22/07/17

Diagnóstico Civilizacional, por Zaratustra

Não jantava naquele restaurante brasileiro desde a última vez que aqui viera com o B. e a M., divorciados há uns bons anos. O restaurante durou mais que o casamento deles. Vivemos numa época em que os restaurantes duram mais que os casamentos. Quer isto dizer que damos mais valor aos prazeres da pança que ao amor, aga
pé, na sua forma judaico cristã?

25/08/16

First time i saw Pacific, por Teco



O Pacífico pela primeira vez! É certo que ontem já tomei banho numa enseada do fantástico Golfo de Papagayo. Mas, embora de uma beleza invulgar, a Playa Bonita situa-se numa enseada relativamente fechada. Faltava-me o horizonte, sem montanhas nem rochedos a travá-lo, faltava-me a sensação de mar aberto, o feeling de estar imerso num pouquinho só da maior e mais profunda massa de água do planeta. Por isso saímos hoje da Playa Bonita e viemos até à Playa Hermosa, 10 klm mais acima, com o Pacífico aberto, imponente, diante de nós. Daí a sensação de o ver pela primeira vez, quando, realmente, é a segunda vez que o vejo.
 
O nome deste mar é óbvio: as suas águas são calmas, ao nadar parecemos deslizar, viro para esquerda e é como se estivesse a descer, viro para a direita e é a mesma coisa. É fácil nadar aqui, flutua-se facilmente e a água transporta-nos sem precisarmos de fazer qualquer esforço.

O navegador espanhol Vasco Nuñez Balboa foi o primeiro europeu a avistá-lo pela primeira vez em 1513, ao cruzar o istmo do Panamá. Chamou-lhe Mar del Sur. Mas foi Fernão Magalhães quem o baptizou como Pacífico durante a sua viagem de circum-navegação (1519-22) porque lhe pareceu, ilusoriamente, que este mar era mais calmo que o Atlântico. Na realidade não é assim. O Pacífico é muito mais perigoso – é o maior oceano do planeta e, nele, é tudo em grande, até a violência das suas águas, quando se irrita. Também ajuda o facto de ter maior incidência de correntes marinhas que os outros mares e de ser atravessado pela maior fenda geológica do planeta, o Anel de Fogo de cerca de 40 000 klms, localizada na Ásia. Daí a ocorrência de tsunamis devastadores a que se vêm juntar furacões e tempestades regulares. Mas, como oceano esquizofrénico que é, quando é calmo, este mar é mesmo muito calmo e foi, sem dúvida, num dia plácido como o de hoje que Magalhães o contemplou. Terá nadado nestas águas, como nós agora (especulo), e foi o próprio mar a sussurrar-lhe o nome: Pacífico.

Perto da praia, as águas são turvas, mas não se trata de poluição. È simplesmente o efeito do areal escuro – a Costa Rica é um país de vulcões, é natural este cinzento arenoso. Nada-se um pouco e agora o mar já é verde, cristalino, vê-se bem o fundo e os seus peixes psicadélicos. À superfície saltam cardumes de peixes voadores, cangurus do oceano. 

Enquanto saboreio o melhor ceviche de pescado que alguma vez provei, numa simpática barraca de praia, observo o rochedo imponente coberto de vegetação que equilibra o imenso horizonte. Mas quando volto a olhar, o céu que parecia límpido, abriu um pouco mais e distingo um novo pão de açúcar que aparece atrás do primeiro. Já lá estava ou nasceu agora? Neste mar tudo parece possível e o ceviche está tão bom…


23/08/16

Gates of Hell, por Nico



Observar de perto a lava borbulhante da cratera do vulcão activo de Masaya, Nicarágua, é uma experiência única! Por razões de segurança apenas podemos permanecer no cimo do vulcão durante 10 minutos (que se transformaram em 30) mas valem como se fossem 10 horas, tal a intensidade da experiência.

Trata-se de um cenário extra terrestre, de um resto de estrela a poucos metros de nós. A lava mexe-se como se fosse um pequeno mar de fogo a querer sair da terra. A cor é indizível. Fumos castanhos e cinzentos invadem o ar. Há ruídos crepitantes de fogueiras a arderem debaixo da terra. De que cor é esta lava? Nem vermelha (é mais forte que vermelho) nem laranja (é mais forte que laranja). É mar mas de fogo, é gravidade materializada e fervente. Lá em baixo, na orla do vulcão há rochas negras como breu, um cenário infernal saído dos quadros de Bosch.
 
