31/01/06

“He`s young, she`s young. He`s strong, she`s beautiful.”, Arthur Bannister, o marido., por Mangas

Dos seus passados não vemos nada, mas adivinhamos tudo. Michael O`Hara é um agitador das docas, lutou na Guerra Civil em Múrcia onde matou um bufo Franquista com as próprias mãos. Não tem pátria, nem raízes nos sapatos e os beiços de uma garrafa de gin são o melhor porto seguro para curtir uma ressaca. Os que o temem, chamam-lhe Black Irish. Welles concede-lhe por momentos o estatuto de príncipe encantado uma sequência carregada se simbolismo da qual só o próprio Welles se lembraria – sentado num coche puxado a cavalos, O`Hara conduz a sua princesa entre o Central Park e o tráfico nocturno dos yellow-cabs em Manhattan.

Mas há sempre aquela mulher. Mais tarde ou mais cedo, aparece sempre aquela mulher. O tal género tentação-mortal, ou femme fatale, perigo no convés, trabalhos e mais trabalhos, abençoados trabalhos que de estafa em estafa nos conduzes à desgraça final, Rita…! Rita, loira en passant, mas tivesse ela algum dia pintado os cabelos de noite e até a madrugada se escondia de vergonha. Rita a quem sempre bastou estar, apenas, para desviar as atenções de um arqueólogo mumificado. Rita carente e carnal com um passado duvidoso e sabores proibidos nos lábios devoradores, e as ancas, ondulação morna que se agita ao entardecer, autênticas matracas apontadas à braguilha de quaisquer calças modelo-macho. You need more than luck to work in Xangai, dirá a O`Hara com a voz nebulosa e os olhos mergulhados na imensa solidão de gata escaldada, transmitindo-lhe apenas uma pista de onde provinha e que tipo de mulher tinha sido Rosalie, antes de ser Elsa.

O marido aleijado, Arthur Bannister, amo e senhor que se pendura em duas muletas para percorrer a distância mais curta entre o desprezo e o insulto humilhante deixando no chão um rasto de verme poderoso - o melhor advogado criminal da Costa Oeste era na realidade um cabrão sádico e possessivo sem contemplações para com os da espécie que tratava como marionetas.

O sócio de sotaque sulista, George Grisby, voyeur diabólico, chantagista, espertalhão e escroque, não necessariamente por esta ordem. É o vértice que se intromete no triângulo principal porque tem um plano, precipitará o drama, cairá mais depressa do que previra e ali permanecerá, imóvel, na horizontalidade dos que não respiram mais.
Juntem-nos a todos em alto mar ao sabor da brisa quente do Pacífico e de uma enredo denso e psicológico a morder uma trama complexa e bem urdida de desejos, traições e jogos do gato e do rato na melhor tradição do film-noir. Aquele era realmente um barco formidável – para um tipo com juízo cavar dali para fora!

A minha cena favorita de A Dama de Xangai não é a insanidade genialmente tratada no labirinto de espelhos na Casa dos Loucos – Mefistófeles diria que é a sequência mais carregada de simbolismos de toda a história do cinema; também não é o encontro fugitivo no Aquarium, nem a hitchcokiana perseguição de grandes-planos e máscaras no Teatro Chinês da qual nunca ninguém falou. É tecnicamente bem mais simples a minha cena favorita e no cenário de fundo estão predadores condenados. O`Hara é chamado por Bannister em moderado estado de embriaguês para um dos seus joguinhos de retórica e provocação. É noite, uma lua assassina acende as sombras nas trincheiras, os rostos improvisam disfarces de piquenique na areia da praia. O`Hara pergunta-lhes se era aquilo que eles faziam para se divertir à noite – sentarem-se a comer e a chamar nomes uns aos outros. Bannister baloiça deitado sobre uma rede, ri e responde lançando veneno na direcção de Grisby e Elsa. O`Hara prossegue:

O`Hara - Certa vez, ao largo do Brasil, vi o oceano tão escurecido de sangue que ficou completamente negro enquanto o sol se punha no horizonte. Tínhamos atracado em Fortaleza, e alguns de nós lançaram as linhas de pesca. Morderam a minha linha primeiro. Era um tubarão. Depois, veio outro, e outro ainda, até que passado alguns instantes todo o mar era feito de tubarões e mais tubarões e nenhuma água. Um tubarão soltou-se do anzol, e o cheiro ou talvez a mancha de sangue de que se esvaía, levou os outros à loucura. Então os animais começaram a comer-se uns aos outros e, naquele frenesim, até se comiam a si próprios.

O rosto de Bannister contraiu-se, a rede de baloiço deteve-se.

O`Hara continua - Sentia-se o desejo de matar como um vento que ardia os olhos e podia cheira-se a morte que exalava do mar. Nunca vi nada pior... até este pequeno piquenique desta noite. E sabe que mais? Não houve um único tubarão daquele cardume enlouquecido que tenha sobrevivido.

O`Hara cala-se por breves instantes. A câmara mostra as baixas causadas pelo impacto do seu discurso no semblante comprometido de Grisby, no rosto contorcido de Bannister, no olhar desalentado de Rosalie, no silêncio e na calma de morte que se instalou como um velho cúmplice, entre todos eles.

O`Hara termina e abandona a arena - Vou deixar-vos agora.

Bannister sem desviar o olhar da areia - É a primeira vez que alguém te considerou o suficiente para te chamar tubarão, Grisby. Se fosses um bom advogado, sentir-te-ias elogiado.
A prodigiosa cena final na Casa dos Espelhos vem depois, mas toda a história ficou contada ali, naquele momento. E afinal, disparar uma arma foi bem mais simples do que ela julgava. Ou pretendeu julgar. Bastou premir o gatilho. Como ele lhe dissera. Mas nessa altura, também ele não sabia que talvez pudesse viver o suficiente para esquecê-la, ou que talvez morresse tentando-o...

30/01/06

Por Nós, Já Está O Panelão Ao Lume!, por Sal&Pimenta

Um alemão de nome Armin Meiwes, colocou aqui há uns anos um anúncio na Net, onde pedia pessoas que se deixassem comer por ele. E não, não era ao engano, ele explicava bem como pensava rechear a pessoa. Por incrível que possa parecer, responderam com vontade e fotografia mais de 400 pessoas, oferecendo-se para serem comidas pelo germano. Dessas 400, o homem das febras fez um caldo de eleição e apuramento ao sal, após o que se decidiu por um especialista informático de 43 anos, um bocadito passado e rijo, mas prontos nestas coisas uma pessoa também não pode ser muito esquisita.

Passada a alucinação inicial, julgava-se então que o presunto ia ganhar juízo. Qual quê, acertam tudo, combinam e montam o equipamento de cozinhar e o de filmar. Temos assim um vídeo caseiro de horas, onde se mostra à saciedade que o fiambre quer ser degustado e saboreado. Nas imagens vê-se a certa altura o expert dos computadores nu e deitado na banca de cozinha - não sei se foi marinado em vinha d`alhos, mas se não foi é falta grave -, a combinar com o gastrónomo qual das suas partes iriam cortar, cozinhar e comer em primeiro.

Decidiram-se pela peça de nervo tipo menir e respectivos tomates do menu, com passagem pelo forno do fogão. Tubaros assados no forno, portanto e para abrir. Contudo, parece que a chanfana não correu lá muito bem, porque depois da coisa cortada e assada, nenhum dos dois gostou do sabor e não comeu. Eu tinha avisado da falta da vinha d`alhos! Mas nenhum desistiu, e bem, que com comida e o estômago não se brinca! E como quem mastiga por gosto não se cansa, o Pantagruel tratou depois de fazer o informático em filetes, fez pizzas, rins salteados, miúdos com o fígado e coração de cebolada e fez reserva na arca congeladora, tal qual manda a Maria de Lurdes Modesto.

E ninguém soube de nada. Só que o lambão foi guloso e voltou aos anúncios da Net. Um austríaco à procura de ser comido de outra maneira, não gostou do engano e mandou tudo para a bófia alemã, que não se deixa comer de qualquer maneira e de uma garfada afiambrou nas mais duas horas de vídeo canibal. O mastigador é preso, julgado e condenado a 8 anos de prisão. Andam agora a repetir o julgamento, após recurso e além de se queixar da comida da pildra, o engolidor de espadas defende-se dizendo “Que não o queria matar, mas sim e tão só comê-lo”. Uma espécie de nova versão do concurso ter o bolo e papá-lo!

E chegamos agora ao filet mignon, porque se há alguma coisa de que o Porco gosta, é de comer. E andamos sempre à procura de novos sabores. Por outro lado o nosso espanto vai todo para o facto de haver por aí tanta gentinha que quer ser comida. E o que para aí não vai de malta apetitosa! Ora, nós queremos provar e prometemos que mastigamos de boca fechada, comemos de faca e garfo e lavamos as mãos antes da refeição. Só não abdicamos é de dois dias de Vinha D`alhos, mas prontos, vá lá, 1 dia se o pratinho a degustar tiver menos de 30 anos.

