que dizia uma coisa muito simples: em função dos brutais investimentos que fazem a equipa de Abramovich descolar, em termos orçamentais, de todos os seus rivais, a passagem no «nosso Zé» Mourinho pelo Chelsea foi um fracasso. Disse e redigo!

Na altura houve malta que se indignou. Agora aí estão os números em toda a sua crueza e esplendor: nos 10 primeiros estão 4-quatro– 4do Chelsea; e nos 50 + estão mais 4. Ou seja, dos titulares apenas 3-três-3 jogadores não estão no top 50 e mesmo assim, penso que por desactualização dos valores do contrato (não esqueçamos que só o Ricardo carvalho quem nem aparece custou 30 milhões).

Voltando ao Top 10 veja-se como só Liverpool e Barcelona repetem dois jogadores cada qual, mais ninguém tem capacidade para meter dois, quanto mais quatro jogadores no top 10. Veja-se como o Real Madrid com uma política exactamente inversa à do Chelsea, reduzindo despesas e sem jogadores no top 10, ganha um título, vai a caminho do segundo e está na Champions. E note-se ainda o exemplo do Arsenal que pratica o melhor futebol actual com uma política correcta de investimento em jogadores jovens. Isso sim: há muita diferença entre ser-se um grande treinador e rentabilizar o dinheiro do clube ou, simplesmente, estoirar os milhões dos outros com resultados medíocres em face do investimento feito.

02/03/08

Cinema e Política - I, por Mangas

Se Nancy Hanks regressasse como um fantasma,
Procurando notícias do que mais amou,
Começaria por perguntar:
“Onde está o meu filho?
O que aconteceu ao Abe?
Que fez ele?
Não sabem do meu filho?
Tornou-se num homem alto?
Divertiu-se?
Aprendeu a ler?
Foi para a cidade?
Sabem o seu nome?
E deu-se bem? “
in, Nancy Hanks, de Rosemary Benet.


Mais do que um manifesto biográfico, Young Mr. Lincoln, (A Grande Esperança, 1939), é a homenagem de Ford a Abraham Lincoln antes de tornar Presidente. O filme não vai trilhar os aspectos amplamente conhecidos do público, mas antes centrar a sua atenção na espinha dorsal de um homem que, a seu tempo, foi primus inter pares, bem como evidenciar todas essas características de personalidade que forjaram o líder: a serenidade e a irreverência, a rectidão e a tolerância, os primeiros passos e o emergente sentido político no compromisso que o jovem advogado assume com a justiça. Lincoln como bastião moral do princípio incontornável de justice for all, definitivamente, o passado embrionário de uma dos maiores mitos da História americana. Um Lincoln que foi também um lambão de tartes de pêssego, um exímio rachador de troncos e um batoteiro no jogo da corda. Apaixonado por livros e pelo Direito, do “…direito sobre a vida, reputação e liberdade...” na referência explicita ao Blackstones Commentaries, Lincoln visto como a luz que aponta o caminho e rasga as trevas da ignorância em seu redor. A interpretação de Henry Fonda é enorme! Na candura do olhar, na transgressão do andar, ou quando se ergue no alpendre, aquele rosto granítico em forma de caveira, as sombras em volta dos olhos, os braços que estorvam à procura de um poiso seguro e, timidamente, coloca na voz o improviso do seu discurso de campanha: “As minhas políticas são breves e doces. Sou a favor de um Banco Nacional, de um sistema interno de melhoramentos e de uma tarifa altamente protectora. São estes os meus sentimentos e os meus princípios políticos. Senão tudo continuará na mesma.”

