28/02/05

Santana? Quem é esse gajo?, por Tchaikovsky

Há uma coisa que me intriga e que não devia intrigar. É um clássico, já estava nas fábulas gregas: quando o leão está moribundo, todos os pontapeiam. Os primeiros são os ratos.
Santana Lopes perdeu as eleições. A derrota foi esmagadora. Onde estão os seus apoiantes? Quem lhe deu uma maioria tão esmagadora no congreso do PSD? Onde estão? O mesmo, aliás, já acontecera com Guterres que ganhara o congresso com 99% vírgula qualquer coisa e que depois caiu em desgraça. Na altura, só me lembro de ouvir o Carrilho a criticar o Chefe. Agora, poucos se lembram que o apoiaram. Mas em relação ao Santana, cabe perguntar se estamos a falar do mesmo Santana sobre o qual se dizia, ainda não há muito, que era um animal político, um lutador, um homem feito para ganhar eleições. Ainda me lembro da corte de santanetes e acólitos. Gabava-se a obra na Figueira da Foz, aparecia com multidões a apoiá-lo com aqueles actorzecos do Parque Mayer a louvarem-lhe a obra enquanto Secretário de Estado da Cultura. Em Coimbra, houve quem se lamentasse por ele não ter sido o candidato à Câmara Municipal. Santana aparecia em todas as revistas, comentava na TV e dizia-se que era brilhante e que tinha uma boa imagem, coisa indispensável para a política de hoje! Quando ganhou Lisboa, foi a euforia! Onde estão agora? Os ratos já fugiram? Já embarcaram no barco do Sócrates? Estamos a falar do mesmo Santana? daqui a uns meses, Sócrates voltará a ser o nome de um filósofo grego, estou certo.

A Tendência Mini, por M. Quant

Finalmente o Nico trouxe-me os Cds que eu lhe tinha pedido para gravar, vai fazer agora um mês. Uma saca do Continente cheínha de Cds, que eu não tinha e que estava curioso para ouvir com mais atenção, como Dandy Wharolls, Chemical Brothers, Groove Armada, Da Weasel, Sisters of Mercy e mais umas dezenas de músicos velhinhos como o Elvis, os Beatles ou os semi velhotes AC/DC. Entre muitos outros. Agora, o leitor de Cds do meu carro, está renovado para os próximos meses.

Esta experiência da abundância levou-me a observar uma coisa curiosa. Se eu tivesse que pagar os respectivos 20 euros por cada um destes cds, compraria, possivelmente apenas um por mês e era esse que me ocuparia a ouvir durante uma ou duas semanas. Mas agora, tanta é a abundância, reparo que me concentro nas músicas mais apelativas, naquelas que marcam logo à primeira audição. De cada disco, eu ouço, duas três músicas – às vezes uma – e passo ao seguinte. Verifico, pois, que a massificação do CD, altera os hábitos de «leitura» do mesmo. Quando tínhamos que pagar balúrdios por um CD, ouvíamos menos música mas ouvíamos mais em pormenor. Havia o sentimento da escassez do bem. Mas agora, com a possibilidade da massificação dos CDs temos, de repente, 50 CDs novos por mês ao preço da Maria Cachucha. Ouvimos mais Cds, é verdade, mas não ouvmos apenas mais: ouvimo-los de um modo diferente, sem paciência para ouvir todo o CD, cedendo ao gosto imediato das músicas mais apelativas à primeira audição. Quantas preciosidades estão por ouvir ainda, de entre os 50 CDs que o Nico me entregou numa saca do Continente? Muitas certamente.

Relembro Walter Benjamin e o que ele escreveu sobre a morte da «aura». Antes da fotografia só podíamos ver as grandes obras primas da pintura ao vivo ou em raras reproduções. Benjamin imagina que para o apreciador de pintura devia ser emocionante contemplar ao vivo uma pintura de Da Vinci. Uma duas vezes na vida senão fôssemos felizardos e não morássemos em Itália ou noutro local de exposição das suas obras. Mas com a invenção da foto a reprodução passou a estar facilmente disponível e a aquela «aura» que advinha da raridade foi-se perdendo. Pior que isso, tal como acontece com as minhas músicas, de da Vinci passámos a reter, apenas, a Mona Lisa estampada em T- Shirt e pouco mais.

Com os CDs é a mesma coisa: a digitalização veio facilitar-nos o acesso à obra e matar-lhe a «aura». E também aqui, retemos as Mona Lisas dos discos e deixamos na sombra, possivelmente, obscuras Madonnas dos Rochedos menos acessíveis. Ainda fará sentido, nos dias de hoje, que os músicos continuem a gravar em formato de 50, 60, 80 minutos? E os álbuns conceptuais, que nos habituámos a considerar como uma unidade estética, ainda têm lugar? Pense-se em Animals ou em Dark Side of the Moon dos Pink Floyd e na sua unidade de conjunto… Ou em The Lamb lies down on Brodway dos Genesis ou em Sgt Peppers dos Beatles. É certo que podíamos ouvir cada faixa destes discos por si, mas havia uma outra «leitura» que era a do conjunto e da sua espantosa unidade. Os Concept-Albums já parecem de outro tempo (apesar de brilhantes excepções como a dos Sigur Rosz)….

Mas hoje, pelo contrário, os putos de 14 anos não fazem a mínima ideia donde provêm as músicas que coleccionam num único mini-CD em MP3. Os álbuns caminham para os seu fim e, agora, os putos comentam entre si que «A Mafalda tem um MP3 porreiro» ou que «O do Miguel é mais baril». Quer dizer, o mini-CD é do it yourself, com uma música sacada daqui e outra dali. O resultado é uma compilação híbrida de várias proveniências e o que interesa é cada faixa por si, reirada de um conjunto que, muitas vezes, lhe dava o seu sentido pleno.

Talvez estejamos a caminhar a passos largos para um regresso ao formato do velho single, destronado nos anos 60 pela lógica do LP. As pessoas querem esta e aquela música e não a «tralha» que têm de gramar com a compra do álbum tradicional. Talvez eu esteja muito enganado, mas parece.me que isto é apenas mais um sintoma de uma característica mais geral da sociedade mediática: a tendência para a redução, para o denominador mínimo. O caminho para a sociedade mini. Do álbum estamos a voltar ao single (e já não falo do esquecimento dessa suprema arte que nasceu com o álbum, que é o cover, que também se perde inexoravelmente), do conjunto da obra à tela pop, do filme à soap, das licenciaturas de 5 para 3 anos, das teses de mestrado que levavam anos para os mestrados feitos à pressão e, finalmente, no que me parece um sintoma do mesmo tipo, da tese, do ensaio ou do romance, passamos gradualmente para o comentário jornalístico e agora, com a blogosfera para o post. Curto, directo e de não mais que duas frases! É por isso que eu tenho alguma esperança que não me massacrem nos comments a este post: como ele ultrapassa largamente o formato três parágrafos, acredito que poucos me vão aturar até aqui.

24/02/05

Ódios de Estimação: Os Comedores de Tartexes, por ZéCritério

De entre todas as possíveis espécies de compinchas de restaurante, há uma espécie nojenta que me faz sair do sério e explodir de irritação. Mais do que os Bebedores de Guaraná para acompanhar um Bacalhau à Lagareiro, pior ainda do que os Mastigantes de Pão, que limpam cestos sucessivos ao preço de euro o bico farináceo, e mais até que nefandos Comedores de Manteiga, os Comedores de Tartexes mexem-me com as tripas e são um dos meus ódios de estimação.

Tartexes são aquelas embalagens redondas e achatadas com uma pasta colorida e cheiro de sardinha podre depois de três dias de secagem ao sol, e com nomes tão pomposos como Paté de Sardines, Paté de Atum ou quejandos. Tais merdunças são fabricadas a partir dos restos de peixe, cabeças, escamas e espinhas incluídas, que sobram das fábricas de conservas de sardinhas e atum, e que após tritura e adição de farináceos leva um cheirinho de corante e aromatizante. Um nojo, em regra cobrado ao preço do caviar dinamarquês de arenque. Repescando o Xiita: “Eu cago melhor que isso!”

Estamos num excelso restaurante a salivar pelas iguarias encomendadas e em regra há sempre uma alimária que afinfa nos Tartexes. Saio do sério, faço questão de separar aquela merda na conta e debitar ao energúmeno. Digo-lhe daquela merda todo o piorio que o Maomé nunca se atreveu a dizer do toucinho. Conheço mesmo casos de gajos doentes que limpam os tartexes todos com pão, sempre com muito pão e depois deixam ir para dentro a maior parte dos filetes de polvo que pediram. Até espumo de raiva. Sacanas. Será que tal gente ignora que aquilo se vende ao quilo e a cinco tostões em qualquer mercearia de esquina? E gostam daquilo? Nojentos. Abaixo os Comedores de Tartexes!

23/02/05

A crise chegou à Igreja da Geografia, e não há PS que lhe valha, por Zinal

Quando menos esperamos chega a crise. Ela pode vir pela falta de poder de compra, pelos sapatos rotos na sola, pela falta de qualidade do leitão, enfim, por todos os meios, mas há sempre uma via que não esperamos, surpresos verificamos que nem tudo o que é fácil está na ponta da língua.

Vem isto a lume porque há dias bateu-me à porta o cura da Igreja da geografia.

Calha a vez a todos.

Depois de me tentar impingir três livrinhos e quatro ideias cinzentas retruquei com veemência que nem tudo estava no livro, nem tudo era segredo.

Após acesa contenda verbal fui obrigado a rebuscar o fresco na minha memória e disparei, sem saber que o fazia de forma tão mortal, e foi assim:

Então qual o número de cantões da Suiça?

Estupefacto nem o som do silêncio ouvi. Vi apenas caír alguns cabelos sem ouvir o som da coçadela.

Então e em que ano se constituiu o cantão mais recente e qual o seu nome?

(notem que não perguntei a hora, o minuto ou mesmo o dia, perguntei o ano, o ano, nem sequer era necessário escolher entre 365 ou 366 dias com mil raios).

