31/08/05

As capas dos meus discos– Sticky Fingers, por Emplastro

Sempre achei que alguns covers são tão interessantes como alguma da melhor música que o vinil lá traz dentro. As atribulações dos vários covers de Sticky Fingers (Dedos Pegajosos) dos Stones é um exemplo disso, um testemunho sobre o eterno conflito entre a liberdade de expressão estética e a censura. No caso dos Stones os problemas com a censura não eram virgens. Uns anos antes, a capa original de Beggars Banquet (agora reeditada) que retratava o interior de um WC já fora censurada pela editora de então, a Decca Records. Mas a história repetia-se, desta vez com Sticky Fingers.

Sticky Fingers saiu em 1971 e é o primeiro álbum dos Stones para a sua própria editora, a Rolling Stones Records. A capa foi concebida pelo grande Andy Warhol. É a primeira das que ilustram este post, a famosa foto da breguilha, reza a lenda inspirada numa boca mandada a Jagger (o modelo foi um «cliente» da Factory do próprio Warhol, não Jagger).

No entanto o LP com a foto da braguilha já é uma versão relativamente recente da concepção original de Andy. De facto, na primeira versão, Sticky Fingers é lançado com um fecho éclair a sério que se podia abrir para satisfazer (ou não) as mentes mais curiosas.

Chega a ser lançada uma capa em que o fecho éclairé um coverde um segundo cover interior onde aparece a foto a cores das partes baixas de um gajo em cuecas (é a segunda imagem do post).

É claro que a produção de uma coisa destas não ficava barata e essa foi, sem dúvida, uma das razões para que os exemplares com o fecho fossem substituídos pela capa que todos conhecemos com uma simples foto da braguilha. Simultaneamente a raridade da primeira versão ganhou aura de obra artística e é, hoje, uma peça de colecção (vi um exemplar na exposição de Warhol, em Serralves, há uns anos atrás).

Mas houve outro problema com esta capa: a censura. A imagem, pasme-se!, foi considerada escandalosa e censurada em alguns países – como Espanha, por exemplo – o que obrigou os Stones a conceber um novo cover para Sticky Fingers, uma espécie de edição especial para países casmurros.

Pode dizer-se que a vingança foi total! Para os países que censuraram o cover de Warhol, os Stones saíram-se com a terceira das imagens deste post. Esta Visto à distância é claro que esta última, com os dedos nojentos na lata ensanguentada, é muito pior que a inofensiva breguilha. O que fica como uma marca do tempo: a mesma sociedade que se escandaliza com uma ténue alusão sexual não levanta objecções – a não ser de gosto – à exibição crua dos dedos ensanguentados a saírem da lata. Seja como for este cover é tão notável como o original. A concepção é de John Pasche, o criador da célebre língua stoniana, uma caricatura satírica dos lábios de Jagger, com simbologia satânica à mistura. Com o tempo, esta versão de recurso tornou-se uma das peças mais procuradas e bem pagas pelos coleccionadores de covers de todo o mundo. Se alguém tiver uma, esquecida no sótão lá de casa, guarde-a bem guardada ou dirija-se à delegação mais próxima da Christie`s. Pode ser que ainda ganhe o dia…

Brevíssima história do futebol, por Number10

Os ingleses inventaram o foot-ball para os brasileiros jogarem à bola. Ironicamente, o jogo teve o seu ponto mais alto quando o Maradona marcou um golo com a mão aos ingleses, lembrando que o futebol é um sucedâneo civilizado da guerra tribal. Os italianos complicam, desencantam e ganham, enquanto os alemães simplificam, desencantam e ganham. Finalmente, os ingleses transformaram o foot-ball num business enquanto o Florentino Perez, El Conseguidor, transformava o Real Madrid numa passerelle cheia de glamour.

30/08/05

Vou Mapor numa Porca – Porcão

Sirva este texto para dizer de minha injustiça a propósito do Tapor.

Ele-mesmo.

Em tempos, havia o telefone de casa da Mãe, que era uma rodela de números e servia para se mandar chamar o colega do liceu.

De repente, veio a internet com as cartas electrónicas.

Depois, nasceu o porco que sapõe em si mesmo.

Para moi, trata-se de um (raro) espaço de verdadeira liberdade expressiva.

Não um pós-expressionismo, mas, digamos, um expressionismo com uns pós.

Claro, é uma coisa aberta, tipo Sharon Stone (pronto, pronto, rapada, rapar prémios e outros requeijões de algo gabarito lácteo-humorístico).

Modos que as pessoas do Tapor não são pessoas na comum acepção da palavrinha. São mais bolos pseudónimos, vozes que do éter remoto consubstanciam sarcasmos, amarguras, piadolas, observações etc..

Aparece gente. E não só gente. Até mulheres aparecem: Gotikas, Didas e quejandas. Isto para grande uga-uga do Grão, a quem o universo fêmeo extraconjugal sempre (a)pareceu como eu-querer-queria-e-até-lá-ia-se-não-fora-a-patente-ilegalidade.

Eu não. Eu a níbel de gajas é tudo em termos físico-atléticos e com grande cultura táctica direitinho ao último terço de terreno. Sim, o Gabriel Alves é um dos meus cona-clastas.

De liberdade falei. Continuo a.

Queria-se dizer pertantos que a gente pode e deve dizer aqui o vai-pó-caralho que não consegue dizer na repartição de finanças. Podemos dizer: foda-se não, vá-se foder, por causa do seu cu tenho eu a pica a arder.

Tão a e’ceber?

Tudo é bem-vindo. Não há ofensas. Quanto mais cocó falado, menos merda a sério.

Deixa-se, por exemplo, brincar a gaiata às ortografias. Coitadita: que mal tem coçar a rateca com uma cedilha? Se um gajo se sentir grão, isto, melindrado, arresponde tipo assim: olhe, fáxavor de saber que sus pintelhos fossem estalactites a cona da sua mãe era mais turística que as grutas de miradaire.

E pronto. Agora, vou mapor. Fodei-vos bem uns aos outros e contai comigo: eu vou atrás que sou coxo.

29/08/05

Brevíssima história do rock'n'roll, por Zapman

O rei Elvis Presley inspirou Jim Morrison que morreu jovem e bonito. Jagger e Richards fizeram de Lennon e Mcartney uns tótós. Ian Curtis matou-se a ouvir o The Idiot de Iggy Pop. Iggy Pop abriu o caminho punk e misturou Morrison com Jagger. Yoko Ono acabou com os Beatles, os Sex Pistols disseram que não havia futuro e Kurt Cobain matou-se aos 27 anos.

Outra vez os homens e as mulheres – parte II, por Marsapo

Image hosted by Photobucket.com

A imagem que ilustra este post é o próprio post. Não interessa se já é conhecida e já passou nas caixas de correio de toda a gente. Está aqui para ser comparada, para ser lida segundo um ângulo novo, à luz da comparação com as imagens da campanha da Walis que estão aqui no Tapor, dois posts abaixo.

