28/12/07

Let The Sun Shine!, por Apolo

Raispartam a União Europeia e o caraças da globalização! Muito se fala da uniformização - da comida, da cultura, da diversão, da vida - mas o pior e o mais incompreensível sintoma da standardização da Europa é este intolerável alinhamento do tempo solar pelo tempo da economia. Em nome das Bolsas e dos ritmos dos senhores do capital, decidiram os burocratas do Economês que toda a Europa passaria a reger-se pelo tempo dos nórdicos e dos escandinavos. Resultado: agora fica noite em Portugal às cinco da tarde, como se vivêssemos em Estocolmo, em Oslo ou em Copenhaga!!! E pensar que eles, os nórdicos, desde o tempo dos Romanos que fogem de lá para cá, para se safarem da inclemência das trevas e disfrutarem da dádiva do sol. Pensem como eram os Invernos quando éramos crianças, reparem como o Criador fez tudo certinho para virem, agora, estas alimárias estragar... Dantes anoitecia às sete no Inverno e às nove no Verão. Agora é noite às cinco no Inverno e às dez no pico do Verão! E o burro sou eu?

Estamos de cócoras, toda a Europa do Sul que abdica do seu tempo para se reger pelo dos outros. Mais os portugueses, gente capacho, gente de cócoras, que nisso nuestros hermanos conservam uma hora solar a mais que nós e a siesta ninguém lhes tira(é nesses pormenores que somos diferentes, nós e eles)... Cada dia que passa neste maldito Outono-Inverno gótico apetece-me apertar a garganta aos burocratas que se dizem nossos representantes e que nos traem nos corredores de Bruxelas em pormenores tão simples quanto graves como este. Por causa deles perdemos todos horas preciosas de vida e recolhemos às cinco e meia a casa quando era nosso direito natural contar com luz até às seis e meia-sete. Devíamos meter-lhes um processo colectivo, Portugal contra os seus representantes...

Lembro-me de quando era puto e ficava de olhos esbugalhados quando me diziam que havia países em que o sol se punha às cinco da tarde! Nem queria acreditar... Deve ser por isso que se suicidam, comentava. O pior é que nem percebo que é que se ganha em termos económicos com esta patifaria... Os gastos energéticos são, obviamente, muito maiores, ja que somos obrigados a acender aquecedores, iluminação eléctrica, etc, etc, muito mais cedo do que seria natural. Ainda me custa a crer que tudo isto seja uma mera quetão de unifomização da economia mundial. Se o é não percebo, não temos todos que andar em contra-ciclo por causa dos interesses económicos, isso seria um problema dos economistas, uma especificidade da sua profissão e ponto final. O que é que que tenho a ver com isso? Não somos obrigados a viver de noite - quer dizer, quase que somos - só para andarmos ao ritmo dos guarda nocturnos, dos homens do lixo ou dos porteiros de discotecas, certo?

Só sei que tenho saudades dos dias grandes, do sol de Inverno até às sete da tarde. Só sei que a loucura do sol de Verão na praia até às dez ainda agrava mais esta espécie de esquizofrenia em que temos que viver. A Europa até o sol pretende uniformizar... Tou farto da Europa,fónix!

Pic do mestre da luz, o espanhol J. Sorolla, um artista quase, quase ao nível dos célebres pintores da marina de Vila Moura ;););)

24/12/07

Uma Boa Razão Para Gostar do «Romance Histórico», por Zagazabo

Talvez seja mais uma efeito lateral do fenómeno Dan Brown mas o certo é que, nas livrarias deste país, comecei a dar por uma nova secção a crescer, a crescer, a engordar mesmo, a secção do chamado «romance histórico». Basta passarmos numa das Fnacs do burgo para verificarmos que o espaço concedido a este novo género (?) é largamente superior ao espaço concedido a áreas tão fundamentais como, por exemplo, a História, a Sociologia ou a Filosofia. As três juntas… Compreendo, por isso, a aversão com que um amigo reagia um dia destes ao género.

No entanto sempre existiu romance histórico. Muito antes do actual abastardamento do género, sempre houve autores que se dedicaram a contar histórias – a romancear – que decorrem em períodos históricos já passados. Neste sentido muito lato, qualquer romance é histórico, embora o termo se tenha popularizado enquanto designação de histórias decorridas em épocas mais remotas. Abstraiamo-nos, pois, da actual utilização abastardada da expressão. Confesso que sou um fã do romance histórico e, por isso mesmo, reajo mal à pauperização da designação. Dou-vos uma razão para adorar o género, uma razão bem Portuguesa – chama-se Fernando Campos.

Fernando Campos é, quanto a mim e com toda a subjectividade que uma afirmação deste tipo sempre encerra, o melhor escritor português vivo. Prefiro-o a Saramago que, quanto a mim, nada tem para dizer; prefiro-o a Lobo Antunes – um escritor de centelha genial; não conheço Agustina o suficiente para falar muito… Mas Fernando Campos só não tem marketing, de resto tem tudo.

Acho que ele é o último dos escritores antigos e não sei o que acontecerá aquela forma de escrever português quando ele desaparecer. Quando o leio sinto que apanho uma corrente, a corrente que se deseja imortal da grande literatura portuguesa – é como se ele fosse a sequência natural dos nossos grandes prosadores, de Vieira, de Camilo, de Herculano, de Eça... Sente-se-lhe a tradição agarrada à escrita. As fotografias de Campos nas contra capas dos seus livros fazem-me lembrar os mais velhos e mais sábios dos meus professores da faculdade. A escrita dele é labor árduo, investigação, pesquisa aturada, disciplina pura e dura. Acho-o brilhante, mas o seu brilhantismo não é o daqueles gajos que se acham eleitos, escolhidos pela iluminação divina. Os seus livros são o resultado de anos e anos de pesquisa histórica rigorosa e, para além do puro gozo que há em lermos a sua escrita refinada, complexa, sofisticada, temos sempre a sensação de estar a aprender. É uma felicidade que um país com a riqueza histórica de Portugal, única em toda a Europa, possa contar com um escritor com as características de Campos. Porque a nossa história é um manancial imenso por explorar e as gerações futuras agradecerão – se não se perder, é claro, esta ideia cada vez mais peregrina de que o conhecimento do nosso passado é fundamental e se não nos tivermos transformado, entretanto, numa colónia de férias e em empregados de camisinha branca dos europeus do Norte.

Aconselho-vos qualquer um dos três livros que li dele: a Casa do Pó de 1986, o seu primeiro, uma obra prima absoluta, que tem como pano de fundo um mistério baseado em factos reais passado no século XVI acerca da identidade de um frade de nome Pantaleão; O Cavaleiro da Águia de 2005, de trama quase policial que tem como personagem central uma das mais eminentes figuras portucalenses da reconquista: Gonçalo Mendes da Maia, braço direito do primeiro rei de Portugal; e A Sala das Perguntas de 1998, inspirado na vida e obra da grande figura que foi Damião de Góis, tesoureiro do rei D. João III na Flandres no século XVI, Humanista convicto que privou com Erasmo e Lutero e conheceu as contradições do Portugal glorioso dos Descobrimentos e o fanatismo da Inquisição. Denominador comum aos três romances: a viagem. Pantaleão viaja até à Terra Santa, passando por toda a bacia mediterrânica nas mãos de Venezianos e Turcos. Góis percorre toda a Europa Central em plena convulsão reformista e Gonçalo é também, à sua escala, um viajante. Campos é, pois, um escrito de viajens mas na sua obra o distante, olongínquo cruzam-se habilmente com o próximo. Há uma espécie de argúcia, de mestria nesta forma de os falar de Aveiro e de Coimbra e do Rio Mondego e, simultaneamente, de Anuérpia, de Jerusalém e de Constantinopla.

Podia dar-vos outras boas razões para explicar o meu fascínio pelo romance-histórico- como-deve-ser: Amin Maalouf. Tracy Chevalier. Collen McCullough. Ficarão para um próximo post. Entretanto se alguém quiser ler Fernando Campos é contactar o nosso Grão. Ele tem lá alguns. Embora, estranhamente, confesse não ter gostado lá muito d`A Casa do Pó, vá lá um gajo saber porquê…

18/12/07

E-Gov, por Capitano Nemo

Há dias em que mesmo que nada corra mal temos vontade de desancar alguém e de fazer sempre melhor do que os outros. Era o dia para mim, e enquanto tentava levantar o meu ego ouço no rádio a notícia que menos de cinquenta por cento dos Portugueses usa o computador e só quatro em cada seis habitações têm acesso à Internet; seis por cento das pequenas empresas portuguesas não têm computadores e doze por cento não estão ligadas à Internet!!!!

Irra. É difícil entender isto após ser constantemente bombardeado por noticias de que o governo aposta fortemente no e-gov, de que o país vai de vento em poupa no que respeita à informatização etc etc.

Foda-se. Mas eu estou maluco ou os nossos governantes substituíram o cérebro por estrume.

Não vêm isto?? Não ouvem??

Então querem colocar os velhinhos a apresentar declarações de IRS pela Net quando eles nem sabem pronunciar a palavra computador??? Bestas quadradas estes gajos que nos governam, não conseguiam eles próprios apresentar as declarações de IRS pela net e agora andam a embandeirar em arco com a informatização do país?

Gajos destes fariam uma proposta para levantar o PIB dos esquimós através da venda de frigoríficos no pólo norte.

E isto não é um grito à velho do Restelo, é uma indignação profunda contra pessoas que não têm a noção do equilíbrio e que em vez de tentarem subir o nível médio de vida de uma população que vive com salário de dieta gritam atoardas vazias e medíocres e abrem cursos de costura.

Vamos para África e em força, pelo menos lá ainda se podem comer bolas de Berlim na praia.

12/12/07

Ibéria F.C., por Mister Mr.

Há muitas e boas razões para se ser iberista. Aí vai mais uma: já viram a selecção ibérica que faríamos se juntássemos, numa só equipa, os melhores jogadores de futebol espanhóis e portugueses? Podáimos jogar com este onze, por exemplo (entre parêntesis algumas alternativas possíveis):
Guarda redes - Casillas (Reyna);
Defesa direito - Sérgio Ramos (Bosingwa);
Centrais - Ricardo Carvalho e Pepe (Jorge Andrade e Meira);
Defesa esquerdo - Puyol (Miguel Torres):
Médios - Deco, Marcos Senna e Fabregas (Albelda, Xavi e Iniesta);
Extremos - Cronaldo e Quaresma (Simão e David Silva);
Ponta de lança - Fernando Torres (David Villa).

E ainda ficavam de fora, Raul, Reyes, Vicente, Morientes, Nani, Miguel Veloso, Petit, Maniche, Figo, Guti, Miguel e Joaquin, entre muitos outros.
E digam lá que esta equipa não era a mais séria candidata a ganhar o Mundial?

10/12/07

Tacho, Disse Ele!, por Anarco Sindicalista

Ontem conheci um típico rapaz de boas famílias que tem 29 anos e cara de 17. Descobri com espanto, quando lhe perguntei o que é que estava a estudar que, afinal, já concluiu o curso em Psicologia Antropológica ou lá o que era. E trabalhas? Onde? - perguntei-lhe. Numa das muitas veneráveis instituições criadas pelos políticos manda-chuvas, mais uma dedicada a estudar «a conjuntura da estrutura da valência da realidade sócio-económica da comunidade envolvente», vulgo Comissão Coordenadora de Qualquer Coisa... O que me espantou é que, quando ele me disse onde trabalhava, mostrou-se genuinamente orgulhoso. Fiquei baralhado. É que eu, no lugar dele, era capaz de corar um bocadito...

