23/08/05

O Boné, por Cão



Olá.

Esta foto, tirou-ma um sobrinho.

Não gosto dela: é uma boa foto.

Mostra-me o que e como sou: portador de dentes torrados pelo abuso do tabaco, o olhar de cão pedinte, o sorriso espúrio de vendedor de ar não condicionado, a roupagem vulgar, o boné da filha, o aspecto de vivo por empréstimo.

Para que está aqui a merda da foto?

Para chatear.

Não tem, o fotografado, qualquer importância.

É pó, cinza será.

Para chatear?

Sim.

Primeiro, para me chatear.

Segundo, para chatear os decerto se chatearão com o alusivo ferrão.

Tudo isto, claro, a propósito de uma outra foto daqui censurada.

Eu conto:

Era o dia 12 de Julho de 1987.

Estupidamente, casava-me eu nesse dia contra uma rapariga com tanto de teimosa (em casar) como de pré-divorciada (olarilas, assim foi).

Convidei pouquíssima gente.

O dinheiro para o “banquete” não dava para mais.

(E mesmo que desse, que se fodam a memória, o casamento e a fotografia…)

Esse ano 1987 foi-se.

Esse 12 de Julho foi-se.

Ficaram os amigos.

Também fui aos casamentos deles, em cujos fiz o desfavor de me portar como um imbecil.

Num, meti-me nos copos e com a namorada de um amigo.

Noutro, atirei um gato à piscina e mijei numa cómoda.

Atitudes que já prenunciavam o excelente aspecto físico, higiénico, moral e ontológico que a fotografia acima demonstra à saciedade.

Entretanto, dediquei-me aos papéis.

Escrevo, leio, revisiono, entendo, não entendo, aborreço-me, exulto.

E vou à internet.

No meu balogue, vou bolçando quase diariamente toda uma colecção de cromos e inconsequências tão inúteis como inócuos.

No Tapor, boto hoje a minha foto.

Viva o União de Coimbra!

Viva Daguerre!

Viva Bill Gates!

Viva o Lápis-Lazúli da Censura à la Grã-Nefertiti!

Viva a Maluqueira!

Viva o boné da minha filha!

Devastação

















17/08/05

Pena, por Cão

Vale a pena estar vivo, embora não se saiba por ou para quê.

Este é o país a que chamamos nosso, apesar de ser deles. Deles: dos que mandam pôr a arder, dos que põem a arder mesmo sem mando, dos que ganham com o que ardeu.
Perante o flagelo anunciado de cada Verão (que, com a seca, começou este ano em Janeiro), alguém acredita na senhora-de-fátima o suficiente para encomendar submarinos em vez de helicópteros.
Nas festas flavas do T-Clube, a nacional aristocracia achinela-se untada de banha e idiotia.
Enquanto isso, nós engarrafamos clios e eskorts na curva de Buarcos, entre peões de tanga que carregam tremoços e feijoadas e mães solteiras buscando alemães que não virão, verão.
Vale a pena estar vivo, mas não ser vivo, ici.

Este é o país a que chamamos osso, porque a carne é deles. Eles, quem?

