28/07/06

Uma Ideia para um Grande Negócio, por Taylormaker

Começo por dizer que este texto deve ser lido pelos administradores das empresas cervejeiras e de refrigerantes. Ofereço-lhes de mão-beijada um autêntico ovo de Colombo. À borla! Não vos peço nada em troca. Basta pôr em prática a minha genial ideia e vos garanto a decuplicação da facturação no prazo de um ano! É garantido. Meto a minha cabeça no cepo, ou qualquer outra parte da minha anatomia. Duvidam? Leiam até ao fim e verão. A minha ideia é tanto mais genial quanto não exige nenhuma alteração nas linhas de montagem, nos circuitos de distribuição ou nos processos de produção e fabrico. É apenas uma questão de imagem. A ideia ocorreu-me de repente. Assim como ao Arquimedes ou ao Newton. Nós somos assim, dados a relampejos súbitos. De que se trata afinal? Simples, muito simples. Comecei por reparar que a evolução verificada nas últimas décadas ao nível da mentalidade e da sexualidade tende para a afirmação de uma cultura hardcore assumida e descomplexada. Vi outro dia nos escaparates uma biografia de Jenna Jameson, numa excelente edição com bom papel, capa lustrosa e fotografias a cores. E sabem que mais? Achei natural! A edição não estava escondida atrás de uma banca numa papelaria sombria numa rua esconsa de um bairro de má reputação. Não, estava no escaparate da Bertrand. Em destaque. Vi depois a mesma obra na FNAC e na Almedina. Comecei então a prestar atenção a estes indícios que preanunciam uma mudança de atitude mental. Reparei em muitos outros livros. A Taschen, por exemplo, editou uma obra histórica que compila algumas das mais importantes capas das revistas porno das últimas décadas. Tudo explícito. Nos clubes vídeo e nas lojas de DVD os filmes porno aparecem às claras e com grande destaque. Bares de sexo ao vivo há em todo o lado, e não me refiro aos bares de strip. O Alexandre Frota é pouco menos do que um herói nacional, admirado por adolescentes e donas de casa. Pela TV, no horário mais nobre ou no mais insuspeito horário matinal, fala-se de sexo hardcore e mencionam-se os nomes dos filmes e actores. Os festivais do sexo fazem-se em todo o lado com promoções no telejornal, nas revistas femininas e são visitados por milhares e milhares de pessoas. O DVD do making-off do «Garganta Funda» é um sucesso. As sex-shops proliferam, doutores e engenheiros entram e comprem sem segredo os acessórios mais estranhos e bizarros. Dos videojogos e da internet nem vale a pena falar. A cultura porno-pop está aí já triunfante.

Ora foi aqui que eu me lembrei de uma enorme oportunidade de negócio. Cerveja porno! Voilá! Contrata-se uma estrela porno, uma Jenna Jameson seria o ideal mas, na impossibilidade, há milhares e milhares de estrelas consagradas ou a consagrar disponíveis para darem o corpo por este projecto. Depois, pegava-se na moça e levava-se para a linha de montagem. Aqui, a senhora teria que se empenhar. Cada garrafa passariapor um ou vários dos seguintes locais:

a) lábios vaginais,

b) pela depressão inter-mamária com ou sem contacto pelo mamilo,

c) pela região inter-nadegal,

d) o gargalo da garrafa seria abocanhado como se simulasse um fellatio

e) etc.

Depois, e após a edição de uma primeira série experimental limitada e destinada a testar o mercado, seriam imprimidos os rótulos. Em cada um dos rótulos atestar-se-ia a autenticidade do produto anunciado. Cada rótulo seria numerado e assinado pela senhora e por um elemento da direcção da empresa. Digamos um director de marketing ou pelo provedor do utente, por exemplo. No contra-rótulo colocar-se-ia até uma fotografia da senhora em plena acção laboral. Todo o processo poderia ser filmado, fazendo-se do facto boa publicidade, não apenas para garantir que não existiria publicidade enganosa como até se poderia comercializar o filme posteriormente. Conforme a reacção do mercado assim se definiriam os preços de cada variante e se poderia alargar a estratégia a outros mercados mais bizarros e até a outros nichos, integrando trabalhadoras em maior quantidade e diversidade. E, claro, a versão para mulheres e homossexuais com as garrafas a passarem nos colhões, ou com a carica a ser afagada, garantidamente, pelo prepúcio de um qualquer discípulo do John Holmes!

Quem sabe não será um dia possível, com a maior das naturalidades, um de vós, caros leitores, refastelado numa esplanada da Praça da República, responder ao solícito empregado quando ele vos interpelasse:

- Então, sotôr, o vai ser hoje?

- Olhe – responde o leitor - traga-me uns tremoços e uma Superbock Vaginal.

- Vaginal não temos, ó doutor, acabou-se há pouco.

- Traga-me uma intermamal então. Mas fresquinha…

- Isso acho que ainda há. Quer de quem?

- O que é que há?

- Ora, mamais… temos da Linda St. Croix, da Laureen Love e creio que ainda há qualquer coisa da April Flowers.

- Olhe, pode ser essa, a April Flowers. Se não houver traga-me uma com o gargalo chupado pela Jenna, é mais clássico..

- Certamente, ó doutor, é para já.

Será para já?

17/07/06

Vendas


Não hesite! Compre já! Aproveite esta fantástica oportunidade e, por um preço imbatível, adquira um pau de stripper para usar no conforto do seu lar e poupe uma fortuna. Já imaginou o que gasta em privates ou em table-dances? Poupe o dinheiro que gasta em taças de champagne e vodka-martini a preços verdadeiramente exorbitantes. Agora, em sua casa, tem a oportunidade de assistir a shows privados de strip-tease sem gastar um tostão. Basta adquirir o equipamento que lhe apresentamos. Podemos acompanhar a encomenda de uma chibata, para convencer as esposas renitentes, ou de uma jovem boazuda, no caso de a esposa ser muito renitente*. Não perca tempo, compre já! Siga o link. Entregas ao domicílio.