É claro que me senti enganado, assim como quando vou a um tasco e de lá saio esfomeado.

Será que na última ceia a prelecção à confraria irmã foi preparada? As capitais estavam encomendadas? Dei comigo a pensar que era o Conde da Ribeirinha e que estava a ser esventrado pela Heidi ao som do tirolês.

Enfim, a Igreja da Geografia está em crise, e nada se pode dizer pois está em sintonia com o país.

Vou estudar uma matéria porque já não confio na geografia e assim como assim há-de de haver outro concurso em fim de noite…

This Weekend They Didn`t Play Golf, por DervixeRodopiante

O título deste post era a Tagline do filme Deliverance (Fim de Semana Alucinante), realizado por John Boorman, em 1972.

O filme até começa bem. Uma aventura de quatro amigos a descerem em canoa um rio da América profunda. São todos urbanos, sedentários, aquietados e pais de família. Todos, todos, não, há por ali um Burt Reynolds que foge ao um bocado ao estilo do grupo, numa de encorpado, sobrevivente, desenrascado, bruto e sargento de ferro.

Pelo meio a coisa descamba. Há uns Rednecks, rústicos, facínoras e tarados, que se envolvem com os canoeiros urbanos, e a coisa passa a arrepiar um bocado a partir dali. Julgo que toda a gente já viu o filme, uma vez que isto já passou dezenas de vezes na tv, embora a altas horas. Internacionalmente a coisa transformou-se em filme de culto. O melhor do Boorman e sobretudo a melhor actuação do canastrão do Burt Reynolds que a partir dali nunca fez mais nada de jeito.

Para lá das paisagens magníficas, do ambiente tenso e denso de um terror e horror crescente (um pouco à imagem do Conrad e do Appocalipse Now), e independentemente da magnífica fotografia e das excelentes actuações, há uma cena que perdura na memória e que marca o filme, assim como marcou o actor respectivo.

A cena é cruel e dilacerante. Nela o actor e vendedor de seguros no filme - Ned Beatty - é capturado por um Redneck desdentado e sob ameaça de morte, é violado no meio do mato ao mesmo tempo que é obrigado a guinchar como um porco. Mesmo sem imagens explícitas, a cena custa a ver e marca o filme. A partir daí o grupo excursionista transfigura-se por completo numa demonstração clara de que o homem é sempre o produto das suas circunstâncias.

O actor Ned Beatty face à crueza e intensidade dessa cena recusou-se inicialmente a fazê-la com o argumento de que a sua imagem ficaria para sempre ligada à mesma e que isso poderia limitar a sua carreira. Boorman e Reynolds deram a volta ao gajo e ele alinhou. Galo do catano. Deveria ter ficado quietinho porque estava cheio de razão. A partir dali nunca mais fez nada de jeito, nem foi convidado para nada de relevante. Ficou-lhe colada à pele para sempre a imagem do violado guinchador, o que o remeteu sempre para uma carreira de filmes série B.

Há tempos no programa da CNN do Jon Stewart, Burt Reynolds abordou isto e a argumentação que usaram para convencerem o Ned Beatty a fazer aquilo. Terminou a argumentação, dizendo que de facto nunca mais conseguiu pensar no amigo Ned sem que lhe viesse de imediato à cabeça o eterno guincho de porco e de dor. Ned Beatty é o guincho! Diz que o problema foi que o Ned representou a cena tão bem, que ela se tornou lendária por si própria. E riu-se. Riu-se muito. Uma vez canastrão, sempre canastrão. Com amigos assim, há de facto que guinchar!

22/02/05

Coimbra, Os Hipers E O Urbanismo Municipal, por PontoDeFuga

Recentemente, três firmas da área da distribuição viram recusadas propostas de aberturas de novas superfícies comerciais em Coimbra. Sobre as razões do chumbo pouco ficámos a saber. Segundo as declarações do presidente do município, questões de “equilíbrio urbanístico” conduziram à tripla rejeição dos supermercados Leclerk e Feira Nova e do Staples Office Center.
Acredita-se que a comissão local terá observado os procedimentos estabelecidos na Lei e, portanto, terá adoptado o método de análise nela prescrito. Acontece que esta decisão têm suscitado alguma polémica, de que têm feito eco alguns artigos de opinião em jornais locais e comentários em diversos blogs. Por isso, em nome do princípio da transparência, impõe-se a divulgação do texto integral relativo à ponderação de critérios que levou ao indeferimento de 3 projectos comerciais de que também se conhece muito pouco, para além dos nomes sonantes dos requerentes. A publicação dos respectivos fundamentos ajudará a compreender melhor a decisão bem como dissipar dúvidas sobre a sua objectividade. Até porque, contrariamente ao que se ouve dizer, “proteger os comerciantes da Baixa” não terá sido a única nem a principal razão do chumbo. Pelo menos é isso que se depreende do discurso oficial.
Partindo deste ponto, gostaria de chamar a atenção para a questão urbanística levantada pela instalação deste tipo de comércio. No quadro legal vigente destacam, pela negativa, a dispensa de consulta pública e a secundarização do papel urbanístico jogado pelas médias superfícies comerciais, prevalecendo a ideia de que é dispensável a elaboração ou revisão de planos de pormenor ou estudos de conjunto. No entanto, reconhece-se o impacto que estas superfícies produzem na rede urbana local, nos seus tecidos físico, social e económico (acarretando obras de infra-estruturas, acessos rodoviários, …). A procura de locais de forte acessibilidade automóvel (junto aos eixos de circulação), com preços do solo mais baixos do que no centro (permitindo criar extensas áreas de parqueamento) além de outros factores (mercado, emprego,...) conduz, invariavelmente, a localizações na coroa periférica. A escolha recai então sobre terrenos médios, isolados, junto a antigos núcleos populacionais ou de novos bairros satélites- como se pode apreciar na relação Modelo-Eiras-Bairro Sta Apolónia, ou Lidl-Pedrulha ou Lidl-Santa Clara- ou sobre grandes propriedades, com localizações semelhantes, mas obedecendo a uma estratégia de concentração, segundo o conceito de retail park- como aconteceu também em Eiras-Santa Apolónia e em Taveiro.
Aqui, a intenção é agrupar comerciantes com capacidade de armazenagem e politicas de desconto num recinto ao ar livre que reproduz, ainda que em diferente registo, o sentido de conjunto dado pelos velhos centros. Julgo que este conceito é útil à reflexão sobre o potencial urbanístico das superfícies comerciais de média e grande dimensão.
Como vemos acontecer em Alfragide-Lisboa, em Gaia-Porto e num exemplo de escala mais próxima, em Aveiro, a instalação conjunta destas superfícies, sobretudo quando associada a shoppings, serve de elemento catalisador de novos pólos de crescimento. Polos geradores de emprego, de áreas de recreio e lazer, e aglutinadores de novas formas de habitar, num quadro territorial urbano que definitivamente já não se esgota no cidade clássica compacta. Aqueles que estimam o casco antigo não deixarão de o usar pelo facto de aparecerem novas partes de cidade; a experiência recente da cidade europeia demonstra que as várias partes podem co-existir e que até aprendem a co-habitar.
A integração de investimentos comerciais numa cidade como Coimbra, onde o terciário é dominante, pode e deve ser encarada como um desafio ao urbanismo municipal. Aos responsáveis locais compete-lhes superar as vistas curtas da lei (meramente reguladora) e, partindo duma visão global, assumir um papel pró-activo nesta matéria. Se referidos a uma matriz estratégica, os diversos instrumentos urbanísticos (formais e informais) disponíveis permitem antecipar e acolher estas iniciativas. E isto sem prejuízo das centralidades tradicionais, as quais tendem a encontrar os seus próprios mecanismos de regeneração. No momento histórico que atravessa, talvez Coimbra precise mais de fazer cidade do que continuar ilusoriamente a adiá-la.

Moisés e o Sebo, por Mascarilha

O Moisés caminhava ao meu lado, rua adiante a caminho dos Cogumelos Aporcalhados do Zé Manel dos Ossos. Contudo, ao passar rente a uma montra de loja de estilo armada ao pingarelho da snobeira carota, o Moisés estacou e fincou os olhos numas botas catitas. As botas tipo Timberland ao preço de Camport, luziam na retina do profeta.

- Mau, deixa lá essa merda, e vamos adiante que estou com fome, vês essa merda outro dia!
- Péra aí, já vou, carago, deixa-me ir só ali dentro comprar estas botas…
Seca do catano, aturar compras do animal, e pra mais dele, que passa três semanas a namorar a compra e mais três meses para se decidir, fónix…,
- Olha, já ali vem, - Atão, pá, qué da botas?
- Não mas vendeu o ganda cabrão, diz que aquela merda é só para decorar a montra e não é para vender, o ganda cavalo, pera aí que já o fodo…

E encosta-se à montra. Disfarçadamente, como quem revê as botitas, o animal encosta e esfrega a testa no vidro da montra. Para quem passa e para quem está dentro da loja, ninguém estranha nem vê nada. Vê apenas um cliente a ver a montra. Não repara na testa encostada ao vidro. É que esta é a vingança tradicional do meu amigo Moisés, também conhecido pelo cognome de O Seboso. É que o gajo larga sebo! E que sebo! Aquela testa telúrica destila um preparado oleoso e gordurento que esfregado num vidro, cola-se como loctite e não sai. A esfregação e a limpeza só servem para espalhar mais aquilo. Um nojo! Parece uma pessoa normal, mas não é, é um autêntico Quimíco.

