A rainha xuxa da laca, dona canavilhas, escreveu no seu twitter, a propósito da cobertura dada por uma jornalista do Público a propósito de uma manif de professores a seguinte aberração:
«Esta jornalista ainda não foi despedida por escrever factos falsos?»
O comentário da senhora é um sintoma do apetite xuxa de controlar a comunicação social. Um sintoma grave , claro, na linha do que o seu patrono , Mr 44, tentou efectivamente fazer quando esteve no poder. Deus nos livre de gente desta voltar a governar Portugal.
Mas pior ainda é a manifesta cobardia da emenda: no twiter não vale, disse esta deslumbrada quando foi apertada, «nunca pedi a demissão da jornalista , se o fizesse não era no twitter»... Ou seja, nem coragem teve para assumir o que escreveu!
Ora fazendo fé em que, como diz, não é para levar a sério o que escreveu, então não se percebe tanta ligeireza. Ficamos a saber que a criatura acha normal ofender assim, gratuitamente (já que não é para levar a sério), a dignidade pessoal e profissional de uma jornalista, isolada e fragilizada. É caso para dizer à senhora que se é para brincar, então, bem podia ir brincar com... outra coisa, sei lá...
Dostoiewsky nasceu em 1821 e
morreu em 1881. Nietzsche em 1844 e 1900. Quem leu quem? Nietzsche leu
Dostoiewsky ou foi o contrário? Em Os irmãos Karamazov, o Diabo aparece a Ivan
e diz-lhe (e parece que é Nietzsche a falar ou será o contrário, Dostoiewsky é que fala Nietzsche?):
« Na minha opinião não é preciso destruir nada, salvo
a ideia de Deus no espírito do homem: é por aí que se deve começar!... Quando a
humanidade inteira renegar a Deus – e eu creio que esse período, como os
períodos geológicos, chegará a seu tempo – então a antiga concepção do mundo
desaparecerá por si, sem que haja necessidade de passar pela antropofagia e,
sobretudo, desaparecerá a antiga moral. Os homens unir-se-ão para obter da vida
todos os gozos possíveis, mas neste mundo somente. O espírito humano elevar-se-á
a um orgulho titânico e surgirá então o homem-Deus. Triunfando sobre a
natureza, sempre e sem limites, graças à sua inteligência e energia, o homem
experimentará uma alegria tão intensa que substituirá nele a esperança a e a
ânsia de alegrias celestiais. Cada um saberá que é mortal, sem possibilidade de
ressurreição, e resignar-se-á à morte com sereno orgulho, como um Deus. Por
orgulho, também, abster-se-á de murmurar contra a brevidade da vida e amará os
seus irmãos sem esperar qualquer recompensa. O amor não encherá mais que um
momento da vida, porém o próprio sentimento da sua brevidade torná-lo-á mais
intenso, ao passo que antes dispersava-se nas esperanças dum amor eterno de
além-túmulo.»
Hoje, domingo, dia 1 de maio, acordei às 9. 30, abri a janela para deixar entrar a luz e comecei a leitura do 3º volume da tetralogia A Amiga Genial de Elena Ferrante. Quando, finalmente, levantei os olhos cansados e olhei para o relógio eram 11. 30. Se não é isto que se espera de uma grande romance, então o que é?
Acordo e ligo o rádio que me diz algo que julgo ter ouvido mal - «morreu David Bowie» - porque os Deuses não morrem. Fiquei a pensar, porque, precisamente, Eles nunca morrem, que só pode ter sido dos meus ouvidos. Mas a seguir reparo que não é normal passarem na rádio o Young Americans áquela hora da manhã e depois o locutor acrescenta «mais informações no nosso noticiário das 8» e eu vacilo, mas ainda repito que não pode ser, que não é possível... Espero, ansioso, pelo noticiário das 8 e é mesmo verdade: morreu David Bowie e, ainda por cima, passam a minha música preferida, Heroes, aquele misto de revolta, desespero e paixão e é nesse preciso momento que eu me venho abaixo. Nunca julguei que fosse possível que a morte de alguém que não conheço mexesse tanto comigo!
