30/12/04

E não se pode co-incinerá-los? Por Dr. Parvalheira

Eu sei que está em preparação na Câmara Alta de Sábios do Tapor – órgão unipessoal constituído por sua eminência, O Grão – um post a relançar aqui o famigerado tema da co-incineração na terra dos índios, que é como quem diz, nesta triste e deslocada Coimbra dos Pequenitos. Não quero ir já ao tema, mas deixo aqui um cheirinho que está relacionado com tal assunto:

Então não é que a cabeça de lista do PS pelo distrito de Coimbra é a senhora doutora Matilde Sousa Franco (ou será Arminda? Ou Maria de Lurdes?), que nunca ninguém viu em Coimbra nos últimos 2000 anos? É verdade, juro! Parece que, em tempos idos, a senhora foi directora do Museu Machado de Castro e também gosta de fado. Eu sei que ser cabeça de lista por Coimbra não é fácil para nenhum dos apoiantes locais do Zé Sócrates – um alter-ego do Santana que resolveu fazer carreira política à custa dos habitantes de Coimbra… Mas esperava-se um pouco mais de dignidade, de coragem e de frontalidade por parte dos dirigentes socialistas locais, declarados apoiantes de Sócrates. Esperava-se que, no mínimo, dessem a cara perante a população do distrito e se afirmassem convictamente a favor da co-incineração em Souselas. Mas claro, é mais fácil ficar na sombra e arranjar uma senhora que lhes vai servir de testa de ferro. Fosse outro o contexto e era ver os que agora se escondem na sombra, a berrarem a plenos pulmões «aqui d`el rei que é uma ofensa à honra da cidade» e que «aqui também há cidadãos de valor» e essas coisas.
E o mais espantoso é que a senhora já declarou a sua posição sobre a co-incineração: «não é técnica e esse é um problema técnico». Estará a gozar connosco? Achar-nos-á a todos comanches? Ou apaches em vias de extinção?

21/12/04

O JPC lançou Diálogos com a Cidade e o Porco foi ao lançamento, por Coelho Caga no Prado

Aqui há uns tempos, o membro honorário do Porco, Sua Eminência JPC (Palavrar, link aqui no Tapor) lançou o seu primeiro livro. O lançamento não foi mau, apesar de terem faltado os acepipes (nem uns caraças duns amendoins, fónix!). O Porco, como não podia deixar de ser, esteve lá em peso com o seu núcleo duro logo na primeira fila pra atemorizar e impor o respeito devido. Eu já li o livro e venho aqui fazer-lhe uma referência – o Jota pediu clemência, logo na altura, ele sabe como o Porco pode ser cruel. Eu li o livro e acho que ele não tinha razão para tal pavor. Acontece, JPC mafrende, que o livro é bom.

«Diálogos de Coimbra» é um livro que me faz lembrar um LP ou um CD. Como um LP ele é constituído por monólogos de vários personagens que têm em comum, apenas, a cidade de fundo, a Lusa Atenas. Por isso cada monólogo é como se fosse uma faixa de um disco. Conhecendo o Jota como conheço, eu diria que está aqui presente a sua eterna costela musical. O livro tem pois a vantagem de poder ser lido como se ouve um CD, escolhendo aleatoriamente uma faixa/monólogo lendo/ouvindo de trás prá frente ou de frente para trás.

E as faixas são boas? São. Está cá o humor corrosivo do autor que já nos habituámos a apreciar por aqui mesmo, as personagens estão bem construídas não são estereótipos, são humanas, fracas algumas, como fracos somos nós, imorais ou amorais, aqui e ali. É interessante como o Jota nos pôs na cabeça de indivíduos aparentemente banais e desinteressantes, mas que nos comovem com os seus dramas tão ínfimos e pessoais. Gostei do Norberto, funcionário público, do Miguel Ramos que me pareceu auto-biográfico, do senhor Dias imenso na sua pequenez, como gostei do jovem advogado (parece que estou a vê-lo no café Santa Cruz). Não gostei da puta que achei mais artificial, nem do Dimitri que achei viver de clichés acerca da cidade ( a cidade do fado e da tradição, o olhar romântico para a cidade dos doutores). Até a sua colocação no final do livro me parece chocar com a lógica LP do livro. É como se no fim o Jota não tivesse resistido à tentação de unificar o livro de lhe dar uma coerência final através de um meta-olhar estrangeiro que redimisse a cidade vista pelos olhares dispersos dos seus habitantes banais mas comoventes. Teria gostado mais que o olhar permanecesse disperso como em todo o livro. Que fosse uma lógica LP até ao fim.

Finalmente quanto às fotografias da Susana Paiva creio que não se conciliam de um modo muito pacífico com a escrita e o olhar do JPC. Acho o olhar do Jota mais BD, mais verrinoso, mais Série B. As fotos conotam outro universo estético, mais estilizado e depurado. E num livro que fala de pessoas, teria gostado de ver fotos de pessoas. São boas fotos, mas não creio que se harmonizem com o clima estético literário do livro.

E finalmente, Jota, nunca mais escrevas nem permitas que se diga que o que fazes é light. O que fizeste é tudo menos light – revelas domínio de escrita num género tão difícil como o monólogo, argúcia e sensibilidade no olhar sem caíres na lamechice, o que é uma fronteira muito ténue e quase sempre mortal. E no próximo lançamento, vê lá se encomendas ao menos uns tremoços.

20/12/04

Herbário de António, o Santareno

No Verão de 1996, tive nas mãos o herbário juvenil de António Martinho do Rosário, depois (e espero, apesar de tudo, que para o maior sempre possível) conhecido por Bernardo Santareno, o grande dramaturgo de ‘O Judeu’, ‘O Crime de Aldeia Velha’, “António Marinheiro” e de “Português, Escritor, 45 Anos de Idade”, entre tantas outras obras de lugar cativo na nossa tão rica como amnésica portugalidade. Estagiava eu então na RDP/Antena 2, onde, a troco de estar calado, fui remunerado com a riqueza de ouvir e ver coisas e pessoas de outra dimensão que não apenas esta nossa merceeira condição de sobreviventes a prazo e a malefício de inventário.
O herbário de António (não ainda Bernardo) é o que um herbário antigo tem de ser: uma antologia de folhas e flores coladas de costas ao papel do Tempo, esse impiedoso combustível. Enterneceu-me poder manusear um objecto criado pelas mãos do grande escritor quando moço. Por assim dizer, revisitei, pela mão dele, o tempo dele: as flores dele, as folhas dele, a botânica juvenilidade dele. Depois foram, para ele, os anos de Lisboa: médico psiquiatra, escritor de teatro, homossexual discreto, sombra solitária, portador de óculos de espessos aros, gravata decente, perpétuo cigarro ao canto da boca, sentido atento às vozes de dentro que, soltas dele, se tornavam fora corpos de actores. Os tablados dramáticos encheram-se dessas vozes, dessas vozes por assim dizer herbárias: borboletas vegetais alfinetadas pela revisitação das nossas História, Língua, Pátria, Moralidade, Sensualidade, Criação, Alma, Hipocrisia, Solidariedade, Tragédia; e dos nossos Drama, Desamparo, Confronto, Cérebro, Vazio, Frio, Fado, Exílio, Silêncio e Desconhecimento.
É justo que pouco ou nada disto vos interesse grande ou mínima coisa. É justo que sejamos diferentes, a começar pelos interesses. Esse é, aliás, um dos ganhos a obter da leitura da obra de Bernardo Santareno, esse senhor de quem alguns manuscritos andam perdidos por obra e desgraça da má hora em que deles tornou herdeiro um rapazelho de duvidosa honra e proxenética condição: a justiça da diferença contra a injustiça que toda a indiferença é.
Eu sei: o Povo (essa entidade concretamente humana que vive numa abstracção animal) não vai ao teatro, não gosta de pensar nem de se repensar, prefere mostrar as cáries no desbragamento da gargalhada, gosta mais de broa. Três décadas apenas depois do 25 de Abril, não estamos melhores por aí além. Não sabemos mais, não conhecemos mais nem minimamente nos reconhecemos: como Povo. Queremos ser da Europa sem saber ao certo onde é que isso fica. Deve ser ao pé da Turquia. Temos liberdade de expressão, é certo, mas não sabemos exprimir-nos. Votamos massivamente na Abstenção, desconfiados de que, seja quem for que lá ponhamos, é para nos roubar. E nem sabemos quem foi e o que fez Bernardo Santareno. Posso dar uma ajuda.
Era António. Juntou flores em pequeno.

OS TOFUS, por António Manuel

Na sequência de alguns posts e comentários abaixo sobre o tema da alimentação, julgamos importante prestar alguns esclarecimentos subordinados ao tema “Os Tofus”, alimento tão do agrado da comunidade vegetariana. É uma abordagem necessariamente ligeira do assunto, com base em algumas investigações recentes publicadas em revistas científicas de referência, as quais, aliás, estão a obter amplo reconhecimento dentro da comunidade científica. Assim, de acordo com esses estudos, o Tofu, que se pensava até há pouco tempo ser um preparado de leite de soja (e que ainda é vendido como tal por muitos comerciantes menos escrupulosos…) é, afinal, um organismo multicelular com um sistema nervoso central, rudimentar mas activo e funcional, para além de orgãos reprodutores e digestivos. Pensa-se até que estes pequenos seres terão surgido na época do Plioceneo, pois encontraram-se fósseis dos mesmos durante escavações realizadas no Arizona, nos arredores de Phoenix, em camadas estatigráficas onde se encontraram também alguns anabolites. As recentes pesquisas revelaram mesmo, de forma surpreendente, que estes organismos se mantêm vivos mesmo após a sua sujeição a tratamentos térmicos de 200 graus. A sujeição do Tofu aos sucos gástricos provoca, por outro lado, deformações dolorosas e irreversíveis no seu sistema nervoso parassimpático, causando-lhes assim, ao que se pensa, um considerável sofrimento, seguido de morte em agonia. Aliás, a aplicação de ultrasondas de raios gama enriquecidos com plutónio em tofus recolhidos nas fezes de vegetarianos, detectaram mesmo alguns sons semelhantes a gemidos. A palavra ao Dr. Ebenezer M. Scrooge, MD, Phd, director do American Association for the Study of the Tofu: “In spite of we thinked until now, the tofus are multicelular organisms from de Pliocenum. They possess a rather complex central nervous sistem and when stimulated with accid they react as if they were in great suffer.” (in Scientific Journal for the Research of Endangered Species, September, 2004). Chegados aqui, cabe dizer que não nos cabe moralizar ou aconselhar em matérias da consciência de cada um, nomeadamente no que aos prazeres da comida diz respeito. A cada um a sua decisão. Finalmente, e já que estamos neste tema, uma palavra sobre alguns estudos recentemente publicados que defendem que os coelhos são vegetais. Estas pesquisas, de acordo com o Dr. Scrooge, não foram ainda submetidas a avaliação científica independente, não lhes devendo, por isso mesmo, ser-lhes dado crédito.

Bom Carnaval, por Jingle Bells

Eu não gramo o natal! É uma mascarada em que todos se acham, subitamente, anjinhos bondosos. No natal fica tudo tão anjinho que eu chego a ter saudades das declarações de guerra dos dirigentes da Bola e das facadas nas costas que os políticos espetam uns nos outros. Por isso, o natal é o verdadeiro carnaval, um carnaval não pagão, a genuína festa das máscaras a sério com que as pessoas se enganam umas às outras um dia por ano.

Já não chegava ser a quadra da hipocrisia. Podia, ao menos, sê-lo discretamente. Mas não: o que me chateia mais no natal é a sua insistência, a sua omnipresença. Nos jornais, na rádio, na tv – dantes, quando tínhamos só dois canais, era um drama ligar a TV e ver os mesmos filmes passados na neve com finais felizes. Agora, vá lá, que a TV cabo dá-nos algumas opções mais. Mas mesmo assim ainda mói!

Omnipresença nos media, mas também nas ruas, nas lojas nos centros comerciais (os «shoppings» são as verdadeiras igrejas natalícias, pelo menos, as que melhor encarnam o verdadeiro espírito da época) e até nas ruas reluzentes com a porcaria dos enfeites e a música-xarope a moer-nos a toda hora, a todo o segundo, em todo o lado. O natal é a silly season de Inverno! No natal nem sequer há futebol e até os filmes que estreiam nas «salas de cinema perto de nós», são, invariavelmente, idiotas ou infantis.
O natal atordoa-me, mete-se-me pelos olhos, pela pele, pelos ouvidos e pelos nariz dentro. Se o natal fosse mais discreto, eu suportava-o, mas é tão ostensivo, mas tão ostensivo!, que às vezes apetece-me chamar nomes ao S. Nicolau.

