31/08/04

Sócrates, O Pedreiro e Ésquilo, O Careca; ou Duas Reflexões sobre o Destino; por Gore Vidal

“(…)O Jovem pedreiro chamava-se Sócrates. Invulgarmente feio segundo Demócrito, é invulgarmente inteligente. No Verão passado, por deferência com Demócrito, contratei-o para reparar a fachada da nossa casa. Fez uma tal bodega que hoje temos mais de uma dúzia de frinchas por onde assobia o vento gelado. E devido a isso fui obrigado a abandonar completamente a sala da frente. Sócrates ofereceu-se para compor tudo outra vez mas temo que baste ele tocar na parede com a sua colher e a casa toda nos caía em cima. Como artesão é totalmente desconcertante. A meio de deitar a argamassa a uma parede é capaz de ficar parado de repente, de olhos fixos num ponto do espaço, durante vários minutos, a escutar uma qualquer espírito particular. Quando lhe perguntei que coisas lhe contava o espírito, riu-se simplesmente e disse: - O meu daïmon gosta de me fazer perguntas.
O que me pareceu um espírito muitíssimo decepcionante. Mas não nego que o alegre Sócrates não seja muitíssimo decepcionante quer como sofista quer como pedreiro.”


“(…) É uma felicidade para o resto do mundo o facto de os Gregos se detestarem uns aos outros mais do que a nós, estrangeiros.
Um exemplo perfeito: quando o outrora aplaudido dramaturgo Ésquilo perdeu um prémio para o actualmente aplaudido Sófocles, ficou tão furioso que trocou Atenas pela Sicília, onde encontrou um fim muitíssimo consolador. Uma águia, à cata de uma superfície dura onde pudesse quebrar a tartaruga que segurava nas garras, tomou a careca do autor de Os Persas por uma pedra e deixou cair a tartaruga com uma pontaria certeira.(…)
(…) Mas quando se trata do destino, como os Atenienses gostam de nos lembrar naquelas tragédias que passam a vida a pôr em cena, não se pode vencer. Da altura da fama de um homem careca, uma águia deixará cair uma tartaruga na sua cabeça.”

Excertos retirados da “Criação” de Gore Vidal, por Servente de Pedreiro

Os Profs, por Topo Gigio

Passamos anos e anos, uma vida inteira a bem dizer, a conviver com profs e chega um dia em que fazemos um balanço. Das centenas de profs com quem partilhei uma boa parte do meu tempo, que retive deles e dos seus ensinamentos?
Bom, da maior parte, não me recordo sequer do rosto, quanto mais do nome… Passaram anónimos, como o vento e o ar, veja-se só a influência que tiveram em mim... Alguém se lembra do professor de ciências do 7º ano? Experimentem nomear ao acaso uma disciplina de um ano qualquer e vão ver que não têm nem memória do mestre. É assim, um vazio, a maior parte da minha memória dos profs e creio não ser excepção. A maior parte dos profs da nossa vida, pura e simplesmente, não tinha nenhuma vocação especial para a profissão a que se dedicava. Eram profs como podiam ser engenheiros, advogados, carpinteiros ou domésticas. Cinzentos, por natureza, seriam cinzentos, noutra coisa qualquer a que, por infortúnio, se tivessem dedicado.

Depois vem a categoria dos mini-mussolinis. Uma grande diversidade cabe neste rótulo, desde gajos frustrados por estarem a lidar com putos em vez de gerirem multinacionais até tias mal fodidas que descarregavam em nós. A variedade é grande nesta categoria dos mimi-musolinis, mas têm todos uma coisa em comum que os distingue dos cinzentos: é que destes nunca mais nos esquecemos, embora pela negativa.
Lembro-me de um ansião que foi meu professor de matemática no ciclo. O senhor entrava na sala, dava-nos dois berros – e uma palmada de vez em quando – e quando nos calávamos, aterrorizados, sentava-se a ler A Bola, pedia/exigia-nos «bolachas!» com voz de nazi, metia as patoilas em cima da secretária e assim se quedava o resto da aula, até tocar a campainha libertadora.
Também me recordo de uma senhora cusca que estava sempre a meter-se na nossa vida privada. Tinha um apelido mais ou menos sonante em Coimbra – do qual já não me recordo – e, pronto, quem ela considerasse de nível social idêntico ao seu estava safo. Ela julgava que ia a Grimaldi ou a Bourbón, claro.
Um dos piores mini-mussolinis da história da minha vida foi um professor de ginástica que apanhei no 9º ano e que tinha um ego do tamanho do recorde do mundo dirigido por um cérebro de minhoca. Claro que as miúdas da turma e a malta hard tinha a vida resolvida. Era um tipo tenebroso sem qualquer sentido de justiça. E, na mesma onda, não posso deixar de citar o prof de desenho do 5º, em cujas aulas fazíamos verdadeiros motins, armados de giz e de zarabatanas feitas dos esqueletos das bics. Aquilo era péssimo, mas ríamos muito e era giro fazer apostas para acertar em quantos é que se aguentavam até ao fim da aula sem ir para a rua.
E como poderia esquecer o «Barbudo de nap» - o núcleo duro do Tapor sabe a quem me refiro porque fomos todos vítimas deste Fidel Castro pra consumo interno? Este espécime queria-nos ensinar Administração Pública e Direito a ler uma sebenta (nunca vi um nome tão apropriado) em voz alta na sala de aulas, enquanto era suposto que nós escrevêssemos o que ouvíamos, feitos rebanho. Claro que teve azar connosco e o ano correu mal. Lembro-me do Xiita e do Galgo inventarem , um sistema revolucionário para tirar os apontamentos: ligaram duas canetas uma à outra, formando assim o primeiro sistema de escrita dupla da história. Desse modo, só um precisava de tirar apontamentos já que a fantástica bic-dupla escrevia a dobrar. A coisa resultou até o Galgo se aborrecer de não fazer nada na aula e se pôr a tocar bateria. Um dia, o Barbudo interrompeu a aula e perguntou-lhe porque é que não tirava apontamentos e ele explicou-lhe que naquela aula era a vez do Xiita e que ia aproveitando para treinar bateria. Foi prá rua, mas se a memória não me falha, essa foi uma das muitas aulas em que nos viemos todos embora por solidariedade com as vítimas do Fidel de barbas. Ficou lá uma Leopoldina, acho eu.
É pá, eu queria mesmo acabar o post, senão vêm dizer que é muito comprido, mas se me aguentaram até aqui, também tenho que ser justo e deixar aqui uma palavra de apreço para uns dos piores profs da minha vida: chamávamos-lhe O Evidente. Era o protótipo do político frustrado que possivelmente é hoje presidente de alguma autarquia. Tinha uns óculos com lentes de fundo de garrafa espetados no nariz e falava de dedo em riste como o manel monteiro avant la lettre. Achava-se uma sumidade em Direito e eu não só não aprendi nada com ele, como apanhei uma aversão tal, às ciências jurídicas que resolvi nesse ano não ir para Direito. Estou-lhe, hoje, muito grato por isso! Mas tinha um ponto fraco, terrível ponto fraco: dizia «é evidente» em cada duas palavras. Mal nos apercebemos do tique resolvemos logo o problema do tédio das aulas de Direito porque decidimos organizar um concurso: ver em que aula é que o gajo debitava mais evidentes. Chegámos a comprar cadernos quadriculados para contar os evidentes, tínhamos gráficos, rankings das aulas com mais evidentes, tudo contabilizado conferido e organizado pela mão certeira do Spock (já então, um prodígio de organização). O Evidente estranhou que tivéssemos deixado de faltaras aulas dele, bem como o nosso inusitado entusiasmo e, durante uns tempos, andou contente connosco e as coisas correram bem. Até que o Armando resolveu, um dia, partir-lhe o coração e confessou que nós gostávamos era do concurso da Aula Com Mais Evidentes. Foi um choque para o pobre homem! E, no final do ano o número de reprovações da nossa turma também foi chocante para nós.
No próximo post, se conseguir livrar-me das inúmeras memórias de mini-musolinis que, pelos vistos, ainda me atormentam, pode ser que vos fale dos melhores professores da minha vida. Foram tão bosn como estes forma maus e estes foram mesmo muito maus.