Mas, como diz um amigo comum (meu e dele), é claro que o conheço, ele faz parte de mim, do que sou e de como sou. É verdade, mas é também por isso que sinto tanto, porque com a sua partida é, também, um pouco (um muito) de mim que se vai para sempre. É certo, a sua obra permanece, as suas músicas estão cá para sempre, mas é triste saber que ele já não me vai voltar a surpreender com a sua espantosa criatividade (e ainda há poucos dias o tinha feito, uma vez mais, com Black Day)...
Um artista é verdadeiramente grandioso quando consegue estabelecer uma relação pessoal, íntima, insubstituível com o seu, não sei bem que palavra escolher, ia a escrever público, mas no momento em que um artista estabelece essa relação pessoal comigo, então eu já não sou público, já não sou fâ, já não sou admirador, já me tornei noutra coisa qualquer mais pequena e maior, um amigo, um íntimo, seja o que for... David Bowie é um dos poucos artistas com quem logrei estabelecer uma relação desse tipo: ele sabia mais de mim do que a maior parte das pessoas com quem convivo no dia a dia. Fã? Público? Não. Nunca fui fã de Bowie, fui e sou algo muito mais forte e por isso agora me custa tanto que ele tenha partido.
Bowie acompanhou-me ao longo da vida, a partir dos meus 17 ou 18 anos, quando ouvi pela primeira vez Ziggy Stardust, num dia cinzento, ainda me lembro. Foi imediato, não precisei de mais que dois acordes para ficar completamente rendido àquela sonoridade. Num impulso corri a comprar todos os vinis que encontrei e que a minha mesada da altura permitia: Hunky Dory (mas não tinha nada a ver com Ziggy, que era eléctrico e este acústico, sendo, contudo, igualmente genial), Alladin Sane ( ainda rock mas mais pesado, mais básico, o disco de Jean Genie) e Diamond Dogs (com o inesquecível Rebel Rebel). Bowie acompanhou-me em momentos que não interessam para aqui, mas que foram marcantes para mim e, mais não houvesse, o lugar dele já estaria seguro na minha escala de afectos. Gostei de tal maneira destes discos - os primeiros que dele ouvi - que me recusei a abdicar deles quando a namorada da altura os exigiu para si, a propósito daquelas partilhas infames que ocorrem sempre quando um casal se separa e já não se sabe o que é que pertence a cada qual. Ela não gostava assim tanto do Bowie, queria os discos, suponho, só para me chatear, sabia como eu os adorava e era uma forma cruel de se vingar. Mas não cedi, podes levar a casa, o carro, o dinheiro mas não me levas os discos do Bowie...
Ele voltou a surpreender-me mais tarde quando me rendi - como toda a gente na altura - ao maior sucesso da sua carreira, Let s Dance. Adorei China Girl, um original de Iggy Pop, a que ele deu uma nova dimensão como fez muitas vezes - com Let`s spend the night... dos Stones, com le port de Amsterdam de Brel, com the Long and windin road dos Beatles, com um disco inteiro de covers, Pin Ups, mas que espécie de génio é que desce do seu pedestal de super star para fazer um álbum só com músicas de outros autores? Depois foi a vez de Scary Monsters, outra obra prima absoluta, que eu ouvi milhares de vezes com outro amigo comum - Because You´re Young e o extraordinário Its no game (parte 2) foram marcantes...
Mas o melhor estava para vir quando descobri a frase electrónica dele e a sua parceria com outro génio , Brian Eno, em dois álbuns brilhantes e inqualificaveis (que género de música é aquela?), Low e, sobretudo, o seminal Heroes, para mim , a sua obra prima absoluta . Muito mais tarde, ainda, descobri a sua fase inicial, sobretudo, The man who sold... e space oddity, geniais, mais uma vez (e Memory of a Free Festival, que música!). Vi-o ao vivo, claro, na única vez que actuou em Portugal, na Sound and Vision Tour. Foi fantástico, apesar do estádio cheio e da multidão comprimida...
