11/09/06

A Desgraça Nacional Tem Causa e Tem Nome, por Silver Bullet

Em 1871, o Sr. Antero de Quental, ainda movido pelo desvelo esperançoso de regenerar a nação portuguesa, ilusão que uma vez esvaída contribuiria para o desânimo que faria dele um suicidário simbólico, tentava diagnosticar as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Como muitos antes dele e muitos outros após, o Sr. Antero de Quental tinha como preocupação a ressurgência da Nação. A contemporaneidade nacional teve esta obsessão: regenerar, ressurgir, ressuscitar, recuperar, modernizar, renascer. Hoje, devemos a Vasco Pulido Valente, o maior analista da portucalidade que tem em Eduardo Lourenço o seu digno anverso, esse favor de nos recordar todos os dias uma verdade evidentíssima: Isto é irregenerável!

Tivesse o Sr. Antero de Quental atingido esta verdade claríssima e muita tragédia se tinha poupado, a começar pela sua. Mas não, o Sr. Antero considerou como causas da miséria ibérica o absolutismo, o jesuitismo, o catolicismo tridentino e mais outras observações próprias do romantismo oitocentista. Sendo as causas comuns ao espaço peninsular, tal justificava a decadência comum, daí que o plural hispânico usado pelo açoriano, sendo relevante, escondesse um equívoco. Antero buscou as causas a partir do presente, em vez de haver estudado as causas como tal. A prová-lo, o facto de, actualmente, a Espanha trilhar um progressivo e continuado rumo, o que não se verifica a Oeste de Vilar Formoso. Daí que, as causas devem ser outras.

Pois bem, caros leitores, 136 anos após a célebre conferência anteriana, cumpro o grato e histórico dever de informar que a decadência nacional tem causa e tem nome: Pedro Machado!

Pedro Machado é o novel presidente da Região de Turismo do Centro. Na edição Local Centro do «Público» de ontem, é-lhe traçado o perfil. Vale a pena recapitular: O Senhor Presidente tem 39 anos. Em miúdo agarrou nas bandeiras laranjas do PSD porque gostava da cor. A precocidade, enfeitada com a futilidade das razões, deixa antever o pior: uma carreira política! Licenciou-se em Filosofia, na Vetusta e nada, absolutamente nada do que seria minimamente exigível a um estudante de Filosofia, mesmo que da Vetusta, transparece no licenciado Machado. Não há vestígio de crítica, reflexão, especulação, cultura ou erudição. O homem é um fenómeno de vacuidade! Durante os tempos da juventude, seguiu a carreira normal: fez parte das listas para a Direcção-Geral. Perdeu, mas enrobusteceu-se na derrota. Dirigiu, a nível distrital, não concelhio note-se, várias campanhas eleitorais e, findo o curso, ei-lo revigorado no outro antro onde se geram estas espécies: as autarquias locais. Foi membro da Comissão Política Concelhia de Montemor-o-Velho, ascendendo à Comissão Distrital de Coimbra. Depois, galgará uma escadaria ascendente que, de membro da Assembleia Municipal de Montemor, passando pelo executivo autárquico onde chegará à vice-presidência, atingirá os cumes olímpicos: vogal da Comissão Política Nacional! Pelo caminho, foi ainda adjunto de um obscuro secretário de estado (a minúscula é de propósito). Este percurso deu-lhe «traquejo» e encheu-lhe o telemóvel de contactos importantes. O homem cita-os: Fernando Nogueira, o Desaparecido; Santana Lopes, o Inefável, Zita, a Convertida, e Cavaco, o austero. Acima de todos, Marques Mendes, que ocupa um lugar especial na lista telefónica do Sr. Pedro Machado.

A docência, essa, exerceu-a durante dois anos e não se mostra disponível para regressar. «Não o seduz», justifica-se. O Sr. Pedro Machado orgulha-se da sua carreira e não lhe passa pela cabeça extinguir a Região de Turismo do Centro para cuja presidência acaba de ser nomeado. Chorem comigo, caros concidadãos! Entendem agora o cinismo do grande Vasco Pulido Valente? Entendem porque razão Antero acabou por dar um tiro nos cornos?

Bebamos, meus caros, bebamos muito, porque o cheiro a pólvora faz-me dores de cabeça e este país faz-me mal à úlcera!


foto: digitalizada a partir da edição do jornal «Público» de 10.Set.2006

05/09/06

Porcos em Cuecas, por Pig Klein

Sacrifíco a modéstia à verdade e afirmo: aqui, entre a malta do Tapornumporco, eu sou o gajo que veste as cuecas mais bonitas. No Sábado, nos balneários de Montebelo, após mais uma jogatana, banho tomado, estava a malta toda nua a esfregar-se nas toalhas de turco. Garanto-vos que o espectáculo é lastimável. Mas pronto, aquilo também não é uma passagem de modelos, a malta está lá é para tomar banho e, embora desagradável, não dói nada e passa depressa. O estranho é que o espectáculo piora quando a nudez se cobre. Devia ser ao contrário, isto é, quanto mais e mais depressa se encobrisse a fealdade, menos desagradável se tornaria a contemplação. Sucede que a inversão desta regra se deve à deplorável qualidade das cuecas usadas. Esteticamente, os trousses confradais são deploráveis e, assim, quando os confrades os vestem o espectáculo deteriora-se.
Eu não, eu joguei com uns modernos boxers Throttleman de puro algodão, com umas cornucópias douradas sobre fundo azul-esverdeado. Depois do banho, optei por uma mudança de estilo, mantendo todavia a classe, vestindo uns slips com meia-perna, de um branco imaculado, cintado com um elástico negro. Assim tipo Calvin Klein. Este modelo acondiciona melhor os aparelhos viris, dando uma maior sensação de segurança e conforto. Está tudo pensado, com categoria. Classe pura.
Agora, o resto da malta ainda não percebeu que a beleza interior também conta. E até dói ver aquelas cuecas antiquadas. Um deles, o Vice, usava umas axadrezadas, com dois tons de verde. Lamentável. Pareciam sobras de um cortinado comprado nos saldos da Moviflor. O outro, o Grunfo, usava umas cuecas azuis, modelo antigo, tipo Jotex ou coisa que o valha, fabricadas no Vale do Ave seguindo modelos de mil-nove-e-cinquenta-e-tal, apertadíssimas e com a fruta mal acondicionada a sufocar. É certo que a cor escura tem sempre a vantagem de disfarçar as distrações. Mas está mal. O Santo Sudário também não era azul escuro. Quando eu esperava que o último elemento do grupo, o Mau, desse o exemplo contrastante, eis que a minha decepção se torna total. O Mau, que é o homem que afirma que os botões de uma camisa devem ser da cor do tecido e insiste para que a regra seja observada, revelava agora o seu lado parolo. O homem veste cuecas negras, banalíssimas, daqueles modelos em V, antiquadíssimos e completamente out.
Há que mudar, inovar e modernizar. Isto não pode continuar assim. Na Europa já não é assim. Vistam-se como deve ser. Ou então, andem nus que não é pior!

01/09/06

Meteorologistas e Coleccionadores, por Pig Colector

O boletim meteorológico em Espanha é a coisa mais ridícula que existe. Não só em matéria meteorológica e não só para um português. Para um espanhol, ou para outro qualquer extrapeninsular que livremente viaje pela Península aproveitando a liberdade, o boletim é inexplicável. Imaginem um belga em Salamanca a lobrigar, acaso sobreviva ao IP5, molhar os pés na praia da Claridade lá pelo fim da tarde. Após as tapas, e já na Plaza Mayor, espreguiça-se e pede um café solo. Abre o jornal, busca a página da meteorologia para saber como está o tempo no litoral atlântico e…

- Merde! Portugal a disparu! Où est-il? – No caso de ser um belga francófono, claro, senão, imaginem merde em valão. A surpresa entende-se, seja qual for a língua. Portugal não é o Titanic, porra! O Copperfield quando fizer desaparecer um país será certamente a Síria, o Irão ou outro qualquer. Não vejo razão para riscar do mapa a Pasmaceira. Isto está mal, é certo que o futuro é cinzento, mas bolas, o Sol quando nasce é para todos. E se há coisa boa que a gente tem é o Sol. Porque não chegamos lá para estragar, nem com escadote. Senão fazíamos lá uma Quarteira, com Tê-zeros em time share e escorrega na piscina para os putos racharem os cornos. E também não custa nada dizer ao belga que na Figueira da Foz está vento como o caraças e a água é fria como o caraças.