Presuntos deste reino, vinde a nós! Na resposta é favor mandar foto, em nu e depois de um banho quente e caprichado em orégãos e folhas de louro.

26/01/06

A Saúde É Um Estado Transitório Que Não Augura Nada de Bom…, por Automotora

Pessoal, confrades, eu queria contar aqui uma estória. A minha mulher, que está em Cabanas de Viriato a dar aulas, foi ao centro de saúde do Carregal do Sal, que é a sede do concelho, para curar uma infecção na garganta que lhe roubava decibéis preciosos para berrar com os miúdos. Por acaso estava por lá e acompanhei-a, o que me foi muito proveitoso. Descobri que nesta terra de fim do mundo a burocracia é um bicho muito parecido com um ornitorrinco, que aterroriza mas que ao mesmo tempo dá vontade de rir. Passo a relatar em forma de comédia, com coro grego e comentários laterais.

Primeiro acto e único. Balcão da recepção do Serviço de Atendimento Permanente. - Ora então menina, o seu bilhete de identidade, por favor. – Faz favor - Hmm...diz aqui que a menina é da Carrazeda de Ansiães e reside em Casal de Ermio. – E é verdade, mas estou a dar aulas ali em Cabanas de Viriato. Durante cinco dias por semana estou por cá. - Bom, então onde reside? Quer dizer, o que ponho eu no computador, Casal de Ermio ou Cabanas?

O coro: Procura assim o recepcionista resposta para uma magna questão: será que viver cinco dias num sítio é residir? - Talvez cabanas...responde a paciente pensando num outro talvez - Então fica Cabanas de Viriato, decide o recepcionista enquanto martela as teclas com vagarzinho, com um minuete de dois dedos - E como se chama a rua? - Olhe, não sei, palavra que não sei, é que até agora nunca tinha precisado de saber - .

Para quem não conhece, Cabanas de Viriato é o que em Portugal mais se parece com uma aldeia da transilvânia; nem falta o castelo do conde drácula, que é o casarão em ruínas do consul aristides. A gente incauta, em lá chegando, nem imagina que aquelas ruas, onde não se vê vivalma, possam ter nome - Então a menina, continua o recepcionista, não sabe o nome da rua? - Bem, o nome não sei, mas talvez o senhor saiba, vai-se por ali, por acolá, é a única rua de paralelepípedos do lugar e tem uma padaria. – Sei bem qual é, mas também não sei o nome. Está bonita a brincadeira....

Chegados a este impasse, formou-se ali mesmo uma comissão de toponímia, formada por todos os presentes e mais os que iam chegando, a saber: o recepcionista, que presidia, eu mesmo, a paciente em inscrição, um bombeiro voluntário, a senhora da faxina e mais duas ou três pacientes com o sindroma do palpite. Estava decidido: a paciente não era atendida enquanto não se decidisse o nome da rua. O sistema nacional de saúde bloqueou, deu-lhe ali mesmo uma trombose – E eu, mau marido, e porque, de qualquer forma, o problema não era tão grave que não pudesse esperar pelo fim da anedota, fui-me deixando ali estar caladito, só falando se pudesse contribuir para a confusão.

- Pois, tenho que escrever aqui qualquer coisa, senão nunca mais saímos daqui - diz muito compungido o recepcionista. - Podemos então escolher entre rua dos paralelepípedos e rua da padaria...., mas não sei não....- E que tal rua do Viriato, - propõe o bombeiro, divertido, com o meu apoio entusiástico. - Não está mal. Fica então rua do Viriato. Mas não, não pode ser, o meu computador já registou dois pacientes da rua do Viriato!

O coro: Quer o recepcionista dizer que não se pode inventar uma rua que já existe. - E que tal rua principal? O computador garante que ainda ninguém da rua principal ficou doente, e isso talvez seja um sinal de que não existe rua principal em Cabanas. Fica rua principal! E qual é o número da sua porta? - Ops, nunca reparei, - diz a paciente - talvez nem tenha. – Só faltava esta, ó menina! Tem que ter número! - A menina devia andar com um papelinho com o nome e o número da rua, - diz alguém da assembleia a quem eu gostaria de espreitar os bolsos. E agora? Como é que alguém com uma residência tão equívoca pode querer que lhe receitem antibióticos? Vai-se assim, sem papelada bastante, desalojar uma pobre família de vírus? - Bom, sempre posso colocar sem número, - diz o recepcionista enquanto coça a cabeça pensando nos problemas que tal coisa lhe iria trazer: processos disciplinares e aberturas de telejornais na TVI durante uma semana.

Durante o silêncio que se seguiu dei-lhe coragem com uma conversa de pesca à truta nas ribeiras de Carrazeda de Ansiães. Por fim, meia hora depois de entrarmos naquele país das maravilhas, o Senhor do Computador lá se abalançou, com risco da própria vida, a registar a senhora Maria Margarida, diz ela, residente, ou talvez não, em Cabanas de Viriato, na sua, eventualmente, rua principal, sem número, pelo menos que se saiba. E cai o pano. A paciente foi atendida nos bastidores e levou dali um atestado para cinco dias de repouso. Fiz-lhe prometer que quando regressasse às aulas ia apanhar correntes de ar para voltarmos ao centro de saúde.

25/01/06

E Agora Para Algo Completamente Perverso..., por Sit-Ubu-Sit

O relato que vão ler a seguir é incrível, mas rigorosamente verdadeiro. Foi-me contado por um cliente e o artista que é jamais inventaria isto e os factos conferem com circunstâncias confirmadas.

Por pudor do cronista, não se revela aqui o vivente da coisa, e pede-se aos que sabem dos envolvidos, que não revelem aqui nada ou sequer indiciem de quem se trata. O Porco é imenso e chega a sítios que não lembra ao diabo.

Isto posto, aqui vai: a coisa passa-se numa praia de São Francisco, na Califórnia, perto da Golden Gate, sendo que aquela praia, como a cidade, é daquelas prá frentex. Praia da moda, e tanto se lá vêm nudistas, como yuppies engravatados em passeio ou famílias em piquenique.

O meu cliente e contador, foi àquela praia guiado por duas amigas americanas e pra ali esteve a jiboiar. Uma das amigas americanas levava um cão de bom porte e o cão andava por ali à solta a brincar e a saltar. Ia às ondas, voltava e metia-se com quem passava.

Até que a certa altura o cão foi ter com um nudista masculino que fazia nudismo a cerca de 10 metros do grupo. E pôs-se a dar lambidelas no coiso à mostra do nudista. Que de coiso começou a ser mastro com o entusiasmo quer do cão quer do lambido.

As americanas donas do Cão ficaram sem fala e sem reacção. Como reagir? Iam tirar o cão e enfrentar de frente o embaraço da situação? Disfarçavam como se o Cão não fosse delas? Interrompiam a coisa? Sacavam o Cão à bruta ou com meiguice? Como se vê, delicado, muito delicado.

Por fim os olhares de dona e lambido encontraram-se – com o Cão em funções – e a dona esboçou um: “- Sorry, I`am Very Sorry…”, e o lambido, afinal agradecido: “- Oh, No, Very Good Dog, Very Good Dog!, e ainda fez o gesto universal do Ok! com o polegar.

Por fim o Cão lá respondeu a um chamamento e deslargou o homem do mastro. As amigas do meu cliente só juravam que iam lavar a boca do cão com sabão.

E eu, ao cliente em maré de confissões e a fazer tempo à espera de tribunal, não disse nada. Mas pensei, e muito. É quase incomensurável o rol de perversas questões que isto levanta e nos atravessa o cérberus…

E Agora Para Algo Completamente Delicioso..., por Grão-Mestre

Há dias o puto Afonso fez anos. 8 aninhos bem medidos. O tio, rapaz moderno, nosso confradal Contra-Mestre e antes que fizesse asneira, perguntou ao puto o que é que ele queria para presente de anos, se um jogo, um filme, livro, etc.

Que não, respondeu o puto Afonso, o que ele queria mesmo era Um Presunto! Eu adoro presunto, ó Tio, um Presunto é que era!

O Contra-Mestre não quis aguar a criancinha e lá foi. Apostou em boa febra, certo de que a ia mamar familiarmente, e zumba, 80 eurinhos de um presunto inteiro, serrano ibérico El Pozo, de encantadora catadura. Ao puto Afonso até os olhos se riram, rejubilou e abarbatou o presunto para o seu quarto. E tanto fez, como foi, não ia em conversas, o presunto é meu e não fica na cozinha, é pra eu comer e num é praqui chamado. Vai pró meu quarto! Só eu é que toco no meu Presunto! Ganda Tio!

