17/09/07

Conversa Patriótica de Café, por Cão

Derivadó facto do Scolari andar a fazer da Selecçãogue maspéce de matraquilhos de praia com sotaque baiano, ameaçando inclusivé trocar à gente a Senhora de Fátima p’la de Caravajo ou lá como se chama a Fátima dos brasileiros, prontos, é assim, a gente estávamos um bocado pó indignos com isso e mais coisas, o caso Medi e assim, qué-se d’zer, cenas ca malta de cá não curte, indagora no Mundial de Ragby e no Euro de Básquéte a gente éramos só nós, prontos, aquilo do Obiquevelo também foi uma falsa partida que fizeram à gente mas o Évora lixou os gajos e a filha do Venceslau Fernandes tamãe.
Modos que, é assim, tá certo co Luxemburgue já não dá pa todos, mas os brasileiros tamãe querem mazé, prontos, calor da noite e assim, depois vai-se a ver os estádios do Euro-2004 e a gente não ganhámos à Grécia e eles não tinham brasileiro nenhum e chamaram à gente mas foi um Figo, o euro é que veio lixar isto tudo, sagente for a ver uma spébóque agora nunca é menos de centicórenta paus em lado nenhum e é um mimo, café bebemos em casa de cevada.
Telemóveis e a porra tamãe é tudo munto bonito e munto giro, fotografias e o caraças dá pa tirar tudo, mas ele é sempre a carregar no muntibanco, um gajo no trabalho é que tem de ligar pó encarregado da obra e zunga, carrega no muntibanco e é se queres.
As mulheres da gente agora tamãe nem sessenta contos tiram ó mês a fazer de caixa no com-tenente e é se queres a recibo sem segurança social pubaixo da mesa, ora pubaixo tá o cão na cena de cair um osso, só falta agora tá-se mêmo a ver é o Liedson e o Sócrates, não é este do fax, é o Sócrates quera capitão do Brasil no Mundial de 82 qué médico, esse é que podia vir em vez do Scolari, é assim, sempéra maizum, que salixe, pena é o Luxemburgue já não.

O Caso Dalai Gama, por Dalai Mama

O Dalai Lama voltou a Portugal para embaraçar, pela segunda vez, a pequenez dos nossos medíocres governantes. Todos estamos recordados de como ele foi excomungado pelo católico Guterres aqui há uns anos atrás. Agora voltou para fazer corar de vergonha o intrépido, o corajoso, o frontal, o arrojado, o homem de convicções (tudo encómios com que já o ouvi brindar-se a si próprio) primeiro-ministro, josé pinto de sousa. O mesmo político que enche a boca, constantemente, a proclamar a sua firmeza, o seu rigor, o novo homem do leme que não se desvia um milímetro da rota traçada e que afronta, corajosamente, os interesses estabelecidos (quais? O Belmiro? O Berardo? O Amorim? A TV Cabo? A PT? A CGD? A Banca? As cimenteiras? O Parlamento?), fez agora anunciar que, por dificuldades de agenda, não vai poder receber o líder espiritual Tibetano.

Tendo em conta a nossa própria história recente com Timor é lamentável. É vergonhoso. Pinto de Sousa não teve qualquer problema em deslocar-se à China com uma abundante comitiva. Apoiou, na ocasião, o estrambólico discurso do ministro pinho da economia que nos foi apresentar aos chineses como «o país da mão de obra barata». Mas agora não há agenda para o representante do povo tibetano, humilhado, espezinhado e chacinado pelo gigante chinês. Esta é a coragem de pinto de sousa que só engana quem quer ser enganado. Pinto de Sousa não recebe oficialmente o dalai, como é seu dever e obrigação, porque, pura e simplesmente tem cagufa da China. Simples e óbvio!

Entretanto, sua excelência, arranjou tempo para andar pelo país fora, ele mai-los 20-vinte-20 ministros a oferecerem computadores, aproveitando um generoso (para quem?) protocolo com a IBM. É o pensamento Valentim-Loureiro-dos-frigoríficos no seu último desenvolvimento. Prevejo um futuro radioso – qualquer dia ainda vamos ver o governo inteirinho e ao vivo a oferecer torradeiras ou micro-ondas num qualquer mercado próximo de si… É a propaganda em todo o esplendor da sua mediocridade. É a escala de valores deste governo sem valores.

Entretanto, arranjou-se maneira de receber o Dalai Lama no Parlamento. Sempre é melhor – pensaram os génios da propaganda governamental – que recebê-lo num hotel, como da última vez. Faz as honras da casa um homus-pê-esse, um exemplar da nova gente que, enfim, toca tudo, piano, bombo ou concertina, como é próprio da espécie, assim sopre o vento, o presidente da assembleia da república, jaime gama. E é por isso que este caso é muito mais o Caso Dalai Gama que o caso Dalai Lama.