Aceito que os luxemburgueses ignorem quem os rodeia. Pegam no zoom, aumentam mil vezes a Paróquia e desfocam a Alemanha, a França e a Bélgica. É ridículo mas compreende-se, pois o Luxemburgo é uma teimosia que nem aos luxemburgueses interessa. No máximo, é um bom local para sedear um banco, para lavar dinheiro, para fugir ao fisco, ou para resolver questões diplomáticas. O maior problema do Luxemburgo é que não tem luxemburgueses. Um país que tem este problema pode fazer tudo. Aceito também que o boletim meteorológico dos franceses ignore a vizinhança. O Hexágono é uma plataforma assoberbada por isso o francocentrismo é estatutário e tudo o mais é periferia. O mesmo se dirá da Alemanha. Já a Bota fá-lo naturalmente, pois logrou impor a lógica geográfica como condição para o desenho fronteiriço apesar de S. Marino e do Vaticano, minudiências tão microscópicas que nem corpo têm para levar com uma nuvem cinzenta em cima. A Inglaterra é um caso à parte. É célebre aquela anedota em que o apresentador da BBC anuncia um nevoeiro cerrado na Mancha e lamenta que o Continente fique isolado da Ilha. Que Portugal mostre o rectângulo destacado do todo peninsular, também se compreende. Portugal é uma exclusão. É como um médico especialista das doenças do pé que não quer saber o que é que se passa no nariz ou atrás da orelha. Exibe a radiografia ao pé enquanto coça o queixo e pensa na solução. Agora, o Todo é um generalista, não pode dizer que o que se passa no fígado não lhe interessa. A Espanha é generalista. Ou melhor, é um colégio de especialidades distintas que, juntas, formam um mosaico generalista. Lá iremos. Mesmo que Portugal seja um filho birrento e ingrato que, vai quase para um milénio, abandonou o lar, à mãe compete o seu dever irrenunciável, o qual é manter a porta aberta. Se um Nobel não se retira, a condição hispânica de Portugal não pode ser ela também sonegada. A Espanha pode não gostar do filho renegado, mas pariu-o e contra isso não há nada a fazer. Pode deserdá-lo e dizer que o não conhece, pode bater-lhe no rabo, pode virar-lhe as costas, não pode é dizer que não existe. É ilegal, em face do tribunal da História. Seria como se uma parturiente exigisse do obstreta a devolução do nado-vivo à condição pré-natalícia. A Espanha não pode fazer isso. Além do mais, fica-lhe mal. Vamos então à raiz do problema.

Recentemente, aquando da discussão e aprovação do estatuto autonómico da Catalunha, discutiu-se se a Espanha era uma Nação ou não. É um pormenor essencial. O Estatuto Autonómico, aprovado e referendado em meados de Junho de 2006, fala em povo, país, diversidade, energia de muitas gerações, tradição histórica, autogoverno, instituições próprias, liberdade colectiva, comunidade, posição singular, bla bla bla… Quanto ao essencial, o preâmbulo diz: «Cataluña, a través del Estado, participa en la construcción del proyecto político de la Unión Europea, cuyos valores y objetivos comparte.» Ou seja, além da Catalunha, declara-se um Estado que é a Espanha, naturalmente, o que faz da Catalunha uma nação subsidiária e dependente do Estado espanhol. Depois, adianta-se que «El Parlamento de Cataluña, recogiendo el sentimiento y la voluntad de la ciudadanía de Cataluña, ha definido de forma ampliamente mayoritaria a Cataluña como nación.» Quer dizer, o Parlamento democrático da Catalunha interpretou a vontade cidadã e votou maioritariamente a Catalunha como Nação, remetendo depois para o artigo 2º da Constituição espanhola que, segundo o estatuto autonómico «reconoce la realidad nacional de Cataluña como nacionalidad.» Leiamos pois o citado artigo 2º : «La Constitución se fundamenta en la indisoluble unidad de la Nación española, patria común e indivisible de todos los españoles, y reconoce y garantiza el derecho a la autonomía de las nacionalidades y regiones que la integran y la solidaridad entre todas ellas.» Atentemos aos pormenores e subtilezas, que é a única coisa que interessa. Em primeiro lugar, evita-se cuidadosamente a palavra Estado para definir a Espanha. Entende-se, pois tal faria da Espanha uma superstrutura estatal aglutinadora de várias nações. O risco é que, como toda a História ilustra, as nações são soberanas, logo, autonomizáveis. A História contemporânea tem milhões de mortos e rios de sangue a comprová-lo. Depois, apresenta-se a Nação espanhola como Pátria Comum. Não o Estado, conceito racional, jurídico-constitucional, fundador de toda a ordem política, base de toda a sociedade organizada e princípio de toda a história narrada. Mas a Pátria, esse vínculo afectivo com o solo telúrico que nos define a condição. É um conceito apolítico por definição, pois remete para a ordem natural. Tem-se uma Pátria como se tem uma mãe. Ama-se. Não se renuncia a ela, morre-se por ela. Ninguém morre pelo Estado. Esfrangalham-se sim pela Pátria. Pois que também eu sou capaz de ir aos cornos ao primeiro filho da puta que falar mal da minha mãe. Que é uma santa. Já do Administrador do Condomínio, ou do próprio Condomínio podem dizer o que quiserem. A mãe é a Pátria, o condomínio é o Estado. Assim posto, o que se diz após é supérfluo: indissolúvel e indivisível. Claro! Com três letrinhas apenas bla bla bla bla. No artigo 2º reconhece-se ainda o direito à autonomia das nacionalidades e regiões. E aqui, que é para onde nos remete o estatuto autonómico da Catalunha, há uma subtileza preciosa, quase cínica, que contrasta com o frustrado «amplamente» com que a lei Catalã qualifica a votação da maioria parlamentar que votou a Catalunha como Nação. A Lei Fundamental usa um plural – nacionalidades e regiões – que equipara em subalternidade todas as nacionalidades e até faz acompanhar o conceito de uma menção apoucadora, mesmo diminutiva, às regiones. Mais valia dizer nacionalidadezinhas, pois que assim dito a Catlunha é uma paróquia, ainda por cima obrigada ao dever de solidariedade com as restantes. A Catalunha até pode ser o coração da Espanha, mas como o coração é importante, mas não é autónomizável. Nenhuma parte renuncia ao Todo. Entende-se pois, e estipula-se, que Nação é a Espanha.

É aliás este o título de uma obra publicada pela Real Academia de la Historia em 2000: La España como Nación. Aqui, para além de nos apercebermos como a História, sob convocatória, é subsidiária da política, os sábios académicos forneceram aos políticos o fundamento teórico para o seu ensejo. Discute-se, discute-se e no fim apresenta-se a Espanha como Nação. Não como uma confederação de nações, ou uma Nação de Nações mas, simplesmente e sem mais, uma Nação. O que faz das partes isso mesmo: partes!

Mas há um mas. Há sempre um mas. E o mas é: Portugal! Os catalães até podiam dizer, queixando-se à mãe espanhola e apontando para o irmão português:

- Se ele pode eu também posso!

O que é dizer, se Portugal é uma Nação, a Catalunha, obviamente, também é. E o País Basco. E a Galiza. E quem não é pode vir a ser, aceitando para tanto a evidência que impossibilita que as nações sejam tidas como factos da Natureza. Se o passado quase milenar alicerça o estatuto português, o futuro sustenta as ambições catalãs. Senão mesmo o presente. Tal equivale a dizer que estes factos são da ordem da política, como é óbvio, apesar de historicamente se haver negado esta evidência. Não há nenhum estatuto natural, nenhum jugo impositivo. Tudo é política e a política radica na vontade dos homens.