18/12/04

Lua Apache, por Mangas

Sento-me à lareira numa noite fria, se fosse uma sexta-feira ou sábado, daria o mesmo, bem sei, não é o dia da semana que conta mas o calendário lunar. Isto porque sei sempre quando é noite de lua cheia pelo ladrar dos cães presos nas traseiras da quinta cujo muro separa a minha casa. Fazem um cagaçal medonho, ladram para ali toda a noite, latidos estridentes e ganidos prolongados, arranham a vedação de arame como se estivessem possuídos. Gosto de cães, entenda-se. Mas estes são cães amaldiçoados; verdadeiros demónios disfarçados de quatro patas que não demonstram um pingo de afecto ou submissão. Quando a matilha anda à solta, cagam à entrada dos portões, mijam nos pneus dos carros, ladram aos putos da própria quinta, atacam as velhas ao domingo quando saem com véus negros e naftalina para a missa, morderam o carteiro já por duas vezes, há umas semanas atrás atacaram um miúdo mongolóide que andava aos grilos, no hospital tiveram que lhe dar dez pontos na perna e, para o vacinar contra a raiva, espetaram-lhe uma agulha na barriga que o pôs a berrar pela mãe que nunca está em casa porque é puta de estrada. Tudo por causa dos cães.

Mas noites como esta não têm queda para mártir, não há remédio que as salve. Contudo, têm várias possibilidades de redenção: fazer uma grande fogueira no quintal, juntar pinhas, caixotes velhos de papelão, uns bons troncos de oliveira e um pneu velho, pôr a arder aquilo tudo para acalmar os cabrões dos cães, tendo o cuidado de não criar um filtro em forma de clarão de fogo entre mim e o brilho da lua - que é lua cheia, não me posso esquecer, e desperta nas criaturas instintos sanguinários. Dessa forma estaríamos em pé de igualdade. Penso também noutras possibilidades alternativas. Penso em carne com veneno, numa carabina de repetição calibre 22/longo ou numa caçadeira de canos sobrepostos com cartuchos de sal. Ou conceber uma estratégia de aproximação para os injectar com água destilada. O sal atravessa o pelo, penetra na carne e arde enquanto se dissolve. Alguns colonos usavam este truque em Angola para castigar os negros que iam roubar mangas e goiabas para matar a fome. Ficavam com feridas profundas no rabo que levavam meses a cicatrizar. A carne apodrecia e era cortada, ou era cauterizada com nitrato de prata, ou brasas de carvão quando o nitrato se acabava, porque a cinza desinfectava, diziam. A água destilada, quando injectada numa área muscular densa, é descrita como uma sensação de queimadura profunda e insuportável. Simples e eficaz. Mais ideias que me ocorrem para os amansar: um ferro de marcar bezerros em brasa com a forma de um crucifixo; um chicote longo com pontas aguçadas de latão nas extremidades; um chicote electrizado; um dispositivo qualquer associado ao cabo grosso do chicote que quando accionado largasse uma descarga de 220 volts em pleno lombo; um taco de baseball em madeira maciça ou em liga de alumínio. Luvas, capacete e cole à prova de bala, aproximar-me deles o suficiente para manter uma distância de segurança, esperar a investida das feras e depois, um a um, de cima para baixo e com as duas mãos bem firmes no taco, assentar-lhes uma porrada seca no centro da cabeça, um som oco de ossos a quebrarem-se, um gemido surdo, o sangue a escorrer pelo focinho misturado na baba, seguido de um arfar cada vez menos perceptível, cada vez menos audível até se extinguir completamente; um bidão de gasolina ligado a uma mangueira de aspersão, dar-lhes um belo banho à distância e aproveitar o fósforo para acender um cigarro. Esta solução apresenta algumas possíveis variantes: começar por lhes regar apenas o rabo com gasolina, deixá-lo arder e depois passar ao resto do corpo. Ou começar primeiro pelas orelhas, ou pelo focinho ou pelas patas. Nesta última escolha, lembrar-me-ia de despejar uma quantidade considerável de gasolina na área circundante de forma a que eles incendiassem a terra à sua frente, quando tentassem fugir. No entanto, e para qualquer uma das opções, convinha ter à mão uma mangueira de água com o jacto direccionado e regulável em intensidade, para ir apagando os estragos parciais em cada um dos bocados a arder. Assim, a coisa prolongava-se no tempo e por secções até à combustão final. Por exemplo, primeiro as patas, controlar o incêndio; depois as orelhas, controlar o incêndio; depois o dorso, controlar o incêndio; e finalmente uma geral de gasolina para toda superfície restante que ainda não estivesse esturrada. Ou acelerar a coisa e passar directamente das patas para o resto do corpo, se eu não estiver com paciência para estar ali muito tempo a apanhar frio.

Depois, sem pressas, irei comer uma chouriça assada lá em cima, junto à janela da minha sala com vista para as traseiras da quinta cujo muro separa a minha casa. A lareira aos meus pé, o silêncio profundo vindo do bosque adormecido, um cheiro perfumado a churrasco de cão a entrar-me pelas narinas, trazido pela mansidão de uma noite de lua cheia, vindo cá de baixo, onde as bestas costumavam ladrar.

16/12/04

A PERGUNTA CHATA

Aviso prévio à navegação: este post não pretende ser uma provocação a ninguém. Ele é apenas a expressão sincera de uma dúvida que me tem assaltado. Dito isto, vamos ao que importa:

No âmbito da famigerada Operação Apito Dourado, foi notificado o sr. Jorge Nuno de uma série de acusações graves. Foi-lhe imposto ainda, um regime de coacção que o impede de contactar com, entre outros agentes, o próprio administrador da sad tripeira. Pasme-se! De entre as várias acusações, há uma que me chama particularmente a atenção: o sr. Jorge Nuno é acusado de ter «influenciado» o resultado de 4 jogos de futebol do campeonato transacto – dois em que participou o fcp e dois em que participaram outros clubes rivais. Os árbitros desses jogos estão, obviamente, suspensos da sua actividade desportiva e, também eles, sujeitos a medidas de coacção.

Até ao julgamento considero toda esta gente inocente. Mas, se por hipótese um pouco mais que académica, se provarem estas acusações, pergunto: é só o sr Jorge Nuno e os respectivos árbitros que deverão ser punidos – responsabilidade civil e criminal, entenda-se – ou a punição deverá ser também desportiva e atingir o clube de que o sr. Jorge Nuno é legítimo presidente? Ou seja, se se provar em tribunal que um participante no campeonato transacto fez batota, este não deve ser penalizado desportivamente? Sublinho em tribunal, porque, que eu saiba, não há mais nenhum presidente de nenhum clube da primeira divisão a responder em tribunal no âmbito da Operação Apito Dourado ou de qualquer outra similar.

Se estivéssemos num país normal, a resposta parecer-me-ia evidente: assim foi em França, com o Marselha de Tapie o qual, provada a batota, se viu obrigado a devolver a Taça dos Campeões Europeus, título ganho subterraneamente e, mais que isso, a descer de divisão na respectiva liga. Assim foi, também, em Itália, onde o grande Milan desceu de divisão porque se provou que alguns dos seus jogadores estavam comprometidos na forja de resultados para favorecer apostadores.

Mas como estamos em Portugal, eu não sei muito bem. Alguém que responda: se, e friso bem, se se provarem, em tribunal, os alegados crimes referidos na operação Apito Dourado, a punição deve ficar-se pelo plano criminal - e atingir só o sr. Nuno e os árbitros envolvidos - ou deve alcançar o plano desportivo – e atingir o fcp?

15/12/04

Elogio do Mau Gosto, por Automotora

Um dia, aluguei no meu clube de video um filme de um realizador finlandês. Qualquer coisa assim, não me lembro bem. A partir daí, fiquei lá conhecido como “o senhor que leva filmes alternativos”. Sou um alternativo, portanto. Aquela espécie que vai tirar filmes da Atalanta à ponta esquerda da estante do lado mais húmido e pouco frequentado dos clubes de video. A verdade é que raramente tenho vontade de ir para aqueles lados, mas o empregado, de cada vez que lá entro, insiste em conduzir-me para lá, enquanto vai esfregando as mãozinhas, numa solicitude comovente e irritante. Começa pelo ponto de não retorno: “quer uma sugestão para um filme alternativo?” seguindo-se o fatal “chegou agora este. Não sei se conhece”. Este “não sei se conhece”, remete sempre para “filmografias”. A “filmografia” não é filmes, como diria o julinho; é “filmografia”, cinema feito em países de neblinas eternas para além do Danúbio (esses países são antes de mais um estado de alma, como se sabe). Mas então, como ia dizendo, acontece que me vejo de repente com o filme na mão. Olho então para o chão, e começo a desfiar uma ladainha ridícula e cobarde: “Olhe, eu hoje estou com um bocado de dor de cabeça, estou cansado, a vida corre-me mal, sofro de stress pós traumático, o iraque não se democratiza, a vida é dura e então quero levar um filme que não faça pensar muito. O amigo desculpe a desfeita, eu tenho muita pena, não é por mal, mas eu hoje vou levar o Mansão Assombrada III”. O empregado, pesaroso, lá sente obrigação de dizer “ah, sim, é um clássico, sim, sim…”. “Mas qual clássico, qual caralho? É só um filme, seu imbecil!”, penso eu, irritado. Mas lá vou dizendo, com humildade, “pois, desculpe… eu juro que para a próxima levo o Quintal das Cerejeiras em Flor, este grande clássico da filmografia da Letónia”. Feito o negócio, saio porta fora, a sentir nas costas o olhar desiludido do empregado. Fico então paranóico e imagino-o a ligar para os amigos: “ele hoje levou o Mansão Assombrada III, passa palavra”. Coincidência ou não, no fim-de-semana seguinte vou comprar peixe à praça e a dona Alzira olha-me com o cenho carregado e engana-me no peso do pargo. É claro que como sou boa pessoa, (além de cobardolas) uma vez em cada dez dias levo um filme alternativo. Lá vejo. Mas acontece que na maior parte das vezes quero é levar filmes, não sei como diga isto, de “suspanse”, daqueles que aparecem no Expresso com o seguinte aviso desprezivo: “para quem gosta”. Nem bom, nem mau, mas “para quem gosta”, que os vermes não têm escala de valores. Mas chegados aqui, atenção para o seguinte: Há os vermes que chegam aos clubes de video e perguntam: “chegou algum bom filme de suspanse?”, como se dissessem “tens hoje aí tintol do bom?”. E vai o empregado à pipa e tira um carrascão espumoso. E há os vermes, como eu, que não perguntam ao empregado porque já levam lista de compras, feita logo ali à porta da loja, com base nos cartazes grandes da montra. Mas não sou um verme todos os dias, é preciso que se note. Por exemplo, no outro dia, por acaso noutro clube de vídeo, vi um filme dos Monthy Python, mesmo junto ao balcão. Passei-me, claro. “Olha, tem aqui Monthy Python?!”. E então aconteceu o inesperado: o empregado revira os olhos e olha-me assim como se tivesse reconhecido um irmão da maçonaria. “Conhece? Você é o primeiro que aparece aqui a falar dos Monty Python! É fã?” Élá… pensei eu… se caio nesta, vou ser obrigado a levar também a trilogia do primo mais velho do Kusturica. Reajo então com grunhice marialva: “Eu? Eu ia precisamente perguntar que raio de título é este com dois ipsilons! Tem cá, cof cof, o Massacre no Texas?” Fiquei bem servido na mesma e no dia seguinte corri para a Worten, comprei os gloriosos malucos e fim da história. Um gajo para ter descanso, às vezes é melhor fazer-se de burro.