Digam lá que não é impressionante? E garanto que ninguém ensinou o sacaninha! Lá prós 9 anos está a pedir Barca Velha e aos 10 brinca com as amigas às Provas Cegas. A segunda geração confradal está na forja e vem aí a alta velocidade!

24/01/06

Canalizadores, Talhantes & Juízes, por Kzar

Na nossa sociedade, mal ou bem, um canalizador ou um serralheiro ganham mais do que um professor do secundário, e em certos casos muito mais. De resto, não é só a martirizada classe dos professores que tem razões para de quando em vez se interrogar, perplexa, sobre qual o real valor que a sociedade lhe atribui, qual a sua posição relativa na hierarquia das funções sociais e da importância dada pela comunidade aos que as desempenham.

Recordo-me de, há já uns bons anos, um julgamento em que era arguido certo cidadão, chefe de talho de uma grande superfície (como agora se chama aos supermercados...). O cidadão estava acusado de um crime contra a qualidade dos géneros alimentares, a propósito de certas carnes em venda naquele estabelecimento e que já não estavam famosas. O advogado preparou evidentemente a defesa, em qualquer caso ciente de que o nosso talhante seguramente ia apanhar uma pena, mas ter-se-á esquecido de o avisar para esconder a real grandeza do seu salário quando fosse sobre isso interrogado - elemento que na verdade seria decisivo, como é bom de ver, para a graduação da multa.

Ora, o descuidado magarefe, no momento próprio, apenas incauto ou porventura até orgulhoso de revelar o seu bombástico salário, confidenciou ao juiz que auferia mensalmente algo mais de trezentos contitos (isso mesmo). O juiz, que ao tempo auferia, subsídio de residência incluído, a singela quantia mensal de duzentos e setenta contitos (mais escudo menos escudo, e ao tempo já a ter que aturar a ideia comum de que os juízes ganham quanto querem...), começou por ficar surpreendido mas depois ficou foi com orelhas de burro.

Considerou que estava ali todo o dia a gramar pastilhas daquelas e outras piores, a escrever sentenças aos fins de semana, etc., para no fim de contas ser pago pelo Estado com quantia inferior à que no varejo de massas era atribuída pelas empresas aos chefes de talho. É claro que o magarefe levou uma multa crescidota, adequada ao seu gordo estipêndio, mas o nosso juiz é que demorou a recompor-se.

Durante largo tempo, chateava incessantemente a molécula dos colegas, dizendo de modo obsessivo coisas como "é pá, os gajos do talho ganham mais do que nós! Foda-se! Vou mas é bater bifes em cima dos códigos anotados!" Claro, com o tempo a coisa passou-lhe, mas ficou esclarecido acerca da real dimensão dos seus "privilégios de classe" (como já então se começava a chamar-lhes), da ponderação e razoabilidade dos políticos que nos governam e da choldra que vai por este país.

Obviamente, a questão não era de inveja pelos homens do açougue - estimava muito que ganhassem bem; a questão foi ter percebido a importância que lhe era atribuída a ele, medida objectivamente pelo salário que os supostos representantes da comunidade lhe determinavam. Ainda assim, acredito que até hoje carrega um bocadinho mais nos talhantes que lhe cumpra condenar...
É a vida

23/01/06

O Coiso Que Mexe Com Fios, por Cunstantino, Guardador de Revaños

Estava num exercício condizente com a qualidade dos nossos conteúdos televisivos— portanto a fazer zapping— quando me deparo com uma entrevista singular! Reparo no ar incrédulo do entrevistador que, atónito, tentava compreender o que uma senhora lhe tentava transmitir, a saber, que qualquer electricista (ou congénere) não tinha alguma premência de disciplinas como português ou filosofia no seu currículo escolar, porque o que se pretendia era que ele fosse um excelente electricista!

Tentando disfarçar a estupefacção, o bom do jornalista lá ia dizendo “mas, minha senhora, o electricista é um cidadão, um chefe de família, um pai, uma pessoa. E, talvez, de vez em quando pudesse citar alguma poesia” (E, aí, declamou uma estrofe dos Lusíadas). Sem perder a compostura, que não a razão, a dita senhora responde “de cátedra”: “mas afinal, o que é mais importante: um bom poeta e um mau electricista, ou o contrário?”

O jornalista pensou que se tivesse esquecido de tomar os comprimidos e, para não se perturbar ainda mais, acabou a entrevista. Pensei: ora bem, lá tenho que dispensar uns minutos falando desta entrevista, para ver se minoro os seus efeitos catastróficos. Bom, se o vou fazer, deixa lá ver quem é a entrevistada (não deve ser alguém com grande responsabilidade, mas enfim, tenho de saber quem é). Olho, então, com mais atenção e vejo… que era a Ministra da Educação!

P.S. : Não vos roubo mais tempo: é só para dizer que já fui ao médico, telefonei ao jornalista, e já ando a tomar os comprimidos.

22/01/06

Três Notas sobre as Eleições, Por Ana Lita

1. A vitória de Cavaco – Ok, vamos ter de o gramar e, pior que isso, à sua incrível família e, em particular, aquela senhora inenarrável que é a sua esposa. É mau, mas vendo a coisa pelo lado positivo, pelo menos estamos livres de sampaio.

Sampaio foi o pior dos presidentes da república que conheci. Esvaziou completamente o cargo e a função de Presidente, reduzindo-os a um mero papel simbólico, de ressonâncias vagamente monárquicas. Foi ridicularizado vezes sem conta – com os discursos redondos e pomposos, com a choraminguice permanente, com as rídiculas condecorações até pró cão, pró gato e pró Bono de boné…

Mas, pior que isso, quando quis intervir, o homem foi um desastre: é ele o pai do actual regime, o autor maquiavélico do maior golpe de estado institucional de que há memória na nossa história recente. Deu posse a santana quando devia ter convocado eleições, tendo, assim, provocado a queda de Ferro Rodrigues no PS. E a seguir demitiu santana por coisas insignificantes ao pé dos actuais casos Iberdrola, incumprimento eleitoral, Tribunal de Contas, Gomes da Galp e outros que tais. É ele o criador do frankenstein da actual política portuguesa: sócrates. Se não fosse sampaio, Ferro seria o primeiro.ministro. Muito melhor que este, como é indiscutível.

2. Sócrates morde o pó – É o principal derrotado destas eleições. Mário Soares, ocandidato que ele apoiou, pensando não correr riscos, é um ícone vivo da democracia portuguesa. Teve duas maiorias absolutas nas últimas presidenciais e é o nosso maior vulto histórico vivo. Mesmo assim teve cerca de 14%!!!!! Creio que se o candidato fosse outro o resultado seria ainda mais catastrófico. Os 14% não são apesar de soares, mas mesmo com soares. É incrível o que sócrates está a fazer, já nem digo ao país, mas ao seu próprio partido…

Claro que, mantendo a sua habitual e insuportável arrogância, na hora de assumir a derrota, sócrates fez um discurso autista. Em vez de nos explicar como é que se justifica que um homem com o prestígio histórico de Soares saia assim humilhado, preferiu repetir a cassete das autárquicas, a sua última desgraça eleitoral:

- «Eleicões presidenciais são uma coisa e legislativas outra. O governo não foi a votos. Só daqui a três anos (Uuufff!, pensou mas não disse)».

Ou seja, para este engenheiro do pensamento linear, não há nenhuma ilação a retirar do facto de ter desbaratado uma maioria absolouta em menos de um ano e de passar a votação do PS de quase 60% para 14% em tão pouco tempo! Nem do facto da direita portuguesa ter eleito pela primeira vez um Presidente da República nem de dominar o cenário político autárquico do país! Para ele os portugueses não lhe enviaram um sinal claro e inequívoco sobre as suas políticas ultra-montanas nem sobre o seu estilo fascistóide e autoritário. Nada. Presidenciais são presidenciais, legislativas são legislativas…

Para quem não chegou nunca a compreender que a sua maioria absoluta não foi mais que um voto de protesto contra santana, não admira que não entenda agora o que se passa à sua volta e que, sim!, estas eleições significam um sonoro e evidente: VAI-TE EMBORA , Ó MELGA! TAMOS FARTOS DE TI! Estes 14% de votos no seu candidato representam o apoio real do país-aparelho ao pobre sócrates das canadianas. Se o candidato a presidente apoiado por sócrates fosse a miss Playboy e o candidato oposto o Emplastro, eu – e a maior parte dos portugueses – votava no Emplastro! E assim, de vitória em vitória, sócrates lá vai levando o PS até à derrota final. Oxalá!