- Ó pá, não faças isso, porra, tamém não é caso para tanto, deixa essa merda, esquece!
- Esqueço o caralho, hádem-se foder a limpar isto! Boas e baratas, chulos, e a lata do cabrão a dizer que eram só pra decoração…

Má politica, ofender O Seboso. Três dias depois e certamente depois de três lavagens matinais e do desespero da empregada de limpeza, a mancha de gordura sebosa alastrou e desfeou a montra. A mancha compacta e baça, sobressaía do restante brilho e transparência. A limpeza apenas faz isso à mancha de sebo, alastra-a e não a limpa. Aquilo só sai com o tempo, diluente ou aguarrás. Desgraças do comércio…

21/02/05

Eleições de Retórica, por Sitting Bull

1. Vamos então ser processados. Nós, o povo português. O Santana anunciou, antes das eleições, a intenção de processar as empresas de sondagens que davam o PSD atrás do PS. Nenhuma, contudo, foi tão longe como a sondagem a sério, a das próprias eleições. O processo ao povo que deu 27% ao Santana e quase 60% à esquerda é, pois, inevitável.

2. Santana não se foi embora como a maior parte de nós, os portugueses, queríamos e lhe dissemos expressamente. E justificou: «com o mesmo resultado destas eleições, o PSD até já ganhou outras eleições». É fantástico: é como se o Artur Jorge (acho que era o treinador da altura) viesse dizer, depois de apanhar os fatídicos 7-1 com o Celta de Vigo, que «não é grave pois o Benfica até já ganhou outros jogos marcando o mesmo 1»!

3. Sócrates começou bem. Logo no discurso de posse afirmou que «ia governar para todos e não contra ninguém». Mas onde é que já ouvi isto? Governar é, por natureza, afrontar interesses instalados. Ao ouvir isto, veio-me à memória a figura de um patusco ministro do guterres que se juntou a uma manif de agricultores que protestavam contra a política do seu ministério. Se alguma coisa caracteriza uma possível ideologia do guterrismo é, precisamente, esta mania de agradar a gregos e a troianos. Já tínhamos saudades: eles aí estão!

4. A subida eleitoral do PCP confirmou as suspeitas: o Jerónimo ganhou mesmo o debate. Foi ele quem melhor falou.

5. Acabou-se a polémica da co-incineração. Sócrates ganhou por goleada a Coimbra! Dada a estrondosa votação no PS no distrito de Coimbra, fica Sua Excelência legitimada para fazer avançar a co-incineração na cimenteira de Souselas. Digo-o com tristeza e sem ironias. Sócrates tem toda a legitimidade para vir dizer que se não avançar com a co-incineração trai uma promessa que a própria população de Coimbra ratificou com o seu voto. Proponho que se calem em Coimbra aqueles que protestaram até hoje contra a teimosia do engenheiro com nome de filósofo. Coimbra merece a co-incineração! Merece mais, ainda: uma central nuclear – inteiramente segura e validada por uma Comissão Científica de encomenda - vinha mesmo a calhar. E, já agora, uma rede de lixeiras na periferia da cidade ficava a matar. Podíamo-nos candidatar a capital Nacional do Lixo. Acho que ganhávamos e merecemos o título.

As falsas irmãs gémeas de Theodore Chassériau, George Washington e o seu cozinheiro negro, por J. Cook

Ainda que não tenha na história da pintura o lugar que a sua precocidade prometia quando, ainda não contava uma dúzia de anos, frequentou o estúdio de Ingres, Théodore Chassériau (1819-1856) não pode ser considerado um pintor menor. Chassériau é, quando muito, um grande pintor menor. Se Ingres foi o último dos classicistas, o que sendo defensável não é pacífico, e Eugene Delacroix o maior dos Românticos, a ambiguidade de Chassériau define-se enquanto discípulo do primeiro e admirador do segundo.
A sensibilidade romântica contrapõe ao intelectualismo racionalista o mundo fervilhante do sentimento e da paixão. O Romantismo descobre o sentimento como elemento individualizador, numa época em que triunfam os valores do individualismo burguês e em que o cidadão se torna fonte de soberania e agente da história.
O retrato torna-se um dos géneros predilectos da pintura romântica, na medida em que satisfaz o intuito individualista da burguesia triunfante. O retrato é psicológico e por isso prefere o busto ao corpo inteiro, para que o olhar, esse verdadeiro espelho da alma, revele a personalidade única do retratado. Juntamente com a pintura de grandes paisagens, são os géneros preferidos dos pintores dos Estados Unidos da América. O que se entende sem necessidade de explicações alongadas. Nesta modalidade, merece destaque Gilbert Stuart (1755 - 1828) que teve o merecimento de legar à posteridade o rosto do herói fundador da América: George Washington. Neste retrato, vemos um herói austero e determinado. Dos seus olhos perpassa o puritanismo e a superioridade moral do fundador de uma nova sociedade, um desdém para com o Velho Mundo e os tempos antigos. Os seus olhos fitam os grandes horizontes da paisagem e do futuro americanos. Mas a obra maior de Stuart não é esta. Nem sequer um dos outros retratos que fez de Washington. É o Cozinheiro de George Washington, que pode ser apreciado no Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid. A Liberdade e os direitos individuais de Cidadania, valores fundadores da América, equiparam em estatuto, condição e personalidade, o herói fundador e o seu cozinheiro negro. Os dois retratos bem podem por isso ser considerados como o díptico da América dos fundadores.

Na era contemporânea, a soberania está na multidão, que é um somatório de cidadãos que se descobrem, cada um deles, como portadores de uma personalidade, de uma vontade e de uma capacidade de acção. A grande questão a resolver é como conciliar a necessidade da Ordem Social indispensável ao Progresso com os direitos individuais. A solução está na proclamação de um outro valor revolucionário, também ele retomado da ética cristã: a Fraternidade. A Fraternidade é uma imposição moral que limita o exercício da Liberdade, impedindo que se torne em egocentrismo antissocial.
Ora, quanto mais extremada e arrebatadora for a experiência sentimental, mais se individualiza o sujeito. Este é o princípio burguês e esta é a ameaça social. Este é o paradoxo. A questão fulcral é, e repito, como conciliar o valor fulcral da Liberdade individual sem que se ameace a vida pública? É esta agudíssima questão que se põe na tela de Théodore Chassériau. Este quadro, pintado em 1843, resolve o problema. Leva a Igualdade ao extremo para demonstrar que o princípio não é ameaçador da individualiddae. Para isso, o pintor retrata as irmãs como gémeas, apesar de terem uma diferença de idade de quase uma dúzia de anos. A irmandade que em Chasseriau se coloca ao nível familiar é expansível até ao limite da Humanidade, pois que para o optimismo romântico a utopia não tem limites e o universalismo dos princípios alimenta o mito da Fraternidade Universal. Nos Estados Unidos, a moral puritana e evangélica faz depender a Promissão e a prosperdidade colectiva das virtudes morais privadas, pelo que a salvação se pode comprometer no vício moral, instaurando-se assim o dever da vigilância dos cidadãos sobre os costumes privados dos dirigentes. Estes tendem por isso a propagar publicamente as virtudes domésticas, o que se pode ver neste quadro de Savage que atesta a robustez moral do Presidente, garantindo assim a prosperidade da República.
Voltando a Chassériau, as irmãs do artista, Adele e Aline, diga-se, não são particularmente belas. O que faz com que o artista as represente não é a beleza idealizada nem qualquer espécie de erotismo sublimado ou explícito. Pelo contrário, o pudor afirma-se logo pelo título e pela casta invocação da irmandade, pelas vestes e pela pose. Há também um puritanismo burguês e familiar, tipicamente romântico, mas sem as implicações que vimos no caso americano. Dada a diferença de idades, a semelhança é mais forçada do que real. Diremos mesmo, até pelos vestidos que são exactamente iguais, que Chassériau as quis pintar como gémeas, siamesas mesmo, posto que unidas pelo belíssimo motivo floral que debrua a parte inferior dos mantos, cujos padrões se conjugam perfeitamente. O penteado, as gargantilhas, tudo concorda em explicitar a intenção do artista em geminar as irmãs. Igualizando-as em tudo, podemos dizer que o que as distingue não é a forma nem o traje, isto é, o biológico ou o social, é a alma, é o espírito, é o sentimento. O que as diferencia é o carácter que adivinhamos no olhar mais determinado daquela que agarra o braço esquerdo da irmã, como que querendo conduzi-la. Esta, com o rosto pintado em três quartos, conserva uma rosa na cintura, o que pode indiciar um traço de personalidade mais dócil. Mais suave é também o seu olhar. E assim se distinguem, pela personalidade. Mas complementam-se numa fraternidade simbólica. Quer dizer, mesmo que extremando ao limite o valor da Igualdade, a individualidade não sai ameaçada, pois que o elemento distintivo é sentimental, psicológico, mental. No entanto, o individualismo supera-se na sujeição a esse ideal sintético superior que é a identidade colectiva, a Vontade Geral, o Espírito do Povo, que é mais do que um somatório de vontades, é um corpo místico. Assim como as duas irmãs se fundem num só corpo. A individuação a que a arte romântica procede nas personagens, através da psicologização retratista, é a mesma a que o nacionalismo romântico busca concretizar na organização das nações. O Nacionalismo não se antagoniza com o culto da Humanidade e da Fraternidade Universal. A Nação é a versão maximizada do conceito burguês de família. Tal como os indivíduos, também as nações possuem uma especificidade própria, histórica, mental e psicológica. Deste ponto de vista, as irmãs de Chassériau, que inicialmente nos pareciam tão idênticas, diferenciam-se por traços de personalidade e carácter. São tão diferentes como George Washington e o seu cozinheiro negro! Mas as irmãs, sendo diferentes, complementam-se e fundem-se num abraço sólido e fraterno, tal como o Presidente e o Cozinheiro Negro são gémeos autênticos no plano dos princípios. Pela Fraternidade se solve a aparente impossibilidade teórica de conciliar a Liberdade individual com a vida social. O que é dizer que o colectivo se sobrepõe ao individual sem aniquilá-lo.

19/02/05

O Voto Litoral, por Periférico

O Der Spiegel disse-o de forma lapidar, esta semana, mais palavra, menos palavra:
Os Portugueses sentem-se defraudados. Nem Sócrates nem Santana estão preparados para governarem o país. Um é o rei da vida nocturna lisboeta e um demagogo profissional. O outro não fez rigorosamente nada que justificasse a sua candidatura ao cargo de primeiro ministro.