Bobadilla e os seus conquistadores espanhóis ficaram siderados quando viram o que eu vejo agora! Pensaram estar perante uma das portas do inferno, julgaram ver ali o começo do reino dos demónios. Chamaram a este sítio las puertas del inferno (hoje, em globês, gates of hell), mas em sentido literal, não era nenhuma metáfora. A designação é a tradução fiel da mentalidade quinhentista para quem o inferno era bem real, isto é, ocupava, de facto, um lugar, um topos, situava-se algures, não era uma u-topia. E sabia-se até que ficava em baixo, no fundo de um abismo sem fim por onde os anjos revoltosos de Lúcifer levaram 999 (?) dias a cair. Para Bobadilla e os seus guerreiros espanhóis aquelas ondas de fogo fervente só podiam ser a face visível desse mundo ígneo.

Mas não foram apenas os conquistadores espanhóis a associarem este espectáculo a forças maléficas. As tribos indígenas pré-colombianas usavam esta mesma cratera de fogo como uma espécie de rocha tarpeia romana mas em versão escaldante. Este local foi um palco de sacrifícios humanos e os deuses lhes valessem, às vítimas, para que morressem na queda antes de serem engolidas por esta enorme boca de fogo. Era o preço a pagar para apaziguar os demónios que habitam no interior das profundezas. Talvez assim eles não se enfureçam e não vomitem a lava que cobre as montanhas em redor

Neste momento há uma equipa da National Geographic a filmar o vulcão. E, ao fundo, perigosamente próximo do lago de lava, uma equipa da NASA instalou a sua panóplia tecnológica para estudar o vulcão Masaya. Parece que afinal, já não há inferno. Agora o vulcão é dissecado nas categorias da geologia e da vulcanologia e auscultado pela tecnologia da agência espacial americana. Agora reina o logos. Mas volto a ver a lava borbulhante do Masaya e sinto o mesmo que os conquistadores e os nativos pré-colombianos. São as portas do inferno, sim. São demónios sim. E oxalá permaneçam sossegados por mais uns tempos…

22/08/16

Ticos, Nicos e Africanos, por Teco



Quem passa pela América Central não pode fazer qualquer ideia de que milhares e milhares de refugiados africanos aqui chegam na sua demanda de sobrevivência. Fala-se muito do êxodo maciço de refugiados africanos para o interior das fronteiras vizinhas da europa. Mas mal se imagina que o seu desespero chega ao ponto de os levar a atravessar o Atlântico de barco para entrarem pelo canal do Panamá ou pelo Brasil (o ponto da América mais próximo do continente africano) e tentarem subir toda a américa central até aos Estados Unidos ou ao México. A Costa Rica é, pois, apenas, um ponto de passagem nesta vergonhosa odisseia dos tempos modernos
 
Agora a Nicarágua do progressista Daniel Ortega resolveu fechar-lhes a fronteira e, em consequência, acumulam-se milhares de refugiados africanos do lado de cá, da Costa Rica. Têm a cor da pele a identificar-lhes o desespero, são distintos e receados pelos nativos costa riquenhos que alertam nos telejornais contra a insegurança. Têm razão, claro, mas poucos lembram que os africanos são, também eles, vítimas de exploração desenfreada

A decisão da Nicarágua de travar esta gente na fronteira é pouco compreensível porque os refugiados não querem ficar na Nicarágua – que já tem problemas de sobra – mas apenas atravessar o país para chegar aos Estados Unidos. O resultado é dramático para os africanos e para as populações costa riquinhas fronteiriças. Como esta zona é uma selva tropical mais ou menos cerrada, o cenário não é parecido com o que vemos na europa onde os campos de refugiados estão situados em espaços abertos (e inóspitos) e perfeitamente demarcados por vedações (de arame farpado). Mas o problema não é estético: a segurança é, simplesmente, mais difícil de assegurar assim, com tanta gente espalhada por extensões enormes de selva. Compreende-se o receio sentido pelas populações locais, pequenas aldeias ou mesmo barracas isoladas, quando se vêm, subitamente, cercadas por milhares de desesperados. Naturalmente que há roubos, se eu estivesse na pele dos africanos, claro que roubaria umas galinhas para comer. Mas também compreendo a hostilidade de alguns «ticos», basta um simples exercício de empatia, coloquemo-nos no seu lugar… Marvin, um costa riquenho que conheci, diz-me que as populações tentam ajudar os refugiados: um banho hoje, comida amanhã, mas isto é possível por um, dois, três dias e insustentável ao quarto.