3. A vitória de Alegre – O espantoso resultado de Alegre – conseguido em três meses – pode ser um óptimo sinal para futuro. Talvez tenha sido bom que ele não tenha ganho as eleições e que continue no espaço inquieto da cidadania activa. Importante sim, foi ter dado uma banhada ao candidato do sócrates. É possível que, agora, Alegre seja empurrado pelo movimento que corporizou e que o excedeu. Se Alegre se sentir eticamente obrigado a assumir o movimento de cidadãos a que deu corpo– como esperamos -, podemos estar perante a formação de uma nova força que numas legislativas, por exemplo, se possa assumir como segunda força política. Seria revolucionário, se o que agora se verificou se voltasse a verificar nas próximas legislativas. Possivelmente, o PSD governaria, mas em cenário de maioria relativa, mediado por uma nova força política, criada à revelia dos partidos. Pode ser a oportunidade para que este país se comece a libertar da permanente maioria cinzenta, dos boys do PS- SD… Era bonito. Alegre, sem dúvida, abre uma porta de esperança. Assim saiba estar à altura das responsabilidades que acaba de criar.

P.S. Um pormenor, mas ainda assim significativo. Foi vergonhoso que sócrates tivesse feito coincidir a sua declaração com a declaração de Alegre, numa tentativa miserável de esvaziar o tempo de antena deste. Bem pode vir depois fazer anunciar que não sabia que Alegre tinha começado a falar. Não acredito, ninguém acredita neste homem. Até eu, em minha casa, sabia que o Alegre estava a falar porque tenho TV . Mas se não sabia ainda é pior: é pura incompetência e mais uma revelação de autismo de um primeiro ministro que deve achar que vive sozinho no planeta.

20/01/06

Volta Neide, Estás Perdoada!, por Dr Ernesto Matreiro

O episódio passou despercebido à maioria do pessoal, mas o Porco é bicho que gosta de remoer as coisas, pelo que aqui vai a epopeia da Neide com bacalhau e tudo.

A Neide é uma brasileira que estava sossegada a servir às mesas do restaurante Sr Bacalhau do Colombo em Lisboa. Ao tasco, ia lá almoçar amiúde, o Sr Dr Ernesto Moreira, Director do Departamento de Administração Geral do Instituto de Gestão Financeira e Patrimonial da Justiça, ufa! O nosso Ernesto engraçou com a Neide do Bacalhau, e mais bacalhauzada menos bacalhauzada, o bom do Ernesto viu que por ali a Neide era mal empregada. Avaliou aquilo de alto a baixo, e zás, concluiu que faltava neide no património do Estado Português.

E se bem a mastigou, melhor a engoliu. Sugeriu à Neide um lugarzito, mandou-a concorrer e seleccionou-a. A Neide foi então “Requisitada pelo Estado” por despacho estatal e publicado em diário da república, sem qualquer concurso público, que foi dispensado, dada a urgência e supremo interesse que o Estado tinha na Neide. A nossa Neide saltou assim do bacalhauzito para “Coordenadora do Departamento de Logística do Depósito Público de Vila Franca de Xira” com 1700 mocas por mês (340 contitos, mais regalias).

O Indenpendente achou piada à dispensa do concurso e foi ver da Neide. E chapou com a Neide na primeira página de há 15 dias atrás. Foi um gozo. Eu que ia em viagem de carro ouvi o desenrolar de tudo pela rádio, em noticiários sucessivos. Um delírio puro, só não me despistei de tanto rir por mero acaso. É que os jornalistas foram ouvir o Sr Dr Ernesto Moreira, que falava do supremo interesse do Estado pela Neide e explicava juridicamente a necessidade do regime de requisição e mais, redundou que era a candidata com melhores habilitações e que tinha a experiência profissional da logística dos seis restaurantes Sr Bacalhau. A rádio deslargou-o e telefonou à gerência do Sr Bacalhau. Que não, que Logística não serviam, a especialidade deles era mesmo bacalhau, cujos tascos era independentes e que a Neide era uma boa empregada de mesa sim senhores. Voltaram ao Ernesto. O Ernesto falou de uma licenciatura em Geografia e balbuciava qualquer coisa sobre Vila Franca de Xira. Depois teve o bom senso de se calar. Isto tudo de manhã. À tarde o Ernesto ia à vida, o Presidente do IGFPJ idem aspas aspas, mais um ou dois responsáveis e a Neide. O Sócrates, acossado, mandou tudo pró olho da rua, logo na tarde da Sexta em que saiu a noticia.

Ora isto, está mal. Demitir os gordos, feios e maus que coçam as costas uns aos outros com Neides nestes Institutos, Depósitos, Logísticas e tudo o mais acho bem, agora eu vi depois a Neide na Tv e acho mal. O Património e a Logística do Estado Português ficava muito enriquecido com a Neide. A Neide estava requisitada era nossa, era só uma questão de distribuir senhas ao povo para o depósito de vila franca de Xira e até aposto que o Sr Dr Ernesto Moreira não se importava de ir para a bicha.

18/01/06

Interlúdio Editorial Auto-Justificativo, por Junta de Freguesia

É só para dizer que decidi cancelar a publicação do post das vaginas indeterminadamente. Como tudo neste país, foi adiado. Porque sim, porque já é vagina a mais para tão pouco tempo, pelas susceptibilidades e porque o momento nacional merece mais elevação. Como atesta, de resto, o anterior Poste do Cão. E no domingo, depois de votar, façam um minete às vossas mulheres.

Presidenciais, por Cão

Já não somos povo, mas público. De TV, sobretudo.

Como tal, nenhum de nós leu qualquer documento ou manifesto de qualquer dos candidatos às eleições presidenciais que aí estão à porta. Nenhum de nós verdadeiramente reflectiu sobre o assunto. Quando muito, olhou. Mas nem sequer viu. Ficámo-nos todos pela superfície enganosa da televisão: as frases feitas, os bailaricos, os senhores candidatos a gabar as gastronomias locais, os ranchos, os pauliteiros e os trauliteiros. O costume.

À partida para a primeira (única?) volta, temos D. Sebastião disfarçado de Cavaco. Depois de dez anos de autoritarismos à la Chef como primeiro-ministro, quer agora presidenciar. Guia-o, diz ele, uma vontade de repor Portugal no rumo certo. Pelos vistos, andou dez anos a pô-lo no errado. A figura é estranha num país democrático, dada a ferragem do seu ricto ditatorial, dos seus maxilares mentais e da sua intolerável intolerância. É um arauto do neoliberalismo sem freio. Mas quer ser nosso Presidente.

Também temos Soares, o da tentação monárquica. Numa fase da vida (a dele e a do País) em que o curial seria viajar pelo mundo (mas agora por conta própria…) e coleccionar selos no recato da mansão doméstica, o veterano político quer reinar de novo. Não se percebe porquê, a não ser recorrendo à desmedida ambição de uma figura que se supõe insubstituível, inultrapassável, incomparável, imperecível e imperdível. A realidade adjectiva é, porém, outra: imperdoável.

“Imperdoável”: assim de Soares disse Alegre, o candidato desde sempre socialista agora sem PS-aparelho por trás. O poeta-deputado, que vagamente secretariou no Estado nos primeiros anos da Revolução para depois se assentar de vez no hemiciclo, aparece com irrecusável dignidade na corrida. Ele é o contraponto humanístico possível à sanha economicista-financeira de Cavaco e às inconsequências geriátricas de Soares.

Restam os residuais Jerónimo, Louçã e Garcia Pereira para completar o ramo da Esquerda mais estilhaçada de que há memória numas presidenciais. Todos têm mensagem, todos apresentam forma, todos revelam conteúdo. Mas, para além dos subsídios do Estado às campanhas que chegam ao boletim de voto, o que há verdadeiramente a ganhar quando é de presidenciais e não de legislativas que se trata?

Certo, aparecer junto às fábricas fraudulentamente falidas. Levar aos desempregados o megafone por que possam fazer ecoar a desumanidade da sua condição de formigas operárias despedidas por cigarras neoliberais. Dizer da banca, dos seguros, das multinacionais e dos espanhóis aquilo que todos pensamos mas transformamos, na hora da revolta, em benfica-benfica-sporting-sporting-selecção-selecção. Tacticamente, estarão bem. Estrategicamente, não me parece sequer que estejam.

Resta o quê? A Democracia. A Liberdade. A Televisão. Uma das três anda a papar as outras duas. Mas o público é quem mais ordena.

17/01/06

O Porta-Voz e o Fuga-em-Frente, por Crash

Hoje a campanha eleitoral teve mais um episódio hilariante. Mário Soares que parece apostado na corrida ao título Benny Hill do ano, revelou, em primeiríssima mão aos trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo a posição do Executivo sobre o futuro da empresa. Que um candidato a Presidente da República, ainda que apoiado pelo Partido do Governo decida fazer de porta-voz desse mesmo Governo é, já por si, suficientemente bizarro para nos desmancharmos todos a rir.