30/08/04

Volta Aspamitres, que estás perdoado!, por Ataxerxes

Vindo recentemente do Reino Inglês dos Algarves e regurgitar dos bons serviços prestados à pérfida Albion pelos excelsos garçãos de tal terra, aqui fica em jeito de homenage um excerto da “Criação” de Gore Vidal:

“Por altura do terceiro prato, Mardónio e eu estávamos razoavelmente bêbados. Lembro-me de que a travessa que estava à nossa frente era caça, preparada precisamente da maneira que eu gosto – regada com vinagre e servida com cristas de galo. Tinha comido uma peça. Então de boca cheia, voltei-me para Mardónio, que estava mais bêbado que eu. Ele falava de guerra como sempre. (…)
Nesse momento estendi a mão para tirar outra peça de caça e vi que a travessa ainda lá estava mas a caça tinha desaparecido. Soltei uma praga sonora.
Mardónio olhou para mim sem entender. Depois riu-se: - Não devemos disputar aos escravos o que fica na travessa.
- Mas eu disputo! -. E protestei.
De repente Aspamitres estava ao nosso lado. Era jovem, pálido, de olhar acerado; não tinha barba, o que queria dizer que fora castrado antes da puberdade, como acontecia com os melhores eunucos. Tinha observado tudo do seu lugar logo por baixo do leito dourado de Xerxes.
- Ainda não tinhas acabado, Senhor?
- Não, não tinha. Nem o Senhor Almirante.
- Puniremos os prevaricadores.
Aspamitres, se alguma coisa era, era uma pessoa séria. Num instante o assado reapareceu. Nessa mesma noite seis criados foram executados.”

27/08/04

Francisco, 9.86, por Okunowo

Acho espantoso o amor que o Obikwelu tem por este país. Apesar de ter trabalhado nas obras das 6 às 4 da manhã, em regime de semi-escravatura; apesar de rejeitado pelo Benfica e pelo Sporting (que o foi buscar mais tarde); apesar do emperrado processo de naturalização, até se ver que dali vinha lucro; apesar disso tudo e de muito mais, ele soube aproveitar o pouco que lhe demos para o transformar em muito, em imenso...

E ainda tem grandeza de espírito para esquecer os «maus» que também por cá existem, para se fixar apenas nos que lhe quiseram bem: a professora inglesa do Algarve, o treinador do Belenenses que o descobriu, a família adoptiva que o acolheu. No fim desta saga, remata com um reconhecimento a Portugal que nos faz parecer em falta por deficit de patriotismo.
Obikwelu não é só um dos maiores senão o maior atleta que alguma vez já representou este país. A sua atitude mental é que é de verdadeiro campeão. Francis é o recordista mundial do amor fati.

RESPOSTA DE ANTÓNIO M. À «Carta do Grão Mestre de Monte Verga para António M.» (ver post anteiror), por António M.

Santo e Ilustríssimo Grão Mestre de Monte Verga

Foi para mim um grato prazer a recepção da ilustre missiva com que decidistes honrar este pobre pecador, indigno, sem dúvida, de tal consideração. Receio, afinal, ter entendido mal a minha estadia no Santo Mosteiro que Vossa Santidade tão supremamente dirige. Julgava que Monte Verga era um mosteiro budista e vejo agora, estupefacto, que se trata de um centro de recolhimento cristão. Não é grave, porque à luz dos sagrados ensinamentos de Buda, samsaia é o nirvana e o nirvana samsaia. O tempo é pura ilusão e tudo está ligado. Cristo é Buda e Buda é Cristo. O caminho a subir e a descer é um e o mesmo e tudo é Uno.

Foi por pensar deste modo que não me parecem assim tão graves os erros que Vossa Altitude Magnífica me aponta e que supostamente cometi na celebração da Eucaristia Experimental de 8 de Agosto. Fiz mal, é certo, em ter usado o confessionário como WC… Mas não aguentava mais. Preferia Vossa Santidade Celestial que fizesse na pia da água benta?
Marylin Manson na Eucaristia pareceu-me adequado, se tivermos em conta que na noite anterior, na rave inesquecível com uma delegação oficial das Irmãs Carmelitas Descalças, os monges já se tinham queixado da insistência do Disc Jockey nos Napalm Death. E bem me recordo dos saltos entusiasmados no meio do moche de Vossa Supremíssima e Elevadíssima Santidade quando, excepcionalmente, se ouviu Beatiful People nos claustros do templo…
Os apóstolos eram 12 e não 7, diz-me Vossa Eminência, e eu agradeço a correcção. Mas então, São Zangado não é desta história? Realmente achei a Branca de Neve um bocado entradota, mas enfim, eu já estava em reclusão à 8 longos dias e outras tantas noites e estas coisas turvam-nos os sentidos, se é que me faço entender...

De resto, registo que a Santa Madre Igreja ainda não está pronta para os tempos de modernidade que aí virão. O formato 60 minutos para a celebração eucarística, por exemplo, é incompatível com as exigências mediáticas do mundo contemporâneo. Desse modo, corremos o risco de aborrecer os fiéis que não aguentam tanto tempo sentados. Pelo contrário, no modelo 45X45 minutos, permitimos uma pausa a meio para as pessoas se poderem aliviar e adaptamo-nos aos tempos televisivos, possibilitando um intervalo para publicidade. Só assim podemos disputar o prime time com a nossa religião inimiga a da Bola, já rendida, à muito ao formato mais eficaz que agora preconizo.

Termino, Santo e Venerável Sábio, ousando pedir-vos que dedique alguns minutos da vossa preciosa vida à reflexão sobre os temas que aqui lhe deixo. Continuo a pensar, perdoe-se-me a imodéstia, que, um dia, também eu saberei ser digno do manto amarelo, do barrete estremenho e da nuca rapada da vossa ordem.

Vosso devoto

António M.

