19/07/16

Viagens no Tempo II, por Ziggy


No fim do concerto do Iggy (ver post anterior) estávamos sem respiração, eu e o Tex, e a noite estava mais que ganha, mas parecia-me incrível, ainda faltavam os Massive Atack. Tudo na mesma noite! A minha expectativa era enorme porque já os tinha visto naquele  mesmo pavilhão à uns anos por altura da edição de uma das suas obras primas, Mezannine. Esse concerto foi simplesmente fabuloso, um dos melhores que já vi. É verdade que eu perdi um pouco o contacto com os Massive, principalmente depois do insípido 100 Windows, mas recentemente refiz o vínculo com Heligoloand. E o novo EP dos tipos, Ritual Sirit, é MA do melhor! Sabendo da genialidade da banda, conhecendo a sofisticação dos seus shows, eu estava convicto que ia ser grandioso, numa onda completamente diferente da de Iggy, mas grandioso, anyway… E foi!

Aquilo a que assisti não foi um simples concerto – foi algo muito maior, um espectáculo de ambição global, uma super produção (a começar na enorme panóplia de músicos e instrumentos e recursos tecnológicos e audio visuais)… Aquilo é música, dança, artes plásticas, agit-prop, poesia … Como é possível fazerem tão bem coisas tão diferentes? Ouvem-se as primeiras músicas e parece-nos trip-hop, mas também há ressonâncias de rock progressivo, de hard rock, de etno music, de electrónica… É visceral e high tech ao mesmo tempo. Se Iggy foi uma viagem aos anos 70, agora viajamos, claramente, no futuro.
O espectáculo dos MA é demasiado multifacetado para descrever aqui todos os aspectos que me interessaram. Deixo apenas alguns tópicos:

- Esqueçam os hits. O formato comercial do concerto em que as pessoas vão lá para reconhecer as músicas e se entusiasmarem com isso não é para eles. Dos hits da banda, apenas tocaram, um, a  fechar, Unfinished Simpathy (Safe From Harm, a abertura de Blue Lines também pode ser considerado como tal, ok). O espectáculo deles tem uma coerência própria e é isso que nos apresentam, se o hit não cabe, não há cedências.

- A presença da banda em palco é relativamente discreta (a iluminação é geralmente escura e os músicos estão na sombra ou surgem como silhuetas recortadas) mas o espectáculo visual é empolgante. O palco é iluminado com jogos de luzes muito fortes (vermelho e verde vivos, branco, preto, contrastes fortíssimos) que nos absorvem por completo. Eu nem olhei para os écrans laterais, o palco é o próprio espectáculo, o foco de atenção visual e quando digo palco digo as verdadeiras peças visuais que nele ocorrem.  Quem são os MA? Não são apenas os músicos, mas os criadores visuais e os mestres dos textos – embora a música seja fundamental, este espectáculo é, também, visual.

Alguns exemplos dessa qualidade visual-plástica do espectáculo: numa das primeiras músicas passam no écran pequenas frases a uma velocidade tal que não as conseguimos reter. No entanto fixamos, involuntariamente, algumas palavras isoladas destas frases, como Party, Trust, Peace, etc. Numa sequência mais à frente o écran é bombardeado com essas palavras que miraculosamente fixamos no meio de tanta frase disparada a 500 à hora.

- Há placards de aeroportos com horários dos voos e de repente o écran fica vermelho com inscrições de Delayed para todo o lado, numa sugestão de caos que se concilia com a música (Risingson de Mezaninne se não estou em erro). Há explosões de zeros e uns (principalmente em 100 Windows), bandeiras de países mais ou menos hostis, islamistas e outros, logotipos de marcas capitalistas globais…