14/12/04

Austrália, por Cão Guru

Deu-se-me o caso de, uma ocasião, passear sozinho por uma duna. Foi num mar aqui perto. A duna fazia o que é de competência de toda a duna que se preze: ondulava muito láctea, muito derramada, muito lânguida. Tão lânguida, derramada e láctea, que, na pele da areia, certas florações escuras de que só os botânicos conhecem o nome me pareciam (valha-me Deus!) hirsutas emanações pélvicas. E mais não desenvolvo.
Lá ia eu, pois, muito bem indo, quando eis senão me desemboco, sem preparatório, com a visão já pouco distante, e em sentido a mim contrário (como quase tudo na vida, enfim), de uma senhora.
Dona da duna, por assim dizer e forçando o trocadilho, a senhora tornava-se mulher à medida que os metros entre nós se volviam meios metros. Ela caminhava com a competência de toda a mulher solitária ao colo de duna: ondulava, muito lacteante e languidamente. Perante isto, tremulei. Pudera.
Parei e dei-lhe o perfil. Pus-me, muito flautista, muito virado para o mar, a assobiar baixinho. Ai, amor: o vento levava-me o solfejo até à zona de desembarque das ondas, onde o oceano rebobina para sempre aquela madrugada de Junho na Normandia, 1944. Mas essa é outra História. À da duna voltemos.
Tivesse eu cauda e ao rabo estaria dando com fúria de limpa-pára-brisas no máximo. (Reconhece o cão que há em ti. Ou o lobo. No caso, do mar.)
Pois, e então a mulher já me estava tão perto, mas tão, que a mecânica da respiração se me tornou mais complicada que a casa de máquinas do Titanic. É que nem menos. Pois que ‘aquilo’ era todo um mulheraço, todo um mármore caminhante, um lençol cristalizado, uma geleia oftálmica toda. Ouvi perfeitamente, passando ela pela minha retaguarda, um amarfanho de papel caro: uma capa de revista ela era.
À falta de melhor, meti diálogo. Disse, naturalmente, a maior estupidez possível: “Linda manhã, hã!?”. Sim, assim: com triste involuntária rima. Ela parou, cegou-me com o magnésio de fotógrafo de casamento do seu olhar sem sombra e disse “I beg your pardon?”.
Devia ser australiana, conjecturei. E, num ápice, fui à enciclopédia da minha cultura demasiado geral para que me seja possível saber qualquer coisa em particular: “Cangurus, deserto e Ópera de Sydney, não é?”.
Ela encolheu os ombros, soerguendo a insuportabilidade da bandeja do busto. E seguiu caminho, sem mais, para fora da minha vida e para longe desta crónica. Limitei-me a acabar a duna, perfurei o trecho de pinhal que se lhe seguia, cheguei à bicicleta e apertei as bainhas das calças com as molas da roupa que a minha mulher não sabe que roubei do arame do quintal, o quintal onde amanho a minha couve, encano o meu feijão, choro a minha cebola e cultivo a minha tão masculina ignorância sobre tudo o que diga respeito a mulheres solitárias e à enciclopédica Austrália.

Piero Manzoni, por PrimaDaObra

Num dia destes andava o núcleo duro do Porco em peregrinação entre as estantes de livros e as estantes de vinhaças duma mercearia do Belmiro, quando um confrade saca de um expositor uma latita de sucedâneo dinamarquês feito de ovas de lampreia. Questionado, o gourmet avança com a palavra “Caviar”. O Xiita, que é rapaz de poucas palavras, mas de fácil sentença, opinou de imediato: “Caviar? Isso? Melhor do que isso cago eu e não sou esturjão!”

Piero Manzoni, um famoso pintor italiano de arte contemporânea dos anos 50 e 60, na senda de Duchamp e do seu famoso urinol, resolveu fazer um manifesto anti-pop-art e um ataque directo ao mercantilismo da arte e das galerias da altura e cavalgou a onda dos limites da arte, do surrealismo e da arte dada e zás, se bem o pensou comó Xiita, melhor o fez.

E vai daí, em 1961 tratou de cagar – merda genuína dele – para 90 latas. 90 latitas de merda italiana, genuína, de artista. O difícil deve ter sido acertar nas latitas que eram pequeninas e aí se revelou a mestria da coisa. Depois do alivio, Manzoni fez selar as latitas, como mandam as regras e os standards da indústria alimentar. Numerou-as, assinou-as e vendeu-as ao peso, sendo a grama de lata de merda vendida ao mesmo preço da grama de oiro na época. As latas além de numeradas e assinadas têm três faces ou inscrições que dizem sucessivamente : “Merda D`Artista”; “Merde D`Artiste” e “Artists Shit”. A autenticidade do produto é garantida pela inscrição: "Merda d’artista, numerata, firmata e conservata al naturale".

Feita a cagada e o embalamento do “caviar”, Manzoni fez uma das suas habituais exposições e lá meteu as latitas de “Merde D`Artiste”. Vendeu tudo como papos-secos. Hoje as latas de Merda do Manzoni são um ícone da arte conceptual, da qual se considera Manzoni um precoce percursor, constituindo tais merdas uma raridade que os coleccionadores e museus se cagam todos para obter.

E aqui chegados não resisto a contar duas histórias das latas que conheço.
A primeira passou-se com o Randers Museum of Art of Danmark em 1994, que para uma exposição e retrospectiva, pediu emprestada uma latita do Manzoni à John Hunov Colection. Pelo meio da exposição a latita começou a verter, merda como é bom de ver, e vai daí, foi tudo para tribunal discutir indemnizações milionárias. O Museu defendeu-se considerando que se tratou da degradação natural da lata. A John Hunov Colection contra-atacou dizendo que o Museu expôs a lata à luz, coisa que não devia ter feito e estava recomendado de não fazer. Enfim mais uma merda para os advogados ganharem dinheiro.

A segunda história catita da latita, passou-se na Tate Gallery de Londres que também tem uma lata de merda do Manzoni. Acontece que a lata começou a verter. Merda, como é evidente. E a Tate ficou sem saber o que fazer. Solda-se a lata? Mete-se a merda que escorre lá pra dentro? ou deixa-se a merda escorrer à vontade até à liquefacção completa da merda e da lata? A intervenção tinha o “pecado” de se estar a alterar a obra de arte. Ao invés “o deixar andar” tinha a chatice de aquilo cheirar mal que se fartava, o que incomodava os visitantes e conspurcava a galeria. Para desempatar os seus próprios experts, a Tate Gallery chamou especialistas de fora que pensaram o malcheiroso assunto. Estes opinaram maioritariamente que não se pode intervir na obra de arte sob pena de a adulterar e de modificar a intenção do artista, altura em que se mata a obra de arte; contudo, para se resolver o problema higieno-sanitário, a latita de merda a escorrer devia ser posta dentro de um cubo de acrílico, transparente, estanque e isolante, onde a obra de arte pudesse seguir o seu percurso natural, longe da mão do homem e longe do nariz também. Brilhante. A Tate acatou e assim fez.

Warholl vendeu a lata de Sopa Campbell`s, mas Manzoni vendeu Latas de Merda e ao preço do oiro. Que é de Artista é, mas será arte?

12/12/04

Bifes com batatas fritas, por Jocta do Tellado

Acabou o jogo e ganhou o Sporting. Como tal, o Zétó saiu contente do estádio em direcção à estação do metro de Campo Grande a agitar uma pequena bandeira verde e branca. Aí chegado encontrou um ribatejano inexpressivo encostado à máquina dos bilhetes que lhe disse:
- Zétó, meu filho da puta, não há meio de perceberes nada desta merda, corno dum cabrão. Nem sei se deva perder tempo contigo.
Disse-lhe isto como se fosse o Eanes a anunciar trovões. Surpreendido pela frontalidade sombria do alegado campino encostado, Zétó enganou-se e comprou à máquina o bilhete errado, desnecessariamente mais caro.
- Ora bolas. Reclamou timidamente o Zétó a olhar para o título e a abanar desolado a cabeça.
- O que é que te falta, afinal, ó ranhoso de merda, o que é que tu queres? Para onde é que tu vais? Quem é que tu pensas que és? O que é que tu pensas? Questionou o ribatejano com delicadeza felina e cínica, acrescentando: Anda cá que eu quero falar contigo.
- O senhor desculpe, já vi que é ribatejano, mas porque é que está a falar comigo assim?
- Senhor o caralho. Disse o presumível campónio imperturbável.
- Sabe que há quem não goste de palavrões? Se fosse a si refreava-me. Pode haver gente que não aprecie. Ripostou com a pequena bandeira verde e branca a meia haste.
- Está bem, pronto, desculpa lá. Não posso é prometer que não volta a acontecer. Mas isso também não é muito importante. Tens um minuto?
- Acho que sim. Depende.
- Pois, compreendo. Mas como é que fazemos?
- Não sei, sugira você.
O ribatejano e o Zétó tinham chegado a um embaraçoso impasse, que demorou cerca de dois minutos a quebrar. Enfim:
- Bem, podíamos ir conversar ao Ribatejo, mas penso que não te dê muito jeito… O que é que achas?
- Não posso. Só tenho bilhete para duas coroas.
- Nunca vi nenhum revisor no metro para o Ribatejo. Não deve haver problema. Embora daí. Desafiou o circunspecto campino.
- Epá, não dá, combinei ir beber umas canecas com os colegas. Para festejar, está a ver?... Não pode ser aqui?
- Seja, que se foda. Desculpa lá. Saiu-me sem querer.
- Não faz mal. Era pior um peido sonoro.
- O que eu te queria dizer era o seguinte: Tu que és um inútil dum imbecil sem emenda, diz-me lá qual é coisa qual é ela, qual é coisa qual é ela…
- Então, está a improvisar?
- Não, é o autor.
- Quer dizer, primeiro fala comigo como se me conhecesse desde a escola primária, insulta-me, depois vem com uma grande conversa sobre uma conversa, e agora não sabe o que é que há-de dizer? Fogo!
- Deixa-me pensar, isto não é fácil…. Já sei. E se o Kumba Ialá te fosse ao cu?
- Isso não me parece muito credível. Quem é o Kumba Ialá? Interrogou o Zétó face a um ribatejano desolado.
- Esquece. Mas por uma sílaba que não rima: kumba, cu… Noutro contexto seria interessante.
- Interessante é a situação internacional.
- Isso não sei, ó amigo. Para isso tens de falar com o ribatejano da estação do Rossio. Queres o telemóvel?
- Já agora. Zétó anotou o número do analista internacional na bandeirinha verde e branca. E, já agora, qual é a sua especialidade?
- Eu cá sou estivador.
- Não parece nada.
- Já não é a primeira pessoa que diz isso. Pensam que eu sou campino. Seja como for, vamos lá a despachar isto.
- Está bem, também já estou farto de estar aqui. Diga lá, então. Exortou o Zétó.
- Imagina que és uma isca de fígado… não, melhor, que és uma patanisca de bacalhau…. Já está? Pronto. Agora vai-te foder, não quero saber de ti para nada, és merda, abaixo de merda, pior que merda. Nem merda és.
- O que é que isso significa?
- É a vida caralho! É uma metáfora da vida, anormal! Respondeu o, por uma vez, alterado ribatejano, aprumando a compostura logo de seguida e passando a mão pelas farripas de cabelo que lhe caíam do barrete verde e vermelho para a testa: Ó meu amigo, eu até já falei demais, eu cá só faço perguntas e ponho as pessoas a pensar. Respostas é com o ribatejano do Intendente.
- Está bem, mas isto parece-me tudo um bocado ridículo.
- É uma maneira de entreter o tempo. Há piores. Pronto, já podes ir à tua vida. Queres o telemóvel do colega do Intendente?
- Pode ser.

10/12/04

Fotografia, por Cão

Perdi uma série de fotografias obtidas num domingo agora duas vezes pretérito. Na impossibilidade de reavê-las, resta-me tentar, hoje e aqui, revelá-las pela palavra.
Uma delas era de duas mulheres quase tão jovens quão pálidas. Apontavam a ninguém quatro olhos dotados da clarividência azul-cosmos dos cegos. Eram cegas, tinham seios perfeitos e apresentavam-se muito bem vestidas: talvez por serem manequins e se encontrarem expostas na montra de um pronto-a-vestir.
Outra das fotografias não conservava gente, fingida sequer, à superfície da eternidade que toda a foto ilude ser. Era de um cão dormindo entre as linhas de um caminho-de-ferro desactivado. Só eu sabia que o cão realmente dormia, que por ali comboio algum passava ainda. Um observador pensaria talvez no atropelamento mortal do cachorro.
A terceira foto (mas porquê “terceira”?; por que ordenamos ainda o que se perdeu?) revelava uma mansarda eriçada de vasos de sardinheiras. Entre as flores, assomava uma cabeça de mulher cuja maior evidência era a desolação da pobreza. O olhar da mulher, recordo-o bem, fixava directamente a minha objectiva, pelo que me é lícito assentar que foi ela a fotografar a própria fotografia que eu haveria de perder.
Lembro-me de ter interrompido o trabalho desse domingo duplamente irrecuperável para tomar um vermute e munir-me de cigarros num café de reformados que escutavam o relato de um Belenenses-Atlético para a Taça. Sem que o notassem, fotografei dois dos velhos à contraluz da montra pontuada de cocó de moscas, prospectos de bailes e editais venatórios.
Já cá fora, a grande tenda solar estava segura ao chão por estacas de árvores e carros estacionados para sempre. Cheirava ao que os domingos cheiram: a espera e a ruas vazias.
Fotografei de costas uma mulher de chapéu que caminhava com a graça involuntária de um charlot diurético.
Fotografei um telefone preto dos antigos, dos de discar. O telefone tocava, ninguém vinha atender, pareceu-me que até o som ficou gravado na fotografia. O som e a ausência de atendimento: ambos impressos na película perdida.
Foi um domingo de roubar luz, esse domingo. Trabalhei muito, depois devo ter guardado o rolo no bolso de um casaco cujo forro se me desforrou, como às vezes a vida se desforra de quem a não vingou.
O que vos ainda não revelei (verbo de fotógrafo) é isto: houve uma fotografia que não tirei nesse dia. Um par beijava-se na paragem do autocarro. Não um desses beijos lambidos, sôfregos, desses de dorsos linguais expostos ao basbaque dos velhos e à má-língua das velhas. Era um beijo bem posto, breve e simbiótico, um beijo dado por aquilo a que chamamos alma quando se usa a boca sem ser para falar ou comer. Não era coisa de adolescentes, mas um beijo claro entre um homem já maduro e uma mulher serôdia já. Não tirei o retrato dessa eternidade mínima.
E curiosamente, de todas as fotografias que tirei e perdi, essa foi, não a havendo tirado, a única que pude guardar para, hoje e aqui, vo-la revelar.

