29/01/05

Arquivos do Porco: memória dos vinte e três dias de Dezembro do ano de noventa e nove

No dia 23 de Dezembro dos idos de 99, por oferta do Grande Bom (ex-Mau. não confundir com o Mau ex-Bom), o Porco comeu parte de um seu semelhante: aviámos numa noite a pata de um porco negro, cortado com requintes de sadismo canibalesco em finíssimas fatias. Inigualável, aquele saudoso Pata Negra. Mais inigualável ainda porque acompanhado por um Vega Sicilia de 86. Nada mais nada menos do que o melhor vinho que o Porco já bebeu e um dos melhores vinhos de sempre.

A prová-lo, o jornal El Mundo, de 31 de Dezembro de 2004 dava conta do record alcançado na venda de um Magnum de três litros: 65000 dólares! Eu repito: 65000 dólares! Por extenso: sessenta e cinco mil dólares! Por extenso e em maiúsculas: SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES! SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES, CARALHO! 3 litros daquele vinhão foram vendidos por 65000 dólares! E nós já bebemos daquilo! Uma 0,75, é certo, mas bebemos, é muito provável que cá pelo meio das minhas entranhas ainda circule uma molécula perdida, um vaporzito esquecido por entre as fissuras do fígado dessa magnífica bebida que acabou de ser vendida por um preço record! 65000 dólares! A prová-lo está a notícia do El Mundo. Clicar na imagem para ver a notícia completa (foto pesada)


28/01/05

Tonight is the night, por Mad D.J.

Hoje dia 28 de Janeiro de 2005, o Porco quase em peso, mais precisamente o seu alter-ego vínico, a Real Seponto do Tinto vai voltar a reunir-se na Catedral do Bolho onde terá lugar a Sexagésima Terceira Prova Cega Oficial de Tintos. A Catedral do Bolho é uma sala deliciosa, com tectos e paredes de madeira, uma mesa enorme daquelas dos banquetes dos reis brutos da idade média, um balcão que faz de mini bar, muitos santos por todo o lado, objectos rústicos, velhas pistolas, bonés e chapéus, cacetes, espadas e navalhas, até cornos e cornetas mudas e uma fantástica lareira que exige frio e exige Janeiro. Vai estar lá toda a fina (?) flor (?) da Seponto, mais dois convidados: o JPC que repete a presença na Catedral, dois ou três anos depois de ter tido o privilégio de ver a Máquina a actuar ao vivo; e o R., ilustre estagiário do nosso departamento jurídico (para quando, meus senhores, uma estagiária?).

O Bolho para quem não sabe fica em pleno coração da Bairrada e na referida Catedral, pertença de um dos nossos, graças a Deus, é servido aos Eleitos, O Melhor Leitão do Mundo. Sim, é mesmo assim, O Melhor Leitão do Mundo, maiúsculas e tudo! Esqueçam os bácoros vendidos a peso de ouro nos restaurantes da Bairrada. Esqueçam tudo o que provaram até hoje e que vos disseram ser leitão! Só no Bolho se prova a excelência do bicho!

Ainda me lembro da delicada operação a que se obriga o nosso anfitrião, o sublime Mister Sábio, para apresentar um manjar de tanta qualidade.


Desde a escolha do bacorinho, ainda vivo e a guinchar, ao seu transporte num saco de batatas, passando pela entrega ao assador oficial que gasta um dia – um santo e inteiro dia, ave César! – a assar lentamente o leitoso, até à escolha minuciosa das laranjinhas que o hão-de acompanhar no repasto, tudo é ciência, sabedoria, savoir-faire… É preciso olho para escolher o bicho certo, com o peso certo, a postura certa a energia devida, o pedigree, que só se avaliam ao vivo … É preciso arte para assar até ao ponto certo, com as doses certas de pimenta, sal e outras coisas mais sofisticadas que me escapam, pobre ignorante… É preciso saber dar-lhe a cor viçosa e estaladiça, a Bairrada devia dar ao Bolho o estatuto de Universidade.

Mas o Bolho não é só o leitão, o que já é muito, muitíssimo. Para acompanhar o melhor leitão do mundo, levamos os melhores vinhos do mundo (às vezes, outras nem por isso) e bebemo-los todos. O ritual do vinho e toda a panóplia de códigos que o regem, fazem jus ao bácoro, tornam-no ainda mais nobre.

Nas Noites do Bolho temos ainda uma relíquia que eleva tudo aos patamares da dignidade estética – o velho gira-discos do Sábio que nos obriga a re-ouvir velhas músicas que já não se ouvem. O nosso Vice faz a recolha, atempadamente, do saudoso vinil que ainda habita os sótãos de alguns de nós, encarrega-se de elaborar uma lista das músicas que poderão passar na vitrola, e pode! equer! e manda! no que se ouvir enquanto durar o vinho e o leitão. A vitrola é tabu – ninguém a não ser o Vice lhe toca, ninguém pode sonhar, sequer, em meter um disco sem permissão. Tudo foi já pensado e decidido de acordo com a consulta astrológica, depois de prevista a lua que fará nessa noite e se Saturno estará no lugar certo. Sabe assim o Vice, de estudo seguro, qual a música que se deverá ouvir e porquê. E eu posso aqui adiantar em primeira mão e em absoluto exclusivo mundial, os primeiros 33 intérpretes vinis que se hão-de ouvir, logo à noite na Catedral do Bolho:

J. S. Bach, Don Byas e Ben Webster, Dexter Gordon, John Coltrane, Miles Davis, Wayne Shorter, Frank Zappa, Leo Kottke, Los Mariachis, Caetano Veloso, Prefab Sprout, Jacques Brel, GNR, Vinicius de Morais, João Gilberto, Chico Buarque, New Adventures, D. Bowie, Vitorino, Fausto, Frank Sinatra, Charlie Haden, Billie Holliday, Prince, Ella Fitzgerald, Tânia Maria e Neils Orsted Pederson, Mozart, Vivaldi, The Clash, The Beatles, e os Rolling Stones.

26/01/05

As músicas do Porco – Bullet with Butterfly Wings, Smashing Pumpkins, por Careca


Os Smashing Pumpkins foram a última grande banda de rock e a melhor dos anos 90! Eu sei que os U2 ainda mexem e que, nos últimos tempos surgiram grupos tão interessantes como os The Strokes, os White Stripes ou os The Vines. Creio até que qualquer destas três bandas e, em especial, os excelentes e versáteis White Stripes, asseguram a sobrevivência do Rock para os próximos tempos. Rock´n`roll is not dead! É verdade que após a dissolução dos Pumpkins, o Billy Corgan continuou a carreira com os Zwan. Fez um bom disco, mas a força original já lá vai.

Os Pumpkins fizeram-me reencontrar com a velha tradição Rock. Não que outros grupos igualmente interessantes não se fizessem ouvir nos anos 90. Claro que sim – os Massive Attack, acima de todos os outros, são incontornáveis, mas poderia ainda referir os Portyshead, Moby, Pulp, Chimical Brothers ou Kruder and Durfmeister… Mas nenhum destes nomes é parte do espírito da música rock. Isso não é defeito nenhum, aliás, ainda bem que é assim, que há muitas e diferentes músicas… Eu nunca parei de encontrar música de qualidade em momento nenhum da minha vida. Mas nenhum dos nomes que atrás citei, enfileira na grande tradição Rock, onde incluo Chuck Berry, algumas coisas dos Beatles (Come Together é do melhor), os Rolling Stones, o Bowie de Ziggy Stardust e, sobretudo, Led Zepellin. Depois deles, os Clash e os Pistols e o movimento Grunge, continuaram a saga do R´n`R.

Foi este filão que de novo se me abriu num lugar qualquer adormecido dentro do meu cérebro quando, pela primeira vez, ouvi Siamese Dream da banda do genial careca. Depois disso fui descobrindo que os Pumpkins tinham, de facto, uma personalidade estética, que está lá sempre, quer se trate de baladas arrastadas, ou de barragens de electricidade mortal (inesquecíveis os primeiros acordes de Everlasting Gaze no mítico concerto do Estádio do Restelo, o último da banda).

Uma música, contudo, está acima de tudo o resto: Bullet With Butterfly Wings do fabuloso e lírico Melloncollie and The Infinite Sadness. A música ganhou um Grammie– o correspondente musical dos óscars – no ano da sua edição e é, no meu modesto parecer, uma peça para figurar ao lado dos intemporais Jumpin Jack Flash, Revolution, Black Dog ou Highway Star. Começa com um grito só, que se tornou ícone para toda uma geração: The world is a vampire! Depois vem a secção rítmica, tensa, nervosa, que nos parece conduzir a uma caverna húmida e escura (sempre achei que o negro era a tradução pictórica desta música o que se confirmou nos dois espectáculos que vi deles com o palco completamente escuro no momento desta canção). As guitarras entram lentamente, ameaçadoras, até que somos conduzidos à explosão eléctrica (típica do grupo) no refrão que é pura rebeldia sonora - Despite all my rage I am still just a rat in a cage .

Bullet… é rock em estado puro! Billy Corgan é genial nesta música e, se mais nada tivesse feito com os Pumpkins, Bullet…, só por si, já chegava para lhe conferir o estatuto de Grande. Felizmente, para nós, ele fez muito mais!

25/01/05

TinTin e o Caso da Hormona da Libido, por Mangas

TinTin, o herói do autor belga Hergé nunca envelheceu, nem papou nenhuma gaja durante os seus 50 anos de carreira devido aos sucessivos traumatismos que apanhou na cabeça. Concretamente: a repetição de mocadas na tola de TinTin, são a causa directa de uma deficiência crónica na produção da hormona de crescimento, de acordo com o estudo publicado na edição de Natal da revista Canadian Medical Journal.

Claude Cyr, professor de medicina na Universidade Sherbrooke do Quebec, efectuou um estudo detalhado dos 23 álbuns de TinTin e conclui que o eterno rapaz sofreu, no total, 50 perdas de consciência durante as suas aventuras dos Andes ao Congo. «Estabelecemos a hipótese que Tintin sofre de deficiência da hormona de crescimento e de uma perturbação da glândula pituitária chamada hipogonadismo hipogonadotrópico, consequência directa de traumas sucessivos. Isto pode explicar o atraso na sua estrutura de crescimento, atraso na evolução da puberdade e ausência de libido.», escreveu Cyr .