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15/07/06

Abra-se!, por Sancho Lupa

A Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, cancelou há dias, em cima da hora, a abertura do túmulo de D. Afonso Henriques. A antropóloga da Universidade de Coimbra, Eugénia Cunha, propusera-se descobrir as ossadas, liderando uma vasta equipa internacional e multidisciplinar. Cumpriu todas as formalidades e autorizações legais: da Universidade, do IPPAR e da Diocese, o que é muito significativo, direi já porquê. Quando a antropóloga se aprestava para destapar a arca funerária (segundo alguns, a urna terá sido mesmo deslocada), eis que chega a ordem de cancelamento emitida pela ministra. Refeitos da surpresa, acatada a ordem, veio a saber-se que a titular do Ministério da Cultura não foi pessoalmente consultada, pelo que, sentindo-se ultrapassada, terá ordenado a suspensão. Os prejuízos foram enormes, pois que aparelhagem sofisticadíssima estava já requisitada. Além disso, uma nova calendarização do projecto afigura-se difícil e dispendiosa, dado o facto de a equipa científica reunir membros de diversas instituições universitárias. Compatibilizar disponibilidades não será fácil. A ministra, porém, entendeu que o facto de não haver dado autorização expressa é motivo suficiente para tanto transtorno. Eu acho que não, acho que a ministra não tem razão. Não discuto a necessidade de autorização governamental. Parece que noutros países onde projectos semelhantes têm sido desenvolvidos, como em Espanha por exemplo e em relação às ossadas de Colombo, tal não é exigido. Acho até que a razão assiste à Ministra quando se declara surpreendida. A culpa, contudo, é do IPPAR e dos seus dirigentes. A antropóloga remeteu o processo e os requerimentos formais à sede própria: o IPPAR. Obteve aprovação científica pelos órgãos da Universidade e anuência simbólica das autoridades religiosas. Competia aos dirigentes do IPPAR cumprirem os trâmites hierárquicos e submeter o processo ao Ministério da Cultura. Não o fazendo, incorrem em falta e justificam procedimento disciplinar. A Ministra deve iniciá-lo. Desconfio que o não fará. Depois, a Ministra deveria analisar o pedido de autorização com carácetr de urgência e só cancelaria os trabalhos se existisse matéria grave ou suspeita de danos irreparáveis. Não sendo o caso, como não era, nada justifica a decisão tomada.
No meio desta baralhada, e além do prejuízo causado a quem foi cumpridor, ainda se colocou em causa foi a pertinência científica do projecto. Apesar do prestígio dos nomes envolvidos, apesar do enquadramento institucional, apesar dos pareceres de autoridades eminentíssimas como o prof. José Mattoso que atesta a validade do projecto, há quem ache desprezíveis os intentos. Há quem diga que é irrelevante saber a altura de Afonso Henriques, as suas doenças, as lesões e maleitas, o seu aspecto fisionómico. Há quem declare a desnecessidade de tudo isto, incluindo o que se possa vir a apurar sobre as dietas alimentares ou a colheita de amostras de DNA. Eu, na minha humildade, concordo com quem assim pensa. Tudo isto é desnecessário e não lhe acho qualquer pertinência. No entanto, acho que é a mais importante irrelevância da História de Portugal e, por isso, deve ser cometida. Deve-se abrir o túmulo e apurar tudo sobre o rei. Não porque tenha importância em si, mas porque tal acto fará do rei simples objecto de curiosidade e análise científica. E isto é importantíssimo. A carga simbólica que envolve o rei dissipar-se-á depois de, durante quase um milénio, ter sido objecto das mais diversas devoções e mistificações. Desde os discursos restauracionistas, a cargo dos frades alcobacences, que por óbvias razões ideológicas mitificaram a memória do Fundador, até ao nacionalismo romântico e liberal que, em Oitocentos, encontrou no estudo das origens a raiz da identidade nacional em construção, até ao tradicionalismo contra-revolucionário protagonizado por D. Miguel que chegou mesmo a desenterrar as ossadas do rei em quem via o símbolo máximo da autoridade cuja preservação se impunha defender contra o liberalismo ameaçador, até ao catolicismo mais beato que chegou a propor e a iniciar um processo de canonização do rei numa era que a Igreja se via ameaçada pelo processo de secularização e laicização da sociedade, sem esquecer a sobreposição que o providencialismo historicista, autoritário e nacionalista do Estado Novo que promoveu uma sobreposição interesseira entre a memória do rei e a imagem de Oliveira Salazar. Após a revolução de Abril, a memória do rei sofreu um processo de depuração pela pior via: o esquecimento.
Agora, por fim, as ossadas parecem remeter-se à sua condição: ossos estudáveis. É curioso que, pela primeira vez na História longa das ossadas, de quase um milénio, elas se considerem pela primeira vez como simples ossadas. O olhar científico, a desideologização dos tempos, promove esta nova abordagem, a não ser que consideremos, e é essa a minha opinião, que esta cientificização das relíquias é em si uma ideologia. Assim, o que é muito curioso e significativo é que as autoridades eclesiásticas tenham aceitado pacificamente que o féretro fosse objecto de banalização ao constituir-se como objecto de estudo, ao passo que as autoridades civis que muito recentemente elevaram os túmulos régios de Santa Cruz à dignidade de Panteão Nacional, tenham requerido tantas formalidades e exigido tanto rigor no processo, alegando a delicadeza do assunto, o que parece demonstrar que as ossadas passaram da tutela religiosa da Igreja Católica para a tutela cívica do Estado. Assim posto, a recusa ministerial é uma forma de apropriação simbólica do património quase milenar das ossadas afonsinas.

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12/07/06


1946 -2006

10/07/06

A Última Copa, por João Bocejo

A Itália ganhou. Perderam a França, o Zizou e o futebol. A França ainda bem que perdeu, o Zizou merecia melhor despedida o futebol perderia mesmo que a França ganhasse. O futebol perderia se a Alemanha ganhasse. Ou Portugal. O mesmo se acaso o Brasil ou a Argentina lograssem o título. Ou qualquer um, à excepção de uma nação africana. Aí sim, aí o futebol voltaria a encantar-me. Confesso que ando desencantado com este desporto, muito particularmente com os campeonatos do mundo. Não falo das suspeitas de manipulação e corrupção. Falo do tacticismo. O jogo está monótono, medroso, maçador, aborrecido e sonolento. Em 120 minutos há dois ou três remates para cada equipa. O resto é ansiedade e nada mais. Não há resquício de espectáculo. Não fora a memória que guardo de grandes campeonatos passados, uns testemunhados, outros apenas vistos em diferido com décadas de permeio, e o jogo não me atrairia minimamente. Compreendo os americanos que, em face das euforias europeias e sul-americanas, bocejam de tédio e perplexidade. O bocejo americano é tão emocianante como a taça Jules Rimet. O preocupante é que isto não é de agora. Desde o Itália 90, ao USA 94 e o Coreia / Japão 2002, com a louvável excepção do França 98, os campeões são indignos, as competições são chatíssimas, não há chama de glória, não há heróis, não há nada de memorável. E porquê? Porque razão o campeonato se tornou um longo bocejo, à excepção do França 98? Eu tenho uma explicação.
O encanto do jogo não é inerente ao jogo, é um acrescento, um suplemento encantatório. Quando inventado, era atlético e tacticista. Os sul-americanos, e muito particularmente os brasileiros, sobrepuseram a fantasia à táctica. A raiz africana e o factor-favela, entre outros aspectos determinantes, fizeram do jogo o espectáculo mais popular do planeta. Foram os anos dourados do Brasil e do Uruguai. O campeonato do Mundo conheceu os seus anos de glória. A par destes sucessos, e por causa da popularidade do jogo, o campeonato tornou-se alvo da cobiça política dos nacionalismos exacerbados. Não apenas dos ditadores, que nunca desprezaram a ocasião para alardearem a idiotice do nacionalismo imperialista. Francisco Franco teve, em 1964 e em casa, a oportunidade de, através de uma roubalheira histórica, humilhar os soviéticos na final. Não foi um Mundial, foi um Europeu, mas se o Caudillo estivesse à espera de um Mundial, ainda hoje era vivo e estava sentado.... à espera. Com outro alcance, já o inspirador Mussolini, mais do que a Itália, vencera em 1934 e 38. De igual modo, a Argentina dos Coronéis roubou indecentemente o Mundo em 1978. Se a roubalheira agrada aos ditadores, os democratas também não desprezaram o Campeonato do Mundo para exibirem as suas virtudes nacionais. Foi o caso da Alemanha reconstruída do pós-guerra que se reabilitou em 54, com uma roubalheira épica, às custas da Hungria. A RFA voltaria a ganhar em 1974, com justiça é certo, sendo que o derrotado, mais do que a Holanda, foi a RDA, incapaz de ombrear com o gémeo capitalista. A Inglaterra de 1966, contra a Alemanha, exibiu o seu chauvinismo com uma soberba autárcica e imperial. Poucos anos após aderiam à CEE. Hoje, permanecem eurocépticos e nunca mais ganharam nada.
A maior demonstração, e mais genial, de manipulação do jogo pelo nacionalismo foi o México 86. Mas, e isto é muito importante, a vingança nacional da Argentina face à Inglaterra, depois da derrota das Malvinas, foi feita com a mais justa batota da história do futebol, a célebre mão de Deus de Maradona. Só que, e a diferença é abissal, o aproveitamento não foi atlético , nem esmagador, nem descarado. Foi sim, mais uma vez, encantatório e apaixonante. A guerra quixotesca que a Inglaterra fez nas Malvinas, vingada por Maradona, foi um anacronismo idiota, pois mostrou o esgotamento do paradigma imperial e do conceito de soberania que vingou no mundo ocidental nos últimos 200 anos. De então em diante, a globalização, a miscigenação, as migrações, o reoordenamento das fronteiras e o realinhamento dos grandes blocos estratégicos, com a reunificação alemã, a implosão soviética, a balcanização de muitas regiões do globo, a criação de um espaço europeu, a clivagem civilizacional com o Islão, entre outros factores, vêm mostrar como o paradigma moderno do Estado-Nação está em desagregação. Ora, os jogos do Campeonato do Mundo assentavam sobre o embate de equipas nacionais. A sua emoção e o sucesso que alcançaram resultavam dessa condicionante. Esgotado o conceito, o jogo tacticizou-se. Foi a era dos Itálias 90, USA 94 e Coreia /Japão 2002. Com a honrosa excepção do França 98. Justamente a equipa mais multinacional e multicultural de que há memória na história da copa. Foi a equipa adequada ao seu tempo: não era uma equipa nacional. Daí a excepção. Outras selecções aceitaram esta imposição moderna e desataram a naturalizar jogadores. Deco, Marcos Senna ou Camoranesi são apenas alguns exemplos, entre muitos outros.
O campeonato que hoje terminou, mais do que a derrota da França, a cabeçada e correspondente expulsão de Zizou, ou a vitória da Itália, mostra como o jogo, já não impulsionado por pulsões nacionalistas, não é mais do que um maçador exercício calculista e tacticista. A asfixia de Ronaldinho e a gordura de Ronaldo foram os factos mais relevantes, por sintomáticos. Por mim, é o fim anunciado. O Campeonato do Mundo não tem futuro.

