21/03/05

A Honra dos Padrinhos - Ascensão e Queda de Michael Corleone, por Mangas

Michael Corleone acabou sozinho numa cadeira de baloiço, com uma manta sobre as pernas, entregue ao abandono de uma Sicília impiedosa. O pai, o primeiro Padrinho, morreu à sombra dos tomateiros enquanto brincava com o neto, numa das mais memoráveis sequências do cinema contemporâneo. A morte veio por ele sem sofrimento nem angústia. Esse espontâneo e definitivo momento de alegria é o que perdurará, depois de tudo o resto. É o Rosebud póstumo de Don Vito Corleone. Michael não teve direito a requiem, morreu rodeado de montanhas áridas, ao sol e com os ossos gelados. Também árido era o deserto de Las Vegas de onde um dia tirou um irmão mais velho para muitos anos mais tarde o matar. Nestas coisas, as construções da natureza, têm memória. As dos homens, como a Máfia, também.

Essa Sicília assassina onde o azeite fruto da terra e verde como os dólares fora o começo de tudo, não se fez barata e cobrou-se com sangue, ficou-lhe com a vida, mas já antes lhe tinha roubado outras que lhe pertenciam, a da primeira mulher e a da filha. Talvez por isso Michael tivesse regressado às origens férteis onde nasceu o pai. Para morrer perto da morte.

Michael morreu várias vezes então e, no processo, transformou-se num monstro impiedoso e brutal capaz de destruir, directa ou indirectamente, quem quer que lhe fizesse oposição ou ameaçasse a família corporativa – fosse ele uma esposa, um parceiro de negócios ou um irmão. Se a história nos ensinou alguma coisa, é que podemos matar qualquer um, disse-o certa vez a Tom Hagen. Don Vito morreu apenas uma vez, à sombra de uma horta, com um esguicho de água aos pés, a correr atrás do neto que era o filho de Michael. Apenas uma vez porque se salvou das outras duas. Na primeira sobreviveu às balas a mando de Don Barzini, na segunda enquanto convalescia na cama do hospital. O plano fora descoberto por... Michael.

O simbolismo deliberado das laranjas também jogou sempre a favor do velho Don. A primeira vez que vemos o jovem Vito a ser agraciado por um favor que fizera a alguém, é enquanto escolhe laranjas na rua para levar para os filhos e a mulher. O vendedor não lhe quer dinheiro e mete-as num saco de papel como oferenda. Na tarde em que foi quase mortalmente atingido, deteve-se a comprar laranjas antes de entrar no carro conduzido por Fredo, e são os frutos que primeiro atingem a terra, depois das balas. Ao Michael nunca o vi trincar uma maçã sequer, talvez por isso também tenha sido castigado.

Para Michael a família e a Família são apenas uma. Não há distinções morais ou diferenças de tratamento. As leis são as mesmas, as regras convergem, os castigos aplicados de forma inapelável. Nada de complacências. Para Don Vito, a família está antes da Família. A unidade é primeiro mantida internamente dentro de casa e a procura constante de união do sangue começa, se calhar, quando em miúdo viu os pais serem abatidas como coelhos por D. Cicio. Vito conseguiu sempre manter o núcleo familiar indivisível. Um homem que não passe tempo com a sua família, nunca será um homem verdadeiro, dirá mais tarde a Johnny Fontane, alter-ego de Frank Sinatra.

Michael nunca chegou aos calcanhares do pai como gangster honrado nem como pai, marido ou irmão. Por várias razões. Primeiro porque nunca teve um Sonny ao seu lado: o irmão primogénito morreu pela espada porque tinha uma personalidade irascível, não hesitava em distribuir porrada sem piedade quando necessário, mas apesar de ser um putanheiro incorrigível, estava sempre presente quando era necessário, impunha-se nas ruas com a mesma facilidade com que se fazia obedecer no lar. Esse lugar tenente, Michael só o teve em Tom Hagen, o filho adoptivo e fiel Consiglieri até final. Hagen talvez fosse o cérebro, mas faltou o músculo de Sonny, a sua capacidade de acção e resolução imediata para evitar males maiores. A grande questão é saber se não tem sido assassinado, teria sido Sonny o natural sucessor do pai? Coppola metralhou-o porque quer contar a história de Michael? Ou teria Don Vito legado o poder ao filho mais novo? Sim, porque Fredo é patologicamente uma carta fora do baralho.

A segunda das razões que podem explicar a vida e os actos de Michael Corleone prende-se com o facto de os tempos serem outros. Em 1908 quando Don Vito se casa, é o ano em que a Ford Motor Company produz o primeiro modelo Ford T e os irmãos Wright fazem a demonstração do seu aeroplano para o governo americano; Anthony, o filho mais velho de Michael, faz a sua estreia no canto em 79, ano em que são feitos reféns os americanos na embaixada em Teerão, Tatcher é a primeira mulher a ser eleita Primeiro Ministro em Inglaterra e a Rússia invade o Afeganistão. O negócio com o Vaticano vem a seguir e no sucessor emergente corre o sangue de Sonny Santino. A ascensão e queda dos Corleone atravessa um século de história e uma enormidade de transformações sociais, culturais, políticas e de mentalidades. Michael aprendeu hostilidade com o mundo e consegui sempre manter-se na linha da frente da Mafia modernizada que, à sua conta, encomendou um número generoso de coroas fúnebres para distribuir pelos seus filhos e enteados.

A terceira, e talvez, mais importante razão é que Michael era geneticamente frio, calculista, cerebral e desprovido de compaixão. O senso e algum pudor sempre estiveram na base das decisões de Don Vito enquanto Padrinho. Nunca vender ou comprar drogas, nunca trair nenhuma das outras Famílias, tomar sempre conta da nossa! Michael foi sempre um solitário e mais ainda quando a solidão física e moral se apoderou dele – o remorso viria depois e até ao fim. Ter-se alistado no exército, contra a vontade do pai que o podia ter safo, quando nada tinha a ver com os negócios da família, é a primeira decisão individualista de um homem íntegro, ainda. Michael regressaria como herói de guerra para posteriormente ser sugado inexoravelmente para os negócios da família quando o pai é abatido. Um clima de suspeição, vingança e chorudos lucros com o novo negócio das drogas rapidamente monopolizaram as operações por si chefiadas dando espaço a uma rápida perda de códigos de honra e a uma emergente espiral de violência. Michael é a besta negra que detém o poder e o usa sem contemplações morais - abandonou Kay sem explicações e no exílio forçado decidiu casar com Apollonia sem nunca com ela ter trocado uma palavra sequer; regressou viúvo e arrastou Kay para uma relação de mentira, encobrimento e fachada; abraçou os lucros chorudos do mercado de drogas; fez de cada rival um inimigo, depois achou por bem acautelar o futuro com as suas execuções; cometeu perjúrio na Comissão; renunciou ao pecado e executou a Avé Maria do irmão Fredo aos peixes, mentiu aos filhos, tentou comprar a absolvição do Vaticano, branquear os crimes e legitimizar os negócios, escapou das balas que lhe eram destinadas e limparam a filha, e acabou aconchegado à mais familiar presença do seu reinado - a solidão.