06/12/07

Silvas, por Adérito Laranjeira

Foi o próprio Silva quem me explicou. Parece que nomes como Oliveira, Pereira ou Carvalho têm uma origem judaica, não percebi bem porquê. Mas há uma razão para as pessoas terem estes nomes de árvores, de arbustos ou de frutos: o antepassado remoto do actual sr. Oliveira teria sido assim chamado porque no lugar onde morava, isto é, na sua propriedade, havia muitas oliveiras. O mesmo para os Carvalhos que teriam a quinta cheia dos dito cujos, prós Amieiros ou para os Videiras. Percebem agora porque é que os Silvas se chamam Silva? Pois é. Parece que o antepassado original de todos os Silvas tinha a propriedade rural ao abandono e, em vez de macieiras, oliveiras ou abrunheiros, aquilo eram silveiras por todo o lado. Langão.

Tenho para mim que os nomes dizem muito das pessoas, como dos povos. Há indivíduos com caras de Zés, de Manéis e até de Felisbelos. Os espanhóis parecem-me Pacos e os alemães soam-me todos a Fritz. Silva é um nome icónico, um símbolo de uma nação como Smith o é de Inglaterra ou Dupont da França. Não deixa, pois, de ter a sua piada que o nome icónico de Portugal remeta, etimologicamente, para a preguiça dos proprietários que deixavam as suas terras ao abandono. No fundo nem é de admirar: somos um povo de mandriões e tu ó Silva do camandro, vê lá se plantas umas nespereiras pelo menos para disfarçar…

Para Albert, ao Sol, por Cão

Para Albert, ao Sol é a crónica nº 28 da série Rosário Breve, todas as sextas-feiras, como hoje, 30 de Novembro de 2007, n'O Ribatejo (http://www.oribatejo.com/).
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Para Albert, ao SolCostumo comprar umas páginas de fiambre, manhã muito cedo, no minimercado da Vila. Saio, sento-me ao sol num muro e como-as sem metafísica nem pressa. Não como tudo. Na manhã que o sol não aquece, dou uma volta por ruas calçadas de bossas de granito e vou distribuindo fragmentos dessa literatura rósea e quase transparente aos carnívoros mais pobres da localidade: cães e gatos que vivem do tesouro simples ensinado por Albert Camus. Que tesouro simples?“ (…) achei-me colocado a meia distância entre a miséria e o sol.”, escreveu o Autor argelino-francês nascido em Mondori a 7 de Novembro de 1913 e nobelizado há precisamente 50 anos. Em 1935/36, com apenas 22 anos de idade, Camus publicou uma admirável colecção de prosas breves intitulada “O Avesso e o Direito”. Na década de 50, última que viveu por completo, reeditou tal obra fundadora, juntando-lhes os também admiráveis “Discursos da Suécia”, que orou, há meio século, nas cerimónias sequentes ao maior galardão literário do planeta.Entre aquele minimercado e esta pastelaria onde exerço a suave tristura da crónica, Camus dá comigo fiambre a cães e a gatos neste “mundo de pobreza e luz”. Tenho, portanto, um bom companheiro, aqui na serra e na terra.Foi já no entardenoitecer de 30 de Dezembro de 1983 que adquiri o livro (edição da Livros do Brasil, de que há ainda exemplares em livrarias tradicionais não “fnac-izadas” ainda). Na altura, folheei-o apenas. Ainda bem que o não li todo, então. Obra de jovem, “O Avesso e o Direito” é para ler e aproveitar na maturidade.A maturidade, sim, este limbo em que até os cães e os gatos sabem que umas páginas de fiambre são para ler ao sol: sem grande miséria, sem grande metafísica e sem pressa alguma.

04/12/07

Jazz de Câmara, por Cantaloupe

Blues on Bach do The Modern Jazz Quartet, editado em 1973, é uma obra prima. O disco combina coisas aparentemente inconciliáveis como o rigor matemático da música barroca e a liberdade de improviso do jazz.

The Modern Jazz Quartet foi formado em 1952 por Milt Jackson (vibrafone), John Lewis (piano, director musical), Percy Heath (contrabaixo), e Kenny Clarke (bateria). Em 1955 Connie Kay substituiu Clarke. Para além do brilhantismo dos seus intérpretes, a banda ficou na história pela criação daquilo que podemos definir como um novo género musical: o «jazz de câmara», isto é a tentativa de combinar o jazz e a música clássica. A ideia não foi muito bem recebida nem pelos puristas da clássica nem pelos do jazz. Os primeiros viram naquela música uma pauperização da música erudita; os segundos acusaram o MJQ de intelectualizarem o jazz, seja lá o que isso for. Os velhos complexos da contaminação entre os níveis culturais high e low que segundo os fundamentalistas não se podem misturar…

Às vezes estou a ouvir Blues on Bach e pergunto a alguém que esteja presente que género de música acha que é esta. Ainda não houve ninguém a dizer simplesmente jazz nem clássica. As pessoas ficam confusas: parece música barroca, mas este vibrafone… E bateria? É estranho…
Quem ouve este disco tem a sensação de que Bach é um compositor contemporâneo e não o mais genial dos compositores barrocos de toda a história. Ouço Precious Joy e imagino um Bach americano e preto e não alemão e branco a tocar vibrafone e não órgão. De facto o disco foi gravado em 1973 mas podia perfeitamente ter sido ontem. Ou amanhã.

Conciliando brilhantemente duas linguagens aparentemente inconciliáveis – o jazz e a música erudita, The Modern Jazz Quartet consegue criar uma nova forma de expressão musical. É claro que eles não são os únicos músicos de jazz a fazerem incursões no território da música clássica. Basta lembrar as excelentes interpretações de Keith Jarreth de Mozart. Mas aqui o MJQ dá um passo mais além: é que, sendo excelentes, as interpretações de Jarreth não são muito diferentes da interpretação de outros músicos de formação clássica. Ouvimos os concertos para piano de Mozart ou as variações Goldberg de Bach, interpretadas por Jarreth, e a linguagem é clássica. Não sabemos, a não ser que nos digam, que é um músico de jazz que está a tocar. Mas a interpretação de Bach do MJQ é feita na linguagem jazz e não na linguagem clássica. É nesse sentido que – podendo gostar-se ou não – o MJQ vai mais além que tudo o que foi feito neste domínio.

Mas apesar dos intérpretes serem tão heterodoxos sente-se que é ainda Bach que estamos a ouvir. E, como tudo o que é Bach, estas composiçõoes roçam a perfeição. Dir-se-ia que estas músicas não foram inventadas, mas descobertas. Simplesmente estavam lá e Bach limitou-se (!) a descobri-las. A música de Bach tem a simplicidade (ou a complexidade como se preferir) da matemática: quando somamos 2+2 o resultado é necessariamente 4 e não pode ser outro. E estas músicas têm a mesma consistência ontológica: não há na música de Bach notas a mais nem a menos. São aquelas porque, como na matemática, só podiam ser aquelas nem mais nem menos e nenhumas outras.

São assim os grandes génios, sinto o mesmo quando ouço Mozart, dá a impressão que estas músicas já existiam algures num eterno limbo Platónico e que estes génios foram lá acima descobri-las e recolhê-las para nossa felicidade. É também nisso que este disco é brillhante - apesar da apropriação criativa que fazem da música de Bach, os intérpretes respeitam os limites, não deixam que Bach seja um simples ponto de partida um motivo para desvarios e improvisos sem norte (às vezes isso irrita-me nalgum jazz). Não. Do princípio ao fim do disco eles têm sempre presente a música de Bach. E embora a interpretem à sua maneira, é o rigor, a perfeição e a matemática de Bach que ainda reconhecemos aqui.

30/11/07

O Experimentador, por Babalu

Série: Novas Profissões – Parte 3

O Experimentador é uma profissão nova e com muita procura. E bem paga também. As milhentas casas de alterne que invadem a noite deste país, precisam destes profissionais como do pão prá boca, não vá a Asae questionar que o produto está fora de validade ou não obedece às directivas de higiene e segurança da UE. Daí, o Experimentador.

Diga-se em abono da verdade que o Experimentador é um profissional perseguido. Clandestino. Tem a sua liberdade cerceada por um sistema judicial que impede a experimentação. A incompreensão dos nossos tribunais, revelou-se em toda a sua perfídia quando há uns anos condenaram a prisão maior um honesto e incompreendido profissional, que na barra do julgamento explicou pacientemente a ouvidos judiciosos e que o não mereciam, que ele nada a tinha a ver com o crime. O tráfico de carne branca do leste e as bandalheiras dos quartos do primeiro andar da Madame Filipa, nada tinha a ver com ele, pois que ele era apenas o Experimentador. O encarregado de experimentar as meninas novas que apareciam na casa, com vista ao seu controle e bom desempenho profissional. Mais candura que isto não há. Mas os brutos da barra que não estão habituados à verdade, assustam-se quando a ouvem e puseram o homem à experiência na Regional de Coimbra. Um insulto ao verdadeiro sentido do dever.

Contudo, internacionalmente o Experimentador é um profissional conceituado e celebrizado. Tem até o seu líder carismático na pessoa da estrela francesa Pierre Woodman, um mestre e um senhor. Quando a poderosa multinacional do porno sueco, a Private Media Group, resolveu abrir a leste em 1992, precisava de um porco desinibido cujo porte contrastasse com a beleza e a inocência escondida a leste. Da escolha resultou o Pierre Woodman, basicamente um Ron Jeremy europeu.

Feio, gordo, peludo do pescoço aos pés, careca e mal jeitoso com umas manápulas que assustam o medo. Este seboso, ao contrário do Ron Jeremy nem sequer grunhe. Não fala, não diz, e não faz qualquer expressão. Estar ali ou comer tremoços é o mesmo para o gorduroso. Aponta, agarra, atraca e entranha-se. Nas suas mãos peludas a inocência entra temerosa e sai desinibida com a arte de cavalgar toda a sela.

Pelo meio há um famoso e iniciático Dedo e um célebre ponto G anal que desinibe e enlouquece. Woodman esconde o segredo, e nas sucessivas entrevistas nada revela. Mas elas, Anita Dark, Monica Roccaforte, Nikki Anderson, Rita Faltoyano, Tania Russof e muitas outras descobertas suas, confirmam o dedo poderoso e o ponto fantástico que as fez maravilhar. Em 15 anos de trabalho duro no leste, o Experimentador fez mais de 7000 castings. Este homem fez mais pela abertura a leste que milhentos reagans ou gorbatchovs. Os intelectuais chamam-lhe “técnica anal woodman”, os puristas apelidam-no de “abre-cus”, mas o segredo permanece. Certa vez perguntaram-lhe se esse ponto G anal também existe nos homens. O Experimentador fez cara de caso e limitou-se a afirmar que a Private nunca lhe pediu para ir por aí. Um perigo. Por ele e se lhe pedissem, o varrasco, até aí ia. Porco sujo. Perigoso. E se a malta passasse a gostar? Apre. Vade retro criatura demoníaca!

28/11/07

A Quarta Mulher, por Bonanza

Os westerns ensinaram-me que há dois tipos de mulheres: as que ficam em pânico a chorar num canto da cena enquanto o cowboy luta com o índio; e as que pegam na espingarda e dão um tiro no índio.

Mas a vida ensinou-me que afinal há ainda mais um terceiro tipo: as que ficam num canto do cenário a rir às gargalhadas enquanto o cowboy luta com o índio. E recentemente descobri ainda mais um quarto: as que pegam na espingarda e dão um tiro no cowboy.