Em Mr. Smith Goes to Washington, (Peço a Palavra, 1939), Frank Capra desenvolve um brilhante argumento de histórias cruzadas onde mais uma vez, como em tantas outras da sua filmografia, o herói anónimo, o cidadão comum fiel representante dos sonhos e expectativas das grandes massas ganha destaque e se transcende, batendo-se até à exaustão pelo ideal em que acredita. É o Povo e a força das suas convicções que ali jamais serão silenciadas! O filme de Capra é uma obra que toca os extremos da filiação do homem perante o sistema – de um lado da barricada o despojamento altruísta de Jefferson Smith o escuteiro que se põe em sentido na presença do Governador, recolhe miúdos abandonados e gatos vadios e cita Lincoln de cor, e no outro lado, o poder esmagador dos Senadores corrompidos, a ganância dos tubarões de Washington que mexem os cordelinhos na sombra em defesa do establishment, das influências e do proveito pessoal. O Yankee Doodle encontra o Star Spangled Banquet. A colisão será fatal!

Embora muito mais politico do que A Grande Esperança – atente-se à sequência propagandista após a chegada de Smith ao Capitólio onde as palavras são suprimidas e em seu lugar se elevam os símbolos da Nação, da bandeira à águia, da Declaração de Independência ao lugar do imenso Lincoln perpetuado no mármore - as semelhanças formais entre A Grande Esperança e Peço a Palavra são evidentes. É interessante perceber a proveniência comum de Abe Lincoln e Jeff Smith: o meio rural como pasto de valores, impoluto de vícios e corrupção, a formação de caracteres e personalidades alicerçada nos tradicionais valores de honra, justeza e solidariedade. É na América rural, por oposição à grande cidade alienada e escravizada pelo Poder que a sustenta, que as páginas da Constituição ganham forma e chegam mais alto - “that government of the people, by the people, for the people...”. E se por um lado Smith é um pacóvio obstinado, um purista que transporta consigo e contra o Poder instituído, o poder da Razão que faz valer disparando em todas as direcções, o jovem Abraham Lincoln é uma personagem vertical, um corpo erguido pela câmara de Ford a um sentido de elevação esquálida, sem artifícios nem alinhamentos rebuscados. Une-os a mesma inocência, o mesmo acreditar, a mesma convicção na Democracia ou algo semelhante a um estado de pureza ideológica; os mesmos modos de gente do campo, os passos longos, firmes de Lincoln com o tronco inclinado para a frente desafiando a gravidade, ou os malabarismos desconfortáveis de Smith com o chapéu na presença de Susan magistralmente captados à socapa e ao pormenor pela câmara de Capra. Lincoln como defensor dos mais fracos, Smith como defensor das causas perdidas – “ I guess this is just another lost cause, Mr. Paine. All you people don't know about lost causes. Mr. Paine does. He said once they were the only causes worth fighting for.”

O jovem Lincoln interpõe-se à justiça de linchamento que a horda anseia por executar. A recusa de Smith em servir de capacho e lamber as botas do Senador que admira como um pai, é a mais cruel das ironias de um destino que foi escolhido para votar leis e que agora quer fazer aprovar uma. Sobre ambos paira o espectro da morte. A morte física de Lincoln num tempo que ainda está por chegar, (veja-se a profética subida da colina na sequência final do filme, quando caminha de rosto destemido em direcção à tempestade que ameaça o horizonte carregado), e a morte política de Smith pela recusa em mascarar a palavra dada, a palavra pedida.

Ford, o republicano e Capra, o democrata, evocam a memória e a natureza do homem num registo apartidário da sétima arte. Independentemente de todos as linhas condutoras em que se move, Peço a Palavra é na sua génese o clássico confronto do Bem contra o Mal elevado à dimensão política de uma Nação comprometida, mas desperta. A Grande Esperança é como um rendilhado solto de sucessivos momentos a tocar a perfeição. De subtilezas e lampejos de enorme beleza, de uma contemplação inesgotável. Não me arriscaria a dizer em que estilo ou género se enquadra. O biográfico e o ficcional são por demais evidentes, o humor e a tragédia estão sempre presentes, o drama e as grandes sequências de tribunal conferem-lhe uma marca de água única. Perceba-se uma coisa: para mim o cinema é sobre contar histórias. Câmara, fotografia e direcção artística são outro assunto. Hitchcock utilizava as câmara para manobrar a adrenalina do espectador, Kubrick era um mestre de lentes, Eisenstein revolucionou a montagem, Orson Welles fazia tudo isso de olhos fechados, saía-lhe como respirava – era um génio. Mas, A Grande Esperança e Peço a Palavra, foram duas das melhores histórias que já me foram contadas.


