24/05/06

A Epopeia Americana, parte 5ª: «Apocalypse Now», ou The End. Por Mangas

Introdução - O livro de referência ao filme de Francis Ford Coppola é o Coração das Trevas do escritor Joseph Conrad. O argumento foi escrito em parceria por John Milius e o próprio Coppola. Entre o projecto inicial e a obra acabada, ocorreu uma documentada saga de factos e lendas que asseguraram ao realizador a sua conta de inferno privado e transformaram a experiência limite da rodagem do filme num verdadeiro apocalipse dentro de outro. Tal não é para aqui chamado. Até porque à imagem do conceito original, um e outro, já fizeram correr rios de tinta e foram tema de profundas e exaustivas análises. Arrisco-me a dizer que cada sequência ou personagem dariam leit-motif para outros tantos textos iguais a este. A nós, e perante o sagrado, cumpre-nos tão-somente sublimar a paixão e fechar um ciclo – perdoai-nos, desde já, a extensão da prosa. Para tal, alternaremos a interpretação de cariz pessoal entre o livro e o filme com base em Kurtz e Marlow/Willard, porque os entendemos de relevância central no desenrolar da história. A América deve ser vista como cenário de fundo e simultaneamente personagem principal. Poderá ser lido ao som de Run Through the Jungle, dos Creedence Clearwater Revival.

Kilgore: Se eu digo que é seguro surfar nesta praia, é porque é seguro surfar nesta praia! Eu não tenho medo de surfar aqui e vou surfar nesta merda deste lugar todo! Apocalypse Now é um filme de helicópteros. O zumbido metálico das hélices em slow-motion sonora são o palpitar angustiado de um coração que perdeu o rumo, prestes a desferir um ataque mortal que nos tira dali para fora, do inferno para os céus, dos corpos esfacelados para o azul sobre os arrozais vulneráveis e pacíficos. É um filme sobre a América dos símbolos, desde as coelhinhas Play Boy ao surf, passando pelos The Doors à marijuana. A bestialidade colectiva e individual inerente a um campo de batalha, os abismos da alma humana e, a selva, são paradoxos, contemplações estéticas e analíticas em torno de um rio e o barco que o percorre naquela que é a mais perturbadora viagem ao fulcro da esventrada nação Americana no auge da guerra do Vietname.

Marlow: Mas a selva acabou por denunciá-lo e vingar-se terrivelmente dele e da invasão fantástica. (...) Ecoou muito fundo, porque o sr. Kurtz estava oco... O Coração das Trevas é um grande livro. Um dos melhores! De escrita delicada, bela e visceral. Quando estamos perante ele a primeira vez e não sabemos em que direcção nos empurra a corrente das palavras, a suspeita de que algo não bate certo com Kurtz instala-se logo na pág. 22 ao lermos: «Só ele manda mais marfim do que todos os outros juntos...» Há ali método. Compulsão. Obsessão. Génio. Não é apenas mais investimento do que os outros, não. Na África profunda daquele tempo, tamanha produtividade só poderia render dividendos se sustentada por processos, lógica e determinação, logo, a filosofia de Kurtz deveria obedecer a um plano para além da subjugação pela força, pelo poder. A explicação é-nos concedida muito mais tarde pelo próprio Marlow: «A questão estava em ele ser um homem de qualidade, e entre todos os seus dotes predominar um, ligado ao sentido de efectiva presença, que era o talento de falar, eram as suas palavras – o perturbante dote de expressão, o estonteante, o iluminante, mais exaltado e também o mais miserável, a palpitante corrente de luz ou o ilusório fluxo extraído ao coração de uma indevassável treva.» O Kurtz de Joseph Conrad, é um indivíduo ambíguo, complexo, dotado para as artes, líder nato, íntegro mas perigoso o suficiente para se auto-exilar das convenções colonialistas do Império. Por isso tomba e no ponto de ruptura, toca o abismo sem remissão.

Fotojornalista sobre Kurtz: O homem tem uma mente lúcida, mas a sua alma está louca! Noutro paralelo, a primeira imagem que nos é dada a testemunhar sobre o Kurtz de Coppola, é a sua voz. «Vi um caracol a arrastar-se sobre o fio de uma navalha. É esse o meu sonho. É esse o meu pesadelo. A deslizar, a escorregar no fio de uma navalha... e sobreviver...» A gutural nasalação de Brando gravada numa cassete. Pausada. Sonâmbula. Num arrastado timbre de lucidez demencial e convicção trágica. Willard (Martin Sheen), apercebe-se que aquele não é um homem qualquer. Em nós espectadores, cresce a suspeita convicção de que a ténue linha que enjaulava a loucura, foi violada – o fascínio é completo! Se confrontado, por exemplo, com Ringo Kid, o herói onde Ford sustenta o nascimento da nação, e assumindo as convicções diametralmente opostas de ambos, sobra-nos a esperança de um e a desilusão de outro. De comum, ambos são produtos da mesma pátria, a América mãe democrática da ilusão e do desencanto, da construção e da destruição inapelável de homens e sonhos, do nascimento à morte. Equação trágica esta a de uma nação que alimenta filhos e, de forma voraz, se alimenta dos irmãos dos filhos como se fossem bastardos. Será este Kurtz/Buda/Brando a América gorda, sem ideal, sem futuro, sem dignidade e sem moral, ou o único a possuir terrível esclarecimento e pragmática lucidez no meio de toda aquela insanidade?

Chef: Eu sou de New Orleans e fui criado para ser um grande saucier! Internamente, na década de 60, a América geria a questão racial, os confrontos étnicos nas grandes cidades, os sucessivos ataques de corda e archote do KKK aos activistas dos direitos humanos no Mississipi. E quando Lyndon Johnson acalentava o sonho das reformas sociais capazes de construir a Grande Sociedade, o confronto armado no Vietname rebentou-lhe nas mãos – a guitarra de Hendrix não sangrava o Star Spangled Banner apenas fora de casa. Longo caminho tiveram de percorrer Ringo e Dallas na diligência da esperança, os Jods na velha camioneta do desencanto, Dennis Hopper e duas gerações dos Fonda nas Harleys ao vento, o Capt. Kilgore nos helicópteros todos poderosos sobre a guerra do absurdo. A cavalaria que dominou o deserto do Arizona com carabinas de repetição, levou um século a conquistar os céus do Vietname com napalm, naquela que foi a maior derrota da história expansionista americana. Do Monument Valley à terra queimada de Saigão. Das raízes à epopeia fracassada da América no Mundo exterior