Mas que a seguir o primeiro ministro se apresse a negar que o candidato não foi porta-voz do governo é hilariante porque nega uma evidência que salta aos olhos. Segundo o sócrates, Soares apenas se limitou a telefonar a um membro do governo que o esclareceu sobre a posição do executivo, «como é, aliás, seu dever», para depois o candidato Benny Hill a transmitir em primeira mão. O governo, acrescentou sócrates sem se desmanchar a rir, apenas fez o seu dever e deu uma informação a quem teve o cuidado de telefonar, como daria a qualquer um dos outros!

Como? Importa-se repetir? O infeliz primeiro-ministro é incapaz de reconhecer um erro e usa e abusa da fuga em frente, mesmo quando as suas justificações, como é o caso, se revelam mais desajeitadas e aldrabonas que as do Pinóquio a mentir ao Gepeto. Mr. Maioria Absoluta continua a tratar-nos como burros. E aos outros candidatos presidenciais, também. Era giro, era mesmo um novo patamar na nossa original democracia e dispensavam-se os exércitos de dispendiosos assessores e assessoras dos governos para a comunicação social, se os candidatos passassem a anunciar as medidas dos governos.

Eu, se fosse o Jerónimo, o Louçã, o Alegre, o Pereira e o Cavaco, passava os próximos dias a telefonar para os membros do governo para que eles, «como é seu dever», nos esclarecessem acerca das mais variadas matérias. Não que as promessas deste governo valham mais que um mísero tostão furado, como sabemos. Só para chatear, não gosto que me tomem por lorpa…

Misteriosos São Os Descaminhos Do Senhor, por Vicente, O Corvo

Quando me aparecem as senhoras jeovás, eu tenho uma táctica. No outro dia, palavra de confrade, estabeleci mais ou menos a seguinte conversa pelo intercomunicador do prédio:
- Boa tarde. Eu e a minha companheira gostaríamos de lhe falar do reino de deus. Não demora muito, tem um tempito?
- Tenho sim, diga lá, se faz favor.
- O senhor conhece o reino de deus?
- Não, não. Por acaso não.
- Tem uma bíblia?
- Tenho sim.
- Então leia Mateus, 25
- Com licença, deixe-me apontar. Vou agora buscar um lápis e um papelito... pronto, pode repetir, por favor?
- Mateus, 25
- Mateus...25... certo. Apontei e vou mesmo agora ler. Muito obrigado. Mais alguma coisa?
- Não, muito obrigado pela atenção.
- Ora essa, obrigado eu. Muito boa tarde.

E assim se foram as minhas evangelizadoras convencidas que me deixaram na boa companhia do Mateus 25 e com a alma conquistada para a causa. Estou livre por uns tempos. Está claro que esta táctica só dá resultado se a conversa se estabelecer através de intercomunicador. Não dá com confrades rurais sem aparelhos de intercomunicação e que mal abrem a porta de casa estão logo na rua à mercê dos apóstolos e não podem fingir que vão buscar papelitos.
Já agora, não vale a pena irem a correr ler o Mateus 25, porque tanto pode ser este como outro qualquer.

Mas piores que os jeovás, são os missionários da Igreja Da Geografia. Para esses ainda não descobri a táctica:

- Bom dia, senhora. Eu e o meu companheiro andamos a espalhar a geografia e gostaríamos de conversar consigo.
- Ai, ai... Tem de ser rápido que tenho a cafeteira ao lume!
- A senhora conhece a geografia?
- Ó senhor, eu e o meu marido não ligamos muito a essas coisas; não leve a mal.
- Pois olhe, minha senhora, eu sou muito mais feliz desde que aderi à geografia. Dantes, bebia muito e fazia má vida em casa e depois um amigo puxou-me para a geografia e agora sou outro homem.
- Mas ó senhor, a gente é gente simples, a gente já está habituada à missinha do senhor padre carlos. Mas pronto, diga lá, antes que chegue o meu marido.
- Então hoje andamos a divulgar o reino do Tuvalu. Conhece?
- Não estou bem certa de conhecer, não.
- Não tem mal. Depois deixo o nosso almanaque para a senhora ler. Ora, o reino do Tuvalu tem 20 mil metros quadrados e um pib per capita de vinte dólares e produz sobretudo soja e água de coco. Não é assim irmão?
- Palavra do senhor.
- Ora, a capital do reino do Tuvalu é Porto dos Macacos e o seu ponto mais alto é o Pico dos Macacos com cinco mil metros de altura. Produz três barris de petróleo por ano. Há almanaques que dizem que são quatro barris, mas esta é que é a verdade. Não é assim, irmão?
- Palavra do senhor.
- E Tuvalu é atravessado por três rios onde se pesca o barbo e a boga e tornou-se independente em 1920, após um golpe de estado e é uma monarquia absolutista...
- Olhe, muito obrigado, mas já tenho o café a levantar fervura e daqui a nada está a deitar por fora. Olhe, deixe cá o livrinho, que depois leio.
- Aqui tem. muito obrigado e desculpe a maçada; passamos cá para a semana para falarmos mais um pouco.
- Mas olhe que eu para a semana não estou! Ai a minha vida...
- Então fica a senhora convidada, mais o seu marido e filhinhos, para ir assistir às nossas sessões de geografia na Casa do Povo de Alcarraques, aos domingos de manhã. Começamos por cantar os hinos do países, e depois recitamos textos escolhidos do almanaque. esta semana o tema é “Topografia e Curvas de Nível”. E uma contribuiçãozinha, por pouco que seja, também é bem vinda. Então, muito boa tarde.

15/01/06

O recalcamento fálico e a persistência do manguito, por Obelix

Numa perspectiva histórica, tomando como objecto a ocidentalidade cristã e considerando o tempo longo, pode dizer-se que o recalcamento da sexualidade e do prazer carnal é coisa recente. Enfim, uns milhares de anos. Tal repressão obriga a que as pulsões primárias aflorem sob formas mais ou menos sublimadas, exigindo alguma capacidade de interpretação semiológica para que se possam notar. O que está o Marquês de Pombal, por exemplo, a fazer empoleirado no cimo daquela enormíssima coluna no meio da rotunda ? É óbvio que o poder absoluto do Marquês tem uma relação disfarçada com o evidente significado fálico da desproporcionada coluna. E é desta maneira que a sempre portentosa virilidade masculina sublinha o irreplicável e discricionário poder do ministro de D. José.

Mas antes as coisas não eram assim. Basta uma visita às ruínas de Conimbriga e ao Museu Monográfico, um clássico das excursões, para que a garotada, ao passar pela designada Casa do Vaso Fálico, questione:

- O que é isso, fálico ?

Dada a explicação, obtém-se a atenção para a visita ao Museu. Lá está o Vaso, bem como outros amuletos fálicos que, apesar de minúsculos, comprovam inequivocamente o significado do até então ignorado vocábulo. Depois, de regresso à escola, ganham novo entendimento aquelas ilustrações do manual com aqueles menires de forma suspeita e dimensão impensável.

Aqui chegados, impõe-se uma explicação mais pausada. Apresentam-se as explicações mais correntemente aceites que relacionam os megálitos com a simbologia da fertilidade, como afirmações simbólicas de um poder, como centralidade organizadora do espaço, como elemento agregador dos elementos da comunidade num espírito de grupo, etc. Enfim, tudo hipóteses sem confirmação. E a coisa acalma. Não tanto porque seja bem entendida mas porque, suscitando tanto palavreado, é seguramente menos interessante do que parecia inicialmente. Normalmente as cenas ficam por aqui. Porém, naquele dia, o Paulo, rapaz esperto e atrevido, após ouvir atentamente todas as explicações, desabafou:
- Porra, tanta coisa por causa de um manguito. A gente ao menos passa a vida a desenhá-los e não pensamos em nada disso!

E foi com este desabafo desinibido que eu me apercebi, num repente, que a reiterada obsessão adolescente para desenhar manguitos em toda a superfície que os suporte obedece a uma espontaneidade atávica equiparável na naturalidade ao modo como os nossos antepassados erguiam aqueles imponentes menires. Ambas as manifestações poderão ter em comum o estarem imunes ao domínio da acção retractiva da moral de raíz judaica e cristã que enformou a nossa civilização. Uns porque demasiado novos ainda, outros, os que erguiam menires, porque naturalmente foram anteriores aos alvores dos novos tempos.

11/01/06

Se renascer, por Cão

Por uma ironia qualquer cujo sentido não sou capaz de descortinar, os idiotas da turma lograram aceder às cadeiras onde se decide, manda, influencia, determina. Olhem o Beldroegas do meu liceu.

Era impermeável ao Inglês, a História fazia-lhe brotar furúnculos nas axilas, a Geografia era um mistério a cores, a Língua Portuguesa não lhe servia para mais do que comprar rissóis frios na cantina e a Filosofia, segundo ele, só podia ser uma invenção de padres comunistas. E no entanto, olhem hoje para o António Alberto. Anda montado num carro cujas rodas valem mais do que a minha casa. É director de uma associação industrial cuja sede tem tapetes forrados a fundos europeus. Meteu-se na política pela porta do cavalo, coisa que os burros fazem excelentemente. Está bem na vida. Casou com um toninha que já lhe deu dois filhos gordos que olham o mundo com o mesmo olhar parado e azul do papá. O sogro gosta dele e tudo. Volta e meia, vai às meninas a Lisboa e aos meninos ao Porto, que isto de ser idiota não impede que se seja pós-moderno.