Sim, Nancy Hanks,
Dar-te-emos notícias
Do teu Abe
A quem tu tanto amaste.
Perguntaste primeiro,
“Onde está o meu filho?”
Ele vive no coração
De todos nós.
in, Uma Resposta a Nancy Hanks, de Julius Silberger.

01/03/08

Retrato do regime, por Niilista

Se ainda havia dúvidas sobre o estado de solidão a que chegou a ministra da educação, bastava ver as imagens dos telejornais de hoje. A ministra falava no fim de um encontro com associações de pais realizado em... Gondomar. Não ouvi o que ela disse, mas reparei no cenário de fundo: atrás dela, como se fossem um décor assassino, lá estavam o sr. Albino Almeida - um caso sério de depresssão e trauma profundos - e a nova Sumidade Em Educação, o arguido dourado, Valentim Loureiro. E mais umas caras, como dizer, hã, pouco intelectuais, a rirem-se muito, muito, muito satisfeitos antes do jantar.
Mas não há melhor que isto? A ministra não consegue arranjar apoiantes mais credíveis que estes? Só faltou o Valter Lemos, com a sua cabeleira à Marco Paulo e as suas camisas garridas para compôr o ramalhete - teríamos então um friso fiel da qualidade intelectual dos ideólogos da educação do governo. Maria de Lurdes Rodrigues, Valter Lemos, Albino Almeida e Valentim Loureiro-e-sus muchachos - ei um óptimo retrato do estado a que chegou o pensamento educativo do regime.

28/02/08

A Paixão de Cristo Segundo a Turma C, por Maria Madalena

A Paixão de Cristo de Mel Gibson é um dos filmes mais cabotinos que já tentei ver (digo tentei porque aquilo é impossível de ver). O filme é ideologicamente retrógrado. É um verdadeiro retrocesso porque justifica a mensagem Cristã da pior forma: apelando, simplesmente, ao terror e à compaixão. Era assim que a Idade Média via Deus com um misto de culpabilidade, compaixão e terror; mas não pode ser esta a forma de, no século XXI, justificarmos o cristianismo.

Prefiro mil vezes A Paixão de Cristo de Martin Scorsese e a dimensão humana e céptica que está por detrás da sua Santidade. Scorsese coloca-nos no lugar de Jesus. Gibson limita-se a despertar um mórbido sentimento de horror e comiseração. É certo que o filme de Scorsese foi recebido como herético por se fundar nos Evangelhos Apócrifos, mas é, de longe, muito mais pertinente e faz muito mais pela mensagem Cristã do que a visão reaccionária e retrógrada de Gibson, supostamente baseada nos evangelhos oficiais.

Mel Gibson é um pornógrafo da violência. Espanta-me como a Igreja admira a sua visão sado-masoquista. Dá a impressão que, desde que embrulhada num contexto bíblico, a violência gratuita está justificada. Porque é que a simples sugestão de uma cena de sexo num filme anónimo pode ser tão escandalosa e aquelas cenas de meia hora de flagelação do Cristo de Gibson são consideradas imaculadas?

Mas às vezes a coisa corre mal. O S. é meu amigo e um dia destes contou-me esta interessante história que se passou com o filho. Conta-me o S. que o professor de moral da turma do filho teve um destes dias a ideia peregrina de passar o filme do Gibson nas aulas, em vários capítulos para ser mais emocionante... Mas parece que o resultado não foi bem aquele de que senhor estava à espera. Metade da turma, conta-me o S., vira a cara para o lado ou simplesmente recusa-se a ver o filme. E a outra parte vê o filme de uma perspectiva que, de certezinha, não era aquela que o professor esperava. Na última aula, ia a meio o flagelo, quando grita um aluno do fundo da sala:
- Eh malta, não percam esta cena, é espectacular, o gajo agora vai-lhe dar com um cacete ainda maior… É sangue por todo lado...