Num capítulo interessante dessa obra, D. José Alcalá-Zamora Y Queipo De Llano, catedrático de História Moderna, declara a dificuldade em delimitar o conceito de Nação, chegando a falar de «labirintos intermináveis». Apesar disso, e sem qualquer intuito classificador, seja qual for o fundamento que as baseia, reconhece a existência de nações. Cita-as: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Espanha, Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Japão, Brasil, Canadá, México, Grécia, Egipto. Nem perco tempo a questionar a lista com a Tchetchénia e outros que tais. Prossigamos. O autor fala depois de Nações medianas, estabelecendo uma diferença que agora não me calha aprofundar: Bulgária, Roménia, Marrocos, Hungria, Suíça, Equador. Refere ainda países aos quais não cabe a designação de nações, são os pequenos estados: Andorra, San Marino, Mónaco, Vaticano, ou «os estadículos antillhanos» E, no meio de todo o rol, não se menciona Portugal! Não é um estadículo, convenhamos. É até uma nação, e um Estado, um dos mais antigos do Mundo, muitíssimo mais influente, considerando a linha diacrónica da História, do que a Bulgária ou o Equador, para só citar dois. O Real Académico, cita Portugal, algumas linhas após, apenas para ilustrar, baseado num dicionário de 1732, como se falava de «nação portuguesa» ou «nação andaluza» para referir o lugar de origem e nascimento. Ora, há aqui um equívoco inaceitável num catedrático e ainda por cima membro da Academia. Qualquer estudante de História argumentará que houve uma evolução semântica óbvia de forma tal que onde o dicionário de 1732 dizia «Nação», nós hoje diremos «Pátria». Porque Nação é um conceito romântico e oitocentista. Quando em 1812 a Constituição de Cádiz, que depois foi copiada pelos liberais portugueses de 1822, referia que a «soberania reside na Nação», atribuía ao conceito um significado diametralmente distinto do de 1732. Como é óbvio. Ora, se o catedrático não é ignorante, que não é, denuncia assim que a Academia iniciou uma investigação histórica comprometida ab initio, procurando fundamento para uma ambição política que consiste em declarar constitucionalmente a unidade da Espanha, submetendo para isso o rigor ao desejo. Em verdade, a conclusão estava estabelecida a priori. Isso mesmo o autor declara, com toda a razão do Mundo é certo, quando sentencia que Espanha é o todo Peninsular. Tudo o resto são partes, com Estado ou sem ele. E inclui Portugal. Naturalmente. Além das Astúrias, País Basco, Catalunha, os arquipélagos, Valência, Andaluzia, Estremadura, Navarra, Aragão, Madrid, Galiza, Múrcia, Leão, as Castelas e Rioja. Francisco Franco, o Caudillo, assim o entendia também. Pedro Teotónio Pereira, no prelúdio da Guerra Civil embaixador em Madrid, chegou a protestar diplomaticamente contra um cartaz da propaganda falangista que apresentava a Península sob a águia imperial de Carlos V sem o desenho da fronteira. E Salazar sabia, como revela Franco Nogueira, que o Caudillo, enquanto cadete da Academia de Toledo havia defendido uma tese que propunha uma estratégia para anexar militarmente Portugal em duas ou três semanas. Mas, voltando à questão das partes, caberia perguntar ao catedrático se, ao incluir Portugal e os arquipélagos (suponho que as Canárias e as Baleares), inclui também os Açores e a Madeira? E Melilla? Ceuta? E, já agora, Timor? Goa? Cabinda? A colónia de Sacramento? Macau? Dadrá e Nagar-Aveli? Enfim, tantas perguntas. Irresolúveis todas, porque a resposta será sempre escrava da condição, a qual é: defender aprioristicamente a unicidade da Espanha. Mas o rol anexador do catedrático, apesar de teoricamente intocável, não é declarável com facilidade. Pois se até Franco se viu forçado a assinar um Pacto Ibérico com Salazar no qual reconhecia a paridade estatutária! Só Filipe o logrou, pois que até os Reis Católicos, naturalmente, sempre se escusaram ao uso do título de reis de Espanha.

Por isso, se a declaração da unicidade é inconveniente, resta fazer como os meteorologistas, despreza-se Portugal. Não existe e pronto! Querem saber se chove, comprem o «Diário de Notícias». Esta via, a que chamo «meteorológica», é a seguida pelas universidades, pelos Estados, pelos governos, pelos estudiosos de ambos os países ao desprezarem-se mutuamente. Há, é certo, intelectuais como Eduardo Lourenço ou Valentín Cabero Diéguez, catedrático salamantino, que vêem a questão de forma descomplexada, sem que a hispanidade das partes conduza ao monolitismo do todo. A unidade hispânica deve ser granítica, devendo associar-se ao simbolismo robusto da rocha, a sua natureza compósita. Mas, apesar destes, e outros, o facto é que não há uma única história da Península Ibérica. Não há muitas mais regiões da Europa que tenham uma tão rica e tão vasta história comum, que participem de um passado tão próximo, que comunguem de uma identidade tão afim e, todavia, ainda ninguém se lembrou de escrever uma História Geral das Nações Ibéricas! Isto é incrível. A única obra que eu conheço é do grande historiador, Hipólito de la Torre Gómez que em 1998 coordenou uma obra em 400 páginas com a participação de diversos historiadores de diversas proveniências, intitulada España y Portugal. Siglos IX-XX. Vivências Históricas. Curiosamente, quase dez anos volvidos, ainda não há tradução portuguesa. Muito significativo é que o título mencione a expressão «Vivências históricas» É esta a condição para se escrever uma história da Península. Ver a história como uma vivência e como uma memória construída, partilhada, cheia de conflitos explicáveis e enquadráveis, repleta de desentendimentos igualmente explicáveis e enquadráveis. Sem qualquer reserva apriorística, livre de todos os propósitos político-ideológicos, sem subserviências e sem proselitismos, entendendo que a identidade se funda em interpretações históricas e elaborações culturais e que a história se constrói e reconstrói conforme a vontade dos homens e não conforme os condicionalismos da Natureza. Assim, entender-se-á a Península como um todo, mas como um todo que é um mosaico com várias tonalidades. Sendo que o passado é plural, as Espanhas como se dizia nos tempos suevo-góticos, e a unidade exigirá sempre o respeito pelas especificidades locais, regionais e nacionais. Assim nos declararemos, como Fernando Savater, contra todas as pátrias, decretando falido o modelo a que Fernando Catroga alude e pelo qual o Estado-Nação impôs um «conceito unicitário de soberania» sintetizável na forma do regalismo francês: «une foi, une loi, un roi», supondo-se que qualquer divisão era uma rebelião contra o Estado, constituindo esse o crime supremo, mais do que qualquer blasfémia.

A solução está pois em renegar esta «mentalidade excludente», usando a expressão de Savater para qualificar os fanáticos que achavam que não se pode ser basco e espanhol e basco e francês ao mesmo tempo. Contra isto, Savater escreve: «Pode-se e deve-se ser não duas coisas, mas muitas outras, todas as que nos permitirem conviver em harmonia e liberdade com o maior número possível de seres humanos. Abaixo os regimentos e a sua uniformidade idêntica! Criemos sociedades civis, onde as pessoas vistam à civil e sentindo-se bem, onde não haja nenhuma obrigação de nos parecermos a nenhum estereótipo de identidade nacional e onde as efectivas similitudes, que sem dúvida continuarão a verificar-se, sejam afinidades electivas do coração e não imposições burocráticas dos sargentos que se propõem administrá-las». Concordo! Letra por letra. Assim, veremos como desnecessária é a presunção da lei autonómica da Catalunha, da constituição espanhola, das conclusões das academias ou das verdades dos académicos comprometidos. Tudo é vão. Enriqueçamo-nos. Coleccionemos identidades como uma criança colecciona cromos de uma colecção interminável.

30/08/06

Encruzilhada, por José Clérigo

Há momentos decisivos na vida de um homem em que a consciência nos impõe o confronto com o destino. É altura de parar e, cara a cara, olhos nos olhos, colocar a questão primordial: que é feito do Ezequiel Canário?

25/08/06

O idiota, por Abd al-Malik

O idiota que aqui vedes retratado pelo pincel de Cristóvão de Morais deu nome a um mito idiota. E mais não fez. Há já muito que me dedico a estudar e a tentar perceber, sem sucesso diga-se, com uma profundidade que julgo inigualável, as razões da admiração que alguns dirigem a este idiota. E não me refiro a figuras de segundo plano: Pessoa basta. Mas há muitos outros. Romantizado ou mitificado, a verdade é que o idiota tem na memória colectiva portuguesa um lugar que não devia ter. É certo que muitos houve também, com António Sérgio à cabeça, que não perdoaram a idiotice ao idiota. Mas ainda assim, apesar de todas as evidências e contra toda a razoabilidade há quem continue a condescender com o idiota e a apresentá-lo como exemplo de espiritualidade sonhadora, grandiosidade e idealismo.

Há pouco, António Villacorta Baños-Garcia, um estudioso espanhol, publicou uma nova biografia do idiota. Deve dizer-se que o livro, apesar de correcto e bem escrito, fazendo um retrato isento do idiota, ao justamente considerá-lo um idiota irresponsável, não traz nada de novo. Excepção feita a uma sugestão desnecessária: que se colham amostras do túmulo do idiota para análise laboratorial do ADN para saber se realmente ali se encontram depositados os restos mortais do idiota. Assim se esclareceria uma dúvida que, em grande medida, foi a razão do mito. Eu, por mim, acho desnecessário. O idiota será sempre o idiota, quer os seus restos jazam, incógnitos no areal africano, quer sejam os autênticos depositados nos Jerónimos.