O APONTADOR, por Medalhinha

Série: Novas Profissões – Parte Dois
Imagine-se um funcionário público. Típico. Imaginamos uma repartição pública minúscula, forrada com estantes cheias de Diários da República e amontoados de papel uns ao lado dos outros. Entre os pilares de folhas encontramos um espécime humano, escanzelado, com uns jeans Lee e um camisolão de lã até ao queixo. Ah!! Não podemos esquecer os óculos, o ar totó e os maguitos pretos nos braços. E pronto, a nossa imaginação levou-nos ao funcionário público por excelência.

Um funcionário público é, normalmente, aquela pessoa de quem todo o pessoal se queixa, mas que todo o pessoal sonha ser! Sim…, quem não gostaria de não contribuir para o PIB, ou de permanecer no local de trabalho de forma limitada (com prolongadas ausências físicas e/ou intelectuais); de tratar mal o pessoal que faz perguntinhas do lado de lá do balcão; ou de fazer tricô nas horas de expediente. Quem não gosta do dinheirinho garantido aos 21 de cada mês, e dos privilegiozinhos da ADSE, e de todos esses miminhos?

Ora bem, um Apontador é um funcionário público e tem todas as regalias da função pública. Daí a nossa aposta como segunda profissão a ser apontada. E a função pública precisa de muitos apontadores. Não falamos obviamente dos escrivães apontadores, mas sim dos homens do terreno. Que enchem a mão e apontam, corajosamente e sem medos. Sim porque isto é uma profissão de risco. Um Apontador é como se fosse a mão de Deus a auxiliar a Mãe Natureza.

Esta espécie rara e altamente seleccionada, serve o Estado Português e exerce as funções inerentes à sua categoria profissional na antiga Coudelaria Real, hoje conhecida como Coudelaria de Alter. Com o objectivo de assegurar a continuidade do Cavalo Alter, o Estado Português providenciou pela pontaria do equídeo! Um Apontador é a garantia de qualquer potro marca Lusitano.

A profissão não é de acesso fácil, mas a respectiva categoria é bem paga. Embora não seja dos serviços mais limpos e seguros é inegável a sua acutilância e honradez. É um trabalho de mão cheia. Quantas vezes não vimos nós já no YouTube ou na National Geographic, o desespero do equídeo que martela, martela e não há meio de acertar no ponto G. Daí a importância do apontador. E o estado português atento às necessidades da bestialidade, arranjou o Apontador. E pergunta-se: Quantas vezes não falhamos nós por falta de pontaria? Será que não podia incluir o serviço de Apontador nos benefícios da ADSE? Certamente que haveria menos surpresas e berraria por essas camas e noites afora!

27/11/07

Quadro de Mobilidade, por Hiper Camarada

- Olá Tó Pê, tás bom, não te via à uns tempos...
- Mais ou menos, mais ou menos...
Fiquei um pouco baralhado por ele ter respondido a sério ao meu cumprimento de circustância. Mas o Tó Pê estava mesmo mais ou menos, menos que mais. Contou-me: é funcionário público, um desses decretados milhares de parasitas pelo governo da república. Sempre o conheci como funcionário de um Ministério cujo nome não vem ao caso por razões óbvias. O Tó Pê vai agora na dolorosa casa dos 50 e, subitamente, viu o seu nome na tenebrosa «lista de mobilidade» do governo. Vai ser despedido e não sabe o que fazer à vida e o homem tem mulher e duas filhas a estudarem, uma delas na ex-Universidade Pública Tendencialmente Gratuita que agora é paga e bem paga.

- Pois é, as pessoas votaram nestes socialistas e agora olha... A mim, o aldrabão nunca me enganou.
- A mim enganou. Nunca pensei que fosse acontecer uma coisa destas, já viste, famílias inteiras destroçadas, não sou só eu...
Despediu-se de mim sem sequer me falar no jogo do Sporting, logo à noite em Manchester. Tá mesmo mal, pensei eu.

Quando, como se pode ler uns posts abaixo, cascamos aqui no Porco, forte e feio, no péssimo governo de burocratas e contabilistas acéfalos que nos governam, não estamos simplesmente a discutir ideias. Acontece que este governo decide primeiro e só depois repara nas consequências sociais desastrosas das suas políticas. É assim na saúde, na educação, na justiça, na segurança social, em tudo... Actualmente dou por mim irritado a discutir política. E é por isto, por casos como este. É que estas políticas selvagens ultra-liberais e anti-sociais passam-se com gente de carne e osso. Quando os rídiculos ministros do pinto de sousa enchem a boca com o «emagrecimento da função pública» e com a «flexisegurança» é disto que estamos a falar, muitas vezes - de gente de carne e osso, que não pode ser assim descartada como se fosse a peça de um aparelhómetro que já não funciona. Eu sei que tem que haver contenção e isso, mas que diabo, não vejo os políticos a cortarem nas suas mordomias nem os Belmiros, nem a Banca e afins a darem o seu contributo para vencermos a crise. Pelo contrário. O que vejo é um ataque imoral à classe média. O que vejo é o Tó Pê no olho da rua aos 50 anos, sem saber o que fazer à vida nem como é que vai pagar as próximas prestações do apartamento nem os estudos das filhas.

É por isso que, quando criaturas como o X-Jota, que até é um gajo fixe e tudo, me aparecem aqui a defender o mentiroso que nos governa, eu passo-me dos carretos. Sei que não devia e peço desde já desculpa ao X-Jota e aos gajos como ele que ainda continuam a apoiar o governo merceeiro de portugal, mas é mais forte que eu. Dá a impressão que há gente que vive em redomas de vidro e que já não contacta com os Tó Pês deste país. Por isso X-Jota não venhas ali nos comments com o habitual paleio do «lá está este gajo a jeremiar»... Eu lanço-te daqui um desafio, mene: vai lá abençoar o pinto sousa nas barbas do Tó Pê. Vais ver que ele é mais bruto, muito mais bruto, que eu...

23/11/07

O Merdalheiro, por Babalu

Série: Novas Profissões – Parte Um

O Merdalheiro. Ora aqui está uma nova profissão tão desaproveitada pela nossa juventude. Eu próprio, postador atento às novas realidades, desconhecia até há pouco as vicissitudes e esplendores de tal profissão.

Estava eu em Braga e perante Juiz Conselheiro, para em Tribunal Arbitral julgar um processo de acidente de viação, quando se me deparou um profissional do ramo. Um acidente de merda, diga-se. A minha cliente e Seguradora, era atacada porque o seu segurado conduzindo um tractor de merda, havia salpicado e provocado riscos em jeep de yuppie. Despachado o depoimento do engravatado, o Conselheiro procedeu à identificação do nosso segurado, perguntando-lhe depois pela profissão:

“ – Merdalheiro, Xôtor Juiz.
- Como, Medalheiro?
- Não Xôtor, mesmo Merdalheiro, de merda mesmo, com licença da palavra e da casa.
- À vontade, homem, aqui é a casa da verdade e não é o cheiro que nos afasta, atão diga lá…”

Concluído o julgamento, chamei o nosso segurado a parte. “ – Ó homem, Merdalheiro? – Assim é Xôtor, e não me queixo. – Mas isso rende? – Dá muito dinheirinho Xôtor, é que num há concorrência sabe, e merda para acartar é o que num falta por aí, pena é que os mes filhos doutores num queiram seguir isto.”

E por ali fiquei a saber que o Merdalheiro pega no tractor e auto-tanque e anda por aí a esvaziar as fossas de merda deste país. Ora como por essas aldeias a fora, continua a não haver redes de esgotos e as fossas enchem com frequência, é a própria GNR, Câmaras e Delegações de Saúde e do Ambiente, que obrigam quem não quer e chamam o Merdalheiro. E sem concorrência, o Merdalheiro factura o que quer. Pega na merda, mas paga-se bem.

O homem até me explicou que o gosta é de esvaziar as merdas das indústrias lá da zona e que aí factura a doer. São merdas que rendem mais. Por outro lado não gostava das merdas mais finas das casas tipo maison dos patos e novos ricos, que enfernizavam o homem com o mau cheiro e os salpicos. O homem vinga-se na factura e não limpa os salpicos. Segundo ele a merda é deles.

Certo, certo é que o homem factura bem e queixa-se da falta de ajudantes e de concorrência. Acaba por ser merda a mais para um homem só. Mas rendosa. O homem apertou-me a mão, despediu-se e enfiou-se num reluzente jeep BMW novinho em folha. Eu, apertei o comando do meu hondazito e vociferei um sonoro: “ – Profissão de Merda!”. A minha, claro!

O Porco Na Vanguarda E Pronto A Ajudar o Sócretino, por Babalu

Série: Novas Profissões

A partir de hoje o Porco vai procurar abrir novos caminhos à nossa juventude desempregada. O Sócretino não se descose com os seus 250.000 novos empregos e os poucos que abre, exigem altos estudos e rendem cada vez menos. Faltam boas e rendosas profissões, que não dependam de canudo ou cartão do partido rosa.

A malta anda perdida e abala para Badajoz a marrar nos calhamaços de medicina de nuestros hermanos e quando voltar vai ver que os SAPs fecharam todos e as urgências estão cheias de uruguayos que já navegam rio da plata acima e aqui direitinhos. Outros sobem para Vila Nova de Famalicão a doutorar-se em direito e no regresso tropeçam num calhau em Santo Tirso, de onde saltam 40 advogados e 400 candidatos a juízes. Não dá. Esqueçam os doutores. Isso é mentalidade dos vossos pais. Vão-se esfalfar a marrar, apenas para marrarem com os cornos na conta do canalizador que vos vai arrancar os olhos da cara.

O Porco preocupado, vai assim apontar novos rumos e modestamente tentar contribuir para a abertura de novos horizontes profissionais aos nossos jovenzarros. E atenção, não vamos falar de canalizadores, electricistas e talhantes. Isso são profissões velhas, relhas e concorridas. Não senhora. Aqui há inovação. E a verdade, a mais cristalina das verdades. Vamos apontar novas profissões, altamente rendosas e para as quais faltam candidatos. E profissões que não precisam de grandes estudos ou sequer de grandes treinos. Basta vontade e a quarta classe. O que se quer. Vamos a elas.

Da minha parte começarei pelo Merdalheiro, seguindo-se depois o Experimentador, o Leitoeiro, o Sarrafeiro, o Cobridor, o Fungueiro, o Boleiro e terminarei com o Ranhoso, se outras e catitas profissões não me saltarem à alembradura. Os outros Porcos de serviço podem e devem pegar nas mesmas profissões e dizerem de sua justiça. E se souberem de outras, venham elas. Vamos ajudar quem precisa.

19/11/07

Arcadas da Capela Live, por Estrela Miquelina

Na semana passada fui jantar a um restaurante fantástico e disse logo que tinha de fazer um post aqui pró Porco. O Porco já se transformou numa espécie de Forte Knox das experiências dos que nele escrevem e eu não podia deixar passar esta em claro. Fui jantar ao Arcadas da Capela, o fabuloso restaurante da Quinta das Lágrimas em Coimbra. Foi soberbo!

O Arcadas é o único restaurante a sul do Tejo que possui, actualmente, uma estrela Michelin. Não há mais nenhum de Lisboa para norte que a mereça, segundo os eminentes críticos da mais prestigiada instituição crítica de gastronomia do mundo. Para quem não faz a mais pequena ideia do que representa uma estrela Michelin ou pensa que a Michelin é, simplesmente, uma marca de pneus digo-vos só que, aqui há uns anos atrás, houve um chef de cuisine parisiense que se suicidou porque o seu restaurante perdeu uma estrelita! Matou-se, pum, pum! Este esclarecimento sobre o significado das estrelas Michelin é muito importante porque ainda há pouco li na imprensa portuguesa uma referência às suas famosas estrelas «miquelinas». Adiante.