09/12/04

As Músicas do Porco, Can´t Take My Eyes off You (Frankie Valli), por Anarca de Noé


Pode o Pop ser eterno, ele que é pela sua natureza, a arte do efémero? Eu acho que sim, de cada vez que ouço Can´t Take My Eyes off You, canção composta por Bob Gaudio e Bob Crewe e imortalizada por um cometa de quem não conheço mais nada: Frankie Valli.

Valli, nome de baptismo, Francis Castellucio, fez uma carreira a solo quando não esteve ligado aos Four Seasons (esses, os pirosos autores da banda sonora do inenarrável Grease). Can´t Take…, apareceu num anúncio recente a um carro e em inúmeros filmes, como Teoria da Conspiração (Richard Donner), O Caçador, Scooby Doo ou o Diário de Bridget Jones, e até o grande Ryuchi Sakamoto a foi buscar para a banda sonora de Wild Palms. Renasce década após década – eu lembro-me que era um dos grandes sucessos do Giovanni uma velha disco de Monte Gordo nos anos 80. Também já ouvi a melodia cantada em claques de futebol. Tem montes de versões, para além da melhor de todas - o próprio original romântico-kitch de Frankie Valli. Que eu saiba, Lauryn Hill, Muse, a diva Gloria Gaynor, Andy Williams, Mélanie Doane , Models, todos eles, fizeram versões de Can´t Take My Eyes off You.

A música é melosa, exagerada, kitch… Começa em tom orquestral e depressa descamba para um ritmo que nos puxa o sapato para a dança. Valli canta-a com a emoção à tona, sinceramente comovido. Parece que o vejo a tremer quando berra o refrão:
I love you baby, and if it`s quite allright, i need you baby, to warm a lonely night, I love you baby, Trust in me when I say it to you.

A letra pretende ser romântica mas se o é, é-o pela ausência total de poesia e de conteúdo metafórico. Um homem (ou será uma mulher?) declara, pura e simplesmente, à sua apaixonada/o que «não consegue tirar os olhos dela», que «ainda bem que está vivo», ou que «ela é demasiado boa para ser verdadeira». Simples e cru! Can´t Take… é, deste ponto de vista, a antítese literária de Something dos Beatles, uma das mais belas canções de amor, mas sem mencionar uma única vez a palavra «amo-te».

Em suma, uma compilação de clichés de marialva de esgoto, de gel no cabelo e pente no bolso de trás da calcinha com vinco. Eu gosto desta letra. Quem não gostaria que lhe dissessem sem subtilezas e da forma mais directa e comprometida do mundo «daria a minha vida por ti. O teu amor é mais importante que tudo»? Acho-a fantástica na sua literalidade, romântica na sua crueza, na sua ausência de subtileza. Tenho pena de nunca ma terem dedicado, esta canção eterna e às vezes, quando a ouço, ainda sonho com aquela festa que já me deviam ter feito há muito e onde eu daria o maior show de dança jamais visto, ao som das minhas músicas preferidas. E quando passassem Can´t Take my Eyes off you, garanto-vos!, eu transformava-me no John Travolta…

07/12/04

Tratado Taurino, Volume 3, A Restauração, por RicardoChibanga


Depois do Volume Primeiro dedicado às Repartições Públicas e do Volume Segundo dedicado aos Tribunais, eis o Volume Terceiro do Tratado Taurino, sobre a lide na Arena Restaurativa.

O mastigante típico Português - tipo Didas na Barca - está habituado a “comer e calar”. Tem medo de devolver a sopa, tem pânico de fazer ondas, tem terror de que olhem para ele no tasco e sobretudo fica com pavor de que a sopa reclamada venha com uma escarreta de brinde.

Ora isto está mal e tem que mudar. Há que reclamar. Há que tourear. Se a coisa não está aceitável vai para trás e sem hipótese de remissão. No limite é preferível devolver, não comer e pagar, do que engolir a zurrapa nefanda com que por vezes nos brindam nos tascos.

No Porco, à excepção do Xiita que marra com tudo e todos menos com os estalajadeiros e que come toda a palha que lhe metem na manjedoura, é ponto de honra a lide restaurativa. Tal lide, é uma arte refinada e apurada em muitos anos de arena, e rege-se por alguns princípios universais e sagrados, uma vez que os toiros marram sempre da mesma maneira seja qual for o nível do tasco.

Antes de mais há uma regra base que o Porco segue sempre que é o “AVISO À NAVEGAÇÃO”. – São canónicas as amêijoas?, As queijadas foram feitas com que percentagem de leite de ovelha? – O Arroz é Carolino ou Agulha? – E se é Carolino é do Vale do Mondego ou do Sorraia?, etc e tal. Deve haver sempre um aviso prévio. Este aviso alerta o garção, quase sempre recém vindo da guarda de vacas pró serviço de mesas, que o mastigante em presença é um animal de respeito. Por outro lado o “Aviso Prévio à Navegação” faz com que o comensal ganhe legitimidade moral para depois reclamar. Permite ganhar ascendente e terreno na faena.

Nos tascos bairradinos de leitão por exemplo, pergunta-se sempre e previamente, à mocinha: “olhe lá têm leitão assado de agora e podem-nos trazer só desse, ou não?”. Em regra nem ouvem a pergunta e automaticamente respondem que Sim. A seguir trazem uma dose com um bocadinho de leitão quentinho a estalar de frescura e dois bocadelhos de mau aspecto com a pele engelhada do reaquecimento, por ser leitão do almoço ou do dia anterior. Azar. Há sangue na arena a seguir.

Aqui chegados, com ou sem “Aviso à Navegação”, impõe-se o respeito do segundo princípio básica da reclamação, a que chamamos: “O PADRINHO”, e que se pode traduzir por “Quando um burro reclama os outros Baixam as orelhas”. Seja em grupo avantajado, seja em casal ou em família, só um e apenas um, previamente combinado, é que reclama. Il Capo di Tutti Capo. O Padrinho. De preferência, é o mesmo que fez os pedidos e que, se for profissional, já se sentou pensadamente de frente pró curro de onde sai o toiro, isto é, de frente para os serviçais e a sua saída da cozinha. Na Confraria temos um cargo que é o de “O Rapaz”. Cabe ao Rapaz organizar e tratar de tudo com o estalajadeiro e os serviçais. Um simples copo de água é pedido ao Rapaz organizador que pede aos garçãos. Qualquer reclamação passa obrigatoriamente por essa única pessoa e por mais ninguém. Só ele fala, só ele gere a situação, porque a lide só pode ser feita por um toureiro. Dois toureiros distraem o toiro e levam marrada mais cedo ou mais tarde.

A regra Terceira é a “CORNADURA BAIXA”, isto é, havendo que reclamar e definido que esteja o toureiro, todos os restantes toureiros saem da arena. O toureio é um acto solitário, que exige concentração. E, mais importante que a concentração do toureiro, é a concentração do toiro. O toiro não pode ser distraído. Assim, todos os restantes comensais baixam a cabeça – bolinha baixa – fecham a boca e baixam os olhos. Jamais podem sequer trocar um simples olhar com o toiro enquanto ele está a ser lidado. Qualquer olhar da parte de qualquer outro comensal que não o reclamador toureiro, leva a que o toiro procure automaticamente por simpatia, compreensão ou benevolência nesse olhar que lhe foi concedido, nessa porta que se lhe abriu. E é por ali que ele foge. Jamais. Boca calada e bola baixa. A comiseração a ser concedida, sê-lo-á pelo lidador e nunca pela público do sol ou sombra. Desta forma toda restante mesa se cala e baixa a cabeça e os olhos. E jamais levanta a cornadura até terminar a lide.

A quarta regra relativa à calma e temperança, é por nós apelidada de “O POVO É SERENO”. A calma e a Serenidade, são o sal e o pão da terra que nos pode faltar na arena. O toureiro reclamante jamais pode perder a calma, exaltar-se ou enervar-se. Perde logo a razão e a lide. O toureiro tem que estar mais gelado que uma pescada do pólo norte, mais sereno e contido que um cágado alentejano. Serenidade, calma e cortesia são armas do toureio. Permitem a lide, não invertem a razão e deixam sempre margem para uma qualquer retirada estratégica. Só se reclama do que se sabe, se não se sabe pergunta-se mas sempre com calma e educação. Sem isso, o toiro marra a esmo, não se mete onde a gente o quer e não se deixa lidar. No limite há mortos e feridos e uma berraria desgraçada que pode só terminar na esquadra da zona.

A regra quinta e última é a de mais difícil aplicação. Constitui a estocada final. É ela que define o bom toureiro e é ela que faz desembestar o toiro. É a regra sublime e carinhosamente chama-se: “O SILÊNCIO É DE OIRO”. Pode parecer esquisito, mas numa lide destas, um bom toureiro distingue-se pela gestão do silêncio. Do seu silêncio. O lidador está de frente pró toiro, capta-lhe e concentra-lhe a atenção. Espeta com calma a primeira farpa. Silêncio. Sereno, espera-se a investida. Se o toiro fica quedo, leva com a segunda farpa. Contida, fria, gélida mesmo, mas que se enterra pela carne adentro. Silêncio. A besta investe, em regra sem norte e sem razão. Leva a estocada final e das duas uma ou cai de joelhos na arena ou destrambelha por completo. Toiro nenhum aguenta o silêncio. Não lhe entra no cérebro. A gente agarra-lhe a atenção, foca-o na Verónica, isto é na reclamação, não lhe permitimos a menor distracção e gerimos o silêncio. Lindo. “ – Tá a ver, este leitão geme água, vê…? (silêncio – uns segundos, só os necessários para o silêncio se evidenciar e incomodar, depois interrompe-se) – É que isto não aceitável para um restaurante deste nível, não acha…? (silêncio até incomodar de novo). Se a seguir lhe pedirem a patroa grelhada o gajo traz. Tá de joelhos aniquilado, encadeado, não tem por onde marrar, não tem por onde fugir.

Se o toiro, digo, o garção cai de joelhos, o toureiro é magnânimo, até porque isto é arte e não pura crueldade. Se marra desenfreado ou pior destrambelha por completo, dá-se uma estocada final no animal e apela-se pró director da corrida, mandando-se retirar o toiro da arena, coisa que um Director de Corrida jamais recusará. A estocada é sempre a mesma: “Vá-me chamar quem mande em si!, que o Sr. está um pouco enervado!”

Vindo o Director da Corrida, digo, o gerente, volta-se ao início da faena e começa a lide de novo, respeitando os mesmos princípios. Com o toiro de gerência, a lide só pode terminar de duas formas, ou com o animal ajoelhado a nossos pés pela arte e força da lide, ou pelo ferro da estocada final. Solene e à Matador: “Faça-me o favor de me ir buscar o livrinho de reclamações!”
Até espumam quando levam com este ferro. Já o fiz dezenas de vezes e nunca, mas nunca, me deixam lá escrever alguma coisa. Ajoelham e deixam-se lidar. A sangrar, mas ajoelham.

06/12/04

O Condestável, ou o Atelier do Suspiro, por Zé Critério

Aqui há meia dúzia de anos, abriu na Ereira, próximo do Cartaxo, com estrada quase directa a partir da saída de Aveiras da Auto-Estrada do Norte, o Restaurante Condestável. O Vice e o Grão, mastigantes sempre atentos a estas capelinhas, ouviram dizer bem e abancaram. Gostaram e voltaram. Dessas três ou quatro expedições punitivas, ficaram na memória um excelente buffet livre de entradas diversas e um queijinho de cabra com ervas frito, assim como uns Pimentos Vermelhos recheados com cogumelos, que eram qualquer coisa de outro mundo.

Aqui há cerca de 2 anos, voltei ao Condestável com a minha Maria e a miúda, sempre com a memória, como elas aliás, no magnífico buffet. Surprise, o tasco tinha mudado de um lado da rua para o outro. Tocou-se à porta e veio o Luís Suspiro, himself, abrir a coisa e instalar o pessoal na mesa. A sala avantajada é como dizia o Automotora. Cheia de armaduras, brasões, floretes e espadachins com um santo condestável tamanho família lá pelo meio, tudo a armar ao fervor patriótico, muito kitsch e sobretudo, muito monárquico, mas presumo que fosse mesmo essa a intenção.