A ver:
O pivô-chorão do telejornal.
O Marcelo Rebelo de Sousa, de olhos muito abertos de coruja que não dorme para nos velar.
O Mário Soares, que não morre nem que o matem.
O Pateta Alegre, que já morreu mas não sabe.
O coiso dono da Vivenda Mariani.
O Obikwelu a tocar o hino das quinas em congas e bidons.
O Nino Vieira a passar anos de férias cá antes de ir mamar de novo lá.
O Pinto Balsemão sempre a cocar e o directorzito do Expressozito dele.
A Catarina Furtado a dar cabo ao nome do pai.
O Joaquim Furtado a criar uma filha para isto.
O Nicolau Breyner, que, via RTP, está encarraçado no pêlo do Orçamento de Estado há coisa de 40 anos.
O Herman José, que tem tanta piada como uma anedota pedófila e/ou de peidos.
O Moita Flores, esse grande guionista e grande amigo do Carlos Cruz.
O Carlos Cruz.
O Benfica, o Sporting e os coisos das Antas.
O viveiro-PS e o viveiro-PSD.
O mexilhão e a alforreca.
O Fausto Correia hirsuto e o Albarran careca.
O Carlucci da CIA e da EuroAmer.
O Talon e o Tyson.
A Pasta Medicinal Couto e a placa da Lili Caneças.
O Santana Lopes e o Sentido de Estado.
O Vasco Pulido Valente e o século XIX Fraco.
O Sampaio a chorar como se fosse pivô de telejornal.
A família Câmara Pereira e as pragas de gafanhotos bíblicas.
O riquinho que é presidente da Câmara de Aveiro.
O idem que é ibidem da homóloga de Ílhavo.
A calcinada tristeza de Coimbra, sob todos os aspectos.
Os indígenas de lata da Cova de Papelão da Moura.
O Zezé Camarinha, tão algarvio como o coiso da Vivenda Mariani.
A Igreja de Viseu.
O sertão de Bragança.
O Bispo de Braga.
A Josefa d'Óbidos.
As alcunhas alentejanas que passam a nome de família à hora da sesta-baptizado.
A Reserva Territorial aposentada da Tropa a gozar o prato nas termas.
A maltosa sueca da celulose.
O Pacheco Pereira a garantir que é a reencarnação do Che mas em Rumsfeld.
O Rumsfeld e a Condor Lisa, a preta que lá está a fingir que a MerdAmérica do Norte não é dos brancos wasp.
A Nancy Reagan, que é viúva há 80 anos e só agora é que lhe disseram.
O Giuliani no baile dos bombeiros antes do baile da Casa Branca.
A maltosa toda a dizer “é assim”.
O Luís Represas no elevador a fazer muzcas pró dito.
As manas Pinto Correia muito muito Fundação do Gil.
O Padre Fontes a cozer chás de bruxas em chaleiras de ouro bento.
O Moniz e a cova da Moura Guedes.
A TMN a mandar uma optimus fodavone.
O preço do tabaco.
A sangria atada do gasóleo.
O Bibi a fazer bobós a bebés.
O socrático Carrilho e a platónica Guimarães.
O bebé deles com nome daquele rei que plantou pinhais para ter onde cagar no intervalo das cantigas de amigos e das guerras com o filho.
D. Afonso Henriques, o primeiro presidente do Conselho de Administração da Gulbenkian, cujo complexo de Édipo fundou um país lamentável.
O próprio Gulbenkian, que quis fazer outra merda desta merda e que fez.
Os reformados a votarem lanigeramente nos gajos que lhes mamam as reformas de mama.
As reformas educativas e os professores e os alunos e os resultados das reformas educativas e dos exames, menos os de consciência.
A água das torneiras.
Os rios, mortais casas dos peixes.
Os suinicultores de galochas e os porcos descalços.
Timor e a Religião e Moral obrigatória.
O Rato Zinger, Mickey em alemão.
O futsal e o futebol de praia.
O voleibol de praia e o Maia e o Brenha.
A Madeira e o coiso.
USAçores.
O Graça cova da Moura, poetastro oficial cujo nome de tradutor é maior do que o traduzido Dante.
O Prado Coelho, coelho oficial.
O Guterres nos ugandas e nos sudões a benzer refugiados e a dizer “tenham paciência, tenham paciência, vão lá com Deus”.
A Maria Barroso e o padre Melícias a irem lá com Deus.
A fanhosice perpétua do Herdeiro do Trono de Portugal, que parece ‘cosa mentale’ mas não deve ser.
O Feytor Pinto e as camisas-de-vénus, hoje sim por causa do cancro ou lá como se chama aquela moléstia que dá de comer à Margarida Gorda dAbraço, amanhã não por causa da moral.
A moral.

E a pena.

Ser mulato em Londres, por João Negrão

No dia 22 de Julho o brasileiro mulato Jean Charles de Menezes foi morto pela polícia britânica à queima roupa no metro de Londres. Primeiro disseram que levou três tiros. Primeira mentira: levou oito tiros. Sete na cabeça e um no ombro. Acharam-se ainda mais três cartuchos. Foram disparados onze projécteis. Depois tentaram justificar o fuzilamento dizendo que o brasileiro Jean Charles levava uma mochila, usava um sobretudo largo e suspeito, que adoptou um procedimento suspeito, não comprou bilhete, que desobedeceu a uma ordem, que corria, que pulou por cima da barreira de acesso ao metropolitano. Mentira, mentira, mentira, mentira, tudo mentira. O mulato brasileiro levava um pequeno saco com os seus haveres, como qualquer pessoa normal que se desloca para o trabalho, usou o seu bilhete pré-comprado, apanhou a carruagem em passo apressado, como toda a gente faz, vestia um leve blusão de ganga justo ao corpo. Diziam também que resistiu à ordem de prisão. Mentira, mais uma vez. isto é, em toda a história contada pela polícia não há um grão de verdade, é tudo mentira. Porque morreu então Jean Charles? Por uma razão só: o seu prédio estava sob vigilância. Às 9h30m da manhã Jean Charles saiu para trabalhar e foi dado como suspeito. Porquê? Porque é mulato e os anglosaxónicos de pele leitosa e cabelo ruivo confundem mulatos com árabes e acham que os árabes são suspeitos de terrorismo. Azar ser mulato em terra de burros!

16/08/05

O método Lynyrd Skynyrd, por Doc Comparato

Todos se devem lembrar daquela canção dos Xutos & Pontapés intitulada Para Sempre que foi banda sonora de um filme com o Quicas Almeida (o Banderas português) que fazia de padre (é sempre a mesma merda) e mais não sei o quê. A música tinha uma guitarra a rasgar que fazia mais ou menos isto: Nhééunmm nhé nhé nheééunnnumummmmm ....... e depois Ai meu amor..... etc. Pois bem, quando puderem ouçam o Free Bird dos Lynyrd Skynyrd, comparam e digam-me se estamos perante uma grande coincidência, uma grande inspiração ou é o Lynyrd Skynyrd Method bem aplicado.

14/08/05

Viagens na “Nossa” Terra, por Almeida Garrido

Tenho a sorte de ter uma fobia: andar de avião. Tal sorte leva-me a considerar a Espanha como destino preferencial de férias. Espanha é o melhor país do Mundo. Tem tudo! Excelentes vinhos, óptimas praias, arte, cultura, museus, touradas, tapas, monumentos que vão desde o Império Romano à arquitectura pós-moderna como mais nenhum outro país tem à excepção da França e da Itália. Espanha tem eventos desportivos e culturais de nível mundial, livros e livrarias, pintores, peixe, carne e mariscos. Espanha tem mulheres lindíssimas que se pintam, perfumam, passeiam e riem no meio da rua. Tem plazas e esplanadas, montanha, lagos idílicos, florestas verdejantes e até tem Portugal!