15/09/07

Dancing Days, por John Tri-volta

Sempre tive para mim, enquanto fui jovem, que não há indicador mais fidedigno da nossa entrada na etapa etária de ex-jovem, na idade madura, na idade dos cótas ridículos e retrógados do nosso imaginário juvenil, do que começar a aprender a dançar.

Refiro-me a Dançar Dançar. Não a dançar dançar. Eu dançar dançar já dancei muito e com grande sentimento e empenho, sobretudo nas extintas States ou ETC., lendárias discotecas conimbricenses – como estou cerca de um grau geracional abaixo da restante vara de tapores, esses sim ex-jovens feitos e antigos, frequentava mais a States, já que a ETC. para nós jovens-jovens, era já coisa assim a modos que já a dar para a cótagem, aliás, era mais ou menos uma coutada dos fricólés “da pesada” (isto é, pesados), não obstante o bom som dos sixties e a róckalhada decente. Num lado ou noutro, porém: Saltava-se.

Mas isto foi há cerca de vinte anos, nos extintos anos oitenta. Do século passado! - Falar nostalgicamente de coisas que fizemos apaixonadamente “no século passado” é outro indicador evidente e irremediável de ex-juventude...

Entretanto muito mudou, como é bom de ser, e para o caso vertente da minha ocorrência, refiro-me mesmo a Dançar Dançar, e não aos saltos e encontrões violentos e desconexos a que chamávamos eufemisticamente dançar, ao som de Bauhaus, Cult, Talking Heads, Ramones ou Siouxsie and the Banshees. Muito mais próximo do que se poderá chamar uma dança decente e coordenada, eram por exemplo as danças das tribos mais convencionais, que procuravam outras pistas e outros ritmos; entre outros tugúrios da bétagem, na Scotch, ali na margem esquerda, mais a puxar para as Madonnas e os Michael Jacksons. Sons que apelavam a uma maior coordenação psico-motora e a um nível de sofisticação dançarina superior.

Quando passava temporadas veraneantes na aldeia, frequentava outros sítios de maior aprimoramento dançarino: os bailes. O Baile, aliás, dá matéria fascinante de poste… Aqui sim, havia o cuidado consciente e metódico de não desafinar o passo, ou pelo menos, de não calcar o parceiro(a). Aqui nem me atrevia a entrar na pista! Encostava-me ao balcão do bar ou a um canto e simplesmente aprendia. Aprendi muito mas não pus em prática.

De modo que a minha experiência nas pistas de dança se resumia basicamente a estes contextos. Até que… Até que, hoje, comecei a aprender (aprender a sério, observação e prática) a dançar danças de salão. Bom, não são propriamente danças de salão, o próprio casal de mestres bailarinos fazem uma certa demarcação: São Danças Latino-Americanas. Aulas de iniciação.

Desenrasquei-me, apesar do tosco historial e de todas as parceiras de dança que tive me criticarem (ou gozarem) os gestos emperrados e contidos, dizem que próprios dos europeus, povos regra geral com pouca expressividade corporal. Mas, não obstante ser um europeu perro, sempre me encantou a capacidade expressiva e criativa do corpo. A Dança! Do bailado clássico à kizomba, passando pelo trabalho de coreógrafos contemporâneos fabulosos como Pina Bausch ou por danças rituais como a dos derviches, passando por tipos como Gene Kelley, Fred Astaire, Ginger Rogers ou mesmo John Travolta. Pelos folclores riquíssimos das mais diversas latitudes! Passando em geral pela história, pelo mundo, há todo um universo fascinante de formas de dar vida ao corpo. De dar alma ao corpo.

Não é por acaso, aliás, que a Europa cristã, imersa durante séculos numa teologia social que abomina o corpo, o toque e o desejo carnal, seja tão pouco dada à dança... A dança, de resto, foi banida na generalidade da Europa católica como prática pagã durante a Idade Média. De resto, basta atentar na diferença, por exemplo, entre um Tango e os empertigados e frios Minuetos e Quartilhas dos bailes da nobreza e base da nossa tradição de dança de salão. Até o fado, a música tradicional urbana nacional por excelência, é música de ouvir sentado e estático!... A Valsa, por outro lado, já começou a abrir caminhos creio eu no sentido da paixão da dança. Além disso, apesar dos costumes vigiados pelo altíssimo, cresceram e multiplicaram-se pelo velho continente muitas tradições folclóricas populares bastante interessantes e belas.

Mas o facto é que os povos tropicais, sobretudo, desde sempre libertos de constrangimentos morais em relação ao corpo, têm uma expressividade corporal e uma abertura ao ritmo muito maior que a nossa: Aqueles corpos africanos ou sul-americanos são dança! E dançam, muito. A boa notícia, é que por estas bandas mais frias a moral já não é o que era e que há cada vez mais gente a tentar desenferrujar a musculatura e a aprender coisas como Salsa, Merengue, Son Cubano e outras exóticas artes do corpo. O corpo liberta-se. Até já há filas de senhoras em Lisboa a aprender a dançar no varão e tudo! As escolas de dança do ventre estão cheias, etc.. Sem falar nas missas dançarinas evangélicas, que também são um mundo fascinante.