Willard: Uma parte de mim tinha medo do que iria encontrar e o que iria fazer quando lá chegasse. Eu conhecia os riscos, ou imaginava que os conhecia. Mas o que eu senti com maior intensidade, e se sobrepunha ao medo, foi o desejo de o confrontar. Mas há sempre uma metáfora. A própria América é uma metáfora poderosa de estrelas azul cintilante e listas cor de sangue. Cinco homens num barco subindo o rio Nung em busca da ovelha tresmalhada do rebanho. Neste tempo de matança, quer os perigos inerentes à viagem, quer as deambulações em torno da (ir)racionalidade da operação e da máquina que a sustém, são sinais claros das trevas em vigília e do seu território, físico/material e emocional/espiritual - a selva e o coração, o corpo e a mente. Kilgore (Robert Duvall), é provocação externa às manifestações pacifistas de Washington, o belicismo devastador do Uncle Sam unido por laços de afecto com a Morte com a qual não faz concessões nem prisioneiros. «Chalie don`t surf!» e Wagner são personal statements de patriotismo absolutista e grandiloquência psicopata. No mercy! e estilo, de mãos dadas na vingança de Custer. “Kill” em “gore” operático. Por oposição, Willard é a consciência do Capitão, ou o que resta dela e da sua contrição de pecado. E é a descoberta de si mesmo ao encontrar Kurtz – o rosto da loucura comum – o que transcende a personagem de Willard. Na realidade, ele foi porque o empurraram, porque lhe deram o treino e a prática da caça ao homem, porque se ficasse a única coisa que tinha como adquirida era um lar que já não lhe pertencia na América que perdera, um punho cortado contra o seu próprio fantasma reflectido e... «Saigon... Shit... Im still in Saigon...». Quanto a Kurtz, à sua maneira, foi um David Livingstone green barret que lia T. S. Eliott, o missionário filmado na penumbra que superou a Bíblia pela M-16, destruiu os inimigos pelo culto da guerrilha e difundiu o evangelho da aniquilação como factor imprescindível de sobrevivência, adiantando-se, pelo processo, à História com a qual aprendera que a força mobilizadora que adora a um Deus é tão mais eficaz quanto sangrenta; Willard que lhe foi no encalço, confere-lhe a revelação ao mundo, como Henry Stanley antes dele na busca pessoal de um objecto, o espelho e a metamorfose, o encontro e a resolução, o carrasco e o assassino, na essência, a mesma América unida pelo mesmo destino – a obrigação de matar!

Kurtz: Se eu tivesse dez divisões daqueles homens, os nossos problemas aqui desapareceriam num instante. A abordagem de Coppola ao romance de Conrad, é em muitos aspectos, tremendamente fidedigna e de transcrição, como o retrato do primitivismo nativo no ataque com setas ao barco. O desenlace final, contudo, é proposto de forma estruturalmente diferente pelo cineasta americano. O Marlow de Conrad subiu o rio com a intenção de trazer Kurtz de volta a casa. Tal propósito revelou-se impossível de concretizar e empurrado pela força dos acontecimentos que o ultrapassaram desde o primeiro encontro entre ambos, regressa à «cidade sepulcral» com uma maço de cartas e a fotografia da Prometida. De tudo o que ficou após esse encontro emocional entre Marlow e a rapariga, prevalece a imortalização de Kurtz após a morte, «Por isso permaneci fiel a Kurtz até ao último instante, ou para além dele (...)»; e perante a insistência dela em lhe repetir as suas últimas palavras, Marlow, por instantes breves, domesticou «O horror! O horror!» - as verdadeiras últimas palavras de Kurtz que ainda lhe ecoavam na mente - e fabricou a memória: «- A última palavra que ele disse foi – o seu nome.» Por sua vez Willard, ao contrário de Marlow, subiu o rio com o propósito específico de eliminar Kurtz. Em Apocalypse Now, Coppola subjuga a imortalização de Kurtz ao ritual do sacrifício. A entrega sem resistência aos golpes de machete, a queda digna do soldado às mãos de outro soldado, «Tu não tens o direito de me julgar... Tens o direito de me matar...», dir-lhe-á Kurtz. West Point tombada por terra às mãos de um ex-operacional da CIA. A casa dividida. Abel e Caim. Ou o inimigo interno quando há algo de poder no meu Reino. Missão cumprida para ambos. Dessa forma, a solução encontrada por Coppola para o final do filme... é nenhuma. Quer dizer, o factual é tragicamente harmonioso e, o após, é de múltiplas leituras. A sucessão no trono não tem retorno quando após o abate de Kurtz, Willard lança por terra o machete e é prontamente imitado pelos nativos – os pacifistas de Washington teriam rejubilado!

Willard: Um dia esta guerra vai acabar. E isso vai ser óptimo para estes rapazes do barco. Não procuram nada mais do que um caminho para casa. O problema é que eu estive lá e sei que esse lugar já não existe. Willard, como a América dos veteranos, não será nunca um integrado social, como tão pouco foi soldado de pelotão. Nunca assistimos ao seu regresso ao lar divorciado, mas talvez o encontremos nas canções de Bruce Springsteen sobre os desempregados das fábricas de aço na Pennsylvania ou os homeless de New Jersey. Jamais o reencontraremos na pele de super-herói Rambo na cruzada dos mísseis de Reagan sobre a Líbia, dando voz ao “America Is Back!”; mas talvez voltemos por ele com O Caçador, de Michael Cimmino. Com o testamento de Kurtz numa mão e Lance o surfista na outra, como se conduzisse uma criança a quem mostra um novo rumo após a expiação do Mal, o ecrã fecha-se com a sua partida pelo rio que o trouxe. Para trás fica o fim e o começo da última viagem. São sons surrealistas de sintetizadores metálicos, frios, arrepiantes e desconexos que completam o final da banda sonora no desaparecimento de Willard por entre a chuva e a bruma do rio. O mergulho final nas trevas, sucede à abertura explosiva de verde, azul, luz e chamas com que começou o filme. Quase nos apetece ir em busca, outra vez, da voz de Jim Morrison para atenuar o desconforto na cadeira.

This is the end, beautiful friend. This is the end, my only friend, the end. Of our elaborate plans, the end. Of everything that stands, the end. No safety or surprise, the end. I'll never look into your eyes...again.

18/05/06

Jornalismo, isto? por Valhamedeus

O nacional-parolismo não cessa de surpreender. Agora, atingiu novos cumes esquizofrénicos: o Barça, ontem, sagrou-se pela 2ª vez na história campeão europeu. Um grande jogo, com grandes exibições e muita emoção. os jornais portugueses: A BOLA: 1ª página a toda a largura com a eventual vinda de Eriksson para o SLB. RECORD: 1ª página com o balneário (sic!) a dizer que quer o Rui Costa no SLB aos 34 anos!! O JOGO especula com o novo treinador do SLB. Num cantinho, metem uma chamada discreta: Deco (sic. Meu Deus, não é o Barça, não é Ronaldinho, é o discretíssimo Deco) campeão pela 2ª vez! Não há vergonha nos jornais? Não há limites? Qualquer burro pode fazer 1ªs páginas?

14/05/06

A Epopeia Americana - Parte 3ª: «As Vinhas da Ira», de John Ford. Por Henry Bond

Depois d’ A Cavalgada Heróica (1939) e após a realização de uns filmes menores, John Ford adaptará em 1940 o romance de John Steinbeck, As Vinhas da Ira, convidando Henry Fonda para o protagonizar. Fonda, sendo juntamente com Wayne um dos preferidos de Ford, não deixa de ser o contraponto do herói épico americano, estatuto que Wayne assumiria a partir d' A Cavalgada Heróica. Mas, também do ponto de vista ideológico, o conservadorismo de Wayne se pode contrapor às preocupações sociais e ao intervencionismo político de Henry Fonda. Por estas razões, quando Ford adapta a obra de Steinbeck, Wayne está naturalmente fora de questão. Henry Fonda é a escolha acertadíssima, depois de no ano anterior ter desempenhado o papel de Abraham Lincoln (bíblico e épico nome este para um fundador da América) num filme realizado também por John Ford.