Ver de fora ajuda a ver melhor, como é mais uma vez o caso. Apesar de tudo, discordo na parte que diz respeito ao Sócrates: não acho que ele não tenha feito nada para se candidatar a primeiro ministro. Acho, pelo contrário que ele fez pouco… Mas muito mau. E que o pouco e mau que ele fez – a teimosia da co-incineração, o discurso redondo e vazio, a inanidade do seu programa eleitoral, o ataque à classe média, as más companhias - desanconselham vivamente a sua candidatura.

Mas não importa. O facto é que o Der Spiegel acerta na mouche: estamos tramados com dois péssimos candidatos a primeiro-ministro. Neste contexto, já não chega votar em branco. É pouco. É preciso votar, votar contra o centrão cinzento, traduzir o nosso descontentamento num voto contra estes dois homens. É imperioso que nenhum deles tenha a maioria absoluta.

Como o Santana não corre esse risco – felizmente - e o Sócrates já ganhou – infelizmente – resta-nos minorar os estragos: impedir que PS homem governe com maioria absoluta. E é por isso que não se pode votar em branco nestas eleições, embora apeteça. De esquerda ou de direita, católicos ou muçulmanos, góticos ou betos, gordos ou magros, todos temos que votar. Num partido das franjas: no Bloco, no Jerónimo, até no Portas. Pode ser que o próximo governo caia daqui a 6 meses. Pode ser que os grandes partidos abram os olhos e que corram com os dupont/ds que lá caíram vindos sei lá de onde. Pode ser que daqui a seis meses esteja alguém capaz no lugar destes dois. Pode ser…

18/02/05

Este cartoon foi digitalizado a partir da «História de Portugal» dirigida por João Medina (vol. XVIII; p. 274). É um dos melhores cartoons que eu já vi. Uma economia minimalista no traço e tanto que fica dito. Foi publicado em Agosto de 1974. Em Portugal, corria o PREC. Em Espanha, Franco agonizava, mas a Ditadura lutava ainda desesperadamente por se manter. Portugal, que em tempo fora o alvo da cobiça franquista, primeiro, e depois o seu único aliado, era agora o palco de uma revolução que se temia pudesse contaminar a Espanha. Vir a Portugal era como frequentar um prostíbulo infectado. No mínimo, era pecado. O cartoon diz tudo: o poder da Igreja, a confissão, o pecado, o desejo de liberdade, a agonia desesperada do franquismo, a curiosidade sórdida do confessor, a moral hipócrita, o bolor da Espanha franquista, a subsidariedade do processo histórico na Península Ibérica. Do melhor!
















16/02/05

Os Meninos Abandonados, por António Manuel

Um dia destes tive uma surpresa quando encontrei à venda numa tabacaria os livrinhos de contos da famosa Colecção Formiguinha, que tanto alegraram a minha infância. Pequenas histórias morais, para benefício de meninos e meninas, como então se dizia. Comprei logo dois: O Menino Grão de Milho, numa versão algo diferente da que a minha avó me contava (também é verdade que de cada vez que a minha avó me contava a história, e foram dezenas, a versão mudava) e Os Meninos Abandonados. Não resisto a transcrever esta última, já vão ver porquê:

Era uma vez um homem muito pobre, a quem Nosso Senhor dera muitos filhinhos Ora, acontece que, certa noite de Inverno, não tendo tido dinheiro para comprar boroa ou azeite com que a mulher fizesse o caldo, disse a esta, já quando aqueles estavam deitados: - Não tenho coragem para tornar a ver os nossos filhinhos cheios de fome.Assim, caso estejas de acordo, o melhor é levá-los comigo para o monte, quando for à lenha, e deixá-los lá. A mulher concordou, mas o filho mais novo, que ainda estava desperto, ouviu a conversa. Por isso, mal apanhou os pais a dormir, levantou-se e foi muito surrateiro a um ribeiro próximo da casa, de onde trouxe um punhado de seixinhos brancos. Ao outro dia, pela madrugada, o homem saiu com os filhos para o monte, e o mais novo foi espalhando os seixos pelo caminho. Arranca ramo aqui, apanha caruma acolá, e o dia passou-se. E, quando caiu a tardinha, o homem carregou parte da lenha e disse aos filhos que ficassem de guarda ao resto, pois não tardaria a buscá-los. Mas o tempo decorreu sem que ele voltasse E, fazendo-se noite, os meninos desataram a chorar, cheios de medo. – Ai, manos,- gemia um – se o pai demora, não tardará muito que os lobos nos comam! - Se antes não vierem as bruxas e nos levarem a cavalo na sua vassoira, para nos assar no forno – soluçava outro. Então, o mais novinho sossegou-os, afirmando: - Eu sei o caminho. E todos os irmãozitos se puseram a segui-lo, enquanto ele se guiava pelos seixinhos brancos. Deste modo, em breve chegaram a casa, cuja porta estava fechada. Mas, encostando o mais novo a orelha ao buraco da fechadura, ouviu dizer: - que caldinho tão bom, meu homem! Só tenho pena de não ter comigo os nossos filhos, para lho dar. Quem sabe lá o que terá sido feito deles? Corta-se-me o coração ao pensar nisso… - estou aqui, mãezinha! – Gritou então o menino. A mãe abriu a porta e essa noite foi de grande alegria para todos. Não tardou, porém, que a pobreza crescesse E, por isso, o homem combinou outra vez com a mulher abandonar os filhos no monte. De novo, o pequenito ouviu tudo, mas como chovesse muito e, portanto, não lhe fosse possivel ir ao ribeiro, dirigiu-se à talhazinha dos tremoços e encheu uma algibeira deles. Pela manhã, seguiram todos para o monte e, á medida que caminhavam, o menino ia lançando fora os tremoços Os pássaros andavam, contudo, também esfomeados. Por conseguinte deram neles. Assim, quando à noite o pai o deixou e aos irmãos, ele não pôde encontrar o caminho, sucedendo perderem-se (…)”.

Bom, e assim continua o relato em outras tantas linhas. Resumindo, os miúdos acabam por ir ter a casa de um gigante que come criancinhas, conseguem fugir, enriquecem ao serviço de um rei, voltam para casa e tudo acaba bem, de acordo com narrador. Eu não sei é como pode acabar bem uma história com uma família tão disfuncional. Reparem: os pais resolvem abandonar os filhos num monte com o argumento estapafúrdio de que não os queriam ver com fome. E abandonam-nos duas vezes! Os filhos, coitados, que parecem sofrer de um certo atraso mental, à excepção talvez do mais novo, tudo fazem, por sua vez, para serem aceites de volta pelos pais, sem grande sucesso. Ora vejam bem o que diz a mãe ao jantar: “que caldinho tão bom, meu homem”. É claro que ao mesmo tempo vai temperando o caldo com umas lágrimas de crocodilo pelos filhos. Quer dizer, aqueles pais, em vez de dar o caldinho aos filhos, paparam-no eles e ainda tiveram coragem para o saborear, elogiando o seu tempero, quiçá dando estalidos com a lingua, sabendo que os filhos estavam num monte, ao frio e à mercê dos lobos e dos seus medos típicos de idiotas subalimentados. Volto a citar, para arrepio geral: “Que caldinho tão bom, meu homem”. Crudelíssima, esta transferência de afectividade dos filhos para o caldinho. E lembram-se que dizia o narrador, talvez cúmplice na ignomínia, que não havia dinheiro para a boroa e o azeite? Como ficamos, então? E porque não foram eles caçar aqueles pássaros que comeram os tremoços aos rapazitos? Esfomeados como andavam, seria fácil apanhá-los, não? E com os próprios tremoços não se faria um saboroso paté? A história não conta, mas aqueles pais devem ter acabado a noite num colchão de penas das galinhas com que fizeram o caldinho, a gemer lubricamente: “que fellatio tão bom, meu homem”. Agora, pergunto: Como terão crescido aqueles miúdos? Que respeito lhes merecem aqueles pais? Como poderão estes exigir protecção aos filhos na sua velhice? Nenhum, está bem de ver. Parece que estou a ouvir os rapazolas: “Que caldinho tão bom, ó manos! Pena que os nossos pais estejam no monte à mercê dos lobos e das bruxas! Hehehe”. E que efeito terá tido esta história na mentalidade dos que a leram? Como é que me terá afectado a mim? E a história da Menina dos Fósforos, retrato cruel da exploração infantil na industria fosforeira?

Há Posts Novos Abaixo Deste Post, por Anti-Mangas

Este Post é um teste. Um, Dois, Três...Teste. Quem aqui vem que vá aos Dois os Três Posts abaixo do Post do Casablanca do Mangas, que como Midas ao contrário que é - tocou e fez merda - desenculatrou por completo o Porco, que agora tem o rabo no focinho e a ficha eléctrica junto ao ku. Tá mal. A Gotika diz que é das datas. A ver vamos, o que se vê já com a publicação deste. Entrtanto e por via das dúvidas, vejam os posts abaixo do Casablanca: Take a Closer Look, There is Life Downunder, mate!

14/02/05

Casablanca para os Namorados, por Mangas

Casablanca, para além de todas as leituras possíveis é um filme sobre quatro personagens e dois triângulos amorosos. Rick Blaine (Bogart) é o vértice comum de ambos.

Deixemo-nos de histórias: Ilsa (Ingrid Bergman), por detrás daquela fachada de sweet-femme-fatale e nobre sacrifício à causa, comporta-se como uma cabra pérfida. Em Paris, descobriu afinal que o marido estava vivo, assumiu o estatuto das alianças, mas não teve a decência nem a coragem de o revelar a Rick e escolheu deixá-lo à chuva num comboio que não podia esperar. Nem sequer lhe explicou porque o abandonava. Até ao fim, Ilsa é o estilo de mulher que foi de dois homens mas não pertence a nenhum. Um caso perdido, ponto final. Quantos seriam os homens que, muitos anos após semelhante patada, não tendo recebido um telefonema, uma carta ou um pedido de desculpas para amaciar a auto-estima, seriam capazes de lhe dar a mão outra vez?

