Este cartoon foi digitalizado a partir da «História de Portugal» dirigida por João Medina (vol. XVIII; p. 274). É um dos melhores cartoons que eu já vi. Uma economia minimalista no traço e tanto que fica dito. Foi publicado em Agosto de 1974. Em Portugal, corria o PREC. Em Espanha, Franco agonizava, mas a Ditadura lutava ainda desesperadamente por se manter. Portugal, que em tempo fora o alvo da cobiça franquista, primeiro, e depois o seu único aliado, era agora o palco de uma revolução que se temia pudesse contaminar a Espanha. Vir a Portugal era como frequentar um prostíbulo infectado. No mínimo, era pecado. O cartoon diz tudo: o poder da Igreja, a confissão, o pecado, o desejo de liberdade, a agonia desesperada do franquismo, a curiosidade sórdida do confessor, a moral hipócrita, o bolor da Espanha franquista, a subsidariedade do processo histórico na Península Ibérica. Do melhor!
Blog da RS.T - Real Esseponto do Tinto - Coimbra - Os Três Pastorinhos também bebiam o seu copito
18/02/05
16/02/05
Os Meninos Abandonados, por António Manuel
Um dia destes tive uma surpresa quando encontrei à venda numa tabacaria os livrinhos de contos da famosa Colecção Formiguinha, que tanto alegraram a minha infância. Pequenas histórias morais, para benefício de meninos e meninas, como então se dizia. Comprei logo dois: O Menino Grão de Milho, numa versão algo diferente da que a minha avó me contava (também é verdade que de cada vez que a minha avó me contava a história, e foram dezenas, a versão mudava) e Os Meninos Abandonados. Não resisto a transcrever esta última, já vão ver porquê:
Era uma vez um homem muito pobre, a quem Nosso Senhor dera muitos filhinhos Ora, acontece que, certa noite de Inverno, não tendo tido dinheiro para comprar boroa ou azeite com que a mulher fizesse o caldo, disse a esta, já quando aqueles estavam deitados: - Não tenho coragem para tornar a ver os nossos filhinhos cheios de fome.Assim, caso estejas de acordo, o melhor é levá-los comigo para o monte, quando for à lenha, e deixá-los lá. A mulher concordou, mas o filho mais novo, que ainda estava desperto, ouviu a conversa. Por isso, mal apanhou os pais a dormir, levantou-se e foi muito surrateiro a um ribeiro próximo da casa, de onde trouxe um punhado de seixinhos brancos. Ao outro dia, pela madrugada, o homem saiu com os filhos para o monte, e o mais novo foi espalhando os seixos pelo caminho. Arranca ramo aqui, apanha caruma acolá, e o dia passou-se. E, quando caiu a tardinha, o homem carregou parte da lenha e disse aos filhos que ficassem de guarda ao resto, pois não tardaria a buscá-los. Mas o tempo decorreu sem que ele voltasse E, fazendo-se noite, os meninos desataram a chorar, cheios de medo. – Ai, manos,- gemia um – se o pai demora, não tardará muito que os lobos nos comam! - Se antes não vierem as bruxas e nos levarem a cavalo na sua vassoira, para nos assar no forno – soluçava outro. Então, o mais novinho sossegou-os, afirmando: - Eu sei o caminho. E todos os irmãozitos se puseram a segui-lo, enquanto ele se guiava pelos seixinhos brancos. Deste modo, em breve chegaram a casa, cuja porta estava fechada. Mas, encostando o mais novo a orelha ao buraco da fechadura, ouviu dizer: - que caldinho tão bom, meu homem! Só tenho pena de não ter comigo os nossos filhos, para lho dar. Quem sabe lá o que terá sido feito deles? Corta-se-me o coração ao pensar nisso… - estou aqui, mãezinha! – Gritou então o menino. A mãe abriu a porta e essa noite foi de grande alegria para todos. Não tardou, porém, que a pobreza crescesse E, por isso, o homem combinou outra vez com a mulher abandonar os filhos no monte. De novo, o pequenito ouviu tudo, mas como chovesse muito e, portanto, não lhe fosse possivel ir ao ribeiro, dirigiu-se à talhazinha dos tremoços e encheu uma algibeira deles. Pela manhã, seguiram todos para o monte e, á medida que caminhavam, o menino ia lançando fora os tremoços Os pássaros andavam, contudo, também esfomeados. Por conseguinte deram neles. Assim, quando à noite o pai o deixou e aos irmãos, ele não pôde encontrar o caminho, sucedendo perderem-se (…)”.
Bom, e assim continua o relato em outras tantas linhas. Resumindo, os miúdos acabam por ir ter a casa de um gigante que come criancinhas, conseguem fugir, enriquecem ao serviço de um rei, voltam para casa e tudo acaba bem, de acordo com narrador. Eu não sei é como pode acabar bem uma história com uma família tão disfuncional. Reparem: os pais resolvem abandonar os filhos num monte com o argumento estapafúrdio de que não os queriam ver com fome. E abandonam-nos duas vezes! Os filhos, coitados, que parecem sofrer de um certo atraso mental, à excepção talvez do mais novo, tudo fazem, por sua vez, para serem aceites de volta pelos pais, sem grande sucesso. Ora vejam bem o que diz a mãe ao jantar: “que caldinho tão bom, meu homem”. É claro que ao mesmo tempo vai temperando o caldo com umas lágrimas de crocodilo pelos filhos. Quer dizer, aqueles pais, em vez de dar o caldinho aos filhos, paparam-no eles e ainda tiveram coragem para o saborear, elogiando o seu tempero, quiçá dando estalidos com a lingua, sabendo que os filhos estavam num monte, ao frio e à mercê dos lobos e dos seus medos típicos de idiotas subalimentados. Volto a citar, para arrepio geral: “Que caldinho tão bom, meu homem”. Crudelíssima, esta transferência de afectividade dos filhos para o caldinho. E lembram-se que dizia o narrador, talvez cúmplice na ignomínia, que não havia dinheiro para a boroa e o azeite? Como ficamos, então? E porque não foram eles caçar aqueles pássaros que comeram os tremoços aos rapazitos? Esfomeados como andavam, seria fácil apanhá-los, não? E com os próprios tremoços não se faria um saboroso paté? A história não conta, mas aqueles pais devem ter acabado a noite num colchão de penas das galinhas com que fizeram o caldinho, a gemer lubricamente: “que fellatio tão bom, meu homem”. Agora, pergunto: Como terão crescido aqueles miúdos? Que respeito lhes merecem aqueles pais? Como poderão estes exigir protecção aos filhos na sua velhice? Nenhum, está bem de ver. Parece que estou a ouvir os rapazolas: “Que caldinho tão bom, ó manos! Pena que os nossos pais estejam no monte à mercê dos lobos e das bruxas! Hehehe”. E que efeito terá tido esta história na mentalidade dos que a leram? Como é que me terá afectado a mim? E a história da Menina dos Fósforos, retrato cruel da exploração infantil na industria fosforeira?
Era uma vez um homem muito pobre, a quem Nosso Senhor dera muitos filhinhos Ora, acontece que, certa noite de Inverno, não tendo tido dinheiro para comprar boroa ou azeite com que a mulher fizesse o caldo, disse a esta, já quando aqueles estavam deitados: - Não tenho coragem para tornar a ver os nossos filhinhos cheios de fome.Assim, caso estejas de acordo, o melhor é levá-los comigo para o monte, quando for à lenha, e deixá-los lá. A mulher concordou, mas o filho mais novo, que ainda estava desperto, ouviu a conversa. Por isso, mal apanhou os pais a dormir, levantou-se e foi muito surrateiro a um ribeiro próximo da casa, de onde trouxe um punhado de seixinhos brancos. Ao outro dia, pela madrugada, o homem saiu com os filhos para o monte, e o mais novo foi espalhando os seixos pelo caminho. Arranca ramo aqui, apanha caruma acolá, e o dia passou-se. E, quando caiu a tardinha, o homem carregou parte da lenha e disse aos filhos que ficassem de guarda ao resto, pois não tardaria a buscá-los. Mas o tempo decorreu sem que ele voltasse E, fazendo-se noite, os meninos desataram a chorar, cheios de medo. – Ai, manos,- gemia um – se o pai demora, não tardará muito que os lobos nos comam! - Se antes não vierem as bruxas e nos levarem a cavalo na sua vassoira, para nos assar no forno – soluçava outro. Então, o mais novinho sossegou-os, afirmando: - Eu sei o caminho. E todos os irmãozitos se puseram a segui-lo, enquanto ele se guiava pelos seixinhos brancos. Deste modo, em breve chegaram a casa, cuja porta estava fechada. Mas, encostando o mais novo a orelha ao buraco da fechadura, ouviu dizer: - que caldinho tão bom, meu homem! Só tenho pena de não ter comigo os nossos filhos, para lho dar. Quem sabe lá o que terá sido feito deles? Corta-se-me o coração ao pensar nisso… - estou aqui, mãezinha! – Gritou então o menino. A mãe abriu a porta e essa noite foi de grande alegria para todos. Não tardou, porém, que a pobreza crescesse E, por isso, o homem combinou outra vez com a mulher abandonar os filhos no monte. De novo, o pequenito ouviu tudo, mas como chovesse muito e, portanto, não lhe fosse possivel ir ao ribeiro, dirigiu-se à talhazinha dos tremoços e encheu uma algibeira deles. Pela manhã, seguiram todos para o monte e, á medida que caminhavam, o menino ia lançando fora os tremoços Os pássaros andavam, contudo, também esfomeados. Por conseguinte deram neles. Assim, quando à noite o pai o deixou e aos irmãos, ele não pôde encontrar o caminho, sucedendo perderem-se (…)”.
Bom, e assim continua o relato em outras tantas linhas. Resumindo, os miúdos acabam por ir ter a casa de um gigante que come criancinhas, conseguem fugir, enriquecem ao serviço de um rei, voltam para casa e tudo acaba bem, de acordo com narrador. Eu não sei é como pode acabar bem uma história com uma família tão disfuncional. Reparem: os pais resolvem abandonar os filhos num monte com o argumento estapafúrdio de que não os queriam ver com fome. E abandonam-nos duas vezes! Os filhos, coitados, que parecem sofrer de um certo atraso mental, à excepção talvez do mais novo, tudo fazem, por sua vez, para serem aceites de volta pelos pais, sem grande sucesso. Ora vejam bem o que diz a mãe ao jantar: “que caldinho tão bom, meu homem”. É claro que ao mesmo tempo vai temperando o caldo com umas lágrimas de crocodilo pelos filhos. Quer dizer, aqueles pais, em vez de dar o caldinho aos filhos, paparam-no eles e ainda tiveram coragem para o saborear, elogiando o seu tempero, quiçá dando estalidos com a lingua, sabendo que os filhos estavam num monte, ao frio e à mercê dos lobos e dos seus medos típicos de idiotas subalimentados. Volto a citar, para arrepio geral: “Que caldinho tão bom, meu homem”. Crudelíssima, esta transferência de afectividade dos filhos para o caldinho. E lembram-se que dizia o narrador, talvez cúmplice na ignomínia, que não havia dinheiro para a boroa e o azeite? Como ficamos, então? E porque não foram eles caçar aqueles pássaros que comeram os tremoços aos rapazitos? Esfomeados como andavam, seria fácil apanhá-los, não? E com os próprios tremoços não se faria um saboroso paté? A história não conta, mas aqueles pais devem ter acabado a noite num colchão de penas das galinhas com que fizeram o caldinho, a gemer lubricamente: “que fellatio tão bom, meu homem”. Agora, pergunto: Como terão crescido aqueles miúdos? Que respeito lhes merecem aqueles pais? Como poderão estes exigir protecção aos filhos na sua velhice? Nenhum, está bem de ver. Parece que estou a ouvir os rapazolas: “Que caldinho tão bom, ó manos! Pena que os nossos pais estejam no monte à mercê dos lobos e das bruxas! Hehehe”. E que efeito terá tido esta história na mentalidade dos que a leram? Como é que me terá afectado a mim? E a história da Menina dos Fósforos, retrato cruel da exploração infantil na industria fosforeira?