A família Joad busca os laranjais da Califórnia no épico de John Steinbeck, de claras ressonâncias bíblicas. Os Joads são um clã, à maneira das tribos de Israel, vivem na terra, possuem uma identidade construída sobre a ideia de territorialidade. Estamos nos anos da Grande Depressão, os bulldozers, ao serviço das grandes companhias financeiras, executam as hipotecas e tomam conta da terra. Desfaz-se a relação telúrica, vital, entre o homem e a terra, o que causa a tragédia maior: o abandono da casa e o desagregamento da família. A razão do abandono é forçada. Não se trata de um imperativo ético, ou de um esforço de conquista. Não é um resgate por razão de honra, nem uma cavalgada heróica. Fonda não é Ulisses nem Ringo Kid. N' As Vinhas da Ira o abandono da terra resulta de uma situação de necessidade extrema. O clã Joad é expulso do Oaklahoma, como tantos outros – oakies –, olhados com desprezo e desconfiança por onde quer que passem, como miseráveis sem terra e sem futuro, despojados do seu passado, com a identidade perdida. O pai Joad não assume o papel abraâmico de patriarca que lhe competiria. Essa função é desempenhada pela mãe. A mãe é uma fantástica personagem que lembra Brecht ou Gorki, o que fará Steinbeck um dos alvos do McCartismo. Steinbeck logra nesta personagem uma admirável síntese entre o paganismo primitivo matriarcal e pré-bíblico, a evocação de um poderoso símbolo de referências comunistas e o marianismo cristão. Para lá da ideologia e da fé, para além até da blasfémia e da política, a Mãe Joad cuida da família, alimenta-a e mantém-na unida, protege-a e compreende-a. Ainda que Rose of Sharon, a filha, esteja grávida e a redenção pelo nascimento anunciador de um tempo novo na Califórnia da abundância se adivinhe desde o início na protecção que a Mãe Joad constantemente lhe reserva, a verdade é que o final desilude completamente essa promessa messiânica. Não é um Nascimento que salvará os Joads, pois do ventre de Rose brotará um nado-morto. Um cadáver na Califórnia da desilusão, a família desagregada pela morte, pela deserção e pelo desespero. Sem casa e sem carro. Os Joads, desesperados e destroçados são uma metáfora cruel de uma civilização ameaçada. A América, depois de conquistado o Oeste, depois de se afirmar com Estado, confronta-se agora com a maior crise da sua História. Se Ford deu à América o seu herói épico, John Wayne, dar-lhe-á agora, o seu reverso necessário, Henry Fonda no papel de Tom Joad. De facto, é a este que caberá a missão redentora. Ford já mostrara, na Cavalgada Heróica, que a redenção não é messiânica. A criança que nasce durante a viagem através de Monument Valley é uma menina, um anti-messias portanto. Símbolo prospectivo é certo, mas sem qualquer valor salvífico. Agora, n’ As Vinhas da Ira, Tom, apesar de homicida, conserva a integridade moral, como é próprio das personagens de Ford. Como a prostituta, o Ringo Kid, o jogador ou o médico bêbedo. Tom, contrariamente a Ringo Kid que logo se assumiu como centro da narrativa, permanece num registo secundário mas que se adivinha de importância fundamental e eminente numa tensão narrativa que se desenvolverá até ao célebre monólogo que antecede a sua despedida. Tom é o portador da via da redenção. Pela revolta, pela ânsia de justiça, pela sublevação.

No filme de Ford, Tom vinga a morte à paulada de Jim Casey, um antigo pastor desencantado que retoma a esperança quando se envolve na defesa dos trabalhadores braçais. Casey é um profeta da justiça social, o seu novo múnus é político, depois de desiludido com a função pastoral. A sua morte é vingada biblicamente por Tom Joad que mata à paulada o assassino de Casey. Olho por olho. Mas o crime de Tom não lhe fere a dignidade, pois não se move por vingança. É justo, mata em nome de um ideal e o crime adquire legitimidade moral. Tom tem que fugir. Separa-se da mãe Joad num parto doloroso e de um simbolismo poderosíssimo. A Mãe oferece o filho à missão redentora. Este momento, em que Tom finalmente assume o protagonismo adivinhado desde o início e se descobre na sua missão redentora é, no filme de Ford, o momento chave em que Fonda profere as palavras épicas: “I'll be ever'where - wherever you look. Wherever there's a fight so hungry people can eat, I'll be there. Wherever there's a cop beatin' up a guy, I'll be there. I'll be in the way guys yell when they're mad - an' I'll be in the way kids laugh when they're hungry an' they know supper's ready. An' when our people eat the stuff they raise, an' live in the houses they build, why, I'll be there too.”

Volvendo ao livro de Steinbeck, o que resta da família, já sem a velha camioneta, essa espécie de nau dos argonautas da Route 66, deambula pela estrada até que a intempérie os obriga a procurar abrigo num velho palheiro. Aí, desenrola-se a polémica cena final, em que Rose of Sharon, lactante após a perda do bebé, amamenta um velho moribundo, salvando-o assim da morte por inanição. É uma cena patética, facilmente comparável a uma Pietá profanada. O leite, metáfora da abundância bíblica, brota dos seios de uma personagem até então inútil mas que agora se assume como símbolo de fertilidade, depois de frustrada a redenção messiânica.

John Ford, por seu lado, não se limitando a uma adaptação da novela e muito mais consciente do valor épico da gesta dos Joads, deixa partir Henry Fonda na sua cruzada justiceira, e recentra a narrativa na Mãe. Vão os Joads, os que restam, refeitos sob o comando esperançoso da Mãe. Al Joad conduz a carrinha, ambos recuperados por John Ford, pois que no livro, Al vai-se embora e a carrinha imobiliza-se definitivamente avariada na berma da estrada. Ford não quer os Joads a pé pelas estradas da Califórnia. A Mãe profere então a tirada final. Por maiores que sejam as adversidades, “We'll go on forever, Pa. We're the people.” E os Joads operam então o tal salto qualitativo, eles já não são um clã familiar, são um símbolo colectivo, as famílias americanas que, sobrevivendo a todas as provações, vêem agora a estrada esperançosa à sua frente. Ford fecha depois o filme, com a velha camioneta a ir pela estrada fora. É um final à Ford, esperançoso, de sentido oposto ao patetismo bíblico, frustrante e blasfémico de Steinbeck. A América de John Ford é indestrutível, alimentada de um idealismo personificado em Henry Fonda.