Por outro lado, pouco se fala da situação desesperada dos africanos. Não apenas da sua saga insana, mas do facto de, também eles, aqui chegados, serem vítimas de exploração de máfias organizadas e de assaltos perpetrados por bandidos locais que lhes roubam o nada que possuem. Como entender, então, a decisão do presidente Ortega, os destacamentos de polícia de choque na fronteira da Nicarágua, armaduras medievais couraçadas e AK 47 a tiracolo? Eleições, explica-me Marvin. Seguro: quando há eleições na Nicarágua, Ortega arranja uma complicação com a Costa Rica. A estratégia é universal, da América à Ásia – unir os seus apontando um inimigo comum. O inimigo comum une - nicos contra ticos

Os mais prejudicados são os refugiados africanos que apenas pedem que os deixem passar. E ainda não vão nem a meio na sua longa e impensável viagem, de rastos pela África desolada, de cargueiro clandestino até ao Brasil ou ao canal do Panamá, a pé pelas florestas da Colômbia, da Venezuela ou da Costa Rica, enfrentando feras não apenas humanas... Se passarem a fronteira da Nicarágua, se conseguirem fintar Ortega e os seus «nicos» armados até aos dentes, ainda têm pela frente El Salvador, as Honduras, a Guatemala ou o infinito México até chegarem ao el dorado norte americano… Para esbarrarem, enfim, nos muros visíveis e invisíveis dos Trump. A saga desta gente, afinal, ainda mal começou.

17/08/16

Lawrence no Caminho de Santigao, por Turgrino



Recebo no meu Whatsapp as últimas notícias dos meus amigos peregrinos – atacou-os há dois anos o vírus da peregrinação e de lá para cá não param de marchar. Este ano estão a fazer a primeira parte do caminho do norte até Santiago de Compostela. Começaram em França, atravessam os Pirinéus e param em Logroño. Sete dias de percurso, uma média de 30 kilómetros por dia.  Escreve o Grão:

- «A etapa de hoje, Puente de la Reina- Estella foi particularmente cruel. Sol inclemente sem qq brisa, caminhos horríveis de calhau rolado, pedras soltas e descidas agonizantes. Duas bolhas não ajudam. Agonia.»

Ontem davam a notícias de que o Atleta tinha tido uma ruptura muscular e usava clonix como combustível... Achei que era meu dever repor um pouco de lucidez e comentei:

- «Se estivesse aí, já estava em Donostia a beber uns canecos. Fónix, vcs fizeram mal a alguém?»

Mas há sempre adeptos da peregrinação (dos outros), como o Bom, que está cá, sossegadinho como eu, mas que resolveu dar moral e transcreveu:

- «Sherif – Tu és louco! Para chegar a A Aqaba por terra tens que atravessar o deserto do Nefud!
- Lawrence – É verdade.
Sherif – O Nefud não pode ser atravessado.
Lawrence – Eu atravesso-o por ti.
- Sherif – Tu… É preciso mais que uma bússola, inglês. O nefud é o pior lugar que Deus criou…
- Lawrence – Não posso responder pelo lugar. Apenas por mim».

… E depois de mais alguns hossanas, vão em frente, a luz do profeta vos acompanhe e afins, cai o comentário da Olga:

- «Só que o Lawrence foi de camelo x)»

28/07/16

Problemas de Tradução, por Fritz

Leu tanto Heiddeger em Português que acordou um dia a falar Alemão.