04/02/05
Mas afinal, o que está uma puta a fazer no Panteão? por Grande Empernador
Se algum nacionalista místico-casticista, dos muitos que por aí grassam, se acha ainda membro participante dessa merdunça alienante a que o romantismo oitocentista chamou alma nacional, o que quer que isso seja, e que presuntivamente se expressa através de coisas tão vagas - tais como, uma alma lírica, um espírito universalista, uma mentalidade sebastianista e messiânica, costumes brandos, etc. etc. - e que tem como uma das formas preferenciais de expressão o fado, pois fique sabendo que, no que ao fado concerne, tem alma de puta! Por outras palavras: se o fado é a canção nacional pela qual se expressa o espírito místico da nação, então, eu lamento que a Nação se exprima como uma Puta! Esqueçam as larachas sentimentalistas que mitificam as origens do fado com umas nebulosas raízes mouriscas, esqueçam a patranhada que relaciona o fado com o cantar dos trovadores medievais, esqueçam as histórias que metem guitarradas e fadistas nos escombros de Alcácer Quibir ou a bordo das caravelas, esqueçam as origens remotas. Na verdade, a coisa é muito mais simples: o fado tem pouco mais de cem anos e é canção de putas e rufias. Veio do Brasil, onde a cultura afro-ameríndia produziu o lundum, dança brejeira e erótica cheia de empernanços, apalpadelas, pernas a roçar, etc. e etc. A gente sabe como é! Quando me lembro de um funaná dançado com uma mulata na festa dos estudantes caboverdianos ainda fico com tusa, apesar de muita água já ter passado debaixo das pontes! Punha-se um vinil da Cesária, do Ildo Lobo, do Travadinha ou lá o que era e depois juntavam-se os pares. A minha moça, boa como o milho, metia-me a perna no meio das coxas e o joelho roçava-me os tomates. E lá ia eu, dalalim dalalum com o escroto a coçar-lhe o joelho, dalalum para lá, dalalim para cá. Depois era a minha vez e sentia-lhe os grandes lábios a espreguiçarem-se no meu recto femoral. Dava um pau do caralho! Se eu fosse Inquisidor é claro que proibia. Se fosse puritano espreitava, se fosse depravado metia-me ao barulho, se fosse nacionalista aproveitava a música. Quer dizer, Amália é assim como prima de Cesária. Do Brasil, esta pouca vergonha saltou para as tascas de Lisboa pela mão dos marinheiros. Por entre naifadas, putedo, copos de vinho, rufias, brigas, estivadores, fumo, álcool e alguns petiscos, cantava-se o fado. A Severa foi o primeiro grande mito. Amante do conde de Vimioso foi retratada por Malhoa como antítese da Clara. Dentro desta estética naturalista, a Severa, com o seu proxeneta, num ambiente peumbroso de tasca, era o símbolo da decadência moral e física da raça portuguesa. A regeneração viria do mundo rural, onde as virtudes se conservavam intactas e saudáveis. É claro que este maniqueísmo simplista frutificaria. O fado cantava-se nas hortas, durantes os passeios pelos arredores de Lisboa e, lentamente, a boémia aristocrática começou a interessar-se por putas. Do interesse pelas putas veio o gosto do fado. E a pouco e pouco o fado foi ganhando dignidade social. Não tarda, as meninas de família começarão a cantar fado acompanhado ao piano, os meninos de família vão para Coimbra e dão roupagem erudita ao fado. No final, a Amália acaba no Panteão nacional, depois de ter tornado a canção em símbolo da alma nacional. Pelo que o título deste post se justifica plenamente. Sem ofensa pela Senhora Dona Amália (se houver por aí alguém capaz de me explicar porque razão nos devemos referir à Amália Rodrigues como Senhora Dona Amália, eu cá agradecia, 'brigadinhos) Pelo meio, a nossa aristocracia, uma das vergonhas nacionais popularizou-se e começou a achar piada ao fado. Teresa de Noronha terá sido o expoente de uma tradição que persiste com Pinto Basto e o clã dos Câmara Pereira. Fado fino, sem putas e com muita mística nacionalista. Canta-se a Virgem tal como os estudantes de Coimbra cantam as tricanas e os arrebatadíssimos amores de estudante. Claro que, aqui chegados, as origens do fado devem esconder-se. Como não há glória sem genealogia, escondidas as verdadeiras origens, há necessidade de inventar umas. E daí vem a patranhada do costume: D. Sebastião, caravelas, fatalismo mourisco, jograis, trovadores e etc. Eu, por mim, gosto desta alma de puta. Embora deteste o fado e a sua corte de merdosos: os aristocratas, o Carlos do Carmo o Paulo Bragança, o Marceneiro e essa cocozada toda. Gosto da Senhora Dona Amália, acho-a genial. Acho que não devia estar no Panteão porque aqueles anormais todos não são dignos de estar ao pé da Senhora Dona Amália. Devíamos fazer um monumento especial para a senhora dona Amália. A minha ideia é um altar num bordel com a senhora dona Amália abraçada ao Santo António do Rafael Bordalo Bordalo. Fotografava e punha na bandeira nacional!
Quem quiser ler mais, leia o excelente livro de Rui Vieira Nery publicado pelo «Público», cuja capa se reproduz. Silêncio agora, que se vai cantar o fado!
Quem quiser ler mais, leia o excelente livro de Rui Vieira Nery publicado pelo «Público», cuja capa se reproduz. Silêncio agora, que se vai cantar o fado!
03/02/05
Reportagem, por Jaquim de Zurrara
«Quem usa boina é porque tem frio na cabeça»
As espantosas declarações que dão título a este relato foram obtidas pela nossa reportagem numa ocasião verdadeiramente excepcional. Por dois leitões e uma entrevista exclusiva fomos até ao fim do mundo, passámos para lá do fim da rua. Num raro momento de abertura, os Senhores dos Tonéis, Núcleo Duro e Braço Armado da misteriosa Real Satânica do Tinto, acederam a revelar ao grande público alguns dos seus hábitos e ritos. Sob rigorosas condições de sigilo, o repórter conseguiu finalmente penetrar numa das mais antigas organizações secretas do distrito de Coimbra, na sua peregrinação secreta ao Templo do Bolho. Permitiu esclarecer alguns enigmas, mas muito ficou ainda por descobrir. De resto, para o autor destas linhas, a própria localização do Bolho continua secreta, depois de horas às curvas por entre a bruma e estradas e caminhos irreconhecíveis, algures nas labirínticas entranhas da Bairrada, tendo, inclusive, o Membro do Movimento que nos conduziu ao Templo encenado ter-se perdido no sentido de ser impossível ao repórter reconstituir o percurso.
O carácter clandestino da Organização e da própria povoação onde teve lugar a Cerimónia, é realçado, de resto, pela data mística em que se realizou a Celebração, 28 de Janeiro, dia de São Tomás de Aquino, Presbítero e Doutor da Igreja e, como são todos os dias 28 de todos os meses, Dia do Arcanjo da Terra, como descobriu a nossa investigação numa publicação igualmente secreta e misteriosa, o Borda D’Água (“Reportório útil a toda a gente”).
Afinal, tratava-se de um acontecimento de magna importância para a Entidade, em plena Época Oficial do Plantio do Centeio da Couve Galega dos Nabos das Nabiças dos Rabanetes da Salsa e do Tomate. Mas sobretudo porque nessa noite se iriam definir hierarquias no centenário Grémio, mediante o teste da exigente Prova Cega dos Vinhos, liturgia de que se abstém o repórter de pormenorizar de tão insondável. As bombásticas declarações constituem, enfim, as primeiras palavras secretas do novo Mestre Cósmico do Tinto, que renova o mandato e a vantagem na liderança da Organização. Mais uma vez a honraria ficou na misteriosa terra anfitriã do Acontecimento, cabendo o Supremo Avental ao elemento bolhense, que adiantou desde logo à nossa reportagem, em jeito de promessa, que gostaria de ver a Cicciolina no lugar de ponta-de-lança. «Ponta de lança», afirmou categórico o novo Mister, que ofertou o repórter no final da cerimónia com três tangerinas, gesto altamente simbólico e respeitado entre Os Membros.
Até chegarmos às famosas primeiras palavras oficiais do líder, no entanto, este teve de superar uma competição impiedosa perante os restantes 12 comensais/competidores (o que perfaz, como poderá o leitor notar o Total perfeito e mais uma vez altamente simbólico de 13). Como nos concílios para a escolha do Papa, o ambiente é solene mas de grande tensão. A riqueza e a amplitude do debate, ao proceder-se à análise dos oito néctares em prova, não impede uma enorme agressividade competitiva e um intenso jogo de bastidores, não sendo raras públicas acusações de sinistros conluios e obscuras alianças de circunstância. A harmonia dos 13, apesar de firme nos propósitos, não resiste ao stress da escolha e da responsabilidade. «O processo está inquinado!», proclamava, alto e bom som, um dos Elementos no início da Prova, pondo irremediavelmente em questão a transparência do concurso e dando azo a uma constante troca de acusações entre indivíduos ou facções, acabando por favorecer, no entanto, uma dialéctica agressiva mas enriquecedora. Principalmente no episódio em que o Mestre é frontalmente questionado por um dos 13, acerca de um dos “tabus” desta celebração especial por alturas de vacinar porcos contra as doenças rubras: Comer ou não comer durante a Prova? Antecipando os dois bácoros bairradinos, amais o fiel Sarrabulho, um dos Elementos afrontou severo a mesa e disse, silenciando os presentes: «Esta merda não é nenhuma competição oficial foda-se, só não se come porque tu não gostas, caralho». Apesar da violenta troca de argumentos em torno da mesa, impassível na senda vitoriosa, o Mestre escutou atento mas lacónico os reparos dos seus pares. Ao centro, as oito garrafas em juízo, aguardando fumo branco.
O estado de espírito dos contendores reflectia, sublinhe-se, a própria complexidade do evento, claramente reflectida em pareceres que se iam escutando como «um tom violeta, quase verde», ou «um travo banana com manteiga», frases que traduzem a extraordinária minúcia da análise.
No fim, ganhou quem mereceu e não ganhou o vinho mais caro, pormenores que deixo para divulgação oficial do grémio satânico. A entrevista ao porco tricampeão decorreu precisamente no final da cerimónia, submetendo-se este, magnânimo, ao interrogatório dos demais confrades que, democraticamente, fizeram cada um sua pergunta ao mestre bolhense. Desde logo, e significativamente, o Supremo Méne revelou que se fosse treinador do Chelsea contratava imediatamente «o Manuel Fernandes, do Benfica». Bombástico, como discurso inaugural, mas mais maravilhamento estava reservado aos presentes. À pergunta «em termos tácticos, o que é que achas que o Trapatoni tem falhado no Benfica?», não deixou créditos por mãos alheias, ajeitou as costas para trás no seu cadeirão à cabeceira da mesa e disse, com rosto solene nas pausas e serenidade nas interrupções: «Opá, tem falhado muita coisa. Do ponto de vista táctico acho que ele ainda não afirmou um modelo de jogo para aquela equipa, modelo de jogo… Agora, o que é que eu preconizo?... Acho que ele tem de trabalhar mais, acho que é um treinador ultrapassado em termos da metodologia do treino, a equipa não corresponde em termos de modelo de jogo aquilo que ele pretende, porque acho que não trabalha…Do ponto de vista mental também acho que… [comentários laterais: «dá um prato ao gajo, parece uma alma penada!...», «está calado caralho!», «atenção, pá, deixem o homem falar… A sério, isto é uma brincadeira séria…»] … E penso que o Benfica este ano não vai ganhar o campeonato», afirmou convicto, deixando a todos rendidos na sala.
Bem mais importantes revelações, como a de qual vai ser a equipa vencedora da Super Liga, o nome do futuro campeão, entretanto, foram escamoteadas graças à incompetência ou à perfídia do Membro a quem coube a tutela do gravador, retirado ao repórter, impedido de intervir neste sub-rito. A parte do nome do clube, de facto, não ficou registada, mas não se perdeu a fundamentação, tornado as seguintes declarações num verdadeiro enigma gnóstico para os vindouros: «… Vai ganhar o campeonato porque é a equipa com o modelo de jogo mais organizado, mais coerente, mais consciente… Vai ganhar o campeonato». E está lançado o Mistério. Maior desafio foi porventura a questão seguinte, de um Elemento particularmente sagaz: «Dos treinadores da I Divisão quantos é que já trouxeste aqui ao Bolho?». A resposta esteve à altura da lógica tortuosa do interrogador: «Nenhum!», declarou o Mestre com determinação.