Olhem a Beatriz. Chamávamos-lhe Bibi como quem chama galinhas. E era o que ela era: uma galinha humana que depenava a paciência ao velho professor de Latim, um pobre humanista que se reformou mais cedo por causa dela. A Bibi deixava ovos no assento do autocarro e fazia fru-fru com as asas quando conseguia perceber uma anedota, tendo completado o 12º por directo milagre da Venerável Alexandrina de Balasar. A Beatriz é hoje tão feliz como eu gostaria de ser metade. Um terço, digo eu, metade seria bom de mais. Porque a Beatriz é mesmo feliz. Casou com um toninho que manda fazer apartamentos por todo o lado, é presidente da bola local e há-de ser, querendo Deus, presidente da Junta.

Claro que o que me faz falar é a inveja. Vivo de sonetos. Ninguém me manda conhecer contistas argentinos. Gosto de entristecer à chuva como um cão sem coleira. Ao sol, apresento uma pura vocação nocturna. Na pasta, transporto rosas poeirentas, tangerinas mirradas como mulheres de faraó e problemas por resolver de palavras cruzadas sem solução. É a vida.

Se eu voltar a nascer, quero chamar-me Beldroegas. Quero ter olhos azuis e perceber muito de assembleias. Quero ser senhorio de muitas casas e senhor de muitos filhos imbecis. Se renascer mulher, quero beatrizar-me logo de início. Hei-de pôr tantos ovos, mas tantos tantos tantos, que o céu há-de ser estrelado para sempre.

Homem ou mulher, nunca mais hei-de recordar aquele verso de José Gomes Ferreira sobre o mar. Nunca mais hei-de comover-me à visão dos noctâmbulos de Hopper. Nunca mais hei-de perceber que a vida é uma casa em cujas janelas brilham flores de sangue.

Se me for dado renascer, hei-de trocar o poster do Che Guevara por uma litografia da Alexandrina de Balasar. E hei-de ser feliz, mas tão feliz tão feliz tão feliz, que até pode ser que me elejam presidente da Junta. E então nunca mais hei-de cair da cadeira.

10/01/06

Elas Queixam-se; Mas Num Explicam, por Minetauro

A coisa veio aqui para os mails pela mão do Barão da Ribeirinha e andou pela blogosfera, como por exemplo pelo Vizinho. Eu já tinha lido a crónica da cachopa na revista do Indy e aquilo tinha-me dado que pensar. Dizia a Ana Anes, na sua crónica “7 Anos De Mau Sexo”, e com o subtítulo “Os Homens E Os Minetes”, que os homens têm um problema com o dito cujo, isto é, pois como se vê, e resumindo, não o sabem fazer! E queixava-se a cronista que havia os São Bernardos que lambuzavam e lambiam aquilo tudo a esmo sem nexo nem coerência (péssimos, portantos!) e mais havia os Colibris que davam duas ou três lambidelas tipo bater de asas e ala que se faz tarde (maus, também!), e que raros eram os Abençoados e situava os Abençoados nos 10%. Segundo a Anes e com toda a franqueza 90 de nós em cada 100, anda a gastar a língua e a beiça para nada.

Como é evidente todos nos consideramos Abençoados e nenhum se deixa catalogar como São Bernardo, Colibri, Tatu, Papa-Formigas ou Abutre. Mas o que é um facto é que elas se queixam como se vê. Queixam-se, mas num explicam, come o caso da Aninhas. Fala, fala, mas botar o trombone onde é preciso, népias!

Ora o Porco é um animal atento e gosta de aprender e quer saber se anda ou não a fazer a coisa mal feita. Assim este post mais do que um postulado ou rótulo, é um pedido de informação. Já temos definidos os São Bernardos e os Colibris com a ajuda da Ana Anes e agora queremos saber das outras categorias, erros e tiros no alvo. Elucidem por favor. Podem começar com o minete Tatu, explicar o minete Camelo e passar pelo minete Porco-Espinho. No final da volta zoológica havemos de aprender alguma coisa e chegar a alguma conclusão. E se Elas nos apontarem erros a evitar, técnicas a aplicar ou pontos de navegação ainda melhor! Expliquem por favor!

The ski is the limit, por Alpino

Já o ano vai no décimo dia e ainda ninguém aqui postou sobre a anedota que nos governa, o hilariante sócrates. Não é que Mr Maioria Absoluta (esta é para quem votou nele, mas agora ninguém se acusa, parece que foram os espanhóis que vieram cá…) não tenha dado vários motivos para isso, o último dos quais o inacreditável caso Iberdrola ou aõ silêncio governamental sobre a situação dúplice do deputado/administrador, o catastrófico (para nós, não para ele) pina moura. Mas voltemos a Sócrates.

Eu só queria dizer que este homem devia ter um pouco de decoro e não tem, nunca tem… Não o teve quando optou por teimar em ficar no seu safari privado no Quénia enquanto Portugal ardia e era notícia por essa Europa fora. Pessoalmente não sou um moralista e nem me escandalizei na altura que sua excelência fosse gozar férias para as Áfricas. Mas outra coisa bem diferente é persistir em lá ficar enquanto o país ardia.

Entretanto o país mudou, de Agosto para cá. Para pior. A crise agravou-se, o déficit descontrolou-se, o desemprego multiplicou-se e os políticos vivem cada vez melhor. O discurso do primeiro-ministro é de quase calamidade e só falta declarar o estado de sítio. Se numa situação de normalidade seria natural que o primeiro-ministro fosse relaxar para os Alpes, já num período que o próprio qualifica como crítico, sério, grave, etc, etc, ficou-lhe muito mal ter ido esquiar para a Suíça. Devia ter dado o exemplo, como primeiro-ministro. Assim perde credibilidade e o seu mau exemplo retira-lhe aquilo que os gregos chamavam o ethos, a integridade, a honestidade. Como pode este indivíduo convencer-nos que temos de fazer todos os sacrifícios do mundo com o exemplo que dá? Alguém lhe devia ter explicado que ser líder de um país é muito mais que fazer cara de mau para as câmaras de tv e passar o tempo a chamar nomes aos outros. A um primeiro ministro exige-se que seja um exemplo e Sócrates mais uma vez - a sua qualidade política e ética é zero – não o foi.

Vá lá que o destino ou os deuses alpinos ou sabe-se lá quem, procuraram fazer alguma justiça e aplicaram-lhe umas boas canadianas por uns tempos. Mas foi pouco. Infelizmente os pinheiros dos Alpes não têm a qualidade dos nossos…

08/01/06

Abóbora!, por Freddie Krueger

Ontem ao fim da tarde, na entrada do supermercado, um miúdo sai-me ao caminho com esta: Olhe, queria os reis, sefaxavor. Queria os reis, se faxavor, foi exactamente o que o puto disse. Era véspera de Dia de Reis, e eu topei-o logo. Mas fiquei depois a imaginar o que pensaria um marciano em expedição antropológica: ora aqui está um pequeno monárquico que quer desesperadamente uma monarquia colegial, talvez um triunvirato. Eu lá disse ao miúdo que não tinha trocos e segui caminho. Podia-lhe ter dito, fazendo-me de parvo: meu rapaz, eu assino a petição, se quiseres, mas olha que o artigo 290 da constituição da república portuguesa prevê uma limitação material da revisão constitucional nesse sentido.

As coisas já foram muito diferentes. Por acaso, não me lembro de alguma vez ter pedido no Dia de Reis, mas fazia-o no Dia de Finados, logo no princípio de Novembro. Era os anos setenta, em Coimbra e convém dizer, aos nossos pequeninos leitores que poucos de nós sabiam o que raio era o Haloween, portanto... Nessa dia, os miúdos do bairro distribuiam as zonas de intervenção entre as tropas, e cada grupo transportava depois à noite, de porta em porta, uma abóbora escavada como uma carantonha, com uma vela dentro. Punhamos o dono da abóbora à frente, cantávamos a cantilena dos bolinhos e bolinhós, para mim e para vós, para dar aos finados, que estão mortos e enterrados, etc, e batiamos à porta. Para quem não sabe, garanto que o cenário metia respeito. Bom, mas a coisa dava um trabalhão e a recompensa normalmente eram rebuçados e chouriços, para além de uma ou outra moeda. É verdade que já nessa altura ficávamos chateados com a mania de darem chupas e mercearias. Mas agora os miúdos limitam-se a pedir.