12/05/06

De Fátima a Coimbra: uma breve trajectória pela parolice nacional. Por Pequeno Burguês (PBatatum)

Andam as estradas portugueses cheias de peregrinos. Vão para Fátima. Com um prudente e fosforescente colete verde, caminham imprudentemente pelas estradas de Portugal. Pessoalmente, e sem que daí se retire qualquer ofensa, acho lamentável. Primeiro porque é perigoso. A peregrinação atenta contra a integridade física dos próprios e dos utentes da estrada. Segundo, porque é improdutivo. Nenhum bem vem daqui à sociedade. Terceiro, porque entendo a religião na sua dimensão íntima e espiritual. Acho que a fé, ainda que possa e deva ter expressão institucional e social, é essencialmente uma vivência interior que dispensa o suplício exibicionista e a auto-punição corporal. Finalmente, porque acho estas manifestações típicas de uma mentalidade pré-moderna em que a vontade humana se submete ao desígnio da Providência e se torna, desse modo, comprometedor da livre iniciativa e do livre arbítrio, do mérito e da criatividade. Foi contra estes condicionalismos que se fez a modernidade. O mérito individual e a soberania da vontade em vez da subordinação a um desígnio transcendente, o empreendedorismo contra o estaticismo orgânico de uma sociedade sacralizada, o trabalho como via de ascensão social. De preferência o trabalho intelectual, pois que o ofício mecânico era visto como vil. A lavoura era sinal de uma sujeição ao dono da terra. O ofício artesanal era sujo. As artes liberais permitiam as mãos limpas e facultavam a ascensão social, para além de promoverem a mobilidade ascendente pelo exercício do mérito e do trabalho. O mérito individual, bem como a dignidade de um trabalho que já é intelectual e não manual são dois valores que caracterizam sociologicamente a mentalidade burguesa. O desprezo para com a ordem nobiliárquica é outro traço desta mentalidade. Além disso, verberam o clero e a religião que consideram manifestações de obscurantismo, instrumentos de domínio social e obstáculos ao progresso. Encaram a exibição da fé como sinal de atraso e dependência. Este vanguardismo burguês, radical, ateu e jacobino, não tardará a moderar os seu discurso. A razão é política e cultural. Prende-se com aquilo a que os revolucionários chamaram a "traição burguesa". Ou seja, as classes médias, na sua esmagadora maioria provenientes dos estratos médios do campesinato e do operariado suburbano, viram na escola e no estudo universitário um irrecusável processo de ascensão e afirmação social. Almejavam um emprego na administração pública ou nas profissões liberais. Buscavam um ofício que lhes conferisse prestígio social e dignidade intelectual que os diferenciasse do grosso popular. Por isso, ao ódio inicial que endossavam à nobreza e ao corpo clerical, dirigem agora o desprezo e a sobranceria para as classes populares. Ao mesmo tempo, nas esferas mais elevadas, buscam título de nobreza e elegem as virtudes cristãs como modelo de conduta social. Uma nobreza reformada e um idealismo cristão anti-ultramontano. É neste contexto que a Universidade de Coimbra se torna um dos principais meios de ascensão social desta pequena burguesia que procura desesperadamente a realização pessoal pela ascensão social. Basta ler os livros de Camilo e de Eça para se perceber como aos intelectuais este tipo social causava repugnância e era alvo das maiores ironias. O bacharel de Direito é, para Eça mas também para Torga, o exemplo mais ridicularizado de uma mentalidade mesquinha e ensimesmada.
A partir dos anos 60, apesar do Estado Novo, a Universidade iniciou um processo de massificação que encontraria o seu auge nos anos dourados do cavaquismo. Floresceram universidades em todas as esquinas. Este facto, aliado ao crescimento económico, permitiu que as famílias possuíssem os meios financeiros para enviar os filhos para a Universidade. Em Coimbra, retomaram-se as tradições académicas, nas restantes universidades, órfãs de tradição, copiou-se o modelo conimbricense. Os trajes, as praxes e as festividades académicas que antes eram prática de grupos minoritários massificam-se agora a todas as cidades e a todas as instituições. Públicas ou privadas, universitárias ou politécnicas. Podemos dizer que se consumou um processo iniciado a partir da 2ª metade do século XIX, acelerado na República e irremediavelmente confirmado a partir da década de 60.
Estes jovens estudantes, naturalmente, não escondem o orgulho. Eles resgataram séculos de submissão. Eles são a razão de ser do sacrifício das famílias. Os pais não regateiam recompensas. É o carro, os livros, a mesada, a capa e batina, o computador portátil e o que mais calhe. Que a contenção não comprometa o futuro dos filhos. E os pais vão ao Cortejo da Queima, quando a estadia coimbrã se aproxima do final, largar uma lágrima de comoção. Os jovens quartanistas vêm para o espaço público alardear o novo estatuto. Distanciam-se da proveniência social de origem, demarcam-se relativamente ao gosto popular, exibem erudição, mostram os livros e as sebentas, encaixilham o diploma, encadernam as fotografias, mitificam a juventude num culto geracional que os auto-engrandece e auto-glorifica. Constroem uma memória triunfante. Vão ao baile de gala, cópia abastardada dos ambientes dos salões aristocratas. Deixam-se fotografar abraçados a moças trigueiras enfiadas em tules espalhafatosos e que não conseguem ocultar o seu digno estatuto de origem. Basta ver o «Diário de Coimbra» de hoje com o seu suplemento social dedicado ao evento. Fazem álbuns fotográficos que um dia mostrarão aos filhos, bem como os versos e as anedotas. Rir-se-ão, um dia, todos à lareira. O avô, o filho e o neto, uma dinastia de bacharéis por Coimbra! Que lindo é sonhar! O Cortejo é a ocasião para todos os excessos. É uma celebração colectiva, orgíaca, que, pelo excesso etílico e já não pelo excesso místico, como em Fátima, conduz a um êxtase, um adormecer da conscência que torna a experiência única e marcante.
O sonho é que os filhos ingressem na mesma Academia, que triunfem igualmente, numa estratégia de sucessão geracional equiparável à dos burgueses que deixam a presidência do conselho de administração ao filho dilecto. Assim se vence a morte e se conquista um espaço na memória futura. Pelo caminho, dão a mão às meninas da casa Elísio de Moura, numa muito digna e cristã prática pública da caridade, mostrando deste modo que o jacobinismo burguês está ultrapassado e que a síntese com os velhos alicerces da sociedade está retomado. Mesmo que abdiquem das práticas dominicais, das confissões e das devoções mais maçadoras, continuarão a casar pela igreja com cerimónias de arromba devidamente documentadas para a posteridade e a baptizar os pequerruchos.
O Cortejo da Queima das Fitas, visto muitos anos depois, alimenta as saudades. «Saudades de Coimbra»... Ó Meu Deus, as saudades de Coimbra, o Choupal e o Penedo da Saudade... Tornam-se estes lugares-comuns, de um sentimentalismo pacóvio, num traço de identidade desta mentalidade pequeno-burguesa. Perdoam-se os excessos da juventude de uma forma paternalista e condescendente. «São jovens, como nós fomos». Eu acho isto, mais uma vez, lamentável. Que me perdoem os adeptos da farra. Eu não gosto! Gosto da genuinidade do S. João do Porto, ou das sardinhas assadas na rua do Stª António de Lisboa. Gosto da Tomatina despretenciosa e excessiva, embora lá nunca tenha ido. Isso eu gosto.