26/08/04

Carta do Grão Mestre de Monte Verga para António M., por Mangas

Mosteiro de Monte Verga, 27 de Agosto de 2004

Caro António M.:

Tendo cedido ao seu ardente desejo de celebrar, em moldes experimentais, a Eucaristia das vésperas no passado domingo, como forma de aproximar a sua alma perdida da beatitude e nela encontrar paz e afecto, não posso deixar de tecer alguns comentários ao que assisti. Se bem se lembra, recomendei-lhe umas gotinhas de vodka na água para relaxar a imensa ansiedade e desejo de servir a Deus que vi em seu espírito. Por tão grande equivoco me penitencio e rogo-lhe que para a próxima entenda as minhas palavras e não coloque umas gotas de água no vodka. Outros pequenos reparos:

- Não há necessidade de pôr limão e açúcar na borda do cálice;
- O missal não é, nem deve ser usado, como apoio para o cálice;
- Aquela casinha ao lado do altar era o confessionário e não a casa de banho;
- Quando ser referir aos 7 pecados mortais, faço-o de forma generalista sem exemplos práticos e sem citar pessoas, género “Gula / lambão do Vaice”, ou “Luxúria / entesoado do Nini”;
- As letras “RST” na lapela, ainda vá que não vá, mas o autocolante com o menino a mamar no biberão ao colo do mafarrico, não lembra nem ao próprio!;
- Sobre a aparelhagem de som: são aceitáveis os espirituais negros na abertura da celebração, mas para o encerramento, Marilyn Manson parece-me excessivo;
- Evite apoiar-se na imagem da Nossa Senhora e muito menos abraça-la e beijá-la;
- Existem na realidade 10 Mandamentos, e não 12;
- Os apóstolos eram 12 e não 7. E nenhum era anão;
- Não nos referimos ao nosso Salvador, Jesus Cristo, e seus apóstolos, como “J.C & Companhia”, nem a Nossa Senhora como a “Branca de Neve”;
- A água benta é para benzer, bom homem, não para refrescar a nuca;
- Nunca reze a missa sentado na escada do altar, muito menos com um pé em cima da Bíblia Sagrada;
- As hóstias devem ser distribuídas pelos crentes. Não devem ser usadas como aperitivo para acompanhar o vinho;
- Procure usar roupas debaixo da batina e evite abanar-se quando estiver com calor;
- Os pecadores vão para o inferno e não para a “puta que os pariu”!;
- A iniciativa de chamar os crentes para dançar foi muito plausível, mas fazer um combóio pela igreja é que não, pelos céus!;
- David derrotou Golias com uma funda e uma pedra. Nunca lhe foi ao cú;
- Evite chamar “cabra” a Maria Madalena, que também nunca foi podófila nem não passava os dias lamber os pés a Cristo;
- Não nos referimos a Judas como “filho da puta”;
- Nunca deverá tratar o Papa por “O Padrinho”;
- Judas não enforcou Jesus e o Bin Laden não tem nada a ver com esta história;

Pelos 45 minutos da missa que acompanhei, notei estas falhas. Lembro-lhe também que habitualmente, a celebração da missa leva uma hora e não dois tempos de 45 minutos cada. A terminar, despeço-me com votos cordiais que encontre o seu caminho entre os homens e no mundo lá fora. Recomendo-lhe novamente que medite e reze. Renuncie às alegrias da juventude, ao prazer, ao vinho também, ao Maia. E não se esqueça: a esperança é a última a morrer. Mesmo a da salvação. Deus guie os seus passos.

Grão Mestre de Monte Verga.

P.S.
Aquele sentado no canto do altar, ao qual se referiu como “paneleiro, travesti de saia”, era eu.

25/08/04

Haja Fé, por Francisco AlbiCoelho


As religiões que pregam o Despojamento de bens, a Abnegação e a Submissão à Vontade Superior, sempre estiveram condenadas ao sucesso, pela simples razão de que a mensagem que alardeiam é a que convém aos governantes, que obviamente se convertem e fazem converter os seus súbditos.

Foi assim com o Cristianismo e o Imperador Constantino e assim foi com o Budismo e os poderosos da Índia do seu tempo. Até com o Confucionismo, no Catai dos Chin, a coisa se passou de forma semelhante. A mensagem só passa se não molestar os graúdos. Quando, ao longo da história, a mensagem teve nuances de confrontação ao poder, este insurgiu-se e a mensagem foi aligeirada, colocada de lado, posta nos eixos, desviada.

Qualquer religião que propusesse o ataque aos ricos e poderosos, ou o seu despojamento, seria automaticamente combatida e condenada ao fracasso. Assim e ao invés, todas elas, incluindo o Islão e o Judaísmo, pregam o Paraíso na outra vida, uma vez que nesta não há nem pode haver, benesses para todos. As religiões instam os seus crentes à submissão e à realização dos seus propósitos contra a promessa do Céu, do Paraíso, da Terra do Leite e do Mel, das 72 Virgens ou do Nirvana.

Neste particular, todas as religiões estão irmanadas. Os poderosos e ricos são aliados e não inimigos. Os pobres e remediados são massas a arrebatar e a controlar, com as promessas do Além e/ou do Absoluto. Mesmo o Islão incita a odedecer aos líderes religiosos e temporais (deles claro) chefes de clã, califas e sheiks incluídos. O confronto e o ataque faz-se para fora da crença.

A premissa budista do alcance do conhecimento pleno e do absoluto pelo despojamento das posses, do corpo e da alma, mais não é do isso - prometer outra coisa para além do aqui e agora - e os Reis indianos do seu tempo agradeceram a pregação. De igual modo, o Hinduísmo, os Hara Krishnas, os Jainistas ou lá o que é, e quejandos, com a segregação de castas e as promessas de reincarnação em animais mais nobres que os humanos despejadores de fossas e intocáveis, garantem aos poderosos indianos e asiáticos em geral, a paciência das massas. Nesse aspecto, o Comunismo é de igual modo uma religião, ao integrar o indivíduo no todo e pregar-lhe o seu sacrifício concreto e absoluto, em função do bem comum geral e abstracto. E os Amanhãs que cantam, são mesmo amanhã e nunca hoje. Que o digam os crentes da religião Benfica, que andam há anos a praticar a Abnegação, o Despojamento, a Paciência e a Humildade em troca de promessas prá proxima época, próxima vida, próxima esquina. Aqui e agora é que não.

A Religião como fenómeno mitológico humano, é neste aspecto, (redutor, mas essencial) igual em todo o lado, quer a ocidente quer a oriente. Ontem como Hoje.

Por essa e por outras é que desanco cada Jeová que me aparece com promessas de fartura, paz e amor na outra esquina da vida, mas sempre na outra esquina, nunca aqui e agora. Aqui e agora há que rezar, ser paciente e pagar o dízimo. Mas era aqui e agora que me apeteciam as 72 virgens à desfilada comigo pela Terra do Leite do Mel. E por isso, como religião e prenhe de fé, creio no Dragão, no FCP e no Pintinho. Haja Fé.

23/08/04

REPORTÓRIO DE FACTOS EXTRAORDINÁRIOS III

As Minhas férias no Mosteiro de Monte Verga, por António M.

Regressei das férias que mudaram a minha vida. Eu estava farto daquelas férias algarvias em que se tem a sensação de embarcar com os mesmos milhões de gajos e gajas com que nos cruzamos o ano todo nos shopping, no trabalho nos bares e nos estádios de futebol. Já não podia conduzir mais na auto-estrada para o Algarve entre os milhões de Seats a assapar com jovenzarros ao volante convencidos que estão no Matrix. Já não conseguia suportar a antipatia visceral dos algarvios nem a bajulação dos mesmos aos mecânicos britânicos de Bolton, de Manchester ou de Liverpool. Vomitava só de pensar no cheiro a óleo de coco da maldita praia de Albufeira.

A minha alma estava cansada e, por isso, este mês de Agosto resolvi passar 15 dias de reclusão no mosteiro de Monte Verga. A primeira vez que ouvi falar deste sítio foi por intermédio do Franciso Óbi Coelho, um velho amigo, antigo playboy das noites de Coimbra que passou lá uns tempos antes de desaparecer de vez.
- Os monges são fantásticos, mene – dizia-me ele. Aprendemos a alegria de viver apenas numa cela, com um ou dois livros rigorosamente escolhidos e horas infinitas dedicadas à meditação e às técnicas de respiração. Quando de lá saí, ouve, não era eu… Aqueles gajos mudaram a minha vida, acredita!