Na 1ª etapa, fui de Coimbra a Leon com paragem em Salamanca para almoçar. Aqui, deu-se o único episódio desagradável quando tive que fazer ver ao animal do empregado de mesa que o mundo já não se divide em espanhóis e portugueses, pois que nem eu sou o Príncipe Perfeito nem ele era parecido com Isabel, a Católica. O cabrão pôs-se a resmungar num castelhano cerrado e quando lhe pedi para hablar de espacio, o gajo disse que em España se habla castellano e que se eu quisesse que aprendesse. Passei-me e expliquei-lhe em portuñol:
- Hombre, lo mal non es que yo no te entienda. Lo mal es se te mal entiendo. Pues que si quieres que te entienda, habla de espacio y si no quieres que te entienda, mejor es hablar chino porque se te malentiendo… coño, va a haber circo aquí e ahora, caralho!
O velho amansou e lá mandou um pardon señor que eu entendi perfeitamente.

Chegados a Leon, destaque para a catedral gótica, a casa Botines de Gaudí e um magnífico rabo de boi com setas. O vinho da casa é que era merdoso.

No outro dia, pelo meio da manhã, rumámos a Gijón, próspera cidade com uma baía lindíssima. O tempo estava bom e tivemos praia. O paseo maritimo estende-se por quilómetros e quilómetros, propiciando um passeio agradabilíssimo. Invejo os espanhóis pela qualidade dos espaços públicos: passeios, jardins, plazas, monumentos, parques, recintos desportivos, etc. Costumo dizer até que o grau de civilização de um povo se mede pela qualidade dos espaços públicos, na medida em que demonstram o quanto o colectivo se sobrepõe ao particular. Ora, se o objectivo a realizar pela acção política é a promoção do bem-estar público, o individual deve sempre subjugar-se ao colectivo. O planeamento urbanístico e a cidade são o processo e o resultado que permite aquilatar o quanto se alcança esse objectivo. Dito isto, poupo-me a mais considerações e seguimos para os Picos da Europa.

Covadonga é uma cagada! Tem lá uma merdunça de um museu feito com as oferendas pirosas dos peregrinos e um templo neo-românico dos finais do século XIX, mais uma estátua patética do Pelágio. Safa-se a paisagem e a gruta-santuário. Mas este local tem tanto de piroso como de simbólico. É um anti-Alhambra. Se olharmos para Sul, para o Alhambra vemos como era sofisticada a civilização do Andaluz. Comparar o Alhambra com a toca de Covadonga dá-nos a medida do abismo que separava o norte gótico e cristão do sul islâmico e mediterrânico. É a mesma distância que vai de Vale da Porca a Nova Iorque! O abismo dá a dimensão do mistério: como foi possível que os bárbaros montanheiros do norte, incapazes de imaginar sequer o que fosse um limiar mínimo de civilização já que desconheciam em absoluto a cidade como expressão urbanística para além daquilo que não destruíram da herança romana, como foi possível , dizia, que tenham vencido e expulsado os islâmicos da península? A resposta tem tanto de simples como de inacessível para os fanáticos xenófobos. É que os bárbaros do norte tinham a semente que seria o segredo do triunfo: a propensão para o universalismo, isto é, a capacidade de integrarem o que de bom e válido lhes é legado pelos outros. Os islâmicos do Al-Andaluz cavaram um beco luxuoso que os condenou à decadência e à perdição, pois se fecharam culturalmente. Adormeceram indolentes, embevecidos com o seu sucesso e conforto, crendo terem atingido um equilíbrio que lhes parecia paradisíaco mas que era simplesmente imobilizador.

Próxima paragem no Parador de Cangas de Onís onde, depois de um breve descanso fui para o bar no antigo claustro do mosteiro beneditino. Gin tónico com e um livrito: A «História Artística da Europa», dirigida por Georges Duby: «Bernardo - diz um dos autores - não se limita a criticar; propõe como alternativa uma “estética da autenticidade” de onde se recolhe – como no Bauhaus de Gropius – o máximo de energias intelectivas e o máximo dos respectivos resultados formais.» Na verdade, S. Bernardo de Claraval critica violentamente o figurativismo decorativo e os monstros que povoavam toda a arquitectura românica numa aterrorizadora pedagogia do medo, propondo uma nova estética, depois chamada cisterciense e magnificamente testemunhável em Alcobaça, onde o despojamento significasse espiritualidade e recolhimento. É a esta atitude que o autor, de forma certeira e surpreendente, compara a Gropius e à Bauhaus. Neste sentido e no limite, o suprematismo tem algo de cisterciense e S. Bernardo algo de minimalista, pois que a geometria é irmã da teologia e o quadrado preto de Malevich é um alfa-ómega.
Ao jantar, um volovent de setas, seguido de “delícias de cerdo ibérico”, acompanhado por um tinto Prado Rey, Ribera del Duero, roble 2003, com taninos bem fortes, uma estrutura sólida e profunda, cor fechada com laivos avermelhados, intenso, prolongado e com aromas que se desdobravam da tosta à especiaria.