O artigo foi publicado no Canadian Medical Association Journal, que tem a tradição de editar estudos científicos sobre personagens ficcionais nas suas edições de Natal. Cry, que dirigiu a investigação com a ajuda dos seus dois filhos mais novos, contou desde o primeiro álbum editado em 1929 até ao último de 1976, 43 perdas de consciência no intrépido repórter, resultantes de golpes directos na cabeça. «Identificámos a causa do trauma, a duração da perda de consciência (calculado pelo número de quadrados até TinTin retomar a sua actividade normal), e a aparente severidade do trauma (indicado pelo número de objectos às voltas da cabeça de TinTin, por ex.: estrelas e velas.», disse.

Entre as várias causas para as lesões de Tintin, encontram-se golpes de bastões, feridas de balas, explosões, acidentes de automóvel, intoxicação por clorofórmio e quedas. «Infelizmente não foi possível efectuar exames radiológicos ao cérebro.», lamentou Cry.

Em 2000, o Canadian Medical Association Journal causou alguma sensação ao revelar que a permanente procura de mel do urso Winnie the Pooh, era causada por um distúrbio obsessivo compulsivo, que o herói das crianças, o porco Piglet, precisava de medicação anti-pânico, enquanto o burro Eeyore, apresentava sinais crónicos de depressão. Outro estudo paralelo concluiu que o hiperactivo personagem Squirrel Nutkin, da autora inglesa Beatrix Potter, é na realidade, autista.

Fontes:
*David Ljunggren, Jornalista
*Agência Reuters
*Canadian Medical Association.

23/01/05

Fitas de Ménes, por J Pimenta

A propósito desta rapaziada que emborca vinho fino, fuma charuto, coça os tomates entre um garfo de iconografia russa medieval e outro de Tom Waits e conversa aos gritos sobre gajas entre dois buchos recheados, lembrei-me dum poste que se calhar nem tem nada a ver mas não interessa. Se há coisa que mais se aproxima de um “Cinema Masculino”, com M grande, sem desprimor para os éfes, no sentido filosófico, histórico e telúrico de um Hemingway, por exemplo, será sem dúvida o Western, universo de homens por excelência. Tirando algumas excepções, como o Johny Guitar, de Nicholas Ray, ou A Desaparecida, de John Ford, as mulheres não passam de adereços que guincham, ou, quanto muito, de esposas ou noivas que, chorosas e resignadas, ficam para trás a cuidar do rancho enquanto o homem vai viver o filme. Ou então são putas.
O universo John Wayne é macho. Como macho é o universo de Jack London ou de Herman Melville no Moby Dick, obra prima sobre muitas coisas em torno de obsessões quiméricas eminentemente masculinas, como a vingança sangrenta e impiedosa (nas mulheres convencionou-se que é mais subtil, prato frio e cerebral) ou a supremacia, num cenário obrigatoriamente masculino, como era o dos baleeiros no século XIX, que resultou noutra pérola do cinema com a setinha para baixo: A obra de John Huston com o mesmo nome. Podia referir outras correntes, os filmes de guerra, por exemplo, ou quase todos os filmes embarcadiços, mas os casos anteriores creio que reflectem muito melhor a tal masculinidade existencial, a condição de se ser Homem. De se ser Homem só perante as forças adversas deste mundo e do outro, perante as suas ambições, deveres, dilemas terríveis, imperativos éticos, solenes, políticos, o destino de povos, desígnios maiores que o quotidiano. Aqui, as mulheres ou ficam a varrer a casa ou simplesmente não existem, nestes exemplos cinematográficos e literários que creio que exploram com mais intencionalidade, até, esse tipo de reflexão e contexto “homocêntrico”.
Mas tenho para mim que há dois, dois filmes seminais, que reflectem esta questão com uma profundidade e uma dimensão estética verdadeiramente ímpares e arrebatadores. Refiro-me a “Lawrence da Arábia”, de David Lean, e a “Dersu Uzala”, de Akira Kurosawa. Em ambos, mais no primeiro, se destaca numa primeira abordagem a quase completa inexistência de mulheres. Na história do major inglês T. E. Lawrence (Thomas Edward) filmada por Lean não há qualquer vestígio feminino marcante. Penso que a única vez que se vislumbram mulheres ao longo de todo o filme é, ao longe, um ruidoso grupo de beduínas vestidas de preto dos pés até aos pés e empoleirado nas encostas de um desfiladeiro árido, muito ao longe enquanto um exército de homens domina um majestoso plano aberto penetrando no deserto, ao encontro da sua missão de homens/guerreiros maiores que a vida. Com Lawrence à cabeça. A história - verídica mas nebulosa, deste aventureiro e oficial do exército britânico no Médio Oriente, figura controversa mas fascinante que viveu entre 1888 e 1935 e que, antes de ingressar na vida militar, fez arqueologia na Síria e no Egipto e se misturou com os locais, aprendeu a língua, os usos e os costumes dos árabes, lutou ao seu lado contra os turcos e o império Otomano, negociando o apoio das forças expedicionárias inglesas na região, nomeadamente financeiro – de Lawrence, como a do capitão Ahab, também é uma história de vingança, de um ódio mortal, sangrento e víril. A Moby Dick de Lawrence são os turcos (como se revela, por exemplo, na insana e cruel carga sobre uma coluna de tropas turcas destroçadas, indefesas e em fuga). Mas é também uma história de glória e de um homem só perante o seu destino. Ao lado das tribos do deserto que derrotaram os turcos em Tafila em 1918 e (re)tomaram Damasco, e integrando a delegação árabe à Conferência de Paz posterior, Lawrence inscreveu o seu nome na História, sendo uma das peças-chave no novo “desenho” político do Médio Oriente que dali emergiu e ainda hoje dá dores de cabeça a toda a gente. Grande parte da sua vida no deserto, de resto, está contada no seu livro “Os sete pilares da sabedoria”.
O superlativo filme de David Lean (mais ninguém filmou o deserto daquela maneira, nem mais ninguém o compôs tão bem como Maurice Jarre, numa banda sonora arrebatadora), ao contrário do de Kurosawa - que é uma história “assexuada” de homens perante a solidão, também perante a imensidão mas sobretudo perante a amizade - é um filme masculino, mas ao mesmo tempo de uma sensualidade extraordinária, explorando a dúbia e inconfessada condição sexual “desviante” de Lawrence, alegadamente homossexual e alegadamente violado por um oficial turco. Nada disto se vê mas tudo isto se sabe, ou adivinha, neste filme matreiro e subtil, escondido por detrás da sua grandiosidade, como a areia movediça dissimulada na vastidão desértica que engole um dos dois jovens criados pessoais de Lawrence, idealista, sim, mas também guerreiro impiedoso e calculista, mas destroçado pela morte do dilecto servidor beduíno. O filme de Lean tem, então a particularidade de ser masculino e quase erótico, com Peter O’Tolle compondo um extraordinário e dramático narciso egocêntrico e sensual, como são de uma sensualidade fantástica as cenas de Lawrence vestido com as longas túnicas brancas árabes, andando pelas lânguidas dunas do deserto tórrido como se desfilasse numa passagem de modelos e como se mil espelhos o contemplassem dizendo: és belo, és desejável, és poderoso.
Já “Dersu Uzala” (apresentado em português como “A águia da estepe”), também sendo um filme de grandes paisagens (decorre essencialmente nas frias planícies da Sibéria) é um objecto completamente diferente, constituindo sobretudo um comovente e poético (para mim o mais poético, intimista e despretensioso dos filmes de Kurosawa) ensaio sobre a dignidade humana, com base nos fortes e improváveis laços que se geram e acabam por unir para a vida dois homens oriundos de dois mundos completamente diferentes: um topógrafo militar moscovita (ou talvez de São Petesburgo, não me recordo exactamente), urbano e culto, e um simpático, experiente e rude caçador siberiano que acaba por lhe servir de guia naquela região inóspita. Este filme, de como o respeito mútuo pode quebrar barreiras culturais e outras, corresponde à fase de “exílio” de Kurosawa (após o fracasso no Japão do também superlativo “Dodesukaden”, que terá levado inclusive Kurosawa a tentar o suicídio em 1971) tendo sido rodado e produzido na ex-União Soviética, que acolheu e apoiou os projectos do cineasta, acabando por vencer em 1975 o Óscar para melhor filme estrangeiro. De uma dimensão quase diria ecologista (um crítico francês chamou-lhe mesmo um «poema ecológico»), inclusive na reflexão sobre o homem e o seu papel, o seu lugar, na grandeza natural das coisas, “Dersu Uzala” é baseado no livro de memórias do capitão Arseniev, o topógrafo que em 1902 teve como missão mapear a infinitude siberiana e tropeçou numa criatura estranha chamada Dersu Uzala, que aprendeu a amar e a respeitar, como em relação à Sibéria.

Ps: Este último foi, de resto, o filme que projectou Kurosawa, justamente, para o estrelato mundial. Depois de Dersu Uzala, e para felicidade dos cinéfilos, o realizador fez o que quis, com o apoio e a admiração conquistados em Hollywood e entre gente como Coppola ou George Lucas, que ficaram incondicionais da obra do japonês, tendo sido determinantes (financiando) na concretização do seguinte projecto de Kurosawa: O triunfal “Kagemusha” (“A sombra do Guerreiro”), obra-prima que venceu em 1980 a Palma de Ouro de Cannes.
Seria injusto não lembrar aqui que “Lawrence da Arábia”, uma das mais caras e grandiosas produções cinematográficas até à data (15 milhões de dólares era uma pipa de massa em 1962), mereceu em 1963 os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, melhor Banda Sonora, Fotografia, Direcção de Arte, Melhor Som e Melhor Montagem. Teve também nomeações para Melhor Actor e melhor Actor Secundário.