Enfim, anda muita gente a dançar. Foi, então, neste contexto que tive hoje a minha primeira aula de danças Latino-Americanas. Devo dizer que gostei muito, pois, e que vou continuar. Foi uma experiência muito agradável. Gostei particularmente dos passos básicos da Salsa. Além disso soltei o esqueleto, dei uma alegria à cara-metade, fiz as pazes com a minha velhice e fiz exercício. É mau?

14/09/07

Há Dias Conheci Finalmente Um Gajo Que Come MegaMass, por Mike

No ginásio Basófias há uma enfiada de prateleiras cheias de MegaMass para vender. São boiões e bojões tamanho-família, alguns de 20 kg cada e meio metro de diâmetro, que se multiplicam em imagens de gajos musculados que fazem o Arnaldo Schwarzzenegro parecer um menino de coro. Tais bombas, prometem doses super-extra-turbo de creatina e outras merdunças terminadas em “ina” e em “oides”, que só de olhar enjoam e fazem dar um salto atrás.

Como todos, já conhecia aqueles bojões de mega-mass das horas de insónia, em que madrugada a dentro, se fica espojado no sofá a engolir os Mikes e os Melgas das televendas.

– Atão Melga, gostastes das três colheradas de Mega-Mass?
– Excelente Mike, já me sinto super-hiper musculado e com o brinde de quatro massajadores faciais ao preço super-hiper barato de 500€ o bojão, vou já comprar 300 unidades!
- É assim mesmo Melga, tu és a prova viva do bem que faz o Mega-Mass 3000 Turbo!

Pois, agora há pouco conheci uma pessoa, um atleta que come daquilo. E um dos verdadeiros, inchado de músculos e tudo e não um daqueles como eu, que de atleta só tem o pé. Ao vivo. Se não visse, não acreditava. O rapaz compra o Mega-Mass Super Turbo 3000 em bojões de 20 kg lá no ginásio, come, gosta e recomenda.

Os profs de ginástica que lá estavam na mesa, cascaram no rapaz e a discussão e argumentação que se seguiu seria de superior interesse se eu tivesse conseguido perceber alguma coisa dos beta-carotenos, radicais livres, creatinas e esteróides à volta dos quais os ginásticos se afadigaram. Por mim fiquei calado, afivelei um sorriso beato, e ali fiquei a apreciar extasiado uma manada de Mikes e Melgas, juntos e ao vivo, em cornada assassina. Que a creatina faz efeito, faz. - Boa, Melga. - Não me fodas, Mike!

13/09/07

O sentido e a morte, por Quem Sois

A morte é o tabu por excelência no ocidente. Instalou-se a noção de que falar da morte ou pensar a morte é algo de "mórbido", próprio de uma mente doentia e sem o sentido do pudor. Tal como outros povos e culturas contemporâneas, as sociedades antigas europeias, tenho para mim, tinham da morte uma mentalidade mais desdramatizada e despreconceituosa.
Pode parecer um paradoxo, mas a maior proximidade da natureza, dos ciclos vitais e da morte nesses tempos, aproximava também mais o homem da sua condição finita (ou transitória). Refiro-me aos tempos pré-seculares, quando se morria por todo o lado de velhice aos quarenta ou de guerra, acidentes e doenças em qualquer idade. Vírus hoje inofensivos, arrassavam comunidades inteiras num fósforo: Tempos de muito poucas esperanças de vida e muita presença de morte.
Também estávamos mais próximos da realidade da morte dado que o pensamento religioso era, de facto, vivido por todos com efectiva intensidade e consequência. As crenças religiosas tinham, na antiguidade ou na Idade Média, uma real preponderância no pensar e no comportamento, da mesma forma que tem preponderância o chamado "pensamento mágico" na vida concreta de um indigena animista.
Hoje, era de liberdade, prosperidade, ciência, laicismo, dúvida e sofisticadas técnicas e tecnologias de prolongamento da vida, já não é assim. E a morte, por estar mais distante, tornou-se uma espécie de "monstro" (mal)fechado no armário escuro onde encerramos os tabus e os traumas. Deixou, de certa forma, de ser uma coisa natural para ser algo de que nem se fala e se esconde, limitando-se aos silenciosos e constrangedores momentos fúnebres como funerais ou dias de finados - Esta dramatização envergonhada é ainda mais evidente nos países latinos, pela nossa cultura mais dada a saudades e emoções fortes.
É um assunto reservado, não obstante ser um dos temas centrais do pensamento filosófico e teológico... Obviamente, visto ser o tema existencial por excelência.
O facto de ter falecido recentemente alguém próximo e querido dos amigos que fazem este blog, suscitou algumas reflexões interessantes sobre o tema, que é um tema profundo e enriquecedor que não deve ser varrido para debaixo do tapete das ideias e das palavras. Para "aceitar" e pacificar é fundamental encarar de frente o medo e o sofrimento.
Vem isto a propósito de ter há bastante tempo no pc um texto magnífico do escritor brasileiro Rubem Alves, que me apeteceu nesta ocasião partilhar com os confrades do blog e com os leitores do tapor, antes que o tema desça para o oblívio das catacumbas milenares do porco. Com a devida vénia:

Sobre a Morte e o Morrer por Rubem Alves

«Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”
D. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de Setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.»

