28/04/05

Um Verdadeiro Diabo da Tasmânia, por CrocodileDundee

No Sábado passado, a Sponto – confraria base aqui do Tapor – realizou mais uma memorável Prova Cega, no caso, a 40ª Prova Cega de Vinhos. A coisa decorreu no Painel e veio provar à saciedade que a vida é sempre mais rica que a mais delirante das imaginações, e consequentemente, que qualquer legislação é sempre parca nas realidades que prevê e é sempre ultrapassada por elas.

Vem isto a propósito do último lugar dessa Prova Cega que coube ao vinho espanhol Montecillo, Gran Reserva, 1996, um Rioja que almas sapientes acusaram desde logo de ter Rolha, isto é, defeito de Rolha, proveniente do malfadado tricloroanisol, que provoca um desagradável sabor a podre. Com tricloro ou sem tricloro, certo é que tal pomada ficou em sexto lugar, Último portanto.

Ora um último lugar numa das nossas provas Cegas é coisa que não se perdoa à pessoa que traz tal vinho e a Confraria actua em conformidade, com patada e humilhação. Os sábios estatutos confradais (vulgo Dogmário) elaborados e em vigor desde o longínquo ano de 1998, estipulam que à primeira vez que o animal ganhe um Prémio Vinagre ganha o título e inerente estatuto de Bebágua, ao segundo desleixo passa a Vinagrão, e ao terceiro a Martelão.

Julgando que se legislava para a eternidade e partindo do princípio de que três Prémios Vinagre era atoleiro suficiente para o animal arrepiar caminho – note-se por exemplo que há confrades que jamais tiveram um Prémio Vinagre – jamais se julgou como possível, que alguém atingisse o QUARTO Prémio Vinagre, altura em que a suprema alimária ganha o título de Diabo da Tasmânia.

Ora nós já cá temos um animal da foto - um DIABO DA TASMÂNIA - por previsão dogmária: “À Quarta vez que lhe for atribuído o prémio Vinagre, o distinto animal, recebe o título de “DIABO DA TASMÂNIA”, por definição: “ o pior bicho à face da terra, o mais pernicioso e nojento mamífero que a natureza se lembrou de criar, necrófago, predador, com as mandíbulas mais potentes da criação depois do Tubarão Branco, come as próprias patas quando se engana, devora as crias das fêmeas se estas não fogem a tempo, cheira mal, pinga constantemente do nariz, irascível antipático” e que obviamente, nada percebe de TINTO!

Mas voltando ao parágrafo inicial, estamos agora em terreno virgem, não pensado pelo legislador, uma vez que no passado Sábado houve um Confrade que atingiu o QUINTO Prémio Vinagre. E não há título, o que está mal e tem que ser corrigido com brevidade. Assim, aqui se lança o público apelo e concurso sobre a proposta de um título para a pessoa que alcance o Quinto Prémio Vinagre com atribuição imediata ao actual Tasmanian Devil! Propor formas de castigo também não era mau de todo…

27/04/05

"O cliente em sempre razão, made in USA. Por Mangas

A propósito do post do Manelinho veio-me à memória uma situação semelhante pela qual passei no verão de 94, em Flint, Michigan. Devo dizer que neste aspecto das reclamações em estabelecimentos comerciais, sejam eles restaurantes, lojas de vestuário ou animais decorativos, os americanos, (de acordo com a minha experiência), têm uma concepção muito pragmática de resolver as situações com o mínimo desgaste possível para o cliente e sempre na perspectiva de evitar males maiores para a loja – processos judiciais que, para além de serem péssima publicidade, podem acarretar grossas indemnizações. Por isso, deitam-se ao chão, literalmente! Têm, atrevo-me a dizer e sem excepção, em cada loja, um departamento vocacionado para atender as reclamações dos clientes e fazem-no não como se nos estivessem a prestar um favor, mas com aquele sorriso colgate para amansar os espíritos reclamantes mais incendiados.