22/01/05

Bloco de quê?, por Choque a Pique

No Porco a pastilha é democrática. Já aqui batemos no santana e no sócrates – duas fazes da mesma moeda de valor nulo; chega agora a vez do louçã. No último debate com o paulo portas na sic, disse uma enormidade inadmíssivel de todo e muito mais no líder de um partido que se afirma, frequentemente, como arauto das minorias. Foi mesmo na parte final – até aí pareceu-me que o debate estava mais ou menos empatado com o louçã a exagerar num estilo truculento que podia bem evitar e que, do meu ponto de vista, só o descredibiliza.

Mas de repente, discutia-se então o aborto, dispara o louçã:
- Você não tem legitimidade para se pronunciar sobre o aborto e sabe porquê? Porque você nunca gerou vida. Eu, pelo contrário, tenho uma filha, uma linda criança e sei o que é o seu sorriso de alegria. Como é que o dr. Portas pode falar da vida se nunca a gerou? Se nunca contemplou o sorriso de um filho? E por aí adiante…

O argumento é delirante: levado a sério implicaria que um deficiente motor não se poderia pronunciar sobre os problemas dos que não o são e vice-versa. Que os míopes não poderiam falar dos problemas dos que têm a vista sã e, em rigor, que nem o louçã se poderia pronunciar sobre o aborto porque não é mulher e, em rigor, só as mulheres geram a vida. O argumento não só é tosco, como ainda por cima é falso. Loução não gerou vida nenhuma; quem o fez foi mãe da sua filha.

Mas pior que isto é o jacobinismo desta posição, o moralismo serôdio e intolerante de quem decreta quem tem direito ou não de se pronunciar. Louçã entende que tem o poder de decretar os que podem e não podem dizer algo sobre o aborto – portou-se como um Estaline jacobino a quem só falta, no próximo debate, fazer o elogio das virtudes familiares, da moral cristã e dos bons costumes, quiçá, se da superioridade moral do amor heterossexual que gera vida sobre o amor homossexual inane e estéril. Em Portugal até a esquerda assumida parece ultra conservadora. Esta campanha já enjoa…

20/01/05

Tapor, por Goldmundo

Devo ao nome improvável de Aloïsio Montoya (com quem polemizei amargamente em Paris no rescaldo da segundo colóquio Sternberg sobre os desaparecidos manuscritos warburguianos) a última zanga com a inquieta Isabel Torrijo, e o primeiro encontro com a minha obsessão pelos espelhos quebrados de Coimbra. Cismava o sábio de Siracusa (tive nas mãos a edição veneziana da sua Hepteromachia Philoctaica, na obscura loja de Sesimbra a que me atraíra um vistoso e inútil catálogo de José Cebola) que huius in adventum iam nunc et Caspia regna responsis horrent divum, e no entanto nunca vislumbrei tão nitidamente o horror do familiar conceito de biblioteca como naquela tarde em que, procurando sonolentamente na net não sei que versos esquecidos do gongórico Canotillo - talvez o sublime soneto Se tu, magra Heritrópia, sempre foste - encontrei a denominação obscena do impostor repetidamente associada a um blog coimbrão que se murmurava ser mantido por muitos para ser, apenas, as faces incompletas do Único.
Desviei-me por um instante - nunca o lamentarei o suficiente - da doce música do autor da Cariátide Justíssima para contemplar a ligação que o acaso permitira ao plagiador de von Sttautfeld para com a desconhecida sigla TAPOR. Recordo-me, como num sonho, de percorrer textos impossíveis assinados por Dervixe (julguei reconhecer o estilo do meu amigo Luciano de Freitas) e comentários de Mangas que apenas pareceriam espontâneos a quem não conhecesse profundamente as catorze regras que sustentam o I Ching. Recuei perante o gnóstico cinismo de Manolete. Assombrei-me junto às imagens barrocas de Mefistófeles. Lembrei-me então de que, na terceira conjunção dos mistérios órficos, TAPOR era o nome secreto do deus estilhaçado, pronunciado apenas pela boca da mais jovem das sacerdotisas. (.......................)
Em Nova Delhi, num Setembro feito de nevoeiro e de remorsos, quis vislumbrar a esguia silhueta de Automotora. Garantiram-me nesse ano, em Buenos Aires, que o neto de Pedro Hernandez fora desafiado por Grunfo no coração do Barrio Limpio, depois de uma noite ineteira de jogo e de complacência. A própria Isabel Torrijo (....................)
A simplicidade é a marca maior do labirinto, o inacabado a marca das mãos unicamente humanas. Com as mesmas letras de TAPOR tu dizes TRAPO e TROPA, e com isso o infeliz Humberto Segovia morreu acreditando que encontrara Coimbra, quando afinal só cruzara a insidiosa Toledo. A palavra PARTO evocava desagradáveis reminiscências a Leopoldo Fugavilla, e o chileno desistiu da busca a um passo do que poderia ter sido a nossa glória e a sua maldição. Coube-me a mim, humilde funcionário da Segunda Repartición de Pesos y Medidas da Provincia de Guardanapos, adivinhar a verdade escondida na PORTA férrea. Nos trinta anos seguintes continuei a carimbar os sobrescritos e a copiar diligentemente os relatórios quotidianos de Laura Tyniosa. Pesa-me agora, que vou morrer, não partilhar o segredo dos espelhos. Compreendi o TAPOR, e quem sabe tu poderás (...............)
(Por especial autorização do Goldmundo do www.ribeiranegra.blogspot.com)

A Palavra do Senhor e a Igreja Da Geografia, por SumoSacerdote

“ – Óh que ganda seca. Devia ter levado um tiro quando escolhi a barra. 10 da matina, domingo de um sol radioso e eu aqui, sozinho que nem um cão a preparar o julgamento d`amanhã. E o sacana que não tem razão nenhuma. Chiça, mais duas horitas e isto fica alinhavado…
- Tlim, Tlão…
- Raios, só me faltava agora alguém para chatear a um domingo de manhã, se está aqui não está preso, se não está preso não atendo. Toca que te fartas...
- Tlim, Tlão, Tlim, Tlão…
- O sacana não desiste, deve ter visto o carro lá fora, tou lixado, a carraça não vai desarmar, mas não perde pela demora, vai ser mastigado e cuspido!
- Tlim, Tlã…
A abertura da porta interrompe a insistência da campainha. Do lado de fora está uma magriça enfezada de chita vestida, fêmea semi-nova, cara desconhecida, roupa kitsch entre a escuteira e a dona de casa. Com a abertura da porta desata a abrir a boca e a estender um folheto com um JótaCristo amarelado e a brilhar nas nuvens…
Mau Maria temos circo e palhaços, pensei eu de mim pra comim…
- Ólhe se faz favor, nós andamos a espalhar a Boa Nova e a Palavra do Senhor…
- “Nós”? Nós, quem? Ainda há mais além de si? – começo eu já a abrutalhar.
- Não, Não, Nós, Somos todos aqueles que neste momento e em simultâneo espalhamos a Palavra do Senhor por 197 países…
Nem teve tempo de terminar. Fiquei possesso e furibundo. Ela viu e arrepiou.
-Ó Minha Senhora, Ó Alma de Deus, tenha lá Santa Paciência e vá estudar Geografia que lhe faz muito mais falta que a Palavra do Senhor!. Atão se só há 193 países coméque vocês espalham a dita cuja por 197? Tenha lá paciência!
Slam! Porta nas fuças! Não há pachorra! Palavra da Salvação!

18/01/05

O grau zero da publicidade, por Tirem-me Isto da Frente

Os publicitários responsáveis pela campanha do santana devem estar a ser pagos, secretamente, pelo PS. É que dificilmente conseguiriam fazer tantas asneiras em tão pouco tempo se não as quisessem mesmo fazer. Primeiro foi a rábula do cartaz com o Cavaco-Arrependido, um ícone recente do nossa propaganda política. O cartaz em si já era mau – fazia lembrar um velho ícone do marxismo-leninismo com os rostos de Marx, Lenine, Mao-Tse-Tung e Estaline alinhados. Mas pior que isso foi terem avançado sem a autorização ao Cavaco, um inimigo figadal do Santana que agora se lhe queria comparar. Deu bronca, claro.

Não contentes, os mesmos publicitários (devem ser os mesmos a julgar pela regularidade na asneira), lançaram agora um novo outdoor com um slogan de susto: «Contra ventos e marés». Como é que é? «Contra ventos e marés»?.... O velhinho Aristóteles distinguia muito justamento o tempo cronológico (o «time» dos ingleses) do tempo «Kayrológico (do grego Kayrós, o tempo da oportunidade, a que os ingleses chamam o «timing»). E há coisas que podem estar absolutamente correctas, perfeitamente adaptadas a um determinado receptor e, mesmo assim, falharem por serem proferidas na altura errada, portanto, sem atenderem ao tempo «kairológico». Querem melhor exemplo que este do novo slogan da campanha do PSD? É que numa altura destas, uma enormidade destas só pode suscitar imagens macabras, funestas, terríveis... O mínimo que se pode dizer é que é um slogan de mau gosto. E é-o com tanta evidência que eu nem preciso de explicar porquê. É isso mesmo que vocês estão a pensar.

17/01/05

HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS (III ou IV?): MANIPULAÇÃO, por Manolete Janamelembra

No dia 14 de Agosto de 1936, o general Juan Yague, o Carniceiro de Badajoz, lançou o ataque final à cidade onde conquistará o cognome. No dia seguinte, o foragido Luciano Ordoñez Reyes, exilado republicano escapado da morte certa, morria colhido por um touro no tentadero da herdade das Garças, escassas léguas para cá da fronteira. Era dia de festa. O proprietário, D. Jerónimo de Sousa Garcia, agradecia a intercessão da Virgem que fertilizara o ventre da esposa, a frágil Jenny. Quando Ordoñez foi atravessado pela cornada fatal, Jerónimo Garcia sorriu felinamente. Jenny, filha de um armazenista irlandês, tinha vinte anos e um ar inocente, sentiu um ligeiro rubor e uma dor profunda. Conteve-se, porém, e não chorou. Logo que o corpo do refugiado foi retirado da arena, a chuva começou a cair pondo fim a meses de seca. Por entre a consternação geral, murmuraram-se graças pelo milagre.