Demorei uma semana para fazer este post por uma razão muito simples: é que não consegui decorar o nome das muitas iguarias que experimentei. Lembro-me dos sabores, guardei muitos deles num canto qualquer da minha memória. Como fui ao menu degustação, não veio lista e os pratos eram simplesmente anunciados pelos garções. Os nomes dos pratos, compreensivelmente, não há cabeça que os decore, aquilo é mais complicado que um livro de Martin Heidegger… Até que neste fim de semana tive a oportunidade de encontrar o responsável pelo Arcadas a quem pedi a lista do menu degustação que tive o privilégio de experimentar. Assim de memória ele deu-me a lista que eu escrevi num bilhete de comboio. Tenho aqui e, com algumas falhas (porque nem ele se lembra de tudo nem eu percebo bem a minha letra escrita no maldito bilhete), aqui vai a lista. Roam-se de inveja, carago!

Começámos com uma flute de Champagne Pommery ao que se seguiu um amuse bouche. O amuse bouche é a expressão francesa que designa a preparação das pupilas gustativas para o que se segue. Como o amuse bouche é muito variado, dependendo da criatividade de momento do chefe de cozinha, o meu informador não me soube dizer o que é que provámos ao certo à uma semana atrás. Lembro-me que na altura fiquei a olhar para aquilo porque não me havia talheres, mas a Joaninha que me acompanhou e sabe destas coisas explicou que a terrina em que a coisa estava servida era uma espécie de colher. Aquilo bebia-se. Foi o que fiz e era bem bom.

Veio a seguir um vinho que serviu como aperitivo, uma colheita tardia, Casal Figueira, devidamente adocicado mas sem excessos. A coisa prometia, o escanção era comunicativo e puxava por nós. Veio primeiro prato.

Primeiro prato - terrina de foie gras com pistachios e alperces e vinagreta de maracujá. Tudo acompanhado por um vinho branco de cujo nome nem eu nem o meu informador nos lembramos.

Segundo prato – Creme de cebola gratinada com tostas de queijo. Trata-se de um sabor muito forte e o vinho que se lhe seguiu foi uma verdadeira obra-prima: um Quinta dos Roques de uma secura extrema que combinou, por contraste, com o sabor personalizado do creme de cebola. Foi um dos momentos altos da noite e por aqui se vê como é de todo impossível que um jantar destes seja acompanhado só de água ou de arrghh!, coca cola e quejandos. Um miserável abstémio que aqui se fique pela sua fanta de laranja, pura e simplesmente, não pode perceber a combinação, a subtileza ou o contraste puro e duro de sabores. Eu acho que deviam proibir os abstémios de entrarem em sítios destes. Por mais dinheiro que tenham, não dá, é ridículo, é como ir ver um concerto do Caetano Veloso com um ouvido tapado, prontos. Os abstémios são os para-olímpicos da gastronomia!

Terceiro prato- não me lembro o que era, mas sei que era com tinta de chocos, vieiras e já não me lembro do resto… Aqui veio outro vinho excelente, um belíssimo branco. O escanção lançou-nos o desafio de o servir sem nos dizer o que era. Claro que ninguém foi capaz de o identificar, mas era excelente: um Luís Pato Vinha Formal. Entretanto aquilo que me parecia ser uma multidão de empregados de trato impecável, mas eram apenas dois ou três bons e atentos profissionais, mudava de copos de cada vez que era servido um novo vinho. E de pratos e de talheres também, claro.

Quarto prato – seguiu-se camarão, lavagante e pregado com molho de vinho moscatel, gengibre e pimenta nova. Um mimo!

A seguir veio um sorvete de limão com a função de preparar a transição para o prato de carne que foi:

Quinto prato – Lombo de porco preto, foie gras e molho de trufa preta. Tive, enfim, a oportunidade de provar a mítica trufa, essa espécie de cogumelo subterrâneo ou lá o que é que os franceses pagam como se fosse caviar e que, reza a lenda, encontram usando porcos para darem com elas pelo cheiro (actualmente parece que são cães devidamente treinados a fazerem de suínos). E perguntam vocês, que tal a trufa? Pois, aqui devo dizer que não fiquei com memória nenhuma da especialidade. Como a trufa é estupidamente cara só tivemos direito a uma lasca (literalmente). Entretanto foi servido o único tinto da noite, um Jota do enólogo Jorge Moreira de taninos apurados, as tradicionais notas de frutos vermelhos e uma intensidade memorável. Um vinho que só por si já fazia a noite e nos fez reflectir de novo acerca da deficiência que é ser-se abstémio e não se poder apreciar devidamente obras primas como estas.

6º prato- chegámos aos queijos o que, para mim, é sempre um momento altíssimo de qualquer refeição. A tábua dos respectivos era simplesmente divinal. Foram trazidos por uma menina muito apresentável que os anunciou como quem anuncia a entrada de diplomatas. Dos mais fracos para os mais fortes, estava lá do melhor: Niza, serra da estrela, da ilha de s. Jorge (mas não tinha nada a ver com os que eu compro no Belmiro), de Castelo Branco, os camembert, bries, roqueforts (Societé e tudo!), Gorgonzola e Shilton, entre outros. Os meus companheiros de luta escolheram três ou quatro e eu fui a quase todos e só não fui a todos porque a jornada já tinha puxado muito por mim. Moderação? Não. Tudo em excesso, a moderação é prós monges!

7º prato – Sobremesas: leite creme queimado e aromatizado mais gelado de café e telha de sementes de sésamo e papoila para os cavalheiros (quem nós?) e soufflé de chocolate com pêssego gratinado e gelado de amêndoa amarga para as senhoras. E no fim ainda vieram uns brigadeiros sensacionais. Confesso que não sou grande adepto de sobremesas mas gostei mais do soufflé de chocolate das ladies. A acompanhar um Porto Vintage de 98, mas já não me lembro de onde. E no fim de tudo isto, rejeitámos os digestivos e optámos por um excelente chá verde com aroma de menta de cuja marca não me recordo, mas que era bom, era.

O jantar começou a ser servido por volta das 20 30. Era 23 40 quando nos levantámos da mesa. Estivemos num ambiente de excepção e fomos tratados principescamente por profissionais irrepreensíveis. Não registei uma única falha no serviço, nem uma única. Acho que nem o nosso Grão conseguiria embirrar com aquela malta. No fim pensei que naquela noite não teve lugar um simples jantar: foi como ir ver um concerto, um bailado, uma exposição. Foi mais uma experiência estética dirigida ao palato, criada e organizada por verdadeiros artistas. Fiquei a pensar que os artistas deviam ter vindo ao palco fazer as vénias do costume no fim das suas actuações. Se o tivessem feito, garanto-vos que me levantava do meu cantinho perfeito e aplaudia-os como aplaudiria o Ryuchi Sakamoto, o Lou Reed ou os Samshing Pumpkins. E quando me lembro que já paguei mais de 100 euros para ver os Stones em Alvalade, fico a pensar que o «concerto gastronómico» do Arcadas da Capela até foi barato…

14/11/07

Selen, Wham Bam, Thank You Mam!, por Lili


A pedido de várias famílias e depois de longas divagações pela Golden Age, é tempo de regressar à actualidade e sair das Américas, metendo a mão na massa das estrelas europeias. E aí, é incontornável o nome da super estrela italiana: Selen.

A miúda, filha de famílias abastadas entrou no mundo do porno italiano e fez sucesso imediato com o seu ar desamparado e ausente, a par de um corpo de matrona bem fornecida. De seu nome Luce Caponegro, Selen de nome artístico, nasceu em Roma em 1966, filha de um rico industrial italiano do petróleo.

Aos 18 anos saiu de casa e meteu-se numa comuna de hippies onde acampou sem água corrente durante dois anos. Aos 20 largou o “make love not war” e entrou no porno power abraçando o “make love and get paid for it” com o apoio do primeiro marido. Os pais que estavam arrepiados com o hippismo, enxofraram-se de vez com as cavalgadas em pelo e renegaram a filha. E trataram de mudar de cidade e de amigos. Hoje sabe-se que poisaram em Ravenna. Mas a Selen não desanimou. Perdeu a família, mas ganhou uma legião de fans em todo o mundo.

Aos 27 anos, com o filme “Signori Scandalose Di Provincia”, um filme de alto orçamento, Selen, alcançou o estrelato e o título de “Italy's favourite pornstar”. De 1993 a 1998, Selen arrebatou todos os prémios da indústria e arrecadou 17 troféus nos festivais de Turim e Cannes. Em 1998, fez o incomparável Millenium e retirou-se da cena, porque segundo as suas palavras: “não estava a gostar assim tanto da profissão para continuar”. Sim porque esta pôrra, também cansa!

Selen, nunca desceu à falta de nível dos filmes de encher e optou por fazer poucos filmes – cerca de 40 -, e exigir sempre contracenar em filmes com argumento e história. E quando atingiu os píncaros da glória, passou a exigir também as grandes produções. Mais ainda, além se preocupar por uma história bem contada, os filmes de Selen revelam uma clara preocupação de representar a coisa para além do mero acto sexual. Filmes há, em que claramente o que conta, é o argumento e o acto sexual é apenas a continuação do mesmo. Obviamente que não estamos ao nível sequer de qualquer de série B de Hollywood, mas que há essa preocupação e que ela resulta, isso há. Dirão alguns que isto não se deve tanto à Selen, mas antes de mais aos seus realizadores fetiche como Mário Salieri ou Luca Damiano. Contudo, pelas mãos destes monstros sagrados também passou a Moana Pozzi que encheu o chouriço em centenas de filmes e o Rocco Siffredi, que pulverizou os 40 filmes da Selen com uns valentes 1600 filmes sem qualquer fio condutor que não fosse a enxofradela. Selen foi selectiva como ninguém e quis marcar a diferença.

E essa diferença passa por filmes temáticos e exóticos realizados com meios quase hollywoodescos, que passavam até pelas filmagens massivas “in location”. Falamos do “Selvaghia”, do “Sahara” e do “Selen Regina Degli Elefanti”, este último filmado filmado nas selvas e savanas do Kenya, sendo o “Sahara” filmado nas areias escaldantes já escolhidas por George Lucas. Nestas produções de luxo e meios formidáveis, Selen evoluiu nas areias e oásis, com camelos e tamareiras em pano de fundo, dando satisfação aos beduínos barbudos que lhe apareciam pela frente. E subjugou a savana e a selva africana com o estertor de cenas porno, mailos elefantes, leões e búfalos a jiboiar ao lado. E como deixar de dar aqui uma palavra de apreço pelo soberbo “Sceneggiata Napoletana” com a máfia italiana ao naturel e uma Selen mamã de bebé e biberon, chantageada por um soprano que vai até ao fim. A máfia como nunca viram e deviam ver! Qual Sopranos, qual Padrinhos qual carapuça! Coppola, vê e chora! Aprende homem!

E como deixar ainda de falar da excelente reconstituição do “Drácula” ou das divagações filosóficas de “Eros e Tanatos”. Selen foi uma autêntica intelectual do porno.

Com 40 filmes escolhidos a dedo, dois filhos para criar e dois maridos que sempre a apoiaram, Selen impôs-se no porno e a partir de um controle cerrado do “com quem” e do “como” é que se deitava, construiu um mito iconográfico que lhe rende rios de dinheiro.