Mas Ricky não se livrou dela. O demónio serpenteou até aos confins do deserto e fez a sua reaparição pendurada ao outro. Ficamos a saber que o marido Victor Laszlo (Paul Heinreid), a recebeu de braços abertos sem nunca suspeitar que a lânguida e inocente Ingrid passara um tórrido Verão nos braços de Rick. Regressou de um anonimato esquecido, resgatou a esposa e devotou-se à Resistência com a bravura indómita de um herói. Nada mau para um corno manso ressuscitado.

Por seu lado, o homem da gabardina abriu os olhos quando foi deixado à mercê de um bilhete de ida. Não teve outro remédio senão perceber que as mulheres, em geral, são animais transitórios e exilou-se num hemisfério político de criaturas confiáveis - refugiados, assassinos, oficiais corruptos e nazis. A felicidade do flashback a Paris, o riso e o coração acelerado de passarão in love, entre um beberrico de Cordon Rouge e um «kiss me as if it was the last time», duraram pouco e ele teve de cavar dali para fora. Ainda bem. Bogart não foi feito para se apaixonar nem para planos a longo prazo que incluam a constituição de família. E, convenhamos, tudo aquilo soava contra natura, fragilizava-lhe a integridade e, por instantes, fez-lhe desaparecer o cinismo lúcido de duro. Corrompeu-o o amor, mas saltou a tempo. Posteriormente a amargura e a desilusão salvaram-no. O Chefe da Polícia Renault (Claude Rains), devolveu-lhe a confiança na espécie humana.

De facto, o grande romance é entre estes dois. No primeiro encontro com Ilsa, Renault esclarece-a dizendo à rival que se fosse mulher, o americano seria o tipo de homem por quem se apaixonaria. Vai-se percebendo que entre ambos começou por haver uma relação protocolar de contrapartidas, como em todos os casos amorosos - Rick é o macho generoso que deixa Renault ganhar à roleta do seu casino, enquanto este em troca, como fêmea agraciada e também em respeito pela sua incorruptibilidade, não lhe fecha as portas do negócio. A cumplicidade movida por interesses pessoais cresceu e acabou transformada no princípio de uma bela amizade. Afastando-se da plataforma após os definitivos gestos de altruísmo, (Rick despacha Ilsa impedindo assim que ela dê o golpe outra vez e Renault salva-lhe a pele dando ordens claras para reunir os suspeitos do costume), ambos seguem o mesmo caminho, lado a lado, como dois pombinhos enamorados de encontro ao nevoeiro que tudo apagará sem deixar vestígios e que sobre ambos encerra o manto da clandestinidade possível.

Quanto ao filme em si, enfim... é uma obra-prima. Provavelmente o mais inesquecível de todos os tempos.

O Mistério das Putas, por AlquimistaDaDor

Sim de facto, porque vai um homem às putas? Antes de mais porque é fácil, e barato, e como dizia o Pyros não há compromisso. O rapaz vai lá, descarrega e tá feita. Não há casório, gravidez, dia seguinte, aturar o paleio, a sogra, o sogro, a dor de cabeça, etc, etc. Simplicidade, Liberdade e Barateza.

Obviamente deixemos de lado as taras. Os gajos que lá vão para lhes bater, para que lhes batam, para lhes lamber os sapatos, pedir que lhes cuspam ou que lhes belisquem as sobrancelhas, não são para aqui chamados. Há gente para tudo, mas não é por aqui, até porque para esta gente as putas são um acidente e um acessório. A tara é que conta, não é a puta. E quando a puta conta, a ida lá para a satisfação da tara, advém sobretudo do que apontou o Pyros, a Liberdade da coisa.

Contudo, há algo mais, há algo de mítico que atrai na puta, seja ela de salão seja ela de estrada. Há um mistério em cada puta. Há uma mística especial, por mais velha, feia ou nojenta que seja a madalena e que atrai o homem. A aura de força. De um ser especial. Os tomates. O Porquê. Todo o homem é pai, filho, ou irmão. E o homem não vê ali a irmã, a filha ou a mãe, a não ser o verdadeiro filho da puta, mas esse aqui não conta. Em cada puta um homem vê mistério e vê-se a si mesmo, ou pior ainda, não se vê a si mesmo e fica atraído com muito mais força. Uma puta para dar em puta tem que ter força, tem que ter tomates, tem que lutar contra muitos e contra todos, o que essencialmente é uma característica de macho, seja ele homem ou mulher, e uma puta para ser tal, tem que se transcender como mulher e como ser humano. Há ali força, há amarras quebradas, há amarras novas e indizíveis, invisíveis e misteriosas. Há ali um ser novo, muito para lá que jamais imaginamos e sobretudo, disponível.

Como foi?, Como a tem? Como ali está?, porque ali está?, de onde vem e para onde vai?, tudo é um mistério intenso e apelativo para o homem. Ali está ela, disponível para quem queira, sem compromissos e por baixo orçamento. Um ser notável que transpôs qualquer coisa da fronteira social e que ali está para ele, à mão de semear. Disponível e oferecida. Misteriosa. Irresistível.

E não eu nunca fui às putas. Mas não resisto a olhar para elas na estrada, por mais feias que sejam e a tentar adivinhar o mistério que lhe está por detrás. E não, não é o David Attenborough que há em cada um de nós. Vai pra lá disso. É a necessidade de comungar, de saber e de beber daquela força. Resisto por armadura higiénica, social, moral e intelectual, mas a atracção está lá.

Morreu a Irmã Lúcia, por Doomsday

Ontem, dia 13 de Fevereiro morreu a irmã Lúcia. Tinha 98 anos. Paz à sua alma e que Deus a tenha no Céu em descanso eterno.

Entretanto, aqui na Terra é o mesmo delírio de sempre: um padre dizia, de manhã, aos microfones da rádio, que a data de 13 de Fevereiro não é inocente. 13, topam? É o mesmo número cabalístico de 13 de Maio, o dia da aparecimento da Virgem aos Pastorinhos no cimo de uma azinheira na Cova da Iria… Logo, a Previdência ao levar a Irmã Lúcia num dia 13 não é inocente, mas pretende fazer passar-nos uma mensagem, a de que devemos consagrar os dias 13 ao culto da Virgem. A Previdência sabe, pois, de semiótica, fala por sinais…

Ontem dizia o nosso actual Primeiro Ministro demissionário, em directo na RTP 1, que suspendia as acções de Campanha do Partido em respeito por esse grande vulto marcante do século XX, a Irmã Lúcia. Que foi importante, entre outras coisas, pelo seu papel na queda dos regimes comunistas e em particular da Rússia. Eu sei que parece, mas não é embirração com o homem, fónix, ele é que disse mesmo isto! Parece que a seguir o Vaticano também vai canonizar o Gorbatchev. São Gorbatchev, Irmão Gorby, soa bem…

Enfim, a Irmã Lúcia partiu em paz para o sossego dos Céus, mas aqui em baixo o delírio continua. O que é que havemos de fazer? Tornarmo-nos ateus e votarmos no Bloco de Esquerda?

10/02/05

O Fascínio Pelas Putas, por DervixeRodopiante


Num Post do Golmundo (http://ribeiranegra.blogspot.com/), a Gotika (http://gotikka.blogspot.com/) comentava um excelente texto dele sobre a cultura das alternadeiras eslavas, com a frase: “Desde sempre o sexo masculino tem sentido um grande fascínio pelas prostitutas.”

Esta frase veio ao completo encontro de uma discussão que ontem grassava numa digressão golfística do Porco a propósito das putas de estrada que por nós iam passando.

E de facto, dando de barato a fraca qualidade cultural dos exemplares de fauna de beira de estrada, certo é que, quer com essas, quer com as alternadeiras de bar - eslavas cultas ou brasileiras burras – ou com as Escorts Vip de topo de gama, isto é, qualquer que seja o segmento de mercado carnal, permanece sempre a interrogação da Gotika: Porque diabo é que os homens não deslargam dali? Donde nos vem os fascínio?

Mais do que respostas deixo a pergunta. Sigam os Groinks, que no fim há Selecção.

05/02/05

Cyborgs!, por Robot

Ontem vi o «debate» dos dois clones. No fim fiquei a pensar que deviam mesmo proibir a clonagem… Que dizer de um formato comunicativo (?) em que os dois interlocutores não se podem interromper, não têm o direito de se interrogarem um ao outro e se limitam a papaguear umas cassetes riscadas que já trazem ensaiadas – ainda por cima parecidas – na ponta das línguas? Teriam os Dupond/ts auriculares obscuros e alguém a sussurrar-lhes o ponto, como no teatro? Seriam mesmo eles que estavam a ali a responder perante as câmaras?
Perante tanto artificialismo lembrei-me do cartaz do PSD com a foto do Dupond do PS a preto branco. Acrescentei-lhe o Dupont do PSD e imaginei o resultado, a cinzento - «Você conhece estes homens?» Eles não deixam, não é?
Com a introdução do modelo americano nos debates em Portugal, conseguimos criar uma verdadeira originalidade com o selo de qualidade da nação: morreu o frente a frente. Nasceu o lado a lado!