Na campanha da Walis os homens são-nos apresentados como seres frágeis, completamente subjugados à beleza distante e perigosa da mulher que passa na rua. Os homens são insignificantes, pequenos, desastrados, tímidos e embaraçados. Ao passo que as mulheres, aquelas mulheres distantes e anónimas – desconhecidas – por natureza, são-nos apresentadas como inacessíveis seres superiores.

Esta imagem sem autor, pelo contrário, é a antítese da campanha da walis, como podem ver: o homem é um boçal insensível que escravizou, desvirtuou e violentou o ser divino que vimos na campanha publicitária. Aqui é o homem o superior – se se admitir que o carrasco é superior e não inferior à vítima – e a mulher a inferior. Mas, triste superioridade, o homem não é um Adónis e a mulher é só um substituto de um animal de carga. Esta imagem dói-vos ou faz-vos rir?

26/08/05

Yellow Submarine, por Gringo

Image hosted by Photobucket.com
Os comentadores desportivos nacionais ainda não perceberam muito bem o azar que teve o Glorioso no último sorteio da Champions League. Dizem que somos a segunda equipa do grupo, logo a seguir ao Manchester. Mal imaginam que a melhor equipa do grupo é, nem mais nem menos, o Villa Real, também conhecido em Espanha como O Submarino Amarelo, devido à cor das suas camisolas. Eu já conhecia a maior parte dos jogadores da equipa, principalmente os argentinos, dos quais fiquei com óptima impressão nos Jogos Olímpicos, nos torneios sul americanos e no mundialito da Alemanha. Mas acontece que, em Espanha, tive a oportunidade de ver os Submarinos fazerem gato sapato dos ingleses do Everton. Só vos digo: aquela equipa parece o Real Madrid do inicio da era Queiroz.

O onze base é o seguinte: Barbosa; Kronkamp, Gonzalo, Quique Alvarez e Arruabarrena; Senna, Tachinnardi (ou Josico) e Sorin; Riquelme, Forlan e Figueiroa; De fora ficam jogadores como Venta (lateral direito titular até à chegada de Kronkamp, esse mesmo que os tripeiros também queriam), Roger, José Mari ou Guayre. Como se vê, esta equipa de espanhola só tem o nome e a localização. No onze base, o único espanhol é Quique Alvarez, stopper competente e experiente, mas económico, como é hábito nos jogadores de marcação. Quanto ao resto, há uma comunidade de argentinos (Barbosa, Gonzalo, Arruabarrena, Sorin, Riquelme e Figueiroa (Lucho na camisola), um Uruguaio (Forlan), um brasileiro (Marcos Senna) e um italiano (Tachinnardi, ex-juventus).

A defesa gira à volta daquele que em Espanha já é considerado pela imprensa espanhola um dos melhores centrais do mundo: Gonzalo. Trata-se de um jovem argentino, rápido, duro, ágil, um pronto-socorro que vai a todas e que está em todo o lado. Gonzalo mata lances nas alas, como no centro e sabe sair a jogar. Não é muito alto mas tem um poder de elevação notável.

Dos outros defesas (não vi Kronkamp), salienta-se, como traço comum, a dureza e a eficácia. É difícil passar, principalmente pelo lateral esquerdo, Arruabarrena, que ainda por cima conta com a ajuda de Sorin, um dos melhores ala esquerdos do planeta, tanto a atacar como a defender. Quando é preciso, Arrubarrena encosta aos centrais e Sorin faz de lateral. Em situação de posse de bola, Sorin é médio-extremo e parece movido a pilhas duracel. Não é por acaso que é titular da selecção argentina há anos.

O meio campo conta com dois excelentes trincos: Tacchinnardi (que ainda não está em forma, mas é, indiscutivelmente, um jogador de classe) e o espantoso, Marcos Sena, um brasileiro que faz lembrar o melhor Makelélé. É o primeiro tampão defensivo, mas não se limita a virar o adversário. Desarma e sai a jogar, finta e passa com o mesmo à vontade na ala ou no meio. Aposto que em pouco tempo está no Real Madrid.

Na ligação defesa ataque, o Villa tem aquele que é, talvez, o melhor número 10 do mundo: o argentino Juan Riquelme. Riquelme merece um post à parte só por si. Enquanto jogou na Argentina foi considerado um génio, um fenómeno quase ao nível de Maradona. Titular indiscutível da selecção, chegou depressa à Europa para jogar no Barça de Van Gaal. Mas o holandês nunca percebeu o futebol de Riquelme: com as suas concepções militaristas, Van Gaal, quis fazer de Juan uma peça num sistema. Riquelme faria de Litmannen, o número 10 do Ajax de Van Gaal. Teria, pois, que correr como os outros, desgastar-se, defender, morder as canelas aos adversários. O ex-seleccionador argentino, Menotti, um intelectual da bola, ainda veio alertar para o risco desta standardização do futebol de Riquelme. Tentou explicar que Juan não é um jogador rápido nem nunca o será, que não é um médio de briga à boa maneira europeia, é um romântico, um artesão genial desde que jogue em liberdade. Van Gaal achou que não, que a equipa não pode ser construída em função de um jogador, mas que este é que se deve adaptar á equipa. Resultado: Riquelme foi um fracasso no Barça, foi assobiado constantemente pela afficcion e saiu a preço de saldo para o Villa Real. Aqui encontrou Pellegrini um treinador que lhe deu a liberdade que o seu futebol criativo necessita. Juan voltou a ser o vagabundo encantador que sempre foi no River Plate: faz passes milimétricos de 30 metros, esconde a bola como ninguém, parece que não anda mas quando vamos a ver está só com o guarda redes à frente. Ele é mágico: faz parecer que é fácil jogar futebol. Rapidamente regressou à actual e excelente selecção argentina, onde voltou a ser o líder maior. Estão a ver aquelas coisas impossíveis que o Zidane fazia com a bola nos eus melhores tempos? Riquelme é o jogador que mais se lhe assemelha, no estilo, na precisão, na criatividade.

Finalmente, no ataque está apenas o melhor goleador do campeonato espanhol deste ano, Dego Forlán, outro fracasso no Manchester, mas que, também ele, reencontrou nos amarelos o prazer do jogo. Forlán é um perigo e não sei como é que o vamos segurar. E ainda, last but not the least, Lucho Figueiroa, titular da azul celeste no último mundialito na Alemanha, onde se destacou como grande goleador. Uma vez embalado é, simplemente, imparável. Com Riquelme a servir é muito complicado evitar que chegue a bolas que lhe caem na frente como se tivessem sido lançadas com a mão.