O certo é que esta foi a última conversa que tive com o Francisco Coelho. Depois disso ouvi dizer que ele tinha ido viver para Goa, onde, pelos vistos ainda deve andar. E foi assim que este ano, cansado da vida, cansado do trabalho e das férias, da obrigação dos Kadocs e das gajas fúteis que não me largam a breguilha, eu lembrei-me do velho play boy e fui passar uma estadia a Monte Verga, bem no meio do Ribatejo.

Os monges receberam-me bem, com o mínimo de palavras, mas com sorrisos puros e infantis onde não vi maldade. É espantoso como não têm rugas apesar da provecta idade dos mais velhos. São imponentes nas suas túnicas amarelas, com as nucas completamente rapadas e barretes estremenhos. Quando cheguei, o meu Monge-Tutor levou-me à minha cela pessoal que substituiu durante 15 dias os areais de gente das praias do Algarve. A cela era o mais minimalista que imaginar se possa: uma simples cama – dura! – uma mesinha de cabeceira e um candeeiro a petróleo (o mosteiro não tem electricidade). Na parede caiada de branco uma simples gravura do Buda Jejuando. E em cima da mesinha um exemplar de um dos Upanishades em tradução castelhana.

Tinha imensas coisas para contar sobre estes quinze dias mas não é possível. Poderia falar dos dias em que assisti à prática do OM, a palavra das palavras, que os Monges pronunciaram durante um dia inteiro, das 5 da manhã – levantamo-nos sempre mal o sol nascia e deitávamo-nos quando ele se ia – às 5 da tarde, rigorosamente… Dos jejuns e das curas da dependência de carne, dos chás de ervas cultivadas no Mosteiro, da meditação ou das tardes de imobilismo e reclusão nas celas individuais. Infelizmente não vos posso comunicar tanta experiência por palavras.
Mas posso contar-vos a conversa que me marcou para o resto da vida, precisamente com o Grão Mestre de Monte Verga, o Chandogia- Satya (os monges são portugueses na sua maioria mas esqueceram o nome de baptismo e foram rebaptizados com nomes hindus). Eu acabara de lhe confessar estar farto da vida, da dor e do stress que passo durante os doze meses do ano. De nem as férias no Algarve serem já capazes de curar a minha alma ansiosa e desesperada. O Monge sorriu o mais inocente sorriso que eu alguma vez presenciei. Todo ele era calma e segurança. Parecia uma criança de 5 anos mas com a sabedoria de um velho de 80. Na altura deu-me a impressão de ver uma áurea a irradiar do alto da sua nuca calva.

- Maia – disse o Monge. Falas-me de Maia, o Engano, a Grande Ilusão. A vida meu filho é Maia e o desespero é o fim de todos os que por ela se deixam iludir. De que nos vale perseguir o prazer se ele acaba fatalmente na dor? Os horrores da velhice sucedem-se às alegrias da juventude, a doença à saúde, a dor ao prazer. Ninguém de pode furtar a este ciclo da vida e procurar o prazer e a felicidade é procurar a infelicidade que a ela está ligada pela mesma corrente. Tudo é vão. Só há uma certeza, meu filho, a morte e o triunfo da dor.
Há no entanto, uma forma de escaparmos a este ciclo de engano e ilusão: renunciarmos ao desejo, renunciarmos a Maia. Se nada desejarmos nada poderemos recear. Anular o Eu, ascender acima da escravidão dos desejos é o destino do sábio. Dediquemos a nossa vida ao esvaziamento do Eu, dos seus desejos, pensamentos e afecções e seremos salvos. No limite, neutralizaremos a própria consciência e não serão precisas mais palavras para atingirmos a beatitude. Não, não me respondas, não te canses meu filho, não gastes energias enquanto escolhes palavras – o silêncio é a verdadeira expressão da sabedoria e nele seremos salvos. O homem santo sabe partir deste mundo em alegria muito antes da hora final. Meditemos, irmão! Fica em paz.

E foi tudo. O Monge sorriu de novo, retirou-se da minha cela e foi a última vez que o vi. Quando, depois deste encontro, roguei para que me deixassem falar de novo com este Grande Homem, responderam-me que não e sorriram. No dia seguinte percebi que já era 15 de Agosto, o ultimo dia da minha estadia em Monte Verga. Voltei para casa, mas sinto que já não sou o mesmo. Só agora arranjei coragem para escrever este texto. Mas penso seriamente em voltar para Monte Verga e perseverar o que for necessário para um dia me raparem o cabelo e fornecerem uma túnica amarela.

Filmes com estômago, por Herman Hoss

Para quem anda distraído, o Tapor é um blog de uma Confraria, quer dizer, de um grupo de marmanjos que têm como principal actividade civilizada o culto exagerado do vinho e da comida que lhe dá sentido. É pois essencial que aqui se desenvolva a cultura e a informação gastronómica. Decidi, por isso, postar um exercício de a que me dediquei numa noite de insónia, para espicaçar a memória dos aficionados: uma lista singela de alguns filmes que abrem o apetite. Deixei de fora a trilogia do Mestre Hannibal porque esse merece post aparte. Então aí vai:

CASAMENTO POR CONVENIÊNCIA – Green Card, de Peter Weir, com Gérard Depardieu e Andie Macdowell, de 1990.
Depardieu é um cozinheiro francês que vai conquistar a Macdowell, num casamento fingido para obter a legalização na américa. Cozinha para ela e bem.

LADRÕES DE BICICLETAS – Ladri di Biciclette, (Preto e Branco) de Vittorio Di Sicca, com Lamberto Maggiori, Enzo Staiola, de 1950.
Tem uma das cenas de comida mais cruéis do cinema. O filho do protagonista espreita um miúdo rico a emborcar com a família num restaurante um farto prato de massa.

PULP FICTION – Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, com John Travolta, Samuel L. Jackson, de 1994.
Tem várias cenas e diálogos deliciosos sobre comida. Lembro-me da apreciação e discussão sobre os hamburguers e os batidos e a sua qualidade e preço entre o Travolta e a Uma Thurman no bar-restaurante onde dançam o twist e ainda da cena mirabolante do Samuel L. Jackson a apreciar e a elogiar o Hamburguer dos gajos que vai matar a seguir enquanto recita de cor a Bíblia.

A GRANDE FARRA – La Grande Bouffe de Marco Ferreri, com Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, de 1989.
Depois da Festa de Babette este é o filme sobre comida por excelência. 3 ou 4 amigos reúnem-se numa casa com putas dispostos a suicidarem-se praticando todos os excessos. A comida é o excesso base e circula com fartura por todo o filme.

FEIOS, PORCOS E MAUS – Brutti, Sporchi e Cattivi de Ettore Scola, com Nino Manfredi, Francesco Anniball, de 1976.
Um filme porco e negro, com várias cenas de comida sebenta engolida com todo o gosto e prazer pelo Porco-Mor, um pai nojento e cegueta de um olho que se mete com uma puta tamanho família.

A GUERRA DO FOGO – La Guerre du Feu, de Jean-Jacques Annaud, com Everett Mcgill, Rae Dawn Chong, de 1981.
A humanidade a viver nas cavernas e a lutar por bocados de carne e comida.

ERA UMA VEZ NA AMÉRICA – Once Upon a Time in América, de Sergio Leone, com Robert de Niro, James Woods, de 1984.
Tem uma cena deliciosa com comida em que um miúdo que espera na escada à entrada do apartamento de uma miúda gorda que lhe vai conceder os seus favores sexuais contra o pagamento de um enorme pastel de natas em cone. A miúda demora-se e o miúdo nas escadas vai rapando daqui e dali o bolo, enquanto pondera a gula e a luxúria. Acaba por sucumbir à gula e papa o resto do bolo.