05/07/06

POR-TU-gaaaaal...., por Cidadão do Mundo

Hoje é dia de meia-final. Pela segunda vez na história dos campeonatos do mundo de futebol, Portugal joga a possibilidade de aceder à final.
Imaginemos que o resultado dependeria, não do apoio prestado através das bandeiras penduradas à janela, mas.... do número de mamadas que cada cidadão nacional fizesse num cidadão do país adversário! Isto é, a vitória da selecção nacional resultaria do número de mamadas que os "tugas" fizessem em cidadãos franceses! Não esqueçamos que a França tem cerca de 60 milhões de habitantes! O desequilíbrio é enorme! Seria uma espécie de Aljubarrota porno-futebolística. Mas nós somos os maiores! É ou não é verdade? Até onde vai, caro leitor do Porco, o teu apoio à selecção? Serias capaz de participar neste grande empreendimento nacional? Ou és um traidor, um vende-pátrias?

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23/06/06

Em Defesa de Saraiva e Contra os Novos Índices, por Torquemada

A evolução das sociedades contemporâneas no sentido da democracia e do progresso fez-se à custa de um dado fundamental: a massificação do conhecimento. O controle do conhecimento e dos seus meios de divulgação foi o mecanismo desesperado que os regimes absolutistas usaram, durante séculos, para se perpetuarem. Tornar limitado o conhecimento foi o principal alicerce da tirania. Com a revolução industrial, e depois com a revolução francesa, institui-se a ideia de progresso como motor das sociedades. A modernização é um imperativo político e o poder absoluto encara assim o seu dilema fatal: modernizar implica a promoção da sociedade do conhecimento e esta é incompatível com a tirania porque, simplesmente, não há conhecimento sem crítica e sem a afirmação da soberania do sujeito. Daí que os liberais oitocentistas declarassem a instrução pública e a imprensa como alicerces da liberdade, ao mesmo tempo que, com toda a razão, denunciavam a ignorância como a base do despotismo. Os regimes antidemocráticos, por isto, sempre promoveram a ignorância e caíram, inevitavelmente diga-se, porque a História os forçou a investirem no conhecimento e na promoção do saber. O regime salazarista, por exemplo, sentenciou-se quando Veiga Simão assumiu a pasta da Educação.

O Index inquisitorial e a censura fascista tornaram-se remotas memórias com a democracia para nós tardia. Aparentemente, só aparentemente. A verdade é que, actualmente, vemos que já não é o poder que depende da opinião pública, mas esta tornou-se algo de volátil, amorfo, manipulável e indefinido. Fragmentaram-se as multidões, já não se vê o poder das massas, nem há receio da rua. A rua está domesticada. Não há violência. Anatemizou-se a principal arma de conquista dos direitos cívicos: o protesto nas ruas, a violência urbana, o panfletarismo, o agit-prop, o cartaz, a pintura mural. A rua é um espaço asséptico e disciplinado.

E, no entanto, a restrição à liberdade e ao conhecimento persiste ou desenvolve-se sob novas formas. Perdoem-me o alongado intróito, mas perceberão como é necessário e ínfimo quando comparado com a indignação que hoje senti.

Hoje, fui à livraria Bertrand em busca de um ensaio de António José Saraiva, «Maio e a Crise da Civilização Burguesa», escrito em 1970 e agora republicado. Procurei naquela sucursal da Bertrand que é apresentada como a maior do país, no centro comercial Dolce Vita. Não encontrei e pedi ajuda. O senhor que me atendeu procurou e procurou no computador e nada. Perguntou-me se eu tinha a certeza do autor e do título. Confirmei os dados. Procurou e voltou a procurar e nada. Perguntou-me se eu sabia qual era a editora. Respondi-lhe que não sabia, mas aventei a possibilidade da Europa-América. Não era, é a Gradiva, mas isso é o que menos interessa. Nisto, o homenzinho, sim tornou-se um homenzinho, sorriu repentinamente e disse: «Nós não trabalhamos com a Europa-América!» Eu fiquei abismado. E insisti:

- Então … não há António José Saraiva…?

- Pois, nós cortámos relações com essa editora e agora não temos os livros deles!

Incrível. Tudo é incrível! A passividade e a alegria idiota com que o homenzinho me anunciava o que deveria ter vergonha de anunciar. Incrível a política da Bertrand. Inaceitável a decisão. Censória e atentatória a decisão de ostracizar as obras de Saraiva, um dos mais importantes intelectuais portugueses do século, só porque a livraria está de relações cortadas com a presumível editora! E ninguém diz nada? Não há regras? Isto é censura! Isto é pior do que as caricaturas dinamarquesas! Isto é restrição ao conhecimento e à livre circulação de ideias! Isto é um atentado à liberdade de expressão! É um novo índex promovido por razões comerciais, por amuos entre administradores. Que fazer, em face disto? Eu respondo-vos como respondi ao gerente da Bertrand que entretanto se abeirou:

- Felizmente há FNAC!

10/06/06

É Galo! por prof Galaró

Ontem, aqui pelo burgo conimbricense, choveu muito. Choveu bastante. Em cerca de meia hora, e após um trovão apocalíptico, o céu desabou em água. Em poucos minutos ficou tudo alagado.
A chuva causou estragos. Muitos estragos. Tectos que ruíram no centro comercial Dolce Vita inaugurado há poucos meses. É certo que a chuva foi muita, mas que diabo! No vizinho centro comercial Girassolum, também remodelado há poucos meses, rebentaram as condutas de escoamento de água e foi um alagamento total. Nas ruas, os escoadouros transbordaram e, no lugar onde antes houvera ribeiros e linhas de água, corriam agora as águas desenfreadas sobre os arruamentos construídos e asfaltados sobre as ribeiras entubadas. É muita galo!
Lembremos agora outrasperipécias da engenharia conimbricense:
- Nas obras do hospital pediátrico, reclamado há muito tempo como uma necessidade urgentíssima, encontraram-se linhas de água quando se escavavam as fundações,
- A enxurrada que arrastou e destruiu as esplanadas da zonda do Parque Pólis devido ao estreitamento inexplicável do leito do rio com as obras da nova ponte pedonal,
- As eternas e caríssimas obras de remodelação do convento de Santa-Clara-a-Velha que há anos e anos que se arrastam debatendo-se com os terrenos pantanosos e com o bombeamento de água que alaga o estaleiro das obras,
- Os diques das margens do Mondego que cederam aqui há uns anos causando prejuízos gravíssimos às gentes da Ereira,
- As correntes do rio Mondego que ameaçaram de ruína os alicerces da ponte da Portela obrigando a uma intervenção urgente para a construção de uma nova ponte,
- Como é que em Penacova, aqui perto, a ponte esteve mesmo encerrada,
- A dificuldade que os nossos engenheiros tiveram em fazer com os dois lances do tabuleiro da ponte Europa iniciados em cada uma das margens do rio se encontrassem ao meio conforme o projecto (e como é desejável em qualquer ponte normal), provocando gastos e atrasos que não foram imputados à responsabilidade de ninguém,

São muitos casos. Eu, que não acredito em coincidências, pergunto: é galo ? Ou são os nossos engenheiros que são mais engenheiros de sequeiro? Dão-se mal com a água, é? Ou a culpa é dos professores que faltavam às aulas de Matemática?

24/05/06

A Epopeia Americana, parte 5ª: «Apocalypse Now», ou The End. Por Mangas

Introdução - O livro de referência ao filme de Francis Ford Coppola é o Coração das Trevas do escritor Joseph Conrad. O argumento foi escrito em parceria por John Milius e o próprio Coppola. Entre o projecto inicial e a obra acabada, ocorreu uma documentada saga de factos e lendas que asseguraram ao realizador a sua conta de inferno privado e transformaram a experiência limite da rodagem do filme num verdadeiro apocalipse dentro de outro. Tal não é para aqui chamado. Até porque à imagem do conceito original, um e outro, já fizeram correr rios de tinta e foram tema de profundas e exaustivas análises. Arrisco-me a dizer que cada sequência ou personagem dariam leit-motif para outros tantos textos iguais a este. A nós, e perante o sagrado, cumpre-nos tão-somente sublimar a paixão e fechar um ciclo – perdoai-nos, desde já, a extensão da prosa. Para tal, alternaremos a interpretação de cariz pessoal entre o livro e o filme com base em Kurtz e Marlow/Willard, porque os entendemos de relevância central no desenrolar da história. A América deve ser vista como cenário de fundo e simultaneamente personagem principal. Poderá ser lido ao som de Run Through the Jungle, dos Creedence Clearwater Revival.