Bom, eu não posso mencionar aqui todas as sucessivas descobertas que fiz de Bowie ao longo da vida, posso só tentar exprimir a noção de que ele me acompanhou sempre,mas sempre, que foi a banda sonora de grande parte da minha vida, dos minhas angústias e alegrias, das minhas viagens interiores e exteriores. E é incrível, que homem é este que se multiplicou em tanto ser diferente, vertiginosa mas sempre, fielmente? Pode ser-se genial numa área específica; Bowie era-o em muitas, era uma espécie de personagem renascentista que transformava em ouro tudo aquilo em que tocava sem conhecer fronteiras de qualquer espécie. Talvez nos meados anos 80-90, assim reza a crítica , ele tivesse cedido um pouco, com alguns álbuns menos interessantes, como never let me down ou tonight. Mas recentemente reencontrei pérolas perdidas da sua discografia quando comecei a ouvir os seus discos pós-Hearthling. Todos os que ele fez depois...
E, ainda não estava refeito do espanto da descoberta deste último Bowie pós -Hearthling, eis que surge The Next Day, genial em tudo, até na capa espantosa, no sincretismo, na amargura de Where are We Now? (do melhor que ele fez). Ainda por cima, descobri este disco, da mesma forma genuína que descobri outros Bowies no passado: entre amigos, durante uma longa viagem de carro. The Next Day tem vida agarrada. E há aquela lição magistral que confirmamos, por exemplo, nos vídeos do álbum: Bowie assume sem medo as marcas («scars») do tempo, os golpes da velhice no seu rosto, a angústia do fim. É um álbum triste mas irresistível.
Na semana passada saiu Black Star e, mais uma vez, foi para mim um espanto absoluto (mas este homem não tem limites? Tinha, afinal, maldito noticiário das 8...). Até certo ponto parecia-me uma continuação de The Next Day, outra vez o mesmo esforço de síntese do passado e do futuro, o cruzamento de influências (jazz, ambientalismo, rock, sinfonismo...), o mesmo clima de fim de mais um ciclo e de início de outro (Lazarus...) e, acima de tudo, aquela proximidade da morte, a sua própria morte, que percebe-se agora, ainda faz parte deste disco. The Next day era a angústia do tempo que se lhe escapava; Black Day é, uma aproximação da morte ( a faixa homónima) como eu só conhecia nos grandes requiens da grande música.
Leio as páginas de um
livro de um viajante que visita Chichen Itza, a famosa ruína maia, no México, e
o paradoxo é evidente. O escritor despreza as hordas ignaras de turistas
anafados como se fossem pragas de gafanhotos predadores. Fala do lixo, do linguarejar
barulhento, dos guias de camisa branca que vendem os seus clichés por 10
dólares e das multidões de aldeões que enxameiam as ruínas com as suas
bancas de artesanato tétrico, feito de caveiras, serpentes, jaguares e
guerreiros decapitados. Conclui que Chichen Itza, como todos os lugares
turísticos do mundo, seria muito melhor sem a praga de turistas arrebanhados em
agências low cost. E, no entanto, a
contradição é evidente: este escritor é, também ele, um turista. Porventura o
mais nocivo de todos porque o livro que escreveu possui o tremendo poder de
ampliar a sua mensagem e de lhe multiplicar a potência, atraindo, desse modo,
muitos mais turistas que o simples passa-palavra da maioria. Ele reclama, à
partida, um estatuto de observador etéreo que não tem, o do viajante aureolado
que paira sobre as multidões de gordos. Mas está de má fé. Para todos os efeitos,
naquele momento, ele é só mais turista, um entre muitos, que contribui na
exacta medida de todos os outros para aumentar a pegada ecológica que vai
estragando Chichen Itza, a baía de Guanabara, Veneza, Benidorm, Albufeira, o mundo... De
nada lhe vale – a não ser enquanto mecanismo de sublimação – tentar convencer-se
de que é o viajante-querubim sem corpo, a voz sem língua nem saliva do escritor
imaculado. Errado – ele pesa os mesmos 100 kilos de todos os outros. É um
turista, um vil turista!