Amesendação impecável. Serviço de copos e talheres mais finos que os do rei e vai de lançar o olhar à mesa do esperado buffet. Não havia. E não havia mesa de queijos. Havia sim uma ementa tipo gigantone com pratos de nome elaborado, embora de base regional. A Maria pugnava por uma retirada estratégica. Contudo a miúda já tinha afiambrado numas Empadinhas quentes e eu - bem eu - estava simplesmente curioso.

A ementa gigantone tinha um preço único e gigantesco de cerca de 9 contos pessoa por um menú degustação do tasco. Interroguei pela ementa de pratos únicos. O Luís Suspiro lançou-me um olhar de surpresa e explicou lá do alto que só havia o menu degustação. O preço era um pormenor. Era assim que funcionava no grande Arzak do País Basco e era assim que funcionava no El Buli da Catalunha e era assim que ele queria, uma vez que ali era o seu atelier, a sua galeria de arte, onde ele mostrava ao público a sua arte, isto é, a sua reinvenção da cozinha tradicional portuguesa, a elaboração moderna dos nossos sabores da infância. Atenção que não estou a inventar. O Suspiro disse mesmo isto, e com muito mais floreados e rapapés.

Do seu discurso transpareceu alguma afectação e snobismo, mas a coisa não era arrogante e tinha a sua lógica. O homem lá explicou alguns pratos e eu mais que curioso, engoli a isca e o anzol e fiquei. Apesar dos 9 contitos pessoa, mas enfim um dia não são dias, é prá desgraça e morra quem se negue. A Maria deitou-me um daqueles olhares de caixão à cova, mas prontos enterrado por um, enterrado por mil.

E seguiu-se o menu. Oito ou Nove pratos de tamanho gigante (os pratos em si, não a comida) de design do próprio Suspiro, que além de artista da cozinha é artista do vidro e da cerâmica. O primeiro parto foi um creme branco preso, quase em pirâmide, que se perdia no meio da imensidão do vidro roda 26. Olhei prá aquilo e pareceu-me que era para comer à garfada. A miúda copiou. O Suspiro não me viu a mim, viu a miúda e corrigiu-a dizendo que era Sopa de qualquer coisa. Larguei o garfo à sorrelfa e fiz um ar de admoestação à miúda, que furibunda se recusou a continuar na Sopa. Azar. Comi eu as três, mas agora à colherada. Sabia muito bem, mas não se sabia o que era.

No segundo prato – se bem me lembro - veio uma pequena peça triangular, prá aí do tamanho de uma chamuça normal, com umas ervas por cima em equilíbrio instável. O prato, de vidro trabalhado azul feérico do tamanho de um tabuleiro de cantina, era estonteante no seu néon-renascentismo. O que se situava no meio dele era uma alhada de raia. Reinventada pelo Suspiro. A miúda não gostou, a Maria amuou e eu comi as três. Enquanto limpava as três doses, que me souberam às mil maravilhas, a Maria suspirou um “isto é nouvelle cuisine”. O Suspiro que vinha a passar nas costas da Maria, ouviu. Meu Deus. O homem estacou como que fulminado:
– Ó minha Senhora, “Nouvelle Cuisine”? Pelo amor de deus, isto é genuína e pura cozinha portuguesa! A “Nouvelle cuisine” não existe! Não me ofenda, eu não faço “nouvelle cuisine”, eu faço cozinha portuguesa, eu sou um patriota, um artista luso, eu jamais fugiria aos sabores da minha terra…
E eu que queria era comer descansado, lá larguei a raia e fui em socorro da Maria:
- Pois, o que ela queria dizer era que, como isto não tem qualquer espinha ou coisa de tirar, pensou isso, coiso, e tal, não é essa uma das características da Nouvelle…
A Maria que já estava a mariná-la desde o início, não deu parte de fraca e espetou o dedo onde doía no dito cujo:
- Cozinha portuguesa é que não me parece, cozinha portuguesa é a feijoada, os pézinhos, o bacalhau e o cozido, aqui nem consigo saber o que é!
Meu deus, o que a cachopa foi dizer. O homem ficou roxo, virou azul, ainda tentou dizer alguma coisa, mas pediu licença e foi prá cozinha esbaforido.

Quando julgávamos que nos tínhamos livrado do Criativo, eis que o Artista regressa do além com livros e livros, calhamaços enciclopédicos tamanho gigante, a cores e ao vivo.

Passámos todo o resto da refeição a ouvir a explicação de cada um dos pratos. Como se comia. A que é que nos devia saber. Os Aromas. A Reinvenção. E tudo, mas tudo, com remissões e fotografias dos partos do Arzak, do Buli, do Ras Com Fabes, e eu sei lá mais o quê. Por fim eu assentia e a Maria também, completamente vencidos. Eu pelo cansaço, elas pela fome, já que no meio daquilo tudo, era eu que acabava a comer os três pratos. Recordo-me de um Pudim Abade de Priscos decomposto e separado em todos os seus componentes que era qualquer coisa de magistral. No mais, nem soube o que era, que já nem ouvia o Suspiro.

Comi que nem um Abade, e paguei que nem um cão. Mas o que mais me doeu, foi que a seguir tive que ir gastar mais dinheiro nuns bifes da Portugália para elas as duas. Ficou caro o Suspiro. Mas eu voltava. O homem tem razão. Há que reinventar e reelaborar a cozinha tradicional portuguesa e o homem de facto é um artista. Desculpem lá o tamanho, mas não é fácil resumir a arte.

05/12/04

Venham a Nós os Animaizinhos..., por Zé Critério

Não é fácil encontrar uma matriz comum ao conjunto dos Porcos, digo, Confrades - Deus os Abençoe -, que por aqui erram tal é a diversidade de alimárias. Contudo, existe um Elo de ligação primordial e primário, que nos une e nos liga à Criação. Esse Elo é o nosso Amor aos Animais. Mais do que os Ecologistas ou os Verdes e quejandos, nós amamos os outros seres vivos deste planeta com quanta força temos. É um amor sincero, frontal e honesto. Cultivamos essa paixão há décadas e com o patine do tempo temos refinado a relação amorosa. Mas ela continua pujante e crescente. Uma autêntica Religião, com Sacerdotes, Sábios, Salmos, Dogmas, Sangue e Catedrais. Ajoelhemo-nos pois, uma vez que vamos pisar Solo Sagrado.

Não é fácil praticar a nossa Religião na cidade de Coimbra. Dos templos iniciais de noviçado já há muito que deixámos de lado: o “Pratas”, o “Mijagato”, o “Quim dos Ossos” ou o “Casino da Urca”. Capelas menores como a “Batina”, a “Tasquinha do Queiroz”, o “Aviz” ou a “Adega Adêmea”, foram sendo relegadas para segundo plano por não respeitarem os animais como deveriam.
Contudo, continuamos fiéis adeptos do “Zé Manel dos Ossos” pelo castiço do ambiente e dos serviçais, e cultivamos a ausência do saudoso e verdadeiro Zé Manel e dos seus Cogumelos Aporcalhados, da sua Feijoada de Javali com Ervas, e obviamente dos Ossos. Para além do Zé, podem e devem afiambrar a Açorda de Coentros com Jaquinzinhos do “Zé Neto”. No mais encontram uma boa cozinha alentejana no “Chaparro”, uma cozinha variada e familiar no “Dom Duarte 2” e no “Adega da Portela”, assim como uma mariscada honesta na “Munich 2”.

Em Viseu, a coisa melhora e ainda é isso que nos safa. Quando a horda bárbara da Confraria se espoja nos relvados de Montebelo, a facção civilizada vai castigar os pecadores no “Cortiço” com o seu Bacalhau Apodrecido na Adega, o Arroz de Carqueja e o sápido Coelho Bêbado Três Dias em Vida. Na estrada para Abraveses não perdoamos também ao “Santa Luzia” com o seu Cozido de Morcela da Beira com Grelos e no seu tempo uma Caça de grande nível. E ficamos só pela cidade, senão teríamos que afiambrar em Nelas no “Bem-Haja” e em Tondela no “Três Pipos”.

Em Aveiro o pessoal espraia-se e refocila. Aqui sim, embora a preços de sulipampa, respeitam-se os animais. Começamos pelo “Salpoente” e a sua Sopa do Mar, com passagem pela Caldeirada à Fragateiro e a Caldeirada de Enguias. Continua-se pelo “Praia do Tubarão” com o seu Ensopado de Rodovalho e vamos na senda piscícola à “Barca” com a Chora de Peixe à Capitão Vidal, Amêijoas à Bulhão Pato e o Pregado Grelhado. Para carnes abanca-se na “Tasca do Confrade” ou sai-se para sul para Bustos onde se come a excelente Sopa da Avó e o Sarrabulho Bairradino no “Rafael”.

Se este intróito foi para apascentar em cidades, aqui se proclama que o Porco é antes de mais animal de Campo e é em Peregrinação Campestre que erigimos alguns altares em honra de certos bichinhos. Só para abrir o apetite, que a prosa vai longa, aqui ficam os três principais:

Bicho Primeiro: O Leitãozinho. O bísaro bairradino é e sempre foi o nosso mais fiel amigo, com direito a peregrinação anual à Catedral do Bolho, solo sagrado, mas reservado aos entronizados. Como isto se destina ao povinho não eleito, aqui vai outro templo de adoração. Por natureza o Leitão Assado à Bairrada é um bicho irrequieto cuja qualidade é difícil de recomendar em templo certo. Na Confraria o templo que reúne maior consenso é “O Painel” na Cúria. Tem por vezes um excelente “Leitão” e sempre ou quase sempre umas excelsas “Iscas de Leitão Grelhadas Com Alho”. Quem já está a marrar, dizendo que não gosta de iscas, esqueça o que comeu antes, estas de iscas de leitão nada têm a ver. O Porco nem sequer devia estar a ensinar isto, mas enfim, aqui fica.

Bicho Segundo: A Lampreia. Este ciclóstomo é a perdição da Sponto. Pelo preço e pelo sabor. Para ele temos também uma Catedral Sagrada, que é o Bernardes. Não é privada nossa como o Bolho, mas só funciona na época (Janeiro/Fevereiro) e por encomenda. Não dizemos onde é. Quantos mais vêm, mais caro fica para nós. Podem comê-la boa, pouca e cara, no “Panorama” de Penacova com a melhores vistas do mundo para um restaurante, ou logo a seguir no “Boa Viagem” do Porto da Raiva, algo mais barata.

Bicho Terceiro: O Robalo. Digam isto a poucos, mas se lá forem encomendem antes e digam à Dª Licínia (Gata, prós amigos) que vêm da parte do grupo de doidos de Coimbra que faz provas cegas e empesta tudo com charutos. Na Praia da Tocha, no “Cova do Finfas” não percam o “Robalo no Forno Ao Sal A Arder”, mas exijam os grelos e a Sopa de Peixe. Nós, meia volta estamos por lá. E estamos bem. Catedral.