04/02/05

Mas afinal, o que está uma puta a fazer no Panteão? por Grande Empernador

Se algum nacionalista místico-casticista, dos muitos que por aí grassam, se acha ainda membro participante dessa merdunça alienante a que o romantismo oitocentista chamou alma nacional, o que quer que isso seja, e que presuntivamente se expressa através de coisas tão vagas - tais como, uma alma lírica, um espírito universalista, uma mentalidade sebastianista e messiânica, costumes brandos, etc. etc. - e que tem como uma das formas preferenciais de expressão o fado, pois fique sabendo que, no que ao fado concerne, tem alma de puta! Por outras palavras: se o fado é a canção nacional pela qual se expressa o espírito místico da nação, então, eu lamento que a Nação se exprima como uma Puta! Esqueçam as larachas sentimentalistas que mitificam as origens do fado com umas nebulosas raízes mouriscas, esqueçam a patranhada que relaciona o fado com o cantar dos trovadores medievais, esqueçam as histórias que metem guitarradas e fadistas nos escombros de Alcácer Quibir ou a bordo das caravelas, esqueçam as origens remotas. Na verdade, a coisa é muito mais simples: o fado tem pouco mais de cem anos e é canção de putas e rufias. Veio do Brasil, onde a cultura afro-ameríndia produziu o lundum, dança brejeira e erótica cheia de empernanços, apalpadelas, pernas a roçar, etc. e etc. A gente sabe como é! Quando me lembro de um funaná dançado com uma mulata na festa dos estudantes caboverdianos ainda fico com tusa, apesar de muita água já ter passado debaixo das pontes! Punha-se um vinil da Cesária, do Ildo Lobo, do Travadinha ou lá o que era e depois juntavam-se os pares. A minha moça, boa como o milho, metia-me a perna no meio das coxas e o joelho roçava-me os tomates. E lá ia eu, dalalim dalalum com o escroto a coçar-lhe o joelho, dalalum para lá, dalalim para cá. Depois era a minha vez e sentia-lhe os grandes lábios a espreguiçarem-se no meu recto femoral. Dava um pau do caralho! Se eu fosse Inquisidor é claro que proibia. Se fosse puritano espreitava, se fosse depravado metia-me ao barulho, se fosse nacionalista aproveitava a música. Quer dizer, Amália é assim como prima de Cesária. Do Brasil, esta pouca vergonha saltou para as tascas de Lisboa pela mão dos marinheiros. Por entre naifadas, putedo, copos de vinho, rufias, brigas, estivadores, fumo, álcool e alguns petiscos, cantava-se o fado. A Severa foi o primeiro grande mito. Amante do conde de Vimioso foi retratada por Malhoa como antítese da Clara. Dentro desta estética naturalista, a Severa, com o seu proxeneta, num ambiente peumbroso de tasca, era o símbolo da decadência moral e física da raça portuguesa. A regeneração viria do mundo rural, onde as virtudes se conservavam intactas e saudáveis. É claro que este maniqueísmo simplista frutificaria. O fado cantava-se nas hortas, durantes os passeios pelos arredores de Lisboa e, lentamente, a boémia aristocrática começou a interessar-se por putas. Do interesse pelas putas veio o gosto do fado. E a pouco e pouco o fado foi ganhando dignidade social. Não tarda, as meninas de família começarão a cantar fado acompanhado ao piano, os meninos de família vão para Coimbra e dão roupagem erudita ao fado. No final, a Amália acaba no Panteão nacional, depois de ter tornado a canção em símbolo da alma nacional. Pelo que o título deste post se justifica plenamente. Sem ofensa pela Senhora Dona Amália (se houver por aí alguém capaz de me explicar porque razão nos devemos referir à Amália Rodrigues como Senhora Dona Amália, eu cá agradecia, 'brigadinhos) Pelo meio, a nossa aristocracia, uma das vergonhas nacionais popularizou-se e começou a achar piada ao fado. Teresa de Noronha terá sido o expoente de uma tradição que persiste com Pinto Basto e o clã dos Câmara Pereira. Fado fino, sem putas e com muita mística nacionalista. Canta-se a Virgem tal como os estudantes de Coimbra cantam as tricanas e os arrebatadíssimos amores de estudante. Claro que, aqui chegados, as origens do fado devem esconder-se. Como não há glória sem genealogia, escondidas as verdadeiras origens, há necessidade de inventar umas. E daí vem a patranhada do costume: D. Sebastião, caravelas, fatalismo mourisco, jograis, trovadores e etc. Eu, por mim, gosto desta alma de puta. Embora deteste o fado e a sua corte de merdosos: os aristocratas, o Carlos do Carmo o Paulo Bragança, o Marceneiro e essa cocozada toda. Gosto da Senhora Dona Amália, acho-a genial. Acho que não devia estar no Panteão porque aqueles anormais todos não são dignos de estar ao pé da Senhora Dona Amália. Devíamos fazer um monumento especial para a senhora dona Amália. A minha ideia é um altar num bordel com a senhora dona Amália abraçada ao Santo António do Rafael Bordalo Bordalo. Fotografava e punha na bandeira nacional!
Quem quiser ler mais, leia o excelente livro de Rui Vieira Nery publicado pelo «Público», cuja capa se reproduz. Silêncio agora, que se vai cantar o fado!

03/02/05

Reportagem, por Jaquim de Zurrara

«Quem usa boina é porque tem frio na cabeça»

As espantosas declarações que dão título a este relato foram obtidas pela nossa reportagem numa ocasião verdadeiramente excepcional. Por dois leitões e uma entrevista exclusiva fomos até ao fim do mundo, passámos para lá do fim da rua. Num raro momento de abertura, os Senhores dos Tonéis, Núcleo Duro e Braço Armado da misteriosa Real Satânica do Tinto, acederam a revelar ao grande público alguns dos seus hábitos e ritos. Sob rigorosas condições de sigilo, o repórter conseguiu finalmente penetrar numa das mais antigas organizações secretas do distrito de Coimbra, na sua peregrinação secreta ao Templo do Bolho. Permitiu esclarecer alguns enigmas, mas muito ficou ainda por descobrir. De resto, para o autor destas linhas, a própria localização do Bolho continua secreta, depois de horas às curvas por entre a bruma e estradas e caminhos irreconhecíveis, algures nas labirínticas entranhas da Bairrada, tendo, inclusive, o Membro do Movimento que nos conduziu ao Templo encenado ter-se perdido no sentido de ser impossível ao repórter reconstituir o percurso.
O carácter clandestino da Organização e da própria povoação onde teve lugar a Cerimónia, é realçado, de resto, pela data mística em que se realizou a Celebração, 28 de Janeiro, dia de São Tomás de Aquino, Presbítero e Doutor da Igreja e, como são todos os dias 28 de todos os meses, Dia do Arcanjo da Terra, como descobriu a nossa investigação numa publicação igualmente secreta e misteriosa, o Borda D’Água (“Reportório útil a toda a gente”).
Afinal, tratava-se de um acontecimento de magna importância para a Entidade, em plena Época Oficial do Plantio do Centeio da Couve Galega dos Nabos das Nabiças dos Rabanetes da Salsa e do Tomate. Mas sobretudo porque nessa noite se iriam definir hierarquias no centenário Grémio, mediante o teste da exigente Prova Cega dos Vinhos, liturgia de que se abstém o repórter de pormenorizar de tão insondável. As bombásticas declarações constituem, enfim, as primeiras palavras secretas do novo Mestre Cósmico do Tinto, que renova o mandato e a vantagem na liderança da Organização. Mais uma vez a honraria ficou na misteriosa terra anfitriã do Acontecimento, cabendo o Supremo Avental ao elemento bolhense, que adiantou desde logo à nossa reportagem, em jeito de promessa, que gostaria de ver a Cicciolina no lugar de ponta-de-lança. «Ponta de lança», afirmou categórico o novo Mister, que ofertou o repórter no final da cerimónia com três tangerinas, gesto altamente simbólico e respeitado entre Os Membros.
Até chegarmos às famosas primeiras palavras oficiais do líder, no entanto, este teve de superar uma competição impiedosa perante os restantes 12 comensais/competidores (o que perfaz, como poderá o leitor notar o Total perfeito e mais uma vez altamente simbólico de 13). Como nos concílios para a escolha do Papa, o ambiente é solene mas de grande tensão. A riqueza e a amplitude do debate, ao proceder-se à análise dos oito néctares em prova, não impede uma enorme agressividade competitiva e um intenso jogo de bastidores, não sendo raras públicas acusações de sinistros conluios e obscuras alianças de circunstância. A harmonia dos 13, apesar de firme nos propósitos, não resiste ao stress da escolha e da responsabilidade. «O processo está inquinado!», proclamava, alto e bom som, um dos Elementos no início da Prova, pondo irremediavelmente em questão a transparência do concurso e dando azo a uma constante troca de acusações entre indivíduos ou facções, acabando por favorecer, no entanto, uma dialéctica agressiva mas enriquecedora. Principalmente no episódio em que o Mestre é frontalmente questionado por um dos 13, acerca de um dos “tabus” desta celebração especial por alturas de vacinar porcos contra as doenças rubras: Comer ou não comer durante a Prova? Antecipando os dois bácoros bairradinos, amais o fiel Sarrabulho, um dos Elementos afrontou severo a mesa e disse, silenciando os presentes: «Esta merda não é nenhuma competição oficial foda-se, só não se come porque tu não gostas, caralho». Apesar da violenta troca de argumentos em torno da mesa, impassível na senda vitoriosa, o Mestre escutou atento mas lacónico os reparos dos seus pares. Ao centro, as oito garrafas em juízo, aguardando fumo branco.
O estado de espírito dos contendores reflectia, sublinhe-se, a própria complexidade do evento, claramente reflectida em pareceres que se iam escutando como «um tom violeta, quase verde», ou «um travo banana com manteiga», frases que traduzem a extraordinária minúcia da análise.
No fim, ganhou quem mereceu e não ganhou o vinho mais caro, pormenores que deixo para divulgação oficial do grémio satânico. A entrevista ao porco tricampeão decorreu precisamente no final da cerimónia, submetendo-se este, magnânimo, ao interrogatório dos demais confrades que, democraticamente, fizeram cada um sua pergunta ao mestre bolhense. Desde logo, e significativamente, o Supremo Méne revelou que se fosse treinador do Chelsea contratava imediatamente «o Manuel Fernandes, do Benfica». Bombástico, como discurso inaugural, mas mais maravilhamento estava reservado aos presentes. À pergunta «em termos tácticos, o que é que achas que o Trapatoni tem falhado no Benfica?», não deixou créditos por mãos alheias, ajeitou as costas para trás no seu cadeirão à cabeceira da mesa e disse, com rosto solene nas pausas e serenidade nas interrupções: «Opá, tem falhado muita coisa. Do ponto de vista táctico acho que ele ainda não afirmou um modelo de jogo para aquela equipa, modelo de jogo… Agora, o que é que eu preconizo?... Acho que ele tem de trabalhar mais, acho que é um treinador ultrapassado em termos da metodologia do treino, a equipa não corresponde em termos de modelo de jogo aquilo que ele pretende, porque acho que não trabalha…Do ponto de vista mental também acho que… [comentários laterais: «dá um prato ao gajo, parece uma alma penada!...», «está calado caralho!», «atenção, pá, deixem o homem falar… A sério, isto é uma brincadeira séria…»] … E penso que o Benfica este ano não vai ganhar o campeonato», afirmou convicto, deixando a todos rendidos na sala.
Bem mais importantes revelações, como a de qual vai ser a equipa vencedora da Super Liga, o nome do futuro campeão, entretanto, foram escamoteadas graças à incompetência ou à perfídia do Membro a quem coube a tutela do gravador, retirado ao repórter, impedido de intervir neste sub-rito. A parte do nome do clube, de facto, não ficou registada, mas não se perdeu a fundamentação, tornado as seguintes declarações num verdadeiro enigma gnóstico para os vindouros: «… Vai ganhar o campeonato porque é a equipa com o modelo de jogo mais organizado, mais coerente, mais consciente… Vai ganhar o campeonato». E está lançado o Mistério. Maior desafio foi porventura a questão seguinte, de um Elemento particularmente sagaz: «Dos treinadores da I Divisão quantos é que já trouxeste aqui ao Bolho?». A resposta esteve à altura da lógica tortuosa do interrogador: «Nenhum!», declarou o Mestre com determinação.
A demanda mais vil e complexa, no entanto, proveio do Membro espanhol da Confraria, que manifestou, mais em jeito de provocação que de pergunta: «Ganhar, ganha-se facilmente com vinhos portugueses, o difícil aqui é ganhar com vinhos espanhóis. Quando é que ganhas com vinhos espanhóis?» [comentário lateral: «Boa pergunta!»]. A resposta do Mestre foi demolidora, invocando a táctica do quadrado e o espírito da padeira de Aljubarrota: «Não conheço, não invisto no espanhol», foi a imediata e extraordinária contra-argumentação do lusitano bolhense.
Outro tema interessante foi o suscitado pelo seguinte inquisidor, que quis saber o que achava o Mister acerca da «relação entre o futebol e o vinho». A resposta não defraudou as expectativas do grupo: «O futebol e o vinho têm uma relação muito profunda. Escolher um bom vinho é como construir uma grande equipa de futebol» [comentário lateral: «Foda-se, óh égua! Está bem visto…»]. Mas a “piéce de resistance” estava guardada para o final, tendo sido reservada a honra da última pergunta ao iniciado do Colectivo, que a todos assombrou ao referir que trazia ali uma questão sobre «coisas sérias». Qual? Nada menos que: «Sócrates ou Santana?». Tema que proporcionou ao Mestre uma demonstração inequívoca de toda a sua virtuosa sabedoria, na obediência pelos princípios do Supremo Equilíbrio Cósmico: «Nem um nem outro», respondeu o Grande Mister, acrescentando que não tem por hábito utilizar dildos e outros artefactos de apoio ao coito. «Porque não preciso», precisou, pondo fim ao centenário Sub-Rito das Perguntas. E, por ser verdade, assim aconteceu.