No dia seguinte, Miracielos, próximo de Llanes. Um pequeno hotel a 80 metros da praia fantástica. Uma baía abraçada por duas restingas de pedra onde cresciam pinheiros mansos. A linha de costa preservada e verdejante com vacas a pastar. Os fetos escorregam até à areia. A água é gelada, mas eu não me importo. Três dias descansados. Gastronomicamente, destaco um magnífico robalo grelhado comido em frente ao porto de Llanes com um albariño cujo nome já não lembro. Aproveito para lançar a questão uma vez levantada pela enóloga favorita da RS.T (cujo nome não posso dizer porque o Grão-mestre não deixa) sobre a recente moda de cortar o peixe longitudinalmente em duas metades. Pode ser mais rápido e mais bonito, mas atenta contra a dignidade do bicho, tornando-o seco.

Em Llanes, porém, a experiência mais marcante foi a visita ao campo municipal de golfe. Sim, em Espanha há campos municipais de golfe. Não é um desporto elitista, embora seja caro para os turistas. O campo é magnífico. O slogan promocional diz tratar-se “provavelmente” de um dos mais bonitos campos da Europa. Eu conheço poucos campos, mas garanto que podem tirar o “provavelmente”. Foi construído sobre um planalto com o maciço Cantábrico de um lado e o oceano do outro. As vistas são deslumbrantes. Destaco o hoyo 7, cujo tee de saída se pode ver na foto. O green está 165 metros à frente. Não há fairway, tem que ser uma tacada directa. As vistas são celestiais, no sentido literal, com Llanes ao fundo. O vento é permanente, pois estamos a uma altitude de cerca de 200 metros e ao lado do mar, o que dificulta o voo da bola. A primeira bola saiu-me mal e foi para Llanes. A segunda exigia concentração. Escolho o ferro 5, ensaio bem o movimento e não me atemorizo com os observadores. Faço como o meu mestre, o Mau: baixo-me levemente e arranco um pedaço de relva como quem cata um piolho, ergo o braço e solto os pintelhos verdes ao vento. Com um ar de entendido observo o lado para onde esvoaçam e envergo um olhar de especialista. Franzo o sobrolho como quem morde a táctica e faço-me à bola. Stance correcto, backswing lento e desenhado, olhos na bola, pulso firme, swing a descer e PLAC! Quando levanto o queixo vejo o voo da bola. Subiu bem, desceu e caiu a dois metros da bandeira! Os velhos seguem viagem e eu insultei-os mentalmente!

Em Bilbao só deu para ver o Guggenheim. Bilbao está cheia de referências ao Pio Baroja que, para quem não sabe, é o nickname do nosso bilbaíno da confraria. Sim, que nós somos uma confraria internacional e temos um bilbaíno. Em Bilbao há livros do Pio Baroja em todas as livrarias, há calles Pio Baroja, estátuas e até um parque de estacionamento. Exige-se um post sobre o Pio Baroja ao confrade que assim se assina (bela cacofonia esta: cassimsassina!). Guggenheim é o Guggenheim. Estava lá uma merdunça de uma exposição fantástica sobre os aztecas. Não é que eu não goste, mas eu ia em busca da pop art, do Warhol, do Rauschenberg, Rosemquist e Koons e estava tudo cheio de aztecas! Só um Warhol (150 Marilyns coloridas) um Rosemquist e três ou quatro Rauschenberg. Gostei dos expressionistas abstractos. Destaco Franz Kleine, Willem de Kooning, um Rothko só (de entre os vários da Fundação) e, sobretudo, o catalão Tapiès de quem venho gostando cada vez mais. Referência para o Richard Serra que está representado em Serralves, com uma instalação intitulada “The matter of time”.

Jantar numa sidreria no casco viejo. Atenção a esta ementa: enchidos variados, omolete de bacalhau e uma costeleta de boi em sangue que ocupava o prato todo e que foi a melhor carne que já comi nos últimos anos, queijo e marmelada, café e sidra à discrição! Preço? 15 euros! Quanto à sidra, embora sendo agradável e propicie um ambiente engraçado com aquele ritual em que se serve, só a bebe quem não tem vinho.

A caminho de S. Sebastian, fomos por Azpeitia, com paragem em Loiola, terra de Santo Inácio. A religiosidade ferverosa dos bascos é facilmente visível. Há jesuítas em todo o lado, e Santo Inácio é um herói nacional nas terras do interior. A basílica que ergueram a Inácio na sua terra natal - Loiola - é imponente. O jesuitismo basco, compatível com a prosperidade e desenvolvimento económico, financeiro, cultural e social das terras bascas, devia dar que pensar aos jacobinos republicanos que encontraram no jesuitismo a causa da decadência e do atraso económico português. O País Basco é a prova do contrário. A jesuítica prosperidade basca prova ainda a burrice dos jacobinos republicanos portugueses (e não só!) que expulsaram, prenderam, humilharam e ridicularizaram os jesuítas, imbecilmente convencidos que assim trilhavam os rumos da prosperidade.

Em San Sebastian é tudo bom e bonito. Tão bom que se me dessem a escolher uma cidade para viver eu hesitaria entre San Sebastian e Barcelona. Abominei apenas aqueles bares bascos que eu também já vira em Bilbao, com a bandeira colada na parede rodeada com fotos dos etarras que eles consideram mártires. Usam boina como marca de uma raça que acham exclusiva e falam uma língua que se orgulham que ninguém entenda e isso, além de imbecil, preocupa-me, pois que se o País Basco é das terras mais belas, prósperas e atractivas que já visitei, temo que este fechamento cultural do qual este orgulho etarra, terrorista e narcísico, possa vir a condenar a Espanha à mesma sorte do Andaluz de há 500 anos. A causa de então parece ser a mesma de agora: soberba e fechamento cultural numa época de universalismo, mobilidade e multiculturalismo. Alguém que explique aos etarras que a especificidade da língua basca se deve apenas a um factor: o ter ficado à margem da acção benfazeja e civilizadora da latinização.