01/12/04

Para acabar de vez com o 1º de Dezembro, por Pata Negra

Se eu mandasse, acabava com o feriado que hoje se comemora. Eu sou iberista! Sou iberista na mesma forma que sou europeísta, federalista, convicto. Para os portugueses, Europa significa Espanha. E ainda bem. A Península Ibérica unida é capaz de se equiparar, sob todos os indicadores, às grandes potências europeias. A União Ibérica é uma vantagem estratégica.
Mas sou iberista também porque reconheço nos traços profundos da portucalidade a profunda e telúrica raíz hispânica. No essencial, nada nos separa, nem a geografia, nem a matriz civilizacional. Separou-nos a história e as razões de Estado. Há pois uma razão de ordem cultural.
Sou iberista, ainda, porque encaro a independência nacional como um instrumento que cumpriu uma estratégia com enorme impacto na História da Europa e da Humanidade. Cumprida essa missão, o instrumento histórico que foi a autonomização da faixa ocidental da Península a que chamamos Portugal, perdeu sentido enquanto realidade política separada totalmente, como o esteve durante séculos, do corpo hispânico. Há que reatar a umbilicalidade com a Península, sem preconceito, pois isso não significa derrota ou prostação. Se o não fizermos assumidamente, teremos que o fazer por via da aceitação dos factos que ditam, já, a Espanha como nosso principal parceiro comercial, quer ao nível das importações quer ao nível das exportações.
Sou iberista também, por razões de análise histórica. Revejo-me na política de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I. Lamento que o malogrado D. Miguel de la Paz, neto dos Reis Católicos e filho de D. Manuel I, jurado herdeiro de todas as coroas ibéricas, tenha falecido prematuramente. A União dos reinos ibéricos foi um objectivo perseguido pela política externa portuguesa pelo menos desde os finais do século XIII até aos finais do século XVI. A revolta de 1640 não é mais do que um golpe protagonizado por uma elite decadente, minoritária, sem qualquer apoio popular. A nobreza parasita e decadente, habituada à inutilidade e aos favores do Estado, incapaz de se adaptar à modernidade, capitaliza o descontentamento popular, meramente conjuntural, para lançar para a ribalta a cabeça de uma das mais poderosas e inúteis famílias da nobreza peninsular: a Casa de Bragança, uma linhagem de parasitas latifundiários, alérgicos ao trabalho e incompatibilizados historicamente com o serviço do bem comum. Ainda no século XIX, numa época em que a Alemanha e a Itália se unificaram, para quase toda a nossa intelectualidade a ideia ibérica parecia aceitável, inevitável, ou desejável. A começar em José Felix Henriques Nogueira e a acabar em Antero de Quental, o melhor da intelectualidade portuguesa de Oitocentos agradava-se com a ideia. Do lado de lá, partiram os convites para que o nosso rei D. Fernando de Saxe Coburgo Gotha, D. Pedro V ou D. Luís, aceitassem o trono de Espanha. As razões eram ditadas pela conjuntura interna, mas também consideravam, naturalmente, uma simpatia para com a ideia de unidade peninsular. Esta tradição do nosso pensamento político e cultural chega ao século XX, merecendo destaque pensadores como Miguel Torga, Natália Correia, Oliveira Marques, ou João Medina.
Sou iberista ainda porque encaro o mosaico das nações peninsulares, e a sua pluralidade, como matizes de uma mesma tradição civilizacional. Não vejo nessa pluralidade uma ameaça à unidade, que a bom dizer nunca existiu ou existiu apenas nominalmente, quer nos tempos romano-góticos, quer nos filipinos; mas vejo-a como sinal de uma diversidade enriquecedora que faz da Península, em todos os aspectos da história da Europa, um dos pilares essenciais da civilização comum, um dos esteios indispensáveis da ocidentalidade que se impôs ao mundo. Outros há, mas o pólo peninsular é um dos mais importantes e o mais desprezado, quando o confrontamos com os restantes: o eixo anglo-saxónico, o germânico, o francês e o itálico. Se nos interrogarmos sobre a razão desta secundarização do vector peninsular no palco europeu, encontraremos, a meu ver, duas razões: por um lado, as tentações homogeneizadoras do centripetismo castelhano, visíveis na política centralista do último dos Filipes, ou no militarismo franquista que esmagou autonomias e visionou uma Hispânia imperial, ou ainda na soberba com que alguns sectores madrilenos ainda hoje falam de Portugal. Por outro lado, o nacionalismo exacerbado das nações ibéricas que, na vez de se encarem como parte de um todo, se presumem capazes de uma secessão viável. Seja o nacionalismo providencialista e quinto-imperial dos portugueses, seja o violento e obstinado secessionismo basco que fundamenta o seu anseio independentista na defesa obstinada e racista dos princípios absurdos de Sabino Arana, seja o complexo de inferioridade do nacionalismo galego que usa a lusofilia como arma de arremesso contra Madrid, seja até alguma arrogância catalã que levou, por exemplo e há bem poucos meses, o sr. Jordi Pujol a afirmar que a miscigenação era um atentado à identidade cultural da Catalunha. Tanto disparate leva-me a concluir: sou iberista em nome da universalidade dos princípios.
Sou iberista, finalmente, porque prezo o futuro mais do que o passado. Nunca tanto como hoje o futuro foi tão importante. Antes, no dealbar da modernidade, o futuro era o espaço de realização da ambição. Hoje, o futuro é o que nos resta. São os novos tempos e os novos problemas que não se compadecem com maneiras velhas de pensar. Questões como a protecção ambiental, a imigração clandestina, a emissão de poluentes, as estratégias comuns de defesa face a ameaças externas como o fundamentalismo islâmico, a política energética, o terrorismo, o combate ao grande tráfico, a lavagem de dinheiro sujo e as novas modalidades criminais, desde o proxenetismo ao turismo sexual e pedófilo, etc. Por outras palavras, face aos novos desafios, as soluções a achar terão que se estruturar sobre um outro conceito de soberania. Da mesma maneira que a soberania edificada sobre a demarcação territorial foi uma resposta para a afirmação de uma individualidade que permitiu encarar desafios e abrir horizontes (Portugal nunca teria iniciado a gesta expansionista amarrado ao todo hispânico). Os novos horizontes exigem não só a reformulação do conceito de soberania, mas a edificação de um outro que terá de ser feito, forçosamente, sobre a abolição do conceito tradicional. É esse o rumo da Europa, derrubar muros, abolir alfândegas, criar espaços mais vastos. E isto é não apenas uma necessidade, mas um salto qualitativo que nos guinda a um estádio superior, em função de um ideal universalista que a Europa sempre professou como mito dinâmico que marcou o rumo ao longo de 2 mil anos de História. Terá que ser um novo conceito, a soberania será agora simbólica, joga-se ao nível da cultura, da especificidade local contra o perigo da uniformização global. Manter a especificidade da língua, da cultura, da gastronomia, da etnografia, será a forma indispensável de alimentar a diversidade como garante de riqueza e vitalidade, evitando o empobrecimento derivado de uma homogeneidade avassaladora e orwelliana. Aqui faz sentido alimentar a soberania, como raíz de uma identidade.

28/11/04

Pergunta de burro, por Porco Revoltado

O Henrique Chaves demitiu-se. É o grau zero. O Portugal do Santana não existe. Isto é uma palhaçada. Devemos apelar ao Sampaio para convocar eleições. Até o Cavaco bateu com a porta. Disse, e bem, que vai sendo tempo de os sérios e competentes correrem com esta escumalha. É triste, mas é verdade. A linha separadora do confronto político já não está no campo ideológico mas no domínio da ética política e da seriedade pessoal. Quer isto dizer que a esquerda e direita estão do mesmo lado da barricada contra os corruptos, oportunistas e incompetentes. É grave porque mostra ao que chegou esta merda. E é real porque temos o Soares e o Cavaco, adversários há muito pouco tempo, identificados no discurso crítico e devastador a Santana. Quer dizer que a situação política está abaixo de cão.
Ontem foi a enterrar uma referência da vida política portuguesa do século XX. O Dr. Fernando Vale, aos 104 anos, morreu descansado. Médico verdadeiro ao serviço dos doentes e não servindo-se dos doentes, republicano, democrata, maçon. Pessoa tolerante de grande empenhamento cívico. Nunca retirou vantagem da sua intervenção pública. Pelo contrário. Sofreu a prisão, a perseguição, a intolerância e o insulto. Nunca teve tachos. Foi apenas governador civil de Coimbra, porque lho pediram insistentemente e numa altura de grande agitação em que a res publica reclamava o seu contributo. Tão diferente desta canalha que exige tachos no conselho de administração das empresas públicas e municipais, exerce vereações a tempo inteiro com ajudas de custo e de representação, cartão de crédito e automóvel e telemóvel e etc e o caralho que os foda! E são vogais do conselho fiscal disto e daquilo, accionistas da puta que os pariu, metem cunhas para construir em terrenos protegidos, são veteranos das jótasèsseistoeaquilo aos 16 anos, movem influências para arranjar postos para os filhos e afilhados, cunhas para entrar em Medicina, despedem jornalistas como quem sacode pulgas, sonham com golfe em Bruxelas, embaixadas em NY, comissões de serviço em Madrid ou assessorias de imprensa em Londres, têm putas platinadas e amigos com ilhas privadas, fumam Cohibas que davam para matar a fome a muito desempregado. PUTA QUE VOS PARIU, ó Sanguessugas da Pátria!
O Gomes da Silva, no funeral de Fernando Vale apresentou o falecido como bom exemplo a seguir. E eu pergunto:
MAS POR QUE CARALHO É QUE NÃO SEGUEM O EXEMPLO DO DR. FERNANDO VALE? FODA-SE!

Nota: foto de http://www.asbeiras.pt/ edição on-line de 27 Nov 2004

♫Jing Dong Bel, Jing Dong Bel♫, por Citizen Tuga & Mangas Kane

O que aconteceu foi que eu estava em Belém na inauguração da maior árvore de Natal da Europa, sim repito da Europa!, porque nós quando fazemos as coisas é em grande, e virei-me para um turista que lá estava e disse-lhe:
- Lá na tua terra não tens disto pois não? A maior da Europa, a MAIOR!
E o gajo vem com uma conversa do género: «...não sei quê, no meu país preferimos gastar dinheiro em outras coisas, por exemplo a evitar que rebentem condutas de água que levam ao abatimento do solo, e dessa forma prejudiquem milhares de pessoas...», mais não sei que mais e o camandro!
E eu, que até sou um gajo que hé pá, tenho uma facilidade na exposição de argumentos, não me fiquei e disse-lhe logo:
- A maior da Europa! Toma! Embrulha!
E o gajo começa a falar que não sei quê, lá no país dele quando começa a chover as zonas ribeirinhas não ficam inundadas, e que talvez fosse melhor que, em vez da árvore, o dinheiro fosse canalizado para evitar essas situações. Eu comecei a enervar-me e disse-lhe logo:
- MAU, MAU MAU...! Tu queres ver que nos temos que chatear! Eu estou aqui a expor argumentos que hé pá, sim senhor, e tu vens com essa conversa de não sei quê...? Eu nem quero começar a falar na feijoada em cima da ponte, nem no desfile de pais natais, nem da broa de Viseu que foi para o Guinness e tudo, porque senão nem sabias onde te meter, pá.
Então, o gajo começa a falar de uma coisa qualquer, tipo túneis que são construídos e ficam a meio, e não sei que mais, e eu virei logo costas! Acabou! Porque quando eu vejo estes gajos que não conseguem aceitar a superioridade de um país sobre o outro, e ainda falam, falam, falam, e não dizem nada de jeito, eu fico chateado, claro que fico chateado!

26/11/04

Coimbra, Che Guevara e o Golfinho, por MenteContusa

Já todos nós ouvimos mil e uma histórias do casal “enganchado” pelo sexo, que dá entrada nas urgências do hospital. Coimbra - recheada de hospitais - tem destas histórias a circular às carradas, com variantes tão variadas como horripilantes. Desde o casalinho gay surpreendido pelo rebentamento da veia no pénis, à solitária viúva demasiado intima de garrafas de Coca-Cola, até aos graúdos da sociedade que por vezes também se engancham e lá caem de urgência, de tudo se faz boato, fundado ou não. Histórias com bicharada “enganchada”, então é mato. Mas Coimbra, provinciana como é, lá faz uns boatos simplórios com canídeos ou ovídeos. Mas o mundo é rico, fértil e variado e lançando aqui o fundamento para um novo boato, imaginem-se num hospital selvático da amazónia peruana, onde lhes entra pela urgência adentro alguém enganchado num golfinho. Estranho. Pois, mas pode acontecer.

Che Guevara no seu livro “Viagem pela América” que relata o seu percurso pela América Latina em 1952, relata que quando chegou ao Rio Ucayali, (continuação do Amazonas) no Peru, se deu com o seguinte:

“No lugar onde nos banhávamos havia um peixe de forma bastante estranha, chamado pelos naturais Bufeo, o qual, segundo a lenda, come homens, viola as mulheres e faz mil outras tropelias do estilo. Parece que é um golfinho de rio que tem, entre outras estranhas características, um aparelho genital feminino parecido com o da mulher, de que os índios se servem como substituto. Mas têm de matar o animal quando acabam o coito, porque se dá uma contracção da zona genital que impede o pénis de se retirar.”

Já tou a ver. De aumento em aumento e de acrescento em acrescento, e a partir aqui do Porco, prá semana já é dado como certo nos mentideros da praça coimbrã, que o Nosso Hitler REIS Derek mascarado de Che Guevara deu entrada nos Hospitais da Universidade de Coimbra enganchado num golfinho menor de idade que importou do Peru. Sacana!