A ascendência paterna de Jenny dava-lhe um ar angélico e só aparentemente frágil. O carácter era forte, a fertilidade é que foi alvo da desconfiança da criadagem. Muito tempo correra desde que D. Jerónimo a desposara. Dois secos anos passaram até que a maledicência questionasse a fertilidade da jovem. A seca assolava a planície alentejana, a guerra anunciava-se em Espanha e o ventre irlandês não prometia herdeiro. A seca, a guerra e a esterilidade pareciam assim peças da mesma conjura. Jerónimo Garcia recorreu então, tal como os ancestrais nos momentos delicados, aos favores da Senhora de Guadalupe, prometendo partir em peregrinação ao santuário da Virgem na serra de S. Gens, aprazando a jornada para os primeiros dias do mês de Julho.

O senhor das Garças partiu montado numa égua cinzenta e seguido por dois criados, peregrinos forçados para que o amo lograsse o herdeiro que lhes perpetuaria o jugo. Tão pesada era a prepotência que solidária lhes parecia a Providência ao esterilizar o ventre irlandês. Desnecessária portanto se afigurava aquela promessa, pois que a ser justa a requerida Virgem, jamais corresponderia às súplicas do peregrino.

Antes de prosseguir com o relato, devo avisar que nada, absolutamente nada do que a seguir se contará se deve atribuir ao acaso. Foi com esta advertência, posta como condição, que a história me foi contada. De início estranhei a veemência desta imposição mas, depois de escutada a história, decidi-me por colocar uma advertência suplementar. Como não creio na intervenção do divino nas coisas do mundo, peço que nada do que a seguir se relata seja entendido como resultado de uma intromissão providencial.

D. Jerónimo, antes de partir, ordenou expressamente que, no átrio do palacete, diariamente e enquanto durasse a santa jornada, fossem depositadas flores frescas sob o nicho que albergava a figura da Virgem, bem como junto da cabeça empalhada do Mingão, colocada defronte. Era lendária a devoção que o latifundiário prestava ao troféu. Mingão fora um touro bravo. Conta-se que um dia, o velho patriarca da família chicoteou numa fúria súbita um pobre serviçal que escarnecera da devoção do amo. Daí em diante, todos entenderam que a consideração prestada à Virgem se equiparava, em fervor e alarde, àquela outra devida ao Mingão, como se a bestialidade viril do magnífico animal fosse instrumento da intervenção sobrenatural e se conjugasse com a delicadeza da Senhora de Guadalupe na protecção concedida à linhagem das Garças. Esta estranha aliança nasceu da profunda convicção do patriarca que em tempos de dificuldade adquirira por um preço elevadíssimo a um ganadeiro de Cáceres um magnífico touro de cobrição. Eram as suas últimas poupanças, a herdade estava falida e Frederico gastou todo o dinheiro, segundo afirmava por inspiração e conselho da Virgem, na compra do magnífico animal. Os credores pairavam sobre a propriedade, a ruína era iminente e Frederico teve um sonho. Durante a noite, a Virgem ordenara-lhe que reunisse tudo o que possuía e se dirigisse à feira de Badajoz. Ainda a manhã não despontara e já Frederico seguia pela estrada de Espanha. Chegado ao destino, aguardou serenamente por novas instruções. Depois, uma inspiração súbita percorreu-lhe a consciência. Quando olhou para aquele touro bravo sentiu um impulso e adquiriu-o. Em boa hora o fez. O Mingão revelou-se um animal de semente excepcional, salvando a família da ruína. A fertilidade do bicho tornou-se lendária e os touros do ferro da herdade dos Garcias, em breve se tornaram, por todo o sul de Portugal e por terras de Espanha, de Cáceres a Sevilha, os mais nobres e bravos animais. Assim, sob a inspiração da Virgem e com a semente do Mingão, se refez a grandeza e a abastança da herdade.

No dia 14 de Julho de 1936, D. Jerónimo chegou ao seu destino. No interior da ermida da Senhora de Guadalupe, na serra de S. Gens já próximo das margens do Guadiana, ajoelha-se aos pés da imagem. Cá fora, os criados que o acompanhavam respeitaram a devoção do peregrino e enquanto o amo implorava por herdeiro, os jornaleiros alentejanos pediam chuva. Nesse mesmo dia, sem que nenhum dos peregrinos de S. Gens o soubesse, chegava à herdade, vindo de Lisboa e com destino a Badajoz, Luciano Ordoñez. Em Lisboa, onde desempenhava funções no consulado, soubera dos acontecimentos de Madrid, logo recebendo ordens de regresso, via Badajoz, sua cidade natal. Passando pela herdade e aproveitando a velha amizade que o ligava àquela família, e dado o cansaço e adiantado da hora, decidiu pernoitar aí. Chegou sem aviso, exausto e empoeirado, e logo o avisaram da ausência de Jerónimo. Pediu somente hospedagem por uma noite. Ao agradecer à dona da casa, os que presenciaram a cena contam como Jenny enrubesceu ao cumprimento do forasteiro.

Poucos dias após, o senhor das Garças regressava da sua pia jornada e, pelos primeiros dias de Agosto, Jenny acusou os primeiros sinais de gravidez, confessando à sua camareira o desconforto causado pelos enjoos matinais. O milagre parecia cumprir-se. Inteirado da novidade, Jerónimo logo iniciou os arranjos para a comemoração. Uma grande festa, com missa, arraial e uma corrida de touros. Será lidado o mais nobre o poderoso de todos os seus animais. No fim da lide, o bicho será morto e o povo terá alguns dias de fartura. Enquanto se encontrava nestes preparos, anunciam-lhe a chegada súbita de Luciano Ordoñez. Os exércitos nacionalistas de Yague ocuparam a serra de San Serván e rumavam a Badajoz pelo vale do Guadiana. A queda da cidade extremenha estava iminente e Luciano atravessou clandestino a fronteira, juntamente com alguns companheiros. O senhor das Garças não lhe nega acolhimento. Abraça-o e oferece ao amigo toda a hospitalidade devida.

No dia 15 de Agosto de 1936, Luciano Ordoñez Reyes morria colhido por um touro no tentadero das Garças. Era dia de grande alegria, celebrava-se o anúncio do nascimento do tão desejado herdeiro. Quando Ordoñez foi atravessado pela cornada fatal, Jenny sentiu um ligeiro rubor e uma dor profunda. Conteve-se, porém, e não chorou. Todos os demais lamentaram a tragédia. Jerónimo Garcia sorriu felinamente. Só ele sabia que as tragédias, todas as tragédias, se devem à perfídia dos homens. Regressou a casa e ao passar pelo átrio aconchegou as flores postas sob o nicho da Virgem e benzeu-se sob a cabeça empalhada do Mingão. Ao final da tarde, começou a chover. No dia seguinte, os sublevados nacionalistas entraram em Badajoz. Os defensores da cidade, após árdua luta, foram conduzidos à Praça de Touros onde foram sumariamente fuzilados.

16/01/05

Sei Que Não Devíamos Ir Por Aí..., por CânticoNegro

Coimbra acabou de chumbar a instalação de três novas grandes superfícies: um Feira Nova, um Staples Office Center e um Leclerc. Fê-lo, com o estafado argumento da protecção do comércio tradicional, - seja lá o que isso for – e com a firme convicção de que “se agora perdemos cerca de 1500 novos empregos a longo prazo evitámos o desaparecimento de 4000.” Pina Prata dixit.

Ou seja, a bem da protecção dos gatunos, dos ineficientes, dos gajos que fecham a loja quando o consumidor comum quer e pode comprar. Eu que até gosto da Baixa gostava de lá passear e comprar ao Sábado à tarde e ao domingo. Azar que os gajos fecham todos. Também não gosto de ser chulado nos livros da Almedina da Baixa de Coimbra e depois chegar à Almedina do Arrábida Shopping de Gaia e ver os livros 20% e 30% mais baratos.

Aveiro de uma assentada permitiu o Continente, o Carrefour, o Fórum, O Feira Nova e o Jumbo. Sempre fiquei à espera de ver uma onda de falências na Avenida Lourenço Peixinho e de ver o resto de Aveiro todo às moscas. Afinal parece que não. Será que não podíamos exportar meia dúzia de iluminados autárquicos de Coimbra para Aveiro, Braga ou Famalicão.

Será que esta gente não vê que a sua preocupação deve ser a protecção do consumidor, a melhoria de serviços ao consumidor, o mais barato, etc, e nunca mas nunca a protecção do dito comércio tradicional que mais do que protegido, quer é ser Garantido. Se tal gente pudesse daqui a pouco andavam a enviar senhas de presença e compra obrigatória nas lojecas da baixinha. Não conseguem ver que tal gente se asfixia a si própria e que o consumidor actual com a mobilidade que tem compra em Aveiro e se necessário em Gaia ou em Lisboa. Têm uma visão estreita e pequenina que há-de acabar por enterrar de vez esta cidade, a bem da loja de ferragens do Ti Aníbal, da Sapataria Deluxe e das Malhas e Miudezas Orlandinha.