Muitas razões há para consagrar o idiota não só como o maior idiota da história de Portugal como um dos maiores idiotas da história da Europa. Esta basta: no dia 4 de Agosto de 1578, em apenas 3 horas, contra todos os avisos e conselhos, contra toda a prudência, sem nenhuma necessidade, com uma táctica militar completamente idiota, o idiota afundou-se juntamente com milhares e milhares de soldados. Não apenas portugueses, porque sob o seu comando combatiam castelhanos, alemães, italianos e mouros aliados. Foi a maior carnificina da história portuguesa e uma das maiores tragédias militares da história da Europa. Em apenas 3 horas, repito, soçobraram milhares e milhares de combatentes, de forma inglória, depois de haverem sido conduzidos para a desgraça mais do que adivinhável de forma absolutamente inconsciente e irresponsável. Gente bisonha, arrancada ao arado, incapaz de pagar o suborno que os isentaria da morte. Outros, cavaleiros irresponsáveis, aduladores do idiota, sedentos de glória. Os «últimos cruzados medievais», lhe chamam os admiradores contemporâneos, «o primeiro pateta moderno» lhe chamou acertadamente António Sérgio. Não se sabe ao certo quantos ali pereceram. Baños-Garcia fala em 14 000 sem especificar se contabiliza o total ou apenas os caídos no exército do idiota. Julgo tratar-se do total e que a fonte é Queiroz Velloso. Os números variam muito, todavia. Por exemplo, Aquilino Ribeiro, citando fontes árabes que não identifica, classifica a batalha de Alcácer como «uma carnificina cruel e despiedosa» onde terão perecido 6000 portugueses e apenas 18 mouros!? Noutra versão, José de Esaguy afiança, citando também «cronistas árabes nos seus escritos», que foi maior o número de mortos entre o exército mouro, o que «nos trouxe uma vitória passageira.» O melhor mesmo é desistir de encontrar um número mais ou menos seguro, pois as versões são várias. Carlos Leite afirma que Alcácer-Quibir «não foi uma vergonha; e, se foi uma desgraça não foi uma nódoa na história de Portugal», pois a batalha esteve quase ganha. Logo a seguir adianta 12000 mortos cristãos. Queiroz Velloso diz, por seu turno, que se tratou da batalha mais sangrenta que a Berbéria já presenciou e dá entre 5 e 6 mil mortos mouros, contra 7 ou 8 mil cristãos. O padre José de Castro cita um documento do Arquivo Secreto do Vaticano que fala em 50000 mouros tombados em combate. Afonso Dornellas diz ter recolhido de fonte marroquina a seguinte contabilidade: 10 mil baixas cristãs e 18 mil muçulmanas. Fiquemos por aqui.

Seja como for, em três horas morreram mais soldados do que em 13 anos de guerra colonial em três frentes, noutra guerra igualmente idiota. Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes contabilizam, de 1961 a 1974, nas três frentes, 4027 mortos em combate. O resto, até ao total 8290, foram acidentes de viação (1480), acidentes com armas de fogo (785) e causas indeterminadas (1998). Manoel de Oliveira e Manuel Alegre, entre outros, já traçaram o paralelismo entre as duas desgraças. É curioso o paralelismo, mas mais curioso é comparar o número de baixas para se constatar a dimensão da idiotice sebástica. Em apenas 3 horas! E nem se calcule a relação das baixas com os efectivos gerais da população, porque então a dimensão da tragédia é quase apocalíptica! Como é que este idiota pode ainda ser objecto de admiração e ser elevado ao estatuto de símbolo nacional?

No fim da batalha, as descrições são horríveis. O saque foi miserável. Os corpos entraram em putrefacção acelerada, devido ao calor tórrido. Das montanhas desceram os salteadores que se apossaram dos cadáveres. Despiram-nos, profanaram-nos, sentenciavam com um golpe de misericórdia os feridos suplicantes que não tinham valor para o resgate ou que estavam moribundos. Capturavam os feridos ligeiros ou valiosos. Foi uma orgia bárbara de sangue, indignidade e crueldade, por entre o cheiro da pólvora e da vergonha. O responsável tem nome. Foi um, exclusivamente: O idiota que ali vedes retratado pelo pincel de Cristóvão de Morais.

18/08/06

Carta a Esther Mucznick, por xpto

Hoje escrevi a Esther Mucznick. Mandei-lhe um e-mail através da página da comunidade israleita:

Coimbra, 18 de Agosto de 2006

Excelentíssima Senhora,
Começo por lhe pedir desculpa por me dirigir a si através deste endereço. Todavia, procurei em vão, quer nas folhas impressas do jornal «Público», quer na edição electrónica, um endereço por onde lhe pudesse fazer chegar algumas palavras.
Habituei-me há muito a lê-la nas páginas daquele jornal. Devo dizer que nem sempre concordo com as suas opiniões, mas sempre as reconheço inteligentes, rectas e dignas. Digo-lhe também que é a primeira vez que me dirijo pessoalmente, e ainda por cima por tão sinuoso caminho, a um articulista. Senti-me impelido a escrever para lhe expressar a minha mais profunda e sincera solidariedade. Refiro-me, como deve suspeitar já, à polémica (se é que assim se lhe pode chamar) suscitada pela Drª Isabel do Carmo. Não consigo entender como é que alguém pode afirmar o que despudoradamente a Drª Isabel do Carmo afirmou a propósito do Hezzbollah. Esta organização, como Vª Exª tão claramente afirma, não é um partido político, muito menos democrático. Vª Exª, compreensiva, diz tratar-se de ignorância opinativa. Não concordo. A ignorância não chega para explicar tamanha inanidade. É preciso mais. Os motivos que alimentam tão despropositada cegueira suspeito-os hediondos. Desejo até que não existam e que não passe de temor meu, mas receio que o que leva alguém a laborar na «ignorância» para afirmar o hediondo não se possa caracterizar como inconsciência. Porque a ignorância ou é socrática e não consente inanidades, ou disfarça-se com a discrição após o que se aniquila com o estudo Há algo de muito preverso que me escapa ao entendimento na «ignorância» da Drª Isabel do Carmo. Como ao entendimento me escapa, por exemplo, quando um homem como Gunter Grass admita agora, com um escândalo mínimo face à gravidade dos factos e até com manifestações de solidariedade, ter pertencido às SS. Acho absurdo, escapam-me à razão as razões de tanta hediondez. José Manuel Fernandes afirma hoje que o escritor, na sua genialidade, permanece incólume no seu estatuto artístico e literário. Assim é, posto que consideremos como na contemporaneidade a estética se emancipou da ideia de Bem. O Belo é possível sem razão moral. Mas a minha questão é outra: o que leva um homem a professar o Mal? Como foi possível conviver tantas décadas com a culpa? Acredito até que a actual confissão pública, antes de movida por interesses comerciais e dada a idade do autor, seja ditada por um sincero sentimento de arrependimento. Mas eu não consigo entender, e por isso me declaro incapaz de perdoar. Acho até, contrariamente aos adeptos das filosofias do absurdo, que as tragédias quotidianas, as incomensuráveis manifestações da dor e as exibições do Mal só podem ser entendidas e perdoadas por uma qualquer Transcendência, eternamente misericordiosa e com uma infinita magnanimidade. Por isso o Mal absoluto só pode supor o Bem como instância transcendente onde se torna perdoável, assim se evitando o absurdo dando-se sentido à existência. É o único nível onde posso acolher as palavras da Drª Isabel do Carmo.
Perdoe-me a liberdade com que me dirigi a Vª Exª. Atenciosamente, com a máxima admiração,
xpto

