30/12/06

Barbárie


A morte bárbara de um bárbaro aos bárbaros nos igualou.

29/12/06

Memória do dia 27 de Dezembro de 2006, por Atanagildo Silerca

Dia 27 de Dezembro de 2006, saímos às 8:30 de Coimbra a caminho do Campo Real, nos arredores de Torres Vedras.
Excelente dia de sol com temperatura agradável e pouco vento. Campo em excelente estado. Grande jogatana. Acabámos por volta das 16:30. Como era muito cedo, sacrificámos o restaurante Trás da Orelha (web page off line), do qual guardamos uma excelentíssima memória (aquela açorda de cação, e o camembert fundido, …). Decidimos rumar ao Tromba Rija, em Marrazes, nos arredores de Leiria. Aí chegados, tivemos uma desilusão: estava fechado. A partir de Janeiro só abre aos fins-de-semana. Azar. Optámos então pelo Casarão, no cruzamento da Azóia, um pouco a sul de Leiria. Em boa hora. Excelente lombo de porco com silercas (cogumelos selvagens colhidos no Alentejo), óptimo ensopado de robalo e costeletas de borrego com grão. As entradas banais e caras, é preciso cautela e contenção. Carta de vinhos cara. Atendimento excelente. Crise? Qual crise? Leiam a história da vaca pelo Vasco Pulido Valente, hoje, no Público.

27/12/06

Santa Jenna, por Analogista Simplificado


Jacob [latim: Iacob] > Iaco > Iago > Tiago
ou
Jacob > Jacome > Jaime [inglês: James] > Jameson [filho(a) de James]
1933 - 2006

22/12/06

O Poder é uma Batata, por O Poder do Acho Eu de Que o Poder Está na Verba

Então é assim.
Desconfio, à cabeça, de gente com convicções “profundas” ou “arreigadas”. Acho, nesse sentido, extremamente sábia a visão taoista da vida, que centra a sua filosofia na dualidade dos contrários universais. Como explanou Lao Tsé, tudo na existência possui uma faceta negativa e outra positiva, da electricidade à natureza humana, tudo é dual, tudo é uma coisa e o seu contrário. As convicções não são excepção a essa regra e se a elas se devem inúmeras conquistas e realizações positivas, também contêm em si a semente do ódio e da destruição. Um terrorista islâmico ou nacionalista é um homem profundamente convicto da sua crença, por exemplo. Da mesma massa mas em sentido oposto é feita gente como Ghandi ou Madre Teresa de Calcutá.
Um homem convicto, no entanto, e por norma, é um homem dogmático e prisioneiro das sua verdade. O mesmo se aplica, naturalmente, a um homem agnóstico ou que faça da dúvida o seu método, se não houver o essencial equilíbrio e moderação entre as paixões opostas. Dai a importância de uma conduta pessoal ética, humanista e universal, igualitária e transversal, supra-confessional e supra-ideológica: tolerante. Esta circunstância dualista do homem e das coisas, que tanto pano tem dado para as mangas de autores e filósofos desde o dealbar da História, aplica-se também à história do cristianismo e à das religiões em geral.
É desse modo que o cristianismo e o catolicismo romano em particular, consegue oferecer do melhor e do pior, a paz e a guerra, o amor e o ódio, a intolerância e a incondicional aceitação do “outro” diferente. Por essas e outras nuances, a história do cristianismo é uma realidade extremamente complexa e dualista, um caminho de luz mas também de sombra e sofrimento. É também por isso que o pequeno ensaio do Borat pode ser lido como um manancial de contradições. Precisamente porque a história da sua fé é também tecida de profundas contradições. É normal e é humano.
Ao sustentar que a sua é uma igreja pioneira e revolucionária na separação de poder temporal e espiritual (o que nem é mentira na sua génese doutrinária, nas tais palavras revolucionárias de Cristo) Borat acaba por encher a sua prosa de exemplos precisamente do contrário, de casos em que foi e é flagrante a promiscuidade entre os dois poderes, de Constantino ao César-papismo, da coroação de Carlos Magno em Roma à Inquisição, da capacidade papal para destituir ou entronizar príncipes e reis às teorias de São Bernardo, do cisma Protestante ao banco Ambrosiano, o percurso da Igreja Católica está cheia de exemplos marcantes da interferência religiosa no governo dos homens e das coisas da terra – basta lembrar que se calcula que na Idade Média a Igreja do Vaticano controlava/possuía cerca de um terço das terras cultiváveis da Europa, como verdadeiros senhores feudais. Aliás, desde 756 que o Papa era o administrador político do Património de São Pedro, o Estado da Igreja, constituído por um território italiano doado pelo rei franco, Pepino. Se isso não é poder temporal, o que será?
Por todas estas e outras manifestações ou emanações do poder terreno do Vaticano, não admira portanto e por exemplo que a Revolução Francesa tenha vitimado sobretudo a nobreza e o clero. Não foi certamente porque o Clero andava a dar milho às pombas e aos pobres, mas era provavelmente porque as vozes de gente boa como o celebrado Francisco de Assis chegou mais profundamente aos peixes e a uns poucos cristãos do que à estrutura ortodoxa da Igreja. Assim como também não foi certamente por capricho que Lutero se revoltou contra a ortodoxia católica papista dominante e as suas indulgências e vida mundana, pregando em 1517 as suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg.
O facto é que nada disto é linear e muito menos simples e que vai uma grande distância entre o universo cristão, latu sensu e o sub-universo católico.
Nesse contexto tendo a achar que razão tinha Antero de Quental na célebre conferência do casino dedicada às “Causas da decadência dos povos peninsulares”, onde traça uma clara demarcação entre cristianismo e catolicismo. Para o grande Antero, depois do Concílio de Trento, o Cristianismo, "que é sobretudo um sentimento", afastou-se radicalmente do culto Católico, "que é principalmente uma instituição". Segundo o autor, se o primeiro vive da fé, o outro medra do dogmatismo e da disciplina cega. A mesma que levou a iniquidades como a Inquisição ou a evangelização forçada de milhares e milhares de seres humanos, não à força do sacralizado “Verbo”, mas tão só à força da maior força, que em nome da Cruz arrasou culturas e credos milenares um pouco por todo o planeta.
Antero de Quental, recorde-se, foi também dos mais ferrenhos denunciadores do poder temporal da Igreja Católica no nosso país. Esse facto, de resto, levou a que as Conferências fossem proibidas por portaria real e por pressão da Igreja. Pressão essa que se manifesta ainda hoje em inúmeros capítulos da vida social e cultural e que de espiritual tem muito pouco.
É neste sentido que acho que uma coisa são as boas intenções e as boas palavras, outra bem diferente são os factos e as suas consequências efectivas. Por isso é que eu acho (e o eu, já agora, sou os eus celebrados na capa da Time aqui reproduzida nuns postes abaixo e que anuncia ao mundo a revolução “achista”) que uma coisa é a alegada mensagem de Jesus Cristo (é preciso não esquecer que os Evangelhos que compõem o Novo Testamento só começaram a ser escritos quase um século após a sua crucificação e muita coisa foi deturpada pelas conveniências do contexto ou da vontade do escriba) e outra bem diferente é a organização religiosa e doutrinal que a partir daí se foi desenvolvendo e enriquecendo, moldando-se às conveniências do momento histórico. E essa (lá está a qualidade dualista das coisas) acaba por ser também a vantagem do catolicismo sobre religiões como o islamismo, muito menos permeável à mudança e à força das circunstâncias.
Não obstante e dada a sua natureza tendencialmente “imutável”, a Igreja Católica associa-se regra geral às tendências políticas mais conservadoras e reaccionárias (salvo raras excepções, como a citada pelo Borat “teologia da libertação” na América Latina, proscrita de resto pelas chefias eclesiásticas). Se no Portugal da guerra civil dos anos trinta do século XIX a Igreja se posicionou, realmente, do lado das derrotadas forças absolutistas (apoio concreto e que traduz só por si uma manifestação de interferência no «poder temporal»), não admira também que tenha sido um dos esteios fundamentais da ditadura salazarista (“Deus, Pátria, Família”), ainda que para o final da sua vida e do seu consulado o presidente do Conselho tenha perdido totalmente a fé no ideário católico, como bem lembra Fernando Dacosta no seu excelente “As máscaras de Salazar”.
Tudo isto são também factos, e tudo isto e a História mostram à exaustão como é falaciosa a tese da Igreja Católica enquanto expoente da “separação de poderes”. Teoricamente até será assim, e era bom que assim fosse e que a Igreja se reduzisse ao seu ministério espiritual, mas a prática vivida é uma realidade bem diferente e, por outro lado, há imensas formas, mais ou menos dissimuladas, mais ou menos directas, de condicionar ou interferir nos assuntos temporais e concretos da nossa vida social, económica, cultural ou política.
Diz o Borat que a Igreja é “simplesmente” uma “comunidade de crentes”. «Não uma hierarquia, nem uma instituição, não uma ortodoxia nem um Estado, não uma tradição nem um poder. Simplesmente uma comunidade de crentes». Não concordo. Por um lado, todas as igrejas, seitas, religiões ou cultos são obviamente comunidades de crentes. Por outro, a Igreja de Borat também é uma hierarquia, também é uma instituição, também é uma ortodoxia, também é um Estado, também é obviamente uma tradição e também é muito naturalmente um poder. E esse poder, basta olhar para o tema desapaixonadamente, tanto é espiritual como concreto.
Quanto a caberem lá todos, como já afirmei, conheço poucos cultos religiosos onde não caibam todos os que assim queiram e creiam. Se isso é ser “universal”, repito, todas as religiões o são. E isto não sou só eu a achar, é o poder da evidência. Para terminar, apenas lembro que além de não haverem verdades absolutas e definitivas, principalmente nas matérias do espírito e do sentido mais profundo da vida, a Igreja Católica, como todas as outras, é uma Igreja de homens para homens, e tanto é humana nas suas virtudes como nos seus defeitos e um destes, como sublinhava por exemplo Nietzsche, é a sede de poder, de supremacia, seja qual for a sua natureza, a que ninguém é imune, muito menos os homens que compõem a Igreja Católica Apostólica Romana, que é grande, mas é apenas uma entre muitas. Em si mesma nem boa nem má; em si mesma, por ser humana, má e boa em simultâneo. É tudo relativo, enfim, por muito que o senhor Ratzinger não goste.