Chega? Não. Ainda há aqueles suplentes todos de qualidade, como Josico (ou Tachinardi) Guayre, o canhoto, ex-barça, Roger ou Josi Mari. Qualquer um deles tinha lugar em qualquer equipa portuguesa, mas no Villa Real, por enquanto, só podem ser suplentes. E depois disto ainda me vêm falar no Manchester? Antes deste sorteio eu só pedia aos santinhos para não nos calhar o «Submarino Amarelo»…Tivemos azar. Mas em futebol não há vencedores antecipados e o Benfica tem as suas hipóteses. Quem sabe se desta vez os Vermelhos não afundam aquela que é, neste momento, uma das melhores equipas europeias. Seria uma pena, mas acho que o Villa vai ter que se aplicar com os ingleses do Manchester. Entretanto, como temos um adepto do Submarino Amarelo entre nós, o nosso basco, O Mau, já combinámos por telefone e vamos lá estar na Catedral: eu de cachecol vermelho e branco, ele, certamente, de «camiseta» amarela. Para mais inscrições é favor marcar lugar nos comments a este post.

25/08/05

Bécóquedáun, ou Porta-Aviões ao Fundo, ou O Pico e O Fundo, por Je Suis Três Content d’Étre Ici

Image hosted by Photobucket.com
Tenho para mim que Ridley Scott, como outros cineastas como Michael Cimino, é daqueles criadores de uma obra só. Atingem a grandeza como num pico de forma e depois é sempre a descer, com alguma irregularidade, como os gráficos do PSI 20 ou as montanhas. Não é a pique mas também nunca mais entusiasma.

O pico da cordilheira criativa deste Scott foi atingido há quase 25 anos, em 1982, com o drama de acção futurista Blade Runner. Talvez se compreenda melhor o feito, sem contudo desmerecer o mérito do realizador, se atentarmos no facto de ter tido a ajuda de um sherpa fora de série na ascensão: O escritor de culto Phillip K. Dick, um dos expoentes da literatura de ficção científica dos anos 50 e 60, que escreveu a novela Do Androids Dream Of Electric Sheep?, em que se baseou o cineasta para o filme citado. Blade Runner é uma obra extraordinária a todos os títulos, e o argumento não é certamente o mais frágil.

Seja como for, Ridley Scott também é produtor. Desde, pelo menos, 1965 que não se limita a criar, a dirigir câmaras, actores e enredos, produzindo desde então dezenas de filmes, dele próprio e de terceiros. O que é que isso interessa? Muito. Faz dele um verdadeiro homem da indústria, particularmente sensível aos mercados, aos públicos, às questões financeiras e comerciais, um mestre no ofício do block-buster e da pipoca – às coisas para as quais, em suma, o verdadeiro e genuíno artista se está positivamente a cagar. E digo isto sem desprimor ou desprezo, que também eu, como quase toda a gente, gosto de block-buster’s: Cumprem a sua função e, no seu plano, são bons porque têm sucesso junto de um grande público. Gosto, no seu plano relativo, mas gosto, sou humano e também gosto de emoções básicas e contextos simples para desenjoar da vida. Venham então eles e que floresça a indústria do cinema! Viva Hollywood e Bollywood e etc.!

Vejo, no entanto, um block buster mais ou menos com o mesmo desprendimento com que vejo um jogo de futebol. Ou como os apanhados na TV: farto-me de rir com aquela merda e divirto-me que nem um perdido apesar de saber que é estúpido e que se me acontecessem a mim algumas daquelas situações ridículas ficaria pior que estragado. É entretenimento e espectáculo, epidérmico. Entretém e exalta a tripa. E dali não se retiram grandes consequências ou ensinamentos, além da satisfação e do prazer imediato, fugaz, não obstante prazeiroso.

É outro plano de satisfação, menos elaborado. E com um block buster também é um pouco assim, sendo que um filme, por mais merdoso que seja, tem sempre a sua história, a sua mensagem, o seu “argumento”, alguma coisa a “dizer”. O que o distingue do restante cinema reside na sua falta de subtileza. Se for demasiado subtil (na medida em que Bergman, David Lynch ou Gus Van Sant serão exemplos de criadores subtis) é um fracasso na bilheteira e no bolso dos Scotts e da indústria. É tudo muito rápido e de percepção imediata, sem grande mistério ou profunda filosofia. Tudo o que está ali em causa, em obras como o Titanic, A Ilha ou a recente Guerra dos Mundos, é entendido por todos em pouco tempo sem ser necessário um particular esforço mental, com recurso a uma estética fulgorosamente (às vezes…) sofisticada e hiper-realista.

Blade Runner tinha precisamente essa subtileza de não ser óbvio, essa enorme qualidade que lhe advém da sua deslumbrante beleza plástica, sem dúvida, mas em grande medida também do trabalho de base literário de Phillip Dick. Subtileza que nunca mais vi nos seus filmes. Pelo contrário, o que retenho dele depois disso são sobretudo picos rasteiros no gráfico como o GI Jane ou o militarista e propagandístico Black Hawk Down.

E enfim chego onde queria começar.
Este último filminho andava-me aqui atravessado desde que foi endeusado neste blogue aqui há uns tempos atrás. Uma maravilha! Deliciava-se o autor, completamente rendido à monumentalidade da obra em tons de verde-tropa e estética de video-clip! Uma coisa prodigiosa! Pois agora é a minha vez de dizer aqui que o Black Hawk Down é uma merda de um filme. Pior: É uma merda de um filme de guerra. E pior porque a um filme de guerra uma pessoa decente exige mais do que simplesmente espectáculo, porque a guerra é um assunto demasiado sério para não dar nos dar um nó na garganta quando assistimos a um veículo artístico de massas ser transformado em mero folheto político de ética duvidosa, sem qualquer subtileza ou escrúpulos – basta atentar, por exemplo, na vomitosa conversa à mesa entre o general norte-americano e o senhor da guerra somali, para se perceber de imediato de que lado e de que forma está o artista.

Black Hawk Down, além de ser propaganda descarada à Casa Branca, ao Pentágono, à indústria de armamento, à direita militarista norte-americana, é um objecto artístico imoral e pornográfico, onde os actores (?) se subsomem num contexto que banaliza a violência, a guerra e glorifica essencialmente uma coisa: As forças armadas dos EUA. Espremido, além deste engajamento ideológico e patriótico, não tem mais sumo nenhum. É um continente sem conteúdo. Com menos sofisticação visual mas com os mesmos fundamentos e a mesma superficialidade vemos, vá lá, as inanidades do Chuck Norris a resgatar POW’s no sudeste asiático.

Black Hawk Down será certamente um bom espectáculo, a tecnologia, o dinheiro e algum talento fazem milagres nesta indústria, mas reside numa dimensão ético-estética oposta à de filmes de guerra sérios, belos e profundos como o Apocalipse Now, o Ran ou mesmo o Platoon, com personagens humanos e complexos, dramas que verdadeiramente nos interpelam, nos incomodam, nos fazem mergulhar na nossa própria escuridão mais íntima, a escuridão onde tem origem a própria guerra e a violência. Que nos obrigam, enfim, a reflectir para lá da pirotecnia e dos defeitos especiais.