06/05/06

O SINAL, por Baltazar

O secretário de estado da Educação, Valter Lemos, negou ter assinado o que só ele podia ter assinado. Eu não lhe chamo mentiroso. Recordo os factos. Há poucos dias, os jornais deram conta de um despacho da Direcção Regional de Educação de Lisboa que mandava regressar às escolas de origem os professores que se encontravam destacados noutras escolas desde o início do ano lectivo por motivo de doença devidamente comprovada por certificado médico e com autorização superior. Agora, a escassos dois meses do final do ano lectivo, a DREL considera essa mobilidade ilegal e fundamenta a decisão num despacho assinado pelo senhor secretário de Estado. Ele nega. Se não é mentiroso, então que demita imediatamente, por incompetência, toda a cadeia hierárquica que decretou esta ordem tão disparatada. Recordemos que Valter Lemos, aquando da greve dos professores, fez sair uma nota oficial (terá sido ele?) em que acusava, por grosso e genericamente, os professores de faltarem 9 milhões de vezes por ano! Eu não discuto o número, ainda que seja muito discutível. Acho até que a abstinência dos docentes é um problema e que os prevaricadores devem ser punidos. Não sinto dores corporativas. Mas acho também que cada um, individualmente, deve ser responsabilizado pelos seus actos. Por isso, acho que a atitude do senhor Valter Lemos foi cobarde. Além de demagógica e inoportuna. Porque incluiu todos na mesma suspeita, sem distinções nem respeito pelas situações merecedoras de respeito e porque esquece um facto decisivo: as faltas estão justificadas nos termos da lei! Se não estão, a sede é discilpinar. Se a lei está mal feita, faça-se lei bem feita! Face a isto, a revolta levou alguns sindicatos a lembrar que, no passado político de Valter Lemos, quando fora vereador da Câmara Municipal de Penamacor, perdera o mandato por faltas injustificadas! O senhor Lemos argumentou que não, que pedira a suspensão do mandato, que o não perdera. Preciosismo formal que o salva. Os jornais locais davam conta do contrário, o Presidente da Câmara local veio defender o secretário de Estado cuja assessora é filha do presidente! A história é rocambolesca e indigna. Sigam o link se quiserem. Eu não me ocupo de misérias.
Este mesmo Ministério da Educação anuncia agora uma medida que acha revolucionária e, nas palavras da senhora ministra, a decisão enquadra-se num conceito de acção política que não faz mais do que generalizar as boas práticas observadas nas escolas. Ou seja, o Ministério faz-se um Grande Observador e dá forma de lei às práticas que entende boas. Incrível! Por este peculiaríssimo método, o governo decretou que os professores quando prevejam a ausência devem deixar um plano de aula. Não vou discutir o alcance da medida, nem sequer a sua pertinência ou a sua exequibilidade. Vou apenas lembrar como este minstério navega à vista, improvisando e sem estratégia. Lembro que os despachos sobre as aulas de substituição foram publicados em Agosto e previam que todas as horas de redução, mais a diferença entre as 22 horas lectivas semanais e as 26 horas de serviço, fossem ocupadas em aulas de substituição. Ou seja, um professor com 30 anos de serviço, tendo 14 horas de actividade docente, teria mais 12 horas de aulas de substituição! Os protestos imediatos lembraram ao Ministério que tais despachos transformariam professores em substituidores. Uma espécie de pastores alemães encartados! Os sindicatos lembraram ainda que, nos termos do Estatuto da Carreira Docente, as aulas de substituição, de acordo com a determinação do Parlamento e do Governo eram entendidas como actividade lectiva suplementar, cabendo por isso remuneração extraordinária. Em face disto, o governo recuou e sugeriu que não fossem aulas, mas actividades de substituição, fazendo mais uma vez método do preciosismo formal. Quais? Perguntaram todos. Por exemplo, ler poesia, respondeu a ministra. O ridículo instalou-se e a ministra sacudiu a decisão para os órgãos directivos das escolas. Pouco depois, determinações posteriores dispensaram os professores com 22 horas lectivas atribuídas de prestarem serviço de substituição e, das horas de redução, só metade seria aplicada nestas actividades. Vejam como as ordens foram evoluindo à medida que se iam revelando absurdas. Agora, vem com esta medida que contradiz o despacho inicial e os remendos posteriores. Não são actividades de substituição, não é poesia, voltam a ser aulas. Planificadas pelos ausentes quando prevejam a ausência. Aposto que não vai ficar por aqui. E profetizo. No ensino básico, os alunos apercebem-se já da completa inutilidade de um sistema de substituiçlão que lhes veda o usufruto da escola como espaço de convívio e sociabilização e que supõe uma concepção punitiva e penitenciária da escola. Quando no próximo ano lectivo este sistema for generalizado ao secundário, antevejo vagas de insurreição e indisciplina. E não me venham dizer que são os professores que não querem trabalhar. Eu até peço que me marquem 35 horas semanais no horário. Com duas condições: não me peçam mais nada além dessas 35 e, por favor, deixem os miúdos em paz.
Para concluir, lembro que esta ministra é a mesma que já anunciara o fim dos exames do 12º a Língua Portuguesa aos alunos do ramo de ciências. O escândalo rebentou e o ministério recuou. Este ministério é o mesmo que mandou que as Direcções Regionais elaborassem listas com os nomes dos professores que aderiram à greve. Esta ministra foi aquela que, no início do mandato, proferiu uma das maiores enormidades que já escutei quando, a propósito dessa greve comentou um despacho judicial emitido num tribunal açoriano e que declarava inconstitucional essa elaboração de listas, afirmando sem pudor que os despachos dos tribunais açorianos não eram válidos em Portugal! (sic) Ninguém se indignou. Acharam que era um deslize, uma gaffe, um lapso. Não era. Era um sinal!

Foto: http://www.eb1-cambas.rcts.pt/anossaescola.htm

26/04/06

Chernobyl, por Chernenko

Está bem que os números redondos favorecem as efemérides. E há números redondos para comemorar quando apetece: 1 ano, ou um par. 5 anos ou meia dúzia. 10, 12, 15, 20. 25 anos é um quarteirão, trinta e de 10 em 10. Meio século ou um século inteiro. Ou seja, comemora-se sempre que um homem quiser. A comemoração é sempre interesseira e depende mais da vontade do comemorador do que do facto comemorado. A memória constrói-se. Não se herda. Comemoram-se agora os 20 anos do desastre de Chernobyl, numa altura em que o preço do barril de petróleo bate recordes históricos e em que os governos ocidentais reequacionam a opção nuclear. O terror apocalíptico e os terríveis efeitos de Chernobyl tornam repelente que se considere sequer a possibilidade de pensar a opção nuclear. Ora bem, eu arrisco a polémica e afirmo: A RESPONSABILIDADE DO DESASTRE DE CHERNOBYL RESULTOU MAIS DO REGIME COMUNISTA, ESTALINISTA, TECNOLOGICAMENTE OBSOLETO, CENTRALISTA E CORRUPTO DO QUE DOS PERIGOS INERENTES À PRODUÇÃO DA ENERGIA NUCLEAR. A causa primeira do desastre de Chernobyl foi a natureza do regime soviético.