Texto publicado por Rubem Alves no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.

SR SCOLARI A GENTE VIU, PÔRRA!, por Prognóstico

Toda a gente viu na televisão o Scolari afiambrar um murro no gigantone sérvio. Mais, toda gente viu o gigantone a levar a murraça e a procurar responder e o Scolari a refugiar-se cobardemente lá atrás. Foi feio. Muito feio. Voltou-se à cavalice do não saber perder com um mínimo de dignidade. Mas isso, paciência, é o calor da luta e a efervescência dos nervos.


Mas, pôrra, meia hora depois, a frio, lá veio o cavaleiro da triste figura, para a conferência de imprensa com a velha e gasta arrogância a dizer que não se passou nada, que não deu murro nenhum, que não tem nada de pedir desculpas, que estava a defender outro jogador, que foi um bate-boca, etc, etc. É demais. E o homem está mais. Haja alguém de bom senso que lhe explique aquilo que fez. E que aquilo não se faz. Porque ele, arrogante como sempre, é incapaz de ver. Olha, olha, mas não vê. Ala que se faz tarde.

12/09/07

Ginásio, Sauna, Castanhas & Alheiras, por GigaBite


Aqui há cerca de dois anos, a malta do Porco, malhava forte e feio no Ginásio Basófias cá do burgo. No final da malhação, seguia-se em regra uma sessão de Sauna. Para o efeito, o Basófias dispunha e dispõe de uma sauna finlandesa, vulgo, um cubo de madeira de 2 metros de lado e de altura, onde se arrumam três enxergas de madeira, tipo beliches, e onde se espojavam os três fanáticos da sauna: Alquimista, Mangas e Nini.


Ali, num suadoiro intenso e despudorado, as três alminhas debatiam sofregamente o sentido da vida e o destino do mundo, sob a égide da forte essência de eucalipto. Lá pelo meio da coisa, a malta começou a reparar que aquelas pedrinhas em brasa que faziam o suadoiro, eram um desperdício de todo o tamanho. E se bem se pensou, melhor se fez. Ou como diz o povinho, um diz mata e o outro diz esfola. E quem diz esfola, diz assam-se umas castanhas.


A modos que, na sessão seguinte de sauna, um veio munido de papel de alumínio para por em cima das pedras em brasa, outro veio munido de sal e outro trouxe meio quilinho de castanhas já retalhadas. Aí sim, passou a sauna a ser uma obra de gosto e sabedoria. Enquanto se batia no governo, ouvia-se o sal a crepitar e as castanhas a assar. E garanto-vos que nada sabe tão bem como umas castanhas assadinhas, depois do esgotamento do ginásio e a exsudação da sauna.


Infelizmente, o aroma intenso do castanhame assado sobrepôs-se à essência de eucalipto, e aquele tresandou para o corredor de acesso ao balneário das senhoras, imediatamente contíguo à sauna. E o maldito género segundo, extenuado e famélico, tratou de ir bufar à gerência o aroma a castanhas assadas que as incomodava. Logo depois entra-nos a gerência pela sauna a dentro a investigar e a vociferar. Obviamente que a malta pediu ao gerente para virar as castanhas. Fosse lá como fosse, o projecto seguinte que seria a assadura de uma alheira ficou adiado.


Agora voltou-se ao local do crime. Em face da concorrência a gerência já oferece free sauna à sexta-feira. A malta impôs como condição o fundamental e inegociável direito à alheira. A gerência aceitou. De modos que, Sexta-Feira lá estaremos na sauna e de volta de uma alheira de caça transmontana. Castanhas, só mais lá pró frio, ou talvez uma Copita de Barrancos, logo se vê. Isto sim, é um ginásio. Mangas, como é?

11/09/07

1000 Postas. Esta É A Milenária!, por Armários Imensos

Esta Posta é Milenária. Fora dois ou três repetidos, que se não contabilizaram, este poste comemorativo, é o número 1000 do Porco. Estamos todos de parabéns e no bom caminho do Quarto Aniversário que se regista no próximo dia 01/01/2008. Em jeito de Torre do Tombo aqui se repesca o Primeiro Post, qual primeiro berro da criança recém-nascida:


“01/01/04

Malta, o Blog tá disponível!”


Eis assim o nascimento do Porco, pela mão do criador Luzi. E como falta aqui habilidade para mandar foguetes pela net, aqui se deixa o registo dos maiores postadores, também em jeito de critica a vários malandros que bem podiam produzir mais.