Assisti a várias situações destas. Não há ali trombas, ou “o senhor não se soube explicar no pedido que efectuou”, ou “não podemos trocar porque o produto já foi usado”, ou desculpas burocráticas de quem quer salvar uns cobres ao patrão. Nada disso. Vê-se que aquele pessoal sabe o que está a fazer, tem a lição bem estudada porque certamente teve formação específica, sabe de relações humanas, tem meios para accionar com a maior brevidade possível os mecanismos que compensem o prejuízo de quem reclama, salvaguardem a credibilidade do estabelecimento e devolvam a satisfação ao cliente. O cliente tem sempre razão, nunca me pareceu mais verdade do que ali.

Penso que muitos factores estarão subjacentes a esta filosofia de transacção/assistência que não se esgota quando o produto ou bem é vendido. Ocorrem-me dois: a competição feroz do mercado americano e o quanto ele é fértil em exemplos de avultadas indemnizações, porque sim, porque o cliente tinha legitimidade na sua reclamação e a razão estava do seu lado, ou por toma lá aquele palha, e afinal o manual de instruções do micro-ondas não dizia nada sobre os efeitos da sua utilização em gatos vivos ou porque a Philip Morris não advertiu por escrito que o Marlboro pode provocar cancro da laringe.

A minha única experiência. Uma bela tarde a caminho de casa, paro no Rally`s Hamburger, - os melhores hamburgers americanos! -, peço um combinado com batatas fritas e coca-cola, instalo-me confortavelmente no sofá para ver o Brasil-Suécia na televisão para o campeonato do mundo 94, dou a primeira trincadela no hamburger e sabe-me a sal. Excessivamente salgado. Porra! Dou o benefício da dúvida, abocanho mais uma vez e sabe-me a salgado novamente! Na América sê americano, pensei, agarro no cupão que vinha dentro do saco, ligo o número grátis de reclamações, atendem-me de Kentucky, explico o que se passou à operadora de serviço, esta ouve-me até ao fim, desfaz-se em amabilidades e desculpas, pergunta-me que pedido tinha eu feito, pede-me a minha direcção e a localização do Rally`s onde fiz a compra. Diz-me que iria imediatamente entrar em contacto com a loja e em breve receberia notícias. Ponto final. Não dei mais importância ao assunto, era só um hamburgeur afinal de contas, mas passados exactamente dois dias recebo uma carta no correio que guardo até hoje e passo a transcrever:

« To :Mr. F.
Endereço, Flint, Michigan

Dear Mr. F:
Obrigado por ter despendido do seu tempo para telefonar para o nosso Courtesy Department com os seus comentários. Sem sombra de dúvida, a parte mais frustrante do meu trabalho é quando ouço que um Cliente teve uma experiência menos que perfeita num dos nossos restaurantes.

A filosofia do Rally`s é servir os nossos Clientes sempre com a mais elevada qualidade, produtos frescos, de forma rápida e cortês. Graças aos nossos altos standards de exigência, tornamo-nos no #1 na indústria do fast food, em três áreas que são as mais críticas para o nosso sucesso: valor, qualidade e serviço.

Por favor, permita-me endereçar-lhe as minhas mais sinceras desculpas pelo pedido insatisfatório que recebeu. Ainda que a sua chamada tenha sido atendida pela Connie do nosso Courtesy Dept., posso assegurar-lhe que cada um e todos os níveis responsáveis pela gestão do nosso restaurante em Flint, já receberam uma cópia com os seus comentários. Quando receber esta carta, todos esses níveis de gestão já tomaram medidas para corrigir os problemas que o senhor encontrou.

Quando regressar ao nosso restaurante em Flint, se a sua visita não estiver ao nível das suas exigências, por favor telefone-nos novamente. Sem este tipo de feedback, muitos “serious issues”, não seriam detectáveis. Obrigado pela sua preocupação e por ser uma parte grande e importante do nosso sucesso!

Sincerely,
David Peterman, Executive Vice President Operations
Endereço, Louisville, Ky, 40223, (502) 245-8900 »

Resta acrescentar que junto vinha um cheque-vale para o Rally`s no valor do pedido que eu tinha feito dois dias antes. Simpático, breve, eficaz. E nunca deixei de ir ao Rally`s que tinha umas óptimas batatas fritas com pele. Nesta conjuntura de reclamações e atendimento, ficavas tu sem escrever um único Tratado Taurino, Chibanga...!