Kilgore: Se eu digo que é seguro surfar nesta praia, é porque é seguro surfar nesta praia! Eu não tenho medo de surfar aqui e vou surfar nesta merda deste lugar todo! Apocalypse Now é um filme de helicópteros. O zumbido metálico das hélices em slow-motion sonora são o palpitar angustiado de um coração que perdeu o rumo, prestes a desferir um ataque mortal que nos tira dali para fora, do inferno para os céus, dos corpos esfacelados para o azul sobre os arrozais vulneráveis e pacíficos. É um filme sobre a América dos símbolos, desde as coelhinhas Play Boy ao surf, passando pelos The Doors à marijuana. A bestialidade colectiva e individual inerente a um campo de batalha, os abismos da alma humana e, a selva, são paradoxos, contemplações estéticas e analíticas em torno de um rio e o barco que o percorre naquela que é a mais perturbadora viagem ao fulcro da esventrada nação Americana no auge da guerra do Vietname.

Marlow: Mas a selva acabou por denunciá-lo e vingar-se terrivelmente dele e da invasão fantástica. (...) Ecoou muito fundo, porque o sr. Kurtz estava oco... O Coração das Trevas é um grande livro. Um dos melhores! De escrita delicada, bela e visceral. Quando estamos perante ele a primeira vez e não sabemos em que direcção nos empurra a corrente das palavras, a suspeita de que algo não bate certo com Kurtz instala-se logo na pág. 22 ao lermos: «Só ele manda mais marfim do que todos os outros juntos...» Há ali método. Compulsão. Obsessão. Génio. Não é apenas mais investimento do que os outros, não. Na África profunda daquele tempo, tamanha produtividade só poderia render dividendos se sustentada por processos, lógica e determinação, logo, a filosofia de Kurtz deveria obedecer a um plano para além da subjugação pela força, pelo poder. A explicação é-nos concedida muito mais tarde pelo próprio Marlow: «A questão estava em ele ser um homem de qualidade, e entre todos os seus dotes predominar um, ligado ao sentido de efectiva presença, que era o talento de falar, eram as suas palavras – o perturbante dote de expressão, o estonteante, o iluminante, mais exaltado e também o mais miserável, a palpitante corrente de luz ou o ilusório fluxo extraído ao coração de uma indevassável treva.» O Kurtz de Joseph Conrad, é um indivíduo ambíguo, complexo, dotado para as artes, líder nato, íntegro mas perigoso o suficiente para se auto-exilar das convenções colonialistas do Império. Por isso tomba e no ponto de ruptura, toca o abismo sem remissão.

Fotojornalista sobre Kurtz: O homem tem uma mente lúcida, mas a sua alma está louca! Noutro paralelo, a primeira imagem que nos é dada a testemunhar sobre o Kurtz de Coppola, é a sua voz. «Vi um caracol a arrastar-se sobre o fio de uma navalha. É esse o meu sonho. É esse o meu pesadelo. A deslizar, a escorregar no fio de uma navalha... e sobreviver...» A gutural nasalação de Brando gravada numa cassete. Pausada. Sonâmbula. Num arrastado timbre de lucidez demencial e convicção trágica. Willard (Martin Sheen), apercebe-se que aquele não é um homem qualquer. Em nós espectadores, cresce a suspeita convicção de que a ténue linha que enjaulava a loucura, foi violada – o fascínio é completo! Se confrontado, por exemplo, com Ringo Kid, o herói onde Ford sustenta o nascimento da nação, e assumindo as convicções diametralmente opostas de ambos, sobra-nos a esperança de um e a desilusão de outro. De comum, ambos são produtos da mesma pátria, a América mãe democrática da ilusão e do desencanto, da construção e da destruição inapelável de homens e sonhos, do nascimento à morte. Equação trágica esta a de uma nação que alimenta filhos e, de forma voraz, se alimenta dos irmãos dos filhos como se fossem bastardos. Será este Kurtz/Buda/Brando a América gorda, sem ideal, sem futuro, sem dignidade e sem moral, ou o único a possuir terrível esclarecimento e pragmática lucidez no meio de toda aquela insanidade?

Chef: Eu sou de New Orleans e fui criado para ser um grande saucier! Internamente, na década de 60, a América geria a questão racial, os confrontos étnicos nas grandes cidades, os sucessivos ataques de corda e archote do KKK aos activistas dos direitos humanos no Mississipi. E quando Lyndon Johnson acalentava o sonho das reformas sociais capazes de construir a Grande Sociedade, o confronto armado no Vietname rebentou-lhe nas mãos – a guitarra de Hendrix não sangrava o Star Spangled Banner apenas fora de casa. Longo caminho tiveram de percorrer Ringo e Dallas na diligência da esperança, os Jods na velha camioneta do desencanto, Dennis Hopper e duas gerações dos Fonda nas Harleys ao vento, o Capt. Kilgore nos helicópteros todos poderosos sobre a guerra do absurdo. A cavalaria que dominou o deserto do Arizona com carabinas de repetição, levou um século a conquistar os céus do Vietname com napalm, naquela que foi a maior derrota da história expansionista americana. Do Monument Valley à terra queimada de Saigão. Das raízes à epopeia fracassada da América no Mundo exterior

Willard: Uma parte de mim tinha medo do que iria encontrar e o que iria fazer quando lá chegasse. Eu conhecia os riscos, ou imaginava que os conhecia. Mas o que eu senti com maior intensidade, e se sobrepunha ao medo, foi o desejo de o confrontar. Mas há sempre uma metáfora. A própria América é uma metáfora poderosa de estrelas azul cintilante e listas cor de sangue. Cinco homens num barco subindo o rio Nung em busca da ovelha tresmalhada do rebanho. Neste tempo de matança, quer os perigos inerentes à viagem, quer as deambulações em torno da (ir)racionalidade da operação e da máquina que a sustém, são sinais claros das trevas em vigília e do seu território, físico/material e emocional/espiritual - a selva e o coração, o corpo e a mente. Kilgore (Robert Duvall), é provocação externa às manifestações pacifistas de Washington, o belicismo devastador do Uncle Sam unido por laços de afecto com a Morte com a qual não faz concessões nem prisioneiros. «Chalie don`t surf!» e Wagner são personal statements de patriotismo absolutista e grandiloquência psicopata. No mercy! e estilo, de mãos dadas na vingança de Custer. “Kill” em “gore” operático. Por oposição, Willard é a consciência do Capitão, ou o que resta dela e da sua contrição de pecado. E é a descoberta de si mesmo ao encontrar Kurtz – o rosto da loucura comum – o que transcende a personagem de Willard. Na realidade, ele foi porque o empurraram, porque lhe deram o treino e a prática da caça ao homem, porque se ficasse a única coisa que tinha como adquirida era um lar que já não lhe pertencia na América que perdera, um punho cortado contra o seu próprio fantasma reflectido e... «Saigon... Shit... Im still in Saigon...». Quanto a Kurtz, à sua maneira, foi um David Livingstone green barret que lia T. S. Eliott, o missionário filmado na penumbra que superou a Bíblia pela M-16, destruiu os inimigos pelo culto da guerrilha e difundiu o evangelho da aniquilação como factor imprescindível de sobrevivência, adiantando-se, pelo processo, à História com a qual aprendera que a força mobilizadora que adora a um Deus é tão mais eficaz quanto sangrenta; Willard que lhe foi no encalço, confere-lhe a revelação ao mundo, como Henry Stanley antes dele na busca pessoal de um objecto, o espelho e a metamorfose, o encontro e a resolução, o carrasco e o assassino, na essência, a mesma América unida pelo mesmo destino – a obrigação de matar!

Kurtz: Se eu tivesse dez divisões daqueles homens, os nossos problemas aqui desapareceriam num instante. A abordagem de Coppola ao romance de Conrad, é em muitos aspectos, tremendamente fidedigna e de transcrição, como o retrato do primitivismo nativo no ataque com setas ao barco. O desenlace final, contudo, é proposto de forma estruturalmente diferente pelo cineasta americano. O Marlow de Conrad subiu o rio com a intenção de trazer Kurtz de volta a casa. Tal propósito revelou-se impossível de concretizar e empurrado pela força dos acontecimentos que o ultrapassaram desde o primeiro encontro entre ambos, regressa à «cidade sepulcral» com uma maço de cartas e a fotografia da Prometida. De tudo o que ficou após esse encontro emocional entre Marlow e a rapariga, prevalece a imortalização de Kurtz após a morte, «Por isso permaneci fiel a Kurtz até ao último instante, ou para além dele (...)»; e perante a insistência dela em lhe repetir as suas últimas palavras, Marlow, por instantes breves, domesticou «O horror! O horror!» - as verdadeiras últimas palavras de Kurtz que ainda lhe ecoavam na mente - e fabricou a memória: «- A última palavra que ele disse foi – o seu nome.» Por sua vez Willard, ao contrário de Marlow, subiu o rio com o propósito específico de eliminar Kurtz. Em Apocalypse Now, Coppola subjuga a imortalização de Kurtz ao ritual do sacrifício. A entrega sem resistência aos golpes de machete, a queda digna do soldado às mãos de outro soldado, «Tu não tens o direito de me julgar... Tens o direito de me matar...», dir-lhe-á Kurtz. West Point tombada por terra às mãos de um ex-operacional da CIA. A casa dividida. Abel e Caim. Ou o inimigo interno quando há algo de poder no meu Reino. Missão cumprida para ambos. Dessa forma, a solução encontrada por Coppola para o final do filme... é nenhuma. Quer dizer, o factual é tragicamente harmonioso e, o após, é de múltiplas leituras. A sucessão no trono não tem retorno quando após o abate de Kurtz, Willard lança por terra o machete e é prontamente imitado pelos nativos – os pacifistas de Washington teriam rejubilado!