Ao longo destes 1000 postes, o maior postador é o Vice com um total de 251 postes, segue-se o Grão com 229 e o Luzi com 212 postes. Depois surge o Mangas com 75 postes e o Cão com 53, logo seguido pelo Jótta com 48. O malandrão do Tino contabiliza 45 e o filho que nos abandonou e que se espera pródigo, Kzar de seu nome, soma 26 postas.


Segue-se esse grande prodígio de imaginação e variedade, que dá pelo nome de Nemo com 11 postas, e uma série de preguiçosos encartados: Xeko, 6 postas, Nini, 6 postas, Nikki, 5 e o Mau, outro supremo preguiçoso com 4 postas. O Beaujolais brindou-nos com 3 postas e o Mister com 2. Depois existe um rol de malta que se dignou escrever uma única vez. Esses são porcos dos quais a história não vai rezar.


Mas reza sim senhora das noveis aquisições do Porco, que em 2007 se traduziram em belíssima contribuições, embora logo se registasse uma baixa. A Jumpseat que fez 2 postes de rajada e um terceiro que se perdeu pelo caminho, não aguentou a critica nos groinks e levantou voo de novo. Mas em 2007 tivemos ainda a contribuição do Seven, da Minga, da Patty Labelle, da Medalhinha e da Truta Salmonada.


O Porco é bicho da pesada, que precisa de toda esta gente para conseguir continuar a voar. Mas como bicho pesado que é, também exige algum estômago aos postadores e visitantes. A patada reina por aqui e se alguma coisa caracteriza este bicho é isso mesmo. Não aqui há aqui a eterna louva-deus da procissão de gente que diz bem e elogia cada poste como obra de génio. Aqui não há génios, apenas porcos que querem discutir temas, histórias e assuntos e cultivam a patada forte como marca da casa. Vamos lá aos 100.000.

10/09/07

Não Será a Noite Cada Vez Mais Noite?, por Leviatã

Ainda ouço o padre a dizer «Amamos a Deus Todo Poderoso. Obrigado Senhor pela Vossa infinita bondade». Mas vem-me à cabeça o sofrimento indizível do amigo que partiu. Penso em todos aqueles meses horríveis que ele era o último dos últimos a merecer. Penso como foi tudo tão monstruoso quanto gratuito. Se temos que morrer, não tem que ser daquela maneira.

Talvez Deus exista mesmo. Talvez seja, como diz o padre, «supremamente bondoso». Mas será que Ele nos pode levar a mal se duvidarmos, quando temos tanta razão para tal?


pic de
FRIEDRICH, Caspar David

09/09/07

Requiem, por Leviatã

De cada uma das raras vezes que entro numa igreja, saio de lá com menos fé que quando entrei. Não seria correcto dizer menos fé em Deus, mas, pelo menos, menos fé em certos padres. Agora aconteceu outra vez.

Fui a uma missa em homenagem a uma pessoa a quem muito queria. Mas, às tantas, o padre resolveu dividir as pessoas que ali estavam em dois grupos:
- Só se está aqui por uma de duas razões, disse ele, ou porque se tem fé ou numa de social. Quem está porque tem fé, está bem. Mas os que estão cá numa de social, não estão cá a fazer nada.

Apeteceu-me logo sair dali. É que eu não tenho fé. Não sei o que hei-de fazer para ter fé, mas acontece que não tenho. Também não tenho a certeza contrária, isto é, a de que Deus não existe, mas vejo tantos motivos de razão para acreditar Nele como para o negar. E do ponto de vista do coração, não sinto fé, prontos, embora gostasse de sentir. Digamos que estou aberto, que sou um agnóstico com desejo de fé.

Mas voltando à missa, não tendo eu fé, mas não sendo mau em Lógica, entendi das palavras do padre que fiquei automaticamente catalogado como um membro do grupo dos «sociais». Ora não é assim, não há apenas duas razões para ali estarmos, como não conseguiu discernir aquele padre na sua miopia dicotómica. Eu fui àquela missa por outra, por uma terceira razão.

Fui porque se tratou de uma oportunidade de reencontrar um pouco da pessoa que perdi nos bocadinhos dela que estão espalhados pelos muitos que lá estávamos e que o amámos. Nós todos éramos, somos um pouco do que ele foi. Nós somos ele, um pouquinho só, mas somos. Foi essa razão desesperada que lá me levou - a de o rever na saudade dos olhos dos outros e na partilha comum. Infelizmente foi como se me tivessem posto na rua. Foi como se o padre tivesse dito: «isto é um clube privado. De acesso reservado e só para clientes habituais». Foi ele quem reduziu tudo a um cruel «aqui somos todos azuis e os amarelos não são bem vindos».