25/04/05

O Cliente tem sempre razão!, por Manelinho

Hoje á tarde estivemos a conversar sobre reclamações, sobre sangue nos estabelcimentos comerciais. O nosso melhor especialista em tal matéria contou uma que eu considero um feito notável, um marco na história das reclamações.
- Passou-se numa pizzaria, pá. Os gajos tinham lá na lista as fotografias das respectivas pizas e houve uma que escapava com chouriço daquele pepperoni. Uma boa foto com cinco – 5 - cinco bocados de pepperoni.
- É pá não digas mais nada, já estou a ver o filme.
- (Gargalhadas sonoras)
- Pois… Quando veio a piza que eu pedi com os respectivos pepperonis, olhei para a gaja e disse:«olhe, leve-me isto de volta. Na fotografia estão cinco bocados de pepperoni e isto não chega a dois meio nacos de peperroni». A gaja resmungou, eu resmunguei ainda mais, que é publicidade enganosa e é, e para isto mais vale não porem lá a fotografia e ela foi para dentro chamar o gerente.
- E então, fizeram-te uma piza nova.
- Não, mas devolveram-me o dinheiro!
… E toma.

21/04/05

A Abominação, por J Panhanganana

Respondendo então à vaga de fundo que foi gerada nesse sentido, avanço então com o meu elo para a tal “cadeia de literatura” que nos foi transmitida pelo estimado cliente e amigo riacho). Acho que a ideia é falar um bocado de livros, a propósito de um inquérito do tipo dos que são feitos pelos «jornais em Agosto quando não têm assunto nenhum». De resto e para voltar a citar o irmão dervixe rodopiante (1), cognominado “O boé da giro” (2), que afirmou em sede própria «abominar» tal prática, visto que «as perguntas são incongruentes e simplistas e as respostas só podem ser a condizer». A opinião do mestre, no entanto, é plena de duplicidade, sinal da sua imensa sabedoria e complexidade. Assim, não só pactuou naquela outra instância com a abominação (3), como incentivou à sua multiplicação (4) e, já nesta instância, à sua descentralização (5). Assim se cumpre aqui o seu misterioso desígnio.:

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
– A resposta gira seria o próprio Fahrenheit 451, que não é de todo descabido pela mensagem e qualidade da obra. Mas a sério, se tivesse que me tornar um livro encornava a última edição da Enciclopédia Britânica.
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
– Apanhadinho, apanhadinho, acho que não. O mais próximo talvez seja o Corto Maltese, esse herói carismático, aventureiro, místico e Cavalheiro da Fortuna, eterno romântico galante dos sete mares. Por outro lado perturbaram-me, durante algum tempo, personagens estranhos como Mersault ou Gregor Samsa Em miúdo sim, aí fiquei apanhadinho por muitos, do Conan ao Vickie, o Tarzan, o Robin dos Bosques (Errol Flyn), o David Crocket, etc..
Qual foi o último livro que compraste?
- “Aventuras do Capitão Hatteras”. Último volume da colecção Júlio Verne do Público.
Qual o último livro que leste?
– Até ao fim, “The historical figure of Jesus”, de EP Sanders.
Que livros estás a ler?
– Nos intervalos dos jornais e das revistas, releio “O Nome da Rosa”, Umberto Eco. Em ritmo mais lento um livro sobre o Caravaggio, de Gilles Lambert. E, a propósito de poste recente no tapor, atirei-me finalmente ao calhamaço “Os Criadores” (Uma história dos Heróis da Imaginação), de Daniel J. Boorstin.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
- Aquelas opções práticas que o irmão dervixe rodopiante mencionou na tasca do riacho (obras sobre carpintaria, técnicas de sobrevivência, etc). Mas levava o D. Quixote, sim senhor, e mais alguns que ainda não li, como o sempre referido Ulisses, a Íliada e a Odisseia numa tradução decente (parece que a última em português é muito boa), O Livro do Desassossego, o USA do John dos Passos, e talvez uma coisa mais espiritual, tipo Siddharta do Herman Hesse, que tenho mas nunca calhou ler.
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
- Não sei.