20/04/06

Pedreiros-livres, por Zé Carpinteiro

Sabe-se pouco da Maçonaria. Pode-se falar mal da Igreja, do Benfica, da tropa, do Presidente, dos deputados, de tudo, menos da maçonaria. Não há humorista que se atreva. Lembro-me que o Herman fez uma vez um número com grão-de-bico, avental, etc. As reacções foram más e não voltou ao tema. É preciso respeitinho. Quem são os maçons? Ninguém sabe, excepto em relação aos que se confessam, que são poucos. Vivemos entre a suspeita e o boato. Não havendo perseguições, não estando clandestinos, porque é que se sabe pouco sobre a maçonaria e os maçons? Porque, primeiro de tudo, a própria natureza secreta, ou discreta como eufemisticamente os maçons se referem a ela, da instituição, é desde logo um obstáculo. Depois, porque a própria história maçónica, particularmente quanto às origens, é algo nebulosa ou misteriosa e, finalmente porque o segredo, contrariamente aos que os próprios afirmam, é essencial a uma organização elitista que gere influências e tece cumplicidades em estratégias transversais.

Quanto às origens, há quem as faça remontar ao tempo do rei Salomão! Não discuto, mas cabe referir dois aspectos: por um lado a mitificação das origens é um procedimento vulgar em todas as instituições, organizações ou nações. Por este processo – afirmando uma raiz remota – se pretende consagrar o carácter intemporal e, por isso, indestrutível de uma dada entidade. Basta recordar como os genealogistas da Restauração faziam remontar a ascendência de Afonso Henriques aos tempos bíblicos. O propósito está claro. Por outro lado, nota-se um judaísmo patente nesta organização. Também isto me parece explicável, pois que muito frequentemente o judaísmo e os judeus aparecem associados à maçonaria. Ainda contemporaneamente o chefe da comunidade judaica portuguesa, Joshua Ruah, se definiu como maçon e amigo do João Soares, maçon assumido, naquela polémica sobre o ouro judaico. A razão da associação entre judeus e maçons deve relacionar-se com a convergência estratégica achada pelos judeus que terão visto na maçonaria uma forma de resistir ao clericalismo, persecutório e totalitarista, do absolutismo. Claro que encontraram no racionalismo laico e universalista da maçonaria um aliado ou, se preferirmos, um espaço óbvio de inclusão e de combate político-social.

Se é discutível a filiação da organização nos tempos salomónicos, já não será tanto encontrar as raízes remotas da maçonaria nas corporações medievais, particularmente nos pedreiros. A própria designação (maçon ou pedreiro-livre, como também se designam) permite admitir essa possibilidade. E é crível. Os pedreiros medievais eram donos de um saber indispensável e prestigiado. Adquiriram liberdade individual e de pensamento à custa desse estatuto num tempo em que a sociedade se organizava organicamente num modelo estático e sacralizado, definido em ordens. Os maçons escaparam à rigidez asfixiante dessa hierarquização social à custa do seu saber especializado e indispensável ao clero e aos senhores feudais. Daqui se retira algo de óbvio: quem adquire um privilégio de liberdade numa sociedade onde ela não existe, tende para a conservação do saber que lhe garante esse estatuto, evitando a propagação da arte que dominam (se o saber se generaliza, o benefício esvai-se), organizando-se em corporações que regulam a actividade, dirimem conflitos, limitam o acesso à profissão e transmitem esses conhecimentos sob a forma de segredo profissional (ordens profissionais, diríamos hoje). Talvez que aqui tenha nascido a natureza secreta, elitista e corporativa da maçonaria. Ainda hoje, recrutam preferencialmente profissionais liberais, bem como indivíduos que detenham um estatuto socioprofissional relevante, de tal modo que a sua colaboração possa ser útil em termos de influência social e intervenção política. Um funcionário público está limitado na sua intervenção pelas regras da hierarquia administrativa (Salazar quando proibiu a maçonaria em 1935, aditou à proibição a obrigatoriedade de todos os funcionários públicos jurarem solenemente no acto de posse não pertencerem a nenhuma organização secreta), da mesma maneira que um trabalhador não especializado não apresenta qualquer utilidade.

A maçonaria começou no entanto a ganhar grande destaque político no século das Luzes. O racionalismo crítico, personalista, universalista, terá derivado do espírito maçónico ao mesmo tempo que definia as regras da sua organização. Creio datarem desta época os documentos reguladores da maçonaria, a constituição de Andresen. Voltaire e os enciclopedistas, ou os iluministas portugueses, com Pombal à cabeça, eram maçons. Mozart também compôs música maçónica. É o século da laicização da ordem social e política, é o século da afirmação do espírito burguês empreendedor, laico, anticlerical, racionalista e individualista. A Revolução Francesa adivinha-se, em grande parte foi obra de maçons, tal aliás como a independência da América.

Distinguem-se, desde estes tempos, duas tendências maçónicas: o rito escocês e a franco-maçonaria, derivada da Revolução, particularmente do partido dos jacobinos. Se a Inglaterra se pode gabar de nunca ter tido um regime absolutista, de ter conservado um regime liberal e parlamentar, em grande parte o deve à tradição das suas elites maçónicas, pois que sempre se constituíram como obstáculo à implantação de uma tirania régia, salvaguardaram o regime parlamentar, evitaram a clericalização do regime, fugiram à alçada da autoridade papal e propugnaram por uma liberdade de iniciativa e de pensamento que não só manteve a vitalidade social e económica da Inglaterra como preservou as elites e as impulsionou, permitindo que a Inglaterra se afirmasse como a grande potência mundial no séc. XIX.

A influência da realidade inglesa na Revolução francesa é óbvia. A franco-maçonaria tomou, porém, rumo diferente: tem um teor anticlerical, jacobino, intervencionista, político-partidário e é menos especulativa. O teísmo do rito escocês é, para estes jacobinos fanáticos, substituído por uma convicção profunda que associa a religião e a Igreja ao obscurantismo. A situação distinta, entre o processo francês e o inglês, também assim o forçou. A franco-maçonaria tomou a dianteira da Revolução, cometeu excessos, e por isso angariou ódios, tendo-se formado uma verdadeira lenda negra acerca da maçonaria, em grande medida infundada. Chegou a falar-se da grande conspiração, de um grande complot (abade Barruel) para derrubar a Igreja e a aliança entre o Trono e o Altar, relação que era apresentada como o fundamento da civilização!

A verdade é que as invasões francesas disseminaram o ideal maçónico por toda a Europa. Em Portugal, a francofilia deve entender-se em correlação com o ódio ao inglês, a Beresford particularmente. Gomes Freire de Andrade combateu com Napoleão na frente russa, veio, era maçon, ensaiou a primeira tentativa de implantação de um regime liberal e acabou no cadafalso, sentenciado por Beresford. Ganhou-se um mártir e curioso é ver como ainda hoje muitos maçons adoptam o seu nome como nome simbólico (o professor Oliveira Marques, também ele maçon, tem um bom dicionário da maçonaria).