14/01/05

Seinfeld Quê?, por Automotora

Sem qualquer espécie de ironia, nunca percebi o fenómeno de popularidade do Seinfeld. Para mim o êxito da série é um fenómeno tão estranho como estar no Times Square rodeado de néons a publicitar os Batanetes. Consta até por aí que é o maior acontecimento televisivo desde que apareceu a primeira voz no écran a fazer “alô, alô, teste”, e estão mesmo a pensar substituir a Estátua da Liberdade pelo Seinfeld, acção que se irá espalhar por todas as regiões do planeta onde haja Cristos-Reis. Ora eu, sinceramente, não sei o que é que justifica isto tudo, tanto que parece que já estão a preparar um filme em Hollywood com a minha história. Vou ser o outro irmão autista do Tom Cruise. Bom, um dia sentei-me à frente do televisor, a tremer de emoção, e a pensar “vou ver o Seinfeld, vou ver o Seinfeld!”. Fui vendo, um, dois, três ou quatro episódios e bocados de outros (cada vez mais curtos). Este sistema de amostragem, meio aleatória, é mais do que suficiente para descobrir genialidades. Mas eu não vi nada, zero. É verdade que o Grunfo diz que tem lá um episódio que me vai converter, mas eu acho isso estranho, porque ninguém se lembraria de dizer “achas que o leitão está mal assado? Prova lá então este bocado”. Ora bem, comecemos então pelo conceito geral do fenómeno: Um apartamento, um café, três ou quatro gajos, incluindo o típico gordo de óculos, uma gaja, com um penteado esquisito, todos a mandar bocas uns aos outros, a zangarem-se e amigos para a vida inteira. Até aqui, temos a descrição de dezenas de outras sitcoms. É o lugar comum mais utilizado na televisão. Aliás, os personagens das sitcoms são mesmo obrigados por contrato a serem amigos para a vida, pelo menos durante o período que dura a série. É como diria o Vinicius: O Amor é eterno enquanto dura o contrato. O genro do Archie Bunker, por exemplo, foi obrigado a partilhar o mesmo espaço com o sogro durante anos, como se fossem amigos inseparáveis. E os fantoches também são obrigados a andar à porrada dentro de um pequeno teatrinho e não deslargam nunca. É uma exigência logística, digamos. Até aqui, não há originalidade nenhuma, portanto. Vamos lá então ver se acontece alguma coisa nos diálogos e nas situações, que é onde neste tipo formatado de sitcoms se pode fazer a diferença. Lembro-me deste, completamente hilariante, genial, até às lágrimas: Um gajo deixa a porta aberta do apartamento. Vem alguém e rouba uma televisão. Seinfeld diz ao outro: olha, eu tinha comprado uma fechadura nova e tudo. Mas acontece que para a fechadura funcionar a porta tinha que estar fechada! É o clic! Sai uma gargalhada do enlatado e o planeta sacode e muda a rota com o impacte das gargalhadas gerais! Eu só achei vagamente engraçado, o que imagino seja um crime de Lesa-Seinfeld. E pronto, de repente não me lembro de mais nenhuma cena... Eu, em matéria de humor sou mais da escola inglesa. Não falo sequer dos Monthy Python (de joelhos!). Vejam o Big Train, para mim o maior da última década, ou o Liga de Cavalheiros, o The Office, ou o Coupling, noutro registo, mais “americano”. Americanos mesmo, não perdia, por exemplo, o The King of Queens, que passou cá com o título parvo de Eu, Ela e o Pai, sem nada de especial ou original, mas com diálogos inteligentes e bem escritos que me faziam rir às gargalhadas. E não me puxem pela língua senão ponho-me aqui a falar dos Sopranos, esse grande clássico da máfia psicanalítica….não, deste acho que não falo. Prezo muito a amizade dos meus amigos.

13/01/05

Seinfeld, Uma Sitcom Genial, por BeloZebú

Há dias, em conversa de café, o Satânico do Automotora disparou-me que detestava o Seinfeld. Finquei-lhe um olhar de admiração e espanto e prometi-lhe um Post de vingança. Aqui está.

O Seinfeld é uma Sitcom Genial. Quem disser o contrário tem que se haver comigo. Até porque preciso de justificar as dezenas de noites em branco que passei a ver o Televendas só para poder gravar em VHS, a primeira passagem da série, lá prás 4 da matina na TVI. Estamos perante um fanático, portantos, haja respeito!

O maior lugar comum sobre o Seinfeld, é de que se trata de uma série sobre NADA. Nada, os tomates. É obvio que os temas são multifacetados e está ali TUDO, o que é o lugar comum logo oposto ao NADA e que vai dar no mesmo. Ainda há dias no “Público” andava um gajo com esta lenga lenga, sem conseguir adiantar grande coisa à coisa dita cuja.

Pra mim definir o Seinfeld é fácil. Não é o Nada, não é o Tudo, é apenas e só uma sitcom sobre Um Grupo de Amigos de Longa Data na sua vivência normal. Até aqui o gajo do “Público” também chegou. Contudo, igual ou semelhante a tal grupo de amigos, deverá haver milhentos por esse mundo fora e centenas pelas Sitcom adiante. Contudo há algumas especificidades de monta que são dificilmente repetíveis, quer na Sitcom, quer no Mundo.

A primeira é que se trata de um grupo de amigos na casa dos trintas que se vê com regularidade quase diária e desde há dezenas de anos. Isto é a Antiguidade. O que, parecendo fácil, não o é, porque nessa idade e até lá, somos em regra assaltados e ultrapassados por obrigações profissionais e familiares que nos cilindram e obrigam a deixar pra lá os amigos.

A segunda é o Sentido de Humor dos cabrões. Tudo serve de arma de arremesso, tudo lhes dá para rir, tudo serve para gozar com o outro, tudo serve para invectivar o outro. Isto parecendo mais uma vez fácil, também não o é. A vida marra de frente connosco e os amargos de boca não deixam em regra que se chegue aos trinta ou aos quarenta com vontade de brincar ou rir. Menos naqueles cabrões que conservam e cultivam por completo o típico humor adolescente com algum humor inteligente à mistura.

A terceira especificidade da corja é o Perdão. Este, por tudo quanto vai dito, mais irrepetível é ainda. Em qualquer episódio há uma tropelia, maldade ou malvadez que um deles faz. E que o outro sofre. Contudo, mais peripécia, menos peripécia tudo se releva e perdoa. A força da amizade entre eles, alicerçada no sentido de humor, faz ultrapassar qualquer dor ou divergência. Há alguma unanimidade da Critica e os Autores exploravam e proclamavam isso mesmo, que no Seinfeld a amizade deles é uma amizade interesseira, superficial e invejosa. Ou seja estão ali os Maus e não os Bons. Eu discordo profundamente. De interesse, inveja e superficialidade, todas as amizades sofrem um pouco e ali acontece o mesmo, contudo não é assim que se mantêm amigos ao longo de dezenas de anos. Para isso, tem que haver cumplicidade, comunhão e memória comum, ou seja, elos de aço, daqueles com força tal que não enferrujam com o tempo. Muito menos se quebram. Eis o Seinfeld.

Isto posto (dou de barato e nem vou por aí), passo por cima da inteligência dos diálogos e dos argumentos, da excelência dos actores, da eterna identificação com os cromos que nos rodeiam, e da constatação de que em quase todas as situações já passámos por ali.

E aqui chegados, resta-me dizer que, Não sei se repararam, mas tenho estado a descrever a malta aqui do Tapornumporco e da Confraria Satânica. Qual Seinfeld, qual carapuça. Automora Kramer vem a meus braços meu filho!

12/01/05

Arquivos do Porco: o dia em que os Stones tocaram no meu quintal, por Couve Flor

Pois é verdade, quantas almas de entre vós, ó mortais, se podem gabar de ter tido os Rolling Stones a tocar no vosso quintal. Roam-se de inveja e fixem esta merda: OS ROLLING STONES TOCARAM NO MEU QUINTAL. hehehehe! Isto é, no Estádio Cidade de Coimbra, a escassa centena de metros da minha varanda.
Esse concerto, no dia 27 de Setembro de 2003, foi um dos momentos altos do Porco. O Porco esteve lá unido: Tinóni, Mangas, Mau, Nini, Vaice, Grunfo, JP e Moi. Tudo com as respectivas famílias. Uns foram para a bancada, outros para a linha da frente. Ali, onde se podiam ver as rugas do Mick Jagger, a careca do Charlie Watts, a sola das sapatilhas aceleradas do Ronnie Wood e o que resta do Keith Richards: a guitarra.
Em Agosto, o Vaice tinha ido de férias para Espanha onde tinha conduzido umas centenas de quilómetros, sob um calor insuportável, para assistir a um anunciado concerto dos Stones em Marbella. Aí chegado soube que Lord Jagger estava ligeiramente indisposto! O concerto foi adiado. Fosse outro que não Sua Alteza Real, Cavaleiro do Império, e o Vaice teria proferido impropérios capazes de arruinar a reputação a uma virgem. Mas afinal, sendo quem era, o caso era compreensível, elogiável até, e o Vaice limitou-se a fazer as mesmas centenas de quilómetros, agora de regresso, sem balbuciar, sem murmúrio ou blasfémia.
Chegados a Coimbra no final das férias, os jornais locais anunciam em primeira mão: «Rolling Stones vão tocar no novo estádio». Incrível, Jagger é Deus e Deus é o mensageiro das súplicas do Vaice. Ainda a tinta estava fresca na primeira página do «Calinas» e já a malta estava no posto da Galp à espera que a bilheteira abrisse. No dia do espectáculo, lá estávamos, na linha da frente. No final, o papel do alinhamento das canções veio ter às mãos do Vaice. Ei-lo agora revelado ao Mundo, aqui mesmo no Tapor, digitalizado no topo deste "post". Como uma relí­quia do Sagrado Lenho, qual ossada de santo, cabelo de mártir em relicário de prata, o Vaice depositou-mo nas mãos, envolto em protectora capa de plástico, para que o digitalizasse. Este mesmo papelinho que aos pés de Jagger & Richards lembrava o alinhamento das canções, este naco de papel onde os mitos pousaram os olhos e onde, quem sabe, até podem ter tocado com a ponta dos dedos, está aqui no Tapor. Até pode ser que um gafanhoto, um pingo de saliva jaggeriana tenha saltado daqueles lábios carnudos que revolucionaram os costumes ocidentais cantando arrastadamente e com desassombro escandaloso que o homem não conseguia ter satisfação, e aterrado nesta folha de papel A4 de 80 gramas. É possível. É este papel que está neste preciso momento entre as minhas mãos, passou pelo meu scanner (yessss!) e ficou digitalizado para, assim imaterializado, poder ser por vós comungado num elevado momento de misticismo eucarístico.

Sardanápalo, por AlquimistaDaDor

Entra-se naquela sala do Louvre e o olhar explode. Num estrondo de luz, cor e movimento, ao fundo da sala, um quadro enorme faz adivinhar tesouros, riqueza, comida, alegria e festa. Ao longe.

Visto de perto a coisa muda. É um quadro do romântico francês Eugène Delacroix denominado “A Morte de Sardanápalo”. São quase Quatro metros de largura por Cinco metros de altura. E se visto ao longe enche a alma de cor e alegria, visto ao perto e em pormenor, arrepia a espinha até ao nervo.