De modo que é assim.

(1) «Ó Riacho este teu desafio ao Tapor acho que não vai surtir grande efeito por lá. Não sei se algum de nós tem vontade de postar com isto. Eu por mim abomino este tipo de coisas. Isto fazem os jornais em Agosto quando não têm assunto nenhum. As perguntas são incongruentes e simplistas e as respostas só podem ser a condizer. Perguntar por exemplo quais eram os cinco livros que levaria para uma ilha deserta só me levaria a responder que levaria os seguintes:1º- Manual do Escuteiro Mirim de Como fazer Fogo a partir de paus e pedras.2º- Guia de Sobrevivência do soldado ou de como pescar com as mãos e caçar com paus.3º- Elucidário botânico de como identificar as bagas, plantas e frutos comestíveis.4º- A Carpintaria prática em 10 lições ou de como fazer uma barracas com paus e folhas.5º- Simposium de farmacologia natural a partir das plantas.E se me fosse permitido um sexto livrito ainda seguia o fabuloso: Faça a Sua própria jangada em 5 lições.DervixeRodopiante (in http://alfa-e-omega.blogspot.com/ aos 04.21.05 - 6:52 am

(2) «Este Dervixe é boé da giro...Mefi»Anonymous (in
http://alfa-e-omega.blogspot.com/ aos04.21.05 - 12:52 pm)

(3) «Agora se para uma estância de férias de luxo na praia, com comida e bebida ao lado e um serviçal atento para o resto da vida onde iria penar durante 1 anito por exemplo e só me fosse permitido levar 5 livros então acho que levaria os seguintes:1º- Ulisses, de James Joyce2º- Cem Anos de Solidão, de Gabriel García-Marquez,3º- Viagem ao Fim da Noite, de Céline4º- Conversa na Catedral, de Mário Vargas-Lhosa5º- Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes»DervixeRodopiante (in
http://alfa-e-omega.blogspot.com/, aos 04.21.05 - 6:58 am»

(4) «Ó Simplesmente Nhanha vai é lá ao Tapor cumprir a corrente da Riacho. E mal por mal, sempre se fala de livros que é sempre bem.E agora que falo nisso há dois outros fundamentais que também tinham que ir: A Bíblia e o Paraíso Perdido do John Milton.»Dervixe (in
http://alfa-e-omega.blogspot.com/ aos 04.21.05 - 12:00 pm)

(5) «Ó Panahanahgnaha tu é que eras gajo catita para responder ao desafio da Riacho. Mete poste sobre isto, que eu no blog dela já respondi por mim.»Dervixe (in http://www.tapornumporco.blogspot.com/ aos 04.21.05 - 12:13 pm

20/04/05

Os Criadores, por Corte e Costura

Um dos fenómenos mais característicos da sociedade portuguesa é a reinvidicação da doutorice. As nossas páginas amarelas são, para um estrangeiro, um verdadeiro mistério, tal a exponencial quantidade de médicos, de dêerres, que por lá abundam. Somos, por isso, pródigos em criar títulos pomposos para designar as funções e as tarefas mais simples. Lembro-me de um curso que havia numa Escola Profissional que se chamava Curso Técnico de Manutenção Rodoviária. Na prática o que faziam os futuros Técnicos de Manutenção Rodoviária? Pois, lavavam os carros, aprendiam a mexer na máquina automática, na mangueira, nos botões que accionavam as escovas e o secador, etc, etc…
E que dizer dos Técnicos de Saúde a Apoio Médico, vulgo, funcionários que transportavam os doentes em macas?