Naquela noite em que procurou visitar o pai no hospital e se apercebeu da tramóia para acabar com ele, acontece um pormenor, pequeno mas essencial, que o fez constatar a ele sobre a dimensão das suas reais capacidades, e a nós sobre a sua verdadeira vocação. Enquanto esperava com Enzo, nas escadas do hospital, simulando dois pistoleiros em guarda, um carro parou em frente com os carrascos de Don Vito que vinham acabar o trabalho. Michael pediu a Enzo que metesse a mão no bolso do casaco, como se estivesse a acariciar uma seis tiros. Enzo, o padeiro, assim fez, Michael também, os gorilas no interior do carro engoliram a encenação, convenceram-se do potencial risco e afastaram-se. Enzo sacou de um maço de cigarros amarrotado pelos nervos e tentou acender um cigarro com um Zippo, mas tremia como varas verdes e, após várias tentativas, não conseguiu sequer fazer chama. Então, Michael agarrou no isqueiro, acendeu-o à primeira, como se nada tivesse acontecido, os dedos não lhe tremiam, o rosto impávido e tranquilo, olhou as mãos que seguravam o isqueiro e atirou-lhe um olhar que demorou três segundos, os bastantes para perceber quem era dentro de si e como estava predestinado para aquilo. Quando os olhos de réptil enroscado regressaram daquela breve viagem ao entendimento da sua alma, já vinham resignados porque sabiam que não lhes seria possível escapar a um destino traçado.

The Godfather é uma cronologia glorificada do crime organizado na sociedade americana e a mais fascinante história de homens. De trono e sucessão, poder e intriga. Michael Corleone foi quem a escreveu e lhe carregou a cruz. Tombou, apenas, pela força imensa e brutal desse poder que sempre dominou.



Referências:
The Godfather I, II e III de Francis Ford Coppola
The World Almanac and Book of Facts

20/03/05

Por uma crioulização da Europa, por Tó Preto

Foi a melhor notícia que eu ouvi nos últimos meses. No passado dia 16, na Sociedade de Geografia de Lisboa, Adriano Moreira sugeriu a integração da República de Cabo Verde na União Europeia. Logo depois, Mário Soares manifestou a sua concordância. Começo por notar um primeiro pormenor que não me parece casual: um antigo ministro do Ultramar de Salazar em 1961 e o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros logo após a revolução de 74, convergem neste ponto. É bom sinal. Para além de ser uma espécie de expiação de culpa, mesmo que os dois homens não transportem responsabilidades pessoais, acabam por representar as duas principais causas da desgraça africana, pelo menos no que respeita às antigas colónias portuguesas, a saber: a obstinação salazarista e a inconsciência revolucionária. Eu não sou nacionalista, acho até que o espaço estratégico em que Portugal se deve inserir é a Europa e deve até promover uma estratégia de cooperação ibérica com vista a transformar o pilar hispânico num eixo primordial da política europeia. Mas acho também que a independência de nada valeu aos povos africanos. E os factos são estes: a geração que agora anda pelos 30 anos de idade, foi a primeira geração de portugueses, nos últimos seis séculos, que nasceu e cresceu num país limitado às suas dimensões continentais. E, apesar das crises económicas, das queixas permanentes e dos muitos e variados problemas, esta é a geração de portugueses, na nossa história quase milenar, que vive mais e melhor, com mais conforto, mais comodamente, em paz e liberdade, com mais qualidade, saúde, educação, e tudo o mais que queiram arrolar. Sob todos os índices e considerando qualquer ângulo, pode-se dizer que nunca os portugueses viveram tão bem como agora! Quanto aos cidadãos das antigas colónias, e lamentavelmente, só se pode dizer o contrário. De Timor à Guiné, de Moçambique a Angola, de Goa a Cabinda, vive-se pior, com menos liberdade, morre-se mais, há tortura, violações sistemáticas dos direitos humanos, atraso económico, há fome, doença, opressão, tirania, etc. E por isso, sem complexos, podemos dizer que a a independência das colónias beneficiou mais a antiga metrópole do que os povos libertados!
Porém, a missão histórica de Portugal não se esgota nesta constatação. Há Estados que nasceram para engordar. Olham a história como uma vaca olha a manjedoura e o futuro é para eles uma massa de proteínas. Constroem o futuro tal como um felino contempla a presa. É o caso da Suíça, da Bélgica, Dinamarca e outras nações deste género. E depois há povos que contribuem para o progresso da civilização. De entre estes, não há nenhum, com a dimensão que nós temos, que tenha contribuido de maneira tão decisiva e marcado tão profundamente a nossa civilização comum. Só encontro paralelo na antiga Fenícia. O nosso destino não é engordar. Não pode ser. Os problemas do nosso quotidiano político não podem ser coisas como discutir traçados de auto-estradas, ou a localização de mais uma ponte sobre o Tejo, ou a organização de um Europeu de Futebol. Não! A situação no continente africano é dramática demais para que nos possamos fechar nestas questões. Há doença, fome, guerra, tirania e a Europa pensa fechar as portas e constituir-se numa cidadela de velhos ricos e barrigudos? Não! Portugal, e os restantes países que contribuiram para a construção da ideia de Europa e civilização ocidental (a saber, Itália, Grécia, França e Espanha e vá lá, a Inglaterra e a Alemanha um bocadito) são a única esperança do continente africano. A Alemanha quer que a Europa se alargue a leste por questões de mercado. A pujança alemã exige o alargamento a leste. Como um pançudo que necessita de umas calças XXL para poder continuar a emborcar cerveja. A Inglaterra não está, nem nunca estará, interessada na universalização da estratégia europeia se não for para reganhar um domínio que, na sua mente delirante, ainda acha possível. A França, arrenega a sua identidade humanista e alia-se à Alemanha, discute a integração da Turquia e a questão da laicidade do Estado. Adriano Moreira lançou, com duas palavras, um novo rumo estratégico para a Europa: Cabo Verde. Naturalmente, uma ponte para África. Cabo Verde é muito mais Europa do que a Turquia. Cabo Verde foi durante 500 anos, política e administrativamente, uma região europeia. Culturalmente, do ponto de vista linguístico e religioso, Cabo Verde é uma Nação Europeia. O Direito que vigora em Cabo Verde é de matriz europeia. os valores morais e culturais também. A adesão de Cabo Verde abriria uma via para a criação de uma identidade europeia que superasse, definitivamente, a ideia de uma identidade fundada na raça. A mestiçagem caboverdiana contribuiria então para uma das mais importantes aquisições civilizacionais: a negritude e mestiçagem da Europa. Abriria novos horizontes estratégicos, abertos para o Atlântico, seria uma ponte para a cooperação euroafricana e latinoamericana. Cabo Verde pode ser, justamente, a capital futura de um espaço euro-afro-americano. Eu sonho com um mundo mestiço e acho que o embrião está em Cabo Verde. É preciso que germine.