17/08/06

Francis Obikwelu e Maria João Pires, por Francis Pires

Confesso que não me comovo pela razão, que afinal é minha, que tudo o que meta trapos nacionalistas, vulgo bandeiras, mais hinos e cerimónias protocolares me arrepia a pele e causa repulsa. Mas este nigeriano intriga-me. Melhor, este português de gema intriga-me e suscita-me uma profundíssima admiração. Para mim, é português quem quer. Ou devia ser. O mesmo deveria valer para as outras, todas, as nacionalidades. Ninguém deveria ser discriminado à nascença por uma casualidade que não pôde influenciar, por uma circunstância que não atenta ao mérito: o local onde se é parido. Se as históricas discriminações com base na cor da pele ou na confissão religiosa foram, e são, horrorosas, muito mais o é a segregação - mais condenação do que segregação para a maior parte das trágicas histórias do Terceiro Mundo - com base na naturalidade. É inaceitável para qualquer mente sensível. É imoral, por exemplo, que um primeiro-violino da Orquestra de Kiev ande agarrado a um martelo pneumático nas obras da construção civil, sem qualquer protecção do Estado, sem Segurança Social e sujeito aos abusos dos empreiteiros que aproveitam a mínima fragilidade alheia para facturar mais uns tostões, enquanto as nossas escolas estão infestadas de diplomados uma qualquer academia chunga a ensinar as crianças a soprar no pífaro e a cantar o solidó. E os papéis não se invertem, como deviam, por causa de um bilhetezinho, dito de identidade, que confere a um o privilégio da nacionalidade e a outro a maldição da clandestinidade!
Por isso, a história de Francis Obikwelu é a mais bela e dignificante de todas as figuras públicas que enxameiam o nosso quotidiano. Numa certa medida, pelo seu passado pessoal, e dada a projecção mundial que atingiu, Obikwelu é o mais digno de todos os portugueses, isto se a dignidade resultar, como é bom que resulte, de um misto de mérito pessoal, sucesso, preserverança, trabalho, luta contra a adversidade e a injustiça, humildade e dedicação. Nenhum benefício recebeu do berço. Fosse a família ou a Pátria. Ninguém o ajudou, lutou contra todos. Teve a coragem de desertar e abdicar do país no qual não se reconhecia - a Nigéria. E fez-se ao caminho, sozinho. Humilde, empregou-se na construção civil. Uma cidadã inglesa a residir no Algarve reparou nas suas capacidades e recomendou-o a um amigo que era treinador de atletismo. A partir daí foi um galgar de degraus até ao topo do atletismo mundial onde é uma das figuras. Treina-se em Espanha, porque cá não há condições. Entretanto, no Algarve onde Obikwelu transportava baldes de massa dando serventia na construção civil, vai ganhando teias de aranha aquele que é o maior monumento à estupidez nacional: o Estádio Intermunicipal Faro-Loulé. Ou seja, para o Obikwelu correr não há pista, mas para o Farense, o Louletano, e quem sabe o Almansilense, que agonizam nas divisões secundaríssimas do futebol luso, lá está um estádio com 30 mil lugares, que só com os burros todos do país se encheria e exíguo se revelaria. Brilhante!
Como é fácil de ver, Obikwelu não deve nada a este país. O país tratou-o mal, explorou-o, não lhe soube descobrir o talento. Ainda agora, o destaque que deram às suas vitórias não é de modo nenhum condizente com a dimensão dos seus feitos. Lembremos que o país delirou quando o Monteiro da Fórmula 1 subiu ao podium da mais vergonhosa corrida automobilística de que há memória. Quando todos desistiram, como forma de protesto contra o despotismo da organização, o Monteiro correu, com mais dois fura-greves e ficou em terceiro. O país foi delirou, desfraldou os trapos e cantou os hinos da praxe. Recordo também como o Pedro Lamy que uma vez, se a memória me não falha na Austrália, ganhou um pontito numa corrida, e logo o Sampaio lhe deu uma medalha. Foi o delírio. Com o Hóquei em Patins, o mais paroquiano dos desportos, cada vitrória dos moços é cantada como se fosse um feito épico. Livramento e Ramalhete são Aquiles Ajaxes na memória da imprensa especializada. E ninguém, nem Joaquim Agostinho, nem Carlos Lopes, nem Rosa Mota, nem Eusébio, nem 10 Figos, alguma vez lograram o que este digno português de nome nigeriano agora alcançou. Se Lopes e Mota têm pavilhão com o seu nome, Obikwelu, no mínimo, mereceria que o Pavilhão Atlântico fosse rebaptizado Pavilhão Obikwelu! É que ele é duplo campeão europeu dos 100 e 200 metros, uma das mais difíceis e competitivas especialidades do desporto mundial. Nos 100 metros é, aliás, bicampeão, pois que nos últimos campeonatos quem lhe ganhou foi batoteiro e o título foi-lhe retirado. Lembremos que Agostinho se encharcava em doping e tal não lhe impediu a consagração pública. Além dos feitos olímpicos que já alcançou também, Francis Obikwelu, estando ainda no activo, é já o maior desportista português de todos os tempos. Este facto parece não estar a ser devidamente salientado. O país , mais uma vez, não é justo. E, todavia, Francis insiste em correr sob as cores nacionais e a desfraldar o trapo verde-rubro após cada uma das suas retumbantes vitórias. Para mim, isto é um enigma.
Entretanto, a excelentíssima senhora Maria João Pires nasceu num país, apesar de tudo, civilizado. Teve berço. Nunca foi forçada a trabalhar nas obras. Teve as condições pelo menos suficientes para se tornar uma das mais importantes e consagradas executantes musicais da actualidade. Devo dizer que tal também não me comove. Aprecio-lhe o talento como se ela fosse polaca, nigeriana ou servo-croata. É esta uma das características da actividade artística: a sua universalidade. Quando se atinge um certo patamar de qualidade e excelência, o artista e a sua arte tornam-se universais, libertam-se das circunstâncias temporal e espacial. Eternizam-se. Por isso, e por exemplo, Picasso não é espanhol, nem Rostropovich é russo, ou americano, ou israelita. É do Mundo! Por isso, em Salzburgo, por exemplo ainda, não há cerimónias protocolares de entrega de medalhas, nem hinos cantados.
Por estas razões, acho irrelevante que Maria João Pires se tenha ausentado para o Brasil, para a Baía. Eduardo Prado Coelho disse que era um belo sítio para viver. Não sei se quis dizer para se «exilar», eu digo que é um belo sítio para amuar. Porque a senhora está amuada. Declarou-se zangada com Portugal, bateu com a porta e foi para o Brasil. E porquê? Porque, segundo a genial pianista, o Estado não a apoia. Ora, o Estado não só a apoia, com apoios que davam para alimentar e treinar para aí alguns mil Obikwelus, como não vê a justificação dos gastos para os apoios fornecidos. Como referiu o mesmo Eduardo Prado Coelho, nem um simples Deve / Haver rabiscado em papel de embrulho, à maneira das antigas mercearias de bairro, a senhora se dignou apresentar. Amuou, declarou-se cansada do país e debandou para o Brasil, não sem antes descansar os indígenas garantindo que o projecto de Belgais prosseguirá. Esperemos que sim e com as despesas justificadas. Se quiser continuar as sustentar-se com fundos públicos, claro. Pois passe muito bem, minha senhora, continue Vossa Excelência a ser o que é, uma das mais geniais pianistas da actualidade, que nós cá continuaremos a sobreviver, como o temos feito melhor ou pior ao longo do último milénio, quase sempre sem a presença de Vossa Senhoria. Teremos certamente o prazer de acompanhar a nossa existência futura e próxima ao som das suas magníficas interpretações que certamente a senhora não deixará de gravar para nosso (do Mundo, entenda-se) usufruto. Prometo que nas próximas Olimpíadas assistirei aos sprints de Obikwelu ao som das suas interpretações de Brahms, Debussy, Chopin ou Mozart, conforme o que Vossa Senhoria entender mais apropriado e se, por maravilhoso acaso atentar neste desabafo e se dignar adiantar uma sugestão. Como é óbvio.
Para finalizar, uma perguntazinha às autoridades competentes: a senhora não é acusada porquê? Porque não vai responder a tribunal? Se fosse eu a não dar justificação a uns subsídios atribuídos no valor de uns largos milhares de contos, a coisa ficava assim? Podia ir para o Brasil descansado que ninguém me impedia?

16/08/06

Perdoável ou Não?, por Simão Visentálo

Li agora no «Público» uma breve notícia que me perturbou: Gunter Grass apresta-se para editar uma auto-biografia onde confessa, 60 anos após, que pertenceu às SS! Isso mesmo, às SS! Não foi à Juventude Hitleriana, na qual Ratzinger militou, cuja filiação era obrigatória para todos os jovens e, apesar de os submeter a treino nacionalista e militar, não tinha comparação possível com as SS. Estes eram a guarda pretoriana do nazismo, o seu núcleo duro. Racistas, anti-semitas, apóstolos do Holocausto, exterminadores impideosos. Eram submetidos a um treino duríssimo após recrutamento exigentíssimo e criterioso. Não era quem queria, embora querer fosse determinante. Grass confessa que nunca se interrogou acerca da morte de um tio ou do desaparecimento de um professor. Não tinha 12, nem 14 anos, tinha 17 anos. Aos dezassete, quem entra para as SS não o faz inconscientemente. Como pode Grass esconder esta horrorosa nódoa do seu passado durante tanto tempo? Ninguém sabia? Como é que ninguém o denunciou? Está arrependido? Como conseguiu viver com a memória do nazismo? Não o equiparem a Junger ou a Riefensthal. Não! As SS é outra coisa! É perdoável? Julga-se? Põe-se uma pedra sobre o assunto?