Ou seja, os alunos estão a ver o filme como vêm qualquer vulgar filme de «artes marciais», de perseguições de automóveis ou de sanguinárias batalhas de Power Rangers no espaço. O que admiram é, simplesmente a crueza da violência em todo o seu esplendor. Parece que em vez do filme formar os alunos piedosos e bons cristãos de que o professor estava à espera, está é a formar verdadeiros cultores da violência gratuita. Eles apreciam os golpes como se fossem poemas, admiram mais a brutalidade do soldado romano que o sofrimento de Jesus. Em vez de sentirem pena e compaixão, aplaudem, isso sim, os esguichos de sangue a jorrarem no écran… Um filme destes é perigoso até do ponto de vista dos seus próprios objectivos. Gibson passou os limites do decoro. E é por isso que eu receio que a anedota se torne realidade: que o seu próximo filme seja mesmo a descrição detalhada durante três horas dos últimos dois minutos da vida de Joana D`Arc a arder na fogueira, santa agonia, valha-nos Deus que bem pode…

27/02/08

O Grande Nel, por Fã do Nel

Há muito, muito tempo, quando era mais jovem ainda, trabalhei numa rádio daquelas muito locais, de aldeia, no tempo em que as rádios falavam e eram muitas. Enfim, pagavam mal mas era divertido. Nas férias grandes assegurava os “discos pedidos”, um delírio de duas horas a atender e a dar conversa à clientela, muitos emigrantes saudosos, campónios apaixonados e donas de casa românticas, passava por lá de tudo.
Isto foi nos meados de 80 e, nessa altura, recordo-me de alguns dos hits mais pedidos. Canções que então ouvi centenas, senão milhares, de vezes para agradar ao publicozinho. Se coisa aprendi foi a tolerar, mas nem sempre a respeitar, os gostos dos outros e a olhar com outra abertura para todo o espectro da música popular e até era com prazer que virava e revirava os sucessos do momento.
De fora vinham pérolas como o “The Final Countdown” ou “You’re in the army now”, duas canções que para sempre me ficaram gravadas na alembradura e de vez em quando regressam para me assombrar. Mas serve esta para falar dos hits nacionais que então proliferavam. E desde logo, três grandes artistas me vêm à mente: José Malhoa, Jorge Ferreira e Nel Monteiro. Três gigantes! Um, o primeiro, dono do clássico “24 Rosas”, o segundo, autor do monumento chamado “Carro Preto” (“carro preto, diz-me lá porque razão, partistes meu coração, por o meu amor levar” traláláchimpumetc) e o terceiro, O Mestre, com êxitos incontestados como Retrato Sagrado ou Azar na Praia ou o Alô, Alô Maria Antónia. Ou mesmo o ousado Tira o Bikini!
É o grande Nel que gostaria de destacar aqui, designadamente o seu último grande lançamento com a costumeira Orquestra Lusitana, considerado unanimemente pela crítica especializada como um significativo passo em frente no contexto musical e semiótico do cantor e songwritter, que aqui desbrava muitos novos caminhos em direcção a sabe-se lá onde. «Trata-se de um significativo passo em frente», afiançou um dos críticos, acrescentando que Nel, com esta cassete, «supera-se a si próprio e aos demais».
Senhoras e senhores, o último trabalho do Rei Nel: “Puta Vida, Merda Cagalhões”! Um álbum para a história:


As Músicas do Porco - Discos que Já Ninguém Ouve Mas Que São Excelentes, por Maestro

Peter Frampton – Comes Alive. Ficou conhecido como o disco em que o Frampton fez falar a guitarra. O homem ganhou fama de ser um dos maiores guitarristas do mundo. Numa altura em que o rock FM e as super bandas americanas invadiram a Terra, Comes Alive foi, talvez, a única coisa de jeito que surgiu desse filão. Talvez porque mantinha uma energia genuinamente Rocker que Frampton, demasiado metódico, nunca haveria de atingir em estúdio.