23/07/16

Hitchock Apresenta: ainda a final do Euro, por Crítico de Cinema



O jogo da final entrou para a história dos melhores jogos de futebol que já vi. No entanto, apesar de ter sido a exibição melhor conseguida da equipa portuguesa ao longo deste Euro (que considero um dos mais fracos senão o mais fraco da história), objectivamente, não foi um grande jogo. Claro que, para mim, para qualquer português, é um dos jogos mais marcantes de sempre – já do ponto de vista do observador neutro, não creio que tenha sido muito mais que um jogo razoável. 

Assim de memória lembro-me de alguns jogos de futebol absolutamente seminais: o Brasil – Itália do mundial de 82, o França- Alemanha, creio que do mesmo mundial, o célebre jogo em que o carniceiro Shumacher manda o Batistton para o hospital, o Portugal-França do euro francês, com o Chalana e o Jordão a arrasarem, o Benfica- Bayer Leverkussen do 4-3, o Holanda - Rússia, alguns Reais Madrid-Barcelonas do passado e do presente (o da «manita» no Nou Camp com o dream team de Guardiola e Messi), o Dínamo de Kiev- Atlético de Madrid  numa final da taça das taças, o Alemanha –Itália com o Bekenbauer a jogar de braço ao peito, etc, etc. Todos estes e muitos outros foram jogos magníficos que marcaram a história do futebol. A última final do euro da nossa consagração não fica na história dessa maneira; mas fica na minha história não só pelo facto de Portugal se ter sagrado campeão europeu. Este jogo teve uma virtualidade fantástica que nem todos têm: teve enredo.

O jogo parece ter sido escrito por um grande realizador de cinema: o melhor jogador português, logo de início, é abalroado por um francês, o vilão Payet, e é obrigado a sair. Ronaldo chora, os portugueses ficam aterrorizados e o sonho parece estar desfeito. Quem senão Ronaldo poderia salvar a pátria? Há um pormenor de realização notável, quando uma traça vem pousar nas lagrimas de Ronaldo. O filme está tão bem realizado que até símbolos tem…

Mas, contra todas as expectativas, em vez do colapso que receamos, os jogadores unem-se ainda mais. Quaresma entra para o lugar de Sebastião Ronaldo, Renato deriva da direita para uma posição mais central e, de repente, a França que estava a ser avassaladora, até então, perde a iniciativa de jogo. Portugal sacode a pressão e começa a controlar a bola. Sem Ronaldo, afinal, melhoramos…

Depois de mais algumas peripécias menores – como a dualidade de critérios de um árbitro habilidoso, outro vilão no enredo – dá-se um novo momento crucial quando Fernando Santos, um treinador geralmente conservador, decide arriscar e mete o Éder. Éder é o anti herói, quase podíamos dizer, o anti-ronaldo: é preto quando o outro é branco, humilde quando o outro tem  rei na barriga, discreto e não espalhafatoso, etc, etc, etc. E é este herói improvável que foi alvo de chacota e de desconfiança da população de adeptos portugueses, quem resolve o jogo num remate fantástico digno de figurar na lista os melhores golos do Euro 2016. Éder vem da Adémia, do Tourizense, do colégio Girassol, de um orfanato, da Guiné... Teve problemas familiares graves. Foi treinado por um mister que jogou à bola comigo. É um tipo às direitas e tem uma força mental do outro mundo. E é bom jogador, não é nenhum tosco, ao contrário do que disseram tantos pseudo-mourinhos. 

Se repararmos bem, este jogo tem uma história do caraças, é uma espécie de conto moral, acerca da força do colectivo sobre a individualidade, da vitória daqueles que nunca desistem, mesmo quando ninguém neles acredita, uma parábola sobre um herói improvável. É uma história bem urdida e tem, obviamente, um herói principal, entre outros: Éderzito, o menino da Adémia.

Se eu fosse presidente da junta da terra  mandava fazer, imediatamente, uma estátua do Éder de 3 metros na rotunda da Adémia com umas bolas ainda maiores que as da estátua do Cristiano no Funchal. Mas no dia seguinte, as primeiras páginas dos nosso jornais tinham todas o Ronaldo, apesar deste Euro ter sido uma vitória do colectivo e do peso de cada individualidade estar perfeitamente diluído na equipa. Uma excepção: a primeira página do Público, uma obra prima gráfica por todo o simbolismo que carrega. Já que não se pode ter uma estátua do Éder com uma bolas muita grandes na rotunda da Adémia…