É por isso que todos os textos que escarnecem o turismo de
massas estão feridos de um snobismo
implícito e inevitável que é ainda pior quando não tem consciência de si. No
preciso momento em que escrevo uma palavra que seja a denunciar os horrores do
turismo, o viajante transforma-se num possidónio e é essa a armadilha em que
caem todos os escritores – grandes ou pequenos – de viagens.
Talvez fosse mais honesto se o viajante que não quer ser
turista reconhecesse o óbvio: que sem o malfadado turismo de massas os destinos
de sonho jamais passariam de locais virtuais. Graças ao turismo de massas somos
colocados nas ilhas Phi Phi, na Tailândia, com mais umas centenas de
indesejáveis. Lamentamos estes magotes que nos conspurcam o sonho. Mas sem
eles, pura e simplesmente, não poderíamos lá ir e Maya Beach continuaria a não
passar de um paraíso inacessível de que apenas usufruiríamos enquanto espectadores
espojados num sofá a telever o filme A Praia e a invejar o Brad Pitt. Estar nos
sítios com todos esses milhares de anafados é a única forma do real não nos
escapar completamente como areia por entre os dedos. Devíamos estar gratos e
não zangados com as multidões que fazem bichas intermináveis no Louvre e no Guggenheim
e com as algas castanhas que conspurcam as águas azul cobalto dos resorts
caribenhos. Afinal, somos todos turistas e, no mundo real, só existem duas formas
de o evitarmos:
- uma, autêntica e
eficaz, é não sairmos de casa. Mas isso significa a redução do nosso mundo à
forma de famélicas imagens que poisam fugazmente nos écrans do computador e da
televisão ou nas páginas mentirosas de um livro ilustrado. A outra, a falsa, é
estar de má fé. Consiste em auto convencermo-nos de que somos antes viajantes e,
como dizia Paul Bowles, «o viajante é o contrário do turista». O problema é que
cada um dos milhares de turistas que grelham ao sol de Albufeira está
convencido de que é ele esse ser excepcional, o viajante, e que todos os outros
são os malfadados turistas. Era bom que os nossos paraísos estivessem
desertos, à nossa espera, mas isso é cada vez mais difícil.
Playa del Carmen, México, 3 da tarde. Multidão a banhos. Vêm-se cabeças e braços, não se sabe se pertencem a pessoas altas ou baixas, louras ou morenas, mulheres ou homens, pretos ou brancos. Contudo, no meio daquela babilónia, identifico, sem margem para dúvidas, dois indiscutíveis americanos de quem, praticamente, só vejo os braços. E como se reconhecem braços americanos? Fácil: pela forma como lançam a bola um ao outro, a técnica é de basebol. É notável como transportamos a cultura connosco, mesmo imersos a banhos numa praia no meio de uma multidão de cabeças anónimas. Basta um gesto e está lá, agarrada e indissociável, a marca da identidade.
O japonês, esse só o identifico a postereori: é o tipo de olhos em bico que está há uma hora com água pela cintura a recolher o sargaço-praga-do-mar e a atirá-lo para os lados enquanto roga pragas furibundas de sol nascente. Maldito sargaço que lhe estraga o postal, a praia, as férias, vem um tipo de tão longe para isto...