Um dos jogos mais interessantes é desenvolvido durante a execução de Inertia Creeps: começa com a injecção no écran de frases, em português, sérias e alarmantes, não exactamente as que passo a enunciar: «atentado em Nice faz 30 mortos», «Russos constroem bombardeiro nuclear», «Coreia do Norte ameaça Coreia do Sul», «Atentado em Dallas faz xx vítimas» e, pelo meio aparece-nos um «Carolina Patrocínio apanha um escaldão na praia», e o público reage, finalmente, «Carro bomba explode em bagdad» entrecortado com «Luciana Abreu vende carro» e voltam as mensagens graves, para se seguir, «Portugal é campeão europeu» e a sala vem literalmente abaixo e ainda mais com «milhares de pessoas recebem a secção em lisboa»… Percebe-se a ideia: a denúncia da forma como os media nivelam o grave e o no fútil e, o sério e ridículo, como se fosse tudo igual. Tudo parece ter o mesmo peso quando não tem, efeito perverso da vertigem da velocidade mediática. Pior: a promoção da futilidade que ultrapassa aquilo que realmente importa, como o demonstram as reacções do público que caiu na armadilha ao reagir às notícias fúteis, deixando na indiferença a gravidade. Num écran mais à frente, somos confrontados com mensagens que convidam à reflexão deste estado de coisas como: «quem decide o que vemos? O que vemos é real? Quem somos?, etc… O espectáculo dos MA não é mera diversão, mas tem uma peocupação política e filosófica notória. Eles mostram-nos que é possível voltar a conciliar a dimensão de fruição da grande música urbana com a reflexão inteligente. 

- Musicalmente (eles são músicos em primeiro lugar, não o esqueçamos) houve momentos fabulosos, marcados pelo contraste, pelos crescendos, pela criação de tensões e explosões. Gostei da utilização dos samplers (em Unfinished Simpathy o efeito foi fantástico) e retenho como momento muito alto a actuação dos Young Fathers que acompanharam a banda na execução de Ritual Spirit, o mais recente EP dos Massive. Voodoo in my mind foi superior, outro momento incrível, a coordenação vocal, a coreografia, a combinação entre o ancestral e o tecnológico foi exímia: Adorei Inertia Creeps e Heligoland. 

Eu já sabia que estava perante seres superiores. Não pensei que voltassem ao nível a que tinham estado da primeira vez que os vi. Mas afinal estiveram muito acima. A energia proto-punk de Iggy primeiro e o visceralismo High-tech dos Massive, na mesma noite, uau, afinal as viagens no tempo são possíveis!

Viagens no Tempo, por Ziggy

Todo o melómano que se preze tem o sonho irrealizável de ver o seu ídolo a dar um concerto só para si. Pois bem, ontem foi o que pareceu. O resto do concerto até podia ter sido horrível (não foi, muito pelo contrário, foi excelente), mas a minha entrada no pavilhão atlântico a coincidir com a entrada do Iggy Pop em palco a tocar No Fun, foi um momento absolutamente inesquecível que, só por si, já teria valido a noite.

Eu descrevo melhor: com um atraso de uns bons dez minutos eu e o Tex entramos no recinto do festival; damos uma volta de reconhecimento, o ambiente está bom, o espaço é fabuloso; perdemos mais uns minutos nisto até que olho para o relógio e digo ao Tex, pá, já passa da hora, e dirigimo-nos ao pavilhão que não está lotado, longe disso, está perfeito, carregado de energia e espaço mais que suficiente para nos chegarmos à frente do palco. Ainda estamos a andar e a tentar escolher o lugar onde ficar, quando as luzes se apagam e Iggy Pop é anunciado nos altifalantes. O timing é perfeito, parece que o homem estava à nossa espera para começar o concerto, não começo sem eles, fónix, o que me dá uma vaga sensação de estar a realizar o tal sonho. Iggy, tronco nu pele de couro velho curtido, entra a correr e ouvem-se os acordes de No Fun. No Fun, porra, uma das minhas preferidas, o momento é mágico, o som está no máximo, a ferir os tímpanos, nem se nota a diferença entre o baixo e a guitarra, o efeito é de barragem sonora, um wall of sound ultra energético. Deliro, mas a magia do momento não acaba no fim dos 4 minutos de No Fun porque, é incrível, o tipo esteve mesmo à nossa espera, soam os acordes de I wanna be your dog. Duas das minhas preferidas, do meu álbum preferido dos Stooges, sinto-me na Factory nos anos 70. Com I wanna be your dog o pavilhão vem abaixo e eu também. São dez minutos de pura magia, inesquecíveis!