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13/03/05

Ainda há Tinocos!, por Inspector Martelada

Parece que querem construir um condomínio de luxo na antiga sede da PIDE, em Lisboa. Sinal dos tempos. Há quem se insurja e, como estratégia de insurreição, convidam um insígne da Paróquia, chamam uns amigos da imprensa e alardeiam as memórias da luta antifascista. Desta vez, foi a Drª Maria José Morgado. A senhora acedeu ao convite e, em frente ao edifício em ruínas, por entre protestos contra os interesses imobiliários que ali se querem instalar, não hesitou em lembrar as suas memórias mais íntimas quando, entre os fins de 73 e os inícios de 74 foi presa e esbofeteada pelo agente Tinoco da Polícia Política. Barbaramente. Todos admiramos reconhecidos o esforço e o sacrifício de todos os que deram a vida e viram a dignidade ofendida na luta contra a ditadura salazarista. Os métodos usados pela PIDE eram bárbaros e não têm justificação possível. Posto isto, digamos umas verdades: a tortura sofrida não é coisa que se propagandeie. Haja pudor. Ter sido preso, interrogado, torturado pela polícia política não confere nenhuma dignidade pública, não dá direito a um estatuto especial. Haja humildade. A Drª Maria José Morgado não é Jesus Cristo. Todos sabemos muito bem que um dos sinais do provincianismo salazarista era o respeito pelos senhores doutores. Todos sabemos muito bem que os estudantezecos levavam umas bofetadas e uns encostos enquanto os operários, os filhos de ninguém , sem padrinhos e sem conhecidos, esses sim, eram torturados sadicamente até à morte. Eram desterrados e executados sumariamente. Os comunistas foram os que sofreram na pele a mais bárbara tortura dos mais sádicos carrascos.
Por tudo isto, fica muito mal à Drª Mª José Morgado vir para a televisão, com um aquele ar de superioridade moral, lembrar as bofetadas que levava. Dispensa-se aquele indisfarçável sorriso que denuncia o ensimesmamento jacobino da esquerda radical e que eu já ouso adjectivar de louciano. Acham-se donos de uma superioridade cívica que lhes confere o dom da crítica. Vejo esse sorriso no Rosas do cachimbo, na arrogância blasée do Boaventura ou na vacuidade chic da Joana Dias. Vi-o também quando a Procuradora da República dava conta do irritamento que sentia, durante as sessões de bofetada, por ser magrinha e andar de parede em parede com a rota ditada pelo impulso dos estalos, dizendo, no final, como gostaria de ser gorda para não voar. A Senhora Procuradora não é Santa Catarina de Alexandria. Nem quanto à sabedoria, nem quanto ao martírio, nem quanto à humildade. A Senhora Procuradora não é mártir, nem é gorda. Mas é Procuradora da República. Os Procuradores têm dignidade e estatuto especial, não porque levaram uns chapos de um qualquer Tinoco, mas para que evitem que floresçam por aí mais Tinocos a destilar recalcamentos e frustrações íntimas. A uma Procuradora da República pede-se que denuncie o espancamento de Leonor Cipriano. Foi ontem, não foi há 30 anos. Não foi a PIDE, foi a PJ, instituição onde a senhora teve responsabilidades de dirigente ao mais alto nível. Não foi em Lisboa, na António Maria Cardoso, foi em Faro. Leonor Cipriano não é magrinha, é gorda e ficou no estado que a foto ilustra. Não é doutora, nem filha de doutores, nem esposa de doutores. Espancaram-na barbaramente. Pela calada da noite, sem mandato, foram à prisão onde está detida preventivamente e "interrogaram-na". Duvido que alguma vez a gorda Leonor que não voa se venha a ufanar desta má memória, ou um dos muitos presos que em Portugal têm tendência para o suicídio, ou ainda um dos muitos manifestantes que em Portugal chocam de cabeça com uma bala perdida. É que em Portugal, ainda há Tinocos!

08/03/05

Mulheres para quê?, por Maxo Man

Parece que hoje (ou ontem?) é o Dia Mundial da Mulher! Para quem não sabe, uma mulher é aquela coisa que vive à volta daquela coisa. Recentemente, inventou-se esta coisa a quem só falta aprender a cozinhar!







07/03/05

A recusa de Vitorino ou as razões de um homem pequeno, por Aristóteles da Silva

À custa de tanto se falar na morte das ideologias, há quem viva já a era do desencanto. Normalmente estes descrentes têm-se em grande consideração e marginalizam-se como gesto de vaidade. Acham-se bons de mais para viverem comprometidos com as causas comuns. Exemplo disso é António Vitorino que hoje afirmou ao «Diário Económico» que não gostou de ser ministro ainda que tenha sido «uma experiência enriquecedora», justificando assim, sumariamente e de forma inapelável, a recusa em integrar o executivo de Sócrates. Do mesmo modo, e ainda que tardiamente, ficámos a saber a razão porque recusou a liderança do Partido Socialista. Lembremos que Sócrates é Primeiro Ministro porque Vitorino recusou sê-lo! Sócrates é uma segunda escolha! Sócrates deve a glória ao enfado de Vitorino. Ao achar desinteressante o serviço da República, o sr. Vitorino equipara o exercício de funções ministeriais a uma caldeirada mal temperada, como se a arte da política fosse coisa sobre a qual se pode dizer: «não gosto!» Como cidadão, venho dizer ao sr. Vitorino que em nada nos interessa ou beneficia o enriquecimento pessoal da sua elogiadíssima figura se daí se não retirarem vantagens para a causa comum, para o progresso material dos povos, para o conforto e felicidade da nação.
Mas as afirmações de Vitorino são graves num outro sentido, ao atestarem a impossibilidade absoluta de mobilizar a nação. Já não há causas comuns nem sentido de missão. António Vitorino é a prova disso mesmo, é o paradigma do político pós-moderno. Tal como D. Carlos achava que o país era uma piolheira, o sr. Vitorino acha o país desinteressante. Tido como inteligente e competente, o sr. Vitorino não se sente impelido a contribuir para o bem comum. Lá no fundo, entende que não há causa que lhe justifique o incómodo, o que é dizer, que o interesse privado se sobrepõe à causa pública. É, no limite, o fim da política como a entendemos. Vitorino é um técnico bem sucedido que só ingressará na política ou como Messias ou como Técnico. Em ambas as alternativas, como anti-político, na medida em que quer o providencialismo quer a via tecnocrática dispensam a intervenção cívica.
Eu não defendo o exercício do poder numa perspectiva missionária, escudada numa ética do sacrifício. Repugna-me aquela austeridade de monge com que Salazar governou o país, acho que o messianismo sebástico é uma das causas do atraso nacional, arrenego todas as vias tecnocratas e acho a política a mais nobre das artes porque coloca o ideal colectivo acima do interesse individual, acima da circunstância e da comodidade. Porque acho a Alma mais bonita do que o umbigo, eu não acho que o serviço do Bem Comum e a dedicação à causa colectiva sejam assim tão desinteressantes. E não entendo como podem não cativar um dos mais reputados e promissores políticos portugueses. É bom dizer ao sr. Vitorino que a sua presumida inteligência e elogiada competência nada valem se não se submeterem a um fim mais alto do que a mera satisfação de ambições privadas. Digam pois ao sr. Vitorino que não é a Nação que é pequena demais para ele. É ao contrário, por mais pequena que seja a Nação. É sempre ao contrário. O sr. Vitorino é pequeno e ponto final. Acabou-se!

28/02/05

Santana? Quem é esse gajo?, por Tchaikovsky

Há uma coisa que me intriga e que não devia intrigar. É um clássico, já estava nas fábulas gregas: quando o leão está moribundo, todos os pontapeiam. Os primeiros são os ratos.
Santana Lopes perdeu as eleições. A derrota foi esmagadora. Onde estão os seus apoiantes? Quem lhe deu uma maioria tão esmagadora no congreso do PSD? Onde estão? O mesmo, aliás, já acontecera com Guterres que ganhara o congresso com 99% vírgula qualquer coisa e que depois caiu em desgraça. Na altura, só me lembro de ouvir o Carrilho a criticar o Chefe. Agora, poucos se lembram que o apoiaram. Mas em relação ao Santana, cabe perguntar se estamos a falar do mesmo Santana sobre o qual se dizia, ainda não há muito, que era um animal político, um lutador, um homem feito para ganhar eleições. Ainda me lembro da corte de santanetes e acólitos. Gabava-se a obra na Figueira da Foz, aparecia com multidões a apoiá-lo com aqueles actorzecos do Parque Mayer a louvarem-lhe a obra enquanto Secretário de Estado da Cultura. Em Coimbra, houve quem se lamentasse por ele não ter sido o candidato à Câmara Municipal. Santana aparecia em todas as revistas, comentava na TV e dizia-se que era brilhante e que tinha uma boa imagem, coisa indispensável para a política de hoje! Quando ganhou Lisboa, foi a euforia! Onde estão agora? Os ratos já fugiram? Já embarcaram no barco do Sócrates? Estamos a falar do mesmo Santana? daqui a uns meses, Sócrates voltará a ser o nome de um filósofo grego, estou certo.

23/02/05

A crise chegou à Igreja da Geografia, e não há PS que lhe valha, por Zinal

Quando menos esperamos chega a crise. Ela pode vir pela falta de poder de compra, pelos sapatos rotos na sola, pela falta de qualidade do leitão, enfim, por todos os meios, mas há sempre uma via que não esperamos, surpresos verificamos que nem tudo o que é fácil está na ponta da língua.