24/11/04

Ligação à medusa, por Cão

Devia ter chorado durante o sono, pensou, porque ao acordar os olhos lhe estavam inchados como incham os lábios durante o amor. E também porque, no exacto lugar onde outrora o coração, sentiu que lhe pulsava uma medusa de ácido. Pessoa prática, fingiu não sofrer os destroços de alguém que desperta para a certeza de o mundo ter recomeçado sem ela.
Levantou-se, ferveu água para o café, gargarejou elixir no lavatório, bebeu o café, vestiu a melhor roupa, calçou os sapatos melhores, semeou flocos de comida na água do peixe vermelho e saiu para o patamar, onde o poço do elevador de grades escancarava a dupla possibilidade do inferno ou do rés-do-chão. Foi pelas escadas.
O fecho eléctrico da portaria emitiu um protesto indignado, a que não ligou porque se não deve ligar a tudo. Havia sol.
Caminhou pelo lado do sol, rasando as sucessivas pastelarias de almoços rápidos, as rápidas lojas chinesas onde budas miniaturais incham de plástico ao pé de telemóveis de brincar, as infinitas sucursais bancárias das capitais pobres, os carros abandonados à mercê dos cães urinários. Foi marchando com a pressa de quem não tem aonde ir. Que fazer de tanto domingo?
Num relance de avenida alta, viu, longe, um trecho de rio: pele de luz, mais que de água, tatuada de velas e cargueiros. Dirigiu-se a essa visão hóspita, bastando-lhe descer no sentido das calhas do eléctrico. Até que chegou. Livre de prédios, o rio unia sem tracejado o céu montante ao mar jusante, como certas palavras são capazes de fazer. Gostou de ver o sol dissolver-se na água, açucarando-a da mais benigna das ilusões – a eternidade.
Um cargueiro bramiu como um elefante acorrentado, e a voz do navio rasgou o domingo em dois, como se o domingo fosse um melão. Pescadores à linha erguiam as canas à maneira de exclamações mudas, atentos ao parkinson das bóias. Também gostou dos pescadores, que procuram mais a solidão do que o peixe.
Lembrou-se, então, do seu peixe, o vermelhusco de olhos esbugalhados que por ora mordiscava a tona do aquário com a felicidade indiferente dos que se resignaram. Lamentou não tê-lo trazido consigo, dentro de um saco de plástico tão inchado de água como olhos ou budas, não tê-lo trazido para o dar ao rio, onde teria de aprender a evitar a solidão assassina dos pescadores mas onde se não veria sujeito a rasar pastelarias, chineses, bancos ou carros, nadando, em vez disso, no açúcar solar como se para sempre.
Lamentou mas não ligou, porque não ter nada é a melhor razão para não ligar a tudo, muito menos à medusa.

23/11/04

Hare Krishna, por Mahatma Singh.

Local: mosteiro budista habitado por monges carecas vestidos com túnicas de cores laranja e amarelo que meditam silenciosamente. O Grande Dalai Rama levita na posição de lótus quando é, subitamente, interrompido pelo jovem e tímido discípulo.
- Mestre, perdoa-me esta interrupção...
- Sim, meu filho. Que inquietação é essa que te leio no rosto e te leva a interromperes o momento divino da meditação em que a alma e o corpo por momentos se fundem e são um só?
- Perdoai-me mais uma vez, Venerável Mestre, por perturbar a Divina Reflexão, mas uma dúvida inquieta-me o espírito e impede-se de atingir a placidez do Nirvana.
- Diz então, meu filho, o que tanto te inquieta, para teres decidido perturbar o estado de plenitude que partilhavávamos com Vishnu.
- Mestre, tenho uma dúvida que me atormenta: é verdade que uma pérola se pode furar pelos seus dois orifícios, enquanto uma mulher apenas se deixa furar por um...
- Sim, meu filho, é verdade. E qual é a tua dúvida?
- Mas, venerável e santo Mestre, ao que parece, há mulheres que se deixam furar pelos dois orifícios! Sendo assim, Mestre, qual é a diferença entre uma pérola e uma mulher?
- É que isso, meu filho, não é uma mulher, mas uma pérola.

21/11/04

Como se combate a idiotia?, por Idiota Jones

Escrevo hoje por dever e penitência. O dever ditado pelo arrependimento, a penitência sedenta de perdão. Deve a idiotia combater-se à paulada? Embora os idiotas não desmereçam do método, devemos optar pela negativa. A escolha é mais pragmática do que cristã. É que a paulada, embora castigadora, produz normalmente o efeito perverso de estimular a idiotia. Retenham o princípio: quanto mais se arreia num idiota, mais idiota o idiota se torna. A partir daqui, é só desnovelar a regra. Isto é, quanto mais idiota, mais pauladas, quanto mais pauladas mais idiota, e por aí fora. Arafat morreu sem ler este conselho, tal como não creio que Sharon leia o Tapor, e por isso o conflito israelo-árabe está como está. Crede pois, sou eu que vo-lo digo: não há pau que ilumine um idiota. Só há um remédio para a idiotia: classe! Há pessoas que têm classe. As pessoas que têm classe anulam os idiotas. Não há idiota que não arrenegue da idiotia em face da classe. E eu sei do que falo, meus irmãos. Eu fui um idiota! Em Julho de 2004, aqui neste blog de idiotas, eu levei a idiotia aos limites históricos. Poderia arrolar agora, qual arrependido na vara da justiça, inúmeras razões que explicassem a idiotia. Invocaria o contexto e a circunstância, o espírito jocoso e a inconsciência, o involuntarismo e a irreflexão, buscaria atenuantes e testemunhas abonatórias e talvez convencesse os idiotas ainda mais idiotas. Não há perdão, porém. Eu, idiota me confesso e prosterno-me humildemente aos pés da ofendida com o incomensurável peso da minha idiotia amarrado ao pescoço. A ofendida foi Filipa Pato. E se esta confissão tiver o dom de reduzir a idiotia, que não limpá-la totalmente posto que a má natureza se atenua sem que se anule, a causa é só uma: a classe de Filipa Pato.
Em Julho de 2004, provámos e não gostámos do «Ensaios» de Filipa Pato. Escrevi, a esse propósito, um post para o qual reclamo desde já o indisputável título do «post mais idiota do Tapor». O plural refere-se à confraria. Eu fui o responsável pelo post. Estranhas são, todavia, as leis que regem o universo. Não fossem estranhas essas leis e a Providência ter-nos-ia, justamente e para nosso infortúnio, privado para sempre do conhecimento da jovem enóloga. Mais não mereceria, diga-se, o deslustre que lhe endossei. Se tal desdouro merecera eu por castigo, decidiu a Divina Providência fazer claríssima demonstração do Seu sentido humoroso, dando ao injusto ofensor o imerecido prémio de conhecer a ofendida injustiçada. Quando Filipa Pato se nos dirigiu, de forma cordata e corajosa, desafiando-nos para uma prova de vinhos brancos, não foi só uma bela jovem determinada e inteligente que saiu ao nosso caminho. Foi mais do que isso, foi a sabedoria do Eterno, que nos Seus insondáveis e excelsos desígnios, lançou uma cavalheiresca e humorada bofetada às trombas deste seu servo, pobre degenerescência da Criação.
Na Sexta-feira, 19 de Novembro, tínhamos aprazado o jantar na Cova do Finfas, onde a D. Cilita, a célebre Dona Gata, nos aguardava com uma magnífica sopa de peixe e um extraordinário Robalo no Forno ao Sal a Arder. Sobre isso e sobre os vinhos em disputa, outros melhor se encarregarão de dar nota. A verdade é que ninguém acreditava que Filipa Pato aparecesse. Pelo caminho, interrogávamo-nos mutuamente. A resposta era invariável e sempre a mesma. Não, Filipa não apareceria, fosse porque a não merecêssemos, fosse porque alguém lhe usurpara a identidade numa piada de mau gosto, fosse porque, vendo bem, não somos gente que se recomende. Afinal, qual de nós, em pleno juízo, aceitaria jantar connosco? É daquelas perguntas que dispensam a resposta, pois vai directa à consciência, esse exótico lugar onde a mentira não cabe porque fruto não colhe. Não, eu se vos não conhecesse, meus amigos, jamais jantaria convosco. E tenho a certeza que cada um de vós pensa como eu. Por isso somos amigos, porque partilhamos esta incontornável verdade.
À hora marcada, porém, Filipa apareceu. Só. Corajosa mulher! Quem olhasse aquela mesa de convivas e observasse Filipa rodeada por aquela gente, inevitavelmente se lembraria de um qualquer episódio bíblico. Daniel na Cova dos Leões, Cristo no Templo com os doutores, eu sei lá, uma de entre as tantas por onde a natureza extraordinária do Filho de Deus se exaltasse pelo contraste dado pela fraca figura dos circundantes. Filipa brilhou, naturalmente. Mas também porque a nossa rude natureza ainda mais brilho lhe conferia. E falou de vinho, e exalou simpatia, inteligência e beleza. Lembro-me quando, em criança, no circo, via os domadores na jaula dos leões e me interrogava como conseguiam eles acalmar as feras. Sei-o agora: tal como a classe de Filipa se impõe sobre o espanto dos bárbaros desta confraria e deste idiota que outrora, no tal Julho de 2004, lhes deu voz e agora se penitencia.

Que fazer com blogs nazis? – semana de reflexão, aqui no Porco. Por Rocco Siegfriedo

Quem tem aparecido no Porco na última semana, reparou que andámos divertidos a bandarilhar a marizza, a nossa kiducha de estimação e nazi assumida – ela não é bem nazi, é mais uma nazizita que tempera as cruzes suásticas do seu blog com imagens da minnie e do mickey e hentais muito kidos.

Primeiro embirrámos com ela, simplesmente, porque a achámos intolerante – a kiducha insultava-nos quando lhe criticávamos os posts, como se a blogosfera tivesse que ser um imenso salamaleque virtual destinado à troca de galhardetes. Continuámos a toureá-la, claro, e ela irritava-se cada vez mais – apagou-nos os comments! – e mais – suicidou-se como um terrorista da al qaeda, apagando o seu próprio blog. Confesso que nos rimos muito esta última semana e o Porco atingiu cifras astronómicas de visitantes para o que estamos acostumados, sem dúvida num estado tão hilariante como o nosso. Por isso é nosso dever agradecer-te kiducha. Bigado!

Foi então que descobrimos que a nossa kiducha é, assumidamente, nazi, detesta os «pretos» e tem amigos skins que fazem rusgas a demarcar o território. Ela própria o diz e «acha que a sociedade não está preparada para as suas ideias» (como se se pudesse chamar aquilo que ela defende «ideias»…). A nossa inocente kiducha, não tem culpa, coitadita, mas fez-nos pensar: como devemos reagir perante blogs nazis? A divulgação e a promoção de ideais nazis são expressamente proibidas pela Constituição Portuguesa … Devemos denunciá-los? Bom, não é o nosso estilo fazer queixinhas. Mas mentecaptos deste género devem saber que estão fora da lei.

Excluída a hipótese da denúncia, surgiram no Porco duas correntes: uma, que defende que temos o direito e o dever de insultar gente desta. Outra que é melhor não cair no registo a que eles estão habituados e tratá-los com complacência e piedade, usando a fina superioridade da ironia e do humor como farpa que mói o touro. Ou então, simplesmente, podemos ignorar esse tipo de gentalha. Temos algumas dúvidas acerca do tema. E o que é vocês acham?

19/11/04

Um Rapaz Cruel, Sanguinário e Vingativo, por SarçArdente

Agora anda toda a gente a escrevinhar à mão a Bíblia. A começar pelo nosso/deles Presidente da Junta, Sua Majestade Portentosa El Cabeça de Cenoura, tudo faz bicha com câmaras atrás claro, para ir escrever mais um trecho do livrinho sagrado.

Ora o livrinho sagrado, que nos ensinaram - de longe e por voz terceira - como puro e inatacável, é uma enorme sucessão de barbaridades. Divinas, mas barbaridades.

Até dou barato, a justeza dos ensinamentos do JóttaCristo do Novo Testamento, assim como a imagem do Deus compreensivo, misericordioso e pachola que o mesmo descreveu. Mas o Velho Testamento pré-Ísaias, descreve um Deus particularmente cruel, invejoso, ditador, sanguinário e vingativo, que se está completamente a cagar para quantos inocentes mata, só para dar uma lição a um triste qualquer que só reza uma vez ao dia. É um Deus que arrasa povos e cidades inteiras só para dar lições ao povinho eleito, que por acaso nem lá mora. Noutras vezes, extermina por inteiro o povinho deseleito e vai fazer obra nova a partir de outro rebento qualquer. Tribos inteiras sujeitas a pragas ou passadas a fio de espada é mato na Bíblia, tudo com aval, ajuda divina ou até em acção directa e ao vivo do colérico nominado.

Por tudo isto e nesta época do politicamente correcto em extremo, acho imensa piada às criancinhas todas a copiarem os excertos como os do Génesis, que relatam em pormenor o arrasar de Sodoma e Gomorra, crianças e bebés de colo incluídos, ou a parte em que se recomenda que se comam grilos e gafanhotos, mas que condena à danação quem coma gambas ou camarão, ou a violação do pai pelas filhas de Lot numa orgia continua de dias sucessivos, ou ainda aquele outro que relata que Deus permitiu a Caim “conhecer” mulher, depois do gajo limpar o sebo ao irmão Abel. Isto, quando na altura só tinha sido ainda criada uma única mulher, Eva, a mãe de Caim. Ora, se só lá havia uma mulher e Deus permitiu a Caim “conhecer” mulher, quem é que raio “conheceu” Caim? Freud tinha razão?