21/12/06

Coboiada, por Billy the Kid

À primeira, quando a Sr.ª D. Profª. Doutora Maria de Lurdes Rodrigues afirmou que as decisões dos tribunais açorianos não tinham valor em Portugal, houve quem dissesse que era um lapso. Eu achei que era um sinal.
À segunda, quando a mesma senhora viu a sua arbitrariedade contrariada por decisões judiciais, a propósito da repetição dos exames de Química do 12º ano que lhe retiraram razão e obrigaram à repetição dos exames por parte de alguns alunos, bem como a abertura extraordinária de vagas suplementares na Faculdade de Medicina, houve quem dissesse que era um contratempo. Eu achei que era uma confirmação. Esta senhora e a sua equipa desrespeitam a ordem jurídica. Acham a lei um obstáculo e os tribunais uma maçada.
Agora, os tribunais acabam de proferir uma sentença que não só contraria a interpretação do Ministério da Educação relativamente às famigeradas aulas de substituição, como fazem impor a lei, o Estatuto da Carreira Docente que este governo acha um obstáculo. Prova-se que o desrespeito pela lei e pelo Direito é uma forma de procedimento, é um modus faciendi quando a lei obsta à arbitrariedade e à prepotência. É como os cóbois.
O que me surpreende é que, no interior do jornal, ao se fazer o balanço da actividade governativa ministério a ministério, a jornalista Isabel Leiria (IL) fale de «mexidas» e «contestação» quando deveria falar de ilegalidades e prepotências. Surpreende-me que fale de «alterações» ao Estatuto quando não deveria ser subserviente e dizer desrespeito pelo Estatuto. Indigno-me que escreva «contestadas aulas de substituição» quando deveria dizer que as ditas aulas são ilegais, inúteis e desnecessárias, que o único propósito é tratar os professores como funcionários para assim tornar subserviente uma classe profissional. Por isso é que a Senhora Ministra mandou os professores ler poemas nas aulas porque, a darem aulas, o que seria útil, haveria lugar a remuneração extraordinária. É isto que os tribunais dizem. É bom que se conclua que a Sr.ª Ministra não está interessada nem na qualidade do ensino nem na ocupação dos tempos livres dos estudantes.

19/12/06

Abaixo de cão!, por Kumba Ialá

Zé Sócrates é mentiroso. Disse que os impostos não aumentariam e aumentaram.
Zé Sócrates é manipulador. Manipula os órgãos de comunicação social ao ponto de banir os incêndios da TV. Manipula os estudos de modo a que sirvam uma decisão errada.
Zé Sócrates tem uma fraca preparação académica. Dizem que estudou no ISEC de Coimbra.
Zé Sócrates é uma nulidade profissional. É um carreirista.
Zé Sócrates não tem valor como intelectual. Não se lhe conhece nenhum trabalho teórico de reflexão e sistematização de pensamento.
Zé Sócrates não é frontal. Numa célebre entrevista ao Expresso foi incapaz de dizer se era a favor ou contra o aborto.
Zé Sócrates é dissimulado, preocupa-se mais com a imagem do que com a verdade.
Hoje, o Zé Sócrates mostrou aos portugueses que é o pior primeiro-ministro do Portugal democrático. Pior do que Santana Lopes. Aqui reside o único mérito de Zé Sócrates: conseguiu ser pior do que Santana Lopes. Provou-o hoje, aos que ainda duvidavam.
Recordemos os factos: a Assembleia da República aprovara a nova Lei das Finanças Locais. O Presidente da República submeteu o diploma à apreciação do Tribunal Constitucional. Zé Sócrates escreveu aos juízes do TC, acompanhando a carta de cinco pareceres de constitucionalistas a defenderem, todos presume-se, a constitucionalidade do diploma.
Notemos a idiotice do justificativo do Zé Sócrates: «Isso não constitui uma pressão porque o que me parece é que o Tribunal Constitucional não é pressionável.» Esta burridade, ilógica antes de tudo, constitui a maior e a mais grave idiotice da história política contemporânea. Se descontarmos aquela da Ministra da educação que afirmava que as decisões do tribunais açorianos não tinham validade em Portugal. De um gesto, Zé Sócrates ultrapassa a Assembleia da República, desautoriza o PS, afronta o Presidente da República, pressiona de forma inadmissível o Tribunal Constitucional insultando os seus juízes, instrumentaliza politicamente pareceres de constitucionalistas, expõe-se ao ridículo e atenta contra os princípios básicos da ordem institucional de um Estado democrático. Além disso, a frase está sintacticamente incorrecta. Pior do que Santana. Melhor, abaixo de cão!

17/12/06


Toni Goffe: Não Precisa de se Louco para Jogar Golfe... mas isso Ajuda; Lisboa; Leianaia; 2002

15/12/06

O Islão para Principiantes – 1: Não Agarrarás a Piça com a Mão Direita. Por Borat

Iniciamos hoje uma nova secção que visa esclarecer os leitores acerca de alguns assuntos relacionados com a religião islâmica. Vivemos sob a ameaça de um conflito civilizacional. Teme-se um confronto entre o Islão e a Cristandade. Nós, envergonhadamente cristãos, respeitamos na outra parte, assumida e orgulhosamente mussulmana, muito que não deveríamos respeitar. Por reverente ignorância. Para se entender o mundo de hoje, para perceber o fundamentalismo islâmico, é necessário conhecer os seus aspectos caricatos. Não são poucos. É quase tudo. O Islão é uma religião irracional e fanática, tribal e avessa à modernidade, inimiga do progresso e desrespeitadora dos outros, desprovida de alcance filosófico e profundidade teológica. Todavia, não se defende aqui que o conflito seja uma inevitabilidade, nem sequer se propõe a Cruzada. Esta atitude, praticada no passado e insensatamente proposta por muitos na actualidade, conduziria à perversidade de nos igualar ao nível do que repudiamos. O Cristianismo, como única religião Universal concebida pelo Homem, caracteriza-se pela sua capacidade de integrar o outro no que tem de válido, compreendê-lo, argumentar através da palavra e do exemplo, aquilo a que Roger Bacon chamava sermo potens, isto é, o poder do Verbo.
Posto isto, lembremos que o Islão não se fundamenta só no Corão, mas também na Suna, isto é, a Tradição, a memória da vida de Maomé, a compilação dos ditos atribuídos ao Profeta. O Corão e a Suna constituem a Charia, a Lei Islâmica.
Há inúmeras compilações da Suna, todas elas elaboradas entre os séculos IX e XII, que chegam a reunir mais de um milhão de ditos (Hadiths). Nem todas as recolhas são reconhecidas pelas autoridades clericais como autênticas, sendo todos dizeres avulsos, sem qualquer sistematização ou comentário. Uma das colectâneas mais conhecidas é a do sírio Sahih al Bukhari (século IX), que validou 7 000 dizeres. É aqui, neste conjunto desconexo de frases, que os crentes encontram as normas orientadoras da sua vida. De carácter jurídico e comportamental, modos de conduta e regras para o uso quotidiano, enfim, e em suma, os princípios orientadores da sua vida. Completamente idiotas, diga-se. Como esta:
«O Profeta disse: sempre que um de vocês urinar, não deve segurar o pénis ou limpar as suas partes íntimas com a mão direita.» (Hadith nº 156 do 4º livro de Bukhari). Isto é mais ou menos a Summa Theologica lá deles.

14/12/06

A Solução, por Nikki

clicar na foto para aumentar

Breve comentário às Hipóteses em estudo

Hipótese A

Caracteriza-se pela configuração de um L constituído por dois corpos que albergam diferentes funções; um de uso mais reservado, basicamente ocupado pelo escritório e pelos corpos e outro de uso mais ‘público’ – o da cozinha, das salas e do alpendre. A fechar o L uma fileira de arvores de frutos ajuda a compor uma espécie de pátio voltado a Sul e no qual o destaque vai para a piscina ecológica, espelho de água que permitirá vislumbrar a casa de diferentes maneiras e pontos de vista.

Como aspectos a salientar nesta proposta, a economia das circulações – reduzidas a um mínimo com um desenho cruciforme alongado – e a correcta relação que se estabelece com o terreno, com a paisagem e com os pontos cardeais. (…) Como seria de prever numa solução tipo casa-pátio, que não é verdadeiramente, mas que também não deixa totalmente de o ser, trata-se de uma proposta menos virada para a paisagem circundante; uma solução, portanto, mais fechada sobre si própria, mais concentrada sobre os elementos que a compõem e sobre as suas relações funcionais.

Hipótese B
Distingue-se claramente da anterior pela definição da casa em um só volume, embora subdivido em três corpos justapostos: o dos quartos, voltado a Nascente, o do escritório, salas e cozinha, voltado a Poente. Entre os dois, o corpo das circulações, desenhado sob a forma dum pátio interior sobre o comprido, poderá receber luz zenital e de Sul, luz essa que irradia para os corpos contíguos, principalmente para o das salas-cozinha. Nesta solução o acesso ao piso inferior faz-se pela parte central do volume havendo uma tendência para que a cave fique quase totalmente enterrada. O corpo dos quartos ficará parcialmente cravado, permitindo que a transição entre corpos se faça sempre de nível e assegurando uma ligação também de nível entre o corpo das salas e o jardim.

Novamente a piscina ecologia, com o seu magnífico espelho a reflectir a casa a nascente e as colinas a Poente, atrai os olhares e direcciona a vivência doméstica.

Como pontos-chave desta proposta, por um lado, a forte articulação entre os espaços interiores, interligados através dum corredor-pátio para onde dão todas as divisões. Por outro lado, a relação da casa com a paisagem (ao fundo), enfatizada pelo enorme e ininterrupto envidraçado que atravessa todas as zonas de uso menos reservado. (…)

Hipótese Alternativa

Paralelamente a uma solução mais lógica, de compromisso, como seria a da hipótese A – e a uma solução conceptualmente mais radical, de cariz quase funcionalista – como seria a da hipótese B – perfila-se uma terceira via, de maior complexidade formal. A esta última, surgida in the last minute, por virtualmente exceder o que é solicitado, designou-se como hipótese alternativa. Na verdade, e apesar da sua aparente originalidade, não passa de ser uma variante da hipótese A. Desde logo, recupera a ideia dos dois corpos e a respectiva disposição ortogonal em planta. Porém, nesta nova versão, abdica-se da comodidade de circulação de nível, presente nas soluções anteriores, inusitando-se a sobre elevação do corpo dos quartos que se assume volume independente. Apesar do corpo da cozinha-salas manter-se como em A a discordância altimétrica dos volumes dá parece dar à casa um novo fôlego: a casa é a casa é agora menos compacta, menos previsível também.