01/08/05

O Código da V., o Galo de B e o JR dos S., por Cão

Chegou Agosto, o mês dos parolos.
É o tempo dos nossos lusocranianos de mala de cartão.
Neste dia, lembro-me sempre daqueles que andam lá fora a lutar pela vida mas que nunca lá ficam.
Dedico-lhes estes aforismos anémicos.

1- Ler ‘O Código da Vinci’ é exactamente o mesmo que pôr o colete fosforescente no banco do condutor.

2- O verdadeiro Galo de Barcelos faz manguito com a asa.

3- A verdadeira senhora-de-fátima dá horas na base da azinheira de baquelite.

4- O perfume da sardinha assada é vaporizado de um frasco formato-pimento.

5- Perdoar Valentim Loureiro e o Futebol é dar a outra nádega, como mandamentam a Bíblia, a Bola e o Record.

6- O País arde todo o ano, mas só no Verão é que passa na TV.

7- Num país civilizado, gente como o José Rodrigues dos Santos seria obrigada a ir de mochila no metro.

8- Avelino Ferreira Torres e Fátima Felgueiras deveriam ser casados, um contra o outro.

9- Gostar de Portugal não é a mesma coisa que admirar o Ricardo Espírito Santo ou o José António Saraiva.

10- Deveria nascer um eucalipto nas badanas do cu do Jorge Gabriel. Não desejar o mesmo ao Manuel Luís Goucha é evitar-lhe uma satisfação.

23/07/05

Porcas Profecias: "Panic", The Smiths (1986)

Panic on the streets of London
Panic on the streets of Birmingham
I wonder to myself
Could life ever be sane again ?

20/07/05

A Primavera, os paçarinhos e o meu Abô, por Cão

Eu estou a fazer uma redassão que vai ser demais é sobre a Primavera e os paçarinhos e o meu Abo, eu gosto muito da Primavera e o meu Abô tambae gosta muito de paçarinhos fritos e de portuges suabe sem filtro de pois dos paçarinhos e arrota e tudo.
A minha Abó ralha coele mas não é por causa da Primabera ela tambai gosta munto da Primabera como eu mas não como os paçarinhos proque tanho pena deles não é do meu Abô e da minha Abó que tenho pena é çó dos paçarinhos e do meu Abô que fuma demais. Upe-se, é de mais que se debedescreber disse o meu profeçor que é um cão.
Pró ano há mais primabera e paçarinhos, mas o meu abô não sei se vai haber ele anda Cuma toce esquezita por causa da minha abó ralhar coele por causa do protuguês suave é demais.

19/07/05

O caso da moral da porca, porcão

O meu vizinho tem uma porca que escapou à morte por causa do cio. Foi ele, não ela, quem mo disse. E eu acreditei e acredito. Acredito mas penso. Várias coisas.
Penso que, afinal, o sexo não é a porcaria que dizem. Pelo menos a partir de sábado passado, dia de matança que não foi de matança.
Reparei há muito no facto português de as quatro letras da palavra “amor” serem as quatro primeiras, também, de “a morte”. Mas isso é ortografia nacional. Este caso da porca ciosa (que se chama Ruça mas é branca e rósea como uma solteirona involuntária) levou-me para outros aléns pensativos. Mesmo. Muito.
Perguntei ao meu vizinho como é que ele sabia. Que ela, enfim, estava “saída”. Ele respondeu: “Anda distraída. E despreza o comer.” Fiquei maravilhado. O povo é deveras o maior sábio. Porque eu quis ver a Ruça. E vi: estava distraída. No olhar, aquela ausência mística de actriz de telenovela. No grunhir, aquela surdina que nasce das trompas do sul do corpo. No mexer, aquela preguiça enérgica de quem iria mas não vai porque só ia se fosse. Na hora, aquele instante de quem, estando ali, estava acolá, perfumando de alma uma essência de corpo, tendo “corpo”, por outra ordem, as mesmas letras de “porco”.
A Ruça não foi abatida no sábado passado. E não o será enquanto estiver como está. O que é bom para os porcos, penso ainda, também há-de ser bom para as pessoas. Sobretudo a moral. Que é esta: se sentirmos a morte por perto, o melhor é comer pouco. Comer pouco e distrairmo-nos muito. O mais possível.

15/07/05

اعتقال مصري يشتبه في علاقته بتفجيرات لند, por Mustapha

عتقلت السلطات المصرية اليوم مواطنا مصريا يشتبه في ان له علاقة بتفجيرات لندن التي جر الأسبوع الماضي.ت


والمشتبه به الذي يدعى مجدي النشار درس الكيمياء وكان اسمه ضمن اوراق عثر عليها في احد المنازل التي تمت مداهمتها في لندن في اعقاب التفجيرات.

وتفيد أنباء بانه ربما كانت له صلة بإعداد القنابل التي استخدمت في التفجيرات.

وتواصل الشرطة البريطانية حاليا تعقب الاشخاص الضالعين في تفجيرات لندن التي وقعت الاسبوع الماضي وكانت قد اعلنت أنها تسعى لاعتقال طالب مصري يدرس الكيمياء اختفى من منزله في ليدز.