02/02/05

Talvez ainda hoje - o novo post do Mangas (Pub)

Aborrecido? Cansado? A sua líbido anda em baixo? Perdeu a alegria de viver? Anime-se! O Mangas prometeu um post prás próximas horas. Vá passando por cá. Não perca aqui no Porco em exclusivo mundial.

Mozart e Salieri, ou a Mentira de Pushkin, por Mangas

Antonio Salieri (1750-1825), professor de Beethoven, Schubert, Weigl e do jovem Franz Liszt, foi brilhantemente massacrado há alguns anos atrás com o filme Amadeus (1984), de Milos Forman, cuja primeira montagem data do séc. XIX. Na realidade, o poeta russo Alekxander Pushkin mergulhado no romantismo descarado da sua época, escreveu em 1830 a peça Mozart e Salieri, cujo grande mérito é o de expor a dolorosa e infinita distância entre o vulgar talento e a genialidade absoluta, encenando a inveja como a razão motivadora de um crime – o assassínio do génio de Salzburgo. Nikolai Rimsky-Korsakov, compositor russo, transformou a peça de Pushkin num ópera estreada em 1898. Porque a ideia era original, manipuladora e polémica, o dramaturgo inglês Peter Shaffer foi atrás e escreveu a peça Amadeus, base do filme homónimo de Forman. A distorção dos factos reais resulta numa história fantasiosa do relacionamento entre os dois grandes músicos e num filme notável do princípio ao fim, pretexto cruel para tornar evidente que o sacrifício, a dedicação e o esforço árduo pela arte podem ser completamente esmagados pelo sublime pensamento criador de um talento nato. Amadeus vem de "Amado de Deus”. Génio (ingl. Genius; franc. Génie; al. Genie): «a divindade que é proposta a cada uma das coisas geradas e que tem a capacidade de gerá-las, S. Agostinho, De Civ. Dei, VII, 13»; «o talento criativo ou inventivo, nas suas manifestações mais altas».

A mestria de Salieri permitiu-lhe compor cerca de 46 obras de palco como, Falstaff, A Europa Desconhecida, A Escola de Ciumentos e Les Danaides, com a qual teve a honra de inaugurar o famoso Scala de Milão atestando a importância de seu nome na época. De acordo com alguns biógrafos, também cuidou generosamente dos seus alunos, vários deles destinados a ocupar um papel destacado na história da música clássica perpetuando dessa forma a memória do grande mestre de Legano. Porém, Mozart não se ficou por ninharias e desde muito cedo mostrou ser o eleito dos Deuses: compunha e executava com extrema facilidade e com uma complexidade impossível de acompanhar por quaisquer outras formas de pensamento musical. É que Mozart, para além de uma intuição musical muito acima do normal, foi também, e graças à disciplina férrea exercida pela figura paterna de Leopold Mozart, um talento trabalhado e espremido até à exaustão. O compromisso inteiramente devoto à música, aliado a um dom prodigioso que muito cedo imergiu em si, resultou em obras originais e reconhecidamente de alto valor, verdadeiros milagres de ritmo e emoções, encantamento e inovação.

1764. Wolfgang tinha 9 anos e os Mozart não sendo aristocratas viviam no meio deles em trajes de gala oferecidos, trabalhando arduamente num calendário de recitais para reis e imperadores. A lei do chicote não precisava de ser imposta porque a obrigação dos longos e exaustivos estudos de piano e composição era facilmente aceite por Wolfgang e sua irmã Nannerl. Foi nessa época que o miúdo conheceu Johann Christian Bach, filho de Johann Sebastian Bach. Bach e Haendel passariam a influenciar de forma determinante a sua obra. Entretanto o jovem Wolfgang foi eleito Mestre de Capela Honorário da Academia Musical de Verona e aos 12 anos escreveu a sua primeira ópera, La finta semplice. Em 1770, em Bolonha, aprendeu o contraponto com o Padre Martini e entrou para a Academia Filarmónica Bolonhesa aos 14. Regressou a Viena contrariando a vontade do pai e aí viveu os melhores anos da sua vida. A boémia, as gajas e as festas arruinaram-lhe as finanças e regressou a Salzburgo em 1979 onde tocou nos dois anos seguintes, com um profundo sentido de humilhação, para uma corte surda e distante da sua música. Mas ela, a divina e abstracta organização de sons e silêncios a que tinha acesso privilegiado, exultava! Compôs nesses anos a Missa da Coroação, a Sinfonia Concertante e a ópera Idomeneu. Foi recebido com honrarias em 1781, por José II Imperador da Áustria e Viena rendeu-se ao seu talento. Despedido literalmente aos pontapés pelo Arcebispo Colloredo, Mozart regressa a Viena e, enfrentando a oposição do velho Leopold, casou-se com Constanze Weber, irmã de Aloysia, o grande amor da sua vida que o havia rejeitado. Importa referir que à época, Salieri era agraciado pelos favores do Imperador José II, não só porque era um dos convidados habituais para o círculo de amigos e artistas de que se cercava, mas também porque participou activamente e durante largos anos nos esforços do Imperador em prole da música de câmara. Mozart era apenas um compositor entre muitos outros. O mais absolutamente prodigioso, é certo, mas custa a crer que a reputação de Salieri em Viena e na Europa, tivesse sido alguma vez ameaçada pelo génio de Mozart.

Aulas para sobreviver. Composições sob encomenda. Entrada para a Maçonaria em 1784. Perda do primeiro filho. Desgostos vários. Dificuldades financeiras. Mestre.

Escreve em 1786, As Bodas de Fígaro, cujo sucesso se estendeu a Praga, Dresden, Leipzig e Berlim. É interessante constatar que após a sua estreia em Maio de 1786, As Bodas de Figaro foi repetida seis vezes durante os quatro meses seguintes, e três vezes entre Setembro e Novembro do mesmo ano, tendo saído de cena para apenas voltar a ser apresentada em Viena, no ano de 1789, sob a batuta de... Antonio Salieri. O libretto foi escrito por Lorenzo Da Ponte, o libretista oficial de... Antonio Salieri (que após o ter apresentado a José II, lhe assegurou o cargo oficial de libretista da Ópera de Viena). Nunca Salieri se opôs ou manifestou desagrado pela colaboração entre ambos, ainda que estivesse dentro do seu poder fazê-lo. Numa pareceria perfeita, Lorenzo escreveu ainda o libreto para Don Giovanni, e Cosi Fan Tutte. Na sua autobiografia, Lorenzo Da Ponte, um libertino de reputação e putanheiro refinado, recorda todas as cabalas e intrigas da sociedade musical de Viena, mas nem uma só vez faz menção a algum comentário depreciativo ou rancoroso de Salieri para com Mozart. Para completar a eventual animosidade que pudesse existir entre ambos, acrescente-se que a soprano de D. Gionanni e de outras óperas de Mozart foi Catarina Cavalieri, amante oficial de... Salieri.