Como resultado da elevação do corpo dos quartos foi então possível recriar de modo bem mais elegante o hall de entrada que ganha um duplo pé direito e adquire ambiguidade na sua relação com os espaços interiores e exteriores. Este soltar de corpos antes fundidos, como em acontecia em B, ou linearmente combinados, como em A, permite ainda tratar de modo mais individualizado as superfícies do novo volume: ora se deixam rasgar em longas aberturas, ora se fecham, ora se convertem em panos envidraçados revestidos por ripados que controlam a relação com a luz e com a envolvente. Note-se como a posição elevada inaugura uma diferente relação dos quartos e respectiva zona de circulação com a linha do horizonte. Por fim, o efeito de quase prestidigitação deste corpo paralelipipédico, pairando no ar sobre esbeltas colunas permite introduzir, por baixo, um amplo espaço coberto; um espaço de usos multifuncional: parqueamento, área de jogos (ping-pong, dardos, cartas, etc) zona de repouso, zona de convívio-barbecue, mirante sobre o jardim e sobre o vale, sauna envidraçada, voltada para o pôr-do-sol,...

Esta solução, ao contrário das anteriores, preocupa-se, antes de tudo, em libertar o chão, tornando o próprio terreno, logo pela manhã, quando o sol varre todo o comprimento do lote, no primeiro protagonista da casa e do seu dia a dia.

A partir daqui, a piscina, a zona relvada por detrás das árvores, as montanhas, o vale, o sol nascente e o sol poente, e céu e as estrelas, sempre visíveis, sempre próximos, tornam-se, de forma indelével, parte intrínseca do quotidiano de quem habita.

Paisagem, Terreno, Escritor, Casa e Cosmos num todo indivisível.

As funções que na solução anterior aparecem enterradas poderão continuar a existir, e na mesma projecção horizontal do corpo dos quartos, muito embora a garagem, na acepção de parqueamento, poderia ser substituída, com algumas adaptações, pela área coberta exterior.

13/12/06

A Encomenda

A/C de Nikki, o Arquitecto:

Meu caro, gostaria que me desenhasses uma casa com base no esqueleto que vou tentar descrever-te. Deverá ter 4 quartos, uma cozinha com bastante luz solar, uma sala ampla com lareira e um pequeno desnível entre o “estar” e o “jantar”; um escritório e uma biblioteca; uma cave/garagem onde também possa ter uma garrafeira sempre vazia porque a felicidade dos vinhos é poder bebê-los.

O quarto principal deverá ter anexada uma cabine de sauna, bem vês, gosto de sauna, faço sauna o ano inteiro no ginásio e pago-a a 4 duros a sessão – quando chegar a casa, de rastos, depois de “another day in paradise”, quero transpirar como porco escaldado antes de adormecer no enlevo dos lençóis de linho. Com sauna e linho quem é que precisa de pérolas, concordas...?

A minha sala deverá ter uma parede de outra cor que não o branco. Uma cor forte, intensa, salmão fumado parece-me uma boa solução. Outra característica fundamental da sala será nela afirmar-se uma lareira. Uma lareira grande, imponente, aberta, onde se alcance o fogo e as brasas com o olhar – informo-te já que não confio em fogo que não vejo!

Uma cozinha prática e funcional com rentabilização e aproveitamento de cada canto. Uma ilha a meio com um local de encaixe cimeiro onde pretendo pendurar facas, facalhões e cutelos para cortar delicado sushi à lâmina e cabrito à cacetada.

Um pequeno escritório de trabalho. Este espaço deve servir os propósitos da informática, pastas, arquivos, impostos, reclamações e outros assuntos kafkanianos aos quais temos de regressar de tempos a tempos. Gostava que este escritório tivesse uma parede de tijolo, (cada bloco unido por cimento branco ou o que quer que seja que une os tijolos e contraste com a cor terra que lhes dá o carisma), posto lá de forma quase grosseira, como o resultado de um labor manual e imperfeito, mas sólido e sustentado como o argumento de um policial negro. Entendes-me?

A Biblioteca – questão fundamental. Gosto de bibliotecas, sempre gostei de bibliotecas. Daquelas bibliotecas onde William de Baskerville mergulhou o fascínio do conhecimento e pelo meio resolveu os crimes em O Nome da Rosa; daquelas bibliotecas onde somos possuídos pelo encantamento alienado de poder consultar, ler ou apenas contemplar tantos livros. A minha biblioteca não precisa de ter dimensões desmesuradas, porque o meu conhecimento dos livros também não o é. Mas tenho alguns quantos. E alguns quantos filmes. E cds. E recortes, e textos soltos, e artigos sobre receitas, charutos ou a cultura do chá que fui de forma tão apaixonada quando desordenada guardando ao longo dos anos. E é nessa biblioteca que quero arrumar as palavras e preservar a memória das imagens. Em prateleiras e estantes voltadas para uma secretária em madeira e uma bela poltrona de couro onde irei escrever barbaridades e estrebuchar delírios para o Tapor. Algures, uma garrafa de cognac Napoleon ao lado de uns puros cubanos onde o Grunfo irá pendurar as beiçolas como um pitbull ao cheiro da alcatra. Uma biblioteca tão pessoal quanto plural. Ocorreu-me que a biblioteca poderia ser o núcleo central da minha casa. A célula onde todos os caminhos vão dar. Como a Roma. De que forma e com que disposição geométrica? Não faço a mínima ideia, mas se te agradou, podes voltar a chamar-me Senador!

Um braseiro para assar carne e beber tintos. Com forno a lenha para cozer pão, assar leitões e chanfana. Uma grande mesa de madeira ao centro para celebrar muitas Últimas Ceias depois do golfe, ou as partidas de nuestros hermanos bascos para Bilbau. O espírito de Revenga sem portas nem sub-solo.

Pátios, varandas ou afins. São elementos fundamentais. Quero varandas em todo o perímetro da casa. A casa pode ser percorrida por esse lado exterior, à sombra dos pequenos telhados, em toda a sua dimensão. Haverá pequenas mesas de madeira com cadeiras de encosto nesse resguardo a céu aberto. Como nas casas do deep south americano, Mississipi, Louisana e nos arrabaldes de New Orleans, onde a Harper Lee se sentava ao luar com o pai e aprendeu a escutar os sons das cigarras e a as histórias dos homens contadas por Aticus Finch, e a escrever, muitos anos mais tarde, o Não Matem a Cotovia.

Uma piscina deve ser prevista, centrada com o verde da relva que quero plantar, a oeste dos pessegueiros e cerejeiras que quero fazer crescer ao fundo do terreno. O jacarandá, a magnólia e outras sombras com raiz, ficarão em lugar a destinar e perto de água abundante.

Gosto de matérias que provêm da terra - madeiras, pedra tosca, tijolos, barro. Gosto de cores com o mesmo genótipo – castanhos claros, mel, laranjas, Agosto em final de tarde, tonalidades quentes, mas também azul marinho, verdes ciprestes. Gosto de linhas direitas, da austeridade japonesa, de arrumações compartimentadas e simples, de geometria recta e desprovida de ornamentos, de portões, das colunas do Parthenon e de candeeiros estilo postes de iluminação iguais àqueles para os quais mijava o Vasco Santana no Pátio das Cantigas. Gosto das formas simplistas e térreas dos motéis americanos, das suas linhas carregadas de horizontalidade. Detesto candelabros, cristais, brilhos ofuscantes, estilos rebuscados e com muitas curvas, cornucópias como as das gravatas italianas, classicismo rococó, pormenores acentuados. Sou um gajo informal de hábitos e simples de trajes – gosto de andar descalço dentro de casa sem correr o risco de apanhar uma pneumonia ou fungos nos pés.

A terminar, e se é possível acrescentar algo mais à minha modesta capacidade para visualizar a minha casa, deixo-te a mais simples e memorável descrição de uma casa-lar que já ouvi. É do filme O Gladiador. Na fria e distante Germânia, após a batalha, Marcus, o Imperador pede a Maximus, o General, que lhe fale da sua casa. Uma felicidade pacífica e serena irradia de Maximus à medida que as palavras lhe saem da boca.

Diz Maximus:
«A minha casa situa-se nas Colinas acima de Trujillo. É um lugar muito simples, feito de pedra cor-de-rosa que aquece ao sol. Jardins que cheiram a ervas aromáticas durante o dia e a jasmim à noite. Para lá do portão existe um enorme pomar. Figos, maçãs, peras. O solo, Marcus, negro... negro como o cabelo da minha mulher. Videiras no terreno a sul, oliveiras a norte. Cavalos selvagens perto da casa costumam brincar com o meu filho. Ele quer ser um deles.»
Fico à espera da tua resposta e inspiração, aquele abraço,

Mangas.

11/12/06

Wim Mertens, por Xeko

O lançamento do seu novo projecto “Partes extra partes”, gravado com a Flemish Radio Orchestra, com Dante Anzolini, era um bom prenúncio. Decidi-me, então, por ir ao TAGV, em Coimbra, onde Wim Mertens encantou uma sala repleta, expectante e atenta.
Era minha vontade, de início, assistir a dois concertos - um a solo, com piano e voz, e o outro, com a participação de Gudrun Vercamp, no violino -, na expectativa de ouvir "Struggle for pleasure", "Close cover" ou "The belly of an architect", assim como material inédito como "In and for itself" ou "With all its might", em dois registos diferentes.
Fiquei apenas por Coimbra, para uma experiência notável, pelo destaque que deu ao violino, tocado por uma Gudrun Vercamp inspiradíssima, que encantou.
A voz aguda de Wim Mertens continua a anunciar-se, quase etérea, ainda que de forma repetitiva, sem desvirtuar a dimensão rítmica. Mostra-se em simbiose perfeita com o piano, tal como se pode verificar em “Maximizing the audience” ou “Strategie de la rupture”
É certo que, perante 25 anos de carreira e a edição de 50 discos, é difícil esperar algo de novo, de diferente.
Mas este “refazer” da música, que o distingue no panorama minimalista actual, apoiado agora pelo violino, deu-lhe uma intensidade diferente, outra melancolia. O poder da voz - tal como é conhecido -, ainda subsiste, assim como a sua singularidade.
Além de sublinhar a paixão por ela, na sua expressão pura, mostrou-se disponível para outras sonoridades, sem abdicar do piano, que tão bem o distingue, desde “For amusement only”.
Perdida a oportunidade de 2005, de conhecer “Un respiro”, em Famalicão, não iria perder esta ocasião de o sentir, agora ao vivo, com “Partes extra partes”.
Foi o que fiz, tal como ele, só por diversão…

09/12/06

Ando a digitalizar as estampas de um livro tão velhinho que se estraga com o virar das páginas:


Victor Duruy: História de Roma. Desde a sua origem até á invasão dos barbaros; Lisboa; Escriptorio da Empreza Editora de Publicações Ilustradas; 1891; 4 volumes. Tradução de Manuel Pinheiro Chagas.