كما اعلنت انها تتعقب رجلا خامسا تعتقد أنه العقل المدبر للهجمات، ويعتقد أنه غادر بريطانيا قبل التفجيرات مباشرة.

وقد اعلن اليوم أن المتفجرات التي عثر عليها في منطقة ليدز مشابهة لتلك التي استعملت في هجمات أخرى لتنظيم القاعدة ويعتقد انها مكوناتها المضبوطة متوفرة لدى الصيدليات وأنها يمكن تصنيعها منزليا.

وفي الوقت ذاته قال مسؤولان كبيران في المخابرات الباكستانية ان السلطات في اسلام اباد تبحث في وجود رابط بين احد منفذي الهجمات بلندن وجماعتين مسلحتين تابعتين لتنظيم القاعدة تعملان من داخل الاراضي الباكستانية.
تحقيقات بباكستان
باكستان قالت إن من الصعب السيطرة على المدارس غير المسجلة

ونقلت وكالة اسوشيتيد برس الامريكية للانباء عن المسؤولين ان التحقيقات تركز حول علاقة شهزاد تنوير المتهم بالضلوع في التفجيرات والذي كان قد تلقى تعليما بمدرسة اسلامية بباكستان بهاتين الجماعتين خاصة وانه قام بزيارة سريعة الى هناك خلال العام الماضي.

وقد تعهد الرئيس الباكستاني برفيز مشرف بتقديم "دعم ومساعدة كاملين" للتحقيقات التي تجريها بريطانيا للكشف عن ملابسات انفجارات لندن.

وقالت وكالة الانباء الباكستانية الرسمية ان مشرف قدم تعهده هذا خلال حديث هاتفي مع رئيس الوزراء البريطاني توني بلير مساء الخميس.

وقال وزير التعليم الباكستاني جاويد اشرف في حديث للبي بي سي ان المدارس الاسلامية في باكستان تخضع للرقابة من قبل الحكومة إلا انه في الوقت ذاته أكد ان المدارس الموجودة على الحدود مع دول اخرى او في المناطق الجبلية لا تعلم عنها الحكومة شيئا حيث انها ليست مسجلة ضمن المدارس الحكومية.
متفجرات محلية

وقال مراسل بي بي سي مارك اربان "لقد أخبرني أشخاص قريبون من التحقيق أن هذه الكمية من المتفجرات التي عثر عليها في منزل في ليدز هي في الحقيقة مادة الاسيتون بيروكسايد".

وأضاف أن هذا الكشف يمثل تطورا كبيرا من جهة أنه قد يثبت خطأ الافكار السابقة بأن المواد المستخدمة في تصنيع المتفجرات معقدة أو من النوع العسكري.
اقبال ساكاراني
اقبال ساكاراني يشارك في الوفد الذي توجه لمسقط رأس المهاجمين

وقال المراسل إن الطبيعة "غير المستقرة" بالمرة للمتفجرات اضطرت الشرطة إلى توسيع المنطقة التي عزلتها وسط المنازل وفرض حظر للطيران فوقها.

وأوضح اربان أن تلك المتفجرات "من نفس طبيعة المتفجرات التي كان يضعها ريتشارد ريد في حذائه عندما حاول تفجير إحدى الطائرات عام 2001".

لكن المتفجرات في حذاء ريد كان مضافا عليها مركبا آخر ليجعلها أكثر استقرارا.
زعماء مسلمين إلى ليدز

ويزور ممثلون بارزون من الجالية المسلمة في بريطانيا يوم الجمعة وست يوركشر التي كان يعيش بها ثلاثة من المفجرين الاربعة المشتبه فيهم.

ويلتقي الوفد برئاسة إقبال ساكراني، رئيس مجلس مسلمي بريطانيا، ببعض السكان ومسؤولي الشرطة وقادة الجالية.

وقال السير إقبال إنه يريد التحدث والاستماع، وإنه من واجب مسملو بريطانيا البحث عن من سماهم عناصر شائنة داخل الجالية من أجل اقتلاعها.

وتأتي تلك الزيارة بعد يوم واحد فقط من دعوة ولي عهد بريطانيا الامير تشارلز من اسماهم "المسلمون الحقيقيون" باقتلاع جذور الائمة المتطرفين.
صور حسين

وكانت الشرطة قد نشرت صور فيديو لدائرة تلفزيونية مغلقة وصورة فوتوغرافية للرجل الذي تقول إنه نفذ تفجير الحافلة رقم 30 في لندن الأسبوع الماضي والذي أسفر عن مقتل 14 شخصا.

كاميرات الأمن التقطت صورا لحسين قبل تنفيذه التفجير

وحث فرع مكافحة الإرهاب في شرطة لندن كل من رأى حسيب حسين، 18 عاما، الخميس الماضي أن يتصل هاتفيا بأحد الارقام.

ووقف الملايين في بريطانيا ومدن أوروبية أخرى دقيقتي صمت حدادا على أرواح الضحايا الذين ارتفع عددهم الى 54 قتيلا بعد ان اعلن مساء امس الخميس عن وفاة احد المصابين الـ700 متأثرا بجروحه.

وقالت الشرطة إن محصلة القتلى تشمل ثلاثة من المفجرين الاربعة الذين يعتقد أنهم قتلوا في الهجمات، وإنها تفتش حاليا منازل المفجرين.