Como é que a Igreja quer ser um espaço comum se exclui assim aqueles que não são os seus? Eu devia sentir-me ali bem recebido e não escorraçado. Até porque a fé, acho eu, não cai do céu, num repente, zás. Não se nasce com fé, pelo menos alguns de nós não nascem. A fé constrói-se, é um processo que cresce lentamente (ou não). Como é que um padre não entende isto? Como é que desperdiça a hipótese de acolher aqueles que, ao menos naquele momento, sentiram que ela, a Igreja, podia ter feito alguma coisa, quanto mais não seja, dar a todos os presentes a possibilidade de recordarem aquele que amaram? Não entendo.

No passado – e até no presente – a Igreja foi missionária: saiu dos claustros da sua Hispânia, da sua Roma, do seu Vaticano e foi espalhar a palavra evangelizadora aos outros, aos africanos, aos índios, aos americanos, aos chineses, aos japoneses… Agora somos nós os índios, os africanos e os chineses - mas quando vamos à igreja sentimo-nos repelidos em vez de acolhidos.

Foto- Cartier-Bresson

07/09/07

Um País De Incompetentes!, por Salmanazar

Ontem andei de passeio por Viana do Castelo. Incompetência, claro. Vi-me lixado para entrar na porcaria da cidade, com várias ruas e estradas cortadas. Conseguir chegar à pastelaria Natário no centro da baixa e estacionar foi um martírio, com mais ruas e ruelas cortadas, policias em todo o lado e os parques de estacionamento impedidos por carros de televisões e de reportagens. Um inferno, congestionado e policiado, à conta de uma tal Reunião de Ministros de Negócios Estrangeiros da União Europeia.

Fintando gincanas, barreiras e polícias, zarpei rapidamente da cidade e rumei a Ponte de Lima. A meio do caminho, comecei a ouvir na rádio a tourada e tiroteio que se passou na mesma zona da baixa de Viana onde estive. Quatro ou cinco idiotas encapuçados de passa-montanhas e metralhadoras na mão resolveram executar um plano cuidado de assalto à Ourivesaria Freitas (a maior e um ícone em Viana) e ao Museu de Ourivesaria, contíguo e dos mesmos donos. Diziam os empregados, que os ladrões tinham aquilo bem estudado, uma vez que se dirigiram rapidamente às montras onde estavam as peças mais cotadas. Sabiam ao que iam.


Contudo, esqueceram-se ou da dita Reunião da UE. Na rua do assalto havia três polícias fardados e dois à paizana, de imediato alertados para o assalto pelos tiros para o ar com que os meliantes assustaram o povinho da loja e museu. A coisa não saiu bem. Tiroteio com força, dois patifes baleados e outros tantos policias a lutar pela vida contra o chumbo Um assaltante engaiolado e outro a monte mas já identificado. A joalharia ficou espalhada pelos passeios à espera do fim da metralha e do sangue a correr.


Ora digam lá se isto não é um país de incompetentes. Nem os gatunos se safam. São do mais incompetente que há no mundo. Mas será que nenhuma destas abstuntas se lembrou de ver uma simples agenda de um jornal e que verificar a agenda da cidade para o dia? Será que nos dias imediatos nenhuma dessas avantesmas estranhou a concentração de jornalistas, barreiras metálicas e fitas plásticas da policia? Não viram que à conta da dita reunião, aquela zona ia estar pejada de policias? Será que nenhum reparou que se tivessem assaltado uma ourivesaria em qualquer outra zona da cidade ou vila da zona não haveria lá nenhum policia pra chatear? País de incompetentes, que nem gatunos de jeito tem. E isto já não vai lá com escolaridade ou formação. É genético mesmo.

05/09/07

Sinistra da Educação, por Sinistro Total

Este ano ficaram sem colocação cerca de 49 000 professores, na sua maioria jovens recém-licenciados que, ou não conseguiram entrar na carreira ou entraram e perpetuaram a sua situação de precariedade até ao despedimento sumário que acabou de ocorrer.

Os números são impressionantes: é o maior despedimento colectivo de que há memória na história de Portugal. Se pensarmos que o Ministério da Educação Francês anunciou, recentemente, com todo o cuidado, que no próximo ano vai ser obrigado a despedir 12 000 profs, ficamos com uma ideia da violência dos números portugueses, repito, cerca de 49 000! A França tem cerca de 60 milhões de habitantes e nós não chegamos a 10 milhões. Eles despedem 12 000 no próximo ano, nós 49 000, imediatamente! Mas obviamente os franceses são uns míseros pigmeus ao lado dos ideólogos do nosso ministério, gente sagaz, do pensamento, gente culta e erudita como o valter lemos e um pedreira que aparece às vezes na TV.

Mas ok, vamos admitir a leitura primária da ministra da educação que acha que os portugueses não procriam, que não há crianças e, portanto, que não precisamos de profs. Ainda assim, nada justifica as declarações que escutei à senhora na TV. Segundo Maria de lurdes, cito de memória, mas com todo o rigor:
- Esse não é um problema dela nem do seu ministério (deve ser do ministério do ambiente ou da agricultura) . É do país (como dá jeito esta entidade abstracta, o país…) e dos próprios jovens que ela aconselha a dedicarem-se a outra coisa (à pesca? Ao fado? Não explicam, ninguém explica...).