Tamanho grande aqui.

06/12/06

Gauguin, o Paraíso e a Modernidade, por Jacinto

No dia 4 de Abril de 1891, Paul Gauguin partia de Paris com destino ao Tahiti. Esta partida tem o valor de um protesto e significa a sua renúncia às convenções clássicas, ao mesmo tempo que denuncia uma necessidade de evasão que podemos considerar inauguradora da modernidade. É esta repulsa, que supõe uma renovação, que o vanguardismo modernista perseguirá incessantemente, desde os finais de Oitocentos até à actualidade.
Este gesto radical acompanha uma reflexão crítica acerca dos rumos da civilização num ambiente decadentista finissecular esteticamente compatível com o simbolismo em que o optimismo progressista começa a esmorecer e que se tornará muito mais agudo durante o período do 1º conflito mundial. A crítica da civilização burguesa, a desconfiança relativamente ao progresso e a recusa da tradição estética são fenómenos correlacionados. O degredo voluntário de Gauguin no Pacífico é pois o manifesto de um precursor da modernidade.
No Tahiti, o pintor sente-se reconfortado: «A pouco e pouco, a civilização vai-se afastando de mim. Começo a ter pensamentos simples, a ter pouco ódio ao meu próximo – melhor ainda, a amá-lo. Tenho todas as alegrias da vida livre, animal e humana. Fujo ao fictício, penetro na natureza com a certeza de um amanhã igual ao dia de hoje, tão livre, tão belo, e a paz desce até mim; desenvolvo-me normalmente e não sinto inquietações.» A esta intimidade com a memória das origens corresponde uma reconsideração do estatuto do artista e da função primitiva da arte que se reflecte no modo como um indígena se dirige ao pintor:
«- Ei! Ó homem que faz homens (sabe que sou pintor), Haere mai tama’a (Vem comer connosco) – a fórmula da hospitalidade em Tahiti.»
A harmonia paradisíaca remete-nos para um modelo de sociedade em que as relações se pautam pela simplicidade e em que o pintor redescobre o seu estatuto primitivo. O pintor é um criador, um mágico, um demiurgo fazedor de símbolos necessários à estruturação da comunidade. O sifilítico Gauguin, o que outrora especulava e enriquecia na bolsa parisiense, o burguês que abandonou a família na Europa e que se sentia oprimido pelo bloqueamento em que vivia a pintura europeia, parecia ter reencontrado no paraíso tahitiano todos os contrapontos ao infortúnio e ao descontentamento da vida parisiense.
Este “exílio” de Gauguin é equiparável em significado à loucura de van Gogh porque ambos, pela necessidade do exotismo ou pela trágica loucura, se manifestaram inadequados ao seu tempo. Nesta medida, foram os dois precursores de uma modernidade latente, pois que a vanguarda é uma insatisfação ansiosa. Insatisfeita com o presente e, por isso, desejosa de futuro.

Paul Gauguin: Noa Noa (Viagem de Tahiti); Lisboa; Assírio & Alvim; 2003.

Imagem: Ia Orana Maria [Eu te Saúdo Maria]; óleo sobre tela, 1891; 113,7 x 87,6 cm; The Metropolitan Museum of Art; Nova Iorque.

04/12/06


António Maia: Handicap 13; Lisboa; Estar Editora Ldª;1998

02/12/06

Uma Mamada em Conimbriga, por J. Piçágoras

No último quartel do séc. I, Conimbriga viveu o seu período de máxima prosperidade. M. Júnio Latrão, ilustre filho da terra, foi eleito para um cargo importante em Mérida, capital da província. Sendo imperador Vespasiano, o primeiro dos Flávios, a orgulhosa e próspera cidade decidiu construir um novo forum, arrasando o velho do tempo de Augusto. Esta requalificação foi acompanhada de outras intervenções, projectando-se umas termas mais dignas. Porém, os elevados encargos orçamentais determinariam um atraso nas obras, e os banhos só se concluiriam no tempo de Trajano. Imaginamos o afã dos projectistas e construtores num corrupio constante para cumprirem os prazos acordados. As oficinas trabalhavam sem parar, o mestre-de-obras incitava os operários, ora aliciando-os com pagamentos extraordinários, ora ameaçando-os com severos castigos. Duácio seria um desses diligentes empreiteiros. Supomo-lo ansioso à medida que o tempo passava e a obra parecia não avançar. A cidade estava ansiosa pelo novo edifício. Os notáveis locais não terão deixado de exercer as inevitáveis pressões. Duácio insistia com os fornecedores para que apressassem as remessas, para que reforçassem a produção, que exigissem um esforço suplementar aos operários. Faziam-se tijolos a um ritmo acelerado, os estaleiros exigiam matéria-prima e os trabalhadores estavam à beira da saturação. Tamanha seria a azáfama e tão persistentes as incitações que os operários se desagradam. Duácio, o nervoso empreiteiro, está sempre presente, gesticula, ameaça, castiga, pune e insiste. Exige mais tijolos, mais rápido, mais trabalho, mais esforço, o prazo aproxima-se do fim. Duácio anda tão atarefado que pediu ao filho que o ajudasse neste derradeiro esforço. Um desgraçado e anónimo operário, saturado, exausto, insatisfeito, farto das ordens de Duácio agora sublinhadas pelo filho, impossibilitado de ripostar, temeroso e conformado, escreve: E se o teu filho te chupasse na piça?! A face argilosa do tijolo fresco acolheu o desabafo. O ilustrado trabalhador pousou-o em mais uma fieira, com a face insultuosa cuidadosamente voltada para baixo, e assim domesticou a ira. Duácio viu a obra concluída nos prazos ajustados. Quase mil e novecentos anos depois, arruinadas as termas pelo camartelo do tempo, os arqueólogos levantam a poeira do esquecimento e descobre-se o insulto: Duatius, tacim filius felat te, que o professor Jorge Alarcão traduziu por Duácio, à capucha, teu filho te faz a chucha.


Jorge de Alarcão: Conimbriga, o Chão Escutado; Círculo de Leitores; 1999.

Imagem


29/11/06

O Apocalipse segundo Idácio, por João-Sem-Medo

Idácio de Chaves nasceu em Limica, no actual município de Xinzo de Limia na província de Orense, nos finais do século IV. Filho de um rico funcionário romano viajou pelo Oriente, ainda muito jovem, percorrendo a Terra Santa, onde terá conhecido S. Jerónimo. Foi bispo de Aqua Flaviae, redigiu um cronicão sobre a ocupação bárbara da península hispânica. A sua visão é apocalíptica, tendo testemunhado um dos momentos mais trágicos e decisivos da História do Ocidente: o colapso do Império Romano. Idácio deixou para memória futura um relato comprometido desses acontecimentos. Católico, num tempo em que as heresias ariana e prisciliana eram ferozmente combatidas pela ortodoxia romana, defendia a unidade do Império e entendia o cristianismo, sob a versão católica romana, como um elemento estruturante dessa unidade. O Império era uma magnífica realização civilizacional, determinado pela vontade da Providência, pelo que lhe parecia imune à barbárie. Desta forma, aos seus olhos, as invasões das hordas germânicas, espalhando o terror sobre os escombros do Império, só podiam explicar-se como sendo a concretização das profecias apocalípticas. Estava firmemente convencido que o espectáculo agonizante a que assistia era o anunciado fim do Mundo e deixou-nos o seu relato do apocalipse. Notável paradoxo este, o de legar ao futuro a descrição do Fim do Tempo! Esqueçamos o absurdo, descontemos os excessos, lembremos que a perspectiva é comprometida e não historiográfica e retenhamo-nos na experiência do horror apocalíptico, terror milenar que enformou a mentalidade ocidental e que é afinal – continua a ser – um dos motores da nossa cultura: «Os Bárbaros, que penetraram nas Espanhas, pilham e massacram sem piedade. Por sua vez, a peste não causa menos devastações. Enquanto as Espanhas estão entregues aos excessos dos Bárbaros, e o mal da peste não faz menos estragos, as riquezas e os víveres armazenados nas cidades são extorquidos pelo despótico colector de impostos e exauridos pelos soldados. E eis que a temível fome ataca: os humanos devoram a carne humana, sob a pressão da fome, e as próprias mães se alimentam do corpo dos filhos, por elas mortos e cozinhados. Os animais ferozes, habituados aos cadáveres das vítimas da espada, da fome ou da peste, matam também os homens mais fortes e, cheios dessa carne, desencadeiam por todo o lado o aniquilamento do género humano».

Idácio de Chaves morreu em 470.


Citação: MARQUES, A. H. de Oliveira (coord.): Portugal. Das Invasões Germânicas à ”Reconquista”; in «Nova História de Portugal»; direcção geral da obra de Joel Serrão, e A. H. de Oliveira Marques; volume II; Lisboa; Presença; 1993; p.26.

26/11/06

Photobucket - Video and Image Hosting
1923 - 2006

22/11/06

Monocromia, por Black Label

Em 30 de Dezembro de 1915, foi apresentada na exposição 0,10, na galeria Nadiejda Dobitchina em S. Petersburgo, o célebre Quadrângulo de Kazimir Malevitch, exibido de modo a que se estabelecesse um confronto com os ícones tradicionais eslavos pois, nos lares ortodoxos, era nos cantos das salas que se colocavam essas representações sagradas, exactamente o local proeminente em que foi pendurado o Quadrado Negro sobre Fundo Branco .
Com esta obra, a arte contemporânea encontra-se a um passo daquilo que poderíamos designar como derradeirismo estético, o que equivaleria, considerando o tempo longo, ao fim da História da Arte enquanto processo. Isto é, com Malevich abre-se a possibilidade do nihilismo apocalíptico sob a forma de um monocromatismo negro. Eliminando o fundo branco, bem como qualquer outro vestígio que confira significado à pintura, obteremos um vazio absoluto que equivalerá ao fim da pintura enquanto género artístico, senão mesmo à consumação da arte. Atingir-se-ia «o fim, o último estrato de prospecção, o nível zero: a última imagem, precisamente», levando a abstracção ao «limiar da absoluta monocromia.» Este passo foi dado por Alexander Rodtchenko em 1921, anunciando a morte da pintura ao apresentar três telas monocromáticas com as cores primárias. O fim será depois concretizado de forma absoluta pelo minimalista Ad Reinhardt (1913–1967), com o seu terminal Abstract Painting sem título, a partir do qual só a repetição é consentida. Uma superfície quadrada toda preenchida por um negro monocromático constitui uma concretização desnecessária de Malevich. Desnecessária apenas no sentido em que o russo a evitou porque seguramente estava certo do que Reinhardt afirmava: «Muito simplesmente faço o último quadro que alguém pode fazer». Depois disto, Reinhardt limitou-se a pintar monocromias negras e a numerá-las. A da imagem que ilustra este texto é a do Museu Guggenheim de Nova Iorque. Há outras, exactamente iguais, noutros museus de referência. Por exemplo, no Minneapolis Institute of Arts, no Museum of Modern Art de Nova Iorque, no Smithsonian Art Institute em Wahington D.C., na Tate de Londres, no Walker Art Center no Minnesota ou no Whitney Museum of American Art em Nova Iorque. Isto para falar só das monocromias negras em telas quadradas, pois que Reinhardt também pintou monocromias negras rectangulares e telas negras quadradas com ligeiras gradações do negro quase imperceptíveis.