Rica e no auge da fama largou tudo e retirou-se da cena em 1998. Apesar de todos os apelos dos clubes de fan da net e do mundo porno, Selen resiste ainda ao regresso. Não precisa. Selen em Itália é uma indústria só por si. Faz programas de rádio, apresenta um programa de televisão e os jornais e revistas atropelam-se para as entrevistas e fotos de reportagem como modelo. Selen não actua já, mas vende como nunca. Patrocinou o vídeo jogo Sex Files. Faz publicidade, teatro e participa em filmes de cinema de primeira linha. Ultimamente dedica-se também a uma intensiva campanha pública de luta contra a Anorexia. Uma Senhora. Distinta. Wham Bam, Thank You Mam!

12/11/07

E-Tê, por Tó-Zé

- Desculpe mas não pode entrar - repetiu o porteiro do alto do seu uniforme impecável. Não vale a pena argumentar. As instruções são claras.

Dei-me por vencido. Irritado, apertei os botões do meu sobretudo roxo e ajeitei a gravata de pele de crocodilo. Voltei a enfiar o sombrero na cabeça rapada, calcei a luva branca na respectiva mão direita e enrosquei a garra de aço na esquerda. Apaguei o cachimbo de água e pus-me a andar dali pra fora a toda a velocidade permitida pelo meu skate. Bati a porta do guichet da 5ª Reparticção com toda a força e olhei, uma última vez, para o letreiro que lá continuava pendurado, secamente:
«Proibida a entrada a pessoas estranhas».
Detesto funcionários picuinhas!

10/11/07

Escola, pelo Abaixo-Assinado

Tropecei há uns dias na net nesta carta aberta admirável de um professor ao Presidente de República. Pela sua pertinência e desassombro, tomei a liberdade de pedir autorização ao autor para a publicar aqui, ao que o próprio simpaticamente acedeu. Porque vale a pena multiplicar este debate:

Ílhavo, 22 de Outubro de 2007

Senhor Presidente da República Portuguesa
Excelência:


Disse V. Excia, no discurso do passado dia 5 de Outubro, que os professores precisavam de ser dignificados e eu ouso acrescentar: “Talvez V. Excia não saiba bem quanto!”


1. Sou professor há mais de trinta e seis anos e no ano passado tive o primeiro contacto com a maior mentira e o maior engano (não lhe chamo fraude porque talvez lhe falte a “má-fé”) do ensino em Portugal que dá pelo nome de Cursos de Educação e Formação (CEF).
A mentira começa logo no facto de dois anos nestes cursos darem equivalência ao 9º ano, isto é, aldrabando a Matemática, dois é igual a três!
Um aluno pode faltar dez, vinte, trinta vezes a uma ou a várias disciplinas (mesmo estando na escola) mas, com aulas de remediação, de recuperação ou de compensação (chamem-lhe o que quiserem mas serão sempre sucedâneos de aulas e nunca aulas verdadeiras como as outras) fica sem faltas. Pode ter cinco, dez ou quinze faltas disciplinares, pode inclusive ter sido suspenso que no fim do ano fica sem faltas, fica puro e imaculado como se nascesse nesse momento.
Qual é a mensagem que o aluno retira deste procedimento? Que pode fazer tudo o que lhe apetecer que no final da ano desce sobre ele uma luz divina que o purifica ao contrário do que na vida acontece. Como se vê claramente não pode haver melhor incentivo à irresponsabilidade do que este.


2. Actualmente sinto vergonha de ser professor porque muitos alunos podem este ano encontrar-me na rua e dizerem: ”Lá vai o palerma que se fartou de me dizer para me portar bem, que me dizia que podia reprovar por faltas e, afinal, não me aconteceu nada disso. Grande estúpido!”


3. É muito fácil falar de alunos problemáticos a partir dos gabinetes mas a distância que vai deles até às salas de aula é abissal. E é-o porque quando os responsáveis aparecem numa escola levam atrás de si (ou à sua frente, tanto faz) um magote de televisões e de jornais que se atropelam uns aos outros. Deviam era aparecer nas escolas sem avisar, sem jornalistas, trazer o seu carro particular e não terem lugar para estacionar como acontece na minha escola.
Quando aparecem fazem-no com crianças escolhidas e pagas por uma empresa de casting para ficarem bonitos (as crianças e os governantes) na televisão.
Os nossos alunos não são recrutados dessa maneira, não são louros, não têm caracóis no cabelo nem vestem roupa de marca.
Os nossos alunos entram na sala de aula aos berros e aos encontrões, trazem vestidas camisolas interiores cavadas, cheiram a suor e a outras coisas e têm os dentes em mísero estado.
Os nossos alunos estão em estado bruto, estão tal e qual a Natureza os fez, cresceram como silvas que nunca viram uma tesoura de poda. Apesar de terem 15/16 anos parece que nunca conviveram com gente civilizada.
Não fazem distinção entre o recreio e o interior da sala de aula onde entram de boné na cabeça, headphones nos ouvidos continuando as conversas que traziam do recreio.
Os nossos alunos entram na sala, sentam-se na cadeira, abrem as pernas, deixam-se escorregar pela cadeira abaixo e não trazem nem esferográfica nem uma folha de papel onde possam escrever seja o que for.
Quando lhes digo para se sentarem direitos, para se desencostarem da parede, para não se virarem para trás olham-me de soslaio como que a dizer “Olha-me este!” e passados alguns segundos estão com as mesmas atitudes.


4. Eu não quero alunos perfeitos. Eu quero apenas alunos normais!!!
Alunos que ao serem repreendidos não contradigam o que eu disse e que ao serem novamente chamados à razão não voltem a responder querendo ter a última palavra desafiando a minha autoridade, não me respeitando nem como pessoa mais velha nem como professor. Se nunca tive de aturar faltas de educação aos meus filhos por que é que hei-de aturar faltas de educação aos filhos dos outros? O Estado paga-me para ensinar os alunos, para os educar e ajudar a crescer; não me paga para os aturar! Quem vai conseguir dar aulas a alunos destes até aos 65 anos de idade?
Actualmente só vai para professor quem não está no seu juízo perfeito mas se o estiver, em cinco anos (ou cinco meses bastarão?…) os alunos se encarregarão de lhe arruinar completamente a sanidade mental.
Eu quero alunos que não falem todos ao mesmo tempo sobre coisas que não têm nada a ver com as aulas e quando peço a um que se cale ele não me responda: “Por que é que me mandou calar a mim? Não vê os outros também a falar?”
Eu quero alunos que não façam comentários despropositados de modo a que os outros se riam e respondam ao que eles disseram ateando o rastilho da balbúrdia em que ninguém se entende.
Eu quero alunos que não me obriguem a repetir em todas as aulas “Entram, sentam-se e calam-se!”
Eu quero alunos que não usem artes de ventríloquo para assobiar, cantar, grunhir, mugir, roncar e emitir outros sons. É claro que se eu não quisesse dar mais aula bastaria perguntar quem tinha sido e não sairia mais dali pois ninguém assumiria a responsabilidade.
Eu quero alunos que não desconheçam a existência de expressões como “obrigado”, “por favor” e “desculpe” e que as usem sempre que o seu emprego se justifique.
Eu quero alunos que ao serem chamados a participar na aula não me olhem com enfado dizendo interiormente “Mas o que é que este quer agora?” e demorem uma eternidade a disponibilizar-se para a tarefa como se me estivessem a fazer um grande favor. Que fique bem claro que os alunos não me fazem favor nenhum em estarem na aula e a portarem-se bem.
Eu quero alunos que não estejam constantemente a receber e a enviar mensagens por telemóvel e a recusarem-se a entregar-mo quando lho peço para terminar esse contacto com o exterior pois esse aluno “não está na sala”, está com a cabeça em outros mundos.
Eu sou um trabalhador como outro qualquer e como tal exijo condições de trabalho! Ora, como é que eu posso construir uma frase coerente, como é que eu posso escolher as palavras certas para ser claro e convincente se vejo um aluno a balouçar-se na cadeira, outro virado para trás a rir-se, outro a mexer no telemóvel e outro com a cabeça pousada na mesa a querer dormir?
Quando as aulas são apoiadas por fichas de trabalho gostaria que os alunos, ao sair da sala, não as amarrotassem e deitassem no cesto do lixo mesmo à minha frente ou não as deixassem “esquecidas” em cima da mesa.
Nos últimos cinco minutos de uma aula disse aos alunos que se aproximassem da secretária pois iria fazer uma experiência ilustrando o que tinha sido explicado e eles puseram os bonés na cabeça, as mochilas às costas e encaminharam-se todos em grande conversa para a porta da sala à espera que tocasse. Disse-lhes: “Meus meninos, a aula ainda não acabou! Cheguem-se aqui para verem a experiência!” mas nenhum deles se moveu um milímetro!!!
Como é possível, com alunos destes, criar a empatia necessária para uma aula bem sucedida?
É por estas e por outras que eu NÃO ADMITO A NINGUÉM, RIGOROSAMENTE A NINGUÉM, que ouse pensar, insinuar ou dizer que se os meus alunos não aprendem a culpa é minha!!!


5. No ano passado tive uma turma do 10º ano dum curso profissional em que um aluno, para resolver um problema no quadro, tinha de multiplicar 0,5 por 2 e este virou-se para os colegas a perguntar quem tinha uma máquina de calcular!!! No mesmo dia e na mesma turma outro aluno também pediu uma máquina de calcular para dividir 25,6 por 1.
Estes alunos podem não saber efectuar estas operações sem máquina e talvez tenham esse direito. O que não se pode é dizer que são alunos de uma turma do 10º ano!!!
Com este tipo de qualificação dada aos alunos não me admira que, daqui a dois ou três anos, estejamos à frente de todos os países europeus e do resto do mundo. Talvez estejamos só que os alunos continuarão a ser brutos, burros, ignorantes e desqualificados mas com um diploma!!!


6. São estes os alunos que, ao regressarem à escola, tanto orgulho dão ao Governo. Só que ninguém diz que os Cursos de Educação e Formação são enormes ecopontos (não sejamos hipócritas nem tenhamos medo das palavras) onde desaguam os alunos das mais diversas proveniências e com histórias de vida escolar e familiar de arrepiar desde várias repetências e inúmeras faltas disciplinares até famílias irresponsáveis.
Para os que têm traumas, doenças, carências, limitações e dificuldades várias há médicos, psicólogos, assistentes sociais e outros técnicos, em quantidade suficiente, para os ajudar e complementar o trabalho dos professores?
Há alunos que têm o sublime descaramento de dizer que não andam na escola para estudar mas para “tirar o 9º ano”.
Outros há que, simplesmente, não sabem o que andam a fazer na escola…
E, por último, existem os que se passeiam na escola só para boicotar as aulas e para infernizar a vida aos professores. Quem é que consegue ensinar seja o que for a alunos destes? E por que é que eu tenho de os aturar numa sala de aula durante períodos de noventa e de quarenta e cinco minutos por semana durante um ano lectivo? A troco de quê? Da gratidão da sociedade e do reconhecimento e do apreço do Ministério não é, de certeza absoluta!