Black Hawk Down, mesmo esquecendo os elementos ideológicos e propagandísticos primários, é um filme menor, um filme de guerra banal mas armado ao cagalhão, um entre muitos que pouco ou nada acrescentam, e não ficará certamente marcado a letras douradas na história do cinema. Nem na filmografia do seu realizador, sequer.

24/08/05

Basic Instinct, por Gotika

Image hosted by Photobucket.com
Eu não pretendo rapar o prémio porque já há aqui demasiada coisa rapada.
Ahem.
gotika Homepage 08.02.05 - 2:28




Apesar do tempo que tiveram a coisa foi uma bocado pró fraquinha. A coisa mais inspirada ainda veio da Gotika, que assim limpa o primeiro lugar da Postagem e ganha uma botelha de Logan, 12 anos e o livro “As vozes de Marraquexe” de Elias Canetti. Segundo lugar e o livro “O Estrangeiro” de Albert Camus para o Zed e terceiro lugar e o livro “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes para o Mangas. Digam como querem receber a coisa ofertada ou onde a querem levantar.



PRIMEIRO PRÉMIO:
Eu não pretendo rapar o prémio porque já há aqui demasiada coisa rapada.
Ahem.
gotika Homepage 08.02.05 - 2:28


SEGUNDO LUGAR:
Ah, agora sim, já estou ver tudo!
Zed 08.02.05 - 3:23


TERCEIRO LUGAR:
Cena de interrogatório. Take 1 de 39:

- Encontrámos uma marca de lábios no corpo da vítima. K batom usa?
- Não uso.

CORTA! Repetir...
Mangas Homepage 07.31.05 - 10:54
ass: Há-Prémios

Wallis: Danger Everywhere, por Marsapo

Image hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.com

Esta é talvez a campanha publicitária mais subtilmente erótica que conheço. Mais erótica, muito mais, que as imagens de gajas boazonas da net. As mulheres que aparecem na campanha da Wallis são fantásticas, sofisticadas, etéreas, distantes e sabe-se como a distância é um dos pormenores mais importantes da coquetterie. Hitchcok dizia que nunca lhe interessaram mulheres com uma sexualidade demasiado óbvia. Por isso a Ingrid Bergman foi a grande diva dos filmes do mestre: aquele ar de senhora respeitável, a forma clássica mas elegante de vestir, o olhar inteligente, chegavam e sobravam. É mais sensual um tornozelo da dama que os decotes óbvios da namorada do César Peixoto. E, realmente, uma pessoa pensa no que seria despentear, só despentear, a divina Ingrid e, bem, c`est uh…

Pois bem, as mulheres da Wallis, desde logo retratadas em anúncios de sóbrio preto e branco são assim, fazem-nos lembrar a Ingrid Bergman, possuem essa rara qualidade da elegância etérea que nos subjuga e arrasa na sua leve e pesada distância.

É isso que as torna perigosas. Os homens que as vêm descontrolam-se e podem mesmo matar-se (esta parte é inspirada na realidade porque, como é sabido, todos os anos, mais ou menos a partir da primavera, as oficinas de bate-chapas aumentam o seu volume de trabalho devido aos toques nas chapas dos carros cujos condutores se distraem ao verem passar as garotas). Nós homens, revemo-nos nos homens dos anúncios da Wallis – na sua debilidade, na sua completa subjugação à beleza distante e perigosa da mulher que passa na rua. Tornamo-nos pequenos, desastrados, tímidos e embaraçados. É sobretudo por esta imagem cruel mas real que estes anúncios dão de nós, homens, que eu gosto desta campanha, porque nela pressinto uma profunda verdade ontológica.
O que é mais impressionante: a beleza distante daquelas mulheres anónimas ou o arrepio que provoca a eminência da cabeça do revisor do metro que está prestes a saltar? No fundo, no fundo, somos todos revisores de metro embasbacados, e barbeiros desastrados. O perigo está em todo o lado.

23/08/05

O Boné, por Cão



Olá.

Esta foto, tirou-ma um sobrinho.

Não gosto dela: é uma boa foto.

Mostra-me o que e como sou: portador de dentes torrados pelo abuso do tabaco, o olhar de cão pedinte, o sorriso espúrio de vendedor de ar não condicionado, a roupagem vulgar, o boné da filha, o aspecto de vivo por empréstimo.

Para que está aqui a merda da foto?

Para chatear.

Não tem, o fotografado, qualquer importância.

É pó, cinza será.

Para chatear?

Sim.

Primeiro, para me chatear.

Segundo, para chatear os decerto se chatearão com o alusivo ferrão.

Tudo isto, claro, a propósito de uma outra foto daqui censurada.

Eu conto:

Era o dia 12 de Julho de 1987.

Estupidamente, casava-me eu nesse dia contra uma rapariga com tanto de teimosa (em casar) como de pré-divorciada (olarilas, assim foi).

Convidei pouquíssima gente.

O dinheiro para o “banquete” não dava para mais.

(E mesmo que desse, que se fodam a memória, o casamento e a fotografia…)

Esse ano 1987 foi-se.

Esse 12 de Julho foi-se.

Ficaram os amigos.

Também fui aos casamentos deles, em cujos fiz o desfavor de me portar como um imbecil.

Num, meti-me nos copos e com a namorada de um amigo.

Noutro, atirei um gato à piscina e mijei numa cómoda.

Atitudes que já prenunciavam o excelente aspecto físico, higiénico, moral e ontológico que a fotografia acima demonstra à saciedade.

Entretanto, dediquei-me aos papéis.

Escrevo, leio, revisiono, entendo, não entendo, aborreço-me, exulto.

E vou à internet.

No meu balogue, vou bolçando quase diariamente toda uma colecção de cromos e inconsequências tão inúteis como inócuos.

No Tapor, boto hoje a minha foto.

Viva o União de Coimbra!

Viva Daguerre!

Viva Bill Gates!

Viva o Lápis-Lazúli da Censura à la Grã-Nefertiti!

Viva a Maluqueira!

Viva o boné da minha filha!

Devastação

















22/08/05

Deixa Arder, por OTaGêVê

Image hosted by Photobucket.com
Coimbra, até ontem à tarde, estava cercada de uma cintura verde que enchia o olho e dava gosto. Por volta do fim da tarde começou-se a observar uma pequena coluna de fumo negro, visível de toda a cidade, e que tinha origem nos montes eucaliptados por detrás de Ceira e de Lagoas. Obviamente era naquela altura que a aviação anti-incêncio lhe devia dar com força. Matar o bicho à nascença.

Como o país teve que ter 100 milhões de contos para as Fragatas Meko e mais 200 milhões para os novos Submarinos, não se pode chegar a comprar uma frota mínima de aviões de combate a incêndios. Até porque são caros, ficam parados o resto do ano, só actuam cerca de um mês por ano e a sua manutenção é custosa. Não houve e não há aviões. Com o que se poupou sempre podia o Estado abrir aceiros, fazer emparcelamento florestal, abrir caminhos, limpar orlas de matas, etc. Como tudo isso custa dinheiro nada foi feito. Até porque isso a ser feito não luz o olho eleitoral.