Imagem e referências aos museus

Citações de Johannes
MEINHARDT A Crise da Pintura Abstracta nos anos 1960; in «Pintura: Abstracção depois da Abstracção»; s / l (Porto); Público / Fundação de Serralves; 2005.

Post dedicado ao visitante seven, do obvious, cujo post o caminho da abstracção #2 me sugeriu este.

21/11/06

Anais do Porco. Por Manel, o Empalador

Olhem o que eu fui buscar ao baú, umas disquetes que aqui tinha:

«Coimbra, adega do Galgo, 27 de Fevereiro de 1999


«(....) até que um dia o Senhor, desagradado com o rumo empirista e subjectivista do seu rebanho, irado com o episódio do Barca Velha, [alusão à degustação de um Barca Velha prova cega e que foi desqualificado pela generalidade dos confrades] tomou a decisão de enviar um anjo com a missão de apontar o caminho da Verdade e do rigor científico. Foi então, qual novo Moisés, que o abençoado anjo do Senhor ofertou aos bárbaros os instrumentos com os quais eles inauguraram uma nova era das suas vidas. Mas advertiu-os: acabai de vez com as apreciações tipo pica, escorrega bem, bate bem, etc. De ora em diante, exijo-vos o rigor no discurso e a objectividade na análise.»
A História ensina que estes momentos de ruptura têm que superar as naturais reacções conservadoras. Sabe-se como as massas ignaras são adversas à novidade, apegadas à tradição e reagem negativamente à introdução de elementos que perturbem a harmonia pacata do seu quotidiano. E, por isso, também então se fizeram sentir vozes espantadas e ignorantes que, em face dos aparelhos, indagaram "Qu'é isto !?", enquanto coçavam o cocuruto com o indicador esquerdo e com as costas da mão direita limpavam a baba que lhes pingava da beiça embasbacada.
Mas a provar que esse momento não foi um dado isolado, e que reflecte um salto civilizacional qualitativo, temos que, mais ao menos pela mesma altura, como que anunciando a grande novidade revolucionária, os membros da sociedade satânica acolheram uma outra novidade: nada menos que o famoso cardiovelocímetro. Este aparelho é assim uma espécie de conta-quilómetros só que, segundo o nosso Mister especialista em bola científica (isto é, treinador sem bigode) em vez de estar ligado à roda, está ligado ao coração e capta o ritmo da frequência cardíaca, enviando depois, através de um emissor electrónico fixado no pulso, elementos sobre o esforço dispendido pelo utilizador. Assim se desmascara, reportando-nos à aplicação exclusivamente desportiva do instrumento, o sub-rendimento dos praticantes, forçando-os à exaustão. Porém, a importância desta geringonçça consente outro tipo de utilizações. Sirva de exemplo a aplicação do cardiovelocímetro no domínio das relações interpessoais. Pela consulta dos dados obtidos pelo aparelhómetro torna-se possível detectar o subesforço de uma das partes, advertindo-a mais ou menos nos seguintes termos:
- Desculpa lá, mas não deste o litro. O cardiovelocímetro não engana! Vais ter que amochar outra vez!»

Esclarecidos então acerca da importância histórica do repasto, passemos à apreciação do dito.
No referente aos sólidos, nada a opor. O chouriço caseiro cumpriu e o queijito não envergonhou. De 1 a 5, as entradas merecem nota positiva. Os torresmos estavam óptimos, temperados à portuguesa, apenas com vinho, segundo o anfitrião, e fritos na própria gordura. O arroz de míscaros apresentou-se em duas versões, a saber: com carne e sem carne. Nenhuma das versões envergonhou e qualquer delas bate a versão do Cantinho dos Reis, uma sub-espécie que constitui uma terceira categoria: arroz com carne, colorau, pimentão, massa de tomate e alguns míscaros.
As duas variedades foram provadas e aprovadas, muito teriam ganho se algumas alimárias retardatárias entendessem o significado de 8 horas. De facto, se é às oito, não é às 8 e meia e, por maioria de razão, muito menos às nove menos um quarto! Não é preciso ter um rolex para entender isto! Ou alguém tá a precisar de slides?
O arroz perdeu, e é em memória do que perdeu que agora se estipula o princípio de iniciar os jantares futuros à exacta hora marcada. Quem chegar atrasado traz pão com fiambre!
Passando aos líquidos, deve comentar-se a já proverbial sovinice do vice-mestre que trouxe um miserável Porca de Murça do ano, porque não havia mais barato.
Quanto ao Grão-mestre, et son partenère, porventura ainda ofendido com a estrondosa indiferença com que apreciámos o Barca Velha, decidiu dar uma de educador das massas! Como quem diz (e escreve, reportando-me à assinalável importância e elevado sentido de humor da sua crónica dactilografada) que o mal não deve ser do vinho (ainda que o José Salvador sublinhe a precipitação motivada pelo «efeito Expo 98»), por isso deve ser das bestas com sentidos empedernidos. Ora, aplicando agora os básicos príncipios da economia, trocar de bestas sairia caro e moroso, portanto, educam-se! Foi assim que ambos vieram munidos de uma garrafitas adquiridas no Pingo Doce, em saldo, e que eram vinhos de casta única. Um Trincadeira e um?????, numas garrafitas de 0,50. Julgavam, através deste método ensinar os rudimentos da enologia, o b-a-bá da matéria. Ora bem, caros grandes timoneiros, as bestas a educar entendem por conveniente dizer duas coisas:
1º: Esses vinhos de casta única não valem uma merda!
2º: Se acaso persistirem nessa tendência para apresentar vinhos em garrafitas de 0,50, daremos validade à hipótese que propõe que o volume da garrafa é directamente proporcional ao tamanho do membro viril! Não repitam pois a ousadia se não querem acrescentar ao nome o epíteto O Meio-litro!
Assunto encerrado! Não queremos ser educados! Estamos felizes enquanto bestas! Mais, orgulhamo-nos de ser bestas e só aceitamos uma metodologia educativa para deixar de ser bestas: mais Barca Velha! Até parece que nunca ouviram falar no método pela descoberta, em que a besta é que determina o ritmo do processo ensino-aprendizagem. Nós não queremos ficar traumatizados!»
Já lá vão uns anos. Exceptuando o eclipse do Galgo e a banalização do cardiovelocímetro que na altura era uma novidade, está tudo na mesma: à marrada e à morteirada!

16/11/06

Muito acerca de nada, por Mangas

Encontrei os meus cães a lamber o sangue de um pavão que saltou a cerca para o lado de cá. Fitaram-me, quietos, à espera de uma carga de porrada, mas deixei-os entregues ao que restava daquele campo de batalha de onde sobravam ossos, carne rosada e penas coloridas.

Cenários idênticos podem acontecer após o anúncio da classificação dos tintos numa prova cega, ou no rescaldo da cirurgia plástica a um porco.

Depois disso apontei-lhes o caminho para casa, mas os cabrões ainda não regressaram.

15/11/06

Exercício nº 1, por Poirot

A empregada entrou na sala e verificou que estava lá um morto estendido no chão. Deu o gritinho tradicional e chamou logo a Polícia. A Polícia chegou a tempo de verificar que o morto continuava na sala, mas encontrou lá dentro mais dois homens: um Gordo e um Magro.
O Detective Columbo resolveu logo o mistério:
- Já sei quem matou a vítima. Foi o Magro.
Pergunta-se: como descobriu o Detective Columbo que o assassino foi o Magro?
(veja resposta na caixa de Groinks deste post)

09/11/06

Rosebud, por Fernão Lopes

Aaron Delwell Penglast é um multimilionário norte-americano da Pensilvânia, considerado pela revista Forbes entre os 15 mais ricos do Mundo, que acaba de constituir uma fundação com um propósito exclusivo, bizarro e muito curioso. O senhor Penglast, de 63 anos, dotou a sua Fundação com largas dezenas de milhões de dólares, contratando especialistas das mais variadas áreas, que vão da arquivística à informática, ou da robótica à psicologia, com a intenção de reconstituirem a sua vida desde a mais tenra infância até à actualidade, bem como de procederem ao registo de todos os factos da sua vida futura, mesmo os mais ínfimos e irrelevantes. O objectivo é produzir um guião diário da vida do multimilionário e reconstituir a sua vida em espaço virtual 3D de modo a que, após a sua morte, se cumpra a disposição testamentária já redigida e mantida em segredo mas que, no entanto, dispõe que um colectivo formado por um vasto número de sábios e especialistas nas mais diversas áreas seleccione um casal que esteja disposto e aceite livremente que o seu ffilho viva a vida de acordo com a reconstituição virtual, e devidamente documentada, da vida de Aaron Penglast. Isto é, diariamente, os arquivos digitais ora produzidos deverão ser consultados e a jovem réplica deverá viver a sua vida de acordo com o guião. Isto é, ler os mesmos livros, ver os mesmos filmes, visitar os mesmos locais, estudar as mesmas matérias, tomar as mesmas decisões, tanto quanto for possível, tudo igual à vida de Penglast. A Fundação manterá um curador e um colégio de acompanhamento que deverá não só manter a vigilância sobre o quotidiano do contemplado como decidir sobre os factos dificilmente replicáveis ou até impossíveis de repetir. Deverá o colectivo de curadores reunir e recomendar, em caso de impossibilidade de se observar o quotidiano original, a alternativa mais próxima e exequível. Discreto, o sr. Penglast aceitou apenas dizer que este processo foi o que mais próximo se assemelhou com a conquista da imortalidade. «Não creio na clonagem», acrescentou.