O resto do concerto sucedeu-se numa sequência imparável de grandes canções, como Passenger, Real wild one, Lust for life, 1969 (outra do primeiro dos Stooges)… Eu esperava ouvir Gardenia do último mas só tocaram Sunday e foi uma pena terem deixado de fora China Girl que a memória de Bowie exigia.

O concerto foi uma viagem no tempo, um regresso a 1970, a um concerto Punk com todos os números do catálogo, desde o salto para a assistência, aos gritos de bad ass, motherfucker e afins. O som estava exageradamente alto e, dois dias depois, ainda sinto zumbidos nos ouvidos, mas punk é punk e é mesmo assim, trata-se de uma explosão de energia e não de um desfile de virtuosismos instrumentais. 

No fim estávamos sem respiração, eu e o Tex, e a noite estava mais que ganha, mas parecia-me incrível, ainda faltavam os Massive Atack. Tudo na mesma noite! 




15/07/16

Somos todos campeões, por Jorge Best



Portugal é campeão da Europa. Pelo menos do ponto de vista do impacto, não apenas mediático, é o maior feito da história do desporto português. Hoje, dois dias depois do grande feito, ainda não se fala noutra coisa e ainda paira num ar um sentimento de orgulho, de irmandade nacional, de vaidade, até. Gente que não liga a futebol ou que, até mesmo, o odeia, discute encarniçadamente as virtualidades do 4-3-3 e do 4-4-2. Brotam da terra especialistas que nunca deram um singelo chuto numa bola a perorarem sobre a famigerada entrada de Payet sobre Ronaldo. Percebo esta transmutação – até de género, de repente, as mulheres transformaram-se em gabrieis alves de saias. Só indirectamente tem a ver com bola.
 
Trata-se antes de nacionalismo sublimado, do mesmo orgulho nacionalista, que dantes se manifestava a propósito das guerras e dos regressos dos guerreiros. Os nossos heróis e os vilões inimigos… Se isto fosse há mais tempo teríamos capturado o Payet e tê-lo-íamos passeado, para gáudio da multidão, pelas ruas da capital, encerrado numa gaiola para efeitos de ultraje público. Não o fizeram os romanos com Vercingétorix?

O nacionalismo é uma espécie de apendicite do ego, uma inflamação do mesmo sob a forma da nação. A nação é o ego inflamado à escala de um colectivo. E é por essa razão egoísta que de repente se descobrem à nossa volta tantos repentinos adeptos de futebol. Quando a selecção portuguesa de futebol se sagra campeã da europa, não se trata de uma simples vitória num jogo – não, somos nós que nos sagramos campeões, campeões da vida, campeões do mérito e da nobreza. A vitória dos jogadores é a nossa: «bom dia campeão», assim me saúda o sorridente empregado da loja onde me dirigi e que não me conhece de lado nenhum… Mas hoje é meu irmão, português como eu, campeão como eu…

Olho à minha volta e não consigo deixar de estranhar: aquele tipo baixinho, vestido com uma camisola de cava mais própria para a sesta, calção de banho apertado e chanatos decrépitos nos pés, também é campeão? O homem passeia-se aos esses no centro comercial, jornal infecto debaixo do ombro, tom de pele de inverno em pleno julho e mãozinha marota a coçar as partes baixas intrabolso. Também é campeão? Claro que sim e aqui temos a razão de ser do impacto desta vitória. Todos temos um pouco deste grunho que se passeia no shopping e todos nos sentimos, como ele, campeões pelo feito dos nossos. E é por isso que esta vitória é tão fantástica e há nisto algo de irracional e ao mesmo tempo de lógico. Ontem, hoje, amanhã, durante mais uns tempos, somos todos campeões.

21/06/16

Não aprendem!, por Lady Marmalade

A rainha xuxa da laca, dona canavilhas, escreveu no seu twitter, a propósito da cobertura dada por uma jornalista do Público a propósito de uma manif de professores a seguinte aberração:
«Esta jornalista ainda não foi despedida por escrever factos falsos?»