Vem isto a lume porque há dias bateu-me à porta o cura da Igreja da geografia.

Calha a vez a todos.

Depois de me tentar impingir três livrinhos e quatro ideias cinzentas retruquei com veemência que nem tudo estava no livro, nem tudo era segredo.

Após acesa contenda verbal fui obrigado a rebuscar o fresco na minha memória e disparei, sem saber que o fazia de forma tão mortal, e foi assim:

Então qual o número de cantões da Suiça?

Estupefacto nem o som do silêncio ouvi. Vi apenas caír alguns cabelos sem ouvir o som da coçadela.

Então e em que ano se constituiu o cantão mais recente e qual o seu nome?

(notem que não perguntei a hora, o minuto ou mesmo o dia, perguntei o ano, o ano, nem sequer era necessário escolher entre 365 ou 366 dias com mil raios).

É claro que me senti enganado, assim como quando vou a um tasco e de lá saio esfomeado.

Será que na última ceia a prelecção à confraria irmã foi preparada? As capitais estavam encomendadas? Dei comigo a pensar que era o Conde da Ribeirinha e que estava a ser esventrado pela Heidi ao som do tirolês.

Enfim, a Igreja da Geografia está em crise, e nada se pode dizer pois está em sintonia com o país.

Vou estudar uma matéria porque já não confio na geografia e assim como assim há-de de haver outro concurso em fim de noite…

18/02/05

Este cartoon foi digitalizado a partir da «História de Portugal» dirigida por João Medina (vol. XVIII; p. 274). É um dos melhores cartoons que eu já vi. Uma economia minimalista no traço e tanto que fica dito. Foi publicado em Agosto de 1974. Em Portugal, corria o PREC. Em Espanha, Franco agonizava, mas a Ditadura lutava ainda desesperadamente por se manter. Portugal, que em tempo fora o alvo da cobiça franquista, primeiro, e depois o seu único aliado, era agora o palco de uma revolução que se temia pudesse contaminar a Espanha. Vir a Portugal era como frequentar um prostíbulo infectado. No mínimo, era pecado. O cartoon diz tudo: o poder da Igreja, a confissão, o pecado, o desejo de liberdade, a agonia desesperada do franquismo, a curiosidade sórdida do confessor, a moral hipócrita, o bolor da Espanha franquista, a subsidariedade do processo histórico na Península Ibérica. Do melhor!
















16/02/05

Os Meninos Abandonados, por António Manuel

Um dia destes tive uma surpresa quando encontrei à venda numa tabacaria os livrinhos de contos da famosa Colecção Formiguinha, que tanto alegraram a minha infância. Pequenas histórias morais, para benefício de meninos e meninas, como então se dizia. Comprei logo dois: O Menino Grão de Milho, numa versão algo diferente da que a minha avó me contava (também é verdade que de cada vez que a minha avó me contava a história, e foram dezenas, a versão mudava) e Os Meninos Abandonados. Não resisto a transcrever esta última, já vão ver porquê:

Era uma vez um homem muito pobre, a quem Nosso Senhor dera muitos filhinhos Ora, acontece que, certa noite de Inverno, não tendo tido dinheiro para comprar boroa ou azeite com que a mulher fizesse o caldo, disse a esta, já quando aqueles estavam deitados: - Não tenho coragem para tornar a ver os nossos filhinhos cheios de fome.Assim, caso estejas de acordo, o melhor é levá-los comigo para o monte, quando for à lenha, e deixá-los lá. A mulher concordou, mas o filho mais novo, que ainda estava desperto, ouviu a conversa. Por isso, mal apanhou os pais a dormir, levantou-se e foi muito surrateiro a um ribeiro próximo da casa, de onde trouxe um punhado de seixinhos brancos. Ao outro dia, pela madrugada, o homem saiu com os filhos para o monte, e o mais novo foi espalhando os seixos pelo caminho. Arranca ramo aqui, apanha caruma acolá, e o dia passou-se. E, quando caiu a tardinha, o homem carregou parte da lenha e disse aos filhos que ficassem de guarda ao resto, pois não tardaria a buscá-los. Mas o tempo decorreu sem que ele voltasse E, fazendo-se noite, os meninos desataram a chorar, cheios de medo. – Ai, manos,- gemia um – se o pai demora, não tardará muito que os lobos nos comam! - Se antes não vierem as bruxas e nos levarem a cavalo na sua vassoira, para nos assar no forno – soluçava outro. Então, o mais novinho sossegou-os, afirmando: - Eu sei o caminho. E todos os irmãozitos se puseram a segui-lo, enquanto ele se guiava pelos seixinhos brancos. Deste modo, em breve chegaram a casa, cuja porta estava fechada. Mas, encostando o mais novo a orelha ao buraco da fechadura, ouviu dizer: - que caldinho tão bom, meu homem! Só tenho pena de não ter comigo os nossos filhos, para lho dar. Quem sabe lá o que terá sido feito deles? Corta-se-me o coração ao pensar nisso… - estou aqui, mãezinha! – Gritou então o menino. A mãe abriu a porta e essa noite foi de grande alegria para todos. Não tardou, porém, que a pobreza crescesse E, por isso, o homem combinou outra vez com a mulher abandonar os filhos no monte. De novo, o pequenito ouviu tudo, mas como chovesse muito e, portanto, não lhe fosse possivel ir ao ribeiro, dirigiu-se à talhazinha dos tremoços e encheu uma algibeira deles. Pela manhã, seguiram todos para o monte e, á medida que caminhavam, o menino ia lançando fora os tremoços Os pássaros andavam, contudo, também esfomeados. Por conseguinte deram neles. Assim, quando à noite o pai o deixou e aos irmãos, ele não pôde encontrar o caminho, sucedendo perderem-se (…)”.

Bom, e assim continua o relato em outras tantas linhas. Resumindo, os miúdos acabam por ir ter a casa de um gigante que come criancinhas, conseguem fugir, enriquecem ao serviço de um rei, voltam para casa e tudo acaba bem, de acordo com narrador. Eu não sei é como pode acabar bem uma história com uma família tão disfuncional. Reparem: os pais resolvem abandonar os filhos num monte com o argumento estapafúrdio de que não os queriam ver com fome. E abandonam-nos duas vezes! Os filhos, coitados, que parecem sofrer de um certo atraso mental, à excepção talvez do mais novo, tudo fazem, por sua vez, para serem aceites de volta pelos pais, sem grande sucesso. Ora vejam bem o que diz a mãe ao jantar: “que caldinho tão bom, meu homem”. É claro que ao mesmo tempo vai temperando o caldo com umas lágrimas de crocodilo pelos filhos. Quer dizer, aqueles pais, em vez de dar o caldinho aos filhos, paparam-no eles e ainda tiveram coragem para o saborear, elogiando o seu tempero, quiçá dando estalidos com a lingua, sabendo que os filhos estavam num monte, ao frio e à mercê dos lobos e dos seus medos típicos de idiotas subalimentados. Volto a citar, para arrepio geral: “Que caldinho tão bom, meu homem”. Crudelíssima, esta transferência de afectividade dos filhos para o caldinho. E lembram-se que dizia o narrador, talvez cúmplice na ignomínia, que não havia dinheiro para a boroa e o azeite? Como ficamos, então? E porque não foram eles caçar aqueles pássaros que comeram os tremoços aos rapazitos? Esfomeados como andavam, seria fácil apanhá-los, não? E com os próprios tremoços não se faria um saboroso paté? A história não conta, mas aqueles pais devem ter acabado a noite num colchão de penas das galinhas com que fizeram o caldinho, a gemer lubricamente: “que fellatio tão bom, meu homem”. Agora, pergunto: Como terão crescido aqueles miúdos? Que respeito lhes merecem aqueles pais? Como poderão estes exigir protecção aos filhos na sua velhice? Nenhum, está bem de ver. Parece que estou a ouvir os rapazolas: “Que caldinho tão bom, ó manos! Pena que os nossos pais estejam no monte à mercê dos lobos e das bruxas! Hehehe”. E que efeito terá tido esta história na mentalidade dos que a leram? Como é que me terá afectado a mim? E a história da Menina dos Fósforos, retrato cruel da exploração infantil na industria fosforeira?