O quadro inspira-se num episódio bíblico que é a morte do sátrapa Sardanápalo da Babilónia, no momento em que este tendo-se visto derrotado pelo inimigo, resolve morrer matando. À sua frente, os seus fiéis soldados chacinam os seus três bens mais preciosos: os seus cavalos, as suas mulheres e os seus escravos.

Pormenorizando o olhar, vemos horrorizados que para lá da festa de luz, cor e movimento que ali reina a morte, o sangue, a violência e o desespero. Sardanápalo refastelado numa cama das mil e uma noites, que deixa adivinhar a contínua orgia da sua vida, abandona-se à morte numa última orgia, desta vez de Sangue.

O quadro na altura, foi considerado escandaloso e foi mandado retirar do Salão de 1827 onde devia ser exposto ao público. Considerou-se que era demasiado violento e orgíaco, demasiado Cruel, Sádico e Masoquista para o gosto do público de então. Hoje é considerado um Ícone Sadomasoquista. Na altura, não sabia tal, mas estive lá meia hora de boca aberta.

11/01/05

Uma Pura Questão Técnica, por FilhoDaPura

Segundo a Agência Ambiental Europeia, a fábrica de cimento de Souselas da Cimpor (segundo os registos de auto-controle do ano de 2001), é a pior cimenteira da União Europeia (UE) em nível de poluição. Tem o pior desempenho ambiental dos 15 países que em 2001 compunham a UE. É obra. Fumaça, Fumarada e Sinais de Fumo é aqui com nós, os Índios Apaches, Hugh!

Para ganhar este Óscar da Nojeira, a Cimpor de Souselas - que em 2001 já estava dotada dos famosos Filtros de Mangas pagos pelo Sócrates - tratou de lançar para a atmosfera os mais elevados níveis europeus de crómio, níquel e cádmio de todas as outras cimenteiras dos 15. E isto, fora outros brindes. Mas fiquemos por estes três que já bastam prá dança da Guerra. Estas substâncias são metais pesados, altamente cancerígenos que são lançados para a atmosfera na sua forma mais perigosa, a gasosa, ou seja direitinho pró pulmão. Fumar o Cachimbo da Paz é proibido nesta tribo de Sioux, mas respirar estas merdas já se pode.

A análise refere-se a um conjunto de 665 fábricas, de cimento, cal, vidro e cerâmica, dos 15 da UE, em 2001, mais a Hungria e a Noruega. Como se vê a nossa Reserva é privilegiada. Quem tem Navajos, tem tudo.

Tal desempenho – notável e premiado – traduz-se na emissão para a narigueta Cherokee de uns míseros 1.840 Kg/ano de Crómio, ou seja, 15,5% do total apurado, a que acresce de brinde 425 kg/ano de Cádmio, isto é, 15,00% do total e de sobremesa levamos com 869 Kg/ano de Níquel, nada menos que 6,1% do total. No conjunto dos 17 a coisa é fantástica, e atesta as notáveis capacidades de resistência e rusticidade do Nariz Comanche.

Assim, propõe-se desde já, a construção numa rotunda de um Monumento Ao Grande Nariz Comanche, em forma de Totem de madeira. O Totem teria na sua base a cabeçorra do Manuel Machado e seria encimado pela Narigueta do Grande Chefe Sócrates, com asas nas orelhas e a cravar as garras nos olhos da cabeça logo abaixo, a Não-Técnica Matilde Viúva.

Instada a comentar as notícias que saíram com isto, lá nos confins de Washington, a Cimpor, informou que “Não comenta”.

Segundo parece, este cantinho Apache conseguiu o record devido à queima como combustível de uma coisita simpática designada por “Coq de Petróleo”, ou seja o resíduo final das refinarias de petróleo, que não serve para mais nada senão para queimar. E tal substância maravilha, que produz estes fantásticos sinais de fumo, é queimada em Souselas como combustível porquê?, perguntarão V. Exªs! Porque é baratinho pois então! A coisa é abundante, com tanta refinação que para aí vai, e a sua queima, porque altamente poluente, é proibida em boa parte da UE. Logo ninguém a quer, logo é baratucha. Vai prós Índios. Gerónimo!

10/01/05

Última hora, por Hermeneuta

Última hora: O líder da distrital do PS revelou ao mundo as razões da escolha de Matilde Sousa Franco para cabeça de lista do PS em Coimbra. A seguir vai divulgar provas da existência de extra-terrestres. Para amanhã espera-se a justificação do PSD acerca da escolha de Zita Seabra para cabeça de lista, por Hermeneuta.

O líder distrital do PS de Coimbra leu o Porco e justificou hoje, em artigo nas Beiras o porquê da escolha da Dra. Matilde Sousa Franco para cabeça de lista do partido no distrito de Coimbra. Ficámos todos esclarecidos e impressionados com a lucidez e a força dos argumentos! Um tratado, este artigo... Não se sabe bem é de quê, de lógica não será, certamente. Aí segue a leitura anotada pelos hermeneutas do Porco dos passos mais importantes de tão notável artigo:

«A cabeça–de–lista do PS, Dr.ª Matilde Sousa Franco, é a grande revelação para a próxima legislatura, uma mais–valia com curriculum e prestígio que muito honrará Coimbra e o país. A senhora tem então um curiculum honroso e prestigiante. Muito bem, ficamos todos curiosos. O articulista quer dizer com curriculum, o seguinte:

Sobrinha de uma das figuras maiores de Portugal, António Sérgio, que considera uma referência na sua vida pessoal – Ah prontos, é o chamado critério nobiliárquico por via sanguínea de terceiro grau. Se a prima do António Sérgio estivesse viva tinha as suas hipóteses...
Com fortes ligações a Coimbra, - quais? Pasme-se com o que vem a seguir - durante quatro anos foi directora do Museu Machado de Castro,uma eternidade! Tenho um amigo que trabalhou dois anos em Abrantes quando esteve na tropa. Nem lhe passa pela cabeça dizer que tem uma forte ligação àquele sítio- implementando uma política de integração do museu no seio da comunidade, tendo sido distinguida como sócia honorária da Associação Académica de Coimbra – ah prontos. O Nelson Mandela também é, acho eu- uma honra devida apenas aos que se identificam com o seu imaginário – deve gostar de fado de Coimbra, sei lá; em 1983 casou em Coimbra, - isto sim é curriculum - na Sé Velha – e logo na Sé Velha! Em cheio. Na Igreja de Santo António dos Olivais era muito pior, mais periférico, talvez- , ainda que o então D. António Ribeiro tenha feito questão de presidir à cerimónia – A hermenêutica produzida acerca deste notável artigo conhece nesta passagem uma aporia de vulto. De facto o «ainda que» quer dizer o quê? Que o «coimbrismo» da senhora fica diminuído por ter sido casada numa cerimónia presidida pelo cardeal D. António? Trata-se, pois, de uma mancha no curriculum? Se em vez do D. António fosse o padre Abílio de Lordemão a presidir à cerimónia, ficava o curriculum mais abrilhantado? Mistério. Chegados aqui, já não sabemos bem o que pensar. A lógica tem os seus limites.
E «o então D. António Ribeiro» porquê? Terá mudado de nome?
E «fez questão» de presidir à cerimónia porquê? Terão os noivos dado a entender que era melhor ser outro a presidir à cerimónia, mas mesmo assim, para desgraça do curriculum dos noivos, D. António terá insistido? Não se sabe ao certo
. Foi defensora da candidatura de Coimbra à UNESCO a património mundial. – Defensora? Eu também, mas é preciso um pouco mais do que defender no café ou aqui no Porco, por exemplo, a referida candidatura. É uma mulher de cultura, - ainda bem que para o PS a cultura não é um defeito - que traz uma motivação acrescida a este combate político – atão porquê? Traz mais motivação porque é de cultura? Enigmática relação. Se é verdade que por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher – Ou seja, não só é afilhada de um grande homem, como esteve por detrás de, pelo menos, outro. Eu nunca percebi muito bem o significado desta frase. Este «por detrás» significa o quê? Que uma grande mulher tem a casa arrumada, cuida das crias, faz um bom bacalhau à Zé do pipo e tem mesa posta e roupa da cama lavada? Se isto é a tal retaguarda, o PS de Coimbra devia propor a candidatura das empregadas e das cozinheiras dos grandes homens. Parece que estou a ver: «Vote na Dona Hermengarda de Jesus, «senhora a dias» do Deputado Manel do Carmo, uma retaguarda forte em qualquer situação» - agora sabemos (Porquê só agora?) que Matilde Sousa Franco assumirá o desafio de ser cabeça–de–lista do PS com espírito de serviço, honrando os compromissos com os eleitores». – quais, a co-incineração? Infelizmente nem isso. A senhora já disse que esse é um problema técnico e ela não é técnica.

Então? Ninguém diz nada? Tá tudo calado? É ou não é um curriculum de cortar a respiração?

09/01/05

E se o Partido Infantil concorresse às eleições?, por Nelito

Estamos em tempo de eleições. O grande desafio deste país, dizem-nos aqueles senhores televisivos, é poupar mais dinheiro e aumentar as receitas. A economia não cresce ao ritmo a que deveria crescer. Afastamo-nos, assim, irremediavelmente dos nossos «parceiros europeus». Temos, pois, que reduzir as despesas antes de mais nada.
Parece-me lógico, parece-me bem, parece-me claro para toda a gente que quem está a gastar demais tem que passar a gastar menos. Qualquer criança percebe isto. Portugal pode reduzir os gastos e aumentar as receitas? Como? Proponho três medidas «infantis» – e chamo-lhes assim porque saltam à vista até de uma criança.

Uma: a máquina do estado português é muito gorda. Temos funcionários públicos a mais – parece que são cerca de 300 mil, segundo os estudos -, temos organismos e serviços que não servem para nada. Primeira medida – corte-se no que está a mais. Emagreça-se a máquina estatal. A questão que subsiste para o partido que queira começar por aqui é – e o que se vai fazer aos que estão a mais? Mandam-se para o desemprego? Pois… Assim não se ganham eleições.