Hoje, quase a toda a cintura de Coimbra está negra, a fumegar e continua a arder. A cidade está e esteve todo o dia mergulhada em fumo denso como nevoeiro cerrado e está tudo coberto com uma enorme camada de cinzas. Dei uma volta pelos arredores e tudo continua aceso. O fogo lambeu os prédios de Celas, Olivais, Vale de Canas, Dianteiro, Ceira, Conraria, Sobral Cid, Tovim e continua activo em Castelo Viegas, Almalaguês, Torre de Vera, Torres do Mondego, Rocha Nova e não mostra vontade de amainar. Há duas grandes frentes de fogo galopantes, uma para Condeixa, via Cartaxos e Marco dos Pereiros e outra para Penacova via Torres do Mondego e Zorro. Pelas estradas, ruas e povoados dos arredores há milhares de pessoas com mangueiras, baldes e olhares desesperados de quem reza para que o vento mude e dali se vá.

Agora andam por cá aviões, mas anda por cá também um calor intenso e um vento forte e irrequieto que torna qualquer previsão num jogo de bem-me-quer-mal-me-quer. A Antena 1 anuncia que já arderam 10 casas. No mesmo espaço radiofónico, o Presidente Encarnação culpa o Governo pela falta de aviões e um tal de Fernandes, Governador Civil nomeado pelo Governo, culpa o Encarnação porque não respeitou uma Lei X de 2004 que obrigava as Câmaras a limpar uma faixa de 400 metros em redor dos povoados.

E nem estes, nem ninguém lá de cima, tem coragem de dizer claramente aos desesperados dos baldes que isto é mesmo assim e que isto tudo é para deixar arder. O fogo é rápido, passa depressa e a coisa toda em conjunto dura três ou quatro semanas. É só fechar os olhos, dar uma grande respiradela e já está. E depois só volta ali a arder daí a mais quatro ou cinco anos. O país é pobre e não tem meios para combate, assim como não tem meios para prevenção, ordenamento ou mobilização.

Até porque agora que conseguimos acabar a Casa da Música, temos a Ota e o TGV para começar. Qualquer coisa como 500 milhões de contos para uma e mais um bilião de 200 milhões de contos para a outra. Deixa Arder. É fado deste país arder até ao último graveto. Haja coragem de o dizer e assumir.
.
.
Não deixem de ver o Post de Baixo do Tocha. O Porco está a fumegar.

NeverLand, por Peter Pan

Image hosted by Photobucket.com

Hoje, enquanto Coimbra ardia, ouvi na TSF o presidente do sindicato dos bombeiros profisionais a declarar, indignado, que os bombeiros profissionais do país não podem sair dos quartéis para ajudar os bombeiros voluntários a apagar os incêndios. Isto apesar de o quererem fazer e de se chocarem com a escassez de meios com que os seus colegas voluntários se debatem. Dizia o senhor que com os meios e com a formação que têm, os bombeiros profissionais podiam e deviam estar nas matas a combater os fogos que é para isso que são bombeiros. Mas porque é que não vão? Respondeu a seguir o Coordenador Nacional dos Bombeiros que a questão é burocrática: parece que quem manda nos bombeiros profissionais são os gajos das autarquias e só eles lhes podem dar autorização para sairem… Sem essa autorização, a Coordenação Nacional nada pode fazer. Isto é simplesmente inacreditável e é um bom retrato da porcaria de país em que vivemos!

É por estas e outras que eu já desisti deste país. Nesta terra só é bom aquilo em que o português não toca ou não pode tocar: o sol que está lá longe, o clima que se sente, mas não se vê, o mar a mais de 100 milhas da costa (a 99 o portuga ainda lá chega), as estrelas à noite e a lua também, que não são portuguesas mas vêm-se daqui. Tudo o resto ao alcance do predador nacional é imediatamente estragado: as árvores, as florestas, as praias, as dunas, os lagos e os rios, até as pessoas, tudo… Fujam deste sítio. Eu, há muito que já emigrei. Agora vivo em Neverland.

Este ano somos do Getafe!, por Schuster

Image hosted by Photobucket.com
Getafe. O nome diz-vos alguma coisa? Pois, a mim também não dizia. Sabia que era uma espécie de Loures encravada na periferia de Madrid, algures numa saída da M50, a CREL lá dos gajos. Mas depois de conhecer a campanha publicitária 'Ser del Getafe lo perdona todo', tudo mudou.

O Getafe CF ascendeu este ano à primeira divisão da Liga Espanhola e tem um problema: o reduzido número de adeptos. O clube é suburbano e almeja atinjir os 14 000 sócios, mas como consegui-lo em Madrid, onde todos são ou do Real ou Atlético?

Com arrojo e originalidade, pensaram os dirigentes do Getafe. Vai daí, lançaram uma campanha publicitária com anúncios de 45 segundos que pode ser vista na TV espanhola e que, infelizmente, não se encontra na net, já procurei. Num deles aparece um transsexual cujo pai não tem lá grande orgulho no filho «desnaturado». Mas quando, no final do spot, o rapaz (?) veste a camisola azul do Getafe e assiste ao jogo do seu clube na campanhia do pai, o velho rejubila de orgulho. É a reconciliação. 'Ser del Getafe lo perdona todo'.

O segundo spot trata mais uma vez de um pai que está furioso com o filho, um burro do caraças com péssimo rendimento escolar. O anúncio acaba com os dois sentados no sofá a vibrarem com um jogo do clube da sua vida. 'Ser del Getafe lo perdona todo'.

Talvez assim o Getafe consiga chegar aos tão ansiados 14 000 sócios. Para já tem o apoio de toda a malta aqui do Porco. Este ano ninguém torce pelo Real nem pelo Atlético nem pelo Barcelona. Pela ousadia e pela originalidade da sua estratégia de comunicação, este ano somos todos do Getafe.

Mas é claro que há sempre quem veja problemas em tudo. As organizações de homo e de transsexuais já estão a protestar porque entendem que o Getafe está a associar a imagem das minorias sexuais à marginalidade. Não deixam de ter alguma razão, mas se eu fosse transsexual ou bicha ou coisas que tais, não me preocupava por aí além. Afinal, 'Ser del Getafe lo perdona todo'.

17/08/05

Pena, por Cão

Vale a pena estar vivo, embora não se saiba por ou para quê.