A demanda mais vil e complexa, no entanto, proveio do Membro espanhol da Confraria, que manifestou, mais em jeito de provocação que de pergunta: «Ganhar, ganha-se facilmente com vinhos portugueses, o difícil aqui é ganhar com vinhos espanhóis. Quando é que ganhas com vinhos espanhóis?» [comentário lateral: «Boa pergunta!»]. A resposta do Mestre foi demolidora, invocando a táctica do quadrado e o espírito da padeira de Aljubarrota: «Não conheço, não invisto no espanhol», foi a imediata e extraordinária contra-argumentação do lusitano bolhense.
Outro tema interessante foi o suscitado pelo seguinte inquisidor, que quis saber o que achava o Mister acerca da «relação entre o futebol e o vinho». A resposta não defraudou as expectativas do grupo: «O futebol e o vinho têm uma relação muito profunda. Escolher um bom vinho é como construir uma grande equipa de futebol» [comentário lateral: «Foda-se, óh égua! Está bem visto…»]. Mas a “piéce de resistance” estava guardada para o final, tendo sido reservada a honra da última pergunta ao iniciado do Colectivo, que a todos assombrou ao referir que trazia ali uma questão sobre «coisas sérias». Qual? Nada menos que: «Sócrates ou Santana?». Tema que proporcionou ao Mestre uma demonstração inequívoca de toda a sua virtuosa sabedoria, na obediência pelos princípios do Supremo Equilíbrio Cósmico: «Nem um nem outro», respondeu o Grande Mister, acrescentando que não tem por hábito utilizar dildos e outros artefactos de apoio ao coito. «Porque não preciso», precisou, pondo fim ao centenário Sub-Rito das Perguntas. E, por ser verdade, assim aconteceu.
As espantosas declarações que dão título a este relato foram obtidas pela nossa reportagem numa ocasião verdadeiramente excepcional. Por dois leitões e uma entrevista exclusiva fomos até ao fim do mundo, passámos para lá do fim da rua. Num raro momento de abertura, os Senhores dos Tonéis, Núcleo Duro e Braço Armado da misteriosa Real Satânica do Tinto, acederam a revelar ao grande público alguns dos seus hábitos e ritos. Sob rigorosas condições de sigilo, o repórter conseguiu finalmente penetrar numa das mais antigas organizações secretas do distrito de Coimbra, na sua peregrinação secreta ao Templo do Bolho. Permitiu esclarecer alguns enigmas, mas muito ficou ainda por descobrir. De resto, para o autor destas linhas, a própria localização do Bolho continua secreta, depois de horas às curvas por entre a bruma e estradas e caminhos irreconhecíveis, algures nas labirínticas entranhas da Bairrada, tendo, inclusive, o Membro do Movimento que nos conduziu ao Templo encenado ter-se perdido no sentido de ser impossível ao repórter reconstituir o percurso.
O carácter clandestino da Organização e da própria povoação onde teve lugar a Cerimónia, é realçado, de resto, pela data mística em que se realizou a Celebração, 28 de Janeiro, dia de São Tomás de Aquino, Presbítero e Doutor da Igreja e, como são todos os dias 28 de todos os meses, Dia do Arcanjo da Terra, como descobriu a nossa investigação numa publicação igualmente secreta e misteriosa, o Borda D’Água (“Reportório útil a toda a gente”).
Afinal, tratava-se de um acontecimento de magna importância para a Entidade, em plena Época Oficial do Plantio do Centeio da Couve Galega dos Nabos das Nabiças dos Rabanetes da Salsa e do Tomate. Mas sobretudo porque nessa noite se iriam definir hierarquias no centenário Grémio, mediante o teste da exigente Prova Cega dos Vinhos, liturgia de que se abstém o repórter de pormenorizar de tão insondável. As bombásticas declarações constituem, enfim, as primeiras palavras secretas do novo Mestre Cósmico do Tinto, que renova o mandato e a vantagem na liderança da Organização. Mais uma vez a honraria ficou na misteriosa terra anfitriã do Acontecimento, cabendo o Supremo Avental ao elemento bolhense, que adiantou desde logo à nossa reportagem, em jeito de promessa, que gostaria de ver a Cicciolina no lugar de ponta-de-lança. «Ponta de lança», afirmou categórico o novo Mister, que ofertou o repórter no final da cerimónia com três tangerinas, gesto altamente simbólico e respeitado entre Os Membros.
Até chegarmos às famosas primeiras palavras oficiais do líder, no entanto, este teve de superar uma competição impiedosa perante os restantes 12 comensais/competidores (o que perfaz, como poderá o leitor notar o Total perfeito e mais uma vez altamente simbólico de 13). Como nos concílios para a escolha do Papa, o ambiente é solene mas de grande tensão. A riqueza e a amplitude do debate, ao proceder-se à análise dos oito néctares em prova, não impede uma enorme agressividade competitiva e um intenso jogo de bastidores, não sendo raras públicas acusações de sinistros conluios e obscuras alianças de circunstância. A harmonia dos 13, apesar de firme nos propósitos, não resiste ao stress da escolha e da responsabilidade. «O processo está inquinado!», proclamava, alto e bom som, um dos Elementos no início da Prova, pondo irremediavelmente em questão a transparência do concurso e dando azo a uma constante troca de acusações entre indivíduos ou facções, acabando por favorecer, no entanto, uma dialéctica agressiva mas enriquecedora. Principalmente no episódio em que o Mestre é frontalmente questionado por um dos 13, acerca de um dos “tabus” desta celebração especial por alturas de vacinar porcos contra as doenças rubras: Comer ou não comer durante a Prova? Antecipando os dois bácoros bairradinos, amais o fiel Sarrabulho, um dos Elementos afrontou severo a mesa e disse, silenciando os presentes: «Esta merda não é nenhuma competição oficial foda-se, só não se come porque tu não gostas, caralho». Apesar da violenta troca de argumentos em torno da mesa, impassível na senda vitoriosa, o Mestre escutou atento mas lacónico os reparos dos seus pares. Ao centro, as oito garrafas em juízo, aguardando fumo branco.
O estado de espírito dos contendores reflectia, sublinhe-se, a própria complexidade do evento, claramente reflectida em pareceres que se iam escutando como «um tom violeta, quase verde», ou «um travo banana com manteiga», frases que traduzem a extraordinária minúcia da análise.
No fim, ganhou quem mereceu e não ganhou o vinho mais caro, pormenores que deixo para divulgação oficial do grémio satânico. A entrevista ao porco tricampeão decorreu precisamente no final da cerimónia, submetendo-se este, magnânimo, ao interrogatório dos demais confrades que, democraticamente, fizeram cada um sua pergunta ao mestre bolhense. Desde logo, e significativamente, o Supremo Méne revelou que se fosse treinador do Chelsea contratava imediatamente «o Manuel Fernandes, do Benfica». Bombástico, como discurso inaugural, mas mais maravilhamento estava reservado aos presentes. À pergunta «em termos tácticos, o que é que achas que o Trapatoni tem falhado no Benfica?», não deixou créditos por mãos alheias, ajeitou as costas para trás no seu cadeirão à cabeceira da mesa e disse, com rosto solene nas pausas e serenidade nas interrupções: «Opá, tem falhado muita coisa. Do ponto de vista táctico acho que ele ainda não afirmou um modelo de jogo para aquela equipa, modelo de jogo… Agora, o que é que eu preconizo?... Acho que ele tem de trabalhar mais, acho que é um treinador ultrapassado em termos da metodologia do treino, a equipa não corresponde em termos de modelo de jogo aquilo que ele pretende, porque acho que não trabalha…Do ponto de vista mental também acho que… [comentários laterais: «dá um prato ao gajo, parece uma alma penada!...», «está calado caralho!», «atenção, pá, deixem o homem falar… A sério, isto é uma brincadeira séria…»] … E penso que o Benfica este ano não vai ganhar o campeonato», afirmou convicto, deixando a todos rendidos na sala.
Bem mais importantes revelações, como a de qual vai ser a equipa vencedora da Super Liga, o nome do futuro campeão, entretanto, foram escamoteadas graças à incompetência ou à perfídia do Membro a quem coube a tutela do gravador, retirado ao repórter, impedido de intervir neste sub-rito. A parte do nome do clube, de facto, não ficou registada, mas não se perdeu a fundamentação, tornado as seguintes declarações num verdadeiro enigma gnóstico para os vindouros: «… Vai ganhar o campeonato porque é a equipa com o modelo de jogo mais organizado, mais coerente, mais consciente… Vai ganhar o campeonato». E está lançado o Mistério. Maior desafio foi porventura a questão seguinte, de um Elemento particularmente sagaz: «Dos treinadores da I Divisão quantos é que já trouxeste aqui ao Bolho?». A resposta esteve à altura da lógica tortuosa do interrogador: «Nenhum!», declarou o Mestre com determinação.
A demanda mais vil e complexa, no entanto, proveio do Membro espanhol da Confraria, que manifestou, mais em jeito de provocação que de pergunta: «Ganhar, ganha-se facilmente com vinhos portugueses, o difícil aqui é ganhar com vinhos espanhóis. Quando é que ganhas com vinhos espanhóis?» [comentário lateral: «Boa pergunta!»]. A resposta do Mestre foi demolidora, invocando a táctica do quadrado e o espírito da padeira de Aljubarrota: «Não conheço, não invisto no espanhol», foi a imediata e extraordinária contra-argumentação do lusitano bolhense.
Outro tema interessante foi o suscitado pelo seguinte inquisidor, que quis saber o que achava o Mister acerca da «relação entre o futebol e o vinho». A resposta não defraudou as expectativas do grupo: «O futebol e o vinho têm uma relação muito profunda. Escolher um bom vinho é como construir uma grande equipa de futebol» [comentário lateral: «Foda-se, óh égua! Está bem visto…»]. Mas a “piéce de resistance” estava guardada para o final, tendo sido reservada a honra da última pergunta ao iniciado do Colectivo, que a todos assombrou ao referir que trazia ali uma questão sobre «coisas sérias». Qual? Nada menos que: «Sócrates ou Santana?». Tema que proporcionou ao Mestre uma demonstração inequívoca de toda a sua virtuosa sabedoria, na obediência pelos princípios do Supremo Equilíbrio Cósmico: «Nem um nem outro», respondeu o Grande Mister, acrescentando que não tem por hábito utilizar dildos e outros artefactos de apoio ao coito. «Porque não preciso», precisou, pondo fim ao centenário Sub-Rito das Perguntas. E, por ser verdade, assim aconteceu.
29/01/05
Arquivos do Porco: memória dos vinte e três dias de Dezembro do ano de noventa e nove
No dia 23 de Dezembro dos idos de 99, por oferta do Grande Bom (ex-Mau. não confundir com o Mau ex-Bom), o Porco comeu parte de um seu semelhante: aviámos numa noite a pata de um porco negro, cortado com requintes de sadismo canibalesco em finíssimas fatias. Inigualável, aquele saudoso Pata Negra. Mais inigualável ainda porque acompanhado por um Vega Sicilia de 86. Nada mais nada menos do que o melhor vinho que o Porco já bebeu e um dos melhores vinhos de sempre.