Foto: http://universe-review.ca/F10-multicell.htm#evolution

07/11/06

Alá Akbah!, por Wickie o Viking

Saddam Hussein foi condenado à morte por enforcamento. Não é que a morte de um tal facínora me suscite qualquer espécie de compaixão. Ele foi justamente acusado de uma série de crimes monstruosos e declarado culpado. Até aqui tudo bem. Mas não concordo que se responda aos seus crimes com a perpetuação de um crime de estado que é, no fundo, a pena capital.


Já nem quero focar a discussão na legitimidade da pena de morte. Sublinho apenas a superioridade da Europa relativamente aos EUA neste particular. Mas basta pensarmos que os Americanos – sim, são eles os juízes deste processo Saddam – estão a criar mais um mártir da «causa muçulmana» quando o ex-ditador iraquiano estava reduzido a uma figura risível. Vivo Saddam era uma personagem de pechisbeque, até para os alucinados de turbante que não simpatizavam com ele. Morto, «assassinado às garras do Grande Satã» vai transformar-se num mito, vai ser elevado à categoria de Super-Herói do Islão. Bush persiste, tenaz, na asneira e perde mais uma oportunidade para demarcar a civilização da barbárie. Do fundo de uma gruta, algures no Afeganistão, Bin Laden agradece...


P.S. Ao que consta os governos europeus já se demarcaram desta infeliz decisão. Há um estado europeu, o seu presidente da república e o seu primeiro-ministro, que persistem, porém, em manterem-se calados, em escudarem-se em cínicos «Suas Excelências não têm nada a declarar» (a não ser que os obriguemos, claro). Falo do nosso Portugal, pois claro. «Não hostilizarás o Poderoso», assim reza o primeiro mandamento da Bíblia Hipócrita de Zé Aníbal Sócrates Cavaco, neste como noutros casos.

05/11/06

Hermanizaram-se!

Photobucket - Video and Image Hosting
O Júlio Isidro foi ao Gato Fedorento! Melhor, ao Diz Que É Uma Espécie de Magazine! Até o título é um flop! É a morte dos Gatos? Engravatados, com palmas enlatadas, com público contratado, com momento musical, com trocadilhos idiotas. O Júlio Isidro! Por amor de Deus! O Herman, apesar de tudo, aguentou mais tempo. Tirando o dito boneco do Paulo Bento, ao cabo de dois programas, não vi nada de jeito.

foto:
http://designersalliance.co.uk/wp-content/uploads/2006/05/shit.jpeg

02/11/06

Que Vai Ser Deste Homem?, por Hiena Fedorenta

O último sketch do Gato Fedorento a imitar o único treinador de futebol do mundo que usa o penteado de risco ao meio e fala português ao soluços com a musicalidade do castelhano é, apenas e sinceramente, a melhor imitação de alguém que alguma vez me foi dada a ver. Antes de continuarem a ler o resto do post vão ao You Tube, digitem Paulo Bento e vejam o Ricardo Araújo Pereira no seu melhor boneco de sempre. Vale a pena. Vão lá que eu espero.

Já viram? Genial! Mas uma imitação destas coloca imediatamente a seguinte questão: e agora Paulo Bento? Eu acho que o homem tem a carreira arruinada. A partir de agora, ninguém que tenha visto o sketch o conseguirá levar a sério. Como é que ele conseguirá agora falar aos jogadores do Sporting no balneário sem que estes se desmanchem a rir? Imaginem que o Sporting perde ao intervalo com o Desportivo das Aves em casa e é preciso um discurso que acicate os jogadores. Vai ter que falar o treinador adjunto, carago, porque os jogadores lembram-se do Gato Fedorento quando vêem o treinador. Pode ser o fim da carreira do Paulo e é chato. Há quem diga que na segunda-feira a seguir ao sketch os jogadores compareceram todos ao treino de risco ao meio. Foi mau…

Ontem ouvi o Bento na rádio a falar e dei por mim a rir ás gargalhadas – o boneco já se sobrepôs ao homem, o Paulo Bento real parece uma anedota séria a tentar a imitar o Paulo Bento cómico. E até pensei se o Bento não fará agora um esforço sobre-humano para evitar dos tiques que o Gato tão cruelmente lhe apanhou, como abrir muito os olhos e esticar muito o pescoço para a frente... Eu fazia, fónix… Será que ele nunca mais vai poder dizer «tranquilidade» na vida? E outras palavras acabadas em ade? Ainda poderá pronunciar «imunidade», «maturidade», «regularidade» ou «qualidade» sem ficar com a estranha sensação de que era o que milhões de pessoas que o ouvem estavam à espera que ele dissesse? Ou quando estas palavras lhe surgirem ele vai engoli-las e substitui-las por outras para evitar que a malta se desmanche a rir?


Eu sei que o pessoal do Gato é benfiquista. Mas não havia necessidade de fazer um tamanho assassinato de carácter ao líder inimigo. Acho que agora nem a mulher do Paulo deve conseguir estar com ele sem cair da cama abaixo às gargalhadas. É traumatizante, fosca-se. E o Sporting tem um azar do caraças: já não lhe chegava o mítico Sousa Cintra que dizia «Spórtem» e mandava garrafas pela janela do carro em plena auto-estrada. Só lhe faltava o Paulo. Assim não dá. Não há tranquilidá…

31/10/06

The Big Crash, por Piçágoras

Quase passou despercebida a notícia bombástica da semana passada: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra deu razão a uma aluna que recorreu da invenção da espantosa ministra da educação que decidira repetir os exames de Química e Física do 12º ano. Conhece-se o enredo: foi criada, com esta estapafúrdia invenção ministerial, uma situação de excepção que beneficiou apenas os alunos de Física/Química e dentre estes, apenas os que haviam feito o exame na primeira fase. Houve logo vários recursos em tribunal e agora uma aluna de Coimbra viu a sua razão ser reconhecida: o Tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra considerou e bem quea aluna não podia ser prejudicada e ordenou que tivesse acesso a um segundo exame. Era óbvio, só para Maria Lurdes é que não…

A reacção de Lurdes Rodrigues a esta decisão do tribunal é fantástica e ninguém parece ter-se apercebido da gravidade das suas afirmações. A senhora diz que respeita a decisão do tribunal e cumpri-la-á, ordenando, portanto, um exame especial para a aluna em causa. Como? Terei lido bem?

Em primeiro lugar creio que não passaria pela cabeça nem ao diabo que a senhora não cumprisse a decisão do tribunal. Era o que faltava. Mas cumprindo-a e reconhecendo-lhe razão, a ministra reconhece assim o erro da sua decisão original: a da repetição dos exames. Isto já é grave e devia merecer consequências políticas. Como estamos em Portugal, seria de esperar pelo menos a demissão de um porteiro do Ministério da educação. Mas não. Parece que «no pasa nada»…

Mas o pior é que a dona Maria de Lurdes ficou-se pelas meias tintas. Não, ela não se deveria limitar a mandar fazer um exame apenas para a aluna em causa. Devia, isso sim, como Ministra da Educação que é suposto ser, MANDAR REPETIR TODOS OS EXAMES DE TODOS OS ALUNOS EM IGUALDADE DE CIRCUNSTÂNCIAS COM A ALUNA QUE GANHOU O RECURSO. Mais: com todos os alunos – não só os de química – que ficaram prejudicados em relação aos seus colegas que usufruíram de um regime escandaloso de excepção. De outro modo o que Maria de Lurdes está a admitir é que a justiça só vale para quem tem dinheiro para mandar meter recursos. E os milhares de alunos que, infelizmente, não têm possibilidades monetárias para fazer idênticos recursos? Esses ficam na mesma, discriminados e tratados como cidadãos de segunda só porque não têm meios económicos para meter recursos. E a ministra esquece quem é, esquece que é ministra e que é da educação e deixa-os assim, como se nada fosse com ela, como se não tivesse qualquer obrigação, ética, cívica, meramente profissional, que seja, para com eles… É triste!

É claro que se isto se passasse num país a sério e não nesta África ocidental onde vivemos, a indignação das pessoas far-se-ia sentir. Mas o pessoal quer é bola, floribela e morangos. Batatas! E os políticos do governo que estão sempre a atirar-nos à cara com a superioridade das sociedades nórdicas perdem aqui uma boa oportunidade para lhes seguirem o exemplo. Já que o enfadonho e apático povo português não se indigna como deveria e não pede em uníssono a demissão desta ministra, porque razão não se porta Sua Excelência como uma sua congénere Sueca ou Finlandesa e segue o único caminho que, em coerência lhe restaria num país culto e civilizado, que é como quem diz, o caminho do olho da rua?

30/10/06

A Culpa é do Dedão!, por Dédalo

Photobucket - Video and Image Hosting
Para assumirmos uma bipedia permanente, abdicámos da oponibilidade do polegar dos membros inferiores e da capacidade de preensão característica dos restantes primatas. O dedo grande do pé é essencial à locomoção bípede. Experimentem andar descalços e sem tocar com o dedão no chão. Tornam-se lentos e pesados, andam aos pulos como crianças que aprendem a andar. Na aurora dos tempos, nas savanas africanas, isso significava, para os muitos predadores, uma só coisa: sobremesa fácil! O dedão autonomizou-se e os predadores tiveram que procurar outros manjares. Com o dedão requalificado e dispensado da oponibilidade, podemos correr e fugir, dar o impulso final do salto que nos permite alcançar o galho da árvore e assim salvar a vida, mudar de direcção bruscamente e iludir os perseguidores, verticalizarmo-nos e elevar o ângulo de visão, melhorando a capacidade de percepção do perigo, pois podemos pôr-nos de pé e ver mais longe. Foi uma mudança decisiva. O desvio do dedão relativamente à sua função natural teve um preço: o dedo grande do pé já não serve para agarrar. Esta novidade, incorporada geneticamente nas características da espécie, dificultou-nos a acoplagem ao corpo materno. Um orangotango bebé agarra-se ao corpo quadrúpede e peludo da mãe com os 4 membros. Uma cria humana tem uma mãe bípede e sem pêlos e só dispõe de dois membros para se segurar. A bipedia inutilizou-lhe os pés para este fim específico. Tal facto exige que a mãe lhe empreste os seus dois membros superiores e o ampare ao colo. A mãe emprega os membros inferiores na locomoção e os superiores a segurar a cria. Torna-se inútil além da maternidade. Incapaz de lutar, está indefesa. Incapaz de colher alimentos, carece do auxílio dos machos. Cria-se uma relação de dependência da fêmea que exige a protecção do macho. Há quem veja aqui o início da monogamia. As relações sofisticam-se e requerem a linguagem e há quem especule que a origem da fala decorre assim desta vulnerabilidade das crias. Tudo começou com um dedo desviado do fim natural e que deixou de se opôr aos restantes! Incrível! Terá toda a história da Humanidade resultado de uma correcção tão ínfima? Fascinantes reflexões a propósito de um artigo da National Geographic sobre a «Menina de Dikika», fóssil de uma criança de 3 anos de idade achado no deserto da Etiópia e datado de há 3,3 milhões de anos! Artigo disponível na edição portuguesa que hoje saiu com um preço de promoção: 1 euro! A comprar já. Disponível on-line também.