Este é o país a que chamamos nosso, apesar de ser deles. Deles: dos que mandam pôr a arder, dos que põem a arder mesmo sem mando, dos que ganham com o que ardeu.
Perante o flagelo anunciado de cada Verão (que, com a seca, começou este ano em Janeiro), alguém acredita na senhora-de-fátima o suficiente para encomendar submarinos em vez de helicópteros.
Nas festas flavas do T-Clube, a nacional aristocracia achinela-se untada de banha e idiotia.
Enquanto isso, nós engarrafamos clios e eskorts na curva de Buarcos, entre peões de tanga que carregam tremoços e feijoadas e mães solteiras buscando alemães que não virão, verão.
Vale a pena estar vivo, mas não ser vivo, ici.

Este é o país a que chamamos osso, porque a carne é deles. Eles, quem?

A ver:
O pivô-chorão do telejornal.
O Marcelo Rebelo de Sousa, de olhos muito abertos de coruja que não dorme para nos velar.
O Mário Soares, que não morre nem que o matem.
O Pateta Alegre, que já morreu mas não sabe.
O coiso dono da Vivenda Mariani.
O Obikwelu a tocar o hino das quinas em congas e bidons.
O Nino Vieira a passar anos de férias cá antes de ir mamar de novo lá.
O Pinto Balsemão sempre a cocar e o directorzito do Expressozito dele.
A Catarina Furtado a dar cabo ao nome do pai.
O Joaquim Furtado a criar uma filha para isto.
O Nicolau Breyner, que, via RTP, está encarraçado no pêlo do Orçamento de Estado há coisa de 40 anos.
O Herman José, que tem tanta piada como uma anedota pedófila e/ou de peidos.
O Moita Flores, esse grande guionista e grande amigo do Carlos Cruz.
O Carlos Cruz.
O Benfica, o Sporting e os coisos das Antas.
O viveiro-PS e o viveiro-PSD.
O mexilhão e a alforreca.
O Fausto Correia hirsuto e o Albarran careca.
O Carlucci da CIA e da EuroAmer.
O Talon e o Tyson.
A Pasta Medicinal Couto e a placa da Lili Caneças.
O Santana Lopes e o Sentido de Estado.
O Vasco Pulido Valente e o século XIX Fraco.
O Sampaio a chorar como se fosse pivô de telejornal.
A família Câmara Pereira e as pragas de gafanhotos bíblicas.
O riquinho que é presidente da Câmara de Aveiro.
O idem que é ibidem da homóloga de Ílhavo.
A calcinada tristeza de Coimbra, sob todos os aspectos.
Os indígenas de lata da Cova de Papelão da Moura.
O Zezé Camarinha, tão algarvio como o coiso da Vivenda Mariani.
A Igreja de Viseu.
O sertão de Bragança.
O Bispo de Braga.
A Josefa d'Óbidos.
As alcunhas alentejanas que passam a nome de família à hora da sesta-baptizado.
A Reserva Territorial aposentada da Tropa a gozar o prato nas termas.
A maltosa sueca da celulose.
O Pacheco Pereira a garantir que é a reencarnação do Che mas em Rumsfeld.
O Rumsfeld e a Condor Lisa, a preta que lá está a fingir que a MerdAmérica do Norte não é dos brancos wasp.
A Nancy Reagan, que é viúva há 80 anos e só agora é que lhe disseram.
O Giuliani no baile dos bombeiros antes do baile da Casa Branca.
A maltosa toda a dizer “é assim”.
O Luís Represas no elevador a fazer muzcas pró dito.
As manas Pinto Correia muito muito Fundação do Gil.
O Padre Fontes a cozer chás de bruxas em chaleiras de ouro bento.
O Moniz e a cova da Moura Guedes.
A TMN a mandar uma optimus fodavone.
O preço do tabaco.
A sangria atada do gasóleo.
O Bibi a fazer bobós a bebés.
O socrático Carrilho e a platónica Guimarães.
O bebé deles com nome daquele rei que plantou pinhais para ter onde cagar no intervalo das cantigas de amigos e das guerras com o filho.
D. Afonso Henriques, o primeiro presidente do Conselho de Administração da Gulbenkian, cujo complexo de Édipo fundou um país lamentável.
O próprio Gulbenkian, que quis fazer outra merda desta merda e que fez.
Os reformados a votarem lanigeramente nos gajos que lhes mamam as reformas de mama.
As reformas educativas e os professores e os alunos e os resultados das reformas educativas e dos exames, menos os de consciência.
A água das torneiras.
Os rios, mortais casas dos peixes.
Os suinicultores de galochas e os porcos descalços.
Timor e a Religião e Moral obrigatória.
O Rato Zinger, Mickey em alemão.
O futsal e o futebol de praia.
O voleibol de praia e o Maia e o Brenha.
A Madeira e o coiso.
USAçores.
O Graça cova da Moura, poetastro oficial cujo nome de tradutor é maior do que o traduzido Dante.
O Prado Coelho, coelho oficial.
O Guterres nos ugandas e nos sudões a benzer refugiados e a dizer “tenham paciência, tenham paciência, vão lá com Deus”.
A Maria Barroso e o padre Melícias a irem lá com Deus.
A fanhosice perpétua do Herdeiro do Trono de Portugal, que parece ‘cosa mentale’ mas não deve ser.
O Feytor Pinto e as camisas-de-vénus, hoje sim por causa do cancro ou lá como se chama aquela moléstia que dá de comer à Margarida Gorda dAbraço, amanhã não por causa da moral.
A moral.

E a pena.

Ser mulato em Londres, por João Negrão

No dia 22 de Julho o brasileiro mulato Jean Charles de Menezes foi morto pela polícia britânica à queima roupa no metro de Londres. Primeiro disseram que levou três tiros. Primeira mentira: levou oito tiros. Sete na cabeça e um no ombro. Acharam-se ainda mais três cartuchos. Foram disparados onze projécteis. Depois tentaram justificar o fuzilamento dizendo que o brasileiro Jean Charles levava uma mochila, usava um sobretudo largo e suspeito, que adoptou um procedimento suspeito, não comprou bilhete, que desobedeceu a uma ordem, que corria, que pulou por cima da barreira de acesso ao metropolitano. Mentira, mentira, mentira, mentira, tudo mentira. O mulato brasileiro levava um pequeno saco com os seus haveres, como qualquer pessoa normal que se desloca para o trabalho, usou o seu bilhete pré-comprado, apanhou a carruagem em passo apressado, como toda a gente faz, vestia um leve blusão de ganga justo ao corpo. Diziam também que resistiu à ordem de prisão. Mentira, mais uma vez. isto é, em toda a história contada pela polícia não há um grão de verdade, é tudo mentira. Porque morreu então Jean Charles? Por uma razão só: o seu prédio estava sob vigilância. Às 9h30m da manhã Jean Charles saiu para trabalhar e foi dado como suspeito. Porquê? Porque é mulato e os anglosaxónicos de pele leitosa e cabelo ruivo confundem mulatos com árabes e acham que os árabes são suspeitos de terrorismo. Azar ser mulato em terra de burros!