O comentário da senhora é um sintoma do apetite xuxa de controlar a comunicação social. Um sintoma grave , claro, na linha do que o seu patrono , Mr 44, tentou efectivamente fazer quando esteve no poder. Deus nos livre de gente desta voltar a governar Portugal.

Mas pior ainda é a manifesta cobardia da emenda: no twiter não vale, disse esta deslumbrada quando foi apertada, «nunca pedi a demissão da jornalista , se o fizesse não era no twitter»... Ou seja, nem coragem teve para assumir o que escreveu!

Ora fazendo fé em que, como diz, não é para levar a sério o que escreveu, então não se percebe  tanta ligeireza. Ficamos a saber que a criatura acha normal  ofender assim, gratuitamente (já que não é para levar a sério), a dignidade pessoal e profissional de uma jornalista, isolada e fragilizada. É caso para dizer à senhora que se é para brincar, então, bem podia ir brincar com... outra coisa, sei lá...

04/05/16

Nietzschewsky, por Rambo



Dostoiewsky nasceu em 1821 e morreu em 1881. Nietzsche em 1844 e 1900. Quem leu quem? Nietzsche leu Dostoiewsky ou foi o contrário? Em Os irmãos Karamazov, o Diabo aparece a Ivan e diz-lhe (e parece que é Nietzsche a falar ou será o contrário, Dostoiewsky é que fala Nietzsche?):

« Na minha opinião não é preciso destruir nada, salvo a ideia de Deus no espírito do homem: é por aí que se deve começar!... Quando a humanidade inteira renegar a Deus – e eu creio que esse período, como os períodos geológicos, chegará a seu tempo – então a antiga concepção do mundo desaparecerá por si, sem que haja necessidade de passar pela antropofagia e, sobretudo, desaparecerá a antiga moral. Os homens unir-se-ão para obter da vida todos os gozos possíveis, mas neste mundo somente. O espírito humano elevar-se-á a um orgulho titânico e surgirá então o homem-Deus. Triunfando sobre a natureza, sempre e sem limites, graças à sua inteligência e energia, o homem experimentará uma alegria tão intensa que substituirá nele a esperança a e a ânsia de alegrias celestiais. Cada um saberá que é mortal, sem possibilidade de ressurreição, e resignar-se-á à morte com sereno orgulho, como um Deus. Por orgulho, também, abster-se-á de murmurar contra a brevidade da vida e amará os seus irmãos sem esperar qualquer recompensa. O amor não encherá mais que um momento da vida, porém o próprio sentimento da sua brevidade torná-lo-á mais intenso, ao passo que antes dispersava-se nas esperanças dum amor eterno de além-túmulo.»

01/05/16

Um Romance Genial, por Dodot

Hoje, domingo, dia 1 de maio, acordei às 9. 30, abri a janela para deixar entrar a luz e comecei a leitura do 3º volume da tetralogia A Amiga Genial de Elena Ferrante. Quando, finalmente, levantei os olhos cansados e olhei para o relógio eram 11. 30. Se não é isto que se espera de uma grande romance, então o que é?

11/01/16

Where Are You Now?, por The Buddha of Subhurbia

Acordo e ligo o rádio que me diz algo que julgo ter ouvido mal - «morreu David Bowie» - porque os Deuses não morrem. Fiquei a pensar, porque, precisamente, Eles nunca morrem, que só pode ter  sido dos meus ouvidos. Mas a seguir reparo que não é normal passarem na rádio o Young Americans áquela hora da manhã e depois o locutor acrescenta «mais informações no nosso noticiário das 8» e eu vacilo, mas ainda repito que não pode ser, que não é possível... Espero, ansioso, pelo noticiário das 8 e é mesmo verdade: morreu David Bowie e, ainda por cima, passam a minha música preferida, Heroes, aquele misto de revolta, desespero e paixão e é nesse preciso momento que eu me venho abaixo. Nunca julguei que fosse possível que a morte de alguém que não conheço mexesse tanto comigo!