DESEJOS INCONSCIENTES – Jamon, Jamon, de Bigas Luna, com Penelope Cruz, Stefania Sandrelli, de 1992.
Grande cena de luta até à morte entre dois rapazes armados com presuntos espanhóis.

BANDIDOS – Bandits, de Barry Lewinson, com Bruce Willis, Cate Blanchet, de 2001
Tem vários diálogos e cenas sobre comida, com a Blanchet a descrever o gosto e a boa comida que fez para o marido que vai sair, após o que ela parte tudo. Depois tem cenas de jantar em família com o Billy Bob Thornton a discutir a feitura da mesma com a dona da casa raptada.

A FESTA DE BABETTE .
Uma cozinheira francesa de renome permanece desterrada e incógnita na puritana e espartana Dinamarca do Séc. 18 ou 19. Quando lhe sai a lotaria faz uma refeição memorável para a aldeia onde está. Não se consegue ver sem ir comer.

NOVE SEMANAS E MEIA.
Mais do que conhecido. Um ícone do cinema sexual e gastronómico . A venda de morangos no Verão aumentou com a edição deste filme

O COZINHEIRO, O LADRÃO E A AMANTE DELE, de Peter Greenway
Julgo que é este o título do filme, mais coisa menos coisa. Tem banda sonora do Michael Nyman e uma cena delirante em que um dos personagens é cozinhado como um leitão e até se saliva pela sua pele estaladiça. Muito criativo um cozinheiro que empanturra um intelectual com os seus livros de culto.

SEM PERDÃO – No Mercy
Filme policial e de acção passado na cidade de New Orleans e nos pântanos do delta do Mississipi, com a Kom Basinger e o Richard Gere em fuga de um mafioso malvado. Tem uma cena memorável da Kim Basinger a comer e a chupar lagostins de rio cozinhados que os dois em fuga encontraram. Comem os lagostins em ambiente de grande tensão sexual.

TUDO BONS RAPAZES, de Martin Scorsese
Um filme de mafiosos sobre mafiosos. Tem como personagem principal o Ray Liotta numa descida progressiva até aos infernos. Entre outras cenas com comida e à volta dela, como os molhos especiais e as pastas especiais de que todos têm um segredo ou outro, há uma cena genial do chefe mafioso na prisão a cozinhar para os capos e a cortar alhos em fatias finíssimas com uma lâmina e a explicar que o segredo está no alho e na finura do corte. Pelo meio acho que manda matar alguém.

18/08/04

Vinho, por Jottita Maria (com o ajudante Millôr Fernandes)

A fonte do Millôr é inesgotável e genial! E não resisti a acompanhar o repto do porco-bacalhau, colocando aqui uma prosa divinal do humorista brasileiro, sobre um tema que sei apaixonar a maioria da vara: A Binhaça!

Como nasceu o vinho (por Millôr Fernandes)
10/07/2002

«Ao leitor desavisado pode parecer incrível aquilo que vou dizer, mas é a verdade mais pura: houve um tempo em que não havia uísque sobre a face da terra (nem de nenhum outro planeta, ao que se saiba). Nem uísque, nem qualquer bebida destilada, nem qualquer bebida alcoólica de qualquer natureza. Nem mesmo o vinho, fabricado na simples fermentação, pai, ou mãe, de todas as bebidas. Basta dizer que, nessa época inglória e tediosa da humanidade, os homens se reuniam nos bares (que um negociante mais hábil já abrira à espera de que alguém inventasse as bebidas) e bebiam água, a terrível água potável que os próprios compêndios definem como inodora, insossa e incolor. Evidentemente, os mais machões botavam dentro da água escorpiões, pimenta malagueta, e outras especiarias picantes e assim salvavam sua reputação diante da posteridade, chegando mesmo, alguns, a fingir um porre que só os séculos vindouros haveriam de trazer. Um dia, porém, sem que esse tivesse nada de extraordinário, um indivíduo chamado Álvaro saiu de uma aldeia em direção a outra, montado na sua mula de estimação, e, com essa viagem normal e rotineira, entrou para a história pela larga porta dos bares do mundo. Álvaro não era um homem fora do comum, era até meio idiota, mas acontece que a história é feita tanto pelo materialismo dialético quanto pelos acasos que a tecem e a regem. E o acaso era que Álvaro levava na sua bagagem alguns cachos de uva com que se entreter durante a viagem. E, como não gostava da casca nem dos caroços da uva, teve a idéia de gênio de espremer o caldo, apenas o caldo, dentro do cantil. Assim preparado, e daquela forma montado, lá se foi ele pelos caminhos de sempre, no troloc-troloc de todas as mulas. Quis, porém, o destino, que dormisse. E quis mais - que a mula perdesse o rumo. Foram sete dias de caminhadas por lugares ínvios e tropicalíssimos, o debilóide Álvaro nada tendo com que se alimentar a não ser o caldo de uvas que levava no cantil. Estranhamente, porém, a partir do terceiro dia, ele notou que o caldo que levava espumava, mudava de cor e gosto. E que, ao tomar o caldo, ele, Álvaro, se sentia de novo recomposto e pronto para viajar mais 24 horas. Tanto que, quando chegou a seu destino, depois de uma semana, ele declarou logo que, apesar de tudo, fizera a viagem mais maravilhosa de sua vida. Não fora, positivamente, uma bad-trip. Imediatamente, todo mundo quis experimentar a bebida de Álvaro, mas, como a bebida acabasse rapidamente, inúmeros candidatos a bêbedo começaram a percorrer o mesmo trajeto que ele, munidos de alforjes cheios de suco de uva, escondidos embaixo do traseiro quente. E logo a estrada se transformou na maior via turística da Espanha, e a Municipalidade, querendo aumentar a produção do milagroso líquido, transformou a estrada no labirinto mais sinuoso e complicado de toda a cristandade. Uma vez, porém, uma mula, teimosa como todas as de sua raça, resolveu empacar no meio da estrada, ficou uma semana em pleno sol sem se mover do lugar e o dono do animal descobriu, subitamente, um avanço na fabricação da bebida, concluindo que não era a caminhada que a produzia, mas a fermentação através dos raios solares. E aí se inventaram os alambiques. E aí se criaram os vinhos especiais, os álcoois em geral e as aguardentes em particular. E aí vieram as cervejas, as garrafas e as latas indestrutíveis e sem devolução. E aí foi inventada a poluição. Mas isso é outra história.
PS - Por que a bebida se chamou vinho? O homem se chamava Álvaro, como dissemos. Na intimidade, Alvinho. A homenagem foi apenas natural.
MORAL: O verdadeiro toque de gênio do primeiro bêbedo da história foi se lembrar de levar caldo de uva para se dessedentar. Se, por exemplo, tivesse levado leite, o mundo hoje teria que se contentar em se embriagar com coalhadas e ricotas.» (Crónica extraída do livro "Fábulas Fabulosas")

MILLÔR FERNANDES, por BacalhauNotaCem

Há meses o Independente editou um livro de recolha de textos, contos e frases do colunista e humorista brasileiro Millôr Fernandes. Li a coisa e considero-a excelente. Tem contos magníficos que um dia aqui virão. Para já, aqui ficam alguns pequenos excertos do Millôr:

DIVINOS:

Se Deus me der força e saúde, hei-de provar que ele não existe.


AMIGOS:

Há duas coisas que ninguém perdoa: nossas vitórias e nossos fracassos.

A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades.


POLITÍCOS:

Uma coisa é definitiva: quem se curva diante dos opressores, mostra o traseiro aos oprimidos.

O país que precisa de um salvador não merece ser salvo.