16/08/05

O método Lynyrd Skynyrd, por Doc Comparato

Todos se devem lembrar daquela canção dos Xutos & Pontapés intitulada Para Sempre que foi banda sonora de um filme com o Quicas Almeida (o Banderas português) que fazia de padre (é sempre a mesma merda) e mais não sei o quê. A música tinha uma guitarra a rasgar que fazia mais ou menos isto: Nhééunmm nhé nhé nheééunnnumummmmm ....... e depois Ai meu amor..... etc. Pois bem, quando puderem ouçam o Free Bird dos Lynyrd Skynyrd, comparam e digam-me se estamos perante uma grande coincidência, uma grande inspiração ou é o Lynyrd Skynyrd Method bem aplicado.

14/08/05

Viagens na “Nossa” Terra, por Almeida Garrido

Tenho a sorte de ter uma fobia: andar de avião. Tal sorte leva-me a considerar a Espanha como destino preferencial de férias. Espanha é o melhor país do Mundo. Tem tudo! Excelentes vinhos, óptimas praias, arte, cultura, museus, touradas, tapas, monumentos que vão desde o Império Romano à arquitectura pós-moderna como mais nenhum outro país tem à excepção da França e da Itália. Espanha tem eventos desportivos e culturais de nível mundial, livros e livrarias, pintores, peixe, carne e mariscos. Espanha tem mulheres lindíssimas que se pintam, perfumam, passeiam e riem no meio da rua. Tem plazas e esplanadas, montanha, lagos idílicos, florestas verdejantes e até tem Portugal!

Na 1ª etapa, fui de Coimbra a Leon com paragem em Salamanca para almoçar. Aqui, deu-se o único episódio desagradável quando tive que fazer ver ao animal do empregado de mesa que o mundo já não se divide em espanhóis e portugueses, pois que nem eu sou o Príncipe Perfeito nem ele era parecido com Isabel, a Católica. O cabrão pôs-se a resmungar num castelhano cerrado e quando lhe pedi para hablar de espacio, o gajo disse que em España se habla castellano e que se eu quisesse que aprendesse. Passei-me e expliquei-lhe em portuñol:
- Hombre, lo mal non es que yo no te entienda. Lo mal es se te mal entiendo. Pues que si quieres que te entienda, habla de espacio y si no quieres que te entienda, mejor es hablar chino porque se te malentiendo… coño, va a haber circo aquí e ahora, caralho!
O velho amansou e lá mandou um pardon señor que eu entendi perfeitamente.

Chegados a Leon, destaque para a catedral gótica, a casa Botines de Gaudí e um magnífico rabo de boi com setas. O vinho da casa é que era merdoso.

No outro dia, pelo meio da manhã, rumámos a Gijón, próspera cidade com uma baía lindíssima. O tempo estava bom e tivemos praia. O paseo maritimo estende-se por quilómetros e quilómetros, propiciando um passeio agradabilíssimo. Invejo os espanhóis pela qualidade dos espaços públicos: passeios, jardins, plazas, monumentos, parques, recintos desportivos, etc. Costumo dizer até que o grau de civilização de um povo se mede pela qualidade dos espaços públicos, na medida em que demonstram o quanto o colectivo se sobrepõe ao particular. Ora, se o objectivo a realizar pela acção política é a promoção do bem-estar público, o individual deve sempre subjugar-se ao colectivo. O planeamento urbanístico e a cidade são o processo e o resultado que permite aquilatar o quanto se alcança esse objectivo. Dito isto, poupo-me a mais considerações e seguimos para os Picos da Europa.

Covadonga é uma cagada! Tem lá uma merdunça de um museu feito com as oferendas pirosas dos peregrinos e um templo neo-românico dos finais do século XIX, mais uma estátua patética do Pelágio. Safa-se a paisagem e a gruta-santuário. Mas este local tem tanto de piroso como de simbólico. É um anti-Alhambra. Se olharmos para Sul, para o Alhambra vemos como era sofisticada a civilização do Andaluz. Comparar o Alhambra com a toca de Covadonga dá-nos a medida do abismo que separava o norte gótico e cristão do sul islâmico e mediterrânico. É a mesma distância que vai de Vale da Porca a Nova Iorque! O abismo dá a dimensão do mistério: como foi possível que os bárbaros montanheiros do norte, incapazes de imaginar sequer o que fosse um limiar mínimo de civilização já que desconheciam em absoluto a cidade como expressão urbanística para além daquilo que não destruíram da herança romana, como foi possível , dizia, que tenham vencido e expulsado os islâmicos da península? A resposta tem tanto de simples como de inacessível para os fanáticos xenófobos. É que os bárbaros do norte tinham a semente que seria o segredo do triunfo: a propensão para o universalismo, isto é, a capacidade de integrarem o que de bom e válido lhes é legado pelos outros. Os islâmicos do Al-Andaluz cavaram um beco luxuoso que os condenou à decadência e à perdição, pois se fecharam culturalmente. Adormeceram indolentes, embevecidos com o seu sucesso e conforto, crendo terem atingido um equilíbrio que lhes parecia paradisíaco mas que era simplesmente imobilizador.

Próxima paragem no Parador de Cangas de Onís onde, depois de um breve descanso fui para o bar no antigo claustro do mosteiro beneditino. Gin tónico com e um livrito: A «História Artística da Europa», dirigida por Georges Duby: «Bernardo - diz um dos autores - não se limita a criticar; propõe como alternativa uma “estética da autenticidade” de onde se recolhe – como no Bauhaus de Gropius – o máximo de energias intelectivas e o máximo dos respectivos resultados formais.» Na verdade, S. Bernardo de Claraval critica violentamente o figurativismo decorativo e os monstros que povoavam toda a arquitectura românica numa aterrorizadora pedagogia do medo, propondo uma nova estética, depois chamada cisterciense e magnificamente testemunhável em Alcobaça, onde o despojamento significasse espiritualidade e recolhimento. É a esta atitude que o autor, de forma certeira e surpreendente, compara a Gropius e à Bauhaus. Neste sentido e no limite, o suprematismo tem algo de cisterciense e S. Bernardo algo de minimalista, pois que a geometria é irmã da teologia e o quadrado preto de Malevich é um alfa-ómega.
Ao jantar, um volovent de setas, seguido de “delícias de cerdo ibérico”, acompanhado por um tinto Prado Rey, Ribera del Duero, roble 2003, com taninos bem fortes, uma estrutura sólida e profunda, cor fechada com laivos avermelhados, intenso, prolongado e com aromas que se desdobravam da tosta à especiaria.

No dia seguinte, Miracielos, próximo de Llanes. Um pequeno hotel a 80 metros da praia fantástica. Uma baía abraçada por duas restingas de pedra onde cresciam pinheiros mansos. A linha de costa preservada e verdejante com vacas a pastar. Os fetos escorregam até à areia. A água é gelada, mas eu não me importo. Três dias descansados. Gastronomicamente, destaco um magnífico robalo grelhado comido em frente ao porto de Llanes com um albariño cujo nome já não lembro. Aproveito para lançar a questão uma vez levantada pela enóloga favorita da RS.T (cujo nome não posso dizer porque o Grão-mestre não deixa) sobre a recente moda de cortar o peixe longitudinalmente em duas metades. Pode ser mais rápido e mais bonito, mas atenta contra a dignidade do bicho, tornando-o seco.