Mas, como diz um amigo comum (meu e dele), é claro que o conheço, ele faz parte de mim, do que sou  e de como sou. É verdade, mas é também por isso que sinto tanto, porque com a sua partida é, também, um pouco (um muito) de mim que se vai para sempre. É certo, a sua obra permanece, as suas músicas estão cá para sempre, mas é triste saber que ele já não me vai voltar a surpreender com a sua espantosa criatividade (e ainda há poucos dias o tinha feito, uma vez mais, com Black Day)...

Um artista é verdadeiramente grandioso quando consegue estabelecer uma relação pessoal, íntima, insubstituível com o seu, não sei bem que palavra escolher, ia a escrever público, mas no momento em que um artista estabelece essa relação pessoal comigo, então eu já não sou público, já não sou fâ, já não sou admirador, já me tornei noutra coisa qualquer mais pequena e maior, um amigo, um íntimo, seja o que for... David Bowie é um dos poucos artistas com quem logrei estabelecer uma relação desse tipo: ele sabia mais de mim do que a maior parte das pessoas com quem convivo no dia a dia. Fã? Público? Não. Nunca fui fã de Bowie, fui e sou algo muito mais forte e por isso  agora me custa tanto que ele tenha partido.

Bowie acompanhou-me ao longo da vida, a partir dos meus 17 ou 18 anos, quando ouvi pela primeira vez Ziggy Stardust, num dia cinzento, ainda me lembro. Foi imediato, não precisei de mais que dois acordes para ficar completamente rendido àquela sonoridade. Num impulso corri a comprar todos os vinis que encontrei e que a minha mesada da altura permitia: Hunky Dory (mas não tinha nada a ver com Ziggy, que era eléctrico e este acústico, sendo, contudo, igualmente genial), Alladin Sane ( ainda rock mas mais pesado, mais básico, o disco de Jean Genie) e Diamond Dogs (com o inesquecível Rebel Rebel). Bowie acompanhou-me  em momentos que não interessam para aqui, mas que foram marcantes para mim e, mais não houvesse, o lugar dele já estaria seguro na minha escala de afectos. Gostei de tal maneira destes discos - os primeiros que dele ouvi - que me recusei a abdicar deles quando a namorada da altura os exigiu para si, a propósito daquelas partilhas infames que ocorrem sempre quando um casal se separa e já não se sabe o que é que pertence a cada qual. Ela não gostava assim tanto do Bowie, queria os discos, suponho, só para me chatear, sabia como eu os adorava e era uma forma cruel de se vingar. Mas não cedi, podes levar a casa, o carro, o dinheiro mas não me levas os discos do Bowie...

Ele voltou a surpreender-me mais tarde quando me rendi - como toda a gente na altura - ao maior sucesso da sua carreira, Let s Dance. Adorei China Girl, um original de Iggy Pop, a que ele deu uma nova dimensão como fez muitas vezes - com Let`s spend the night... dos Stones, com le port de Amsterdam de Brel, com the Long and windin road dos Beatles, com um disco inteiro de covers, Pin Ups, mas que espécie de génio é que desce do seu pedestal de super star para fazer um álbum só com músicas de outros autores? Depois foi a vez de Scary Monsters, outra obra prima absoluta, que eu ouvi milhares de vezes com outro amigo comum - Because You´re Young e o extraordinário Its no game (parte 2) foram marcantes...

Mas o melhor estava para vir quando descobri a frase electrónica dele e a sua parceria com outro génio , Brian Eno, em dois álbuns brilhantes e inqualificaveis (que género de música é aquela?), Low e, sobretudo, o seminal Heroes, para mim , a sua obra prima absoluta . Muito mais tarde, ainda, descobri a sua fase inicial, sobretudo, The man who sold... e space oddity, geniais, mais uma vez (e Memory of a Free Festival, que música!). Vi-o ao vivo, claro, na única vez que actuou em Portugal, na Sound and Vision Tour. Foi fantástico, apesar do estádio cheio e da multidão comprimida...