A prová-lo, o jornal El Mundo, de 31 de Dezembro de 2004 dava conta do record alcançado na venda de um Magnum de três litros: 65000 dólares! Eu repito: 65000 dólares! Por extenso: sessenta e cinco mil dólares! Por extenso e em maiúsculas: SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES! SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES, CARALHO! 3 litros daquele vinhão foram vendidos por 65000 dólares! E nós já bebemos daquilo! Uma 0,75, é certo, mas bebemos, é muito provável que cá pelo meio das minhas entranhas ainda circule uma molécula perdida, um vaporzito esquecido por entre as fissuras do fígado dessa magnífica bebida que acabou de ser vendida por um preço record! 65000 dólares! A prová-lo está a notícia do El Mundo. Clicar na imagem para ver a notícia completa (foto pesada)
A prová-lo, o jornal El Mundo, de 31 de Dezembro de 2004 dava conta do record alcançado na venda de um Magnum de três litros: 65000 dólares! Eu repito: 65000 dólares! Por extenso: sessenta e cinco mil dólares! Por extenso e em maiúsculas: SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES! SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES, CARALHO! 3 litros daquele vinhão foram vendidos por 65000 dólares! E nós já bebemos daquilo! Uma 0,75, é certo, mas bebemos, é muito provável que cá pelo meio das minhas entranhas ainda circule uma molécula perdida, um vaporzito esquecido por entre as fissuras do fígado dessa magnífica bebida que acabou de ser vendida por um preço record! 65000 dólares! A prová-lo está a notícia do El Mundo. Clicar na imagem para ver a notícia completa (foto pesada)
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23/01/05
Fitas de Ménes, por J Pimenta
A propósito desta rapaziada que emborca vinho fino, fuma charuto, coça os tomates entre um garfo de iconografia russa medieval e outro de Tom Waits e conversa aos gritos sobre gajas entre dois buchos recheados, lembrei-me dum poste que se calhar nem tem nada a ver mas não interessa. Se há coisa que mais se aproxima de um “Cinema Masculino”, com M grande, sem desprimor para os éfes, no sentido filosófico, histórico e telúrico de um Hemingway, por exemplo, será sem dúvida o Western, universo de homens por excelência. Tirando algumas excepções, como o Johny Guitar, de Nicholas Ray, ou A Desaparecida, de John Ford, as mulheres não passam de adereços que guincham, ou, quanto muito, de esposas ou noivas que, chorosas e resignadas, ficam para trás a cuidar do rancho enquanto o homem vai viver o filme. Ou então são putas.
O universo John Wayne é macho. Como macho é o universo de Jack London ou de Herman Melville no Moby Dick, obra prima sobre muitas coisas em torno de obsessões quiméricas eminentemente masculinas, como a vingança sangrenta e impiedosa (nas mulheres convencionou-se que é mais subtil, prato frio e cerebral) ou a supremacia, num cenário obrigatoriamente masculino, como era o dos baleeiros no século XIX, que resultou noutra pérola do cinema com a setinha para baixo: A obra de John Huston com o mesmo nome. Podia referir outras correntes, os filmes de guerra, por exemplo, ou quase todos os filmes embarcadiços, mas os casos anteriores creio que reflectem muito melhor a tal masculinidade existencial, a condição de se ser Homem. De se ser Homem só perante as forças adversas deste mundo e do outro, perante as suas ambições, deveres, dilemas terríveis, imperativos éticos, solenes, políticos, o destino de povos, desígnios maiores que o quotidiano. Aqui, as mulheres ou ficam a varrer a casa ou simplesmente não existem, nestes exemplos cinematográficos e literários que creio que exploram com mais intencionalidade, até, esse tipo de reflexão e contexto “homocêntrico”.
Mas tenho para mim que há dois, dois filmes seminais, que reflectem esta questão com uma profundidade e uma dimensão estética verdadeiramente ímpares e arrebatadores. Refiro-me a “Lawrence da Arábia”, de David Lean, e a “Dersu Uzala”, de Akira Kurosawa. Em ambos, mais no primeiro, se destaca numa primeira abordagem a quase completa inexistência de mulheres. Na história do major inglês T. E. Lawrence (Thomas Edward) filmada por Lean não há qualquer vestígio feminino marcante. Penso que a única vez que se vislumbram mulheres ao longo de todo o filme é, ao longe, um ruidoso grupo de beduínas vestidas de preto dos pés até aos pés e empoleirado nas encostas de um desfiladeiro árido, muito ao longe enquanto um exército de homens domina um majestoso plano aberto penetrando no deserto, ao encontro da sua missão de homens/guerreiros maiores que a vida. Com Lawrence à cabeça. A história - verídica mas nebulosa, deste aventureiro e oficial do exército britânico no Médio Oriente, figura controversa mas fascinante que viveu entre 1888 e 1935 e que, antes de ingressar na vida militar, fez arqueologia na Síria e no Egipto e se misturou com os locais, aprendeu a língua, os usos e os costumes dos árabes, lutou ao seu lado contra os turcos e o império Otomano, negociando o apoio das forças expedicionárias inglesas na região, nomeadamente financeiro – de Lawrence, como a do capitão Ahab, também é uma história de vingança, de um ódio mortal, sangrento e víril. A Moby Dick de Lawrence são os turcos (como se revela, por exemplo, na insana e cruel carga sobre uma coluna de tropas turcas destroçadas, indefesas e em fuga). Mas é também uma história de glória e de um homem só perante o seu destino. Ao lado das tribos do deserto que derrotaram os turcos em Tafila em 1918 e (re)tomaram Damasco, e integrando a delegação árabe à Conferência de Paz posterior, Lawrence inscreveu o seu nome na História, sendo uma das peças-chave no novo “desenho” político do Médio Oriente que dali emergiu e ainda hoje dá dores de cabeça a toda a gente. Grande parte da sua vida no deserto, de resto, está contada no seu livro “Os sete pilares da sabedoria”.
O superlativo filme de David Lean (mais ninguém filmou o deserto daquela maneira, nem mais ninguém o compôs tão bem como Maurice Jarre, numa banda sonora arrebatadora), ao contrário do de Kurosawa - que é uma história “assexuada” de homens perante a solidão, também perante a imensidão mas sobretudo perante a amizade - é um filme masculino, mas ao mesmo tempo de uma sensualidade extraordinária, explorando a dúbia e inconfessada condição sexual “desviante” de Lawrence, alegadamente homossexual e alegadamente violado por um oficial turco. Nada disto se vê mas tudo isto se sabe, ou adivinha, neste filme matreiro e subtil, escondido por detrás da sua grandiosidade, como a areia movediça dissimulada na vastidão desértica que engole um dos dois jovens criados pessoais de Lawrence, idealista, sim, mas também guerreiro impiedoso e calculista, mas destroçado pela morte do dilecto servidor beduíno. O filme de Lean tem, então a particularidade de ser masculino e quase erótico, com Peter O’Tolle compondo um extraordinário e dramático narciso egocêntrico e sensual, como são de uma sensualidade fantástica as cenas de Lawrence vestido com as longas túnicas brancas árabes, andando pelas lânguidas dunas do deserto tórrido como se desfilasse numa passagem de modelos e como se mil espelhos o contemplassem dizendo: és belo, és desejável, és poderoso.
Já “Dersu Uzala” (apresentado em português como “A águia da estepe”), também sendo um filme de grandes paisagens (decorre essencialmente nas frias planícies da Sibéria) é um objecto completamente diferente, constituindo sobretudo um comovente e poético (para mim o mais poético, intimista e despretensioso dos filmes de Kurosawa) ensaio sobre a dignidade humana, com base nos fortes e improváveis laços que se geram e acabam por unir para a vida dois homens oriundos de dois mundos completamente diferentes: um topógrafo militar moscovita (ou talvez de São Petesburgo, não me recordo exactamente), urbano e culto, e um simpático, experiente e rude caçador siberiano que acaba por lhe servir de guia naquela região inóspita. Este filme, de como o respeito mútuo pode quebrar barreiras culturais e outras, corresponde à fase de “exílio” de Kurosawa (após o fracasso no Japão do também superlativo “Dodesukaden”, que terá levado inclusive Kurosawa a tentar o suicídio em 1971) tendo sido rodado e produzido na ex-União Soviética, que acolheu e apoiou os projectos do cineasta, acabando por vencer em 1975 o Óscar para melhor filme estrangeiro. De uma dimensão quase diria ecologista (um crítico francês chamou-lhe mesmo um «poema ecológico»), inclusive na reflexão sobre o homem e o seu papel, o seu lugar, na grandeza natural das coisas, “Dersu Uzala” é baseado no livro de memórias do capitão Arseniev, o topógrafo que em 1902 teve como missão mapear a infinitude siberiana e tropeçou numa criatura estranha chamada Dersu Uzala, que aprendeu a amar e a respeitar, como em relação à Sibéria.
Ps: Este último foi, de resto, o filme que projectou Kurosawa, justamente, para o estrelato mundial. Depois de Dersu Uzala, e para felicidade dos cinéfilos, o realizador fez o que quis, com o apoio e a admiração conquistados em Hollywood e entre gente como Coppola ou George Lucas, que ficaram incondicionais da obra do japonês, tendo sido determinantes (financiando) na concretização do seguinte projecto de Kurosawa: O triunfal “Kagemusha” (“A sombra do Guerreiro”), obra-prima que venceu em 1980 a Palma de Ouro de Cannes.
Seria injusto não lembrar aqui que “Lawrence da Arábia”, uma das mais caras e grandiosas produções cinematográficas até à data (15 milhões de dólares era uma pipa de massa em 1962), mereceu em 1963 os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, melhor Banda Sonora, Fotografia, Direcção de Arte, Melhor Som e Melhor Montagem. Teve também nomeações para Melhor Actor e melhor Actor Secundário.
O universo John Wayne é macho. Como macho é o universo de Jack London ou de Herman Melville no Moby Dick, obra prima sobre muitas coisas em torno de obsessões quiméricas eminentemente masculinas, como a vingança sangrenta e impiedosa (nas mulheres convencionou-se que é mais subtil, prato frio e cerebral) ou a supremacia, num cenário obrigatoriamente masculino, como era o dos baleeiros no século XIX, que resultou noutra pérola do cinema com a setinha para baixo: A obra de John Huston com o mesmo nome. Podia referir outras correntes, os filmes de guerra, por exemplo, ou quase todos os filmes embarcadiços, mas os casos anteriores creio que reflectem muito melhor a tal masculinidade existencial, a condição de se ser Homem. De se ser Homem só perante as forças adversas deste mundo e do outro, perante as suas ambições, deveres, dilemas terríveis, imperativos éticos, solenes, políticos, o destino de povos, desígnios maiores que o quotidiano. Aqui, as mulheres ou ficam a varrer a casa ou simplesmente não existem, nestes exemplos cinematográficos e literários que creio que exploram com mais intencionalidade, até, esse tipo de reflexão e contexto “homocêntrico”.
Mas tenho para mim que há dois, dois filmes seminais, que reflectem esta questão com uma profundidade e uma dimensão estética verdadeiramente ímpares e arrebatadores. Refiro-me a “Lawrence da Arábia”, de David Lean, e a “Dersu Uzala”, de Akira Kurosawa. Em ambos, mais no primeiro, se destaca numa primeira abordagem a quase completa inexistência de mulheres. Na história do major inglês T. E. Lawrence (Thomas Edward) filmada por Lean não há qualquer vestígio feminino marcante. Penso que a única vez que se vislumbram mulheres ao longo de todo o filme é, ao longe, um ruidoso grupo de beduínas vestidas de preto dos pés até aos pés e empoleirado nas encostas de um desfiladeiro árido, muito ao longe enquanto um exército de homens domina um majestoso plano aberto penetrando no deserto, ao encontro da sua missão de homens/guerreiros maiores que a vida. Com Lawrence à cabeça. A história - verídica mas nebulosa, deste aventureiro e oficial do exército britânico no Médio Oriente, figura controversa mas fascinante que viveu entre 1888 e 1935 e que, antes de ingressar na vida militar, fez arqueologia na Síria e no Egipto e se misturou com os locais, aprendeu a língua, os usos e os costumes dos árabes, lutou ao seu lado contra os turcos e o império Otomano, negociando o apoio das forças expedicionárias inglesas na região, nomeadamente financeiro – de Lawrence, como a do capitão Ahab, também é uma história de vingança, de um ódio mortal, sangrento e víril. A Moby Dick de Lawrence são os turcos (como se revela, por exemplo, na insana e cruel carga sobre uma coluna de tropas turcas destroçadas, indefesas e em fuga). Mas é também uma história de glória e de um homem só perante o seu destino. Ao lado das tribos do deserto que derrotaram os turcos em Tafila em 1918 e (re)tomaram Damasco, e integrando a delegação árabe à Conferência de Paz posterior, Lawrence inscreveu o seu nome na História, sendo uma das peças-chave no novo “desenho” político do Médio Oriente que dali emergiu e ainda hoje dá dores de cabeça a toda a gente. Grande parte da sua vida no deserto, de resto, está contada no seu livro “Os sete pilares da sabedoria”.