A crueldade e o cinismo destas afirmações são inqualificáveis e, pela milésima vez, num país civilizado que não no nosso, justificariam a demissão imediata da senhora. Estes ditos são ofensivos e irresponsáveis. Chocam! Estas afirmações são uma falta de respeito por milhares e milhares de pessoas que chegam ao fim de anos de trabalho para ouvirem esta seráfica ministra a dizer-lhes, primeiro para adiarem o futuro que já não há lugar para eles; e depois para se dedicarem à pesca ou à apanha de caracóis… que o problema não é meu, ó larila...

Isto é de uma crueldade e de uma insensibilidade social grotescas. E ainda que tivesse toda a razão do mundo – que não tem, já que é o ministério da educação quem promove, certifica e operacionaliza os cursos a que se dedicam estas multidões de jovens incautos - nada justificaria palavras tão azedas. Mais que a gravidade do facto em si (lançar mais 49 000 pessoas no desemprego) o que choca é a profunda insensibilidade de uma pessoa que devia ter outro estofo e um mínimo de empatia para poder exercer um cargo tão importante. É uma questão de comunicação – ou de coração – e não é pequena. Como se fosse preciso, é só mais um episódio revelador da imensa teia de insensibilidade social que este governo se diverte a tecer.

Pic - Nicolaes Maes

Curral da Memória, por Automotora

Ainda a propósito de livros, aconteceu-me uma coisa curiosa no outro dia. Quanto tinha para aí 15 anos li um livro chamado Três Homens num Bote, do J.K. Jerome, um clássico da literatura humorística inglesa do Sec. XIX, sobre uma viagem de três gajos pelo Tamisa abaixo. Uma das recordações da minha adolescência é precisamente rir às gargalhadas quase até sufocar com a porra do livro. Passados muitos anos voltei a comprar o livro, que entretanto tinha perdido, voltei a lê-lo, e apanhei uma decepção: saiu-me um sorriso quase amarelado. Ou aquele humor se tornou ingénuo ou fui eu que me tornei cínico. Conclusão: é arriscado voltar à infância através dos livros. Ou de qualquer coisa com que fomos felizes, já agora. É como entrar na sala de aula da nossa primária e pensar como raio algum dia coubemos em carteiras tão pequeninas. Saímos dali com a memória atrofiada, não é? É por isso que acho que nunca mais vou ler Júlio Verne, ou o Salgari, e muito menos Os Cinco ou Os Sete.

Quando era miúdo, ouvi no rádio um conto da Sofia de Melo Breyner, chamado (acho eu) O Tesouro. O fundo sonoro, como vim a descobrir muito mais tarde, era um dos Gimnopédie, do Erik Satie, uma pequena jóia que para mim ficou sempre ligado àquele conto. Nunca tentei comprar o livro, e apesar de ter um disco com aquela música, raramente o ouço. Volto lá muito de vez em quando, para me comover, e sou obrigado a aturar, irritado, as vezes em que se servem dele como fundo de programas que nada têm a ver com o meu conto. Se se quebra a magia das nossas recordações de infância o que restará dela?

04/09/07

O Homem Que Deitava Livros Fora, por Alquimista


Deitada a filharada e entregue a mulher às delícias encantatórias da Floribella, Asdrúbal abriu o botão das calças e desapertou o cinto para deixar dilatar à vontade a almoçarada. Com medo da indigestão, Asdrúbal tirou a ideia duma sesta, e amandou a manita por cima do sofá para agarrar um romance que lhe tinham dado.

- Bem, vamos lá a ver que boa merda é esta, pra mo darem não é coisa boa, mas foda-se a cavalo dado não se olha o dente. Adiante. Asdrúbal lê e começa a franzir o sobrolho. Logo na primeira página saltam quatro personagens e duas frases cujo sentido lhe escapa por completo. Começa a ficar irritado. Na segunda página, saltam mais duas personagens e há um parágrafo inteiro de metáforas esguias que se lhe escapam como enguias. É demais. O pobre perde a conta à multidão e começa a resmungar pelos cantos da boca. A mulher manda-o calar que lhe está a estragar a Floribella.

Asdrúbal, dá mais uma chance ao livro e avança a custo e a cuspo prá terceira página. Um martírio, mais duas personagens novas, quando ele já esqueceu as seis primeiras e meia dúzia de frases armadas ao pingarelho, que o deixam enraivecido por as não ter percebido.

- Ora, foda-se, mas custa muito escrever um livro cuma história que se perceba? Era enrabar estes cabrões todos destes escritores de merda cum anti-depressivo pelo cu acima que os fodia a todos. Asdrúbal, espumava e vociferava. O livro enraivecia-o. Sentia a mãos a suar o romance a escorregar. Aquilo era um insulto ao seu ser mais profundo.