Bom, eu não posso mencionar aqui todas as sucessivas descobertas que fiz de Bowie ao longo da vida, posso só tentar exprimir a noção de que ele me acompanhou sempre,mas sempre, que foi a banda sonora de grande parte da minha vida, dos minhas angústias e alegrias, das minhas viagens interiores e exteriores. E é incrível, que homem é este que se multiplicou em tanto ser diferente, vertiginosa mas sempre, fielmente? Pode ser-se genial numa área específica; Bowie era-o em muitas, era uma espécie de personagem renascentista que transformava em ouro tudo aquilo em que tocava sem conhecer fronteiras de qualquer espécie. Talvez nos meados anos 80-90, assim reza a crítica , ele tivesse cedido um pouco, com alguns álbuns menos interessantes, como never let me down ou tonight. Mas recentemente reencontrei pérolas perdidas da sua discografia quando comecei a ouvir os seus discos pós-Hearthling. Todos os que ele fez depois...

E, ainda não estava refeito do espanto da descoberta deste último Bowie pós -Hearthling, eis que surge The Next Day, genial em tudo, até na capa espantosa, no sincretismo, na amargura de Where are We Now? (do melhor que ele fez). Ainda por cima, descobri este disco, da mesma forma genuína que descobri outros Bowies no passado: entre amigos, durante uma longa viagem de carro. The Next Day tem vida agarrada. E há aquela lição magistral que confirmamos, por exemplo, nos vídeos do álbum: Bowie assume sem medo as marcas («scars») do tempo, os golpes da velhice no seu rosto, a angústia do fim. É um álbum triste mas irresistível.
Na semana passada saiu Black Star e, mais uma vez, foi para mim um espanto absoluto (mas este homem não tem limites? Tinha, afinal, maldito noticiário das 8...). Até certo ponto parecia-me uma continuação de The Next Day, outra vez o mesmo esforço de síntese do passado e do futuro, o cruzamento de influências (jazz, ambientalismo, rock, sinfonismo...), o mesmo clima de fim de mais um ciclo e de início de outro (Lazarus...) e, acima de tudo, aquela proximidade da morte, a sua própria morte, que percebe-se agora, ainda faz parte deste disco. The Next day era a angústia do tempo que se lhe escapava;  Black Day é, uma aproximação da morte ( a faixa homónima) como eu só conhecia nos grandes requiens da grande música.




21/08/15

Snobismo de Viajante, por Chac Mool



Leio as páginas de um livro de um viajante que visita Chichen Itza, a famosa ruína maia, no México, e o paradoxo é evidente. O escritor despreza as hordas ignaras de turistas anafados como se fossem pragas de gafanhotos predadores. Fala do lixo, do linguarejar barulhento, dos guias de camisa branca que vendem os seus clichés por 10 dólares e das multidões de aldeões que enxameiam as ruínas com as suas bancas de artesanato tétrico, feito de caveiras, serpentes, jaguares e guerreiros decapitados. Conclui que Chichen Itza, como todos os lugares turísticos do mundo, seria muito melhor sem a praga de turistas arrebanhados em agências low cost. E, no entanto, a contradição é evidente: este escritor é, também ele, um turista. Porventura o mais nocivo de todos porque o livro que escreveu possui o tremendo poder de ampliar a sua mensagem e de lhe multiplicar a potência, atraindo, desse modo, muitos mais turistas que o simples passa-palavra da maioria. Ele reclama, à partida, um estatuto de observador etéreo que não tem, o do viajante aureolado que paira sobre as multidões de gordos. Mas está de má fé. Para todos os efeitos, naquele momento, ele é só mais turista, um entre muitos, que contribui na exacta medida de todos os outros para aumentar a pegada ecológica que vai estragando Chichen Itza, a baía de Guanabara, Veneza, Benidorm, Albufeira, o mundo... De nada lhe vale – a não ser enquanto mecanismo de sublimação – tentar convencer-se de que é o viajante-querubim sem corpo, a voz sem língua nem saliva do escritor imaculado. Errado – ele pesa os mesmos 100 kilos de todos os outros. É um turista, um vil turista!
É por isso que todos os textos que escarnecem o turismo de massas estão feridos de um snobismo implícito e inevitável que é ainda pior quando não tem consciência de si. No preciso momento em que escrevo uma palavra que seja a denunciar os horrores do turismo, o viajante transforma-se num possidónio e é essa a armadilha em que caem todos os escritores – grandes ou pequenos – de viagens.
Talvez fosse mais honesto se o viajante que não quer ser turista reconhecesse o óbvio: que sem o malfadado turismo de massas os destinos de sonho jamais passariam de locais virtuais. Graças ao turismo de massas somos colocados nas ilhas Phi Phi, na Tailândia, com mais umas centenas de indesejáveis. Lamentamos estes magotes que nos conspurcam o sonho. Mas sem eles, pura e simplesmente, não poderíamos lá ir e Maya Beach continuaria a não passar de um paraíso inacessível de que apenas usufruiríamos enquanto espectadores espojados num sofá a telever o filme A Praia e a invejar o Brad Pitt. Estar nos sítios com todos esses milhares de anafados é a única forma do real não nos escapar completamente como areia por entre os dedos. Devíamos estar gratos e não zangados com as multidões que fazem bichas intermináveis no Louvre e no Guggenheim e com as algas castanhas que conspurcam as águas azul cobalto dos resorts caribenhos. Afinal, somos todos turistas e, no mundo real, só existem duas formas de o evitarmos:
- uma, autêntica e eficaz, é não sairmos de casa. Mas isso significa a redução do nosso mundo à forma de famélicas imagens que poisam fugazmente nos écrans do computador e da televisão ou nas páginas mentirosas de um livro ilustrado. A outra, a falsa, é estar de má fé. Consiste em auto convencermo-nos de que somos antes viajantes e, como dizia Paul Bowles, «o viajante é o contrário do turista». O problema é que cada um dos milhares de turistas que grelham ao sol de Albufeira está convencido de que é ele esse ser excepcional, o viajante, e que todos os outros são os malfadados turistas. Era bom que os nossos paraísos estivessem desertos, à nossa espera, mas isso é cada vez mais difícil.