Fidel Castro é uma espécie de São Jorge que foi salvar a donzela e acabou casando com o dragão.

Não adianta as ovelhas se tornarem vegetarianas se o lobo se conserva carnívoro.


MULHERES:

Senso de humor tinha aquela mulher. Toda a vez que na intimidade do banheiro ficava nua, morria de rir de seus admiradores.

A mulher que se entrega sem casar...eis a arte pela arte.

Uma mulher perdida não passa de uma mulher muito encontrada.


FILÓSOFOS:

Se é gostoso faz logo, amanhã pode ser ilegal.

É impressionante a altura que um homem pode atingir apenas não descendo de nível.

Em geral as pessoas que se perdem em pensamentos é porque não conhecem bem esse território.


PROFESSORES:

Ainda está para nascer o professor tão equilibrado que se contenha em não ensinar mais do que sabe.

Dizem que o ensino no Brasil não melhora porque os professores têm medo do Ministro da Educação, o Ministro da Educação tem medo do Presidente da República, o Presidente da República tem medo dos pais, os pais têm medo dos filhos e os filhos, ah, os filhos não têm medo de ninguém!


JORNALISTAS:

Li, ontem, um editorial magnífico. Não dizia absolutamente nada, mas era contra.


ARTISTAS:

Depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à arte.



MAX, por Tocador de Sax

Cá pra mim, tá um texto na melhor tradição suína - esclarecido, escorreito e mordaz. Ele há k ter estes pequenos ódios de estimação, estes marranços às circuntâncias do mediático universo dos Babalus. Ou melhor, o ideal é nem trazer pra aqui tempos de antena estilo Canal do Roxo ou Rádio Clube Vidigueira, mas a fazê-lo, é rachá-los de alto a baixo sem piedades! Pó caralho os Zés Marias suicidários e mailas Teresas Guilhermes caprinas, e as drag-queens- frigídas dos Castel Branco, os rabetas dos Hermans, e o nojo dos reality-shows, e as Babás, e as Cinhas capas de Maribel toca-me o pincel, e meu nome é Max e toco sax, e todas as restantes zobaidas, é tudo a mesma cafina, a mesma corja de anedoteiros e jogadeiras, país do caralho este onde se lê menos em toda a Europa!, estrelatos roskoff, fama-espuma-de-cerveja, televisão alienada, ministros play-boys, vão-sa todos pôr numa cabra velha, sarnenta e zarolha!!! Se fui brando, peço desculpa, mas tava só no aquecimento.

17/08/04

AVÉ MARIA, por Abade de Tristes


No Domingo, dia 15/08/04, um Servente de Pedreiro de Barrancos parou o seu carro a meio da Ponte 25 de Abril, subiu os parapeitos e fez tenção de se suicidar, mandando-se para o rio Tajo. Não o fez. Foi convencido a não voar por um Polícia.

O amigo Zé Maria, super estrela do Big Brother, depois dos 15 minutos de fama e de ter derretido o dinheiro do prémio num restaurante manhoso, com sócios mais manhosos do que ele, entendeu que se devia suicidar. Suicidar não! Tentar suicidar. Porque a Polícia de certeza que não chegou nos 5 minutos seguintes a ele ter parado o carro. Nem sequer nos 10 minutos seguintes. Portantos, o rapazinho de Barrancos, fez o seu espalhafato e aguentou o tempo que foi necessário para que alguém viesse e o convencesse a voltar:
“- Volta Zé, não voes que tu não sabes nadar e a água está fria, vem cá que tás perdoado!”

E o animal voltou. Julga que conquistou novos 15 minutos de fama. E se calhar conseguiu. Mas isso nada vai mudar na vida dele. Ou no que resta dela. O problema base, é que o gajo é Servente de Pedreiro. Trolha. Sabe acartar baldes de massa. E isso só é desonra na cabecinha dele. É serviço certo, bem pago, bem visto e com grandes possibilidades de ascensão neste país de Construtores, mais do que de Navegadores.

Mas o gajo não quer ser Servente de Pedreiro. Quer ser estrela. E julga que é uma estrela. É claro que ele sabe que não canta, não dança, não pinta, não escreve, não tem corpinho de jeito e pior ainda, sabe também que não sabe articular duas palavras de jeito. Tudo isto ele sabe e sabe que nós sabemos. Mas ainda assim, o gajo não quer ser Servente. Quer ser estrela. Com estatuto e paga a condizer. E julga-se com direito divino a ser estrela.

O trolha é uma ignomínia, logo, vou voar! E logo da Ponte sobre o Tejo. Que nojo! Um bom barranquenho suicidava-se nos cornos do Toiro de Morte lá na praça da terrinha com direito a Olés e o toiro com direito a orelha. Aí sim tínhamos estrelato, merecido e imortal. Da Ponte sobre o Tejo continuamos a ter Servente de Pedreiro.

Mas o gajo julga que não e que da Ponte vai voltar a ser estrela. A voar.
Lisboa abocanhou-o, mastigou-o e cuspiu-o.
E vai voltar a fazê-lo. Só o gajo é que não sabe. Julga que é estrela.

14/08/04

Paris Hilton

Um dos maiores sucessos da internet: o video caseiro da herdeira da cadeia de hóteis, o melhor ícone da pós-modernidade: Paris Hilton. Siga o link, veja o video inteiramente grátis e contribua para a ascensão do Tapor.

08/08/04

O dia dos três Bês, por Bibi

A Confraria Satânica anda dispersa: Trinitá&Bambino banham-se a Sul, Mangas transporta a família, Nestum às voltas com a tese, o Banderas com muito trabalho e o Tinó deve andar nas ilhas gregas. Os outros não sei. Restamos eu e o Mau. Somos apenas dois confrades, mas tivémos ontem um dia em grande. O dia dos três Bês. Ou the BBB day. Bê de birdie, Bê de Bacalhau e Bê de broche. Por outras palavras: golf em Montebelo, tibornada de bacalhau em Tondela no 3 Pipos e até podia ter havido brochada no IP3 se aquela drogada desdentada que costuma estar na curva da Aguieira não se tivesse baldado. Como não estava, poupámos 5 euros cada um.
Em Montebelo, o jogo foi excelente. Experimentámos os tacos novos. Desta vez jogámos à tarde. Evitámos os inconvenientes do golf madrugador e saímos de Coimbra depois de almoço. Começámos a jogar pelas 4 da tarde e acabámos já perto das oito. O campo estava por nossa conta. Pelas sete horas, o Sol começa a esvanecer-se e gera-se magicamente aquela luminosidade coada e amarela. Interrompemos o jogo e espojamo-nos na relva. Silêncio absoluto a toda a volta. Não se vê viv'alma. Sente-se só o cheiro da relva a aliviar-se do calor e o ranger dos pinheiros. Sopra uma brisasinha de encomenda, muito leve. O céu está azul. Ao fundo, o Caramulo. Do outro lado, a Estrela reluzente aos últimos raios de Sol. Se os sinos da torre da igreja da aldeiazinha próxima tocassem uma «Avé Maria», aposto que até o Villaret era capaz de aparecer: Tocam os sinos na torre da igreja, / Há rosmaninho e alecrim pelo chão... etc. etc..
Não sei em que é que o Mau estava a pensar. Eu, cá por mim, no meio daquela rusticidade idílica, pensava: «isto agora ia mas era uma brochada!». Mas não havia putas e poupei masi cinco euros. Havia era passarinhos. A passarada andava num rodopio a aproveitar as últimas horas do dia. E nós ali espojados. No fim, um duche relaxador e fica-se com uma sensação de alma cheia. Estamos com fome e rumamos a Tondela, ao restaurante Três Pipos. Recomenda-se. O ambiente é rústico, familiar e acolhedor. Uma sala pequena, íntima e confortável. Serviço atencioso e competente. Como entradas, colocaram-nos umas tacinhas com uma punheta de bacalhau, polvo ensalsado e favas guisadas com chouriço. Bom, muito bom. O indicado para atenuar a fome. Depois, escolhemos cabrito assado no forno e tibornada de bacalhau. O cabrito estava bom, mas a tibornada estava melhor. Migas de broa com couve galega a acompanhar bacalhau cozido e desfiado. Regado com muito e bom azeite, gratinado no forno em taça de barro. Soube muito bem. Tudo acompanhado por um «Foral Grande Escolha 1998» por 11 euros o que, num restaurante, é preço aceitável. A carta de vinhos é, aliás, muito diversificada e tem de tudo. Desde o «Barca Velha 95» a 380 euros até ao «Pedra da Sé» a 4 euros. No final, sobremesas (eu comi um doce da casa feito de mousse, leite creme, natas, bolacha e noz moída, e o Mau comeu já não me lembro o quê) e café. 20 euros a cada um. Está bem, é um preço justo.
Pelo caminho, falámos de muita coisa. O Mau informou que anda a ler uma biografia de Goya e que este apelido é basco. Falámos de Goya. Por isso e lembrando-me também do post sobre a Olympia de Manet, onde o Grunfo referiu nos comentários como a Maja de Goya infuenciou a tela de Manet, decidi alinhar algumas reflexões.