04/02/05

Mas afinal, o que está uma puta a fazer no Panteão? por Grande Empernador

Se algum nacionalista místico-casticista, dos muitos que por aí grassam, se acha ainda membro participante dessa merdunça alienante a que o romantismo oitocentista chamou alma nacional, o que quer que isso seja, e que presuntivamente se expressa através de coisas tão vagas - tais como, uma alma lírica, um espírito universalista, uma mentalidade sebastianista e messiânica, costumes brandos, etc. etc. - e que tem como uma das formas preferenciais de expressão o fado, pois fique sabendo que, no que ao fado concerne, tem alma de puta! Por outras palavras: se o fado é a canção nacional pela qual se expressa o espírito místico da nação, então, eu lamento que a Nação se exprima como uma Puta! Esqueçam as larachas sentimentalistas que mitificam as origens do fado com umas nebulosas raízes mouriscas, esqueçam a patranhada que relaciona o fado com o cantar dos trovadores medievais, esqueçam as histórias que metem guitarradas e fadistas nos escombros de Alcácer Quibir ou a bordo das caravelas, esqueçam as origens remotas. Na verdade, a coisa é muito mais simples: o fado tem pouco mais de cem anos e é canção de putas e rufias. Veio do Brasil, onde a cultura afro-ameríndia produziu o lundum, dança brejeira e erótica cheia de empernanços, apalpadelas, pernas a roçar, etc. e etc. A gente sabe como é! Quando me lembro de um funaná dançado com uma mulata na festa dos estudantes caboverdianos ainda fico com tusa, apesar de muita água já ter passado debaixo das pontes! Punha-se um vinil da Cesária, do Ildo Lobo, do Travadinha ou lá o que era e depois juntavam-se os pares. A minha moça, boa como o milho, metia-me a perna no meio das coxas e o joelho roçava-me os tomates. E lá ia eu, dalalim dalalum com o escroto a coçar-lhe o joelho, dalalum para lá, dalalim para cá. Depois era a minha vez e sentia-lhe os grandes lábios a espreguiçarem-se no meu recto femoral. Dava um pau do caralho! Se eu fosse Inquisidor é claro que proibia. Se fosse puritano espreitava, se fosse depravado metia-me ao barulho, se fosse nacionalista aproveitava a música. Quer dizer, Amália é assim como prima de Cesária. Do Brasil, esta pouca vergonha saltou para as tascas de Lisboa pela mão dos marinheiros. Por entre naifadas, putedo, copos de vinho, rufias, brigas, estivadores, fumo, álcool e alguns petiscos, cantava-se o fado. A Severa foi o primeiro grande mito. Amante do conde de Vimioso foi retratada por Malhoa como antítese da Clara. Dentro desta estética naturalista, a Severa, com o seu proxeneta, num ambiente peumbroso de tasca, era o símbolo da decadência moral e física da raça portuguesa. A regeneração viria do mundo rural, onde as virtudes se conservavam intactas e saudáveis. É claro que este maniqueísmo simplista frutificaria. O fado cantava-se nas hortas, durantes os passeios pelos arredores de Lisboa e, lentamente, a boémia aristocrática começou a interessar-se por putas. Do interesse pelas putas veio o gosto do fado. E a pouco e pouco o fado foi ganhando dignidade social. Não tarda, as meninas de família começarão a cantar fado acompanhado ao piano, os meninos de família vão para Coimbra e dão roupagem erudita ao fado. No final, a Amália acaba no Panteão nacional, depois de ter tornado a canção em símbolo da alma nacional. Pelo que o título deste post se justifica plenamente. Sem ofensa pela Senhora Dona Amália (se houver por aí alguém capaz de me explicar porque razão nos devemos referir à Amália Rodrigues como Senhora Dona Amália, eu cá agradecia, 'brigadinhos) Pelo meio, a nossa aristocracia, uma das vergonhas nacionais popularizou-se e começou a achar piada ao fado. Teresa de Noronha terá sido o expoente de uma tradição que persiste com Pinto Basto e o clã dos Câmara Pereira. Fado fino, sem putas e com muita mística nacionalista. Canta-se a Virgem tal como os estudantes de Coimbra cantam as tricanas e os arrebatadíssimos amores de estudante. Claro que, aqui chegados, as origens do fado devem esconder-se. Como não há glória sem genealogia, escondidas as verdadeiras origens, há necessidade de inventar umas. E daí vem a patranhada do costume: D. Sebastião, caravelas, fatalismo mourisco, jograis, trovadores e etc. Eu, por mim, gosto desta alma de puta. Embora deteste o fado e a sua corte de merdosos: os aristocratas, o Carlos do Carmo o Paulo Bragança, o Marceneiro e essa cocozada toda. Gosto da Senhora Dona Amália, acho-a genial. Acho que não devia estar no Panteão porque aqueles anormais todos não são dignos de estar ao pé da Senhora Dona Amália. Devíamos fazer um monumento especial para a senhora dona Amália. A minha ideia é um altar num bordel com a senhora dona Amália abraçada ao Santo António do Rafael Bordalo Bordalo. Fotografava e punha na bandeira nacional!
Quem quiser ler mais, leia o excelente livro de Rui Vieira Nery publicado pelo «Público», cuja capa se reproduz. Silêncio agora, que se vai cantar o fado!

03/02/05

Reportagem, por Jaquim de Zurrara

«Quem usa boina é porque tem frio na cabeça»