Duas: o «Semanário Económico» divulgou em Setembro de 2004 os dados relativos aos pagamento do IRS pelos profissionais liberais com base nos números da Direcção Geral de Informática Trbutária e Aduaneira. Os dentistas declararam um rendimento anual bruto de 17.867 euros; os advogados, 10.864; os veterinários, 10. 255; arquitectos, 9.277; engenheiros, 8581, etc. Segundo o presidente da Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas, os profissionais liberais deveriam contribuir com 15% das receitas totais do IRS. Contribuem com 6%! Em média cada profissional liberal paga menos de metade do IRS que deveria pagar. E se muitos não fogem ao fisco, isso significa que os que fogem deveriam pagar ainda mais… E nem vale a pena falar de certas empresas deste país, que, coitadinhas, acabam sempre com prejuízo e com alguns dos proprietários, às vezes grandes figuras do nosso triste jet set, a declararem rendimentos mensais de 40 contos mês e a deslocarem-se de Ferraris!
Segunda medida: meta-se esta gente que foge ao fisco a pagar os impostos devidos. Pois, mas então assim é que não se ganham mesmo as eleições…

Três: a qualidade dos nossos políticos é deprimente. Muitos dos políticos portugueses são ignorantes, incompetentes, sem sentido de serviço público, carreristas… Abundam os jotas e ex-jotas que nunca fizeram nada de relevante nem no plano académico nem no plano profissional. A nossa classe política está cheia de «profissionais» que nunca fizeram mais nada na vida a não ser frequentar os aparelhos, urdir as golpadas e contra-golpadas, a preparar carreiras e a desenrascarem-se na vidinha.
Terceira medida: melhoremos a qualidade dos nossos políticos, criem-se condições que atraiam para a política pessoas que se notabilizam nas suas esferas de competência e não uma colecção de carreristas profissionais. Como? Simples: reduzam a assembleia da república, não precisamos de tantos deputados - porque são maus ou nulos e porque a sua escolha não tem nada a ver com os círculos eleitorais por onde concorrem (vejam-se os casos das donas Zita e Matilde no PS e no PSD em Coimbra, por exemplo). Reduzam o seu número, acabem com as benesses e reformas escandalosas. Com o dinheiro que poupar, então sim, aumentem-se os salários mas de menos e melhores políticos. Não resolvia tudo, mas era um começo. Mas é claro, qual é o político que propõe medidas contra os aparelhos? Ná, assim é que não se ganhavam mesmo as eleições.

Conclusão: as medidas são óbvias, não se podem é aplicar. Talvez só nos reste mesmo mentalizarmo-nos de que estamos a criar um país de sol e praia onde o nosso lugar será, mais dia menos dia, o de garçons atenciosos a servirem camones. É uma opção tão digna como outra qualquer. E os gajos até dão boas gorjas.

07/01/05

Alamut e a Seita dos Assassinos, por DervixeRodopiante

No Séc. XI da era cristã, na longínqua Samarkanda muçulmana Nizam-El-Molk, Grão-Vizir e Cão dos Turcos Seljúcidas, cujo Império se estendia do Afeganistão ao Mediterrâneo; influenciado pelos apelos do poeta e sábio persa Omar Khayyam, poupou a vida ao traidor Hassan Sabbah, comutando-lhe a pena de morte por decapitação, na pena de banimento do Império. Erro. Asneira crassa. O Cão Nizam-El-Molk acabava de assinar a sua sentença de morte, bem como do próprio Império Seljúcida.

Humilhado, Hassan Sabbah não agradeceu a clemência e jurou vingança. Banido, errou pelo Império cavalgando o descontentamento e arrebanhando para as suas hostes um exército disseminado, discreto e clandestino. Nasciam os “Batinis, a gente do segredo”. Escolhendo os mais fanáticos de entre eles, Hassan Sabbah fundou então a “Seita dos Assassinos” e refugiou-se com um núcleo duro na fortaleza de Alamut, que tomou com astúcia no ano de 1090. Nesse reduto montanhoso, quase inacessível e inatacável, da região de Teerão, hoje capital do Irão, Hassan Sabbah fez espalhar pelos seus e pelos outros, a sua mensagem de morte:

“ - Não basta matar os nossos inimigos, não somos homicidas mas executores, devemos agir em público, para servir de exemplo. Matamos um homem, aterrorizamos outros cem mil. Todavia não basta executar e aterrorizar, é igualmente indispensável saber morrer, pois se ao matar desencorajamos os nossos inimigos de empreender o que quer que seja contra nós, ao morrer do modo mais corajoso ganhamos a admiração da turba. E desta turba sairão homens para se juntarem a nós. Morrer é mais importante que matar.”

Pugnando pela pureza da Fé muçulmana e pregando a Guerra Santa contra o Inimigo, Hassan Sabbah enviou mensageiros de morte, fanáticos e suicidas, para os quatro cantos do Império. Chamou-lhes “Fedai”, ou seja: “Comando Suicida”. A partir de Alamut e em estreita obediência a Hassan, os Assassinos enviados, matavam sempre em praça pública e sempre em acto público. Quanto maior a multidão a assistir melhor. Uma vez morto o Dignitário ou o Governante em questão, sempre à punhalada, o Assassino nem sequer tentava fugir. Mais do que matar, as suas ordens e o seu destino era morrer. Obviamente morria logo a seguir, mas morria com um sorriso nos lábios e a certeza de se ir deleitar com as 72 virgens que lhe estavam prometidas. “Hassan Sabbah tinha construído a mais temível máquina de matar da História.”

A própria palavra “Assassino” deriva desta gente. Embora pelo paleio do Marco Pólo se tenha vulgarizado a ideia de que a palavra derivava do árabe “Haschichiyun”, que designa os “fumadores de haxixe”, e isto, porque nas palavras do veneziano, tais Assassinos quando matavam, estavam drogados com Haxixe. Hoje é tido como certo que o Marco Pólo andava era com uma ganda moca quando passou por ali, sendo mais ou menos consensual, que Hassan Sabbah terá designado os seus acólitos por Assassinos a partir da palavra árabe com que os apelidava, e que era “Assassiyun”, ou seja “os que são fiéis ao Assas”, isto é, “ao fundamento da fé”.

Em 1092, Nizam-El-Molk é assassinado por um Fedai. A partir da morte do Cão, Hassan Sabbah foi minando todo o Império Seljúcida, assistindo e contribuindo para o seu desmembramento. A Seita dos Assassinos, sempre bem organizada, e quando necessário clandestina, espalhou-se então pela Síria, Egipto e Babilónia. Com os seus assassínios cirúrgicos conseguiram criar um clima geral de terror, que impedia qualquer critica ou afrontamento.

Durante o Séc. XII, sob a chefia de Rachideddin Sinan, “O Velho da Montanha”, a Seita chega a deter 10 fortalezas na Síria Central, promovendo assassínios, conforme as suas conveniências e alianças, quer de poderosos árabes, quer de poderosos ocidentais dentro dos reinos dos Cruzados. A morte para eles sempre foi democrática.

Alamut e a Seita dos Assassinos, sobreviveram aos Seljúcidas, aos Fatimidas, aos Cruzados e ao próprio Saladino. Saladino aliás, moveu-lhes certa vez uma sanha sem quartel, determinado a exterminá-los. Contudo desistiu da coisa após ter sido alvo da segunda tentativa de assassinato por Fedai, que por pouco não lhe limpavam o sebo. A partir daí deixou os batinis em paz. Só com as invasões mongóis do final do Séc. XIII é que Alamut finalmente cai e com ela as restantes fortalezas da Seita. A Seita ainda tem descendência actual, uma vez que o Aga Khan, líder espiritual dos Ismaelianos, “é o descendente em linha direita de Hassan Sabbah.”

Mas se as fortalezas se perderam, as palavras de Hassan Sabbah, não. Perduraram na memória dos muçulmanos e muitos deles seguem-nas hoje como há 10 séculos, sem qualquer depuração do pensamento e sem qualquer envernizamento civilizacional.

Hoje como há 10 séculos, a Al-Qaeda e o seu líder Osama-Bin-Laden proclamam alto e bom som: “Nós gostamos da Morte como Eles gostam da Vida e por isso vamos Vencê-los!”. Não são os únicos. Os suicidas palestinos, sejam do Hamas ou da Fatah seguem religiosamente a mesma cartilha.

E como Sabbah bem sabia, as suas palavras - porque portadoras de uma doutrina eficaz – jamais morreriam como não morreram. Entram hoje como nunca no coração do muçulmano médio e são para ele a expressão da única solução que vê para o confronto com o Ocidente, colonizador, dominador e maléfico. Mais do que uma Seita perseguida e repudiada, os novos Assassinos merecem o apoio explicito ou implícito de legiões incontáveis de Muçulmanos. Uns que acham bem e muito bem. E pior ainda de milhões de outros que não achando bem, acham que estávamos mesmo a pedi-las…

Hoje, 10 séculos depois de fundada e supostamente extinta, a Seita dos Assassinos está mais viva e actuante do que nunca. E porque gostam da morte, nunca morrem.

Fontes e citações: “Baudolino” de Umberto Eco, “Samarkanda” e “As Cruzadas Vistas Pelos Árabes” de Amin Maalouf, “Alamut” de Vladimir Bartol e “O Médio Oriente e o Ocidente, O que Correu mal?” de Bernard Lewis.

O Regresso do Filho Pródigo, por SardaManápula

Ontem na Briosa da Portagem, em Duelo ao Pôr-do-Sol, e após Dois anos de Guerra Fria e Um ano de Auto-Exílio, as massas contendoras entenderam-se, explicaram-se e enterraram o Machado de Guerra. Ainda se tentou fumar o Cachimbo da Paz, mas o cabrão do garção gritou “Gerónimo!” e coisa ficou por ali.

No meio da retoma, surgiu contudo uma crise que não foi possível de debelar. Falo, obviamente do Episódio do Arsénico no Robalo. Na altura, durava a Guerra Fria há um ano, quando se realizou em Novembro de 2003, a Prova Cega do Robalo Ao Sal A Arder, na Cova do Finfas da Tocha. No centro da mesa, o Grão – uma das Massas contendoras – voava com o olhar pelo desenrolar dos acontecimentos. Ao fundo da mesa, no canto à sua Esquerda, o Capitão Nemo – Senhor da Cegueira – e o Axigã - Senhor dos Buracos – recebiam as botelhas, metiam-lhes as Carapuças do Diabo, marcavam-nas com as tarjas de números e sacavam-lhes as rolhas. Enfim preparavam a coisa e asseguravam a Cegueira da Prova.