Nos dias de pedir, vão à porta das casas pedir dinheiro e é tudo. Eles sim, merecem rebuçados e chouriços. Alguns limitam-se mesmo a estender a mão, sem abrir a boca, sem um faxavor sequer. Dá vontade de ficar a olhar para eles fixamente, até eles acharem que incomodaram seriamente um psicopata e correrem escada abaixo. Uma vez, perguntei a um: então, não sabes os bolinhos bolinhós? Deve ter ficado a pensar coisas estranhas acerca de mim. Normalmente, já que têm o trabalho de subir as escadas, lá lhes dou uma moedinha. Isto, quando abro a porta, é claro. O que é sempre. Não me estou a ver dizer: shh, está lá for a um puto, silêncio… No fundo, tenho é medo que me risquem o carro se não der nada, ou me toquem à campainha às três da manhã. Mais grave ainda é que nem sequer vão gastar depois tudo em cigarros sem filtro, como antigamente. Desgraçadamente, gastam o dinheiro em programas de computador e pokemons. Portanto, não estragem a vida aos putos e não lhes dêm nada se baterem à porta.

06/01/06

Swimming Pool, de François Ozon, por Mumbly


“Swimming Pool” é nome de filme. Passou despercebido no cinema e anda desde há anos ainda mais despercebido pelas poeiras dos videoclubes. Ora, o Swimming Pool é um bom filme, que vale a pena ver. A obra é do realizador François Ozon, data de 2003 e conta com Charlotte Rampling e com Ludivine Sagnier nos principais papeis. Decorem o estranhíssimo Ludivine, que a cachopinha é uma estampa e fica bem em qualquer piscina, especialmente naquela onde trabalha os braços, os peitorais, os labiais e tudo o mais. Pelo caminho trabalha também um garção com peso, conta e medida. Um portento, a teenager.

O filme é de mistério e drama e bebe muito do suspense hitchcockiano. A enxuta Rampling, escritora de policiais abanca de férias e de crise inspiração numa casa de férias emprestada, no sul de França. Pelo meio aparece a filha teenager do dono da casa, que traça tudo o que mexe e o que fica parado só correndo muito é que escapa.

Pelo meio disto e com muito mais à mistura, nasce um livro e um bom livro, como se vem a ver no final. E, à la Hitchcock, o Ozon deixa-nos na dúvida no final. Eu por mim, não sei se aquilo que vi foi o filme ou foi o livro. Fosse o que fosse, é bom e vale a pena ver. Quanto mais não seja pela Ludivine na piscine, rima e é bom cine.

05/01/06

O Porco A Ler As Estrelas, por Firme&Hirto

Ora cá temos nós um ano novinho e inteirinho para jabardar. E nestes inícios de ano é sempre um exercício de extrema utilidade, deitarmo-nos no chão, olhar os astros e adivinhar os cometas. Esse é o exercício que se passa a fazer por aqui e que se pede ao pessoal que Groink com força e sapiência sobre as suas próprias previsões para 2006.

Arredadas as nebulosas, dissecadas as constelações e lidas as estrelas à lupa, o Porco pensa de que : ainda num é em 2006 que vamos ter sentença do Casa Pia. Para 2007 logo se revelarão os condenados. O Apito Dourado nem sequer começará a ser julgado. Lá para meio do ano sairá a Acusação e o Pintinho tirará o corpo fora após a Intrução. O país continuará em crise até porque o nabo do Sócrates só sabe subir impostos (subirão mais) e cortar direitos e revela-se incapaz de conter a despesa do Estado que continuará a subir descontroladamente. Lá pelo meio ou final do ano o rapaz verá que não pode segurar a despesa das Scuts e lá vêm as portagens. O Benfica será campeão de novo confirmando que passou a dominar o dito sistema. O Scolari continuará a recusar o Baía, mas como já meteu os pés, compensa o Porto convocando o Quaresma. O Brasil é de novo campeão mundial na Alemanha e Portugal apura-se para os oitavos e não passa daí. O Mourinho é de novo campeão inglês, mas falha de novo o título europeu. O Independente fecha de vez e lá pelo meio do ano, o Miguel Sousa Tavares chateia-se a sério com o José António Saraiva e um dos dois sai do Expresso. O Cavaco será eleito à primeira volta e vai suavizar a brutidade do Sócrates explicando que o gajo está a governar bem e que há que o deixar governar. De cada vez que lhe pedirem opinião o Presidente diz que ainda não leu os dossiers todos. A Al-Quaeda fará um novo atentado de vulto, de novo na Europa e de novo em Inglaterra. Desta vez a doer. O badagaio vai dar finalmente ao Fidel Castro que vai cair sem fôlego ao fim de um discurso de 9 horas. A Academia sueca, agora que já atingiu a América com o Pinter, irá finalmente dar um Nobel da literatura por mérito literário, mas nunca a um americano.

Como o Porco é mau a ler estrelas – um Porco olha de frente e tem a maior das dificuldades em olhar para cima -, convida os passantes a visionar o futuro. O Porco guardará os Groinks e no final do ano relembrará a coisa e atribuirá os Prémios Zandinga. Há que arriscar e meter a cabeça no cepo. Façam previsões para 2006 seja a propósito do que for.

04/01/06

O Padrinho, Parte Benfica, por Impensável

Apesar de grave, a história é curta e conta-se em poucas linhas. Há um goleiro brasileiro de nome parecido com cornetto que parece ter interessado ao Benfica e ao Porto. No regresso a Fortugal, o lampião Vieira foi aos brasis só para buscar os minino. Até aí tudo normal. Já vimos este filme muita vez e em muito lado. Segundo parece, em terras de vera cruz, saltou à comitiva um godo gordo, que deu uns empurrões ao cornetto e ao vieira e segundo alega messieur le president, o godo selvático tem uma ligação à dragoagem e ele coitado teve que fazer das tripas coração para não empalar o godo, até porque viu que a policia federal brasuca estava à coca e ele podia ser preso logo ali. Até aqui tudo bem também. Agora a coisa descamba. Em terras de um estado de direito europeu, já não no bananal sul-americano, o sr vieira assegurou-se que o godo era esperado no aeroporto por quatro seguranças do Benfica chefiados pelo sr funcionário lampião Carlos Colaço. O godo foi impedido de andar, travado, provocado, cercado pelos quatro seguranças e levou um estaladão tamanho-família. Duas televisões estavam lá. E estava lá um guarda da PSP que assistiu a tudo, deixou a maltosa do benfas ir embora sossegada, sem sequer a identificar e só depois escoltou o godo.

Sobre o cornetto, sobre o que se passou na australásia, sobre a malvadez portista e a policia federal brasileira, o sr vieira a seguir deu uma conferência de imprensa e peras. Sobre o que fizeram os seus meninos no aeroporto de Lisboa, disse nada. Para ele estava bem, foi aquilo que encomendou, foi aquilo que teve, não sentiu necessidade de se demarcar e muito menos de se desculpar.

Eu sou portista e ainda me envergonham muitos actos do Pintinho e seus muchachos e o sr vieira nunca me enganou, mas assistir no Portugal de hoje a um acto tão mesquinho, idiota e mafioso, é coisa que já não esperava assistir. Pelo menos, o guarda Abel tinha o cuidado de ver se havia câmaras por perto. Aqueles sicilianos do Benfica viram as câmaras e conformaram-se com um estaladão ao directo e ao vivo. Vem cá Coppola que podes fazer aqui o Padrinho, Parte 4.

03/01/06

Uma Casa tipo Maison, ou Un Vin tipo Tintol, por Monsieur Dupont

A primeira vez que fui a Paris com alguns cobres no bolso, levava já algumas luzes da vinhaça portentosa a esquadrinhar por ali. Tinha “estudado” algumas nuances da coisa e sabia que não conseguiria jamais chegar às colheitas consagradas ou às colheitas de antigas de referência. Mas, já experiente na forma como por cá saía o Barca-Velha e o Pera-Manca, com preços aceitáveis de 6 a 10 contos a botelha no ano de edição, contava trazer uns néctares para afiambrar. Nos meus armários imensos de marcas e portentos, ribombavam os grandes de França como Le Pin, Échezaux, La Tâche, Romanée-Conti, Château Haut-Brion, Château D`Yquem, Petrus, Cheval-Blanc, Pichon Longueville, etc.

Com os olhos a brilhar de gula cobiçosa deixei a maria nos perfumes do rés-de-chão das Galerias Lafayette, ali ao pé do hotel e ala que se faz tarde pró último andar e para a secção Gourmet. Corri à pressa as enormes e gigantescas bancadas de garrafeiras imensas por corredores infindos, mas foi demasiado à fuçanga e não reconheci nenhum nome. Que diabo, milhentos vinhos e nenhuma cara conhecida? Obriguei-me a respirar fundo e recomecei numa ponta devagar, devagarinho. Estão escondidos é isso, há que ver com calma, que a adega é inimiga da pressa.