Em Llanes, porém, a experiência mais marcante foi a visita ao campo municipal de golfe. Sim, em Espanha há campos municipais de golfe. Não é um desporto elitista, embora seja caro para os turistas. O campo é magnífico. O slogan promocional diz tratar-se “provavelmente” de um dos mais bonitos campos da Europa. Eu conheço poucos campos, mas garanto que podem tirar o “provavelmente”. Foi construído sobre um planalto com o maciço Cantábrico de um lado e o oceano do outro. As vistas são deslumbrantes. Destaco o hoyo 7, cujo tee de saída se pode ver na foto. O green está 165 metros à frente. Não há fairway, tem que ser uma tacada directa. As vistas são celestiais, no sentido literal, com Llanes ao fundo. O vento é permanente, pois estamos a uma altitude de cerca de 200 metros e ao lado do mar, o que dificulta o voo da bola. A primeira bola saiu-me mal e foi para Llanes. A segunda exigia concentração. Escolho o ferro 5, ensaio bem o movimento e não me atemorizo com os observadores. Faço como o meu mestre, o Mau: baixo-me levemente e arranco um pedaço de relva como quem cata um piolho, ergo o braço e solto os pintelhos verdes ao vento. Com um ar de entendido observo o lado para onde esvoaçam e envergo um olhar de especialista. Franzo o sobrolho como quem morde a táctica e faço-me à bola. Stance correcto, backswing lento e desenhado, olhos na bola, pulso firme, swing a descer e PLAC! Quando levanto o queixo vejo o voo da bola. Subiu bem, desceu e caiu a dois metros da bandeira! Os velhos seguem viagem e eu insultei-os mentalmente!

Em Bilbao só deu para ver o Guggenheim. Bilbao está cheia de referências ao Pio Baroja que, para quem não sabe, é o nickname do nosso bilbaíno da confraria. Sim, que nós somos uma confraria internacional e temos um bilbaíno. Em Bilbao há livros do Pio Baroja em todas as livrarias, há calles Pio Baroja, estátuas e até um parque de estacionamento. Exige-se um post sobre o Pio Baroja ao confrade que assim se assina (bela cacofonia esta: cassimsassina!). Guggenheim é o Guggenheim. Estava lá uma merdunça de uma exposição fantástica sobre os aztecas. Não é que eu não goste, mas eu ia em busca da pop art, do Warhol, do Rauschenberg, Rosemquist e Koons e estava tudo cheio de aztecas! Só um Warhol (150 Marilyns coloridas) um Rosemquist e três ou quatro Rauschenberg. Gostei dos expressionistas abstractos. Destaco Franz Kleine, Willem de Kooning, um Rothko só (de entre os vários da Fundação) e, sobretudo, o catalão Tapiès de quem venho gostando cada vez mais. Referência para o Richard Serra que está representado em Serralves, com uma instalação intitulada “The matter of time”.

Jantar numa sidreria no casco viejo. Atenção a esta ementa: enchidos variados, omolete de bacalhau e uma costeleta de boi em sangue que ocupava o prato todo e que foi a melhor carne que já comi nos últimos anos, queijo e marmelada, café e sidra à discrição! Preço? 15 euros! Quanto à sidra, embora sendo agradável e propicie um ambiente engraçado com aquele ritual em que se serve, só a bebe quem não tem vinho.

A caminho de S. Sebastian, fomos por Azpeitia, com paragem em Loiola, terra de Santo Inácio. A religiosidade ferverosa dos bascos é facilmente visível. Há jesuítas em todo o lado, e Santo Inácio é um herói nacional nas terras do interior. A basílica que ergueram a Inácio na sua terra natal - Loiola - é imponente. O jesuitismo basco, compatível com a prosperidade e desenvolvimento económico, financeiro, cultural e social das terras bascas, devia dar que pensar aos jacobinos republicanos que encontraram no jesuitismo a causa da decadência e do atraso económico português. O País Basco é a prova do contrário. A jesuítica prosperidade basca prova ainda a burrice dos jacobinos republicanos portugueses (e não só!) que expulsaram, prenderam, humilharam e ridicularizaram os jesuítas, imbecilmente convencidos que assim trilhavam os rumos da prosperidade.

Em San Sebastian é tudo bom e bonito. Tão bom que se me dessem a escolher uma cidade para viver eu hesitaria entre San Sebastian e Barcelona. Abominei apenas aqueles bares bascos que eu também já vira em Bilbao, com a bandeira colada na parede rodeada com fotos dos etarras que eles consideram mártires. Usam boina como marca de uma raça que acham exclusiva e falam uma língua que se orgulham que ninguém entenda e isso, além de imbecil, preocupa-me, pois que se o País Basco é das terras mais belas, prósperas e atractivas que já visitei, temo que este fechamento cultural do qual este orgulho etarra, terrorista e narcísico, possa vir a condenar a Espanha à mesma sorte do Andaluz de há 500 anos. A causa de então parece ser a mesma de agora: soberba e fechamento cultural numa época de universalismo, mobilidade e multiculturalismo. Alguém que explique aos etarras que a especificidade da língua basca se deve apenas a um factor: o ter ficado à margem da acção benfazeja e civilizadora da latinização.

01/08/05

O Código da V., o Galo de B e o JR dos S., por Cão

Chegou Agosto, o mês dos parolos.
É o tempo dos nossos lusocranianos de mala de cartão.
Neste dia, lembro-me sempre daqueles que andam lá fora a lutar pela vida mas que nunca lá ficam.
Dedico-lhes estes aforismos anémicos.

1- Ler ‘O Código da Vinci’ é exactamente o mesmo que pôr o colete fosforescente no banco do condutor.

2- O verdadeiro Galo de Barcelos faz manguito com a asa.

3- A verdadeira senhora-de-fátima dá horas na base da azinheira de baquelite.

4- O perfume da sardinha assada é vaporizado de um frasco formato-pimento.

5- Perdoar Valentim Loureiro e o Futebol é dar a outra nádega, como mandamentam a Bíblia, a Bola e o Record.

6- O País arde todo o ano, mas só no Verão é que passa na TV.

7- Num país civilizado, gente como o José Rodrigues dos Santos seria obrigada a ir de mochila no metro.

8- Avelino Ferreira Torres e Fátima Felgueiras deveriam ser casados, um contra o outro.

9- Gostar de Portugal não é a mesma coisa que admirar o Ricardo Espírito Santo ou o José António Saraiva.

10- Deveria nascer um eucalipto nas badanas do cu do Jorge Gabriel. Não desejar o mesmo ao Manuel Luís Goucha é evitar-lhe uma satisfação.