واحتشد الآلاف في ساحة ترافلجر بوسط لندن لتذكر ضحايا التفجيرات.

وقامت الشرطة بعمليات تفتيش لمنازل في ايلزبري وباكس وليدز. وقامت بتفجيرات متحكم فيها وتم إخلاء منطقة بيستون في ليدز، التي كان يعيش فيها أحد المشتبه في تنفيذهم التفجيرات، من السكان.

صور المفقودين مازالت تملأ شوارع لندن

وقال بيتر كلارك رئيس وحدة مكافحة الإرهاب: "نريد أن نتوصل لتحركات (حسين) حتى الساعة 0947 بتوقيت بريطانيا الصيفي عندما وقع الانفجار في ساحة تافيستوك."
البحث عن ادلة

"السؤال الذي أطرحه على الناس هو: هل رأيتم هذا الرجل في محطة كينجز كروس، هل كان بمفرده أم معه آخرين."

"هل تعرفون أي طريق سلكه من المحطة، هل شاهدتموه وهو يستقل الحافلة رقم 30، وإذا رأيتموه في أي وقت وأي مكان؟"

وتعتقد الشرطة أن الحافلة كان بها نحو 80 شخصا عندما وقع الانفجار، ودعا كلارك أي راكب لم يتصل بالشرطة حتى الآن أن يتصل بها.

وقال في مؤتمر صحفي للشرطة في لندن إن تحقيقات الشرطة كشفت عن "كميات هائلة من المعلومات" وعن خيوط جديدة تتكشف "كل ساعة فعليا".

وأضاف أن المحققين حصلوا على شهادة 500 شخص ويقومون بتحليل أكثر من خمسة آلاف شريط مسجل لدوائر تلفزيونية مغلقة.

وتابع قائلا: "علينا أن نتحقق من عدد من الأمور: من نفذ الأعمال بالفعل، من قدم لهم الدعم، من مولهم ومن دربهم ومن شجعهم؟"

"سيستغرق هذا العديد من الشهور من التحقيقات المكثفة والمفصلة."


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11/07/05

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Festival de Músicas do Mundo de Tondela – Tom de Festa ACERT 05


A 15ª edição do Tom de Festa – Festival de Músicas do Mundo vai decorrer entre os dias 20 e 23 de Julho do corrente ano. Já ‘institucionalizado’ como um dos mais estimulantes certames artístico-culturais do Centro do País, o Tom de Festa repete, inovando sempre, uma organização que prima por uma programação nacional e internacional de alto(s) valor(e)s.
O objectivo é claro: atrair público de todo o País a uma região que se valoriza como sede de sucessivos grandes acontecimentos culturais, no pressuposto pacificamente aceite de que o desenvolvimento (também) passa por isto e por aqui.
Em 2005, outros grandes figuras da música nacional e internacional vêm dar fulgor a um programa aliciante que honra Tondela e o distrito de Viseu, muito contribuindo para a projecção positiva no exterior da nossa ‘geografia’ cultural.


Programa já confirmado:

Dia 20

– Abertura com “Bicicleta de Recados”, um divertimento poético multimédia produzido pelo Trigo Limpo Teatro ACERT.

CEDECE – Companhia de Dança Contemporânea

GERALDO AZEVEDO (Brasil)

Dia 21

POLVOROSA (Alemanha & Chile)

BOSS AC (Portugal)

NEW SKETCH (Portugal)

DIA 22

URBAN TRADE (Bélgica)

ANGELINA AKPOVO & YAKUWUMBU (Benin)

MOLA DUDLE (Portugal)



Dia 23

RICHARD GALLIANO | NEW YORK TRIO COM LARRY GRENADIER E CLARENCE PENN (França / EUA)

KELVIS (Cuba)

ALEX IKOT (Guiné Equatorial)



Em complemento e durante todo o Festival:

Artes Plásticas
Feira da Cultura e da Solidariedade
Gastronomia
Lançamento de livros


E VINHOS DO DÃO!!!

05/07/05

Jornada Gloriosa, por Isabel de Arranhão

Ontem, feriado municipal em Coimbra, dia da Rainha Santa, a confraria RS.T saiu em peso para o campo de Montebelo. Jornada gloriosa em dia esplêndido. A foto do Kirk Douglas (não é o verdadeiro Kirk Douglas, é a malta a brincar!) fala por si. No fim, duche tomado e baza para Canas de Senhorim, o País Basco de Nelas. Jantar no «Zé Pataco». Boa jantarada regada com um belo branco da «Quinta da Murganheira». A vida 'tá dura e antes que o Zé Sócrates nos proíba os vícios burgueses, o melhor é começar já a pensar noutra. Eu sugiro o «Bem Haja», também em Nelas, que está para Canas como Madrid está para Bilbao.