7. Eu desafio seja quem for do Ministério da Educação (ou de outra área da sociedade) a enfrentar ( o verbo é mesmo esse, “enfrentar”, já que de uma luta se trata…), durante uma semana apenas, uma turma destas sozinho, sem jornalistas nem guarda-costas, e cumprir um horário de professor tentando ensinar um assunto qualquer de uma unidade didáctica do programa escolar.
Eu quero saber se ao fim dessa semana esse ilustre voluntário ainda estará com vontade de continuar. E não me digam que isto é demagogia porque demagogia é falar das coisas sem as conhecer e a realidade escolar está numa sala de aula com alunos de carne, osso e odores e não num gabinete onde esses alunos são números num mapa de estatística e eu sei perfeitamente que o que o Governo quer são números para esse mapa, quer os alunos saibam estar sentados numa cadeira ou não (saber ler e explicar o que leram seria pedir demasiado pois esse conhecimento justificaria equivalência, não ao 9º ano, mas a um bacharelato…).
É preciso que o Ministério diga aos alunos que a aprendizagem exige esforço, que aprender custa, que aprender “dói”! É preciso dizer aos alunos que não basta andar na escola de telemóvel na mão para memorizar conhecimentos, aprender técnicas e adoptar posturas e comportamentos socialmente correctos.


Se V.Excia achar que eu sou pessimista e que estou a perder a sensibilidade por estar em contacto diário com este tipo de jovens pergunte a opinião de outros professores, indague junto das escolas, mande alguém saber. Mas tenha cuidado porque estes cursos são uma mentira…


Permita-me discordar de V. Excia mas dizer que os professores têm de ser dignificados é pouco, muito pouco mesmo…


Atenciosamente

Domingos Freire Cardoso
Professor de Ciências Físico-Químicas
Rua José António Vidal, nº ***
3830 - 203 ÍLHAVO
Tel. 234 *** *** / 93 *** 11 **
E-mail: dfcardos@gmail.com

08/11/07

Desamparem-me, por X Gajo

Não tenho partido, não tenho ideologia, não tenho religião, não tenho clube. Pensando bem nem tenho pátria. Tenho afectos, tenho ideias e outras coisas, mas daquelas coisas não tenho. Também tenho poucas ilusões, sobretudo em relação aos partidos e aos políticos que temos e às elites que temos em geral. São o nosso espelho e mesmo que isso não console, são nosso merecimento, porque eles somos nós.
Sobre este Sócrates não penso muito nem dele espero muito, é só mais um igual a tantos outros dos que nos têm governado há quase mil anos. Sobretudo igual a tantos outros do bloco central que se apropriou do estado e que nos desgoverna há trinta anos. E que nos últimos quinze tem feito empenhada questão de nos devolver ao nosso justo lugar e à nossa missão histórica de cauda da Europa. Com a ajuda esforçada do nobre povo e das lideranças empresariais e outras áis que tais e o abençoado beneplácito da Virgem Padroeira.
Com efeito, a nossa condição nacional de carro-vassoura europeu só foi interrompida no século XVI por breves instantes, mas rapidamente regressámos ao nosso amado atraso fadista. Esta coisa da CEE, a acabar o século XX, trouxe de volta o fantasma do progresso e um arremedo de evolução. Vade retro! Naturalmente, também foi sol de pouca dura e já reconquistámos à Grécia e à Irlanda a gloriosa vassoura. E o facto é que temos tido sempre líderes à altura dessa gloriosa tarefa de proteger a retaguarda da Europa.
O contacto muito próximo que por razões de profissão tive com a classe política e partidária portuguesa serviu essencialmente para cimentar esta noção, da mediocridade geral consonante com a mediocridade mais geral dos portugueses em geral. A mediocridade suficiente para cumprirmos, enfim, aquela missão patriótica.
E é assim com revolta, mas rendido à evidência histórica, que sinto na pele e ao meu redor a degradação social e económica do país onde me calhou em sortes nascer e viver. Não acredito neste Governo como nunca acreditei em nenhum desde que me lembre. Também não é de admirar porque não acredito por norma em quase nada sendo que isso não interessa para nada.
Serve este discurso basicamente para deixarem de me aborrecer aqui no tapor com os pêésses e os sócrates. Não sei, não tenho nada a ver com esse assunto, não faço ideia e nem quero saber. Gosto tão pouco dos pêésses e dos Sócrates e dos coelhónes como gosto pouco dos Menezes e dos Jardins e dos outros pêéssedês. Vai tudo dar ao mesmo: “Ó Portugal, Portugal, o que é que tu estás à espera?!...” lálálá. Gostar gosto, por exemplo, do Barreto, gosto do Valente, gosto do Pacheco, gosto do Benard e gosto de alguns outros indígenas de topo, poucos. Depois gosto da minha mulher, do meu filho e de empadões e pastéis de nata. E nas eleições voto sempre caso a caso, a mor das vezes em branco. Por isso desamparem-me a loja. Xô. Foda-se.

Igreja da Geografia

Eu também conheço quem faça esta gracinha. É um bocadito mais velho, um bocadito maior e está um bocadito mais adiantado. Mas começou assim:

07/11/07

Cinema, por Frederico Felino

10 negros foram ao cinema, compraram 10 rebuçados de menta e mandaram-nos uns aos outros. Pergunta-se: como é que se chama o filme que eles foram ver?
Resposta no comments.

04/11/07

Provavelmente, o Pior Jogador do Mundo!, por Camacho Vidal

Já faz quase uma semana que o Benfica defrontou o Setúbal numa competição chamada Taça da Liga que não interessa ao menino Jesus. A derrota do Glorioso é irrelevante. Mas o jogo foi chocante para qualquer Benfiquista por uma razão: ele deu-nos a conhecer, provavelmente, o pior jogador que alguma vez envergou aquela camisola, Miguelito, de seu nome!

O Miguelito é tão mau, tão mau que o responsável pela sua contratação lhe devia pagar o salário que aufere todos os meses. A mesma alimária que o foi buscar devia ainda ser processado por gestão ruinosa. Miguelito é magro, franzinito, cai mal o vento sopra mais forte, não tem técncica... Não se alimenta? Não lhe dão almoço no Benfica? O Miguelito não faz a mais pequena ideia de uma coisa tão simples como passar uma bola jogável a um colega - durante o jogo com o Setúbal contei dois passes a três metros que ele conseguiu acertar. Em 90 minutos!!! Os outros foram todos pra fora ou pró inimigo. Um horror! E durante todo o jogo obrigou o Bynia (bom jogador!) e o pobre do Zoro a dobrá-lo constantemente. Não é fácil jogar na mesma equipa do Miguelito. Ele é como aquele miúdo dos nossos tempos de infância que ninguém queria ter na própria equipa mas sempre na dos adversários. Pudesse o Camacho gritar lá pa dentro «Ó Miguelito, és deles» como nós fazíamos em miúdos e outro galo cantaria.

Eu já tinha visto jogadores no Benfica que eram verdadeiras abencerragens. Como os ingleses do Souness, o Thomas, o Harkness e o Pembridge. Vi as equipas inenarráveis do Artur Jorge com os seus Kings, Nelos e Tavares. Até já vi no Glorioso defesas centrais como o Paulo Madeira... Mas como este Miguelito é que nunca se vira. Eu sei como isto tudo começou: foi quando alguém no Benfica se lembrou de comprar jogadores com nomes acabados em ito(s). Primeiro foram buscar um carlitos ao Gil Vicente que nunca deu nada. E, não contentes, mandaram vir outro carlitos do Estoril que depressa emigrou para a Suiça para descanso de todos nós. Pensei que a lição estava aprendida: nome de jogador de futebol que se preze ou acaba em inho (como Robinho, Ronaldinho e Cicinho) ou acaba em ão (como Luisão, Fernandão ou Carlão). Ou era Miguelão ou era Miguelinho. Agora Miguelito...

03/11/07

O Tó tem 308 Pais – por Cão

Vivi anos a fio numa cidade tão fraquinha, que os vereadores locais eram apanhados a lamber placas de trânsito para compensar com ferro a anemia das mentalidades. Era em Portugal, algures. Tirei entretanto a terriola da cabeça, como se faz a um desamor ou a uma lêndea. Hoje, recordei-a porque sim. Devo estar com saudades do ridículo.
O presidente da Câmara era um energúmeno que sujeitava a língua portuguesa a sevícias homólogas às dos curdos no norte do Iraque. Cheguei a sonhar com ele, desejando-o curdo-mudo. Sorte nenhuma, claro: o fulano ainda lá está e manda e pode. Multiplica rotundas por vingança da rotunda asneira que foi elegê-lo. Baptiza bairros da lata com o nome do neto, que é igual ao do avô. Mastiga em voz alta nas tasquinhas, demonstrando à saciedade e à sociedade que quem vê cáries, vê corações. Nas assembleias municipais, é dado a flatulências a que todos, por bondade, chamam discursos. Nos jantares rotários, passa a sopa a dizer mal dos Lyons e depois vice-verseja muito corado e muito contente e muito nutrido e muito redondo – como um bácoro.
A mulher dele, com desgosto dele, passa a vida a arrefecer nas igrejas – em desagravo, não do Coração de Maria, mas do nosso. É uma esposa entristecida: tantos sucessivos mandatos de pública vergonha enxugaram-lhe os fiambres feminis e escureceram-lhe as retinas, arabizando-a para sempre.
O filho é sempre António Francisco: chamam-lhe Tó Chico Dependente, porque, como toda a gente, depende do pai. Fuma tabletes de chocolate marroquino em estações de serviço néonizadas pela dormência pós-moderna do insucesso escolar.
Como as minhas ex-mulheres trabalham todas na autarquia, vejo-me obrigado a cronicar mal dele longe, lá para o Ribatejo, onde, ao menos, me deixam exercer a esperteza saloia de, dizendo mal dum autarca, me arriscar a acertar em cheio nos outros 307 deste País sem vergonha nem remédio.

02/11/07

Aconteceu um aconteceu, por Este Já Não Volta A Acontecer

Só gostaria de pedir o tapor emprestado por alguns instantes, para servir de câmara ardente. Gostaria de fazer aqui o funeral e o enterro do meu blog palavrar, que acaba de finar. O tapor fica assim como que o cemitério do meu primeiro blog.

Podem ver este post assim como se fosse um memorial ao blog desaparecido. Literalmente, já que daquela escrita toda momentosa pouco mais restará do que esta referência neste post, que daqui a uns meses já ninguém lê. Saionara.

Se os blogs fossem livros, este livro já não tinha mais nada para dizer. E pronto, acabou. E assim aconteceu um happening digital intitulado palavrar que começou há 571 posts atrás em 29 de Maio de 2003 e acabou a 2 de Novembro de 2007. A poeira mortal, perdão, digital, fica lá guardada num jarro dentro do meu computador.

31/10/07

O Mentiroso, por DervicheRodopiante

O inginheiro Pinto de Sousa ficou muito ofendido com as mais recentes manifestações dos comunistas e além de lhes chamar comunistas, manifestou-se por sua vez muito desagradado por tais manifs o ofenderem pessoalmente. Diz o homem que ofenderam na sua honra e dignidade, nomeadamente por repetidamente lhe chamarem Mentiroso.

E eu, pasmo. Mentiroso? E daí? Não o é? Estranho. Mas de repente fez-se luz. Atão se o homem num trabalho de formatura e de meia página de Inglês Técnico dá 19 erros, natural é, que se lhe escape também algum português.

E atento às necessidades educativas deste país, eu passo a explicar a coisa ao Sr Pinto de Sousa, assim que a modos e jeito de carta aberta:

- Ó Pinto, isto é assim, quando tu foste eleito prometendo que jamais aumentarias os impostos e depois de eleito não aumentaste nem um, nem dois, nem três mas todos e brutalmente de uma vez, a isso chama-se ser mentiroso;

e quando te justificaste dizendo que o partido anterior te deixou um défice de mais de 8%, que afinal depois se vem a ver que era de menos de metade, isso também é ser mentiroso,

mas mais, quando tu prometeste fazer um referendo ao tratado constitucional e agora achas que não é necessário e não fazes, isso é mentir. É de mentiroso portantos! Digo eu e diz o dicionário,

e quando prometeste criar 250.000 empregos e afinal a taxa de desemprego rompe com todos os recordes, a isso também se chama mentir!