15/08/06

Um Espectáculo Litúrgico, por Big Jagger

A 12 de Agosto, no Estádio do Dragão, quase 50 mil pessoas ouviram Sir Mick Jagger falar em português: "É muito bom tocar nesta linda cidade pela primeira vez." Os bilhetes não esgotaram, apesar da imensa mole humana, e foi lindo ver os candongueiros a tentarem vender os bilhetes desesperadamente ao preço de custo.
A primeira parte coube aos Dandy Warhols. A banda, ainda que já consagrada, era-me desconhecida e foi uma agradável surpresa. O Estádio estava então pela metade. Houve quase uma hora de espera até que os Stones entrassem em palco. Entretanto, a malta do merchandising oficial vendia de tudo: pins dos Stones, T-shirts dos Stones, porta-chaves dos Stones, bonés dos Stones, luzinhas cintilantes, com o logotipo dos Stones, etc. Nos bares vendiam-se hot dogs e coke, cerveja e hot dogs, tudo a preços exorbitantes. A longa espera estava calculada. Por mais que o público assobiasse e aplaudisse de forma cadenciada a exigir a entrada de Jagger&Richards, a verdade é que o esforço era vão. Eles são profissionais e são míticos. Entram quando quiserem. Assobiem se bem entenderem e comprem T-shirts, bebam coke e comam hot dogs. Também podem enviar um sms para o 4004 com a palavra "Stones" e habilitam-se a assistir ao espectáculo de um varandim especial montado no palco principal. Aquilo é uma máquina de fazer dinheiro. Mas há uma garantia: qualidade e profissionalismo.
Enquanto isso, o relvado ia enchendo. A cada um dos lados, sob as torres de iluminação, montaram-se dois pequenos estrados com cadeiras de plástico para os VIP's! Está mal! É uma idiotice. Ou se é VIP e não se vai para a relva para junto do povo, ou se é povo na relva sem qualquer tratamento VIP. O misto é assim como comer sardinha assada em cerâmica de Limoges com talher de prata e vinho a martelo em cristal de Veneza. De repente, as luzes apagam-se, ouve-se o riff de Keith Richards e logo a seguir entram diabólicos, com Jagger à frente, o écran luminoso num vórtice colorido de imagens: Jumpin' Jack Flash! É o delírio. O som está excessivamente eléctrico, ensurdece, mas ninguém se importa. O ecran continua a fazer desfilar uma imagem de um Big Bang cósmico numa espiral de imagens retalhadas que vai desaguar no cover do último album da banda, «A Bigger Bang» que é um remake da obra de Joseph Wright (1734-1797), A Philosopher Lecturing with a Mechanical Planetary. A seguir, sem deixar passar o impacto inicial, e ainda no mesmo ritmo estridente, vem o It's Only Rock'n'Roll. O espectáculo ainda agora começou e já valeu a pena. Depois, o primeiro tema do último album: Oh No Not You Again. Além desta, e do último CD com 16 originais, apenas tocariam mais dois: Streets of Love e Rough Justice. No geral, o show foi servido à base de reinterpretações de temas históricos, com grande liberdade de improvisação e novas versões, especialmente no final quando, no segundo encore, tocam Satisfaction numa versão apoteótica, orgástica, com fogo de artifício a ejacular luz de ambos os lados do palco, com o coro a repetir o refrão numa versão Soul, Jagger a menear-se como se fosse uma Josephine Baker e Richards a divagar na guitarra com Ron Wood. O alinhamento foi mais ou menos este: Let's Spend The Night Together, Ruby Tuesdey, Tumbling Dice e Midnight Rambler. Segue-se uma magnífica homenagem a Ray Charles, aparecendo a foto no painel gigante, e um dueto extraordinário com Lisa Bishop: The Night Time is the Right Time. Inesquecível. Se aquilo fosse uma orgia, que não era, era mais litúrgico, o público já estaria todo molhado para aí com quatro ou cinco orgasmos em cima. Era tempo para o descanso, antes de uma segunda investida. Nessa altura reparei num hábito completamente idiota, além daquele de ir para os concertos com bandeiras de Portugal, que é o de ver o espectáculo através do minúsculo visor do telemóvel! É completamente idiota, mas é verdade: há milhares de pessoas que vão com o telefone, ou com a máquina fotográfica digital, e passam o santo concerto a espreitar para o monitor LCD e a disparar sucessivamente como se aquilo fosse um safari fotográfico! Não consigo entender. É a altura de Keith cantar o seu par de canções, enquanto Jagger recolhe aos bastidores para um justo descanso. Richards, que recusou ser Sir, não falou em português. Ele não é simpático, nem cavalheiro. Limita-se a um «It's nice to be here», mas acaba por não resistir e acrescenta: «What the hell... it's nice to be everywhere!» e arranca com Slipping Away e Before They Make Me Run
A seguir vem a procissão. Como é tradicional nos concertos dos Stones, a banda atravessa a relva até ao topo oposto ao palco principal. Normalmente vão a pé e aos pulos. Desta vez, porém, do palco principal destacou-se uma plataforma rectangular que se sobrelevou ligeiramente e para onde previamente o staff empurrara Charlie Watts com os seus tambores e, depois, ao som de Miss You, o rectângulo, subitamente iluminado com luzes a todo o perímetro, deslizou suavemente como se fosse um andor. Jagger parecia a imagem de Nossa Senhora de Fátima aos pulos, Richards e Wood esgalhavam as guitarras e Watts lá estava a tamborilar fleumático e paciente como se fosse uma competentíssima babby-sitter. No final do percurso, e por entre a ovação delirante do público bafejado pela atenção, tocaram She's So Cold e regressaram com uma electrizante Honky Tonk Women, tal qual a Rainha Santa Isabel que regressa ao alto de Santa Clara. Cumprido o trajecto, acendem-se as luzes e uma enorme língua insuflável apareceu no palco, lambendo o público num cunnilingus monumental! Estava tudo no ponto. Se fosse uma orgia, que não era, era mais uma liturgia, estaríamos todos prontos para a enrabadela final. E lá veio ela: SYMPATHY FOR THE DEVIL! As luzes vermelhas, Jagger de cartola vermelha e casaca de veludo vermelho, no cimo do palco dois enormes lança-chamas cuspiam diabólicas labaredas alaranjadas. Jagger corria que nem um louco, de um lado para o outro do palco, trepava ao varandim central e incitava o público: UUUH-UUUHH, e o público respondia, gemendo satisfeito e saciado: UUUH-UUUHH! Richards e Wood esgalhavam as guitarras enquanto Watts, paciente, assistia impávido batendo as baquetas. Prostrados, enfartados de gozo, todos os membros do público se preparavam para respirar quando soam os acordes de Brown Sugar. Oh, meu Deus, aí vem o gajo outra vez, cheio de pica!, diríamos nós se aquilo fosse uma orgia, que não era, era mais uma liturgia. E lá voltávamos nós a berrar em uníssono o refrão. Acabou-se. O encore foi o anunciado e previsto. Além de Satisfaction, You Can't Always Get What You Want, cantado num coro desafinado de cinquenta mil vozes. Aplausos e ponto final. Fogo de artifício, uns efeitos especiais e escusam de bater mais palmas, de pedir mais encores. Entraram às dez horas certas, quando quiseram e saem agora. São profissionais. O espectáculo acabou. Não há afectos, além das artificiais frases feitas de Mick Jagger ditas em português que, por artificiais, não são nada afectuosas. Se aquilo fosse uma orgia, que não foi, foi mais uma liturgia, dir-se-ia que foi uma sessão magnífica de sexo profissional. No final é pagar e vazar. Não há pequeno-almoço, nem veremos Jagger desmaquilhado nem Richards em pijama.