Mas um dos fenómenos mais absurdos a este respeito na sociedade portuguesa, é o dos Criadores. «Criadores» é a designação com que se baptizaram a si próprios os profissionais que à vinte, trinta anos, eram simplesmente costureiros. Agora designam-se a si próprios por «criadores» e a palavra pegou: nas revistas da moda, nos programas fúteis da TV, é-nos dada a conhecer a vida deles. Como é que é? Criadores, o tanas. Criador é o Picasso, o Einstein, o Da Vinci, o Kafka ou os U2…
Vamos conservar alguma propriedade nas palavras sob risco de, qualquer dia, já ninguém se entender acerca de coisa nenhuma. Um indivíduo que se dedica à costura chama-se, isso sim, costureira/o. Não há mal nenhum em ser-se costureiro/a. É uma profissão nobre, obviamente com uma componente criativa, porque é que não procuram reabilitar a palavra – se entendem que é necessário - em vez de, pura e simplesmente, a substituirem por outra inadequada e usurpada, só porque a acham mais pomposa?

É ridiculo o contraste entre a exposição geral da vacuidade mental destes persoangens em contraste com o seu ar pedante e a sua aprência pretenciosa. Geralmente, mal abrem a boca e sai asneira, mania ou presunção (há excepções, claro)… São absurdos aqueles rótulos que colam aos costureiros/as como «genial», «artista», «estilista», etc. Isto são insultos aos verdadeiros génios e aos verdadeiros artistas. Já repararam que neste país os gajos que fazem roupas são conhecidos como «criadores»? Criadores o tanas, são costureiros. Criador era o van Gogh e o Picasso... Não gozem comigo, fónix.

18/04/05

Existe Vida Para Além do Tinto, por Krrrupt Das Ilhas

Durante largos anos militei com fúria contumaz no partido daqueles que resumidamente crêem que há vinho e há branco. O tempo, esse ladrão, conjugado com feliz e reiterado acesso a exemplares convincentes, encarregou-se de me resgatar do erro em que estiolava, e assim digo hoje, com exultante convicção, que existe vida para além do tinto; que na galáxia vínica nem sempre as estrelas brancas são de menor magnitude e que a dicotomia, assente na evidência dos factos e útil como tantas outras, não tem todavia préstimo algum quando se trata de formular juízos qualitativos.

A quem não concorde, aconselho vivamente um "Cloudy Bay" - subsidiariamente, bolsas menos abonadas poderão ainda assim permitir-se uma ideia razoável com o "Vila Maria", da mesma casa. Além de ser uma proveitosa lição, no que respeita a certos preconceitos em favor dos méritos do vinho nacional, a experiência será ainda elucidativa da "ladroage" que montou tenda no mercado interno. Seja como for, estou em crer que uma mente de abertura mediana acabará, com esse ou com qualquer um de tantos outros exemplos que seria aqui fastidioso enumerar, por reconhecer, com justa equanimidade, que a partir de certo nível as opções são estritamente de gosto pessoal ou, mais ainda, de ocasião. De resto, pela parte das minhas preferências, continuo a favorecer o tintol.

Ora, manda a verdade dizê-lo, a atrás referida não é a única das evoluções a que neste vale de lágrimas está sujeito um cristão que vá adoçando a existência com o exercício do justo amor pelo vinho. Deixo de lado, por agora, as maravilhas do vinho do porto, do madeira e outros licorosos menores, cuja capacidade de devida apreciação, essa sim, estou em crer que só os anos consentem - e daqui dirijo um sincero até breve à garotada que ainda postula que isso nem vinho é, grande charopada, bom para sobremesas e outras bojardas de semelhante quilate. Não. Neste árduo caminho, uma vez vencida a inicial relutância pelo branco, penso que o primeiro grande desvio a merecer do viajante a consideração de uma exploração demorada é o dos espumantes - e não falo necessariamente daqueles que, extraídos das vinhas da Champagne e embotelhados nas casas de Reims, nos remetem as gentes francesas pelo vapor do Havre, a preços pouco convidativos (a "ladroage" monta tenda em diversos sítios). Também cá pelo nosso velho Portugal estamos razoavelmente providos do borbulhante néctar, e já nem falo de "nuestros hermanos", a quem devemos ainda o facto de melhor conterem os sobreditos armadores de tenda.