Durante o processo liberal não há praticamente um único político de destaque que não fosse maçon. A revolução de 1820 nasce inclusivamente numa loja maçónica, ou algo assemelhado, a junta do Sinédrio do Porto, presidida pelo Manuel Fernandes Tomás (juiz) e onde se contavam juristas (os juristas são hoje o que os pedreiros foram outrora), militares, financeiros, médicos, professores, etc. A união das elites numa organização deste género gera cumplicidades e estratégias que se sobrepõem à orgânica do aparelho de Estado. Um regime que tenha as suas elites sujeitas a uma estrutura clandestina e conflituosa com a orgânica do Estado, está condenado. Em 1820 não se disparou um tiro! Lógico! Destes processos usados nasce a imagem conspiratória, subterrânea, secreta da maçonaria. Mais tarde algo de semelhante se repetiria com a Carbonária durante a implantação da República. Os regicidas de 1908 eram carbonários, dissenção da maçonaria que adoptou meios de intervenção directa e violenta, aliás reprovados publicamente por muitos maçons. Na república era quase tudo maçon, foi o triunfo final. E aqui surgiu a maior crise da organização: popularizou-se! Recordo de uma vez ter lido um livro, já não recordo qual, onde se citava um empregado de balcão de um estabelecimento de Lisboa que louvava as virtudes da maçonaria dizendo como nas reuniões tratava o patrão como irmão! O caos gerado pela primeira república degenerou em descontentamento generalizado e consentiu a reacção católica e clerical. Curioso é como muitos maçons arrenegaram à maçonaria e se renderam a Salazar: Carmona é o mais citado (falou-se inclusivamente num pacto secreto entre Salazar e Carmona, um arregimentava o apoio do clero e outro domesticava as elites maçónicas), mas o mais interessante é Bissaya Barreto. Mas José Alberto Reis ou Sidónio Pais também são apresentados como traidores. Mas isto é o que os maçons não gostam de ouvir: uma parte importante das cúpulas maçónicas aderiu ao Estado Novo e ao Salazrismo. É uma verdade inconveniente, para quem gosta de fundamentar a sua identidade no amor à Liberdade. Mas é fundamentada em factos. Há contradições óbvias, mas há seguramente explicações.

A maçonaria passou à clandestinidade, e os velhos republicanos do Partido Democrático ou se exilaram, ou conspiravam. Mário Soares nasce dessa tradição republicana, laica e socialista. Embora negue pertencer à maçonaria. A candidatura de Norton de Matos foi o grande momento da oposição maçónica. Voltados os tempos da clandestinidade, a organização voltou à natureza secreta e clandestina que a define e com a qual se sente bem.

Com o 25 de Abril, readquirida a liberdade, a maçonaria evita popularizar-se, mas não pode manter-se secreta. Não faz sentido em democracia. Daí o terem escolhido o rótulo discreta. Mas a verdade é esta: ou possuem um poder de intervenção à margem do escrutínio público e isso é ilegal e ilegítimo, ou são simples associação filantrópica, o que não justifica tanto secretismo.

05/04/06

Edital, por Assinatura Ilegível

Declaro abertas as inscrições para a 2ª edição do Grande Torneio de Golfe da RS.T. A prova realizar-se-á durante o mês de Abril, no campo de Montebelo. Podem inscrever-se todos os membros da RS.T, admitindo-se também os não membros desde que propostos por dois membros de pleno direito. Devem apresentar um handicap válido à comissão técnica, isto é, o Mau. Este encarregar-se-á de elaborar a respectiva lista de handicaps, bem como será responsável por todos os pormenores técnicos. Será ainda a instância decisora em matéria de aplicação e interpretação de regras. Não há recurso das suas decisões.

O primeiro prémio é um «Pêra Manca» tinto de 2001, com a condição de o vencedor o colocar na mesa durante o jantar que se seguirá ao torneio.

Junta de Freguesia da RS.T, tantos do tantos etc.

O Presidente da Junta

(Assinatura Ilegível)

PS. O Bandosgas deve jogar com o handicap 28, tal como o Mendigo, pedinchador de handicaps.

PS2. Admitem-se babby-sitters ao torneio.

03/04/06

O livro do Cão, por jaime-a-dias

O livro do Cão já provocou uma discussão com a minha mulher. Muito apreciei e invejo o excelente fim de semana dos porcos farristas abaixo relatado, mas comigo, logo no dia em que foi comprado, ainda mal o tinha aberto (apesar de já conhecer em grande medida o que lá está, por intermédio do blog do autor), ainda com a tinta fresca do homem a pingar do autógrafo, provocou uma crise doméstica, a porra salvo seja do livro. Tudo se resolveu entretanto a contento, nas trincheiras domésticas, mas o que interessa aqui é que o livro novo do Daniel fez logo merda. Salvo seja. Mal nasceu e já está a dar sarrabulho! Ora quanto a mim isso só pode ser bom sinal para um livro. E para um autor. O livro, além de ser a escrita do Daniel Abrunheiro, é a sua vida. É uma narrativa a tocar nas franjas da existência, nos limites dualistas da experiência humana e nas margens das cidades abundantes e "urbanas", passe a redundância. É a sua poética existencial, donde transpira intimismo por todos os poros (o poeta). O Abrunheiro tem um estilo, um estilo literário que aprimora e acalenta mais ou menos sistematicamente, um registo que lhe é próprio e que o distingue. E que é controverso. Para uns abusa das metáforas, para outros usa uma linguagem exageradamente “complexa”, difícil, rebuscada ou congórica (porque rocócó é uma palavra que cheira mal, rocócó faz o meu puto nas fraldas), para outros brinca demasiado com as palavras e torna aquilo incompreensível... Quanto a mim, vejo ali uma escrita viva, cuidada e criativa: uma brincadeira muito séria - em oposição a muitas outras brincadeiras editoriais sem seriedade nenhuma que se publicam e vendem aos milhões por esse mundo fora. Uma abordagem diferente e arejada ao português, às palavras em português. A mesma postura estética que vejo com maior ou menor mestria em autores como Mia Couto ou Lobo Antunes (as crónicas de imprensa deste último homem, para traçar melhor a pertinência da referência perante o Daniel Abrunheiro, também cronista de imprensa são para mim brilhantes momentos literários: luminosos). E no essencial há ali liberdade à solta, há clara e inequivocamente poesia, da boa, no esgrimir solto das letras e das parábolas. Como talvez haja na vida do autor, eventualmente também controversa, não sei, não interessa. Mas há ali sem dúvida, na sua obra, nervo criativo a pulsar: um estilo original e cativante, uma irreverência madura e apaixonada e, além do estilo e da forma, sente-se a presença distintiva do autor em cada linha, em cada história ou sentir relatados. Umas vezes terno, outras raivoso, mas está lá sempre, entranhado naquelas palavras, sem grande distanciamento relativamente ao objecto da sua arte, e dando-lhe um cariz de certa forma auto-biográfico. E eu, como gosto de conhecer os demónios dos outros e como também gosto de escrever daquela maneira, gosto muito das prosas do Senhor Cão, identifico-me com a causa e com a forma. E aconselho onde e quando posso e lembro. A minha mulher, por exemplo, a meio da discussão, que entretanto derivou para outras questões da vida, prometeu que ia ler mais e melhor um bocadinho para “tentar gostar”. Entretanto fico à espera da publicação aqui no porco, "para breve", da igualmente brilhante e inspirada dissertação do deslumbrantissimo e ilustradissimo Vice aquando do público e solene Lançamento do Livro, texto que alguém prometeu, ouvi distintamente à saída da Casa da Cultura, “por aqui no porco, em breve”. É documento a merecer publicidade.