28/07/06

Uma Ideia para um Grande Negócio, por Taylormaker

Começo por dizer que este texto deve ser lido pelos administradores das empresas cervejeiras e de refrigerantes. Ofereço-lhes de mão-beijada um autêntico ovo de Colombo. À borla! Não vos peço nada em troca. Basta pôr em prática a minha genial ideia e vos garanto a decuplicação da facturação no prazo de um ano! É garantido. Meto a minha cabeça no cepo, ou qualquer outra parte da minha anatomia. Duvidam? Leiam até ao fim e verão. A minha ideia é tanto mais genial quanto não exige nenhuma alteração nas linhas de montagem, nos circuitos de distribuição ou nos processos de produção e fabrico. É apenas uma questão de imagem. A ideia ocorreu-me de repente. Assim como ao Arquimedes ou ao Newton. Nós somos assim, dados a relampejos súbitos. De que se trata afinal? Simples, muito simples. Comecei por reparar que a evolução verificada nas últimas décadas ao nível da mentalidade e da sexualidade tende para a afirmação de uma cultura hardcore assumida e descomplexada. Vi outro dia nos escaparates uma biografia de Jenna Jameson, numa excelente edição com bom papel, capa lustrosa e fotografias a cores. E sabem que mais? Achei natural! A edição não estava escondida atrás de uma banca numa papelaria sombria numa rua esconsa de um bairro de má reputação. Não, estava no escaparate da Bertrand. Em destaque. Vi depois a mesma obra na FNAC e na Almedina. Comecei então a prestar atenção a estes indícios que preanunciam uma mudança de atitude mental. Reparei em muitos outros livros. A Taschen, por exemplo, editou uma obra histórica que compila algumas das mais importantes capas das revistas porno das últimas décadas. Tudo explícito. Nos clubes vídeo e nas lojas de DVD os filmes porno aparecem às claras e com grande destaque. Bares de sexo ao vivo há em todo o lado, e não me refiro aos bares de strip. O Alexandre Frota é pouco menos do que um herói nacional, admirado por adolescentes e donas de casa. Pela TV, no horário mais nobre ou no mais insuspeito horário matinal, fala-se de sexo hardcore e mencionam-se os nomes dos filmes e actores. Os festivais do sexo fazem-se em todo o lado com promoções no telejornal, nas revistas femininas e são visitados por milhares e milhares de pessoas. O DVD do making-off do «Garganta Funda» é um sucesso. As sex-shops proliferam, doutores e engenheiros entram e comprem sem segredo os acessórios mais estranhos e bizarros. Dos videojogos e da internet nem vale a pena falar. A cultura porno-pop está aí já triunfante.

Ora foi aqui que eu me lembrei de uma enorme oportunidade de negócio. Cerveja porno! Voilá! Contrata-se uma estrela porno, uma Jenna Jameson seria o ideal mas, na impossibilidade, há milhares e milhares de estrelas consagradas ou a consagrar disponíveis para darem o corpo por este projecto. Depois, pegava-se na moça e levava-se para a linha de montagem. Aqui, a senhora teria que se empenhar. Cada garrafa passariapor um ou vários dos seguintes locais:

a) lábios vaginais,

b) pela depressão inter-mamária com ou sem contacto pelo mamilo,

c) pela região inter-nadegal,

d) o gargalo da garrafa seria abocanhado como se simulasse um fellatio

e) etc.

Depois, e após a edição de uma primeira série experimental limitada e destinada a testar o mercado, seriam imprimidos os rótulos. Em cada um dos rótulos atestar-se-ia a autenticidade do produto anunciado. Cada rótulo seria numerado e assinado pela senhora e por um elemento da direcção da empresa. Digamos um director de marketing ou pelo provedor do utente, por exemplo. No contra-rótulo colocar-se-ia até uma fotografia da senhora em plena acção laboral. Todo o processo poderia ser filmado, fazendo-se do facto boa publicidade, não apenas para garantir que não existiria publicidade enganosa como até se poderia comercializar o filme posteriormente. Conforme a reacção do mercado assim se definiriam os preços de cada variante e se poderia alargar a estratégia a outros mercados mais bizarros e até a outros nichos, integrando trabalhadoras em maior quantidade e diversidade. E, claro, a versão para mulheres e homossexuais com as garrafas a passarem nos colhões, ou com a carica a ser afagada, garantidamente, pelo prepúcio de um qualquer discípulo do John Holmes!

Quem sabe não será um dia possível, com a maior das naturalidades, um de vós, caros leitores, refastelado numa esplanada da Praça da República, responder ao solícito empregado quando ele vos interpelasse:

- Então, sotôr, o vai ser hoje?

- Olhe – responde o leitor - traga-me uns tremoços e uma Superbock Vaginal.

- Vaginal não temos, ó doutor, acabou-se há pouco.

- Traga-me uma intermamal então. Mas fresquinha…

- Isso acho que ainda há. Quer de quem?

- O que é que há?

- Ora, mamais… temos da Linda St. Croix, da Laureen Love e creio que ainda há qualquer coisa da April Flowers.

- Olhe, pode ser essa, a April Flowers. Se não houver traga-me uma com o gargalo chupado pela Jenna, é mais clássico..

- Certamente, ó doutor, é para já.

Será para já?

17/07/06

Vendas


Não hesite! Compre já! Aproveite esta fantástica oportunidade e, por um preço imbatível, adquira um pau de stripper para usar no conforto do seu lar e poupe uma fortuna. Já imaginou o que gasta em privates ou em table-dances? Poupe o dinheiro que gasta em taças de champagne e vodka-martini a preços verdadeiramente exorbitantes. Agora, em sua casa, tem a oportunidade de assistir a shows privados de strip-tease sem gastar um tostão. Basta adquirir o equipamento que lhe apresentamos. Podemos acompanhar a encomenda de uma chibata, para convencer as esposas renitentes, ou de uma jovem boazuda, no caso de a esposa ser muito renitente*. Não perca tempo, compre já! Siga o link. Entregas ao domicílio.

* Neste caso, acresce o pagamento do total de bebidas consumidas, conforme preços constantes do catálogo. O show está sujeito à aplicação das tabelas em vigor. Não inclui extras, nem despesas de representação ou deslocação. Aos preços apresentados pelas nossas colaboradoras acresce o IVA À taxa legal em vigor, mais deslocações e seguros obrigatórios. As ucranianas são 20% mais caras do que as brasileiras, dada a sua apreciável formação cultural e vasta erudição


15/07/06

Abra-se!, por Sancho Lupa

A Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, cancelou há dias, em cima da hora, a abertura do túmulo de D. Afonso Henriques. A antropóloga da Universidade de Coimbra, Eugénia Cunha, propusera-se descobrir as ossadas, liderando uma vasta equipa internacional e multidisciplinar. Cumpriu todas as formalidades e autorizações legais: da Universidade, do IPPAR e da Diocese, o que é muito significativo, direi já porquê. Quando a antropóloga se aprestava para destapar a arca funerária (segundo alguns, a urna terá sido mesmo deslocada), eis que chega a ordem de cancelamento emitida pela ministra. Refeitos da surpresa, acatada a ordem, veio a saber-se que a titular do Ministério da Cultura não foi pessoalmente consultada, pelo que, sentindo-se ultrapassada, terá ordenado a suspensão. Os prejuízos foram enormes, pois que aparelhagem sofisticadíssima estava já requisitada. Além disso, uma nova calendarização do projecto afigura-se difícil e dispendiosa, dado o facto de a equipa científica reunir membros de diversas instituições universitárias. Compatibilizar disponibilidades não será fácil. A ministra, porém, entendeu que o facto de não haver dado autorização expressa é motivo suficiente para tanto transtorno. Eu acho que não, acho que a ministra não tem razão. Não discuto a necessidade de autorização governamental. Parece que noutros países onde projectos semelhantes têm sido desenvolvidos, como em Espanha por exemplo e em relação às ossadas de Colombo, tal não é exigido. Acho até que a razão assiste à Ministra quando se declara surpreendida. A culpa, contudo, é do IPPAR e dos seus dirigentes. A antropóloga remeteu o processo e os requerimentos formais à sede própria: o IPPAR. Obteve aprovação científica pelos órgãos da Universidade e anuência simbólica das autoridades religiosas. Competia aos dirigentes do IPPAR cumprirem os trâmites hierárquicos e submeter o processo ao Ministério da Cultura. Não o fazendo, incorrem em falta e justificam procedimento disciplinar. A Ministra deve iniciá-lo. Desconfio que o não fará. Depois, a Ministra deveria analisar o pedido de autorização com carácetr de urgência e só cancelaria os trabalhos se existisse matéria grave ou suspeita de danos irreparáveis. Não sendo o caso, como não era, nada justifica a decisão tomada.
No meio desta baralhada, e além do prejuízo causado a quem foi cumpridor, ainda se colocou em causa foi a pertinência científica do projecto. Apesar do prestígio dos nomes envolvidos, apesar do enquadramento institucional, apesar dos pareceres de autoridades eminentíssimas como o prof. José Mattoso que atesta a validade do projecto, há quem ache desprezíveis os intentos. Há quem diga que é irrelevante saber a altura de Afonso Henriques, as suas doenças, as lesões e maleitas, o seu aspecto fisionómico. Há quem declare a desnecessidade de tudo isto, incluindo o que se possa vir a apurar sobre as dietas alimentares ou a colheita de amostras de DNA. Eu, na minha humildade, concordo com quem assim pensa. Tudo isto é desnecessário e não lhe acho qualquer pertinência. No entanto, acho que é a mais importante irrelevância da História de Portugal e, por isso, deve ser cometida. Deve-se abrir o túmulo e apurar tudo sobre o rei. Não porque tenha importância em si, mas porque tal acto fará do rei simples objecto de curiosidade e análise científica. E isto é importantíssimo. A carga simbólica que envolve o rei dissipar-se-á depois de, durante quase um milénio, ter sido objecto das mais diversas devoções e mistificações. Desde os discursos restauracionistas, a cargo dos frades alcobacences, que por óbvias razões ideológicas mitificaram a memória do Fundador, até ao nacionalismo romântico e liberal que, em Oitocentos, encontrou no estudo das origens a raiz da identidade nacional em construção, até ao tradicionalismo contra-revolucionário protagonizado por D. Miguel que chegou mesmo a desenterrar as ossadas do rei em quem via o símbolo máximo da autoridade cuja preservação se impunha defender contra o liberalismo ameaçador, até ao catolicismo mais beato que chegou a propor e a iniciar um processo de canonização do rei numa era que a Igreja se via ameaçada pelo processo de secularização e laicização da sociedade, sem esquecer a sobreposição que o providencialismo historicista, autoritário e nacionalista do Estado Novo que promoveu uma sobreposição interesseira entre a memória do rei e a imagem de Oliveira Salazar. Após a revolução de Abril, a memória do rei sofreu um processo de depuração pela pior via: o esquecimento.
Agora, por fim, as ossadas parecem remeter-se à sua condição: ossos estudáveis. É curioso que, pela primeira vez na História longa das ossadas, de quase um milénio, elas se considerem pela primeira vez como simples ossadas. O olhar científico, a desideologização dos tempos, promove esta nova abordagem, a não ser que consideremos, e é essa a minha opinião, que esta cientificização das relíquias é em si uma ideologia. Assim, o que é muito curioso e significativo é que as autoridades eclesiásticas tenham aceitado pacificamente que o féretro fosse objecto de banalização ao constituir-se como objecto de estudo, ao passo que as autoridades civis que muito recentemente elevaram os túmulos régios de Santa Cruz à dignidade de Panteão Nacional, tenham requerido tantas formalidades e exigido tanto rigor no processo, alegando a delicadeza do assunto, o que parece demonstrar que as ossadas passaram da tutela religiosa da Igreja Católica para a tutela cívica do Estado. Assim posto, a recusa ministerial é uma forma de apropriação simbólica do património quase milenar das ossadas afonsinas.