Olhou pró livro com ódio, como se de um cabrão personalizado se tratasse. A besta imunda queimava-lhe nas mãos e já não tinha coragem de a voltar a enfrentar. Largá-la e sair da arena era pior. Era dar parte de fraco. Era dar a vitória ao demo e uma derrota pessoal. Olhou pró livro como certa vez olhou pró sogro em hora desenganada. Um ódio profundo ao maço encadernado subiu-lhe pelas entranhas acima e rebentou-lhe num arroto sonoro que lhe azedou a boca e o cérebro. O cabrão do livro gozava e ria-se dele.

- Tu tás fodido, ganda cabrão, não te ficas a rir. Asdrúbal esperneava e saltava no sofá. A mulher olhou-o com medo e Asdrúbal decidiu que não era tarde nem era cedo. Era já e ali. Ele ou eu. A rir é que o cabrão se não fica. Asdrúbal, acelerado e raivoso, abotoou as calças e fez-se ao elevador. Desceu os oito andares da torre e correu até ao cimo da rua. Esbaforido, abriu a tampa do contentor do lixo e com raiva assassina, forçou o sacana do livro nas entranhas da estrumeira. Fechou tampa com quanta força tinha e respirou fundo. Só então se sentiu aliviado. - Toma, cabrão, agora ri-te meu filho da puta!

03/09/07

A Ilha dos Mortos de Arnold Böcklin, por Grunfo

Olhamos para o quadro e o que sobressai é o mistério. Como quando se olha para a morte. Nem um nem outro são fáceis de equacionar, nem são fáceis de digerir. Quando a morte nos toca, quando nos passa de raspão pelo adeus de uma pessoa querida, a ferida aberta obriga-nos a cair de rastos e a olhar para dentro, humilhados, impotentes e ofendidos. Tentando compreender e sem jamais conseguir perceber. Como raio é possível? Como raio se explica!


Bocklin sentiu o mistério e compôs a sua Ilha. Os peritos descrevem-no como uma visão mística e onirica da morte, recorrendo aos mitos clássicos e com ar de ilha mediterrânica. O pintor suíço, romântico e simbolista, mas também fantástico e precursor dos surrealistas, fez cinco versões da sua Ilha, a partir da evocação do Cemitério Inglês de Florença, onde vivia e onde estava enterrada a sua filha bebé, Maria.


Uma reprodução deste quadro ornamentava o gabinete de estudo de Sigmund Freud e marcava presença no quarto de dormir e leito de morte de Lenine. Strindberg inspirou-se no quadro para fazer a “Sonata dos Espectros” e Rachmaninov compôs o poema sinfónico “A Ilha dos Mortos” a partir da obra. O cabo austríaco apaixonou-se por um original e comprou-o num leilão em 1936, trazendo-a sempre consigo a partir daí. É o mesmo quadro que os Russos pilharam no bunker de morte da besta e levaram para Moscovo, de onde foi depois recomprada pelos alemães, que agora a expõem no Museu de Arte Moderna de Berlim. Existem outras versões expostas em Basileia, Nova Iorque (Metropolitan Museum) e em Leipzig.


A versão da foto deste poste, é a versão mais dramática, com as nuvens de tempestade por cima da Ilha e é a que se encontra no Museum Der Bildenden Künste, em Leipzig. Parece-me a mais conseguida das cinco versões. A Ilha, qual entidade fantástica abre-se em abraço soturno à barca de caronte que se aproxima. O título da primeira versão (A Ilha dos Mortos) não lhe foi atribuído pelo pintor, mas sim pelo seu mercador de arte, a quem Arnold Bocklin levou o quadro dizendo: “Aqui têm, como desejaram, um quadro para sonhar. Ele terá de parecer tão silencioso, que nos assustamos se alguém bater à porta.”


O quadro suscita-nos um grande número de perguntas. Quem está no barco dobrado ao peso da morte? Que lugar é aquele? De culto ou de sepultura? Quem morreu? Qual é a história por detrás da cena? Que Ilha é aquela? O Silêncio de que falava Böcklin é quase palpável. E terrífico. O quadro transmite uma inquietude e uma intranquilidade esmagadoras e deixa-nos todas as perguntas sem respostas. Como a morte. Que nada nos responde. Apenas nos esmaga sob um peso incomensurável.


Lembrei-me da Ilha agora que uma pessoa querida nos escapou entre os dedos impotentes. Era fã do Tapornumporco e companheiro de muitas memórias. Era um dos nossos. Um amante incondicional da boa prosa, da boa discussão, do bom vinho, da boa comida e da viagem. Costumava dizer que desde que lhe não batessem na cabeça, gostava de tudo. Adaptava-se e apreciava. Apreciava a vida como poucos e é uma crueldade que tão cedo tropece na morte Um conversador nato, que embevecia e encantava quem o ouvia. A sua morte, na flor da vida, leva-nos a questionar a mísera condição humana. E a não gostar do retrato, nem da maldita Ilha. Um de nós partiu e não voltará.