Willard: Um dia esta guerra vai acabar. E isso vai ser óptimo para estes rapazes do barco. Não procuram nada mais do que um caminho para casa. O problema é que eu estive lá e sei que esse lugar já não existe. Willard, como a América dos veteranos, não será nunca um integrado social, como tão pouco foi soldado de pelotão. Nunca assistimos ao seu regresso ao lar divorciado, mas talvez o encontremos nas canções de Bruce Springsteen sobre os desempregados das fábricas de aço na Pennsylvania ou os homeless de New Jersey. Jamais o reencontraremos na pele de super-herói Rambo na cruzada dos mísseis de Reagan sobre a Líbia, dando voz ao “America Is Back!”; mas talvez voltemos por ele com O Caçador, de Michael Cimmino. Com o testamento de Kurtz numa mão e Lance o surfista na outra, como se conduzisse uma criança a quem mostra um novo rumo após a expiação do Mal, o ecrã fecha-se com a sua partida pelo rio que o trouxe. Para trás fica o fim e o começo da última viagem. São sons surrealistas de sintetizadores metálicos, frios, arrepiantes e desconexos que completam o final da banda sonora no desaparecimento de Willard por entre a chuva e a bruma do rio. O mergulho final nas trevas, sucede à abertura explosiva de verde, azul, luz e chamas com que começou o filme. Quase nos apetece ir em busca, outra vez, da voz de Jim Morrison para atenuar o desconforto na cadeira.

This is the end, beautiful friend. This is the end, my only friend, the end. Of our elaborate plans, the end. Of everything that stands, the end. No safety or surprise, the end. I'll never look into your eyes...again.

18/05/06

Jornalismo, isto? por Valhamedeus

O nacional-parolismo não cessa de surpreender. Agora, atingiu novos cumes esquizofrénicos: o Barça, ontem, sagrou-se pela 2ª vez na história campeão europeu. Um grande jogo, com grandes exibições e muita emoção. os jornais portugueses: A BOLA: 1ª página a toda a largura com a eventual vinda de Eriksson para o SLB. RECORD: 1ª página com o balneário (sic!) a dizer que quer o Rui Costa no SLB aos 34 anos!! O JOGO especula com o novo treinador do SLB. Num cantinho, metem uma chamada discreta: Deco (sic. Meu Deus, não é o Barça, não é Ronaldinho, é o discretíssimo Deco) campeão pela 2ª vez! Não há vergonha nos jornais? Não há limites? Qualquer burro pode fazer 1ªs páginas?

14/05/06

A Epopeia Americana - Parte 3ª: «As Vinhas da Ira», de John Ford. Por Henry Bond

Depois d’ A Cavalgada Heróica (1939) e após a realização de uns filmes menores, John Ford adaptará em 1940 o romance de John Steinbeck, As Vinhas da Ira, convidando Henry Fonda para o protagonizar. Fonda, sendo juntamente com Wayne um dos preferidos de Ford, não deixa de ser o contraponto do herói épico americano, estatuto que Wayne assumiria a partir d' A Cavalgada Heróica. Mas, também do ponto de vista ideológico, o conservadorismo de Wayne se pode contrapor às preocupações sociais e ao intervencionismo político de Henry Fonda. Por estas razões, quando Ford adapta a obra de Steinbeck, Wayne está naturalmente fora de questão. Henry Fonda é a escolha acertadíssima, depois de no ano anterior ter desempenhado o papel de Abraham Lincoln (bíblico e épico nome este para um fundador da América) num filme realizado também por John Ford.

A família Joad busca os laranjais da Califórnia no épico de John Steinbeck, de claras ressonâncias bíblicas. Os Joads são um clã, à maneira das tribos de Israel, vivem na terra, possuem uma identidade construída sobre a ideia de territorialidade. Estamos nos anos da Grande Depressão, os bulldozers, ao serviço das grandes companhias financeiras, executam as hipotecas e tomam conta da terra. Desfaz-se a relação telúrica, vital, entre o homem e a terra, o que causa a tragédia maior: o abandono da casa e o desagregamento da família. A razão do abandono é forçada. Não se trata de um imperativo ético, ou de um esforço de conquista. Não é um resgate por razão de honra, nem uma cavalgada heróica. Fonda não é Ulisses nem Ringo Kid. N' As Vinhas da Ira o abandono da terra resulta de uma situação de necessidade extrema. O clã Joad é expulso do Oaklahoma, como tantos outros – oakies –, olhados com desprezo e desconfiança por onde quer que passem, como miseráveis sem terra e sem futuro, despojados do seu passado, com a identidade perdida. O pai Joad não assume o papel abraâmico de patriarca que lhe competiria. Essa função é desempenhada pela mãe. A mãe é uma fantástica personagem que lembra Brecht ou Gorki, o que fará Steinbeck um dos alvos do McCartismo. Steinbeck logra nesta personagem uma admirável síntese entre o paganismo primitivo matriarcal e pré-bíblico, a evocação de um poderoso símbolo de referências comunistas e o marianismo cristão. Para lá da ideologia e da fé, para além até da blasfémia e da política, a Mãe Joad cuida da família, alimenta-a e mantém-na unida, protege-a e compreende-a. Ainda que Rose of Sharon, a filha, esteja grávida e a redenção pelo nascimento anunciador de um tempo novo na Califórnia da abundância se adivinhe desde o início na protecção que a Mãe Joad constantemente lhe reserva, a verdade é que o final desilude completamente essa promessa messiânica. Não é um Nascimento que salvará os Joads, pois do ventre de Rose brotará um nado-morto. Um cadáver na Califórnia da desilusão, a família desagregada pela morte, pela deserção e pelo desespero. Sem casa e sem carro. Os Joads, desesperados e destroçados são uma metáfora cruel de uma civilização ameaçada. A América, depois de conquistado o Oeste, depois de se afirmar com Estado, confronta-se agora com a maior crise da sua História. Se Ford deu à América o seu herói épico, John Wayne, dar-lhe-á agora, o seu reverso necessário, Henry Fonda no papel de Tom Joad. De facto, é a este que caberá a missão redentora. Ford já mostrara, na Cavalgada Heróica, que a redenção não é messiânica. A criança que nasce durante a viagem através de Monument Valley é uma menina, um anti-messias portanto. Símbolo prospectivo é certo, mas sem qualquer valor salvífico. Agora, n’ As Vinhas da Ira, Tom, apesar de homicida, conserva a integridade moral, como é próprio das personagens de Ford. Como a prostituta, o Ringo Kid, o jogador ou o médico bêbedo. Tom, contrariamente a Ringo Kid que logo se assumiu como centro da narrativa, permanece num registo secundário mas que se adivinha de importância fundamental e eminente numa tensão narrativa que se desenvolverá até ao célebre monólogo que antecede a sua despedida. Tom é o portador da via da redenção. Pela revolta, pela ânsia de justiça, pela sublevação.

No filme de Ford, Tom vinga a morte à paulada de Jim Casey, um antigo pastor desencantado que retoma a esperança quando se envolve na defesa dos trabalhadores braçais. Casey é um profeta da justiça social, o seu novo múnus é político, depois de desiludido com a função pastoral. A sua morte é vingada biblicamente por Tom Joad que mata à paulada o assassino de Casey. Olho por olho. Mas o crime de Tom não lhe fere a dignidade, pois não se move por vingança. É justo, mata em nome de um ideal e o crime adquire legitimidade moral. Tom tem que fugir. Separa-se da mãe Joad num parto doloroso e de um simbolismo poderosíssimo. A Mãe oferece o filho à missão redentora. Este momento, em que Tom finalmente assume o protagonismo adivinhado desde o início e se descobre na sua missão redentora é, no filme de Ford, o momento chave em que Fonda profere as palavras épicas: “I'll be ever'where - wherever you look. Wherever there's a fight so hungry people can eat, I'll be there. Wherever there's a cop beatin' up a guy, I'll be there. I'll be in the way guys yell when they're mad - an' I'll be in the way kids laugh when they're hungry an' they know supper's ready. An' when our people eat the stuff they raise, an' live in the houses they build, why, I'll be there too.”