Foto

12/07/06


1946 -2006

10/07/06

A Última Copa, por João Bocejo

A Itália ganhou. Perderam a França, o Zizou e o futebol. A França ainda bem que perdeu, o Zizou merecia melhor despedida o futebol perderia mesmo que a França ganhasse. O futebol perderia se a Alemanha ganhasse. Ou Portugal. O mesmo se acaso o Brasil ou a Argentina lograssem o título. Ou qualquer um, à excepção de uma nação africana. Aí sim, aí o futebol voltaria a encantar-me. Confesso que ando desencantado com este desporto, muito particularmente com os campeonatos do mundo. Não falo das suspeitas de manipulação e corrupção. Falo do tacticismo. O jogo está monótono, medroso, maçador, aborrecido e sonolento. Em 120 minutos há dois ou três remates para cada equipa. O resto é ansiedade e nada mais. Não há resquício de espectáculo. Não fora a memória que guardo de grandes campeonatos passados, uns testemunhados, outros apenas vistos em diferido com décadas de permeio, e o jogo não me atrairia minimamente. Compreendo os americanos que, em face das euforias europeias e sul-americanas, bocejam de tédio e perplexidade. O bocejo americano é tão emocianante como a taça Jules Rimet. O preocupante é que isto não é de agora. Desde o Itália 90, ao USA 94 e o Coreia / Japão 2002, com a louvável excepção do França 98, os campeões são indignos, as competições são chatíssimas, não há chama de glória, não há heróis, não há nada de memorável. E porquê? Porque razão o campeonato se tornou um longo bocejo, à excepção do França 98? Eu tenho uma explicação.
O encanto do jogo não é inerente ao jogo, é um acrescento, um suplemento encantatório. Quando inventado, era atlético e tacticista. Os sul-americanos, e muito particularmente os brasileiros, sobrepuseram a fantasia à táctica. A raiz africana e o factor-favela, entre outros aspectos determinantes, fizeram do jogo o espectáculo mais popular do planeta. Foram os anos dourados do Brasil e do Uruguai. O campeonato do Mundo conheceu os seus anos de glória. A par destes sucessos, e por causa da popularidade do jogo, o campeonato tornou-se alvo da cobiça política dos nacionalismos exacerbados. Não apenas dos ditadores, que nunca desprezaram a ocasião para alardearem a idiotice do nacionalismo imperialista. Francisco Franco teve, em 1964 e em casa, a oportunidade de, através de uma roubalheira histórica, humilhar os soviéticos na final. Não foi um Mundial, foi um Europeu, mas se o Caudillo estivesse à espera de um Mundial, ainda hoje era vivo e estava sentado.... à espera. Com outro alcance, já o inspirador Mussolini, mais do que a Itália, vencera em 1934 e 38. De igual modo, a Argentina dos Coronéis roubou indecentemente o Mundo em 1978. Se a roubalheira agrada aos ditadores, os democratas também não desprezaram o Campeonato do Mundo para exibirem as suas virtudes nacionais. Foi o caso da Alemanha reconstruída do pós-guerra que se reabilitou em 54, com uma roubalheira épica, às custas da Hungria. A RFA voltaria a ganhar em 1974, com justiça é certo, sendo que o derrotado, mais do que a Holanda, foi a RDA, incapaz de ombrear com o gémeo capitalista. A Inglaterra de 1966, contra a Alemanha, exibiu o seu chauvinismo com uma soberba autárcica e imperial. Poucos anos após aderiam à CEE. Hoje, permanecem eurocépticos e nunca mais ganharam nada.
A maior demonstração, e mais genial, de manipulação do jogo pelo nacionalismo foi o México 86. Mas, e isto é muito importante, a vingança nacional da Argentina face à Inglaterra, depois da derrota das Malvinas, foi feita com a mais justa batota da história do futebol, a célebre mão de Deus de Maradona. Só que, e a diferença é abissal, o aproveitamento não foi atlético , nem esmagador, nem descarado. Foi sim, mais uma vez, encantatório e apaixonante. A guerra quixotesca que a Inglaterra fez nas Malvinas, vingada por Maradona, foi um anacronismo idiota, pois mostrou o esgotamento do paradigma imperial e do conceito de soberania que vingou no mundo ocidental nos últimos 200 anos. De então em diante, a globalização, a miscigenação, as migrações, o reoordenamento das fronteiras e o realinhamento dos grandes blocos estratégicos, com a reunificação alemã, a implosão soviética, a balcanização de muitas regiões do globo, a criação de um espaço europeu, a clivagem civilizacional com o Islão, entre outros factores, vêm mostrar como o paradigma moderno do Estado-Nação está em desagregação. Ora, os jogos do Campeonato do Mundo assentavam sobre o embate de equipas nacionais. A sua emoção e o sucesso que alcançaram resultavam dessa condicionante. Esgotado o conceito, o jogo tacticizou-se. Foi a era dos Itálias 90, USA 94 e Coreia /Japão 2002. Com a honrosa excepção do França 98. Justamente a equipa mais multinacional e multicultural de que há memória na história da copa. Foi a equipa adequada ao seu tempo: não era uma equipa nacional. Daí a excepção. Outras selecções aceitaram esta imposição moderna e desataram a naturalizar jogadores. Deco, Marcos Senna ou Camoranesi são apenas alguns exemplos, entre muitos outros.
O campeonato que hoje terminou, mais do que a derrota da França, a cabeçada e correspondente expulsão de Zizou, ou a vitória da Itália, mostra como o jogo, já não impulsionado por pulsões nacionalistas, não é mais do que um maçador exercício calculista e tacticista. A asfixia de Ronaldinho e a gordura de Ronaldo foram os factos mais relevantes, por sintomáticos. Por mim, é o fim anunciado. O Campeonato do Mundo não tem futuro.

05/07/06

POR-TU-gaaaaal...., por Cidadão do Mundo

Hoje é dia de meia-final. Pela segunda vez na história dos campeonatos do mundo de futebol, Portugal joga a possibilidade de aceder à final.
Imaginemos que o resultado dependeria, não do apoio prestado através das bandeiras penduradas à janela, mas.... do número de mamadas que cada cidadão nacional fizesse num cidadão do país adversário! Isto é, a vitória da selecção nacional resultaria do número de mamadas que os "tugas" fizessem em cidadãos franceses! Não esqueçamos que a França tem cerca de 60 milhões de habitantes! O desequilíbrio é enorme! Seria uma espécie de Aljubarrota porno-futebolística. Mas nós somos os maiores! É ou não é verdade? Até onde vai, caro leitor do Porco, o teu apoio à selecção? Serias capaz de participar neste grande empreendimento nacional? Ou és um traidor, um vende-pátrias?

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