O superlativo filme de David Lean (mais ninguém filmou o deserto daquela maneira, nem mais ninguém o compôs tão bem como Maurice Jarre, numa banda sonora arrebatadora), ao contrário do de Kurosawa - que é uma história “assexuada” de homens perante a solidão, também perante a imensidão mas sobretudo perante a amizade - é um filme masculino, mas ao mesmo tempo de uma sensualidade extraordinária, explorando a dúbia e inconfessada condição sexual “desviante” de Lawrence, alegadamente homossexual e alegadamente violado por um oficial turco. Nada disto se vê mas tudo isto se sabe, ou adivinha, neste filme matreiro e subtil, escondido por detrás da sua grandiosidade, como a areia movediça dissimulada na vastidão desértica que engole um dos dois jovens criados pessoais de Lawrence, idealista, sim, mas também guerreiro impiedoso e calculista, mas destroçado pela morte do dilecto servidor beduíno. O filme de Lean tem, então a particularidade de ser masculino e quase erótico, com Peter O’Tolle compondo um extraordinário e dramático narciso egocêntrico e sensual, como são de uma sensualidade fantástica as cenas de Lawrence vestido com as longas túnicas brancas árabes, andando pelas lânguidas dunas do deserto tórrido como se desfilasse numa passagem de modelos e como se mil espelhos o contemplassem dizendo: és belo, és desejável, és poderoso.
Já “Dersu Uzala” (apresentado em português como “A águia da estepe”), também sendo um filme de grandes paisagens (decorre essencialmente nas frias planícies da Sibéria) é um objecto completamente diferente, constituindo sobretudo um comovente e poético (para mim o mais poético, intimista e despretensioso dos filmes de Kurosawa) ensaio sobre a dignidade humana, com base nos fortes e improváveis laços que se geram e acabam por unir para a vida dois homens oriundos de dois mundos completamente diferentes: um topógrafo militar moscovita (ou talvez de São Petesburgo, não me recordo exactamente), urbano e culto, e um simpático, experiente e rude caçador siberiano que acaba por lhe servir de guia naquela região inóspita. Este filme, de como o respeito mútuo pode quebrar barreiras culturais e outras, corresponde à fase de “exílio” de Kurosawa (após o fracasso no Japão do também superlativo “Dodesukaden”, que terá levado inclusive Kurosawa a tentar o suicídio em 1971) tendo sido rodado e produzido na ex-União Soviética, que acolheu e apoiou os projectos do cineasta, acabando por vencer em 1975 o Óscar para melhor filme estrangeiro. De uma dimensão quase diria ecologista (um crítico francês chamou-lhe mesmo um «poema ecológico»), inclusive na reflexão sobre o homem e o seu papel, o seu lugar, na grandeza natural das coisas, “Dersu Uzala” é baseado no livro de memórias do capitão Arseniev, o topógrafo que em 1902 teve como missão mapear a infinitude siberiana e tropeçou numa criatura estranha chamada Dersu Uzala, que aprendeu a amar e a respeitar, como em relação à Sibéria.
Ps: Este último foi, de resto, o filme que projectou Kurosawa, justamente, para o estrelato mundial. Depois de Dersu Uzala, e para felicidade dos cinéfilos, o realizador fez o que quis, com o apoio e a admiração conquistados em Hollywood e entre gente como Coppola ou George Lucas, que ficaram incondicionais da obra do japonês, tendo sido determinantes (financiando) na concretização do seguinte projecto de Kurosawa: O triunfal “Kagemusha” (“A sombra do Guerreiro”), obra-prima que venceu em 1980 a Palma de Ouro de Cannes.
Seria injusto não lembrar aqui que “Lawrence da Arábia”, uma das mais caras e grandiosas produções cinematográficas até à data (15 milhões de dólares era uma pipa de massa em 1962), mereceu em 1963 os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, melhor Banda Sonora, Fotografia, Direcção de Arte, Melhor Som e Melhor Montagem. Teve também nomeações para Melhor Actor e melhor Actor Secundário.
14/01/05
Seinfeld Quê?, por Automotora
Sem qualquer espécie de ironia, nunca percebi o fenómeno de popularidade do Seinfeld. Para mim o êxito da série é um fenómeno tão estranho como estar no Times Square rodeado de néons a publicitar os Batanetes. Consta até por aí que é o maior acontecimento televisivo desde que apareceu a primeira voz no écran a fazer “alô, alô, teste”, e estão mesmo a pensar substituir a Estátua da Liberdade pelo Seinfeld, acção que se irá espalhar por todas as regiões do planeta onde haja Cristos-Reis. Ora eu, sinceramente, não sei o que é que justifica isto tudo, tanto que parece que já estão a preparar um filme em Hollywood com a minha história. Vou ser o outro irmão autista do Tom Cruise. Bom, um dia sentei-me à frente do televisor, a tremer de emoção, e a pensar “vou ver o Seinfeld, vou ver o Seinfeld!”. Fui vendo, um, dois, três ou quatro episódios e bocados de outros (cada vez mais curtos). Este sistema de amostragem, meio aleatória, é mais do que suficiente para descobrir genialidades. Mas eu não vi nada, zero. É verdade que o Grunfo diz que tem lá um episódio que me vai converter, mas eu acho isso estranho, porque ninguém se lembraria de dizer “achas que o leitão está mal assado? Prova lá então este bocado”. Ora bem, comecemos então pelo conceito geral do fenómeno: Um apartamento, um café, três ou quatro gajos, incluindo o típico gordo de óculos, uma gaja, com um penteado esquisito, todos a mandar bocas uns aos outros, a zangarem-se e amigos para a vida inteira. Até aqui, temos a descrição de dezenas de outras sitcoms. É o lugar comum mais utilizado na televisão. Aliás, os personagens das sitcoms são mesmo obrigados por contrato a serem amigos para a vida, pelo menos durante o período que dura a série. É como diria o Vinicius: O Amor é eterno enquanto dura o contrato. O genro do Archie Bunker, por exemplo, foi obrigado a partilhar o mesmo espaço com o sogro durante anos, como se fossem amigos inseparáveis. E os fantoches também são obrigados a andar à porrada dentro de um pequeno teatrinho e não deslargam nunca. É uma exigência logística, digamos. Até aqui, não há originalidade nenhuma, portanto. Vamos lá então ver se acontece alguma coisa nos diálogos e nas situações, que é onde neste tipo formatado de sitcoms se pode fazer a diferença. Lembro-me deste, completamente hilariante, genial, até às lágrimas: Um gajo deixa a porta aberta do apartamento. Vem alguém e rouba uma televisão. Seinfeld diz ao outro: olha, eu tinha comprado uma fechadura nova e tudo. Mas acontece que para a fechadura funcionar a porta tinha que estar fechada! É o clic! Sai uma gargalhada do enlatado e o planeta sacode e muda a rota com o impacte das gargalhadas gerais! Eu só achei vagamente engraçado, o que imagino seja um crime de Lesa-Seinfeld. E pronto, de repente não me lembro de mais nenhuma cena... Eu, em matéria de humor sou mais da escola inglesa. Não falo sequer dos Monthy Python (de joelhos!). Vejam o Big Train, para mim o maior da última década, ou o Liga de Cavalheiros, o The Office, ou o Coupling, noutro registo, mais “americano”. Americanos mesmo, não perdia, por exemplo, o The King of Queens, que passou cá com o título parvo de Eu, Ela e o Pai, sem nada de especial ou original, mas com diálogos inteligentes e bem escritos que me faziam rir às gargalhadas. E não me puxem pela língua senão ponho-me aqui a falar dos Sopranos, esse grande clássico da máfia psicanalítica….não, deste acho que não falo. Prezo muito a amizade dos meus amigos.
12/01/05
Arquivos do Porco: o dia em que os Stones tocaram no meu quintal, por Couve Flor
Pois é verdade, quantas almas de entre vós, ó mortais, se podem gabar de ter tido os Rolling Stones a tocar no vosso quintal. Roam-se de inveja e fixem esta merda: OS ROLLING STONES TOCARAM NO MEU QUINTAL. hehehehe! Isto é, no Estádio Cidade de Coimbra, a escassa centena de metros da minha varanda.
Esse concerto, no dia 27 de Setembro de 2003, foi um dos momentos altos do Porco. O Porco esteve lá unido: Tinóni, Mangas, Mau, Nini, Vaice, Grunfo, JP e Moi. Tudo com as respectivas famílias. Uns foram para a bancada, outros para a linha da frente. Ali, onde se podiam ver as rugas do Mick Jagger, a careca do Charlie Watts, a sola das sapatilhas aceleradas do Ronnie Wood e o que resta do Keith Richards: a guitarra.
Em Agosto, o Vaice tinha ido de férias para Espanha onde tinha conduzido umas centenas de quilómetros, sob um calor insuportável, para assistir a um anunciado concerto dos Stones em Marbella. Aí chegado soube que Lord Jagger estava ligeiramente indisposto! O concerto foi adiado. Fosse outro que não Sua Alteza Real, Cavaleiro do Império, e o Vaice teria proferido impropérios capazes de arruinar a reputação a uma virgem. Mas afinal, sendo quem era, o caso era compreensível, elogiável até, e o Vaice limitou-se a fazer as mesmas centenas de quilómetros, agora de regresso, sem balbuciar, sem murmúrio ou blasfémia.
Chegados a Coimbra no final das férias, os jornais locais anunciam em primeira mão: «Rolling Stones vão tocar no novo estádio». Incrível, Jagger é Deus e Deus é o mensageiro das súplicas do Vaice. Ainda a tinta estava fresca na primeira página do «Calinas» e já a malta estava no posto da Galp à espera que a bilheteira abrisse. No dia do espectáculo, lá estávamos, na linha da frente. No final, o papel do alinhamento das canções veio ter às mãos do Vaice. Ei-lo agora revelado ao Mundo, aqui mesmo no Tapor, digitalizado no topo deste "post". Como uma relíquia do Sagrado Lenho, qual ossada de santo, cabelo de mártir em relicário de prata, o Vaice depositou-mo nas mãos, envolto em protectora capa de plástico, para que o digitalizasse. Este mesmo papelinho que aos pés de Jagger & Richards lembrava o alinhamento das canções, este naco de papel onde os mitos pousaram os olhos e onde, quem sabe, até podem ter tocado com a ponta dos dedos, está aqui no Tapor. Até pode ser que um gafanhoto, um pingo de saliva jaggeriana tenha saltado daqueles lábios carnudos que revolucionaram os costumes ocidentais cantando arrastadamente e com desassombro escandaloso que o homem não conseguia ter satisfação, e aterrado nesta folha de papel A4 de 80 gramas. É possível. É este papel que está neste preciso momento entre as minhas mãos, passou pelo meu scanner (yessss!) e ficou digitalizado para, assim imaterializado, poder ser por vós comungado num elevado momento de misticismo eucarístico.
Esse concerto, no dia 27 de Setembro de 2003, foi um dos momentos altos do Porco. O Porco esteve lá unido: Tinóni, Mangas, Mau, Nini, Vaice, Grunfo, JP e Moi. Tudo com as respectivas famílias. Uns foram para a bancada, outros para a linha da frente. Ali, onde se podiam ver as rugas do Mick Jagger, a careca do Charlie Watts, a sola das sapatilhas aceleradas do Ronnie Wood e o que resta do Keith Richards: a guitarra.
Em Agosto, o Vaice tinha ido de férias para Espanha onde tinha conduzido umas centenas de quilómetros, sob um calor insuportável, para assistir a um anunciado concerto dos Stones em Marbella. Aí chegado soube que Lord Jagger estava ligeiramente indisposto! O concerto foi adiado. Fosse outro que não Sua Alteza Real, Cavaleiro do Império, e o Vaice teria proferido impropérios capazes de arruinar a reputação a uma virgem. Mas afinal, sendo quem era, o caso era compreensível, elogiável até, e o Vaice limitou-se a fazer as mesmas centenas de quilómetros, agora de regresso, sem balbuciar, sem murmúrio ou blasfémia.