No outro extremo da mesa, à Direita do Grão, posicionava-se a segunda Massa contendora, o Xekko. Ao seu lado evoluíam à rédea solta o Vice, o Mangas e o Nini. Este trio infernal, com uma posição privilegiada na mesa, resolveu cavalgar a onda de descontentamento do Xekko e passou toda a janta a injectar-lhe arsénico directamente nas veias, numa faena férrea, de pressão e muleta curta. O Sr. Xekko foi toureado pela Tripla Maquiavélica e ainda hoje tem dúvidas que o tenha sido.

Os Venenosos de serviço passaram a janta toda a diabolizar o trio da Rosa Falcão – Grão, Nemo e Axigã – perante o nabo do Xekko, argumentando que: “ - os gajos estão todos feitos uns com os outros para te fazer perder, o teu tinto não tem hipótese nenhuma, olha pró Nemo a ajeitar aquela botelha e a marcá-la, diz lá que aquilo é inocente, olha pró Axigã a olhar de lado a ver se alguém está a ver, vá pá não olhes agora, mas olha pró Grão a controlar a coisa, tás fodido, podes ter trazido um Château Margaux que não tens qualquer hipótese, isto vai ser ganho por um deles, vais ver, os gajos tão feitinhos uns cós outros, uma autêntica cabala, isto tá tudo controlado por aquela corja, tás fodido…”

O Xekko levou nas veias com três horas disto e engoliu a isca, o anzol e a cana de pesca inteira, molinete eléctrico incluído. Para cúmulo do azar, o tinto que ganhou a Prova Cega foi um tinto do Capitão Nemo e em terceiro ficou o Terreus espanhol do Xekko, uma coisa formidável, que normalmente custa 80 a 90 euros. Galo do caralho! No dia seguinte o Xekko Auto-Exilou-se da Confraria!

Ontem na Briosa tentei por os pontos nos iis e esclarecer o Xekko que a cegueira da Prova é uma coisa sagrada para toda a Guilda dos Senhores da Guerra e em especial para o Grão e para o Nemo, e que jamais fosse em que circunstâncias fosse qualquer um de nós pactuaria com qualquer conspiração para prejudicar quem quer que seja.

Não houve hipótese. A filha da puta da dose industrial de Arsénico que a tripla diabólica lhe injectou ainda hoje faz efeito:
“- Tá bem, da tua parte até acredito que respeites a cegueira da prova, mas aquele Nemo nunca me enganou, e o cabrão do Axigã, tão inocente, tão inocente, é capaz do piorio que eu bem sei!
- Ó animal, atão tu não vez que os outros gajos gozam que nem uns perdidos com a história toda, que fizeram de ti o bombo da festa!
- O caralho, eu bem vi o Nemo a marcar as garrafas e vê lá se não foi o gajo que ganhou, o Vice e o Nini ainda vá que não vá que são uns escorpiões do caralho, mas o Mangas é um Puro e jamais me faria uma coisa dessas!
- Ó alma do caralho atão tu não vês que o Mangas é o pior, precisamente por gozar dessa auréola de inocência. Atão achas que ao fim de um mês de confraria alguém se mantém inocente? O Mangas já cá chafurda na pocilga há três ou quatro anos, chamar Puro ao gajo é ofender a água do luso!
- Ná, não vou nessa, os gajos até nos mails denunciaram a vossa cabala!
- Olha, desisto, vai mas é pagar o caralho da conta, que já vi que estou a pregar no deserto!

Finito. Kaputt. A bem a seriedade da coisa e do descanso da cabecinha do Xekko, agradecia à Tripla Sulfurosa que de uma vez por todas aqui repusesse a verdade do que se passou e contribua para um regresso sereno do Filho Pródigo. No Sábado, todos ao Ranhoso para se combinar a Lepanto-2005.

05/01/05

Ron Jeremy, An American Legend and Pop Ícon, por MenteContusa


Winston Churchill, numa frase já citada aqui no Porco dizia que “o gato olha para nós por Cima, o Cão olha-nos por Baixo, só o Porco nos olha de frente!”
Ron Jeremy se algum mérito tem é olhar-nos sempre de frente. É o verdadeiro Porco. Um gajo de meia-idade, com umas entradas de careca, baixote, gordo, barrigudo, mais peludo que um macaco, seboso, gorduroso, sempre a suar que nem um cavalo, atarracado, flácido e que usa um extenso vocabulário de grunhidos como imagem de marca quando bota faladura. Acho que falta só falar da papeira e do bigode farfalhudo. Ah, e é verdade: feio comá noite!

Enfim, com estes predicados todos seria certamente “a mais improvável das estrelas de cinema”. Mas Ron Jeremy é uma estrela. E das grandes. Um colosso. Nascido em 1953 em Long Island, New York, há já 25 anos que irrompeu pelo Porno de San Fernando como um cometa mexicano. Seboso, mas Cometa. Hoje com mais de 1600 filmes no bucho, quer como estrela, quer como director, Ron Jeremy já pouco Porno faz e dedica-se a gerir os seus milhões que lhe advêm dos filmes, das T-Shirts, Posters, Isqueiros, Canetas, Conferências, Talk-Shows, Publicidade, etc, etc.

Neste momento no Top americano dos 10 Dvd´s mais vendidos, segundo o Yahoo, Ron Jeremy conta com nada menos do que 2 filmes: “Housewife From Hell” de 1993 (Porno e duro) e “The Legend Of Ron Jeremy”, uma comédia hilariante de série B, sobre o “The Hardest Working Men In The Showbusiness”.

Apesar de bem fornecido o seu ar seboso, gorduroso e de mexicano manhoso, não lhe augurava grande futuro na indústria da órgia filmada. Contudo, Ron Jeremy tinha dois tiques que caíram que nem ginjas no goto dos amantes de “sucedâneos da vida” (Umberto Eco dixit). Um, era a sua tara pelo Anal - copiado do gosto europeu -, outro, era o tratamento machista e abusivo das mulheres. Não, não era nada de chicotes, pingalins, murro ou chapadeira. Apenas e só o abuso verbal e a brutalidade carnal.

Não havia ali preliminares, aquecimento ou fantasia. Nada. Nada de romance ou lamechice. Há que despachar o assunto, mudar a água às azeitonas e despachar, que a cerveja está a aquecer. Um bruto, um animal. Muitas vezes, nem grunhia sequer, esticava o dedo, apontava e fazia-se entender. O sonho de qualquer macho. Feio, Porco e Mau. Sem preliminares, nem satisfações a dar.

Esta atitude geral do “é pró qué que é e pra mai nada” caiu que nem ginjas no imaginário masculino americano. A isto, acresce ainda a sensação do homem normal, de que se aquele anormal, grunho e baboso, consegue, todo e qualquer um pode conseguir. Daí ao estatuto de animal de estimação de Talk Shows, e queridinho da “inteligentzia artística”, foi pouco mais do que um salto e o Ron hoje é um Ícon Pop, presente em Galerias de arte, impresso em T-Shirts e posters vendidos aos milhões. “He is a beacon of Hope for many Américan Male, since He stands as living proof that pretty much everyone can get some!”

Ron Jeremy is Huge. Revi-o há pouco numa reportagem da Sic Radical sobre o Festival Porno de Barcelona. O entrevistador atira-lhe ao pelo a perguntar-lhe qual o tipo de mulher que o entusiasma e com quem está disposto a contracenar. Ron Jeremy diz que que não é esquisito, nem tem fastio, e que se limitava a usar técnica do espelho e que andava sempre com um espelhinho no bolso. O entrevistador ficou curioso, e o suíno do Ron explicou-se: “ponho-lhes o espelho à frente da boca, se sai bafo, pra mim está viva e marcha!”

04/01/05

A hipótese idiossincrásica na estruturação do substrato metanarrativo da filmografia de Manoel de Oliveira, por José Hersseling*

A afirmação do desiderato gnoseológico, de acordo com a tradição clássica que podemos fazer remontar aos ensinamentos de Hipocrofonte, no século VI a. C., leva-nos a supor que, numa perspectiva meramente metahistórica, o Homem não supera o seu estatuto imanentista pela simples inflexão dos pressupostos axiológicos. De facto, ao compulsarmos as recentes conclusões do professor Richard von Graefe, nomeadamente no terceiro capítulo da sua obra de referência Die Vereinbarkeit von gottliche Vorsehung und menschlicher Freiheit bei Boethirus facilmente concluiremos do solipsismo subjacente a tal processo. Urge portanto, analisar a filmografia à luz dos mais recentes avanços epistemológicos, de um prisma exclusivamente formal, escusado será adiantar.
Assim, temos em primeiro lugar, aquilo que podemos designar como a estupefacção do sujeito remanescente, o que é dizer, a radicação do Eu cósmico profundo na tradição de raíz anglo-saxónica, demonstrável, por exemplo, pelas suposições lógicas da Escola Hermenêutica Formalista de Salzburg. Dentro deste ângulo, escatológico e pampsiquista, somos forçados a considerar a personagem como um exercício redundante. Caso contrário, a perspectivação teleológica resolver-se-ia pela futilidade nominal.
Consideremos, depois, o argumento da introspectividade derivativa. Aplicado o modelo sociológico e feito o tratamento estatístico adequado, concluiremos pela formulação do enunciado seguinte: se A resulta da intersecção do grupo B na trajectória de C, logo o confronto de A com C- implica que consideremos o efeito da chamada variante de Vaerhagen que, como todos sabemos, só é aplicável aos casos prescritos na tabela de Hasnundssen. O que não é o caso. Logo, resulta inválida a tese que R. Schneider propôs ao 3º Congresso Cinéfilo de Tributação Exponencial.
Fica pois demonstrado que Oliveira continua igual a si mesmo.

* Bolseiro Avançado da Fundação Friederich Schweissmuller no Portugiesisch Institut da Universidade de Munchen