Esmiucei de novo alguns milhares de marcas e colheitas, mas nada, nenhum Margaux, nenhum Cos D`Estournel, nada de Latour, zero de Guigal. Mau Maria, aqui há gato. Ajeitei a gravata, estiquei as mangas do casaco e fui de garção. Puxei do meu melhor francês e questionei um serviçal com farda de Almirante: - Pardon Monsieur, je voudrais savoir oú sont les boteilles de Romanée-Conti, il niá quelqun par ici?

O Contra-Almirante viu-me imponente e engravatado e afivelou logo uma cara de satisfação e simpatia que me reconfortou, isto sim é serviço, mas as palavras seguintes dele deixaram-me algo inquieto: - Ah, non, Monsieur les grand vins son par lá, venez, venez...

Lá segui o Capitão de Fragata, mas o homem foi para um canto com um armário e um balcãozito, pediu-me desculpa pela ligeira espera e foi buscar uns molhos de chaves, embolsou uma série de pequenos catálogos, pegou num pano de camurça bordeaux e calçou umas imaculadas luvas brancas..., mau, agora é que estava mesmo desconfiado!

O Capitão de Mar e Guerra, indicou-me então o caminho e levou-me na direcção quase oposta das milhentas garrafeiras que tinha visto. Seguimos para junto de uns enormes armários cinzentos, envidraçados e fechados à chave. Logo ali vi que já tinha feito merda. Estava noutra galáxia, mas já era tarde para parar a marinha. O homem abria já um dos armários centrais climatizados, humidificados e engalanados e retirava para fora com as luvas imaculadas uma botelha de Romanée-Conti: - Voilá, Monsieur!

Olhei para as irmãs que permaneciam deitadas sobre o vidro e vi o preço do Romanée-Conti, última colheita, que me estava a ser mostrada. Engoli em seco e procurei disfarçar, mas o almirantado não me deixou alternativa senão levantar a bandeira branca: - Excuse moi, je voudrais voir des autres boteilles et ensuite je le dit quelque chose...

O Almirante percebeu, não foi incorrecto, nem fez a cara que lhe esperava do “mais um pelintra, que me enganou pela gravata”, foi simpático, despediu-se, disse que estava às ordens, limpou a garrafa, ajustou vários botões e fechou aquilo tudo.

E eu fiquei ali estupefacto, de nariz a correr os vidros e a perguntar a mim mesmo como poderia haver dinheiro para beber Aquilo: CHÂTEAU LATOUR, 1er Grand Cru Classé, 89, 80 Contos, CHÂTEAU MARGAUX, 1er Grand Cru Classé, 86, 120 Contos, PETRUS, 86, 200 Contos, ÉCHÉZAUX, 88, 400 Contos, LA TACHE, 98, 450 Contos, ROMANÉE-CONTI, 95, 600 Contos.

01/01/06

Squeal, Boy!, Squeal!, HAPPY BIRTHDAY ao PORCO, por Presunto Implicado

Hoje, dia 1 de Janeiro de 2006, o Tapornumporco, Porco prós amigos, faz Dois anos. Depois de um primeiro ano de nascimento e aclimatação, o jovem Leitão, transformou-se neste segundo ano num excelso Porco de Engorda rápida. E aqui vamos continuar a refocilar com força e vontade até ao 3º aniversário, altura em que se alcançará a idade porcina adulta e o estatuto de Varrasco! Inch`Allá! Ou, assim o queiramos nós, que como diz o John Steinbeck e bem o relembrou o Luzi: “Uma Oração nunca deu carne a ninguém. Para isso é preciso um Porco!.”

Se em 2004 o Porco fez 241 Posts, neste ano de 2005, o Porco excedeu-se com 302 Posts, sendo agora o maior postador o Mefistófeles com 86 posts, seguindo-se o Derviche com 75 posts e em terceiro lugar o Luzi com 40 posts. Vêm depois o Cão e o Mangas, taco a taco, um com 21 posts neste ano e o outro com 20.

Numa segunda divisão, temos o Jótta com 15 posts, em luta frenética com o Automotora (filho pródigo) com 14 posts, logo seguidos do Kzar com 11 e do Nemo com 4. Contámos ainda com a breve presença do Mister, Nikki, Xeko e Mau, todos com dois postezitos cada. Ah, o Nini fez um, post, entenda-se. E saúda-se a estreia no Porco do Grande Beaujolais, em quem se depositam grandes esperanças para 2006. Vindos de fora contámos com o Goldmundo e a Kazinha que ajudaram a manter o Porco de carinha lavada.

De Contos a Viagens, do Porno à Literatura, dos Ìcones à Luta AntiSócrates com passagem pela Pintura, Exercícios de Estilo, Vinhaças e Comezainas, o Porco teve cá de tudo como sempre. Recordo aqui alguns dos Posts que considero de Antologia e relembro algumas polémicas. Começo pelo “O Vinagre” do Automotora, que é a nossa e só nossa, eterna mistura de Calvino com Boris Vian. A pena do mestre é explosiva e o homem parece ter voltado com vontade. E relembro do mesmo Automotora a melhor e mais polémica receita de “Bacalhau com Hortelã” de que há memória no culto ao gadídeo.

No Porno passámos pelo Ron Jeremy, pelo John Stagliano, pela Gina e finalizamos com esse grande combatente da liberdade que foi o Harry Reems.

Na eterna Babel da Livralhada falámos de Amin Maalouf, de Umberto Eco, Yasunari Kawabata, Guy de Maupassant, Herman Hesse, Sade, Saul Bellow, Franz Kafka, Dan Brown, Bruce Chatwin, Juan Rulfo, Ítalo Calvino, Paul Loup Soulitzer, Luís Sepúlveda, William Faulkner e Luiz Pacheco. E tudo com Cão, com muito Cão, que foi aproveitando para rosnar à América, morder no Busch e espalhar raiva assassina por tudo o que cheire a stars and sripes.

E relembro as polémicas do Seinfeld, com o Mefistófeles e Derviche de um lado e o impío Automotora do outro, a polémica do Luzi contra tudo e todos sobre a Puta no Panteão, e a traulitada geral sobre o fascínio das putas que toda a gente explicou e cascou. E como esquecer a deliciosa tese do Mangas sobre a verdadeira relação base do Casablanca entre o Rick e o Chefe de Polícia, qual Bergman, qual carapuça, paneleiragem é que aquilo é. E o Mangas voltou à carga com a benemerência do velho Corleone contra a má figadeira do Al Pacino, relembrando com polémica e nova visão o Mestre Coppola.

O Luzi polemizou com as touradas e conseguiu chatear o Vizinho que deixou de vir ao Porco. Elogiou-se o El Fandi e cascou-se nas touradas o que motivou o agrado da Didas. O Mefistófeles fascinou-se com o grande desígnio dos Salmões e espojou-se nas suas quintas com os cartazes das autárquicas. E Coppola, voltou em polémica sobre o Apoccalipse Now Redux, com o Derviche contra toda a mouraria capitaneada pelo Mangas. Mas a polémica mais forte do Porco, foi a que desentendeu o Cão e a Didas, sobre a eterna Hortografia, mas no final Adidas tinha razão!

Nos Ódios de Estimação reinou o Santana e o Sócrates, mas não escaparam os Comedores de Tartexes, o Carrilho, a Co-Incineração e o Jorge Sampaio. E viajou-se com gala e fulgor pela Tomatina, pelo Torpedo, por Goran Bregovic e até pela Serra Leoa.

Apresentou-se o Alce e a seguir o MancaMulas que motivou a maior dissensão da história do Porco, só resolvida com uma das maiores comezainas da história da gula.

Explicámos o Squeal Boy, Squeal e o Good Luck Mister Gorsky, o Tenzing Norgay, a Alamut e a Seita dos Assassinos, a Faculdade da Irrelevância Comparadas e demos ainda um curso completo de Oximórica e não nos fomos embora sem explicar os Vinhos Puta, o Got Milk? e a La Mano de Dios!

Pelo meio o Kzar descobriu os vinhos brancos e os chineses, blasfemou-se com o Onan, e a Lei do Levirato, e chafurdou-se nos Negalhos em verdadeira batalha campal, jabardeira só ultrapassada com a polémica sobre o Henry Rousseau no Panteão da Eternidade e ainda deu tempo para explorar O Medo pela mão do Beaujolais e do Mangas. E chega, pra já…

Hoje fazemos anos. Gostamos de cá estar e gostamos das vossas visitas. O Porco é cosmopolita e quer chegar a Varrasco ou mesmo a Pata Negra. Espera assim continuar a contar todos aqueles que diariamente nos visitam, com um especial apreço por quem faz Groink! E como sabem, um bom Groink, dá Post no Porco.

No mais, importa dizer que a Inha está enganada, o orgasmo do Porco não dura 30 minutos, não senhor, O nosso dura há dois anos!