O rambutão é um fruto de contrastes. Por fora parece um ouriço marinho, mas é um fruto terrestre. Quando maduro oscila entre um vermelho vivo e um castanho amarelado. A polpa tem escamas pontiagudas que parecem espinhos mas que, afinal, são dóceis como fios pendentes e inofensivos. Abre-se e, lá dentro, o fruto é branco aquoso, de textura aveludada como a pele de um bebé. É doce ao gosto e muito fresco, quase licoroso, mas no final vem a surpresa - o caroço. O caroço é ácido, o que é notável porque contrasta e corta o doce do fruto. Bem se pode dizer que não se chega a saber o que é um rambutão até chegar ao caroço e sentir este maravilhoso contraste entre a polpa dce e o caroço ácido (e tóxico, segundo alguns entendidos, mas não importa). Eu nunca antes tinha provado um fruto cujo caroço fosse tão decisivo. Geralmente o caroço (da cereja, da ameixa, do pêssego ou da nêspera) é uma excrescência que não está ali a fazer nada e que só serve para se deitar fora. Mas no rambutão não é assim, a acidez do caroço é tão fundamental que sem ela, provavelmente, o fruto tornar-se-ia excessivamente doce.
Espinhos que, afinal, são franjas; do mar e da terra; vermelho e branco; doce e ácido; tóxico e refrescante... O rambutão é o fruto dos enganos, ou então, a luta feliz dos opostos.
Maya Beach é a prova de que Deus não existe. Porque se Deus tivesse o poder de criar sítios como este, então faria todo o mundo assim. Maya Beach sugere uma espécie de argumento de Leibniz sobre a perfeição do mundo mas ao contrário. Um mundo que não é todo como Maya Beach mas em que existe Maya Beach só pode admitir a perfeição como acidente. Diz-se que as maiores provas da existência de Deus são a harmonia e a beleza da sua criação. Para Leibniz este era o melhor dos mundos possíveis. Mas Maya Beach faz-me pensar no contrário: porque é que Deus não fez todo o mundo assim, porque é que apenas fez um sítio como este? Porque é que a maior parte dos sítios do planeta que habitamos são pardieiros miseráveis como o hotel Manolo em Madrid, o restaurante O Rei do Cozido na Baixa da Banheira ou o Iraque inteiro? Maya Beach só pode ser um acidente feliz da natureza, um maravilhoso acaso cósmico, porque se houvesse realmente um Deus capaz de criar tal beleza, Ele fá-la-ia existir sempre e em todo o lado e não só aqui, nas ilhas Phi Phi, ao largo de Phucket na Tailândia. Porque é que Deus não fez todo o mundo assim? Pois, só pode ser porque não existe. (2/8/13)
Tendo zé lello e couto dos santos como proponentes do vómito, ps e psd, para não ficar um só deles com o odioso da questão, decidiram hoje repor as pensões vitalícias para a maltosa política que já ganha mais de 2000 euros. O cds absteve-se ruidosamente.
Enquanto roubam os outros todos, vulgo povo, com cortes salariais pornográficos, retenções ilegais nas carreiras, aumentos de iva, irs, subidas de imis a valores estratosféricos, de taxas de saúde, de propinas, de iurcs etc, etc, os nossos íntegros e escrupulosos políticos muito preocupados com as nuances jurídicas do respeito pela constituição e de não sei que mais excelsos valores do estado direito (vide isabel tanga moreira, o pai é que não tem culpa), decidiram-se pela reposição das pensões vitalícias para os políticos. Sublinho: enquanto tudo isto, aquilo!
Isto merece-me uma só palavra, pulhice, e um comentário: agora, carneirada do ps e do psd corram de novo a votar nesta gentalha. País de merda, merecemos em dobro toda esta gente que nos acontece!
A ex ministra da educação, milu rodrigues, declarou à saída do tribunal, depois de ter sido condenada a três anos e seis meses de pena suspensa (mais uma multa de 30 mil euros), por prevaricação de titular de cargo político, cito de memória, ter «ficado muito mal impressionada com a Justiça». Não percebeu que o problema foi o contrário: a Justiça é que ficou, pelos vistos, muito mal impressionada com ela.