Chegados a Coimbra no final das férias, os jornais locais anunciam em primeira mão: «Rolling Stones vão tocar no novo estádio». Incrível, Jagger é Deus e Deus é o mensageiro das súplicas do Vaice. Ainda a tinta estava fresca na primeira página do «Calinas» e já a malta estava no posto da Galp à espera que a bilheteira abrisse. No dia do espectáculo, lá estávamos, na linha da frente. No final, o papel do alinhamento das canções veio ter às mãos do Vaice. Ei-lo agora revelado ao Mundo, aqui mesmo no Tapor, digitalizado no topo deste "post". Como uma relíquia do Sagrado Lenho, qual ossada de santo, cabelo de mártir em relicário de prata, o Vaice depositou-mo nas mãos, envolto em protectora capa de plástico, para que o digitalizasse. Este mesmo papelinho que aos pés de Jagger & Richards lembrava o alinhamento das canções, este naco de papel onde os mitos pousaram os olhos e onde, quem sabe, até podem ter tocado com a ponta dos dedos, está aqui no Tapor. Até pode ser que um gafanhoto, um pingo de saliva jaggeriana tenha saltado daqueles lábios carnudos que revolucionaram os costumes ocidentais cantando arrastadamente e com desassombro escandaloso que o homem não conseguia ter satisfação, e aterrado nesta folha de papel A4 de 80 gramas. É possível. É este papel que está neste preciso momento entre as minhas mãos, passou pelo meu scanner (yessss!) e ficou digitalizado para, assim imaterializado, poder ser por vós comungado num elevado momento de misticismo eucarístico.
04/01/05
A hipótese idiossincrásica na estruturação do substrato metanarrativo da filmografia de Manoel de Oliveira, por José Hersseling*
A afirmação do desiderato gnoseológico, de acordo com a tradição clássica que podemos fazer remontar aos ensinamentos de Hipocrofonte, no século VI a. C., leva-nos a supor que, numa perspectiva meramente metahistórica, o Homem não supera o seu estatuto imanentista pela simples inflexão dos pressupostos axiológicos. De facto, ao compulsarmos as recentes conclusões do professor Richard von Graefe, nomeadamente no terceiro capítulo da sua obra de referência Die Vereinbarkeit von gottliche Vorsehung und menschlicher Freiheit bei Boethirus facilmente concluiremos do solipsismo subjacente a tal processo. Urge portanto, analisar a filmografia à luz dos mais recentes avanços epistemológicos, de um prisma exclusivamente formal, escusado será adiantar.
Assim, temos em primeiro lugar, aquilo que podemos designar como a estupefacção do sujeito remanescente, o que é dizer, a radicação do Eu cósmico profundo na tradição de raíz anglo-saxónica, demonstrável, por exemplo, pelas suposições lógicas da Escola Hermenêutica Formalista de Salzburg. Dentro deste ângulo, escatológico e pampsiquista, somos forçados a considerar a personagem como um exercício redundante. Caso contrário, a perspectivação teleológica resolver-se-ia pela futilidade nominal.
Consideremos, depois, o argumento da introspectividade derivativa. Aplicado o modelo sociológico e feito o tratamento estatístico adequado, concluiremos pela formulação do enunciado seguinte: se A resulta da intersecção do grupo B na trajectória de C, logo o confronto de A com C- implica que consideremos o efeito da chamada variante de Vaerhagen que, como todos sabemos, só é aplicável aos casos prescritos na tabela de Hasnundssen. O que não é o caso. Logo, resulta inválida a tese que R. Schneider propôs ao 3º Congresso Cinéfilo de Tributação Exponencial.
Fica pois demonstrado que Oliveira continua igual a si mesmo.
* Bolseiro Avançado da Fundação Friederich Schweissmuller no Portugiesisch Institut da Universidade de Munchen
Assim, temos em primeiro lugar, aquilo que podemos designar como a estupefacção do sujeito remanescente, o que é dizer, a radicação do Eu cósmico profundo na tradição de raíz anglo-saxónica, demonstrável, por exemplo, pelas suposições lógicas da Escola Hermenêutica Formalista de Salzburg. Dentro deste ângulo, escatológico e pampsiquista, somos forçados a considerar a personagem como um exercício redundante. Caso contrário, a perspectivação teleológica resolver-se-ia pela futilidade nominal.
Consideremos, depois, o argumento da introspectividade derivativa. Aplicado o modelo sociológico e feito o tratamento estatístico adequado, concluiremos pela formulação do enunciado seguinte: se A resulta da intersecção do grupo B na trajectória de C, logo o confronto de A com C- implica que consideremos o efeito da chamada variante de Vaerhagen que, como todos sabemos, só é aplicável aos casos prescritos na tabela de Hasnundssen. O que não é o caso. Logo, resulta inválida a tese que R. Schneider propôs ao 3º Congresso Cinéfilo de Tributação Exponencial.
Fica pois demonstrado que Oliveira continua igual a si mesmo.
* Bolseiro Avançado da Fundação Friederich Schweissmuller no Portugiesisch Institut da Universidade de Munchen
20/12/04
Herbário de António, o Santareno
No Verão de 1996, tive nas mãos o herbário juvenil de António Martinho do Rosário, depois (e espero, apesar de tudo, que para o maior sempre possível) conhecido por Bernardo Santareno, o grande dramaturgo de ‘O Judeu’, ‘O Crime de Aldeia Velha’, “António Marinheiro” e de “Português, Escritor, 45 Anos de Idade”, entre tantas outras obras de lugar cativo na nossa tão rica como amnésica portugalidade. Estagiava eu então na RDP/Antena 2, onde, a troco de estar calado, fui remunerado com a riqueza de ouvir e ver coisas e pessoas de outra dimensão que não apenas esta nossa merceeira condição de sobreviventes a prazo e a malefício de inventário.
O herbário de António (não ainda Bernardo) é o que um herbário antigo tem de ser: uma antologia de folhas e flores coladas de costas ao papel do Tempo, esse impiedoso combustível. Enterneceu-me poder manusear um objecto criado pelas mãos do grande escritor quando moço. Por assim dizer, revisitei, pela mão dele, o tempo dele: as flores dele, as folhas dele, a botânica juvenilidade dele. Depois foram, para ele, os anos de Lisboa: médico psiquiatra, escritor de teatro, homossexual discreto, sombra solitária, portador de óculos de espessos aros, gravata decente, perpétuo cigarro ao canto da boca, sentido atento às vozes de dentro que, soltas dele, se tornavam fora corpos de actores. Os tablados dramáticos encheram-se dessas vozes, dessas vozes por assim dizer herbárias: borboletas vegetais alfinetadas pela revisitação das nossas História, Língua, Pátria, Moralidade, Sensualidade, Criação, Alma, Hipocrisia, Solidariedade, Tragédia; e dos nossos Drama, Desamparo, Confronto, Cérebro, Vazio, Frio, Fado, Exílio, Silêncio e Desconhecimento.
É justo que pouco ou nada disto vos interesse grande ou mínima coisa. É justo que sejamos diferentes, a começar pelos interesses. Esse é, aliás, um dos ganhos a obter da leitura da obra de Bernardo Santareno, esse senhor de quem alguns manuscritos andam perdidos por obra e desgraça da má hora em que deles tornou herdeiro um rapazelho de duvidosa honra e proxenética condição: a justiça da diferença contra a injustiça que toda a indiferença é.
Eu sei: o Povo (essa entidade concretamente humana que vive numa abstracção animal) não vai ao teatro, não gosta de pensar nem de se repensar, prefere mostrar as cáries no desbragamento da gargalhada, gosta mais de broa. Três décadas apenas depois do 25 de Abril, não estamos melhores por aí além. Não sabemos mais, não conhecemos mais nem minimamente nos reconhecemos: como Povo. Queremos ser da Europa sem saber ao certo onde é que isso fica. Deve ser ao pé da Turquia. Temos liberdade de expressão, é certo, mas não sabemos exprimir-nos. Votamos massivamente na Abstenção, desconfiados de que, seja quem for que lá ponhamos, é para nos roubar. E nem sabemos quem foi e o que fez Bernardo Santareno. Posso dar uma ajuda.
Era António. Juntou flores em pequeno.
O herbário de António (não ainda Bernardo) é o que um herbário antigo tem de ser: uma antologia de folhas e flores coladas de costas ao papel do Tempo, esse impiedoso combustível. Enterneceu-me poder manusear um objecto criado pelas mãos do grande escritor quando moço. Por assim dizer, revisitei, pela mão dele, o tempo dele: as flores dele, as folhas dele, a botânica juvenilidade dele. Depois foram, para ele, os anos de Lisboa: médico psiquiatra, escritor de teatro, homossexual discreto, sombra solitária, portador de óculos de espessos aros, gravata decente, perpétuo cigarro ao canto da boca, sentido atento às vozes de dentro que, soltas dele, se tornavam fora corpos de actores. Os tablados dramáticos encheram-se dessas vozes, dessas vozes por assim dizer herbárias: borboletas vegetais alfinetadas pela revisitação das nossas História, Língua, Pátria, Moralidade, Sensualidade, Criação, Alma, Hipocrisia, Solidariedade, Tragédia; e dos nossos Drama, Desamparo, Confronto, Cérebro, Vazio, Frio, Fado, Exílio, Silêncio e Desconhecimento.
É justo que pouco ou nada disto vos interesse grande ou mínima coisa. É justo que sejamos diferentes, a começar pelos interesses. Esse é, aliás, um dos ganhos a obter da leitura da obra de Bernardo Santareno, esse senhor de quem alguns manuscritos andam perdidos por obra e desgraça da má hora em que deles tornou herdeiro um rapazelho de duvidosa honra e proxenética condição: a justiça da diferença contra a injustiça que toda a indiferença é.
Eu sei: o Povo (essa entidade concretamente humana que vive numa abstracção animal) não vai ao teatro, não gosta de pensar nem de se repensar, prefere mostrar as cáries no desbragamento da gargalhada, gosta mais de broa. Três décadas apenas depois do 25 de Abril, não estamos melhores por aí além. Não sabemos mais, não conhecemos mais nem minimamente nos reconhecemos: como Povo. Queremos ser da Europa sem saber ao certo onde é que isso fica. Deve ser ao pé da Turquia. Temos liberdade de expressão, é certo, mas não sabemos exprimir-nos. Votamos massivamente na Abstenção, desconfiados de que, seja quem for que lá ponhamos, é para nos roubar. E nem sabemos quem foi e o que fez Bernardo Santareno. Posso dar uma ajuda.
Era António. Juntou flores em pequeno.
OS TOFUS, por António Manuel
Na sequência de alguns posts e comentários abaixo sobre o tema da alimentação, julgamos importante prestar alguns esclarecimentos subordinados ao tema “Os Tofus”, alimento tão do agrado da comunidade vegetariana. É uma abordagem necessariamente ligeira do assunto, com base em algumas investigações recentes publicadas em revistas científicas de referência, as quais, aliás, estão a obter amplo reconhecimento dentro da comunidade científica. Assim, de acordo com esses estudos, o Tofu, que se pensava até há pouco tempo ser um preparado de leite de soja (e que ainda é vendido como tal por muitos comerciantes menos escrupulosos…) é, afinal, um organismo multicelular com um sistema nervoso central, rudimentar mas activo e funcional, para além de orgãos reprodutores e digestivos. Pensa-se até que estes pequenos seres terão surgido na época do Plioceneo, pois encontraram-se fósseis dos mesmos durante escavações realizadas no Arizona, nos arredores de Phoenix, em camadas estatigráficas onde se encontraram também alguns anabolites. As recentes pesquisas revelaram mesmo, de forma surpreendente, que estes organismos se mantêm vivos mesmo após a sua sujeição a tratamentos térmicos de 200 graus. A sujeição do Tofu aos sucos gástricos provoca, por outro lado, deformações dolorosas e irreversíveis no seu sistema nervoso parassimpático, causando-lhes assim, ao que se pensa, um considerável sofrimento, seguido de morte em agonia. Aliás, a aplicação de ultrasondas de raios gama enriquecidos com plutónio em tofus recolhidos nas fezes de vegetarianos, detectaram mesmo alguns sons semelhantes a gemidos. A palavra ao Dr. Ebenezer M. Scrooge, MD, Phd, director do American Association for the Study of the Tofu: “In spite of we thinked until now, the tofus are multicelular organisms from de Pliocenum. They possess a rather complex central nervous sistem and when stimulated with accid they react as if they were in great suffer.” (in Scientific Journal for the Research of Endangered Species, September, 2004). Chegados aqui, cabe dizer que não nos cabe moralizar ou aconselhar em matérias da consciência de cada um, nomeadamente no que aos prazeres da comida diz respeito. A cada um a sua decisão. Finalmente, e já que estamos neste tema, uma palavra sobre alguns estudos recentemente publicados que defendem que os coelhos são vegetais. Estas pesquisas, de acordo com o Dr. Scrooge, não foram ainda submetidas a avaliação científica independente, não lhes devendo, por isso mesmo, ser-lhes dado crédito.