06/08/04

Junk post nº 2

Advertência prévia:
Para rebentar de vez com as coronárias da dupla de censores Trinitá&Bambino autoproclamados como de fino gosto e autoridades vigilantes da qualidade postal do Tapor. Quando chegarem de férias e digitarem nos teclados www.tapornumporco.blogspot.com, hão-de sentir-se como aquelas famílias cheias de apelidos, como duplos éles e ipsilons nos nomes que foram passar a Páscoa de 74 à Suíça e quando regressaram às herdades viram a malta camarada da UCP a limpar o cu às rendas de bilros, as galinhas a pôr ovo nas mesinhas de jogo de pau-santo, o oratório da avó e o contador indo-português postos na coelheira e o faqueiro de prata a trinchar galinha velha mais os cristais alemães para sorver vinho a martelo. Mas é assim mesmo, o Porco é do povo, o Tapor está em auto-gestão. Como estamos na silly season, seguimos o exemplo do «Público» com aquela nova secção inominável assinada por pseudónimos originais, criativos e engraçados como Liv Vulva e Linda Copolace, e mandamos disparate para a frente. Pedimos desculpa por qualquer inconveniente e recomendamos os posts do Mangas.
Pela Comissão de Trabalhadores:
Sandokan


E agora, o post propriamente dito:
- Já cá vieram os senhores da SIC ou da TVI, ou lá o que eram eles, mas se os senhores quiserem eu volto a contar tudo outra vez.
- Se não se importa. Zé, estás pronto? Ok. Vamos lá então. Pronto. Comece lá então, minha senhora.
- Eu estava aqui atarefada com a lida da casa, quando tive que ir lá abaixo, à loja, comprar um raminho de coentros para pôr nos pézinhos. Ora, sucede que quando regressei, senti um barulho esquisito no quarto. Chamei pelo meu Armando mas ele não respondeu. Fui devagarinho e abri a porta porque ouvi o homem a arfar, a arfar, como se estivesse com a asma, assim com uma gosma muito funda. Quando entrei e acendi a luz da mesinha de cabeceira, foi então que a vi em cima do meu Armando. Apanhei um susto que até dei um salto para trás que até ia caindo, o que vale é que me agarrei ao cortinado. Estava ela, uma brasileira com umas cuecas daquelas muito pequeninas que até se lhe metiam pelo rego dentro e com um sutiã assim de pele de leopardo ou coisa que o valha, posta em cima do meu homem a chupá-lo com tanta força que ele, coitadinho, até estava sem respiração. E ela, a puta de merda, chupava, chupava com tanta força que nem me ouviu. Eu peguei no telemóvel e telefonei para a minha filha mais velha,ela até está a estudar Comunicação Social e casou agora há pouco tempo, e disse-lhe para vir cá depressa que o paizinho dela estava aflito a ser chupado por uma puta brasileira. Ela chegou num instante, foi mais rápido do que o diabo a esfregar um olho. Ela queria ir lá salvar o paizinho. Eu é que não deixei. Sabe-se lá o que podia acontecer. A minha filha chamou logo os bombeiros que separaram a desgraçada da brasileira que deixou a piça do meu homem toda cheia de nódoas negras, cheinha de chupões. O desgraçadinho teve que ir de urgência para o hospital de Santa Maria, que nem podia respirar. Mas a senhora doutora que o atendeu já disse que ele está melhorzinho e se Deus quiser vai ficar bom.
- E teve apoio de alguém? Psicólogo, ou assim?
- Tive sim senhor. Lá isso não me posso queixar. O senhor presidente já foi visitar o meu marido e até lhe deu a Grã Cruz da Ordem de Santiago.

05/08/04

Marilyn, por Mangas

“(...) Deixaste-me pendurado outra vez. Começo a habituar-me a esperar por ti. Não que me desagrade, mas sinceramente acho que desta vez foste longe demais. Já lá vão 42 anos, (faz hoje precisamente!) e tu, nada! O tempo é relativo, bem sei, mas fica sabendo que quando revejo um filme teu e tu sorris para mim, é como se o teu sorriso fosse um soldado que regressa da guerra. Eu sou a casa, os olhos e o corpo que o acolhe. Tentas-me também. Imagino-nos a pintar a manta na procura desenfreada do paraíso tantas vezes prometido nas tuas coxas. Calculo que um dia destes, quando eu menos esperar, me batas à porta sem aviso prévio. Abres as janelas dos quartos para entrar luz - tu que sempre foste uma mulher iluminada pelo pó das estrelas. Esticas uma toalha bordada à mão sobre a mesa da sala, regas os velhos canteiros que já não existem, enches de rosas vermelhas cada esquina da sala, enrolas-te nas minhas pernas e fazes aquelas perguntas que nunca fizeste a nenhum outro homem. Do género: «o que é que vem primeiro: o desejo ou a saudade? O partida ou o regresso?» E eu vou atrás como um patinho. Toco violino para ti, explico-te todas as coisas da forma como as entendo, tu escutas-me, lânguida e paciente. E tudo volta ao início.
(Mas há intranquilidade no ar, devo avisar-te! A tua partida foi pouco convencional e eu ainda te guardo alguma raiva, mas isto passa.)
Escreveram tanto sobre ti, tantas tretas e meias verdades, biógrafos e jornalistas que nunca te perceberam, que nunca perceberam coisa nenhuma da ilusão que criaste para te manteres verdadeira. Querias talento, mas tiveste apenas homens, dinheiro e fama. É imenso, bem sei, mas para ti, foi sempre demasiadamente pouco.

(Mas eu amei-te sempre. Desde aquele dia em que te conheci. Decidimos fugir daqui para fora no dia do meu aniversário, lembras-te? Roubei um Chevy vermelho modelo de 69, mão rápida no volante a toda a brida, olhos postos na estrada, o coração preso ao teu amor colegial. Tu serias a minha good bad girl, eu fazia o meu número paternal do protector apaixonado pelo prazer absoluto de te ver absolutamente feliz e cúmplice.)