Hoje estive a ler o Corão, movido sabe-se lá por que inconsciente desejo de entender o que é que pode levar indivíduos encapuçados a decapitar pessoas inocentes. Cheguei a uma conclusão: depois de ter lido dezenas, centenas, talvez milhares de livros na minha vida (sim, sou um leitor compulsivo) é, para mim, claro que Alá não é um grande escritor. Conheço centenas de escritores humanos que, do ponto de vista literário, filosófico, ideológico ou qualquer outro que se possa conceber, são muito melhores escritores que Ele. Tá bem, Ele pode ser um craque a criar mundos cheios de animais, plantas, até bactérias e amibas, estrelas e galáxias em apenas seis dias (ao sétimo descansou), mas, como escritor, está a léguas de qualquer literato de média craveira.
O Mundial acabou e o Tapor também. O Tapor nem tanto, é um morto vivo que espera o final dos mundiais para cumprir, religiosamente, a obrigação de deixar aqui exposta a selecção dos melhores da competição. Então aí vai:
Guarda redes: Neuer (Al). Este foi o ano dos guarda redes. Neuer merece o título do melhor porque fez grandes exibições, porque apresentou uma qualidade no jogo de pés de que nenhum outro se aproximou e porque foi o guarda redes indiscutível do campeão. Mas não escandalizaria nada que o título de melhor guarda redes fosse para Navas (CR) o principal responsável pelo feito monumental da sua selecção que foi mais longe do que lhe permitiria a sua capacidade.
Outros que estiveram em grande: Ochoa (Mex), Tim Howard (USA) e o careca da Argélia, não me lembro do nome. Defesa direito - Quadrado (Col). Aqui faço uma adaptação porque Quadrado não foi lateral direito, mas jogou tão bem, só um pouco mais à frente que merece o destaque. Por outro lado a unanimidade Lahm (Al) não foi brilhante, embora tenha estado bem, e jogou uma parte da competição - sem destaque - a médio centro. Gostei do Lahm mas adaptava o Quadrado que tem que estar no onze. David Luís oscilou entre o óptimo e o péssimo e Tiago Silva idem aspas.
Centrais - Hummels (Al) e Garay (Arg). Hummels porque é só o melhor central do mundo e foi. Garay destacou-se como o grande stopper que já conhecíamos, embora Boateng (Al), Vlaar e De Vrijj (Hol) tenham estado também em grande.
Defesa esquerdo - Olebas (Grécia)... E não me venham dizer que a Grécia saiu demasiado cedo da prova. A Colômbia não foi muito mais longe e tem jogadores que merecem a inclusão neste onze. O que é certo é que, em todos os jogos que fez, Olebas destacou-se pela capacidade atlética, pelas resistência, pela constância nos vai e vem e tecnicamente não é nada mau. Acho que é um jogador com um potencial fantástico e só pode estranhar este destaque quem não viu os seus jogos. Num nível muito próximo (e também não lhe assentaria mal o título de melhor defesa esquerdo) esteve Daley Blind (Hol).
Também gostei de Mena (Chile), Laíun (Mex), e Howedes (Al). Médio defensivo - Shweinsteiger (al). Sou um admirador deste jogador. Tem uma capacidade física bestial e, com ele em campo, sem lesões, já se sabe que a equipa em que alinha é senhora daquele espaço fundamental no jogo. A exibição na final, onde sofreu como um Cristo com sucessivas entradas dos argentinos sem nunca ceder foi monstruosa.
A alternativa - e é uma pena deixá-lo de fora deste onze, tal a qualidade do mundial que fez - é Mascherano (arg) que prova assim que o Barcelona lhe desperdiça a carreira ao fazê-lo alinhar numa incompreensível posição de defesa central.Também gostei de Witsel (Bel).
Médio centro - Kroos (al). Apesar da final em que esteve abaixo. Mas a regularidade discreta que revelou durante toda a competição justifica o destaque. Como alternativas aponto Pogba e Matuidi (Fr) a coluna vertebral dos gauleses. Também gostei do careca dos states, Bradeley (Usa), um desperdício naquelas paragens que merece a Europa.