As espantosas declarações que dão título a este relato foram obtidas pela nossa reportagem numa ocasião verdadeiramente excepcional. Por dois leitões e uma entrevista exclusiva fomos até ao fim do mundo, passámos para lá do fim da rua. Num raro momento de abertura, os Senhores dos Tonéis, Núcleo Duro e Braço Armado da misteriosa Real Satânica do Tinto, acederam a revelar ao grande público alguns dos seus hábitos e ritos. Sob rigorosas condições de sigilo, o repórter conseguiu finalmente penetrar numa das mais antigas organizações secretas do distrito de Coimbra, na sua peregrinação secreta ao Templo do Bolho. Permitiu esclarecer alguns enigmas, mas muito ficou ainda por descobrir. De resto, para o autor destas linhas, a própria localização do Bolho continua secreta, depois de horas às curvas por entre a bruma e estradas e caminhos irreconhecíveis, algures nas labirínticas entranhas da Bairrada, tendo, inclusive, o Membro do Movimento que nos conduziu ao Templo encenado ter-se perdido no sentido de ser impossível ao repórter reconstituir o percurso.
O carácter clandestino da Organização e da própria povoação onde teve lugar a Cerimónia, é realçado, de resto, pela data mística em que se realizou a Celebração, 28 de Janeiro, dia de São Tomás de Aquino, Presbítero e Doutor da Igreja e, como são todos os dias 28 de todos os meses, Dia do Arcanjo da Terra, como descobriu a nossa investigação numa publicação igualmente secreta e misteriosa, o Borda D’Água (“Reportório útil a toda a gente”).
Afinal, tratava-se de um acontecimento de magna importância para a Entidade, em plena Época Oficial do Plantio do Centeio da Couve Galega dos Nabos das Nabiças dos Rabanetes da Salsa e do Tomate. Mas sobretudo porque nessa noite se iriam definir hierarquias no centenário Grémio, mediante o teste da exigente Prova Cega dos Vinhos, liturgia de que se abstém o repórter de pormenorizar de tão insondável. As bombásticas declarações constituem, enfim, as primeiras palavras secretas do novo Mestre Cósmico do Tinto, que renova o mandato e a vantagem na liderança da Organização. Mais uma vez a honraria ficou na misteriosa terra anfitriã do Acontecimento, cabendo o Supremo Avental ao elemento bolhense, que adiantou desde logo à nossa reportagem, em jeito de promessa, que gostaria de ver a Cicciolina no lugar de ponta-de-lança. «Ponta de lança», afirmou categórico o novo Mister, que ofertou o repórter no final da cerimónia com três tangerinas, gesto altamente simbólico e respeitado entre Os Membros.
Até chegarmos às famosas primeiras palavras oficiais do líder, no entanto, este teve de superar uma competição impiedosa perante os restantes 12 comensais/competidores (o que perfaz, como poderá o leitor notar o Total perfeito e mais uma vez altamente simbólico de 13). Como nos concílios para a escolha do Papa, o ambiente é solene mas de grande tensão. A riqueza e a amplitude do debate, ao proceder-se à análise dos oito néctares em prova, não impede uma enorme agressividade competitiva e um intenso jogo de bastidores, não sendo raras públicas acusações de sinistros conluios e obscuras alianças de circunstância. A harmonia dos 13, apesar de firme nos propósitos, não resiste ao stress da escolha e da responsabilidade. «O processo está inquinado!», proclamava, alto e bom som, um dos Elementos no início da Prova, pondo irremediavelmente em questão a transparência do concurso e dando azo a uma constante troca de acusações entre indivíduos ou facções, acabando por favorecer, no entanto, uma dialéctica agressiva mas enriquecedora. Principalmente no episódio em que o Mestre é frontalmente questionado por um dos 13, acerca de um dos “tabus” desta celebração especial por alturas de vacinar porcos contra as doenças rubras: Comer ou não comer durante a Prova? Antecipando os dois bácoros bairradinos, amais o fiel Sarrabulho, um dos Elementos afrontou severo a mesa e disse, silenciando os presentes: «Esta merda não é nenhuma competição oficial foda-se, só não se come porque tu não gostas, caralho». Apesar da violenta troca de argumentos em torno da mesa, impassível na senda vitoriosa, o Mestre escutou atento mas lacónico os reparos dos seus pares. Ao centro, as oito garrafas em juízo, aguardando fumo branco.
O estado de espírito dos contendores reflectia, sublinhe-se, a própria complexidade do evento, claramente reflectida em pareceres que se iam escutando como «um tom violeta, quase verde», ou «um travo banana com manteiga», frases que traduzem a extraordinária minúcia da análise.
No fim, ganhou quem mereceu e não ganhou o vinho mais caro, pormenores que deixo para divulgação oficial do grémio satânico. A entrevista ao porco tricampeão decorreu precisamente no final da cerimónia, submetendo-se este, magnânimo, ao interrogatório dos demais confrades que, democraticamente, fizeram cada um sua pergunta ao mestre bolhense. Desde logo, e significativamente, o Supremo Méne revelou que se fosse treinador do Chelsea contratava imediatamente «o Manuel Fernandes, do Benfica». Bombástico, como discurso inaugural, mas mais maravilhamento estava reservado aos presentes. À pergunta «em termos tácticos, o que é que achas que o Trapatoni tem falhado no Benfica?», não deixou créditos por mãos alheias, ajeitou as costas para trás no seu cadeirão à cabeceira da mesa e disse, com rosto solene nas pausas e serenidade nas interrupções: «Opá, tem falhado muita coisa. Do ponto de vista táctico acho que ele ainda não afirmou um modelo de jogo para aquela equipa, modelo de jogo… Agora, o que é que eu preconizo?... Acho que ele tem de trabalhar mais, acho que é um treinador ultrapassado em termos da metodologia do treino, a equipa não corresponde em termos de modelo de jogo aquilo que ele pretende, porque acho que não trabalha…Do ponto de vista mental também acho que… [comentários laterais: «dá um prato ao gajo, parece uma alma penada!...», «está calado caralho!», «atenção, pá, deixem o homem falar… A sério, isto é uma brincadeira séria…»] … E penso que o Benfica este ano não vai ganhar o campeonato», afirmou convicto, deixando a todos rendidos na sala.
Bem mais importantes revelações, como a de qual vai ser a equipa vencedora da Super Liga, o nome do futuro campeão, entretanto, foram escamoteadas graças à incompetência ou à perfídia do Membro a quem coube a tutela do gravador, retirado ao repórter, impedido de intervir neste sub-rito. A parte do nome do clube, de facto, não ficou registada, mas não se perdeu a fundamentação, tornado as seguintes declarações num verdadeiro enigma gnóstico para os vindouros: «… Vai ganhar o campeonato porque é a equipa com o modelo de jogo mais organizado, mais coerente, mais consciente… Vai ganhar o campeonato». E está lançado o Mistério. Maior desafio foi porventura a questão seguinte, de um Elemento particularmente sagaz: «Dos treinadores da I Divisão quantos é que já trouxeste aqui ao Bolho?». A resposta esteve à altura da lógica tortuosa do interrogador: «Nenhum!», declarou o Mestre com determinação.
A demanda mais vil e complexa, no entanto, proveio do Membro espanhol da Confraria, que manifestou, mais em jeito de provocação que de pergunta: «Ganhar, ganha-se facilmente com vinhos portugueses, o difícil aqui é ganhar com vinhos espanhóis. Quando é que ganhas com vinhos espanhóis?» [comentário lateral: «Boa pergunta!»]. A resposta do Mestre foi demolidora, invocando a táctica do quadrado e o espírito da padeira de Aljubarrota: «Não conheço, não invisto no espanhol», foi a imediata e extraordinária contra-argumentação do lusitano bolhense.
Outro tema interessante foi o suscitado pelo seguinte inquisidor, que quis saber o que achava o Mister acerca da «relação entre o futebol e o vinho». A resposta não defraudou as expectativas do grupo: «O futebol e o vinho têm uma relação muito profunda. Escolher um bom vinho é como construir uma grande equipa de futebol» [comentário lateral: «Foda-se, óh égua! Está bem visto…»]. Mas a “piéce de resistance” estava guardada para o final, tendo sido reservada a honra da última pergunta ao iniciado do Colectivo, que a todos assombrou ao referir que trazia ali uma questão sobre «coisas sérias». Qual? Nada menos que: «Sócrates ou Santana?». Tema que proporcionou ao Mestre uma demonstração inequívoca de toda a sua virtuosa sabedoria, na obediência pelos princípios do Supremo Equilíbrio Cósmico: «Nem um nem outro», respondeu o Grande Mister, acrescentando que não tem por hábito utilizar dildos e outros artefactos de apoio ao coito. «Porque não preciso», precisou, pondo fim ao centenário Sub-Rito das Perguntas. E, por ser verdade, assim aconteceu.

29/01/05

Arquivos do Porco: memória dos vinte e três dias de Dezembro do ano de noventa e nove

No dia 23 de Dezembro dos idos de 99, por oferta do Grande Bom (ex-Mau. não confundir com o Mau ex-Bom), o Porco comeu parte de um seu semelhante: aviámos numa noite a pata de um porco negro, cortado com requintes de sadismo canibalesco em finíssimas fatias. Inigualável, aquele saudoso Pata Negra. Mais inigualável ainda porque acompanhado por um Vega Sicilia de 86. Nada mais nada menos do que o melhor vinho que o Porco já bebeu e um dos melhores vinhos de sempre.