14/08/15

Banhistas, por Ikkil

Playa del Carmen, México, 3 da tarde. Multidão a banhos. Vêm-se cabeças e braços, não se sabe se pertencem a pessoas altas ou baixas, louras ou morenas, mulheres ou homens, pretos ou brancos. Contudo, no meio daquela babilónia, identifico, sem margem para dúvidas, dois indiscutíveis americanos de quem, praticamente, só vejo os braços. E como se reconhecem braços americanos? Fácil: pela forma como lançam a bola um ao outro, a técnica é de basebol. É notável como transportamos a cultura connosco, mesmo imersos a banhos numa praia no meio de uma multidão de cabeças anónimas. Basta um gesto e está lá, agarrada e indissociável,  a marca da identidade.

O japonês, esse só o identifico a postereori: é o tipo de olhos em bico que está há uma hora com água pela cintura a recolher o sargaço-praga-do-mar e a atirá-lo para os lados enquanto roga pragas furibundas de sol nascente. Maldito sargaço que lhe estraga o postal, a praia, as férias, vem um tipo de tão longe para isto...

13/08/15

Rambutões, por Quetzal

O rambutão é um fruto de contrastes. Por fora parece um ouriço marinho, mas é um fruto terrestre. Quando maduro oscila entre um vermelho vivo e um castanho amarelado. A polpa tem escamas pontiagudas que parecem espinhos mas que, afinal, são dóceis como fios pendentes e inofensivos. Abre-se e, lá dentro, o fruto é branco aquoso, de textura aveludada como a pele de um bebé. É doce ao gosto e muito fresco, quase licoroso, mas no final vem a surpresa - o caroço. O caroço é ácido, o que é notável porque contrasta e corta o doce do fruto. Bem se pode dizer que não se chega a saber o que é um rambutão até chegar ao caroço e sentir este maravilhoso contraste entre a polpa dce e o caroço ácido (e tóxico, segundo alguns entendidos, mas não importa). Eu nunca antes tinha provado um fruto cujo caroço fosse tão decisivo. Geralmente o caroço (da cereja, da ameixa, do pêssego ou da nêspera) é uma excrescência que não está ali a fazer nada e que só serve para se deitar fora. Mas no rambutão não é assim, a acidez do caroço é tão fundamental que sem ela, provavelmente, o fruto tornar-se-ia excessivamente doce.
Espinhos que, afinal, são franjas; do mar e da terra; vermelho e branco; doce e ácido; tóxico e refrescante... O rambutão é o fruto  dos enganos, ou então, a luta feliz dos opostos.