15/12/04
Elogio do Mau Gosto, por Automotora
Um dia, aluguei no meu clube de video um filme de um realizador finlandês. Qualquer coisa assim, não me lembro bem. A partir daí, fiquei lá conhecido como “o senhor que leva filmes alternativos”. Sou um alternativo, portanto. Aquela espécie que vai tirar filmes da Atalanta à ponta esquerda da estante do lado mais húmido e pouco frequentado dos clubes de video. A verdade é que raramente tenho vontade de ir para aqueles lados, mas o empregado, de cada vez que lá entro, insiste em conduzir-me para lá, enquanto vai esfregando as mãozinhas, numa solicitude comovente e irritante. Começa pelo ponto de não retorno: “quer uma sugestão para um filme alternativo?” seguindo-se o fatal “chegou agora este. Não sei se conhece”. Este “não sei se conhece”, remete sempre para “filmografias”. A “filmografia” não é filmes, como diria o julinho; é “filmografia”, cinema feito em países de neblinas eternas para além do Danúbio (esses países são antes de mais um estado de alma, como se sabe). Mas então, como ia dizendo, acontece que me vejo de repente com o filme na mão. Olho então para o chão, e começo a desfiar uma ladainha ridícula e cobarde: “Olhe, eu hoje estou com um bocado de dor de cabeça, estou cansado, a vida corre-me mal, sofro de stress pós traumático, o iraque não se democratiza, a vida é dura e então quero levar um filme que não faça pensar muito. O amigo desculpe a desfeita, eu tenho muita pena, não é por mal, mas eu hoje vou levar o Mansão Assombrada III”. O empregado, pesaroso, lá sente obrigação de dizer “ah, sim, é um clássico, sim, sim…”. “Mas qual clássico, qual caralho? É só um filme, seu imbecil!”, penso eu, irritado. Mas lá vou dizendo, com humildade, “pois, desculpe… eu juro que para a próxima levo o Quintal das Cerejeiras em Flor, este grande clássico da filmografia da Letónia”. Feito o negócio, saio porta fora, a sentir nas costas o olhar desiludido do empregado. Fico então paranóico e imagino-o a ligar para os amigos: “ele hoje levou o Mansão Assombrada III, passa palavra”. Coincidência ou não, no fim-de-semana seguinte vou comprar peixe à praça e a dona Alzira olha-me com o cenho carregado e engana-me no peso do pargo. É claro que como sou boa pessoa, (além de cobardolas) uma vez em cada dez dias levo um filme alternativo. Lá vejo. Mas acontece que na maior parte das vezes quero é levar filmes, não sei como diga isto, de “suspanse”, daqueles que aparecem no Expresso com o seguinte aviso desprezivo: “para quem gosta”. Nem bom, nem mau, mas “para quem gosta”, que os vermes não têm escala de valores. Mas chegados aqui, atenção para o seguinte: Há os vermes que chegam aos clubes de video e perguntam: “chegou algum bom filme de suspanse?”, como se dissessem “tens hoje aí tintol do bom?”. E vai o empregado à pipa e tira um carrascão espumoso. E há os vermes, como eu, que não perguntam ao empregado porque já levam lista de compras, feita logo ali à porta da loja, com base nos cartazes grandes da montra. Mas não sou um verme todos os dias, é preciso que se note. Por exemplo, no outro dia, por acaso noutro clube de vídeo, vi um filme dos Monthy Python, mesmo junto ao balcão. Passei-me, claro. “Olha, tem aqui Monthy Python?!”. E então aconteceu o inesperado: o empregado revira os olhos e olha-me assim como se tivesse reconhecido um irmão da maçonaria. “Conhece? Você é o primeiro que aparece aqui a falar dos Monty Python! É fã?” Élá… pensei eu… se caio nesta, vou ser obrigado a levar também a trilogia do primo mais velho do Kusturica. Reajo então com grunhice marialva: “Eu? Eu ia precisamente perguntar que raio de título é este com dois ipsilons! Tem cá, cof cof, o Massacre no Texas?” Fiquei bem servido na mesma e no dia seguinte corri para a Worten, comprei os gloriosos malucos e fim da história. Um gajo para ter descanso, às vezes é melhor fazer-se de burro.
14/12/04
Austrália, por Cão Guru
Deu-se-me o caso de, uma ocasião, passear sozinho por uma duna. Foi num mar aqui perto. A duna fazia o que é de competência de toda a duna que se preze: ondulava muito láctea, muito derramada, muito lânguida. Tão lânguida, derramada e láctea, que, na pele da areia, certas florações escuras de que só os botânicos conhecem o nome me pareciam (valha-me Deus!) hirsutas emanações pélvicas. E mais não desenvolvo.
Lá ia eu, pois, muito bem indo, quando eis senão me desemboco, sem preparatório, com a visão já pouco distante, e em sentido a mim contrário (como quase tudo na vida, enfim), de uma senhora.
Dona da duna, por assim dizer e forçando o trocadilho, a senhora tornava-se mulher à medida que os metros entre nós se volviam meios metros. Ela caminhava com a competência de toda a mulher solitária ao colo de duna: ondulava, muito lacteante e languidamente. Perante isto, tremulei. Pudera.
Parei e dei-lhe o perfil. Pus-me, muito flautista, muito virado para o mar, a assobiar baixinho. Ai, amor: o vento levava-me o solfejo até à zona de desembarque das ondas, onde o oceano rebobina para sempre aquela madrugada de Junho na Normandia, 1944. Mas essa é outra História. À da duna voltemos.
Tivesse eu cauda e ao rabo estaria dando com fúria de limpa-pára-brisas no máximo. (Reconhece o cão que há em ti. Ou o lobo. No caso, do mar.)
Pois, e então a mulher já me estava tão perto, mas tão, que a mecânica da respiração se me tornou mais complicada que a casa de máquinas do Titanic. É que nem menos. Pois que ‘aquilo’ era todo um mulheraço, todo um mármore caminhante, um lençol cristalizado, uma geleia oftálmica toda. Ouvi perfeitamente, passando ela pela minha retaguarda, um amarfanho de papel caro: uma capa de revista ela era.
À falta de melhor, meti diálogo. Disse, naturalmente, a maior estupidez possível: “Linda manhã, hã!?”. Sim, assim: com triste involuntária rima. Ela parou, cegou-me com o magnésio de fotógrafo de casamento do seu olhar sem sombra e disse “I beg your pardon?”.
Devia ser australiana, conjecturei. E, num ápice, fui à enciclopédia da minha cultura demasiado geral para que me seja possível saber qualquer coisa em particular: “Cangurus, deserto e Ópera de Sydney, não é?”.
Ela encolheu os ombros, soerguendo a insuportabilidade da bandeja do busto. E seguiu caminho, sem mais, para fora da minha vida e para longe desta crónica. Limitei-me a acabar a duna, perfurei o trecho de pinhal que se lhe seguia, cheguei à bicicleta e apertei as bainhas das calças com as molas da roupa que a minha mulher não sabe que roubei do arame do quintal, o quintal onde amanho a minha couve, encano o meu feijão, choro a minha cebola e cultivo a minha tão masculina ignorância sobre tudo o que diga respeito a mulheres solitárias e à enciclopédica Austrália.
Lá ia eu, pois, muito bem indo, quando eis senão me desemboco, sem preparatório, com a visão já pouco distante, e em sentido a mim contrário (como quase tudo na vida, enfim), de uma senhora.
Dona da duna, por assim dizer e forçando o trocadilho, a senhora tornava-se mulher à medida que os metros entre nós se volviam meios metros. Ela caminhava com a competência de toda a mulher solitária ao colo de duna: ondulava, muito lacteante e languidamente. Perante isto, tremulei. Pudera.
Parei e dei-lhe o perfil. Pus-me, muito flautista, muito virado para o mar, a assobiar baixinho. Ai, amor: o vento levava-me o solfejo até à zona de desembarque das ondas, onde o oceano rebobina para sempre aquela madrugada de Junho na Normandia, 1944. Mas essa é outra História. À da duna voltemos.
Tivesse eu cauda e ao rabo estaria dando com fúria de limpa-pára-brisas no máximo. (Reconhece o cão que há em ti. Ou o lobo. No caso, do mar.)
Pois, e então a mulher já me estava tão perto, mas tão, que a mecânica da respiração se me tornou mais complicada que a casa de máquinas do Titanic. É que nem menos. Pois que ‘aquilo’ era todo um mulheraço, todo um mármore caminhante, um lençol cristalizado, uma geleia oftálmica toda. Ouvi perfeitamente, passando ela pela minha retaguarda, um amarfanho de papel caro: uma capa de revista ela era.
À falta de melhor, meti diálogo. Disse, naturalmente, a maior estupidez possível: “Linda manhã, hã!?”. Sim, assim: com triste involuntária rima. Ela parou, cegou-me com o magnésio de fotógrafo de casamento do seu olhar sem sombra e disse “I beg your pardon?”.
Devia ser australiana, conjecturei. E, num ápice, fui à enciclopédia da minha cultura demasiado geral para que me seja possível saber qualquer coisa em particular: “Cangurus, deserto e Ópera de Sydney, não é?”.
Ela encolheu os ombros, soerguendo a insuportabilidade da bandeja do busto. E seguiu caminho, sem mais, para fora da minha vida e para longe desta crónica. Limitei-me a acabar a duna, perfurei o trecho de pinhal que se lhe seguia, cheguei à bicicleta e apertei as bainhas das calças com as molas da roupa que a minha mulher não sabe que roubei do arame do quintal, o quintal onde amanho a minha couve, encano o meu feijão, choro a minha cebola e cultivo a minha tão masculina ignorância sobre tudo o que diga respeito a mulheres solitárias e à enciclopédica Austrália.
12/12/04
Bifes com batatas fritas, por Jocta do Tellado
Acabou o jogo e ganhou o Sporting. Como tal, o Zétó saiu contente do estádio em direcção à estação do metro de Campo Grande a agitar uma pequena bandeira verde e branca. Aí chegado encontrou um ribatejano inexpressivo encostado à máquina dos bilhetes que lhe disse:
- Zétó, meu filho da puta, não há meio de perceberes nada desta merda, corno dum cabrão. Nem sei se deva perder tempo contigo.
Disse-lhe isto como se fosse o Eanes a anunciar trovões. Surpreendido pela frontalidade sombria do alegado campino encostado, Zétó enganou-se e comprou à máquina o bilhete errado, desnecessariamente mais caro.
- Ora bolas. Reclamou timidamente o Zétó a olhar para o título e a abanar desolado a cabeça.
- O que é que te falta, afinal, ó ranhoso de merda, o que é que tu queres? Para onde é que tu vais? Quem é que tu pensas que és? O que é que tu pensas? Questionou o ribatejano com delicadeza felina e cínica, acrescentando: Anda cá que eu quero falar contigo.
- O senhor desculpe, já vi que é ribatejano, mas porque é que está a falar comigo assim?
- Senhor o caralho. Disse o presumível campónio imperturbável.
- Sabe que há quem não goste de palavrões? Se fosse a si refreava-me. Pode haver gente que não aprecie. Ripostou com a pequena bandeira verde e branca a meia haste.
- Está bem, pronto, desculpa lá. Não posso é prometer que não volta a acontecer. Mas isso também não é muito importante. Tens um minuto?
- Acho que sim. Depende.
- Pois, compreendo. Mas como é que fazemos?
- Não sei, sugira você.
O ribatejano e o Zétó tinham chegado a um embaraçoso impasse, que demorou cerca de dois minutos a quebrar. Enfim:
- Bem, podíamos ir conversar ao Ribatejo, mas penso que não te dê muito jeito… O que é que achas?
- Não posso. Só tenho bilhete para duas coroas.
- Nunca vi nenhum revisor no metro para o Ribatejo. Não deve haver problema. Embora daí. Desafiou o circunspecto campino.
- Epá, não dá, combinei ir beber umas canecas com os colegas. Para festejar, está a ver?... Não pode ser aqui?
- Seja, que se foda. Desculpa lá. Saiu-me sem querer.
- Não faz mal. Era pior um peido sonoro.
- O que eu te queria dizer era o seguinte: Tu que és um inútil dum imbecil sem emenda, diz-me lá qual é coisa qual é ela, qual é coisa qual é ela…
- Então, está a improvisar?