Dito isto, tem interesse referir que nesta matéria, e por paradoxo, o neófito sofre quase invariavelmente tendência para repetir o erro em que incorrera no início da sua jornada, mas agora invertido nos seus termos: há espumante, e há espumante tinto... É compreensível uma tal atitude, induzida por factores de múltipla ordem, dos quais decerto o menor não será o deslumbramento pela frescura, a leveza, a variedade de aromas e sabores, com tantas vezes feéricas e desencontradas sugestões de mel, caramelo, limonete, eu sei lá!

Porém, mais insidioso do que esse, pesa um factor com infausta tendência a perpetuar-se e cuja ultrapassagem não depende em exclusivo das néscias ou sábias inclinações do apreciador. É que, deplorável falta dos produtores, o espumante tinto tem rara ocasião de dar a conhecer os seus inteiros méritos, derivando de uma posição sempre marginal e até algo excêntrica para a verdadeira exoticidade. Não obstante, aparece, e um mínimo de curiosidade obriga experimentá-lo.

Já pensaram bem na vida de um salmão? Por Salmonete

Ontem vi um programa da National Geographic e tornei-me um admirador incondicional dos salmões! Os salmões são uma espécie digna do nosso respeito. A vida deles é uma ode ao altruísmo, uma vitória da moral sobre os interesses individualistas.

Fiquei a saber que a vida de um salmão é, basicamente, uma imensa correria – ou, mais literalmente, uma imensa prova de natação – desde o mar até à meta, algures milhares de kilómetros mais além, num rio de água doce. Os salmões saem dos oceanos em direcção aos rios e nesse percurso que dura milhares de kilómetros, têm que enfrentar hordas de predadores esfaimados, a começar pelos tubarões. Deslocam-se em cardumes, aos milhares, e uma parte deles consegue vencer esta primeira etapa da sua vida.

Uma vez chegados aos rios, têm que subir correntes poderosos que os deixam positivamente extenuados e à mercê de mais umas dezenas de espécies predadoras. Os que sobrevivem apanham depois com multidões de ursos esfomeados que despertaram da hibernação e precisam absolutamente de se alimentar para não perecerem. É uma verdadeira batalha: os ursos escolhem os locais estratégicos, as cascatas principalmente, e aí esperam os cardumes de salmões que têm que dar saltos enormes para vencerem os rápidos. Os ursos podem dar-se ao luxo de escolher os melhores salmões e estes sabem que só têm alguma hipótese de passar mais esta provação se se atirarem de cabeça aos milhares. Ou seja, sabem que é o facto de muitos perecerem na subida dos rápidos que dá a uma minoria a possibilidade de passar. É heróico. Os salmões, neste momento, são como um batalhão aliado a desembarcar nas praias da Normandia no Dia D. Eles avançam esperando que as rajadas os poupem, mas conscientes que alguns – a maioria – tem que morrer para que os outros possam vencer. Se o Spielberg soubesse disto o soldado Ryan seria um salmão!

Os poucos que passam as cascatas e os monstros dos ursos ainda têm que enfrentar as águias e outros predadores, também elas dependentes de alimento, e que os apanham já cansados nas águas mais baixas. É uma verdadeira carnificina. Mais uma! Mas mesmo assim ainda há sobreviventes que vão chegar ao destino que norteou todas as suas vidas: as águas paradas onde estão mais seguros. Poder-se-ia pensar que estas águas são uma espécie de jardim das delícias para os salmões. Que valeu afinal a pena terem enfrentado os mais poderosos predadores dos oceanos, terem subido rios em contra corrente em estado de exaustão, não terem parado nunca, nunca… Mas não é bem assim. Afinal os salmões passam toda esta vida terrível para cumprirem um objectivo bem simples – poderem desovar e assim perpetuarem a geração seguinte. Só aparentemente estamos perante um final feliz. É que, após a desova os salmões morrem irremediavelmente. Tanta canseira para perecerem, desgraçados. No entanto, eles cumpriram a sua missão e o seu destino. Na próxima primavera, das ovas que lá deixaram, nascerá uma nova geração de salmões que perpetuará a espécie e fará a mesma viagem dos pais para deixar, também, as ovas da geração futura.