Volvendo ao livro de Steinbeck, o que resta da família, já sem a velha camioneta, essa espécie de nau dos argonautas da Route 66, deambula pela estrada até que a intempérie os obriga a procurar abrigo num velho palheiro. Aí, desenrola-se a polémica cena final, em que Rose of Sharon, lactante após a perda do bebé, amamenta um velho moribundo, salvando-o assim da morte por inanição. É uma cena patética, facilmente comparável a uma Pietá profanada. O leite, metáfora da abundância bíblica, brota dos seios de uma personagem até então inútil mas que agora se assume como símbolo de fertilidade, depois de frustrada a redenção messiânica.

John Ford, por seu lado, não se limitando a uma adaptação da novela e muito mais consciente do valor épico da gesta dos Joads, deixa partir Henry Fonda na sua cruzada justiceira, e recentra a narrativa na Mãe. Vão os Joads, os que restam, refeitos sob o comando esperançoso da Mãe. Al Joad conduz a carrinha, ambos recuperados por John Ford, pois que no livro, Al vai-se embora e a carrinha imobiliza-se definitivamente avariada na berma da estrada. Ford não quer os Joads a pé pelas estradas da Califórnia. A Mãe profere então a tirada final. Por maiores que sejam as adversidades, “We'll go on forever, Pa. We're the people.” E os Joads operam então o tal salto qualitativo, eles já não são um clã familiar, são um símbolo colectivo, as famílias americanas que, sobrevivendo a todas as provações, vêem agora a estrada esperançosa à sua frente. Ford fecha depois o filme, com a velha camioneta a ir pela estrada fora. É um final à Ford, esperançoso, de sentido oposto ao patetismo bíblico, frustrante e blasfémico de Steinbeck. A América de John Ford é indestrutível, alimentada de um idealismo personificado em Henry Fonda.

12/05/06

De Fátima a Coimbra: uma breve trajectória pela parolice nacional. Por Pequeno Burguês (PBatatum)

Andam as estradas portugueses cheias de peregrinos. Vão para Fátima. Com um prudente e fosforescente colete verde, caminham imprudentemente pelas estradas de Portugal. Pessoalmente, e sem que daí se retire qualquer ofensa, acho lamentável. Primeiro porque é perigoso. A peregrinação atenta contra a integridade física dos próprios e dos utentes da estrada. Segundo, porque é improdutivo. Nenhum bem vem daqui à sociedade. Terceiro, porque entendo a religião na sua dimensão íntima e espiritual. Acho que a fé, ainda que possa e deva ter expressão institucional e social, é essencialmente uma vivência interior que dispensa o suplício exibicionista e a auto-punição corporal. Finalmente, porque acho estas manifestações típicas de uma mentalidade pré-moderna em que a vontade humana se submete ao desígnio da Providência e se torna, desse modo, comprometedor da livre iniciativa e do livre arbítrio, do mérito e da criatividade. Foi contra estes condicionalismos que se fez a modernidade. O mérito individual e a soberania da vontade em vez da subordinação a um desígnio transcendente, o empreendedorismo contra o estaticismo orgânico de uma sociedade sacralizada, o trabalho como via de ascensão social. De preferência o trabalho intelectual, pois que o ofício mecânico era visto como vil. A lavoura era sinal de uma sujeição ao dono da terra. O ofício artesanal era sujo. As artes liberais permitiam as mãos limpas e facultavam a ascensão social, para além de promoverem a mobilidade ascendente pelo exercício do mérito e do trabalho. O mérito individual, bem como a dignidade de um trabalho que já é intelectual e não manual são dois valores que caracterizam sociologicamente a mentalidade burguesa. O desprezo para com a ordem nobiliárquica é outro traço desta mentalidade. Além disso, verberam o clero e a religião que consideram manifestações de obscurantismo, instrumentos de domínio social e obstáculos ao progresso. Encaram a exibição da fé como sinal de atraso e dependência. Este vanguardismo burguês, radical, ateu e jacobino, não tardará a moderar os seu discurso. A razão é política e cultural. Prende-se com aquilo a que os revolucionários chamaram a "traição burguesa". Ou seja, as classes médias, na sua esmagadora maioria provenientes dos estratos médios do campesinato e do operariado suburbano, viram na escola e no estudo universitário um irrecusável processo de ascensão e afirmação social. Almejavam um emprego na administração pública ou nas profissões liberais. Buscavam um ofício que lhes conferisse prestígio social e dignidade intelectual que os diferenciasse do grosso popular. Por isso, ao ódio inicial que endossavam à nobreza e ao corpo clerical, dirigem agora o desprezo e a sobranceria para as classes populares. Ao mesmo tempo, nas esferas mais elevadas, buscam título de nobreza e elegem as virtudes cristãs como modelo de conduta social. Uma nobreza reformada e um idealismo cristão anti-ultramontano. É neste contexto que a Universidade de Coimbra se torna um dos principais meios de ascensão social desta pequena burguesia que procura desesperadamente a realização pessoal pela ascensão social. Basta ler os livros de Camilo e de Eça para se perceber como aos intelectuais este tipo social causava repugnância e era alvo das maiores ironias. O bacharel de Direito é, para Eça mas também para Torga, o exemplo mais ridicularizado de uma mentalidade mesquinha e ensimesmada.
A partir dos anos 60, apesar do Estado Novo, a Universidade iniciou um processo de massificação que encontraria o seu auge nos anos dourados do cavaquismo. Floresceram universidades em todas as esquinas. Este facto, aliado ao crescimento económico, permitiu que as famílias possuíssem os meios financeiros para enviar os filhos para a Universidade. Em Coimbra, retomaram-se as tradições académicas, nas restantes universidades, órfãs de tradição, copiou-se o modelo conimbricense. Os trajes, as praxes e as festividades académicas que antes eram prática de grupos minoritários massificam-se agora a todas as cidades e a todas as instituições. Públicas ou privadas, universitárias ou politécnicas. Podemos dizer que se consumou um processo iniciado a partir da 2ª metade do século XIX, acelerado na República e irremediavelmente confirmado a partir da década de 60.
Estes jovens estudantes, naturalmente, não escondem o orgulho. Eles resgataram séculos de submissão. Eles são a razão de ser do sacrifício das famílias. Os pais não regateiam recompensas. É o carro, os livros, a mesada, a capa e batina, o computador portátil e o que mais calhe. Que a contenção não comprometa o futuro dos filhos. E os pais vão ao Cortejo da Queima, quando a estadia coimbrã se aproxima do final, largar uma lágrima de comoção. Os jovens quartanistas vêm para o espaço público alardear o novo estatuto. Distanciam-se da proveniência social de origem, demarcam-se relativamente ao gosto popular, exibem erudição, mostram os livros e as sebentas, encaixilham o diploma, encadernam as fotografias, mitificam a juventude num culto geracional que os auto-engrandece e auto-glorifica. Constroem uma memória triunfante. Vão ao baile de gala, cópia abastardada dos ambientes dos salões aristocratas. Deixam-se fotografar abraçados a moças trigueiras enfiadas em tules espalhafatosos e que não conseguem ocultar o seu digno estatuto de origem. Basta ver o «Diário de Coimbra» de hoje com o seu suplemento social dedicado ao evento. Fazem álbuns fotográficos que um dia mostrarão aos filhos, bem como os versos e as anedotas. Rir-se-ão, um dia, todos à lareira. O avô, o filho e o neto, uma dinastia de bacharéis por Coimbra! Que lindo é sonhar! O Cortejo é a ocasião para todos os excessos. É uma celebração colectiva, orgíaca, que, pelo excesso etílico e já não pelo excesso místico, como em Fátima, conduz a um êxtase, um adormecer da conscência que torna a experiência única e marcante.
O sonho é que os filhos ingressem na mesma Academia, que triunfem igualmente, numa estratégia de sucessão geracional equiparável à dos burgueses que deixam a presidência do conselho de administração ao filho dilecto. Assim se vence a morte e se conquista um espaço na memória futura. Pelo caminho, dão a mão às meninas da casa Elísio de Moura, numa muito digna e cristã prática pública da caridade, mostrando deste modo que o jacobinismo burguês está ultrapassado e que a síntese com os velhos alicerces da sociedade está retomado. Mesmo que abdiquem das práticas dominicais, das confissões e das devoções mais maçadoras, continuarão a casar pela igreja com cerimónias de arromba devidamente documentadas para a posteridade e a baptizar os pequerruchos.
O Cortejo da Queima das Fitas, visto muitos anos depois, alimenta as saudades. «Saudades de Coimbra»... Ó Meu Deus, as saudades de Coimbra, o Choupal e o Penedo da Saudade... Tornam-se estes lugares-comuns, de um sentimentalismo pacóvio, num traço de identidade desta mentalidade pequeno-burguesa. Perdoam-se os excessos da juventude de uma forma paternalista e condescendente. «São jovens, como nós fomos». Eu acho isto, mais uma vez, lamentável. Que me perdoem os adeptos da farra. Eu não gosto! Gosto da genuinidade do S. João do Porto, ou das sardinhas assadas na rua do Stª António de Lisboa. Gosto da Tomatina despretenciosa e excessiva, embora lá nunca tenha ido. Isso eu gosto.