O teu pecado maior foi essa imagem vacilante da fragilidade fêmea misturada com o harmonioso tesão das formas que, o teu corpo escandalosamente mais carnal do que mortal, branco e opulento, nunca reclamou cobrança. Porque se os teus olhos de cria-animal-acossada tivessem alguma vez percebido quem na realidade eram, talvez não comprasses tão caro o amor, talvez a santidade de puta angelical te fosse mais fácil de suportar e ainda estivesses comigo, admitindo, por exclusão de partes, que o tal pecado não mora ao lado.
Nunca devias ter entrado no The Misfits. E eu devia ter-te proibido! Era bom de ver: reunir três almas encalhadas, três corpos destroçados carregando o passado em ferida, em confronto com a fatalidade do destino moribundo, ainda para mais sob as ordens de um jogador inveterado, só podia dar no que deu. A morte foi a personagem principal e andou sempre por lá, escondida pelas dunas de areia, estudando as vossas dores e preparando com antecedência o golpe para, pouco tempo mais tarde, vos levar aos três de enfiada. E nenhum de vocês a pressentiu. O Gable porque era naqueles dias a agonia lenta de um condenado, um mortiço hepático; o Monty porque acordava todas as manhãs com Ela marcada nas cicatrizes do rosto.
( O John Houston não conta porque lhe ganhava ao póker se fosse necessário, já ele próprio tinha morrido várias vezes e como era irlandês, autor, e negro por dentro, estava-se a marimbar para todos.) E tu foste igual a ti própria. Esqueceste-te dela como te esqueceste dos diálogos e fizeste-os a todos suar em longas esperas no deserto do Nevada, mas no final, quando o filme ficou concluído, mostraste que a vocação irreprimível do cinema é o culto dos seres simultaneamente deuses e humanos - nem a religião do éter, nem a Asphalt Jungle, nem o teu seio a dar de mamar ao Menino onde quer que te encontres, foram capazes de revogar o sacrifício e adiar o fim.

(Jantámos nas calmas, fomos àquele bar com a banda sonora do diamonds are a girls best friends, gelo nas mãos para dar sorte, logo depois de tu teres entornado o copo de licor sobre o decote transparente do teu vestido azul metálico e me teres puxado pela mão para o quarto de banho das gajas, ali me teres pedido para ajudar a limpar, com quê? perguntei-te eu, com a língua!, respondeste-me tu!)

Percebo agora que não foram os comprimidos que te mataram. Foi a América. A América mascarada de branco que te olhou como a obscenidade mulata. Que devotou um falso amor à tua estrutura e esqueceu a tua fundação. Foram os homens que nunca esperaram de ti o que realmente possuíste para lhes oferecer. Foram os cabrões sangrentos dos Kennedy que só te queriam na cama e esconder-te do mundo com medo do escândalo. Com eles foste mais tramp do que lady. Foi o Sam Giancana que mandou a Mafia apagar-te do mapa para se vingar do Bob Kennedy que, na altura, andava a dar forte e feio no crime organizado. Foram os comunistas. Foi o panasca do Hoover e o seu FBI porque sabias demais sem suspeitar e tinhas ligações. Já tinha limpado o sebo ao Luther King porque começava a ser incómodo, porque haveria de hesitar contigo? Foram as tropas estacionadas na Coreia para as quais cantaste. Foi o Di Maggio que te amou até ao fim. Foi o Arthur Miller porque nunca foste uma das suas personagens. Foram as mentiras inventadas depois da tua morte e durante a tua autópsia. Cá para mim, acredito que quem te matou realmente, foi a Norma Jean que nunca deixou de te perseguir. A Norma Jean que viu a mãe internada num hospício aos sete anos e nunca conheceu o pai. A Norma Jean que saltou de casa de adopção em casa de adopção, que foi violada quando era ainda uma miúda, que cresceu com a auto-estima pelas ruas da amargura e que, na realidade, sempre foi mais inteligente e profundamente mais infeliz do que os teus personagens algumas vez nos mostraram.

(E continuamos noite pela fora, como se não existisse mais nada nem ninguém para além do desejo a lamber-nos por dentro como se fosse a primeira vez, da cor da tua pele fragmentada ao luar, que me ensinava a prosseguir e, do vestido adocicado que era urgente despir, já numa altura em que eu guiava sob o efeito de alucinações hard-core e tentava, em desespero de causa, arranjar um lugar para estacionar e fodermos como loucos, apagar as velas nas tuas mamas, cortar o bolo nas tuas coxas, enquanto tu abanavas freneticamente as ancas, com a cabeça fora do vidro, cabelos ao vento, cantando só para mim “Happy birthday to youuuuuuuuuu”...)

Sempre teu,
Albert.

04/08/04

DELÍRIOS de VERÃO (autênticos), por Gajo sem Férias

O doutor Fausto Cruz da Silva andava em campanha eleitoral pela província. Era cabeça de lista pelo círculo de Valença e foi visitar um lar da terceira idade com a SIC e a RTP atrás. A meio do lanche, com os velhinhos arranjados para a televisão, o candidato falou dos anos que levava ao serviço da comunidade.
- Ao serviço da comunidade, o caralho! Puta que o pariu! Que diga que anda há mais de duas dúzias de anos a chupar nas tetas da porca, a engordar a pança. Serviço da comunidade o caralho que o foda...
- Calma, senhor Ambrósio, olhe que ainda lhe dá alguma coisa...
- Calma mas é o caralho, este chulo do caralho vem aqui foder-me os ouvidos com esta merda de paleio de puta e você, sua vaca do caralho, ainda me manda ter calma? Vá mas é para o c....arghhhh...nhec....clak...grrrrr...aghhhh...ufffff....arf..arfff..
- Acudam, está a dar um ataque ao senhor Ambrósio. Depressa, plano 1 de emergência.
E da porta da cozinha, daquelas portas tipo saloon do far-west saem duas gajas em lingerie de pele de leopardo. Da porta das traseiras vem uma loura toda nua com as mamas a abanar (cahalop, cachalop), de trás do cortinado salta uma mulata brasileira com a bunda redonda que se atira ao senhor Ambrósio. Enquanto as da lingerie lhe despem as calças, cumprindo os procedimentos de emergência para estas situações, a senhorita das mamas a abanar afaga-lhe os colhões enquanto a brasileira se apresta para o fellatio recomendado nestas situações. De súbito, a governanta do lar «O Alegre Idoso», licenciada em Serviço Social, solta um grito indignada:
- Pára! Stop! Mas que é esta merda? Uma brasileira? De onde é que você é, minha querida?
- Ué... como assim? Eu sou lá do Nordeste. Porquê? Não presta, não?
- Pó caralho! - berra a governanta - estou farta desta merda. Na receita estava «uma brasileira do Rio Grande do Sul» e estes cabrões trocam-me a receita! O broche tem que ser feito por uma brasileira do Rio Grande do Sul, não pode ser do Nordeste, senão o paciente corre risco de vida!
- Ué! Eu não sabia não. E agora?
- Agora, foda-se! Agora segue em frente, mas vai levar um processo disciplinar!
Apesar deste incidente, o senhor Ambrósio foi salvo. O Presidente Sampaio agraciou a governanta Leontina com a medalha de mérito industrial. E fez um discurso lindo. Na hora da despedida, o presidente Sampaio arrebatou os aplausos da multidão e concluiu o discurso com um pedido dito com a voz embargarda de comoção:
- E tragam-me a taça de Atenas. Já que não ganhámos o Euro, tragam pelo menos a medalha de ouro na modalidade «Save Ambrosio, that great son of a bitch»