Eu sei que dói, mas vais ver meu caro Pinto que é mais fácil assumir do que passar a vida a negar a evidência. Meu caro Mentiroso, Assume-te! Sai do armário.

30/10/07

O Fim, por Lélé da Cuca

Acabara-se tudo! Tornara-se impossível suportar aquela mancha negra como a noite mesmo no centro. Além disso amarelecera com o tempo, estava cada vez menos nítida e eu desesperava sem perceber o que ela dizia. Estava farto, farto! Nada é eterno, pensei resignado, mas convicto da decisão que acabara de tomar...
- E qual é o modo de execução que prefere? - o empregado da papelaria interompeu-me os pensamentos. De momento temos um óptimo serviço de forca, mas se desejar o fuzilamento há agora a promoção de Outono e sempre poderá poupar nos custos. E, bem vê, se optar pela guilhotina, claro, sempre é uma coisa com tradição, com salero, enfim com nobreza...
- Pode ser o enforcamento. Posso pagar com multibanco? - respondi secamente.
Ao sair olhei uma última vez para o letreiro pendurado na porta porta da papelaria Marciano que dizia:
«Executam-se fotocópias».
Esta, pensei, já não volta a chatear mais ninguém.

25/10/07

Lá Vamos Perder Mais Um Bom Assador De Leitões E Ganhar Mais Um Manhoso Inginheiro-Doutor, por Birgolino


O inefável Walter Lemos, qual guru supremos destas coisas, veio hoje anunciar que não tem sentido chumbar alunos por faltas e como tal os minino deixam de chumbar por faltas. Segundo ele, guru, há integrar e não que excluir.

O aluno que chumbe por faltas, digo, que atinja um certo limite de faltas, uma vez que já não chumba, passa a ser obrigado a fazer uma prova de recuperação. Assim o sistema escolar a passa a ser inclusivo e a não meter os minino na rua, na droga, no assalto e no parque Eduardo bibi.

A malta que já não conseguia chumbar por não saber, deixa agora de poder chumbar por faltar. O último reduto pelo qual o sistema ainda poderia ter alguma exigência e controle sobre os jovemzarros selváticos deixou de existir. Porque a escola foi eleita como salvadora da pátria.

Ranking, por Cão

Uma "boa escola"? Uma "boa escola"?
Só quando importarmos (como fazemos a tudo o resto) o modelo Americano.
Quantos mortos em quantos atentados?
Sabes, aquela cena dos putos adolescentes que compram armas pela net à National Rifle Association porque não entraram no 5 do basquetebol ou do baseball, tázaver, e a gaja mais peituda, a cheerleader, curtiu com outro gajo igual a eles mas não com eles no Prom, que é o baile da iniciação, tázaver, adultos e assim, depois US Army e bora a matar por oil, tázaver, for christ's sake.
isso é que era um ranking.
mas já estou a ver a lusa pobreza de resultados:

14 coxos na Avelar Brotero.
duas janelas partidas no S. Pedro.
no S. Teotónio, um preto da guiné com uma colher de café.
no Rainha Santa, dois hambúrgueres e uma fanta.

etc.

digo isto porque ando chateado de há tempo não me chegar da América, tirando os incêndiozitos de agora na califórnia do schwarzenneger, um furacão à maneira, um tiroteio de liceu, sei lá, um náinilévânezito p'ra entreter.
rankings das escolas portuguesas?
valha-te deus, méne.

(adaptado de um comment do próprio Dog)

24/10/07

O Mistério Dos Bons Docentes Que Só Há No Dona Maria, por Hérculeo Coirot


As notícias de rádio de hoje de manhã, abriram com a publicação do Ranking das escolas do país. E pela enésima vez lá vinha a escola secundária Dona Maria de Coimbra entre as melhores. Segundo parece, neste ano o velhinho Dona Maria é até a única escola pública que entra nas 10 primeiras do Ranking.

A rádio, no caso a TSF, foi depois entrevistar a Directora do excelso Liceu capaz de tais maravilhas e prodígios. E onde esperava alguma sensatez e comedimento, até porque todos sabemos das envolventes destes Rankings, eis quando não, a senhora desata a auto-elogiar-se falando de um “Bom Corpo Docente”, de um elevado grau de exigência, e que de facto já estão habituados porque todos os anos lhes é reconhecida a qualidade, e só com muito trabalho e esforço, etc etc. E aos costumes nada mais disse.

Ora, sabendo nós que o Dona Maria como todas as escolas, não escolhe os professores, nasce assim um mistério sério. Porque raio é que o Dona Maria fica sempre nos lugares cimeiros do Ranking? Mistério. Bom Corpo Docente? Acima das outras escolas todas?

23/10/07

Rolling Stones em Coimbra, por Automotora


Pessoal:

Quinta feira vou prás bombas da Adémia ver se arranjo bilhetes prós stones. Um gajo hesita, porque os bilhetes são caros, e depois dá uma espécie de comichão de remorso que não se aguenta. Pronto, se mais alguém quiser bilhetes, diga agora. Posso comprar até dois mil, que é o número dos que vão estar à venda na galp.
Eu também falei com o Mick Jagger ontem
- Tinó, méne, estás porreiro?
- Olá mick. Vai-se andando, com a cabeça entre as orelhas.
- Hehehe. E a família?
- Bem, obrigado. Diz lá o que queres.
- Era para saber se vais a Coimbra ver a malta...
- Talvez, méne.
- Já tens bilhete? Se quiseres arranjo-te.
- Pó caralho! Já me arranjaste um há vinte anos para Alvalade e nunca mais te calaste com isso. Vou às bombas da adémia comprar um. E se me der na cabeça, nem vou! Fico em casa a ouvir os beatles!
- Vá lá, tinó! Olha, arranjo-te um salvo conduto prós camarins! Vens beber uns copos com a gente!
- Não me apetece. Se for, vou prá relva. Melhor, vou prá bancada mais longe. Sou até capaz de ir ver a coisa pró viaduto do Norton de Matos...
- Fónix, sempre esse mau feitio! Nunca estás satisfeito com nada! Eras puto, já eras assim. Por falar nisso, manda lá mais letras de canções, méne. Andamos para aqui a repetir as músicas velhinhas, só porque sua excelência não lhe apetece fazer mais!
- É pá, ando sem cabeça para isso. És tu a chatear, é o Robbie Williams a chatear, é o Bono a chatear...Vá lá que o Frédi Mércuri já quinou! Vê lá se vocês puxam também da mona um bocadinho, catano!
- Olha, por acaso fiz uma há bocadinho. Vê lá se gostas: hey, you, get off of my cloud..
- Hehehe, estás a ficar xéxé...
- Porquê? Não percebi. Olha lá uma coisa: eu ontem falei com um tal luzi pelo telefone. Andava aqui a ligar números da Solum ao calhas e apanhei um luzi. Tive praí meia hora a falar com o gajo, mas já não me lembro nada do que dissemos um ao outro. Mas falava bem inglês, o cabrão! Se conheceres o gajo, pede-lhe desculpa por mim. Maldita cocaina...
- Tá bem. Esquece.
- Só mais uma coisa: já me esqueci como era aquela receita da chanfana...
- Arre! Compras cabra velha, colocas num caçoilo de barro, barro preto de Molelos, de preferência, enches de vinho carrascão, um pouco de azeite, pões pimenta, salsa, cebola, podes pôr uma cabecinha de cravinho, se gostares, levas ao lume e depois vai apurando para aí duas horas, no mínimo. É preciso estar sempre a repetir a mesma coisa? Pronto, dá lá cumprimentos à malta. A sério que se puder vou ver-vos. Xau, xau, pronto, desliga lá... vou desligar pá, tem que ser, pronto... ok, xau, agora tenho mesmo que desligar...piiiiiiiiiiiiiiiiiiiii


Com significativo atraso, aqui fica mais um mail do Automotora, da era Pré-Porco, em 09 de Setembro de 2003

19/10/07

Estou-me a Vir, por Garoto de Ipanema

Na passada quarta feira Caetano Veloso, um dos maiores génios vivos da história da música contemporânea, veio a Coimbra apresentar ao vivo o seu último disco, Cê. Pelo que me apercebi, uma grande parte das pessoas não gostou do concerto. Compreende-se: as pessoas deviam ter sido avisadas antes de comprarem os bilhetes. Um pouco como quando compramos tabaco e temos que gramar com imagens de crâneos humanos nos maços e letras estridentes a avisarem-nos que «O tabaco mata». Até era giro, um bilhete para a primeira plateia e no verso a letras garrafais: «Aviso: este concerto é só para incondicionais. Pode prejudicar gravemente a sua saúde».

Pois foi. Caetano podia ter avisado a malta… Dizia logo no início: «não toco o Leãozinho nem o Sozinho nem o Menino do Rio. Não que não sejam excelentes músicas, que obviamente são, mas tou farto, prontos!»
Mas não foi por estar farto, digo eu, que o Caetano não tocou as suas músicas mais populares. Acontece que cada concerto dele tem subjacente um conceito. Vi o génio da Bossa Nova 6 vezes ao vivo e não houve um único concerto igual. Caetano parte sempre de uma ideia que desenvolve e explora. E no conceito subjacente a este concerto não entravam os sucessos e, muito menos, versões clean dos sucessos. Quem o conhece já sabia previamente ao que ia. Quem não o conhece devia ter tido o tal aviso no bilhete.

A primeira vez que o vi ao vivo, no Coliseu de Lisboa, o conceito foi a Simplicidade, a Pureza., a Natureza... Foi um concerto solar quase unplugged com violões e batuques. Fiquei siderado! No fim, após três ou quatro encores, o menino do rio, ainda teve arrojo para descer do palco e vir sentar-se numa cadeira diante do público, já com as luzes do Coliseu acesas, para nos brindar com uma inesquecível interpretação de Tigreza. Só voz e violão.

O segundo concerto que vi dele, chamava-se Totalmente Demais e deu nome a um disco. O conceito foi a Intimidade. Foi uma coisa quente, apaixonada, num formato small space: no Brasil Caetano fez esta tornée em pequenas salas, aquilo tornou-se um mega sucesso e em Portugal acabou por passar, mais uma vez, nos Coliseus. Mas manteve-se algo daquele clima original de intimidade e confessionalismo. Lembro-me de uma versão de Billy Jean de Michael Jackson, que haveria de ser gravada posteriormente. Fantabulástica! Caetano faz ouro do que quer que seja…

Pelo meio vi-o numa Queima das Fitas em Coimbra, ainda no velhinho Parque Manel da Nóbrega. As Queimas devem ser os piores locais de todo o planeta para músicos com a qualidade de Caetano. O concerto foi prejudicado pelos beberrões habituais e pelos putarrecos armados ao pingarelho, mas percebeu-se algo da ideia inicial de Caetano. Eu diria que a Transgressão foi o conceito adoptado, numa tentativa de se adequar a um hipotético ambiente estudantil. Guardei desse concerto a memória das canções ambíguas de Caetano (como Ele Me Deu Um Beijo Na Boca), um Caetano muito próximo de Ney Matogrosso. A estudantada não achou piada, pudera, mas até aí Caetano foi ele mesmo e não cedeu a facilitismos. Despediu-se com um beijo na boca ao guitarrista.