A prová-lo, o jornal El Mundo, de 31 de Dezembro de 2004 dava conta do record alcançado na venda de um Magnum de três litros: 65000 dólares! Eu repito: 65000 dólares! Por extenso: sessenta e cinco mil dólares! Por extenso e em maiúsculas: SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES! SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES, CARALHO! 3 litros daquele vinhão foram vendidos por 65000 dólares! E nós já bebemos daquilo! Uma 0,75, é certo, mas bebemos, é muito provável que cá pelo meio das minhas entranhas ainda circule uma molécula perdida, um vaporzito esquecido por entre as fissuras do fígado dessa magnífica bebida que acabou de ser vendida por um preço record! 65000 dólares! A prová-lo está a notícia do El Mundo. Clicar na imagem para ver a notícia completa (foto pesada)


23/01/05

Fitas de Ménes, por J Pimenta

A propósito desta rapaziada que emborca vinho fino, fuma charuto, coça os tomates entre um garfo de iconografia russa medieval e outro de Tom Waits e conversa aos gritos sobre gajas entre dois buchos recheados, lembrei-me dum poste que se calhar nem tem nada a ver mas não interessa. Se há coisa que mais se aproxima de um “Cinema Masculino”, com M grande, sem desprimor para os éfes, no sentido filosófico, histórico e telúrico de um Hemingway, por exemplo, será sem dúvida o Western, universo de homens por excelência. Tirando algumas excepções, como o Johny Guitar, de Nicholas Ray, ou A Desaparecida, de John Ford, as mulheres não passam de adereços que guincham, ou, quanto muito, de esposas ou noivas que, chorosas e resignadas, ficam para trás a cuidar do rancho enquanto o homem vai viver o filme. Ou então são putas.
O universo John Wayne é macho. Como macho é o universo de Jack London ou de Herman Melville no Moby Dick, obra prima sobre muitas coisas em torno de obsessões quiméricas eminentemente masculinas, como a vingança sangrenta e impiedosa (nas mulheres convencionou-se que é mais subtil, prato frio e cerebral) ou a supremacia, num cenário obrigatoriamente masculino, como era o dos baleeiros no século XIX, que resultou noutra pérola do cinema com a setinha para baixo: A obra de John Huston com o mesmo nome. Podia referir outras correntes, os filmes de guerra, por exemplo, ou quase todos os filmes embarcadiços, mas os casos anteriores creio que reflectem muito melhor a tal masculinidade existencial, a condição de se ser Homem. De se ser Homem só perante as forças adversas deste mundo e do outro, perante as suas ambições, deveres, dilemas terríveis, imperativos éticos, solenes, políticos, o destino de povos, desígnios maiores que o quotidiano. Aqui, as mulheres ou ficam a varrer a casa ou simplesmente não existem, nestes exemplos cinematográficos e literários que creio que exploram com mais intencionalidade, até, esse tipo de reflexão e contexto “homocêntrico”.
Mas tenho para mim que há dois, dois filmes seminais, que reflectem esta questão com uma profundidade e uma dimensão estética verdadeiramente ímpares e arrebatadores. Refiro-me a “Lawrence da Arábia”, de David Lean, e a “Dersu Uzala”, de Akira Kurosawa. Em ambos, mais no primeiro, se destaca numa primeira abordagem a quase completa inexistência de mulheres. Na história do major inglês T. E. Lawrence (Thomas Edward) filmada por Lean não há qualquer vestígio feminino marcante. Penso que a única vez que se vislumbram mulheres ao longo de todo o filme é, ao longe, um ruidoso grupo de beduínas vestidas de preto dos pés até aos pés e empoleirado nas encostas de um desfiladeiro árido, muito ao longe enquanto um exército de homens domina um majestoso plano aberto penetrando no deserto, ao encontro da sua missão de homens/guerreiros maiores que a vida. Com Lawrence à cabeça. A história - verídica mas nebulosa, deste aventureiro e oficial do exército britânico no Médio Oriente, figura controversa mas fascinante que viveu entre 1888 e 1935 e que, antes de ingressar na vida militar, fez arqueologia na Síria e no Egipto e se misturou com os locais, aprendeu a língua, os usos e os costumes dos árabes, lutou ao seu lado contra os turcos e o império Otomano, negociando o apoio das forças expedicionárias inglesas na região, nomeadamente financeiro – de Lawrence, como a do capitão Ahab, também é uma história de vingança, de um ódio mortal, sangrento e víril. A Moby Dick de Lawrence são os turcos (como se revela, por exemplo, na insana e cruel carga sobre uma coluna de tropas turcas destroçadas, indefesas e em fuga). Mas é também uma história de glória e de um homem só perante o seu destino. Ao lado das tribos do deserto que derrotaram os turcos em Tafila em 1918 e (re)tomaram Damasco, e integrando a delegação árabe à Conferência de Paz posterior, Lawrence inscreveu o seu nome na História, sendo uma das peças-chave no novo “desenho” político do Médio Oriente que dali emergiu e ainda hoje dá dores de cabeça a toda a gente. Grande parte da sua vida no deserto, de resto, está contada no seu livro “Os sete pilares da sabedoria”.
O superlativo filme de David Lean (mais ninguém filmou o deserto daquela maneira, nem mais ninguém o compôs tão bem como Maurice Jarre, numa banda sonora arrebatadora), ao contrário do de Kurosawa - que é uma história “assexuada” de homens perante a solidão, também perante a imensidão mas sobretudo perante a amizade - é um filme masculino, mas ao mesmo tempo de uma sensualidade extraordinária, explorando a dúbia e inconfessada condição sexual “desviante” de Lawrence, alegadamente homossexual e alegadamente violado por um oficial turco. Nada disto se vê mas tudo isto se sabe, ou adivinha, neste filme matreiro e subtil, escondido por detrás da sua grandiosidade, como a areia movediça dissimulada na vastidão desértica que engole um dos dois jovens criados pessoais de Lawrence, idealista, sim, mas também guerreiro impiedoso e calculista, mas destroçado pela morte do dilecto servidor beduíno. O filme de Lean tem, então a particularidade de ser masculino e quase erótico, com Peter O’Tolle compondo um extraordinário e dramático narciso egocêntrico e sensual, como são de uma sensualidade fantástica as cenas de Lawrence vestido com as longas túnicas brancas árabes, andando pelas lânguidas dunas do deserto tórrido como se desfilasse numa passagem de modelos e como se mil espelhos o contemplassem dizendo: és belo, és desejável, és poderoso.
Já “Dersu Uzala” (apresentado em português como “A águia da estepe”), também sendo um filme de grandes paisagens (decorre essencialmente nas frias planícies da Sibéria) é um objecto completamente diferente, constituindo sobretudo um comovente e poético (para mim o mais poético, intimista e despretensioso dos filmes de Kurosawa) ensaio sobre a dignidade humana, com base nos fortes e improváveis laços que se geram e acabam por unir para a vida dois homens oriundos de dois mundos completamente diferentes: um topógrafo militar moscovita (ou talvez de São Petesburgo, não me recordo exactamente), urbano e culto, e um simpático, experiente e rude caçador siberiano que acaba por lhe servir de guia naquela região inóspita. Este filme, de como o respeito mútuo pode quebrar barreiras culturais e outras, corresponde à fase de “exílio” de Kurosawa (após o fracasso no Japão do também superlativo “Dodesukaden”, que terá levado inclusive Kurosawa a tentar o suicídio em 1971) tendo sido rodado e produzido na ex-União Soviética, que acolheu e apoiou os projectos do cineasta, acabando por vencer em 1975 o Óscar para melhor filme estrangeiro. De uma dimensão quase diria ecologista (um crítico francês chamou-lhe mesmo um «poema ecológico»), inclusive na reflexão sobre o homem e o seu papel, o seu lugar, na grandeza natural das coisas, “Dersu Uzala” é baseado no livro de memórias do capitão Arseniev, o topógrafo que em 1902 teve como missão mapear a infinitude siberiana e tropeçou numa criatura estranha chamada Dersu Uzala, que aprendeu a amar e a respeitar, como em relação à Sibéria.