17/11/04

Have a Cigar, por Zé Gilmour, admirador de António José Saraiva, director do ESPESSO

Hoje é o Dia Mundial do Não Fumador. O governo anunciou, à semelhança de outros Estados da União Europeia, uma série de medidas drásticas com o objectivo combater os hábitos tabágicos da população portuguesa. Proibição de fumar nas escolas e nos hospitais. Mesmo nos espaços públicos, como os restaurantes e centros comerciais. E até nos bares e discotecas. A razão justifica-se. Fuma-se cada vez mais. Os fumadores passivos reclamam direitos. O Estado despende quantias enormes no tratamento das doenças causadas pelo tabaco. Eu fui fumador até ao dia que deixei de fumar. Sou, portanto, um ex-fumador. Há quem não seja. Por exemplo, o confrade Grunfo. O Grunfo fuma charutos há pouco tempo. ('tás a ver, ó Marisa, sua nazi de merda, aqui é que leva agá). Embora só fume aos fins-de-semana, pode considerar-se um fumador. E, porque fuma, não é um ex-fumador. Como não são ex-fumadores todos os outros que começam agora a fumar. Jovens. Principalmente raparigas. Ora, como todos sabemos, as raparigas de hoje serão as mães de amanhã. Algumas, pelo menos. ('tão, Marisa, já te veio o período?). E é entre as raparigas adolescentes e as grávidas que o consumo de tabaco tem aumentado nos últimos anos. Compreende-se. Primeiro fode-se e depois fuma-se. O melhor é produzir um pacote legislativo onde se proíba o sexo em conjunto com o tabaco. Se não se foder não se engravida. Se não se engravidar, as grávidas deixam de existir. Se não houver grávidas, deixa de haver o grupo estatístico onde o consumo de tabaco mais cresce. Então, o consumo de tabaco deixa de crescer. Isto é, decresce. Se decresce acabam as campanhas anti-tabágicas. Se há menos campanhas anti-tabágicas, já não seremos obrigados a ver aqueles cartazes idiotas e violentíssimos. Olé!

15/11/04

VAGA DE FUNDO - NÃO NOS ABANDONES MARISA!

Aqui no Porco pensávamos que a net era o mundo mais parecido com o Planeta Liberdade de Expressão que o ser humano já inventara. Aqui no Porco ficamos sempre satisfeitos quando vem cá alguém – seja para dizer bem, seja para embirrar e levar troco. Até o Julinho é bem vindo. Quando não vem ninguém, marramos nós uns com os outros.Venham todos, digam bem ou mal. É pra isso que foi feita a blogosfera.

Mas há bloggers (?) que não pensam como nós e ficam zangados quando vamos dar patada aos blogs deles. Alguns estão ali ao lado nos links ao pé de outros onde vamos geralmente sem dar patada. Gostamos tanto de uns como de outros… Mas há os que se ofendem e que nos apagam os comments, exprimindo assim o desejo virtual de uma net ordenada e bem educada feita para se trocarem elogios.

A nossa amiga Marisa do Diabolik Angel, ofendeu-se com os comments de alguns safarditas aqui do Porco. Porcalhões! E agora ameaça que vai fechar o blog dela por nossa causa. Nós não queremos. Gostamos da Marisa e por isso lançamos aqui uma vaga de fundo para que ela não feche o blog. Prometemos que, a partir de agora só vamos ao Diabolik para dizer bem da marisa. A marisa é património registado do tapornumporco. Não nos abandones marisa, agora que te conhecemos, não, please. FICA! Esperamos muitos subscritores desta Vaga a chamar-nos nomes e a apoiar a Marisa. Nós também somos contra o Porco e a favor da Marisa.

14/11/04

O nacionalismo é a ideologia dos burros, por Nossa Senhora Macuda

O «Público» de ontem anunciava o novo hino do pêpêdêpêéssedê do Sant'Ana Nos Valha: Somos actores da História/ de coragem e glórias/ pátrio orgulho do passado/ abraçado pelo mar./ Para vencer os desafios/ desse povo soberano/ abre a porta do destino/ que o futuro quer entrar./ Queremos mais Portugal/ grande luso pequenino/ nova força para o mundo/ geração Portugal./ Grita Viva Portugal/ pede a alma, bate o peito/ nova força para o mundo/ meu orgulho Portugal./ Tempo novo de acreditar/ de ser mais feliz/ de ser PSD/ sempre mais e melhor./ Santana Lopes é a voz/ na vanguarda do futuro/ de norte a sul/ de todos nós./ Grita viva Portugal/ meu orgulho, meu país/ nova força para o mundo/ grita Portugal./ Grita viva Portugal/ meu orgulho, meu país/ nova força para o mundo/ viva Portugal. Conseguem imaginar pior? Está cá tudo: o historicismo nacionalista que acha que o nosso umbigo é o mais bonito de todos os umbigos, a virilidade marialva, o triunfalismo patético, as banalidades recorrentes, o prospectivismo messiânico que tenta disfarçar a medicridade indisfarçável, o ensimesmamento missionário de quem se julga concebido para grandes missões e o próprio nome do timoneiro citado em hino. Desde o Mao que não se via uma coisa assim. Será possível ir mais baixo? Somos mesmo obrigados a aturar esta malta?

13/11/04

"Teria sido uma boa mulher", disse O Inadaptado, "se estivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela", por DervicheRodopiante

Descobri uma coisa portentosa. Passeava calmamente por um dos ensaios de Harold Bloom, quando os títulos de alguns dos contos da americana que ele recomendava, me fizeram arrepiar na sanita. “Os Coxos hão-de entrar Primeiro?”. Eh lá, isto é um conto do Cão!. “Não se pode ser mais Pobre que os Mortos?”. Chiça, isto é Tinó puro, talvez Xiita mesmo. E logo outro. “Os Homens bons não são fáceis de encontrar.”. Caramba, mais Mangas que isto, não se pode ser, e com um cheirinho de Vice.

Estes títulos negros, ligeiros e profundos ao mesmo tempo, cómicos e sérios, tudo na mesma frase, transportaram-me de imediato para um universo fora do habitual. Um universo negro, impiedoso, iconoclasta, porco mesmo. A leitura da coisa fazia-me adivinhar um gozo que até arrepiava a espinha..

Depois de meses de investidas pela Almedina, Bertrand e Fnac, lá consegui finalmente o “Antologia Indispensável”, edição Dom Quixote de 1996. O meu primeiro livro de contos da Flannery O`Connor, uma católica sulista de Savannah na Geórgia que cresceu e viveu numa Quinta de criação de Pavões, chamada “Andalusia”.

A frase do título deste Post é a frase com que termina um dos contos da O`Connor e situando alguma coisa, termino com as palavras do prefácio do livro “…por detrás de um cenário aparentemente insuportável de banalidade começam já a insinuar-se os primeiros sinais de alarme relativos à demência indomável da natureza humana.(…) Incrível. Hipnótico. Estranho. Mas não é a história. Somos nós. Nós os humanos, somos estranhos. Flannery era muito nova mas sabia isso melhor que ninguém.”

11/11/04

O Fernandel, por Tinoni

Já não vejo há muitos anos um filme do Fernandel; por isso a recordação que tenho dele e dos seus filmes pode estar um pouco fora de prazo. Já é quase uma recordação de caricatura, impressionista. Então, é assim: Um homem grande, com umas mãos grandes, uns olhos esbugalhados, uma boca enorme, uma forma de cantar la-boulli-a-bai-se (saravá, mangas!), com uns olhos muito abertos e risonhos. É assim que o recordo, embora não me lembre sequer de alguma vez o ter ouvido cantar. A memória tem este hábito de se distorcer e recriar para se manter feliz. E até acerta, por vezes. Para mim, o Fernandel confunde-se com o Dom Camillo, o padre-cura que interpreta no filme com o mesmo nome do princípio dos anos 50 (fui ver à net: o filme chama-se em francês “Le petit monde de Dom Camillo”; não me lembro como era cá). Fazia uma dupla da espécie bucha e estica com o comunista Peppone, seu amigo e adversário, numa versão amável e morna da guerra-fria, então a começar. Mais donc, tu m’enerves mon vieux! Curiosamente, não reconheci o Fernandel no personagem do Dom Camillo dos livros do Giovanni Guareschi, ao contrário do que me aconteceu, por exemplo, com a figura do Comissário Maigret, dos romances do Simemon, criado pelo actor Bruno Cremer. Se há personagens definitivas criadas por um actor, esta é uma delas. Um dia falo nele noutro post. Mas voltando ao Fernandel, há outro filme dele que recordo com nostalgia: A Vaca e o Prisioneiro. Lembro-me apenas que o Fernandel era um prisioneiro fugido dos nazis que andava pela floresta acompanhado por uma vaca, com quem se fartava de conversar. Por falar nisso, o Dom Camillo também dava secas monumentais a Deus, em conversas meio profanas e bonacheironas. Os personagens do Fernandel faziam parte de um mundo antigo, rural e a preto a branco (a minha memória deles é a preto e branco, pelo menos…). Este mundo foi depois torpedeado pelo Tati, com o Playtime, a sua fabulosa paródia do mundo moderno. Era outro mundo que surgia, frenético e labirintico, outra linguagem e outros valores, um mundo technicolor à beira de um ataque de nervos. Talvez já estivesse na altura. Esta é a recordação que tenho e é recordação que me apetece ter. Quando revir os filmes, logo se vê o que calha. Há aquela máxima que diz que nunca devemos regressar ao local onde fomos felizes. Mas acho que não corro risco nenhum se voltar ao Fernandel. Se alguém tiver para emprestar, agradecido.

10/11/04

Kilroy Was Here !, por DervicheRodopiante

- Já toda a gente viu de certeza um boneco semelhante ao do lado. Não é tão comum como os perversos “smiles”, mas aparece em “n” grafittis, filmes, livros e na net é mato. Até o Calvin do Calvin & Hobbes do “Público” aparece algumas vezes com esta postura. Por mim, já tropecei muita vez em tal bicho e sempre fiquei curioso da sua origem ou significado.

Ainda pensei em interrogar o nosso Vice, especialista em Simbologia e Semiótica, mas tal ousadia tanto pode resultar num discurso de duas horas sobre a evolução do boneco desde o São Tomás de Aquino até ao Umberto Eco, como pode conduzir à defenestração do ignaro por delito de analfabrutismo.

Contudo, há uns tempos atrás o “Público” reproduzia a lista do New York Times sobre os 4 melhores livros de literatura do Séc. XX, que seriam o “Ulisses” do James Joyce, o “À Espera dos Bárbaros” do J.M Coetzee, o “Pilgrims Progress” do John Bunyan e o “A Trilogia de Nova Iorque” do Paul Auster. Dando de barato o chauvinismo de se tratar de obras só de língua inglesa e saltando o Bunyan que julgo nem sequer estar traduzido, tratei de ler “A Trilogia de Nova Iorque” que me faltava. E ali, em nota de rodapé lá descobri o nome do boneco e a sua origem. Apresento-lhes assim o “Kilroy”.

Kilroy era nem mais nem menos que um fiscal dos estaleiros navais do Massachussets, nos EUA, que durante a construção naval intensa da Segunda Guerra Mundial, estava encarregue de inspeccionar e contar o trabalho dos rebitadores. Rebitadores esses, que eram pagos por cada rebite colocado. Após a inspecção e a contagem, Kilroy colocava no local, uma marca de giz para que os outros fiscais soubessem que aqueles rebites já estavam contados. Os rebitadores, ratões, iam por detrás do pachola do Kilroy e apagavam as suas marcas de giz, o que levou a pagamentos a dobrar, pelos quais o Kilroy foi chamado à pedra. E o Kilroy não esteve com meias medidas e passou a andar com lata de tinta e brocha. E brochava tudo com a expressão “Kilroy Was Here”.

Acontece ainda que, como em tempo de guerra não se limpam espingardas, as lanchas de desembarque, navios de transporte e demais material de guerra, saia dos estaleiros directamente prá frente de batalha sem qualquer pintura que eliminasse os milhares de “Kilroy Was Were” presentes em tudo. Muitas lanchas de desembarque e navios de transporte de tropas, apresentavam assim como único emblema, estandarte ou bandeira, o misterioso e eterno “Kilroy Was Here”.

Os soldados americanos acharam piada à coisa, adoptaram a expressão e trataram eles próprios de a pintar em todo o lado, dos tanques às baionetas, razão pela qual se vê tal expressão em muitos filmes sobre a Segunda Guerra, tanto na Europa como no Pacífico. Pelo meio há um soldado desconhecido, ao que se julga na frente do Pacífico, que acrescenta à expressão, o boneco do narigudo a espreitar por cima da vedação. A coisa tornou-se de tal maneira iconográfica que contaminou a própria guerra da Coreia e do Vietname.
E agora contaminou o Tapor. Kilroy Was Also Here !