O quarto concerto foi o pior de todos. Achei o Caetano irreconhecível. Toda a gente sabe que Prenda Minha foi o álbum que fez explodir comercialmente a carreira de Caetano Veloso. Muito por culpa da música Sozinho (ironia das ironias, nem sequer é um original de Caetano). Caetano veio ao Porto e deu o mais comercial de todos os seus concertos: reproduziu, quase integralmente Prenda Minha, como fazem todos os músicos que não são geniais como ele. O Coliseu do Porto veio abaixo e eu não reconheci Caetano. No fim acabou tudo a dançar os sambas que ele tocou como no disco e eu nem reagi. Não que o concerto fosse mau, não que não goste de Prenda Minha, mas é o Caetano, pá, eu tenho o Caetano como um dos meus maiores heróis musicais, praticamente no mesmo patamar de Mozart, de Amália, de Brel, de Vínicius, dos Stones dos velhos tempos, dos Beatles…
Mas o Caetano também não gostou do retrato de Prenda Minha. Ele próprio confessaria mais tarde que aquele disco não era o Caetano Veloso genuíno, o músico genial que já tinha mais que uma boa dezena de discos editados, sem atingirem, todos juntos, os milhões de vendas de Prenda Minha. Podia ter-se rendido e ficava a fazer mais música daquela. Mas não: decidiu continuar a experimentar e a explorar novos conceitos musicais. Vi-o pouco depois em Coimbra num dos melhores concertos a que alguma vez assisti: Noites do Norte.

Noites do Norte voltava a ter um conceito que não a reprodução das faixas mais populares com o anterior. É incontornável a presença de Jacques Moremlembaum nesse disco. Dele disse Caetano, que o ensinou a «não ter medo da música». Morenlembaum é um músico de formação clássica, toca violoncelo e acompanhou, entre outros, músicos de vanguarda como Arto Lindsay e compositores magistrais como Riuchy Sakamoto. Noites do Norte tem a sua marca. Acho que o concerto teve com conceito chave a ideia de Miscegenação. Caetano misturou os géneros, às tantas não sabíamos se o que estávamos a ouvir era rock, se musica de câmara. Foi brilhante, um dos melhores concertos que já vi, infelizmente prejudicado, mais uma vez, por hordas de jovenzarros que foram para ali conversar em vez de ficarem nas docas a emborcar cervejolas. Foi em Coimbra, pois, e houve um criminoso qualquer que se lembrou de meter os bilhetes a vinte e cinco tostões. Resultado: caiu lá toda a tralha e aquele momento único só não foi estragado porque a boçalidade não arranha a genialidade. Não me lembro de nenhuma música em especial desse concerto: lembro-me da sonoridade, lembro-me daquela noite como se todas as músicas fossem uma só, tal a fusão e a envolvência conseguidas, não por um, mas por dois génios da música contemporânea: Caetano e Morenlembaum.

E foi depois de todo este percurso que voltei a um concerto do Caetano: na última quarta, Cê. O concerto foi, mais uma vez, brilhante, absolutamente genial, com momentos de criatividade absoluta. O conceito? Entropia. Caetano subverteu tudo. Tocou as músicas de Cê, considerado pela empresa especializada americana como um dos melhores álbuns de rock do ano. Com uma formação band garage – bateria, baixo, guitarras -, Caetano foi buscar as músicas que mais se adequaram a este conceito. Tocou, de fundo de catálogo, algumas bem antigas da sua fase londrina – como You don`t know me de Transa (1972), Nine out of Ten e Shy Moon (de Velô). Até cantou uma das minhas músicas preferidas – London London, mas numa versão completamente entrópica, de acordo com o conceito subversivo do concerto. Rebuscou O Homem Velho, Os Novos Baianos, uma excelente versão de Fora da Ordem e passou Cê, quase de fio a pavio. Pelo meio tocou dois temas mais conhecidos – Desde que o Samba é Samba, o inesquecível Cucurrucu Paloma (já comentado no Porco em Post aqui: http://tapornumporco.blogspot.com/2004/05/as-msicas-do-porco-cucurrucuc-paloma.html) aqui numa versão em que se nota a falta do violoncelo de Morenlembaum, mas sempre sem cedências. Desde que o Samba é Samba é uma bossa nova certinha, bela, compassada: na versão apresentada no concerto tem um enorme solo de bateria pelo meio. Eu achei coerente, em conjugação com o estilo radical e surpreendente do concerto. Não que não adore as versões originais, mas tudo tem o seu lugar. E houve tempo ainda para Estranha Forma de Vida da Deusa Amália.

No fim do concerto encontrei por lá o nosso Arquitecto, himself, talvez o esteta mais radical do Tapor, o único ser humano que alucinou com uns gajos barulhentos que um dia vieram a Coimbra fazer a primeira parte dos Stones e de cujo nome já ninguém (nem ele) se recorda. «Ora aqui está alguém que adorou, como eu, o espectáculo», pensei. Mas não. O Arquitecto não foi lá muito à bola com aquela «estragação» do Caetano. Percebe-se, pois, o nível de arrojo estético a que chegou Caetano, pois se nem o Arquitecto…
No meio daquilo tudo houve uma música que, sem dúvida, marcou todos os presentes. Faz parte de Cê e chama-se Estou-me a Vir. Nela Caetano grita e geme e grunhe, em português de Portugal, que se está a vir umas 50 vezes. O Pavilhão Multiusos riu às gargalhadas enquanto Caetano interpretava esta música de letra impronunciável. No fim dos cerca de 5 minutos que dura a canção, alguém gritou, da plateia: «És tântrico». E foi…

Quem Guarda A Tropa??? Centurião da Privada.


Uma semana depois percebi o motivo que originou a notícia no jornal “O Sol” da semana passada. Informava que o pessoal civil dos quartéis se recusava a fazer outras tarefas para além daquelas para que tinham sido contratados e por isso, não sei se seria só por isso, não havia quem guardasse os quartéis. A solução adoptada foi contratar segurança privada para guardar os quartéis. Em Lisboa há pelo menos dois quartéis que estão a ser guardados por seguranças de empresas privadas.

A ideia à primeira vista pareceu-me razoável, temos de ter alguém que guarde a tropa, e até me suscitou algumas reflexões do tipo não vá algum meliante de ponta em mola na mão atacar um inocente sargento que, por distracção, se faz acompanhar de uma pistola sem cartucho de balas, ou até, quem sabe, não vá algum general ser incomodado por um crente da igreja da geografia a espalhar a sua boa nova…

Conclui que já não há confiança nos soldados, nos cabos, nos aspirantes e nessa tropa toda que deveria guardar a tropa toda e que deveria ser capaz de se guardar a si própria.

Um cidadão que é caixa num banco não merece protecção, tem braços e pernas e deve saber defender-se e guardar o cofre, agora um tropa não, deve ser guardado por um segurança privado. Estava convicto do que acima refiro até ser esclarecido pelo Porco.

Claro que li, ainda que com algum atraso porque tenho andado longe da gamela, o artigo do Hiper Camarada colocado aqui em baixo, e depois estarreci e fiz auto censura por pensar mal da tropa e de quem manda nela, claro que a tropa não pode guardar os quartéis porque anda a vigar e a bater nos comunistas, nos professores e noutras classes de manifestantes anti regime.
Ora aí está, também não percebo porque é que o jornal não esclareceu logo. É claro que o Porco está sempre atento e não falha…

17/10/07

Um Poema Faxioso para Engedinheiros com Receita no Modo Conjuntivo ao Gosto 25-linhas-papel-selado – por Cão

Sócrates Sarkozy Sarkókrates Sarkozyócrates
Sócrates só-que-te-rates
só-que-te-rates
só-que-te-rates
só-que-te-rates
só-que-te-rates

Não é preciso ter tomates
só-que-te-mates
só-que-te-mates
só-que-te-mates
só-que-te-mates.

15/10/07

Chamem-lhe «engenheiro», por Hiper Camarada

Na próxima quinta feira há uma manifestação contra o governo marcada para a capital. Na última, se bem me lembro, estiveram presentes cerca de 70 000 manifestantes. Comunas, claro. Entretanto, como os comunistas se multiplicaram, de então para cá, como os coelhos, desta vez estão previstos ainda mais. Com uma dificuldade acrescida. Parece que o primeiro ministro, pinto de sousa, é um rapaz sensível que se ofende facilmente quando é alvo de contestação pública. Não se vão poder gritar slogans ofensivos, como por exemplo, «25 de abril sempre» nem «fascismo nunca mais» nem «mentiroso». Então o que é que pode gritar - «Sr primeiro ministro, por favor, já está a ser ligeiramente irritante coa breca?»
Eu tenho uma proposta para evitar que sua excelência se ofenda: chamem-lhe «engenehiro», simplesmente «engenheiro». Vão ver que 70 000 gargantas a berrar «engenheiro» do Rossio até á baixa, dá um efeito surrelista à coisa que não é menosprezável. E, enfim, não se pode dizer que ofenda alguém. Digo eu...

11/10/07

Quem quer tramar Peculiar?

Vasco Graça Moura considerou-o o melhor livro de 2006. Eu não sou capaz de confirmar o dito, porque não leio o suficiente nem sei o bastante. Mas sei que o que li basta para o considerar um excelente livro, de leitura obrigatória por estar muito bem escrito, denotar um profundíssimo conhecimento dos factos que aborda, por adiantar interpretações inteligentes e esclarecedoras, por se referir a um assunto importantíssimo que não poderia ser mais actual apesar de velho de nove séculos. O livro é a biografia de Afonso Henriques publicado pela editora Temas & Debates depois de uma primeira edição pelo Círculo de Leitores. O autor é o consagrado José Mattoso, o nosso melhor medievalista, o mais original e rigoroso de todos os historiadores que se têm dedicado ao estudo da formação da nacionalidade e encontrado aí, no estudo do processo das origens, o terreno próprio, como já o fizera Herculano, para o questionamento e redifinição da identidade nacional.


Um dos aspectos que destaco da leitura deste livro é a importância reconhecida pelo biógrafo a D. João Peculiar. Mattoso não descobriu nada neste ponto. O papel do fundador de Santa Cruz e arcebispo de Braga na condução do processo de independência do condado, a sua influência junto do rei, a sua habilidade diplomática, a sua capacidade política, a força do seu carácter, a inteligência da sua estratégia, a sua actividade incansável já haviam sido notadas e reconhecidas por muitos outros historiadores, ainda que Mattoso derrame nova luz sobre os factos à custa de estimulantes hipóteses interpretativas.


De tal forma Peculiar foi importante que o índice remissivo do livro, ilustrando a omnipresença de Peculiar em todo o processo da independência, revela que o arcebispo é citado em 71 das 376 páginas do livro! Sem contar com o nome do próprio biografado, naturalmente, só Afonso VII merece mais referências, o que se entende.


Ora, o caso é o seguinte: se a figura e a acção de D. João Peculiar foram de tal modo determinantes, como é reconhecido pela historiografia mais isenta e rigorosa, porque razão os manuais escolares omitem o nome do arcebispo de Braga e fundador do importantíssimo mosteiro de Santa Cruz? Das dúzias de livros escolares que desfolhei, do 1º ao 12º ano, não encontrei um único que lhe cite o nome ou destaque a importância da sua acção. Pode ser que me tenha escapado alguma coisa, até pode acontecer que haja rodapés que me desmintam, anexos escondidos numa página final que contrariem o que afirmo, mas a razão da pergunta mantém-se. Tanto mais quanto o destaque dado a personagens como Jorge Sampaio ou José Saramago em alguns manuais escolares do 6º ano, por exemplo, torna mais chocante e inexplicável a ostracização de Peculiar.