06/05/06

O SINAL, por Baltazar

O secretário de estado da Educação, Valter Lemos, negou ter assinado o que só ele podia ter assinado. Eu não lhe chamo mentiroso. Recordo os factos. Há poucos dias, os jornais deram conta de um despacho da Direcção Regional de Educação de Lisboa que mandava regressar às escolas de origem os professores que se encontravam destacados noutras escolas desde o início do ano lectivo por motivo de doença devidamente comprovada por certificado médico e com autorização superior. Agora, a escassos dois meses do final do ano lectivo, a DREL considera essa mobilidade ilegal e fundamenta a decisão num despacho assinado pelo senhor secretário de Estado. Ele nega. Se não é mentiroso, então que demita imediatamente, por incompetência, toda a cadeia hierárquica que decretou esta ordem tão disparatada. Recordemos que Valter Lemos, aquando da greve dos professores, fez sair uma nota oficial (terá sido ele?) em que acusava, por grosso e genericamente, os professores de faltarem 9 milhões de vezes por ano! Eu não discuto o número, ainda que seja muito discutível. Acho até que a abstinência dos docentes é um problema e que os prevaricadores devem ser punidos. Não sinto dores corporativas. Mas acho também que cada um, individualmente, deve ser responsabilizado pelos seus actos. Por isso, acho que a atitude do senhor Valter Lemos foi cobarde. Além de demagógica e inoportuna. Porque incluiu todos na mesma suspeita, sem distinções nem respeito pelas situações merecedoras de respeito e porque esquece um facto decisivo: as faltas estão justificadas nos termos da lei! Se não estão, a sede é discilpinar. Se a lei está mal feita, faça-se lei bem feita! Face a isto, a revolta levou alguns sindicatos a lembrar que, no passado político de Valter Lemos, quando fora vereador da Câmara Municipal de Penamacor, perdera o mandato por faltas injustificadas! O senhor Lemos argumentou que não, que pedira a suspensão do mandato, que o não perdera. Preciosismo formal que o salva. Os jornais locais davam conta do contrário, o Presidente da Câmara local veio defender o secretário de Estado cuja assessora é filha do presidente! A história é rocambolesca e indigna. Sigam o link se quiserem. Eu não me ocupo de misérias.
Este mesmo Ministério da Educação anuncia agora uma medida que acha revolucionária e, nas palavras da senhora ministra, a decisão enquadra-se num conceito de acção política que não faz mais do que generalizar as boas práticas observadas nas escolas. Ou seja, o Ministério faz-se um Grande Observador e dá forma de lei às práticas que entende boas. Incrível! Por este peculiaríssimo método, o governo decretou que os professores quando prevejam a ausência devem deixar um plano de aula. Não vou discutir o alcance da medida, nem sequer a sua pertinência ou a sua exequibilidade. Vou apenas lembrar como este minstério navega à vista, improvisando e sem estratégia. Lembro que os despachos sobre as aulas de substituição foram publicados em Agosto e previam que todas as horas de redução, mais a diferença entre as 22 horas lectivas semanais e as 26 horas de serviço, fossem ocupadas em aulas de substituição. Ou seja, um professor com 30 anos de serviço, tendo 14 horas de actividade docente, teria mais 12 horas de aulas de substituição! Os protestos imediatos lembraram ao Ministério que tais despachos transformariam professores em substituidores. Uma espécie de pastores alemães encartados! Os sindicatos lembraram ainda que, nos termos do Estatuto da Carreira Docente, as aulas de substituição, de acordo com a determinação do Parlamento e do Governo eram entendidas como actividade lectiva suplementar, cabendo por isso remuneração extraordinária. Em face disto, o governo recuou e sugeriu que não fossem aulas, mas actividades de substituição, fazendo mais uma vez método do preciosismo formal. Quais? Perguntaram todos. Por exemplo, ler poesia, respondeu a ministra. O ridículo instalou-se e a ministra sacudiu a decisão para os órgãos directivos das escolas. Pouco depois, determinações posteriores dispensaram os professores com 22 horas lectivas atribuídas de prestarem serviço de substituição e, das horas de redução, só metade seria aplicada nestas actividades. Vejam como as ordens foram evoluindo à medida que se iam revelando absurdas. Agora, vem com esta medida que contradiz o despacho inicial e os remendos posteriores. Não são actividades de substituição, não é poesia, voltam a ser aulas. Planificadas pelos ausentes quando prevejam a ausência. Aposto que não vai ficar por aqui. E profetizo. No ensino básico, os alunos apercebem-se já da completa inutilidade de um sistema de substituiçlão que lhes veda o usufruto da escola como espaço de convívio e sociabilização e que supõe uma concepção punitiva e penitenciária da escola. Quando no próximo ano lectivo este sistema for generalizado ao secundário, antevejo vagas de insurreição e indisciplina. E não me venham dizer que são os professores que não querem trabalhar. Eu até peço que me marquem 35 horas semanais no horário. Com duas condições: não me peçam mais nada além dessas 35 e, por favor, deixem os miúdos em paz.
Para concluir, lembro que esta ministra é a mesma que já anunciara o fim dos exames do 12º a Língua Portuguesa aos alunos do ramo de ciências. O escândalo rebentou e o ministério recuou. Este ministério é o mesmo que mandou que as Direcções Regionais elaborassem listas com os nomes dos professores que aderiram à greve. Esta ministra foi aquela que, no início do mandato, proferiu uma das maiores enormidades que já escutei quando, a propósito dessa greve comentou um despacho judicial emitido num tribunal açoriano e que declarava inconstitucional essa elaboração de listas, afirmando sem pudor que os despachos dos tribunais açorianos não eram válidos em Portugal! (sic) Ninguém se indignou. Acharam que era um deslize, uma gaffe, um lapso. Não era. Era um sinal!

Foto: http://www.eb1-cambas.rcts.pt/anossaescola.htm

26/04/06

Chernobyl, por Chernenko

Está bem que os números redondos favorecem as efemérides. E há números redondos para comemorar quando apetece: 1 ano, ou um par. 5 anos ou meia dúzia. 10, 12, 15, 20. 25 anos é um quarteirão, trinta e de 10 em 10. Meio século ou um século inteiro. Ou seja, comemora-se sempre que um homem quiser. A comemoração é sempre interesseira e depende mais da vontade do comemorador do que do facto comemorado. A memória constrói-se. Não se herda. Comemoram-se agora os 20 anos do desastre de Chernobyl, numa altura em que o preço do barril de petróleo bate recordes históricos e em que os governos ocidentais reequacionam a opção nuclear. O terror apocalíptico e os terríveis efeitos de Chernobyl tornam repelente que se considere sequer a possibilidade de pensar a opção nuclear. Ora bem, eu arrisco a polémica e afirmo: A RESPONSABILIDADE DO DESASTRE DE CHERNOBYL RESULTOU MAIS DO REGIME COMUNISTA, ESTALINISTA, TECNOLOGICAMENTE OBSOLETO, CENTRALISTA E CORRUPTO DO QUE DOS PERIGOS INERENTES À PRODUÇÃO DA ENERGIA NUCLEAR. A causa primeira do desastre de Chernobyl foi a natureza do regime soviético.

20/04/06

Pedreiros-livres, por Zé Carpinteiro

Sabe-se pouco da Maçonaria. Pode-se falar mal da Igreja, do Benfica, da tropa, do Presidente, dos deputados, de tudo, menos da maçonaria. Não há humorista que se atreva. Lembro-me que o Herman fez uma vez um número com grão-de-bico, avental, etc. As reacções foram más e não voltou ao tema. É preciso respeitinho. Quem são os maçons? Ninguém sabe, excepto em relação aos que se confessam, que são poucos. Vivemos entre a suspeita e o boato. Não havendo perseguições, não estando clandestinos, porque é que se sabe pouco sobre a maçonaria e os maçons? Porque, primeiro de tudo, a própria natureza secreta, ou discreta como eufemisticamente os maçons se referem a ela, da instituição, é desde logo um obstáculo. Depois, porque a própria história maçónica, particularmente quanto às origens, é algo nebulosa ou misteriosa e, finalmente porque o segredo, contrariamente aos que os próprios afirmam, é essencial a uma organização elitista que gere influências e tece cumplicidades em estratégias transversais.