02/04/06

A Perfect Day, por Felizardo

Serei telegráfico: 3 amigos em Montebelo às 10:00. 40 pontos em 96 pancadas. Tondela às 16:30 numa esplanada típica. Velhos sentados no muro da igreja a ver os carros passar. Mais velhos numa mesa escondida a jogar à batota. 4 amigos a uma mesa. Aos 3 iniciais juntou-se um Batuta 2001. 94 pontos da «Wine Spectator». Punheta de bacalhau, ossos, chispe e entrecosto. Batuta 2001. Intensíssimo, prolongadíssimo, cor bonita e cerrada. Aveludado, com taninos muito bem arredondados. Madeira discreta e bem integrada. Desdobram-se na boca os sabores que vão das ervas silvestres (urze e esteva, com algum eucalipto) até aos aromas quentes do cacau. Prolongado. Os grandes vinhos tornam grandes os bons momentos.

18/02/06

14/02/06

O Islão, esse Conhecido, por Burro Anónimo

Quem gosta de certezas fixa-se no horizonte limitado do presente. Quando recorre ao passado é de modo interesseiro. Quando não interessa, planta o esquecimento, banaliza a História. O estudo do passado leva à relativização das nossas certezas, tomamos a linha em vez do ponto. Por isso, o desprezo pela História é tão típico das sociedades do esquecimento. Estamos a um passo da discricionaridade, da subjectivação total do mundo social, cada um diz o que lhe apetece e tudo é válido.
Vem o prolegómeno a propósito de um dito e redito, aqui na acesa polémica do Tapor a propósito do Islão e dos cartoons, segundo o qual nós dispensamos a atenção e o estudo necessários ao nosso passado islâmico. Bastar-me-ia a imagem colocada como ilustração ao post para negar, definitiva e categoricamente, este disparate. Contextualizemos: Em 2001, na sequência do enorme êxito da edição da «História de Portugal» dirigida pelo prof. José Mattoso, o Círculo de Leitores decidiu prosseguir com um plano editorial contemplando uma série de publicações e colecções de temática histórica. Encomendou a redacção e direcção dos trabalhos aos mais proeminentes académicos que publicaram obras de referência nos mais diversos domínios: da história militar à história da arte, a expansão portuguesa, a história da história em Portugal, a história dos municípios e do poder local. Académicos de primeiro plano como César de Oliveira, Paulo Pereira, Reis Torgal, entre outros, editaram obras incontornáveis para a historiografia portuguesa contemporânea. Não estamos pois a falar de uma edição qualquer, nem de uns quaisquer autores, nem de uma editora de vão de escada. Ora, foi neste contexto que o Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, uma das melhores e mais prestigiadas instituições nacionais de ensino superior, sob a direcção de Carlos Moreira de Azevedo, coordenou a publicação de um «Dicionário de História Religiosa de Portugal». São quatro grossos volumes, com mais de 500 páginas cada um, em bom papel, ilustrados e encapados. E é nesta obra que em meia dúzia de linhas se despacha uma entrada sobre o islamismo. Não, não é um assunto menor. O Islão chegou aqui em 711 e só foram expulsos nos finais do séc. XV. Isto é negligência, não estamos a falar de um tema qualquer. Não é possível fazer uma história religiosa de coisa nenhuma, muito menos na Península Ibérica, sem um extensíssimo artigo sobre o Islão. E por fim, espero que sem ironia, remete-se o leitor para o artigo sobre as cruzadas. Faltaria acrescentar: e é se quer!
Dir-me-ão que é um caso isolado. Não, não é. Não só se repete, como é sintomático. A História de Portugal dirigida por João Medina, em 20 volumes de cerca de 500 páginas cada (cerca de 10 000 páginas) reserva 85 para a ocupação islâmica! 0, 85% ! Os estudos islâmicos são desprezados em Portugal. Contam-se pelos dedos de uma mão os académicos que se dedicam ao estudo da realidade cultural do Islão, e sobram dedos. Basicamente quatro: António Dias Farinha, Helena Catarino, Santiago Macias e Claudio Torres. Menção ainda para David Lopes, já falecido, e para o clássico de Borges Coelho, «Portugal na Espanha Árabe». Fora isto, um deserto!
No entanto, convinha que conhecêssemos a pujança cultural da antiga Silves, Mértola ou Lisboa. Nomes como o do poeta Abu-l Walid al-Baji são menos conhecidos do que o Geraldo Geraldes o Sem Pavor, ou qualquer arranca-cabeças da Reconquista. Abu Muhammad Abd Allah ibn Muhammad ibn al-Sid al - Batalyawsi (nome esquisito), autor de um «Livro dos Círculos», considerado uma obra prima e que Borges Coelho considera um dos maiores pensadores que nasceu no solo que hoje é português. A sua teologia e argumentação é, segundo os entendidos, semelhante à de S. Tomás de Aquino. Afonso Henriques nem sabia ler e só a custo assinava o próprio nome. Porém, a poesia islâmica não consta de nenhuma selecta de leitura, mas poetas como, dizem os especialistas que eu também sou ignorante, Ibn Ammar, Ibn Abdun, Al- Abdari, ou tantos outros, estão banidos da história e da memória. Porém, não fossem eles, e outros como eles, mais de metade do legado grego estaria perdido. Foram as escolas de tradução da Península Ibérica que traduziram do grego clássico os textos dos autores helénicos. Não fora isso, essa abertura cultural que o Islão teve, e o Ocidente teria perdido as suas referências matriciais.
Resta dizer que não sou um adepto do Islão. Orgulho-me da cultura europeia. Não tenho medo de proclamar a superiridade civilizacional do Ocidente que assenta no princípio da universalidade: da fé, da razão e do direito. Porém, deve dizer-se que esta superioridade não radica noutro sítio senão aqui: a nossa abertura cultural, a capacidade de entender o outro e integrar os contributos alheios. Todos os grandes vultos da cultura ocidental são grandes porque contribuiram para a concepção de uma ideia universalista: a Humanidade. Os piores momentos da nossa história foram os de fechamento cultural, de desprezo pelo outro, de fixação no presente, desprezando as heranças e os legados. Promover o desconhecimento do outro, menorizando a sua capacidade de reformulação, é uma forma de fechamento cultural.
E por favor, não insinuem que eu estou a minimizar os actos inqualificáveis dos fanáticos fundamentalistas. Não estou.

18/01/06

Interlúdio Editorial Auto-Justificativo, por Junta de Freguesia

É só para dizer que decidi cancelar a publicação do post das vaginas indeterminadamente. Como tudo neste país, foi adiado. Porque sim, porque já é vagina a mais para tão pouco tempo, pelas susceptibilidades e porque o momento nacional merece mais elevação. Como atesta, de resto, o anterior Poste do Cão. E no domingo, depois de votar, façam um minete às vossas mulheres.

05/12/05

ò Zé, Kékilo? por Jkim Capelo Gaivota

- Ó Zé, kelákilo?
- Sei lá. Parece limos.
- Nããã... E se for o pântano?
- Pode lá ser!!!
- Tão certinho como eu estar aqui.
- Mas diz que só vinha para o ano...
- Antecipou-se.
- Deve ter sido.
- Pois se calhar foi quase de certeza.
- O pântano...
- É verdade.
- ...

* Foto gentilmente cedida por Joaquim Afonso, que la tirou no sábado passado na marina da Figueira da Foz.