Quintana Roo, 7/2015

15/04/15

The Beach, por Vietcong

Maya Beach é a prova de que Deus não existe. Porque se Deus tivesse o poder de criar sítios como este, então faria todo o mundo assim. Maya Beach sugere uma espécie de argumento de Leibniz sobre a perfeição do mundo mas ao contrário. Um mundo que não é todo como Maya Beach mas em que existe Maya Beach só pode admitir a perfeição como acidente. Diz-se que as maiores provas da existência de Deus são a harmonia e a beleza da sua criação. Para Leibniz este era o melhor dos mundos possíveis. Mas Maya Beach faz-me pensar no contrário: porque é que Deus não fez todo o mundo assim, porque é que apenas fez um sítio como este? Porque é que a maior parte dos sítios do planeta que habitamos são pardieiros miseráveis como o hotel Manolo em Madrid, o restaurante O Rei do Cozido na Baixa da Banheira ou o Iraque inteiro?  Maya Beach só pode ser um acidente feliz da natureza, um maravilhoso acaso cósmico, porque se houvesse realmente um Deus capaz de criar tal beleza, Ele fá-la-ia existir sempre e em todo o lado e não só aqui, nas ilhas Phi Phi, ao largo de Phucket na Tailândia. Porque é que Deus não fez todo o mundo assim? Pois, só pode ser porque não existe. (2/8/13)

20/11/14

Pulhice Vitalícia, por Katanada

Tendo zé lello e couto dos santos como proponentes do vómito, ps e psd,  para não ficar um só deles com o odioso da questão, decidiram hoje repor as pensões vitalícias para a maltosa política que já ganha mais de 2000 euros. O cds absteve-se ruidosamente.

Enquanto roubam os outros todos, vulgo povo, com cortes salariais pornográficos, retenções ilegais nas carreiras, aumentos de iva, irs, subidas de imis a valores estratosféricos, de taxas de saúde, de propinas, de iurcs etc, etc, os nossos íntegros e escrupulosos políticos muito preocupados com as nuances jurídicas do respeito pela constituição e de não sei que mais excelsos valores do estado direito (vide isabel tanga moreira, o pai é que não tem culpa), decidiram-se pela reposição das pensões vitalícias para os políticos. Sublinho: enquanto tudo isto, aquilo!

Isto merece-me uma só palavra, pulhice, e um comentário: agora, carneirada do ps e do psd corram de novo a votar nesta gentalha. País de merda, merecemos em dobro toda esta gente que nos acontece!

15/09/14

Frente e verso, por Inverso

A ex ministra da educação,  milu rodrigues, declarou à saída do tribunal, depois de ter sido condenada a três anos e seis meses de pena suspensa (mais uma multa de 30 mil euros), por prevaricação de titular de cargo político, cito de memória, ter «ficado muito mal impressionada com a Justiça». Não percebeu que o problema foi o contrário: a Justiça é que ficou, pelos vistos, muito mal impressionada com ela.

06/09/14

Alá é um escritor mediano, por Mau Mé Mé

Hoje estive a ler o Corão, movido sabe-se lá por que inconsciente desejo de entender o que é que pode levar indivíduos encapuçados a decapitar pessoas inocentes. Cheguei a uma conclusão: depois de ter lido dezenas, centenas, talvez milhares de livros na minha vida (sim, sou um leitor compulsivo) é, para mim, claro que Alá não é um grande escritor. Conheço centenas de escritores humanos que, do ponto de vista literário, filosófico, ideológico ou qualquer outro que se possa conceber, são muito melhores escritores que Ele. Tá bem, Ele pode ser um craque a criar mundos cheios de animais, plantas, até bactérias e amibas, estrelas e galáxias em apenas seis dias (ao sétimo descansou), mas, como escritor, está a léguas de qualquer literato de média craveira.