Quanto às origens, há quem as faça remontar ao tempo do rei Salomão! Não discuto, mas cabe referir dois aspectos: por um lado a mitificação das origens é um procedimento vulgar em todas as instituições, organizações ou nações. Por este processo – afirmando uma raiz remota – se pretende consagrar o carácter intemporal e, por isso, indestrutível de uma dada entidade. Basta recordar como os genealogistas da Restauração faziam remontar a ascendência de Afonso Henriques aos tempos bíblicos. O propósito está claro. Por outro lado, nota-se um judaísmo patente nesta organização. Também isto me parece explicável, pois que muito frequentemente o judaísmo e os judeus aparecem associados à maçonaria. Ainda contemporaneamente o chefe da comunidade judaica portuguesa, Joshua Ruah, se definiu como maçon e amigo do João Soares, maçon assumido, naquela polémica sobre o ouro judaico. A razão da associação entre judeus e maçons deve relacionar-se com a convergência estratégica achada pelos judeus que terão visto na maçonaria uma forma de resistir ao clericalismo, persecutório e totalitarista, do absolutismo. Claro que encontraram no racionalismo laico e universalista da maçonaria um aliado ou, se preferirmos, um espaço óbvio de inclusão e de combate político-social.

Se é discutível a filiação da organização nos tempos salomónicos, já não será tanto encontrar as raízes remotas da maçonaria nas corporações medievais, particularmente nos pedreiros. A própria designação (maçon ou pedreiro-livre, como também se designam) permite admitir essa possibilidade. E é crível. Os pedreiros medievais eram donos de um saber indispensável e prestigiado. Adquiriram liberdade individual e de pensamento à custa desse estatuto num tempo em que a sociedade se organizava organicamente num modelo estático e sacralizado, definido em ordens. Os maçons escaparam à rigidez asfixiante dessa hierarquização social à custa do seu saber especializado e indispensável ao clero e aos senhores feudais. Daqui se retira algo de óbvio: quem adquire um privilégio de liberdade numa sociedade onde ela não existe, tende para a conservação do saber que lhe garante esse estatuto, evitando a propagação da arte que dominam (se o saber se generaliza, o benefício esvai-se), organizando-se em corporações que regulam a actividade, dirimem conflitos, limitam o acesso à profissão e transmitem esses conhecimentos sob a forma de segredo profissional (ordens profissionais, diríamos hoje). Talvez que aqui tenha nascido a natureza secreta, elitista e corporativa da maçonaria. Ainda hoje, recrutam preferencialmente profissionais liberais, bem como indivíduos que detenham um estatuto socioprofissional relevante, de tal modo que a sua colaboração possa ser útil em termos de influência social e intervenção política. Um funcionário público está limitado na sua intervenção pelas regras da hierarquia administrativa (Salazar quando proibiu a maçonaria em 1935, aditou à proibição a obrigatoriedade de todos os funcionários públicos jurarem solenemente no acto de posse não pertencerem a nenhuma organização secreta), da mesma maneira que um trabalhador não especializado não apresenta qualquer utilidade.

A maçonaria começou no entanto a ganhar grande destaque político no século das Luzes. O racionalismo crítico, personalista, universalista, terá derivado do espírito maçónico ao mesmo tempo que definia as regras da sua organização. Creio datarem desta época os documentos reguladores da maçonaria, a constituição de Andresen. Voltaire e os enciclopedistas, ou os iluministas portugueses, com Pombal à cabeça, eram maçons. Mozart também compôs música maçónica. É o século da laicização da ordem social e política, é o século da afirmação do espírito burguês empreendedor, laico, anticlerical, racionalista e individualista. A Revolução Francesa adivinha-se, em grande parte foi obra de maçons, tal aliás como a independência da América.

Distinguem-se, desde estes tempos, duas tendências maçónicas: o rito escocês e a franco-maçonaria, derivada da Revolução, particularmente do partido dos jacobinos. Se a Inglaterra se pode gabar de nunca ter tido um regime absolutista, de ter conservado um regime liberal e parlamentar, em grande parte o deve à tradição das suas elites maçónicas, pois que sempre se constituíram como obstáculo à implantação de uma tirania régia, salvaguardaram o regime parlamentar, evitaram a clericalização do regime, fugiram à alçada da autoridade papal e propugnaram por uma liberdade de iniciativa e de pensamento que não só manteve a vitalidade social e económica da Inglaterra como preservou as elites e as impulsionou, permitindo que a Inglaterra se afirmasse como a grande potência mundial no séc. XIX.

A influência da realidade inglesa na Revolução francesa é óbvia. A franco-maçonaria tomou, porém, rumo diferente: tem um teor anticlerical, jacobino, intervencionista, político-partidário e é menos especulativa. O teísmo do rito escocês é, para estes jacobinos fanáticos, substituído por uma convicção profunda que associa a religião e a Igreja ao obscurantismo. A situação distinta, entre o processo francês e o inglês, também assim o forçou. A franco-maçonaria tomou a dianteira da Revolução, cometeu excessos, e por isso angariou ódios, tendo-se formado uma verdadeira lenda negra acerca da maçonaria, em grande medida infundada. Chegou a falar-se da grande conspiração, de um grande complot (abade Barruel) para derrubar a Igreja e a aliança entre o Trono e o Altar, relação que era apresentada como o fundamento da civilização!

A verdade é que as invasões francesas disseminaram o ideal maçónico por toda a Europa. Em Portugal, a francofilia deve entender-se em correlação com o ódio ao inglês, a Beresford particularmente. Gomes Freire de Andrade combateu com Napoleão na frente russa, veio, era maçon, ensaiou a primeira tentativa de implantação de um regime liberal e acabou no cadafalso, sentenciado por Beresford. Ganhou-se um mártir e curioso é ver como ainda hoje muitos maçons adoptam o seu nome como nome simbólico (o professor Oliveira Marques, também ele maçon, tem um bom dicionário da maçonaria).

Durante o processo liberal não há praticamente um único político de destaque que não fosse maçon. A revolução de 1820 nasce inclusivamente numa loja maçónica, ou algo assemelhado, a junta do Sinédrio do Porto, presidida pelo Manuel Fernandes Tomás (juiz) e onde se contavam juristas (os juristas são hoje o que os pedreiros foram outrora), militares, financeiros, médicos, professores, etc. A união das elites numa organização deste género gera cumplicidades e estratégias que se sobrepõem à orgânica do aparelho de Estado. Um regime que tenha as suas elites sujeitas a uma estrutura clandestina e conflituosa com a orgânica do Estado, está condenado. Em 1820 não se disparou um tiro! Lógico! Destes processos usados nasce a imagem conspiratória, subterrânea, secreta da maçonaria. Mais tarde algo de semelhante se repetiria com a Carbonária durante a implantação da República. Os regicidas de 1908 eram carbonários, dissenção da maçonaria que adoptou meios de intervenção directa e violenta, aliás reprovados publicamente por muitos maçons. Na república era quase tudo maçon, foi o triunfo final. E aqui surgiu a maior crise da organização: popularizou-se! Recordo de uma vez ter lido um livro, já não recordo qual, onde se citava um empregado de balcão de um estabelecimento de Lisboa que louvava as virtudes da maçonaria dizendo como nas reuniões tratava o patrão como irmão! O caos gerado pela primeira república degenerou em descontentamento generalizado e consentiu a reacção católica e clerical. Curioso é como muitos maçons arrenegaram à maçonaria e se renderam a Salazar: Carmona é o mais citado (falou-se inclusivamente num pacto secreto entre Salazar e Carmona, um arregimentava o apoio do clero e outro domesticava as elites maçónicas), mas o mais interessante é Bissaya Barreto. Mas José Alberto Reis ou Sidónio Pais também são apresentados como traidores. Mas isto é o que os maçons não gostam de ouvir: uma parte importante das cúpulas maçónicas aderiu ao Estado Novo e ao Salazrismo. É uma verdade inconveniente, para quem gosta de fundamentar a sua identidade no amor à Liberdade. Mas é fundamentada em factos. Há contradições óbvias, mas há seguramente explicações.

A maçonaria passou à clandestinidade, e os velhos republicanos do Partido Democrático ou se exilaram, ou conspiravam. Mário Soares nasce dessa tradição republicana, laica e socialista. Embora negue pertencer à maçonaria. A candidatura de Norton de Matos foi o grande momento da oposição maçónica. Voltados os tempos da clandestinidade, a organização voltou à natureza secreta e clandestina que a define e com a qual se sente bem.

Com o 25 de Abril, readquirida a liberdade, a maçonaria evita popularizar-se, mas não pode manter-se secreta. Não faz sentido em democracia. Daí o terem escolhido o rótulo discreta. Mas a verdade é esta: ou possuem um poder de intervenção à margem do escrutínio público e isso é ilegal e ilegítimo, ou são simples associação filantrópica, o que não justifica tanto secretismo.