29/10/06

Texto sem Título, por Mangas

Recordo-me agora de como tudo aconteceu: o meu pai meteu-me no autocarro e levou-me com ele a visitar uns amigos de infância, refugiados como nós, que se instalaram num lar abandonado, por empréstimo. Entrámos num corredor estreito encimado por janelas de vidro baço através das quais o sol diluía a penumbra. No quarto onde viviam as duas famílias dos amigos do meu pai havia malas abertas, caixotes empilhados, tábuas de madeira, cobertores a servir de colchão e outros de palha alinhados pela parede. Todos os cantos estavam ocupados. O meu pai sentou-se num banco improvisado e trocou recordações com os amigos. Eu sentei-me no chão e troquei bolachas Maria pelo fascínio da contemplação silenciosa daquele caos habitado. Os filhos comiam carne enlatada e bebiam leite Nido por malgas de barro sem ligarem nenhuma a que eu estivesse por perto. Uma mulher entrou, acenou ao meu pai e trouxe-lhe café a fumegar. Passou-me a mão pela cabeça, mas na realidade não creio que me tivesse tocado sequer, que me tivesse sentido ou dado pela minha presença entre os volumes encaixotados que lhe sobreviveram à fuga. Num dos caixotes que serviam de mesinha de cabeceira estavam alguns livros do Major Alvega e do Príncipe Valente o que atraiu fixou a minha atenção - as capas eram a preto e branco; tudo o resto que sobrava da realidade estranha e desordenada à minha volta era um mosaico colorido, um retalho amarrotado de objectos e pessoas. O Major Alvega voava no seu Spitfire sobre as nuvens de um céu manchado pela cera de uma vela. O do Príncipe Valente estava encoberto e eu só conseguia distinguir-lhe a espada. Os miúdos acabaram a ração de combate e foram brincar com pistolas de cartão, enquanto eu fiquei sentado a tentar folhear a primeira página do Major com o olhar. Existiam outras famílias nos outros quartos. Os homens foram chegando e cumprimentaram-se com abraços. Alguns riam, outros lamentavam. Por ordem de chegada. Era assim: se os últimos lamentavam, os que lhes chegavam a seguir, não sorriam, e vice-versa. Todos eles tinham em comum sentarem-se muito direitos, mas com pesar, posturas erectas, mas com esforço. Parecia-me a mim. O café da mulher não chegou para todos e eles recusaram por cortesia...

Quando o meu pai se despediu, um dos amigos que me tinha topado desde o início, agarrou nos livros e ofereceu-mos, o meu pai perguntou como é que se diz?, eu disse, e mais tarde, enquanto descia as escadas, olhei para uma das janelas igual às outras e pensei que, apesar de tudo, todos eles deviam ser felizes porque não tendo nada, tinham muitas coisas e estavam juntos, não precisavam de arrumar as tralhas enquanto liam livros do Major Alvega e do Príncipe Valente, os putos até podiam brincar com pistolas quase verdadeiras e almoçar enlatados, e eu naquele quarto até podia ser invisível. Nessa tarde choveu até anoitecer. Uma tempestade imensa varreu as montanhas. Quando trovejou as velhas rezaram e os homens esconderam-se a coberto do perigo. As traseiras da casa onde morávamos alagaram-se até ao joelho e o colchão onde eu dormia parecia uma ilha ensopada. O meu pai teve de fazer um buraco na parede de modo a escoar a água para a horta do vizinho. As roupas misturadas com batatas na lama, caixotes empilhados, chávenas de casquinha e álbuns de fotografias arrastados pela torrente das águas. Lembro-me do choro silencioso da minha mãe, e do meu pai encostado a um canto ancorado num cigarro, o olhar fixo e carregado, sem dizer uma única palavra. Lembro-me também de ter pensado que, vistas bem as coisas, os refugiados do lar talvez não fossem tão felizes quanto isso..

27/10/06

Pequena História de Portugal, por Revisor

O Marquês de Pombal foi um déspota sanguinário – basta lembrar o cruel e insidioso processo aos Távora e as mortes horríveis que o Marquês lhes decretou. Pombal, acusou-os – num processo forjado e sem provas concludentes – de terem tentado assassinar o rei, D. José. Desse processo, habilmente controlado pelo Marquês do Reino, resultou a condenação de toda (!) a família Távora a uma morte horrível num palanque erguido na zona do Estoril para gáudio da populaça.

A família condenada foi obrigada a assistir ao horrendo fim dos seus entes queridos. Os mais afortunados começaram por ser enforcados ou decapitados. Mas como as torturas deviam obedecer a um critério de variedade para entreter o povo, outros não tiveram tanta sorte. Os mais desgraçados foram queimados vivos, outros ainda foram degolados ou esmagados pelas marretas dos carrascos. Nem os apelos de piedade de gente distinta do reino, como a própria princesa Dona Maria, futura rainha Maria Pia, demoveram Pombal do seu desígnio tenebroso. E nem vale a pena falar da horrenda perseguição aos Jesuítas.

Hoje querem que recordemos este homem como um modernizador, como um ser culto e avançado que fez o país andar para a frente. É de doidos! Pombal merecia ser lembrado como um dos maiores facínoras da nossa história, estou-me nas tintas se fez a reforma da educação e da indústria e se reconstruiu Lisboa. Ao pé da sua crueldade isso são pormenores irrelevantes. Repuga-me ver os putos a aprenderem na escola a admirar um indivíduo destes. Espanta-me o branqueamento que lhe fazem os professores de história (pelo menos alguns). Salazar também recuperou a economia e nem por isso as suas estátuas lhe sobreviveram. O Marquês devia ser lembrado, isso sim, pela sua inusitada crueldade. Jamis deveria ter estátuas e avenidas com o seu nome na capital do país. E já estava na hora do ridículo rei D. José ser apeado do cavalo. Parecemos os Mongóis a venerarem o Gengis Kahn, caramba, que espécie de povo somos nós?

Staline também reconstruiu a Rússia e não me consta que haja nenhuma estátua do facínora na Praça Vermelha, nem nenhuma Avenida Josef Staline em Moscovo. E os chilenos estão agora a ajustar contas com o pilantra do Pinochet, tal como os argentinos já fizeram com os seus generais. Os espanhóis também fizeram justiça ao seu ditador e removerem a presença de Franco do seu quotidiano. Só nós continuamos a conviver impavidamente com esta vergonha quando, como os outros, já tivemos mais que tempo para rever a nossa história. A estátua do marquês devia ser dinamitada e em seu lugar erguer-se uma estátua à rainha D. Maria Pia que afastou Pombal e, pela primeira vez na Europa, decretou a abolição da pena de morte, isso sim um exemplo de civilização que a nossa história oficial remete para o estatuto de nota de rodapé! E aquela enorme avenida que tem o nome do marquês devia passar a chamar-se Avenida dos Távoras. Era o mínimo, se a memória dos homens não fosse uma triste anedota.

26/10/06

Um Bocadinho Mais de Profissionalismo, s. f. f., por Amoleilinha (Defesa Latelal Dileito)

Venho pelo presente trazer a Vossas Excelências as razões da minha indignação. Ando indignado, sim senhor, como consumidor. Eu acho que tenho direitos e é como utente que reclamo veementemente contra uma situação que passo a expor. Aqui há dias, estava eu a surfar na net por uns sítios manhosos e encontrei um porreiro. Umas gajas a levar na peidola com categoria. As fotos eram boas, o grafismo era excelente, o texto era atractivo, estava muito bem escrito, tinha um menu diversificado capaz de agradar a todos os públicos, pelo menos à maioria, se descontarmos aquela malta esquisita dos chicotes, da mijadela e etc. Enfim, aquilo era uma coisa bem feita, como cá não se faz. Vai daí, estava lá no menu uma opção a dizer que tinha «close ups» de bundas. E foi aí que eu me indignei, foi o que aí vi que me impeliu a trazer até aqui o meu protesto. É que os cus estavam cheios de borbulhas e pêlos encravados! Está mal, é falta de profissionalismo e de brio profissional. Quem mete o cu na net tem que ter cuidado com a imagem. Isto está-se a abandalhar. Antigamente a gente comprava uma Gina e não encontrava lá disto. Os recursos tecnológicos eram muito menores, não havia photoshop nem tratamento digital da imagem, mas havia pó-de-arroz, havia o que se perdeu: sentido de serviço público! Dedicação! Empenho! Espírito de missão! Nem mais. As moças estavam ali para servir a malta e esforçavam-se, apresentavam-se como deve ser. Não havia cá borbulhas. Ou punham maquilhage, ou fotografavam de outro ângulo, ou não faziam grandes planos, eu sei lá! O que eu sei é que não havia borbulhas nas nalgas! Dá mau aspecto, falta de deontologia profissional. Hoje qualquer gaja pode ser puta sem esforço absolutamente nehum e depois dá nisto. E até têm estudos, pois têm, mas não têm brio profissional nem deontologia!E a questão é tanto mais grave quanto um tubinho de Clearasil custa uma ninharia! É que nem sequer há a desculpa de ser caro ou de necessitar de receita médica. É simplesmente inaceitável! Intolerável! Bastaria um dedalzinho de Clerasil nas nalgas, 24 horas antes da sessão fotográfica, e tudo ficava muito mais apresentável.A não ser que o Clerasil não resulte nas nalgas. Mas, mesmo assim, eu pergunto: porque é que não há um Clerasil-Cu? Hein? Sim, é que há Clerasil para o queixo, Clerasil para o nariz, Clerasil pomada, loção Clerasil, creme, creme nocturno, compressas, nha nha nha e não sei que mais. E Clerasil-Cu? Custa assim tanto inventar uma merda para acabar com as borbulhas nas nalgas? Ou é má vontade? Incompetência? E os meus direitos de consumidor? Por isso, por estas e por outras é que isto está como está. Muito obrigado e boa noite.