Médio ofensivo - James (Col). Exibiu-se num inesperado plano estratosférico que nunca logrou alcançar nem no porto nem no Mónaco. O que levanta a questão de saber porque é que este homem rendeu muito mais na selecção. Não que não se tivesse destacado nos clubes, mas a este nível? e melhor goleador? Fónix... Brian Ruiz (CR) também esteve muito bem. Avançados - Robben (Hol), Muller (al) e Messi (arg). Robben foi, para mim, o melhor jogador do torneio e mereceu, mais que Messi, o título de Bola de Ouro. Mas a atribuição deste título a Messi também não é o escândalo que a imprensa ronaldista tuga quer fazer crer. É certo que Leo não esteve no seu máximo, mas, tirando Robben, não vejo mais ninguém que lhe pudesse arrebatar o título. Afinal Messi foi finalista e fez, nesse último jogo, quatro ou cinco jogadas geniais, duas delas com selo de golo. Excepção feita a Robben digam-me outro jogador que merecesse claramente o título de melhor jogador, mais que Messi...
Mas, voltando a Robben, o holandês merecia mais: fez o mesmo número de jogos que o argentino e foi genial mais vezes. Robben provou no Mundial que é, actualmente, o craque que mais se aproxima da genialidade de Messi, no caso da copa conseguindo, até, superá-lo.
Quanto a Muller foi o melhor ponta de lança do torneio, decisivo principalmente na primeira fase. Nunca joga mal porque quando as coisas não lhe saem tão bem, luta sempre até cair para o lado.
Mas houve outros avançados que estiveram em grande: Alex Sanchez (chile), Neymar (Br), Di Maria (arg) - que só não está neste onze porque se lesionou e saiu demasiado cedo da competição - e Shuurle (al), arma secreta da competição. Quanto aos avançados mais cómicos da competição não resisto a citar aqui a dupla BD da selecção brasileira: o Incrível Hulk e o Atacante Invisível (Fred).
O melhor treinador foi Low (al), um técnico competentíssimo de profile discreto. Gosto deste tipo de treinador, mais, muito mais que dos espalha-brasas. Low, como Guardiola, é um exemplo para todos. Muito bem também, o magistral Van Gaal(Hol), noutro registo.
Resta dizer que abominei o argentino Sabella que confirmou na final todos os predicados negativos que dele já se sabiam
- tinha jogadores para fazer mais na e fora da convocatória, escalonou mal a equipa várias vezes e foi um desastre nas substituições - sempre que mexeu na equipa esta piorou. Desde Mennotti, vá lá de Billardo, que a argentina tem os piores treinadores do mundo e este não foge à regra. Agora, para desperdiçarem definitivamente um jogador tão genial como Messi, só falta irem buscar para a selecção o inacreditável tata Martino, coveiro do melhor futebol das últimas décadas no Barcelona. Já se fala disso... E quanto ao «nosso» Filipão que é que se pode dizer quando o homem ainda não percebeu a magnitude do desastre a que conduziu o Brasil?
Apesar da
omnipresença do islão – uma religião que é, como muito poucas, um enorme
receituário de regras – os habitantes do Dubai são tão hipócritas como os
outros habitantes de qualquer outra parte do mundo. Se levassem o Ramadão tão a
sério como dizem, não deveriam comer às escondidas, como fazem, e deveriam
obrigar, realmente, os outros, os hereges e infiéis, a cumprirem essas normas.
Mas quando nos dizem que, no quarto, secretamente, podemos comer, desde que
ninguém veja, isso é ajudar os outros a pecar, é tratar-lhes do passaporte para
o inferno. Também há quem cumpra à letra o Ramadão, admito que sim. E não tenho
dúvidas que todos aqueles sheiks envolvidos nas suas túnicas brancas que
passeiam nos shoppings à frente dos seus haréns de mulheres escondidas em
burkas negras, levem tudo muito a sério. Calculo que dormem de dia e vivem de
noite, é uma questão de trocar os fusos horários.