Ps: Este último foi, de resto, o filme que projectou Kurosawa, justamente, para o estrelato mundial. Depois de Dersu Uzala, e para felicidade dos cinéfilos, o realizador fez o que quis, com o apoio e a admiração conquistados em Hollywood e entre gente como Coppola ou George Lucas, que ficaram incondicionais da obra do japonês, tendo sido determinantes (financiando) na concretização do seguinte projecto de Kurosawa: O triunfal “Kagemusha” (“A sombra do Guerreiro”), obra-prima que venceu em 1980 a Palma de Ouro de Cannes.
Seria injusto não lembrar aqui que “Lawrence da Arábia”, uma das mais caras e grandiosas produções cinematográficas até à data (15 milhões de dólares era uma pipa de massa em 1962), mereceu em 1963 os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, melhor Banda Sonora, Fotografia, Direcção de Arte, Melhor Som e Melhor Montagem. Teve também nomeações para Melhor Actor e melhor Actor Secundário.

14/01/05

Seinfeld Quê?, por Automotora

Sem qualquer espécie de ironia, nunca percebi o fenómeno de popularidade do Seinfeld. Para mim o êxito da série é um fenómeno tão estranho como estar no Times Square rodeado de néons a publicitar os Batanetes. Consta até por aí que é o maior acontecimento televisivo desde que apareceu a primeira voz no écran a fazer “alô, alô, teste”, e estão mesmo a pensar substituir a Estátua da Liberdade pelo Seinfeld, acção que se irá espalhar por todas as regiões do planeta onde haja Cristos-Reis. Ora eu, sinceramente, não sei o que é que justifica isto tudo, tanto que parece que já estão a preparar um filme em Hollywood com a minha história. Vou ser o outro irmão autista do Tom Cruise. Bom, um dia sentei-me à frente do televisor, a tremer de emoção, e a pensar “vou ver o Seinfeld, vou ver o Seinfeld!”. Fui vendo, um, dois, três ou quatro episódios e bocados de outros (cada vez mais curtos). Este sistema de amostragem, meio aleatória, é mais do que suficiente para descobrir genialidades. Mas eu não vi nada, zero. É verdade que o Grunfo diz que tem lá um episódio que me vai converter, mas eu acho isso estranho, porque ninguém se lembraria de dizer “achas que o leitão está mal assado? Prova lá então este bocado”. Ora bem, comecemos então pelo conceito geral do fenómeno: Um apartamento, um café, três ou quatro gajos, incluindo o típico gordo de óculos, uma gaja, com um penteado esquisito, todos a mandar bocas uns aos outros, a zangarem-se e amigos para a vida inteira. Até aqui, temos a descrição de dezenas de outras sitcoms. É o lugar comum mais utilizado na televisão. Aliás, os personagens das sitcoms são mesmo obrigados por contrato a serem amigos para a vida, pelo menos durante o período que dura a série. É como diria o Vinicius: O Amor é eterno enquanto dura o contrato. O genro do Archie Bunker, por exemplo, foi obrigado a partilhar o mesmo espaço com o sogro durante anos, como se fossem amigos inseparáveis. E os fantoches também são obrigados a andar à porrada dentro de um pequeno teatrinho e não deslargam nunca. É uma exigência logística, digamos. Até aqui, não há originalidade nenhuma, portanto. Vamos lá então ver se acontece alguma coisa nos diálogos e nas situações, que é onde neste tipo formatado de sitcoms se pode fazer a diferença. Lembro-me deste, completamente hilariante, genial, até às lágrimas: Um gajo deixa a porta aberta do apartamento. Vem alguém e rouba uma televisão. Seinfeld diz ao outro: olha, eu tinha comprado uma fechadura nova e tudo. Mas acontece que para a fechadura funcionar a porta tinha que estar fechada! É o clic! Sai uma gargalhada do enlatado e o planeta sacode e muda a rota com o impacte das gargalhadas gerais! Eu só achei vagamente engraçado, o que imagino seja um crime de Lesa-Seinfeld. E pronto, de repente não me lembro de mais nenhuma cena... Eu, em matéria de humor sou mais da escola inglesa. Não falo sequer dos Monthy Python (de joelhos!). Vejam o Big Train, para mim o maior da última década, ou o Liga de Cavalheiros, o The Office, ou o Coupling, noutro registo, mais “americano”. Americanos mesmo, não perdia, por exemplo, o The King of Queens, que passou cá com o título parvo de Eu, Ela e o Pai, sem nada de especial ou original, mas com diálogos inteligentes e bem escritos que me faziam rir às gargalhadas. E não me puxem pela língua senão ponho-me aqui a falar dos Sopranos, esse grande clássico da máfia psicanalítica….não, deste acho que não falo. Prezo muito a amizade dos meus amigos.

12/01/05

Arquivos do Porco: o dia em que os Stones tocaram no meu quintal, por Couve Flor

Pois é verdade, quantas almas de entre vós, ó mortais, se podem gabar de ter tido os Rolling Stones a tocar no vosso quintal. Roam-se de inveja e fixem esta merda: OS ROLLING STONES TOCARAM NO MEU QUINTAL. hehehehe! Isto é, no Estádio Cidade de Coimbra, a escassa centena de metros da minha varanda.
Esse concerto, no dia 27 de Setembro de 2003, foi um dos momentos altos do Porco. O Porco esteve lá unido: Tinóni, Mangas, Mau, Nini, Vaice, Grunfo, JP e Moi. Tudo com as respectivas famílias. Uns foram para a bancada, outros para a linha da frente. Ali, onde se podiam ver as rugas do Mick Jagger, a careca do Charlie Watts, a sola das sapatilhas aceleradas do Ronnie Wood e o que resta do Keith Richards: a guitarra.
Em Agosto, o Vaice tinha ido de férias para Espanha onde tinha conduzido umas centenas de quilómetros, sob um calor insuportável, para assistir a um anunciado concerto dos Stones em Marbella. Aí chegado soube que Lord Jagger estava ligeiramente indisposto! O concerto foi adiado. Fosse outro que não Sua Alteza Real, Cavaleiro do Império, e o Vaice teria proferido impropérios capazes de arruinar a reputação a uma virgem. Mas afinal, sendo quem era, o caso era compreensível, elogiável até, e o Vaice limitou-se a fazer as mesmas centenas de quilómetros, agora de regresso, sem balbuciar, sem murmúrio ou blasfémia.
Chegados a Coimbra no final das férias, os jornais locais anunciam em primeira mão: «Rolling Stones vão tocar no novo estádio». Incrível, Jagger é Deus e Deus é o mensageiro das súplicas do Vaice. Ainda a tinta estava fresca na primeira página do «Calinas» e já a malta estava no posto da Galp à espera que a bilheteira abrisse. No dia do espectáculo, lá estávamos, na linha da frente. No final, o papel do alinhamento das canções veio ter às mãos do Vaice. Ei-lo agora revelado ao Mundo, aqui mesmo no Tapor, digitalizado no topo deste "post". Como uma relí­quia do Sagrado Lenho, qual ossada de santo, cabelo de mártir em relicário de prata, o Vaice depositou-mo nas mãos, envolto em protectora capa de plástico, para que o digitalizasse. Este mesmo papelinho que aos pés de Jagger & Richards lembrava o alinhamento das canções, este naco de papel onde os mitos pousaram os olhos e onde, quem sabe, até podem ter tocado com a ponta dos dedos, está aqui no Tapor. Até pode ser que um gafanhoto, um pingo de saliva jaggeriana tenha saltado daqueles lábios carnudos que revolucionaram os costumes ocidentais cantando arrastadamente e com desassombro escandaloso que o homem não conseguia ter satisfação, e aterrado nesta folha de papel A4 de 80 gramas. É possível. É este papel que está neste preciso momento entre as minhas mãos, passou pelo meu scanner (yessss!) e ficou digitalizado para, assim imaterializado, poder ser por vós comungado num elevado momento de misticismo eucarístico.