25/10/06

Lágrimas Negras, por Mangas

Photobucket - Video and Image Hosting
Foi um mero acaso que me fez tropeçar neste cd. Peça única em fundo de saco, fotos de Bebo y Cigala en un ensayo, a chancela sempre de qualidade da Calle54 Records, Fernando Trueba produtor - razões mais do que suficientes para que eu o resgatasse do exílio.

Lágrimas Negras já me era familiar – era uma faixa do “Calle54”, esse duplo lendário que reúne alguns dos principais pesos-pesados do jazz latino por gerações, desde Chano Domínguez a Tito Puente, passando pelas congas de Jerry González ao sax tenor de Gato Berbieri, ao piano indomável de Chucho, filho de Bebo Valdéz. Calle54 é a celebração dos ritmos big band, a explosão do mambo, os arranjos swing, a alternância de um Samba Triste no piano de Eliane Elias com a euforia merengada no piano de Michel Camilo em From Within. Estão lá todos, com Trueba na sala de misturas. Só lá falta o trompete incendiado de Arturo Sandoval. Nunca percebi a razão. Dei-me sempre por feliz que a obra tivesse sido feita, deu-me sempre imenso prazer ouvi-la e partilha-la com os amigos.

Mas este Lágrimas Negras é outra música. Trueba, sempre ele, encurtou o hiato de cinquenta anos entre Bebo e Dieguito “El Cigala” e juntou-os em estúdio. A lenda e o flamenco lado-a-lado, mas de olhos nos olhos. O mestre e a voz. São nove clássicos populares, nove pérolas reinterpretadas com arranjos de Bebo Valdéz. El Cigala envolve-se e empresta-lhes a dor e a pureza da alma gitana. Nieblas de Riachuelo ou o bolero Inolvidable são peças carregadas de intimismo onde a voz de Cigala percorre a saudade e a emoção do poema com as ganas e a paixão própria de um cantor de flamenco. Não há ali competição ou desgarradas, pelo contrário, os dois complementam-se, aproximam-se, voam o mesmo destino e as canções respiram um profundo respeito mútuo e a admiração de Cigala nos poucos e discretos olés aos solos de Bebo.

No tema Lágrimas Negras, o saxofone de Paquito D’Rivera entra de mansinho. Depois revolta-se. Cala-se para o solo do piano, para as palavras de Cigala e acaba perfilado com ambos a cantar a sua versão da história. A encerrar o disco, Cigala interpreta num portunhol escorreito e sensato o clássico Eu Sei Que Vou-te Amar da dupla Vinícius/Jobim. A meio da faixa a voz rende-se e, à solitude do piano de Bebo, junta-se Caetano Veloso que recita o poema Coração Vagabundo. Escreve Fernando Trueba - no pequeno diário de produção, paellas colectivas e ensaios no estúdio que acompanha o disco -, que foi um momento final de ojos húmedos. Antes disso, Bebo terá dito: “Yo soy un viejo. Mi cuerpo ya no funciona bien. Pero mi espíritu tiene veinte años”. Olé!

24/10/06

São Bagas, Senhor!, por Rainha Santa Isabel

Entre a enorme variedade de castas vínicas usadas em Portugal, há uma que se destaca pelo seu carácter indomável: falo da casta Baga, uma coisa terrível, um pesadelo para qualquer produtor, principalmente, pela sua adstringência radical. A Baga é uma casta típica da região da Bairrada. Durante muitos anos, quando a velhice dos vinhos ainda era considerada um factor de prestígio, a Baga era bem vista. Os taninos suavizavam com o tempo e, passados uns anos, valia a pena abrir uma garrafa bairradina. Ficaram famosos e ainda hoje são verdadeiras peças de culto, os tintos do Bussaco e, digo-vos eu, com inteira justiça.

Mas os vinhos não são uma excepção entre as coisas da vida. Vivemos numa sociedade apressada, que não tem tempo para deixar o vinho envelhecer serenamente. Instalou-se o culto do novo, nos vinhos como nas restantes coisas da vida. Na era da produção em série, não dá lucro produzir vinhos para envelhecerem. Agora os vinhos bebem-se novos, com um ou dois anos, feitos de castas macias, quentes, aveludadas, como os Shiraz ou os alentejanos Aragonês… Em matéria de vinhos, a pedofilia não é criminosa, muito pelo contrário.

Foi por isso que a casta Baga caiu nas ruas da amargura. Sem tempo para envelhecer as várias tentativas de produzir Bagas novos ficaram condenadas ao fracasso. Provei alguns mono varietais da casta, feitos na Bairrada, e só vos digo que aquilo era imbebível. Felizmente tiveram o bom senso de os retirar do mercado. Os produtores nunca conseguiram resolver o problema: ou se deixava envelhecer o Baga ou mais valia desistir de produzir vinhos novos com esta casta. Não fui o único a tirar esta conclusão. Os produtores Bairradinos também assim pensaram e, nos últimos anos, o Baga praticamente desapareceu da circulação. Declarada maldita, associal e indomável, a casta praticamente foi banida. Toda a Bairrada se rendeu. Toda? Não. Num pontozinho do reino, um produtor resistiu e continuou a produzir mono-varietais de casta Baga. E ainda bem que o fez.

Falo do produtor Luís Pato e, principalmente, do seu Baga 2005. Trata-se de uma ousadia e de um acto de resistência notáveis nos dias que correm. O Baga 2005 consegue o feito extraordinário – vá-se lá saber por que artes, mas eu não sou enólogo – de socializar, de domar a casta. Ainda por cima o preço, para o consumidor, é de uns incríveis 5 euros. O vinho mantém a agressividade e a adstringência típica dos Baga, mas controlada, equilibrada pelo corpo pujante. É uma óptima escolha que, imagino, se deve bater magnificamente com um prato forte. O Inverno está aí e este Baga 2005 apetece.

Com este excelente Baga 2005, resolve-se, enfim, a quadratura do círculo da Bairrada vinícola: o Baga mostra-se domável e sem precisar dos tradicionais anos de estágio. O de 2005, mais novito, uma criança, portanto, é o melhor, o de 2003 revela um estado ainda incipiente. Não sei se o produtor de uma tal maravilha, não deveria merecer o título de domador. A mim, parece-me que sim. Sempre gostei daqueles indivíduos que enfrentam leões armados com uma simples cadeira e com um chicote

23/10/06

As minhas leituras, por Jean Báljan

Há uns meses, mais ou menos, que quase não consigo ler nenhum livro até ao fim. Começo-os mas, miséria das misérias, não lhes consigo dar vazão suficiente: Não os acabo com a velocidade de outros tempos. Depois vão-se empilhando na mesinha de cabeceira. O Assis Pacheco em cima do Sepulveda, este por cima do Gao Xingjian, este por seu turno por cima do Krishnamurti por seu turno em cima do Olivier Rolin, por seu turno em cima do Abrunheiro por seu turno sobre um livrinho antigo e já amarelado sobre Ocultismo de um cavalheiro de que agora não me lembra a graça, etc., até quase esconder o candeeiro. E em cima disso tudo, uma Time (edição europeia) de há dois meses, uma Pública de há três semanas e uma National Geographic de há um ano e picos. Em contrapartida leio o Público todos os dias e revistas com fartura. Se bem que o Público também é leitura incompleta, já que passo à frente as páginas do futebol por ser alérgico ao desporto escrito e falado. Aliás, nas revistas também não leio tudo. Nos cafés leio o Diário de Coimbra, As Beiras, O Figueirense e, quando os há, o Correio da Figueira e a Voz da Figueira. Depois, farto-me de ler coisas na Internet, aderi ao vício das newsletters e recebo correio com novidades diárias, semanais ou quinzenais de coisas como o NY Times; a Maxideia; a Sapo Saúde; o What Doctors Don’t Tell You; a Foreign Policy; o boletim informativo da ONU (que tem um excelente serviço noticioso para assinantes); as Informações de Segurança do Millenium; as efemérides diárias (excelentes) do Canal História; os boletins do Ciência Hoje; os alertas do Google News sobre Portugal, Coimbra e Figueira da Foz; notícias da NASA sobre ocorrências e “inventos” no espaço; a news-letter do Health World Online; a news-letter da New Scientist; da BBC Science&Nature; a news-letter do Figueira.net; a da Human Rights Watch. E mais umas quantas de mais uns quantos temas e umas quantas geografias que ficam aqui de fora em nome do fastio. Tudo isto não substitui, obviamente, a leitura de livros, que se tornou prática eminentemente nocturna e de almofada: todas as noites um bocadinho obrigatório antes de cerrar a pestana. Já a leitura electrónica é para ir lendo ao longo do dia durante a jorna, se a jorna permitir. Além disto há os sites, os portais, o correio electrónico pessoal e os blogues, a que também vou dando uma pestanada, quando posso. Bem como as legendas dos filmes, dos documentários e das séries de ficção/estimação como os Sopranos, que de resto, tem argumentos/textos fabulosos. No elevador dou ainda uma vista de olhos ao Dicas e aos folhetos publicitários com que me enchem a caixa do correio e que às vezes trazem umas promoções catitas. Antes de jantar leio o correio postal mais sério e personalizado, quando o há. Na cagadeira gosto mais de revistas de informação geral e do Courrier Internacional. No caminho de casa para o trabalho e vice-versa, que faço a pé ou de bicicleta, não deixo ainda de ler os cartazes, os folhetos, as faixas e os mupis que me aparecem à frente. Quando me interessa, paro e leio tudo antes de reprosseguir. Também dedico uma parte dos meus dias a ler SMS’s e Messenger’s (ultimamente também leio as mensagens dos meus amigos que descobriram que o Gmail também tem um serviço de chat). Como entre outros ofícios, também sou agora editor de uma revista mensal, pelo menos uma semana por mês leio (e corrijo) todos os artigos a publicar. Além disto, quando vou às compras, leio os rótulos dos produtos. Por razão que adiante perceberão, também leio catálogos de editoras. Por mor de compor o orçamento, também leio transcrições de julgamentos. Leio ainda capas e brochuras de CD’s e DVD’s, bem como os ditados, graças e provérbios nos pacotes de açúcar. Às vezes, durante o dia, para desenjoar e como também trabalho numa livraria, pego num livro e leio um bocado. Quando aquele é de feição a agarrar-me pelos tomates, levo-o para casa e junto-o à pilha da mesinha de cabeceira para ir lendo mais devagarinho, umas linhas por noite até se me cansarem as pestanas.