Também é curioso desfolhar as
páginas de anúncios de arrendamento e vendas imobiliárias num jornal nativo.
Enquanto os jornais portugueses dão conta das casas que estão à venda na
figueira da foz, em mira ou na tocha, os jornais do dubai publicam anúncios
imobiliários de Nova iorque, tókio, londres e paris. Olho aqueles xeques e as
suas mulheres e não consigo deixar de pensar que o ramadão e todas as regras
rígidas do dia a dia, devem ser muito fáceis de suportar quando se pode tirar
uma folga para ir viver durante uma temporada, como um cristão, para Londres,
Paris ou Los Angeles.
O Ramadão é
um exemplo do que afirmo: se me apetecer comer ou beber (um simples copo de
água que seja) não prejudico em nada a pessoa do lado. No entanto, no Dubai, em
mês de Ramadão, não o posso fazer. É rigorosamente proibido! Confronto-me com
um verdadeiro choque cultural – porque razão terei que andar a beber água às
escondidas (não vá a polícia apanhar-me em pleno delito) ou a comer uma banana
como se estivesse a carregar uma arma perigosa? Em nada afecto os outros,
porque me há-de estar vedada a possibilidade de beber ou de comer? Mas a regra
muçulmana entende que o diktat divino
é imperativo.
Cheguei ao Dubai na madrugada de ontem, depois
de um voode 9 horas e sem dormir. Estranhamente, as
lojas, restaurantes e cafés estão fechadas. Dou por mim no maior centro
comercial do mundo – o mastodôntico Dubai Mall – deserto. Ainda deve ser cedo,
penso, para os padrões locais. Espero uma, duas horas mas o maior e um dos mais
luxuosos centros comerciais do mundo continua a parecer um shopping fantasma de
primeira geração da margem sul de Lisboa. Dirijo-me a um segurança que me
informa que estamos em pleno Ramadão. As lojas e restaurantes não abrem antes
do pôr do sol. Ok, tudo bem, respondo, mas não sou muçulmano, a lei islâmica
não vale para mim, hei-de poder comprar comida nalgum lado, não me diz onde...
Está enganado, sir, aqui a lei é para todos, se comer ou beber, do nascer ao
pôr do sol, comete um crime punido por lei. Penso que é gozo, mas não é. Consigo
encontrar um supermercado aberto no rés do chão do Dubai Mall onde me abasteço
com umas peças de frango, alguma fruta e umas garrafas de água. Para comer à
noite, justifico não sei se a Alá… Ingiro (é o termo) o pequeno almoço,
imediatamente, numa cabine da casa de banho, o restaurante mais exíguo onde
alguma vez entrei, com a sensação de estar a cometer um crime hediondo, sem
fazer barulho, discretamente, sentado na sanita, como se estivesse num filme de
Luis Buñuel.
Alimentar-me
no Dubai, em pleno Ramadão, foi uma aventura durante todo o tempo que ali
passei. Almocei no quarto do hotel, ainda assim receoso, comprei discretos
frutos secos – curiosa qualidade para um fruto, a discrição - com que fui
enganando a fome no meio dos passeios sob um sol abrasador. E estive sempre a
pensar que, precisamente, a diferença entre «nós» e «eles» é que, a «nós», não
nos passa pela cabeça impôr-«lhes» os nossos preceitos, como eles nos impõem a
nós. Mas aqui, Alá akbá ou coiso, todos, muçulmanos ou não, têm que se sujeitar
à lei divina. Coisas tão inócuas como beber ou comer são transformadas em
enormes ofensas e de nada valem as lógicas terrenas perante a força coerciva
dos céus. Não se percebe como é que um jejum absurdo pode ajudar alguém a
atingir a salvação eterna e um bónus de sete virgens. Será o paraíso dos
muçulmanos um sítio onde não são permitidos gordos, gerido por um Alá
nutricionista ocupado a manter as pessoas magrinhas?