Fruto de uma criatividade febril, Mozart compõe de seguida Pequena Serenata Musical - Eine kleine Nachtmusik. Problemas económicos agravados; afunda-se em dívidas. Em 1791, começa a trabalhar numa nova ópera A Flauta Mágica, baseada nos esboços de Emmanuel Schikaneder, um conto de fadas contemplando os valores maçónicos, uma obra-prima de sensibilidade e encantamento. Sucesso retumbante. Assegura quem lá esteve que Salieri, comovido após a estreia, lhe teria dito embargado de emoção: “É a música mais bonita que já foi escrita”. Ainda em Julho desse ano, Salieri chegou a Praga para a coração de Leopold II com nada menos do que três Missas de Mozart na algibeira: A Missa Piccolomini, a Missa da Coroação, e K.337. De facto, Salieri himself, conduziu estes três trabalhos em outras tantas diferentes coroações: duas vezes para Leopold II em Praga e Viena e uma vez para Francisco II em 1792. Posteriormente, Salieri também dirigiu o coro da peça Thamos Rei do Egipto, bem como o Offertorium Misericordias Domini, em Dó Menor, ambas da autoria de Mozart.

1791. Mozart recebe a encomenda do Réquiem. Um personagem envolto em mistério pagou adiantado. Um Mozart profundamente abalado retardou a concluir a encomenda obcecado pela ideia de que a missa se destinava ao seu próprio funeral. Na realidade o mensageiro encapuçado era o mordomo do conde Franz von Valsegg, um senhor abastado que costumava comprar composições e apresentá-las como sendo da sua autoria. Pretendia o plagiador homenagear a sua mulher falecida recentemente. Mozart morreu à 1.00h do dia 5 de Dezembro de 1791. Nos óbitos consta “grave febre biliar aguda” mas não é de excluir intoxicação provocada por mercúrio, disponível naquela época através de um sublimado oral para tratar doenças venéreas. Actualmente, a hipótese mais aceite aponta para coma urémico provocado por uma esclerose renal. Facto: as centenas de pesquisas levadas a cabo nos últimos dois séculos, excluíram sempre a sustentação de morte por envenenamento. O que não sofre contestação é que Antonio Salieri não foi tido nem achado no assunto, que Constanze o encarregou de ser tutor do filho mais novo e que o Réquiem foi concluído por Süssmayer, discípulo de Mozart.

A verdade dos factos diz-nos que Salieri teria sido um protector de Mozart nos seus primeiros passos na corte de Viena; mas também que entre ambos sempre existiu uma rivalidade civilizada decorrente do facto de Salieri defender a ópera italiana vigente no seu tempo, enquanto Mozart lançava as bases para uma genuína ópera alemã.

A imagem do mito mostra-nos um homem encarcerado na infância espiritual, de gostos bizarros e práticas mundanas, apreciador de um bom peido, gozão, intuitivo, brilhante com os números e capaz dos assomos de paixão mais desenfreados. Para perceber as circunstâncias da morte de Mozart, é fundamental não esquecer o quanto o estigma da genialidade marcou a sua trajectória e fez dele um estrangeiro aos homens da sua época, um estranho às normas sociais do seu tempo. O superlativo não se adapta; eleva-se antes de tombar à vala comum, sufocado pela mediocridade. Mozart transcendeu-se anulando-se, sacudiu o Universo, e pelo meio dedicou-se a anunciar o divino a todos os mortais, incluindo Salieri. Este, para além de todos os raciocínios e inferências musicais que não pôde ou soube fazer, talvez também se devesse queixar do pai. Ou de Pushkin.

No final de Amadeus, a descida de Salieri ao inferno dos loucos é redentora:
“- Medíocres de todo o mundo, eu, príncipe dos medíocres, vos absolvo!”
Também nós te absolvemos, Mestre.


A Catedral do Bolho, o Aalto e um Diabo da Tasmânia à Solta, por Jibóia

Na Sexta passada, Catorze Pastorinhos ajoelharam e foram beber o seu Copito. Ao Bolho. Perdão, à Catedral do Leitão do Bolho, como ficou devidamente atestado em forma de Demónio emoldurado nas paredes daquela santa casa. Lá ficou também uma santinha azulada com os sagrados dizeres de “em Fátima rezei por ti” que foi confiscada numa casa de má fama e para ali levada como penhor.

Pela frente as hostes tinham para deglutir um frugal repasto composto de: dois queijos de Serpa, um de meia cura e outro de cura completa, um tabuleirão de cabidela no pingo de forno do leitão, dois leitões assados à Bairrada, de que nem as cabeças escaparam, dez kg de laranjas do bolho, uma sacada de pão e voilá: uma botelha de Real Companhia Velha, Porto, Vintage, 1980, ofertada pelo Mangas, uma Noval, porto, Lbv, 1998 do Xeko e ósdepois a vinhaça cega em forma de 6 tintóis de vulto. Pelo meio ainda houve uma merdunça francesa tintofila apresentada pelo Axigã, que só não lhe foi chapada nas fuças porque o peixuço fugiu. E fugiu com a botelha de Buçaco de 1998, na qual se anda para ferrar o dente desde há um ano a esta parte. Não perde pela demora!

Para a história regista-se ainda o consumo de 2 botelhas de litro e meio cada de Coca-Cola, uma colheita de 2003 e outra colheita de 2004, integralmente consumidas pelo Turista Jótta que veio ao Bolho em reportage. Aguardemos para ver. Benze-te, Rapaz, benze-te!

Na Prova Cega, o sacana do Sábio lá voltou a ganhar e ganhou bem, num conjunto de tintos de alta cagança como se pode verificar: 1º Lugar – Sábio – Esporão, Private Selection, Garrafeira, 2001 (Alentejo); 2º Lugar – Grão – Cruz Miranda, 2001 (Alentejo); 3º Lugar – Vice – Meandro, 2002, (Douro); 4º Lugar – Xeko - Aalto, Ps, 2001 (Ribera Del Duero); 5º Lugar – Nemo – Marquês de Borba, Reserva, 2000 (Alentejo); 6º Lugar – Xiita – Vinha da Defesa, Esporão, 2001 (Alentejo).

Nas Notas de Prova, cumpre destacar a do Bom, ex-Mau, que conseguiu deliciar-se com o aroma de “delícias do mar”, para além de amoras e cacau no Vinha da Defesa, por sinal o último classificado. No mais e como bom espanhol, não se coibiu de mandar mais uma patada nos vinhos portugueses dizendo do vinho nº 2 da prova cega: “típico frutado vinho of Portugal by carimbo alentejano”. Galo do catano. Este basco não acerta uma. E vai logo dizer isto do único tinto espanhol em prova, por sinal o excelente Aalto, Private Selection, 2001 de Ribera del Duero! Pior Nota de Prova de longe!
Por último, regista-se que finalmente e ao fim de 6 anos e de 38 Provas Cegas, foi atribuído pela primeira vez um novo título que até agora permanecia virgem no Dogma 78 e que encaixa no bruto que consegue alcançar 4 últimos lugares na Prova Cega, como é o caso do Xiita e do seu Vinha da Defesa. Temos assim e a partir de agora um DIABO DA TASMÂNIA:
DOGMA-SETENTA E OITO
(Do Diabo Da Tasmânia)
À Quarta vez que lhe for atribuído o prémio Vinagre, o distinto animal, recebe o título de “DIABO DA TASMÂNIA”, por definição: “ o pior bicho à face da terra, o mais pernicioso e nojento mamífero que a natureza se lembrou de criar, necrófago, predador, com as mandíbulas mais potentes da criação depois do tubarão branco, come as próprias patas quando se engana, devora as crias das fêmeas se estas não fogem a tempo, cheira mal, pinga constantemente do nariz, irascível antipático” e que obviamente, nada percebe de TINTO!

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01/02/05

Quem Não Quer Ser Coelho Não Lhe Veste a Pele, por Coelho da Silva

- Sr. Faria, como vai homem, entre, entre, você está um bocado combalido, homem, o que é que se passa?, sente-se, sente-se…
- Isto é coluna, Xôtôr; coluna, cabeça, joelhos, cimo das costas, fundo das costas, eu sei lá, o Xôtôr diga qualquer parte, que ela dói-me de certeza!
- Ó homem, mas que diabo de doença tem você?
- É a doença dos coelhos, Xôtôr.
- Dos Coelhos? Caça?
- Pois, o sacana do Manel da Júlia, diz que não me viu, que viu a silva a mexer e que julgava que era coelho e zás, uma cartuchada em cheio que ainda tenho 36 chumbos espalhados pelo lombo.
- Atão e os médicos não lhe tiram isso tudo?
- Dizem que não, que é melhor eu ficar com eles, senão retalhavam-me o corpo todo e dos quatro ou cinco que se alojaram na coluna era perigoso lá mexer…
- Ó homem, mas você assim aumenta muito o peso!
- Pois, pois, o Xôtôr, já está no gozo, comós outros todos. As minhas chapas até metem medo, olhe aqui…
- Ó homem você aqui nas radiografias parece uma árvore de natal…
- não goze xôtôr…
- não é gozo, tou cá a pensar é que você deixar de ir de avião a Inglaterra ver a sua filha…é que você vai fazer disparar aquilo tudo!
- Ainda mais essa, mas isso num é o pior, ó xotôr, o pior é que tenho quatro ou cinco chumbos aqui na cabeça, mesmo no sitio onde me costumo coçar e agora sinto os chumbos e nem posso coçar a cabeça e há sítios ainda piores como sentir a porra nos chumbos no rabo quando me sento na sanita...Maldita hora que fui à caça naquele dia, mas podia ser pior e dou graças a Deus!
- A Deus, ao chumbo e ao Manel da Júlia, ó ti Faria! Atão e coméqué vamos processar quem?: o Manel da Júlia, os médicos ou o fabricante dos chumbos...