30/06/05

Coimbra, por Mangas

Coimbra nunca foi um bom sítio para fazer amizades: aqui, quando amamos verdadeiramente alguém, acompanha-nos para sempre e dói-nos, mas nunca queremos que seja de outra forma. Ao longo dos anos sustentamos por correspondência a troca de emoções dos livros que lemos, porque é melhor escrever as coisas quando precisamos de as sentir de mais do que de menos. Ainda que todos os universos desses livros sejam apenas um, neles aprendemos a saltar do primeiro para o último consoante nos apetece rir ou resistir. Admiramos uma vez por ano a pontualidade dos jaracandás a desabrochar no tal dramático violeta-fogo e, com o pretexto de estarmos juntos, passamos noites inteiras a comer, a provar vinhos às cegas, a achar que o único pecado capital é a estupidez, e a discutir sobre coisas do género: pedir meias doses, porque raio se chama dose?, é porque está calculado: é uma dose!, um homem, uma dose!, quem pede meia dose é meio-homem!; cozido à portuguesa é comida de homem, meia dose de cozido é... paneleirice!; o pior é pedir meia dose de qualquer comida terminada em inho ou inhos, a saber - meia dose de bifinhos, meia dose de lulinhas!; e nunca esquecer que comidas que são de homem, para além do cozido, são a feijoada, mão de vaca, coelho à caçador e todas as partes do porco, porque tudo o que tiver porco é de homem...
Em Coimbra sobra-me o tempo que sempre me falta para fazer tudo o que me propus. Contemplar é uma variante artística da solidão porque esta cidade é dos raros sítios que conheço onde a peculiaridade de cada homem é tão secreta quanto passível de ser admirada em silêncio por outro homem. As tradições não fazem crer a ninguém que de facto ainda existem, a história é feita de graves mas festivos gestos a cada volta do sol quando as noites são bailarinas e os dias densos como azeite virgem. Uma vez sonhei que o bosque, em Vale de Canas, me engoliu numa noite incendiada e que de Coimbra perdurará o vento que a atravessou reconhecendo os passos descalços de uma mulher nas águas. Amanheceu três vezes nesse meu sonho, quase sempre, com o suor a saber a desejo. Acordei numa rua que se chamava “Todas as Ruas Conduzem ao teu Nome”. Porém, eu nunca saberei se naquele preciso instante, Coimbra dormia a sonhar comigo nem o quanto o significado desse sonho é claramente revelador do nosso elo de ligação ou alienação. Estando cá ascendi ao conhecimento do mundo. Parti muitas vezes, de todas elas, o mais distante que estive de alguma coisa foi de mim mesmo. Convenci-me disto pelo sentidos órfãos de nunca ter pertencido a lugar algum, e embora as minhas paixões sejam livres de imigrar, acredito agora, quanto mais não seja pela recordação de um rio ou de uma praça que, os teus braços Coimbra, são um cais condenado onde se regressa sempre.
Coimbra tem personalidade de um duplo. Quer dizer: faz o papel do tipo que não é a estrela do filme, mas é imprescindível para rodar as cenas mais perigosas, arriscando as costelas e a carne sem que no final seja convidado para a sessão de autógrafos. No passado acredita-se porque foi jovem e indestrutível, envolveu-se em brigas monumentais e venceu sempre. Mesmo quando foi derrotado. Quem souber escutar vozes e comportamentos, aplaca o saudosismo de quem gosta de contar histórias. O lugar ao sol que muitos procuram pode não estar aqui, pacificamente, à sua espera. Não é como um tipo que imigra para Antuérpia, encontra meia dúzia de judeus com quem não se dá, trabalhos baratos que, sem grandes alternativas, aceita para pagar o quarto, as refeições e tem a noção clara de ter sacrificador algo que deixara para trás quando decidira partir, porém, aguenta até ao fim esperando que a sorte lhe sorria um dia. Nunca é tão linear para quem chega, nem tão dolorosamente patriótico para quem cá nasceu e cresceu.
Coimbra podia ser apenas capa de um disco em vinyl da Amália. Uma fotografia tirada sobre a ponte mostrando mulheres lavadeiras entretidas a esticar mantas e lençóis na areia das pequenas ilhotas, das quais o Mondego se escondia há muitos anos atrás quando ninguém lhe impunha ser poderoso. Se Coimbra fosse banhada pelo oceano, seria uma viúva por quem cantariam guitarras solenes aos barcos de partida para preservar a saudade eterna de uma mãe ou de uma puta amante.
Coimbra é uma conversa por terminar que se tem com alguém pela madrugada adentro, quando as grandes ideias surgem mais facilmente. É como permanecer sentado nos minutos seguintes, no mesmo banco de jardim onde ela esteve sentada por nós, até se ter cansado de esperar e ter partido.
Coimbra não tem estradas planas que permitam percorrer de bicicleta a distância mais curta entre dois lugares, mas tem velhos a vender o Borda D`Água. Em Agosto pode ser uma experiência devastadora e solitária, mas quando chove, o cinzento dos finais de tarde poderia muito bem ser o recolhimento mais afável e constrangedor de todos os lugares, se possuísse aquele cheiro característico a terra molhada que nunca mais existirá nas cidades. Certa tarde em Coimbra ocorreu-me que devia haver mais homens com nomes que lembrassem algo parecido a alguns títulos de filmes como, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia ou Os Duros não Dançam. Machos sensíveis. Serenos. Capazes de explodir em furiosas lideranças. Inspirando um misto de temor e respeito nos outros homens e, ao mesmo tempo, sofrer até à morte pelas mulheres que os amam. Capazes de tudo sem que fossem postos em causa.
O meu avô paterno era assim. Chamava-se Leonardo. Foi ele a razão de eu para cá ter vindo viver um dia.

28/06/05

LADRÕES!, por Denunciador Implacável

Aqui há tempos, roubaram esta ideia:







Agora, roubaram esta:








São BURROS porque pensam que não serão descobertos, são LADRÕES porque usufruem do trabalho alheio. Ficarão Impunes? (a página já não está on-line)