- Não, é o autor.
- Quer dizer, primeiro fala comigo como se me conhecesse desde a escola primária, insulta-me, depois vem com uma grande conversa sobre uma conversa, e agora não sabe o que é que há-de dizer? Fogo!
- Deixa-me pensar, isto não é fácil…. Já sei. E se o Kumba Ialá te fosse ao cu?
- Isso não me parece muito credível. Quem é o Kumba Ialá? Interrogou o Zétó face a um ribatejano desolado.
- Esquece. Mas por uma sílaba que não rima: kumba, cu… Noutro contexto seria interessante.
- Interessante é a situação internacional.
- Isso não sei, ó amigo. Para isso tens de falar com o ribatejano da estação do Rossio. Queres o telemóvel?
- Já agora. Zétó anotou o número do analista internacional na bandeirinha verde e branca. E, já agora, qual é a sua especialidade?
- Eu cá sou estivador.
- Não parece nada.
- Já não é a primeira pessoa que diz isso. Pensam que eu sou campino. Seja como for, vamos lá a despachar isto.
- Está bem, também já estou farto de estar aqui. Diga lá, então. Exortou o Zétó.
- Imagina que és uma isca de fígado… não, melhor, que és uma patanisca de bacalhau…. Já está? Pronto. Agora vai-te foder, não quero saber de ti para nada, és merda, abaixo de merda, pior que merda. Nem merda és.
- O que é que isso significa?
- É a vida caralho! É uma metáfora da vida, anormal! Respondeu o, por uma vez, alterado ribatejano, aprumando a compostura logo de seguida e passando a mão pelas farripas de cabelo que lhe caíam do barrete verde e vermelho para a testa: Ó meu amigo, eu até já falei demais, eu cá só faço perguntas e ponho as pessoas a pensar. Respostas é com o ribatejano do Intendente.
- Está bem, mas isto parece-me tudo um bocado ridículo.
- É uma maneira de entreter o tempo. Há piores. Pronto, já podes ir à tua vida. Queres o telemóvel do colega do Intendente?
- Pode ser.
- Zétó, meu filho da puta, não há meio de perceberes nada desta merda, corno dum cabrão. Nem sei se deva perder tempo contigo.
Disse-lhe isto como se fosse o Eanes a anunciar trovões. Surpreendido pela frontalidade sombria do alegado campino encostado, Zétó enganou-se e comprou à máquina o bilhete errado, desnecessariamente mais caro.
- Ora bolas. Reclamou timidamente o Zétó a olhar para o título e a abanar desolado a cabeça.
- O que é que te falta, afinal, ó ranhoso de merda, o que é que tu queres? Para onde é que tu vais? Quem é que tu pensas que és? O que é que tu pensas? Questionou o ribatejano com delicadeza felina e cínica, acrescentando: Anda cá que eu quero falar contigo.
- O senhor desculpe, já vi que é ribatejano, mas porque é que está a falar comigo assim?
- Senhor o caralho. Disse o presumível campónio imperturbável.
- Sabe que há quem não goste de palavrões? Se fosse a si refreava-me. Pode haver gente que não aprecie. Ripostou com a pequena bandeira verde e branca a meia haste.
- Está bem, pronto, desculpa lá. Não posso é prometer que não volta a acontecer. Mas isso também não é muito importante. Tens um minuto?
- Acho que sim. Depende.
- Pois, compreendo. Mas como é que fazemos?
- Não sei, sugira você.
O ribatejano e o Zétó tinham chegado a um embaraçoso impasse, que demorou cerca de dois minutos a quebrar. Enfim:
- Bem, podíamos ir conversar ao Ribatejo, mas penso que não te dê muito jeito… O que é que achas?
- Não posso. Só tenho bilhete para duas coroas.
- Nunca vi nenhum revisor no metro para o Ribatejo. Não deve haver problema. Embora daí. Desafiou o circunspecto campino.
- Epá, não dá, combinei ir beber umas canecas com os colegas. Para festejar, está a ver?... Não pode ser aqui?
- Seja, que se foda. Desculpa lá. Saiu-me sem querer.
- Não faz mal. Era pior um peido sonoro.
- O que eu te queria dizer era o seguinte: Tu que és um inútil dum imbecil sem emenda, diz-me lá qual é coisa qual é ela, qual é coisa qual é ela…
- Então, está a improvisar?
- Não, é o autor.
- Quer dizer, primeiro fala comigo como se me conhecesse desde a escola primária, insulta-me, depois vem com uma grande conversa sobre uma conversa, e agora não sabe o que é que há-de dizer? Fogo!
- Deixa-me pensar, isto não é fácil…. Já sei. E se o Kumba Ialá te fosse ao cu?
- Isso não me parece muito credível. Quem é o Kumba Ialá? Interrogou o Zétó face a um ribatejano desolado.
- Esquece. Mas por uma sílaba que não rima: kumba, cu… Noutro contexto seria interessante.
- Interessante é a situação internacional.
- Isso não sei, ó amigo. Para isso tens de falar com o ribatejano da estação do Rossio. Queres o telemóvel?
- Já agora. Zétó anotou o número do analista internacional na bandeirinha verde e branca. E, já agora, qual é a sua especialidade?
- Eu cá sou estivador.
- Não parece nada.
- Já não é a primeira pessoa que diz isso. Pensam que eu sou campino. Seja como for, vamos lá a despachar isto.
- Está bem, também já estou farto de estar aqui. Diga lá, então. Exortou o Zétó.
- Imagina que és uma isca de fígado… não, melhor, que és uma patanisca de bacalhau…. Já está? Pronto. Agora vai-te foder, não quero saber de ti para nada, és merda, abaixo de merda, pior que merda. Nem merda és.
- O que é que isso significa?
- É a vida caralho! É uma metáfora da vida, anormal! Respondeu o, por uma vez, alterado ribatejano, aprumando a compostura logo de seguida e passando a mão pelas farripas de cabelo que lhe caíam do barrete verde e vermelho para a testa: Ó meu amigo, eu até já falei demais, eu cá só faço perguntas e ponho as pessoas a pensar. Respostas é com o ribatejano do Intendente.
- Está bem, mas isto parece-me tudo um bocado ridículo.
- É uma maneira de entreter o tempo. Há piores. Pronto, já podes ir à tua vida. Queres o telemóvel do colega do Intendente?
- Pode ser.
10/12/04
Fotografia, por Cão
Perdi uma série de fotografias obtidas num domingo agora duas vezes pretérito. Na impossibilidade de reavê-las, resta-me tentar, hoje e aqui, revelá-las pela palavra.
Uma delas era de duas mulheres quase tão jovens quão pálidas. Apontavam a ninguém quatro olhos dotados da clarividência azul-cosmos dos cegos. Eram cegas, tinham seios perfeitos e apresentavam-se muito bem vestidas: talvez por serem manequins e se encontrarem expostas na montra de um pronto-a-vestir.
Outra das fotografias não conservava gente, fingida sequer, à superfície da eternidade que toda a foto ilude ser. Era de um cão dormindo entre as linhas de um caminho-de-ferro desactivado. Só eu sabia que o cão realmente dormia, que por ali comboio algum passava ainda. Um observador pensaria talvez no atropelamento mortal do cachorro.
A terceira foto (mas porquê “terceira”?; por que ordenamos ainda o que se perdeu?) revelava uma mansarda eriçada de vasos de sardinheiras. Entre as flores, assomava uma cabeça de mulher cuja maior evidência era a desolação da pobreza. O olhar da mulher, recordo-o bem, fixava directamente a minha objectiva, pelo que me é lícito assentar que foi ela a fotografar a própria fotografia que eu haveria de perder.
Lembro-me de ter interrompido o trabalho desse domingo duplamente irrecuperável para tomar um vermute e munir-me de cigarros num café de reformados que escutavam o relato de um Belenenses-Atlético para a Taça. Sem que o notassem, fotografei dois dos velhos à contraluz da montra pontuada de cocó de moscas, prospectos de bailes e editais venatórios.
Já cá fora, a grande tenda solar estava segura ao chão por estacas de árvores e carros estacionados para sempre. Cheirava ao que os domingos cheiram: a espera e a ruas vazias.
Fotografei de costas uma mulher de chapéu que caminhava com a graça involuntária de um charlot diurético.
Fotografei um telefone preto dos antigos, dos de discar. O telefone tocava, ninguém vinha atender, pareceu-me que até o som ficou gravado na fotografia. O som e a ausência de atendimento: ambos impressos na película perdida.
Foi um domingo de roubar luz, esse domingo. Trabalhei muito, depois devo ter guardado o rolo no bolso de um casaco cujo forro se me desforrou, como às vezes a vida se desforra de quem a não vingou.
O que vos ainda não revelei (verbo de fotógrafo) é isto: houve uma fotografia que não tirei nesse dia. Um par beijava-se na paragem do autocarro. Não um desses beijos lambidos, sôfregos, desses de dorsos linguais expostos ao basbaque dos velhos e à má-língua das velhas. Era um beijo bem posto, breve e simbiótico, um beijo dado por aquilo a que chamamos alma quando se usa a boca sem ser para falar ou comer. Não era coisa de adolescentes, mas um beijo claro entre um homem já maduro e uma mulher serôdia já. Não tirei o retrato dessa eternidade mínima.
E curiosamente, de todas as fotografias que tirei e perdi, essa foi, não a havendo tirado, a única que pude guardar para, hoje e aqui, vo-la revelar.
Uma delas era de duas mulheres quase tão jovens quão pálidas. Apontavam a ninguém quatro olhos dotados da clarividência azul-cosmos dos cegos. Eram cegas, tinham seios perfeitos e apresentavam-se muito bem vestidas: talvez por serem manequins e se encontrarem expostas na montra de um pronto-a-vestir.
Outra das fotografias não conservava gente, fingida sequer, à superfície da eternidade que toda a foto ilude ser. Era de um cão dormindo entre as linhas de um caminho-de-ferro desactivado. Só eu sabia que o cão realmente dormia, que por ali comboio algum passava ainda. Um observador pensaria talvez no atropelamento mortal do cachorro.
A terceira foto (mas porquê “terceira”?; por que ordenamos ainda o que se perdeu?) revelava uma mansarda eriçada de vasos de sardinheiras. Entre as flores, assomava uma cabeça de mulher cuja maior evidência era a desolação da pobreza. O olhar da mulher, recordo-o bem, fixava directamente a minha objectiva, pelo que me é lícito assentar que foi ela a fotografar a própria fotografia que eu haveria de perder.
Lembro-me de ter interrompido o trabalho desse domingo duplamente irrecuperável para tomar um vermute e munir-me de cigarros num café de reformados que escutavam o relato de um Belenenses-Atlético para a Taça. Sem que o notassem, fotografei dois dos velhos à contraluz da montra pontuada de cocó de moscas, prospectos de bailes e editais venatórios.
Já cá fora, a grande tenda solar estava segura ao chão por estacas de árvores e carros estacionados para sempre. Cheirava ao que os domingos cheiram: a espera e a ruas vazias.
Fotografei de costas uma mulher de chapéu que caminhava com a graça involuntária de um charlot diurético.
Fotografei um telefone preto dos antigos, dos de discar. O telefone tocava, ninguém vinha atender, pareceu-me que até o som ficou gravado na fotografia. O som e a ausência de atendimento: ambos impressos na película perdida.
Foi um domingo de roubar luz, esse domingo. Trabalhei muito, depois devo ter guardado o rolo no bolso de um casaco cujo forro se me desforrou, como às vezes a vida se desforra de quem a não vingou.
O que vos ainda não revelei (verbo de fotógrafo) é isto: houve uma fotografia que não tirei nesse dia. Um par beijava-se na paragem do autocarro. Não um desses beijos lambidos, sôfregos, desses de dorsos linguais expostos ao basbaque dos velhos e à má-língua das velhas. Era um beijo bem posto, breve e simbiótico, um beijo dado por aquilo a que chamamos alma quando se usa a boca sem ser para falar ou comer. Não era coisa de adolescentes, mas um beijo claro entre um homem já maduro e uma mulher serôdia já. Não tirei o retrato dessa eternidade mínima.
E curiosamente, de todas as fotografias que tirei e perdi, essa foi, não a havendo tirado, a única que pude guardar para, hoje e aqui, vo-la revelar.
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