O exemplo salmão é uma lição para a espécie humana e, em especial, para aquela imensa percentagem de nós, principalmente aqui da Europa, que se recusa a procriar em nome da vida que tem que viver. Os filhos são estorvos e a malta quer é curtir. Como são escandalosamente diferentes os salmões que se sacrificam individualmente para salvarem a espécie! Não quero julgar moralmente os membros da minha espécie mas, na perspectiva de um salmão, não há dúvida que daria que pensar, uma espécie como a nossa… Se algures no reino dos salmões houver um National Geographic a emitir, de um rio qualquer, um programa sobre a espécie humana, imagino que eles ficarão espantados. De facto, uma vida de um só salmão, vale mais que todos os tratados de ética produzidos pela nossa espécie.

16/04/05

Prosa Pós Profes, por Profe (Jocta) Panhanha phd em reportáge

Movido por um misto de curiosidade pessoal e profissional, ontem ao fim da tarde fui ouvir o profe Marcelo Rebelo de Sousa, ao Casino da Figueira da Foz. O homem veio encerrar umas jornadas da Associação de Jovens Advogados do Centro e do Arquivo da UC. Veio falar das suas memórias de professor universitário de Direito, sobretudo na alma mater Universidade de Lisboa (UL), onde se formou a rebentar a escala, se doutorou em Ciências Jurídico-Políticas e é hoje professor catedrático. Não dei o tempo por perdido. O profe, perito em sínteses e em cativar audiências, discorreu durante cerca de uma hora em grande aceleração verbal pelo seu passado de, precisamente: profe. Desde os princípios dos anos 70, passando por uma revolução («tive a felicidade de ter podido viver uma revolução aos 23 anos, é a melhor altura da vida para se viver uma revolução», disse Marcelo com saudades) e atravessando estas três décadas democráticas. Não se falou de política (pelo menos directamente), não se falou do Expresso nem das dezenas de livros que produziu, nem das obras jurídicas. Foi sobretudo em torno da sua experiência enquanto professor, professor e comunicador por vocação e distinção. Uma aula que o magnífico gongórico Rui de Alarcão apelidou, extasiado, de «magnificente» no final. A sério. Fez uma breve regressão a um passado mais fundo da vida, no início, para dar contexto familiar à vocação, e ao convívio íntimo do pai com Marcelo Caetano, que já em criança lhe despertava a vontade de ser quando fosse grande «professor catedrático».
Fait divers: Marcelo Caetano não foi padrinho de baptismo do profe, apesar de convidado pelo pai Baltazar, invocando uma questão de princípio para recusar: Os padrinhos não devem ser mais velhos que os pais, para poderem estar lá em apoio do afilhado quando os pais falecerem, em princípio mais cedo. A sério.
Marcelo, liberal e pró-democrata apesar das simpatias familiares, foi sintomaticamente dos poucos profes, na altura assistente, a não ser saneado pelos comités revolucionários, sobretudo estudantis, que tomaram conta do poder nas universidades após o 25 de Abril. Se a de Coimbra foi tomada pelos comunistas, apesar de tudo uma malta mais “soft”, da UEC, na UL venceram os radicais maoistas do MRPP, gente de gadelha sebenta até aos mamilos adepta do livrinho vermelho chinês, como Durão Barroso ou Ana Gomes na vanguarda em Direito. Na UL foi quase tudo varrido dos corpos docentes, já que eram raros os que não tinham colaborado com o regime anterior, seja como membros de governos, seja como procuradores das câmaras corporativas, etc. Em Direito só ficaram três, um deles Marcelo. O outro, Marcelo, foi para o Brasil. Em suma, o profe saiu também por solidariedade para com os saneados, mas achou, ou pelo menos é assim que hoje sente esse passado, aquilo tudo uma grande excitação! O homem é de facto uma força da natureza e faz lembrar uma mosca, atenta e rapidíssima, sem perder a compostura, o charme e a simpatia. Depois é enciclopédico, e até as maiores banalidades lhe saem com brilho e graça. Um predestinado da docência com um currículo de 350 páginas. «Os fins de regime são sempre esteticamente bonitos», esta frase foi uma das poucas que acabei por registar no bloco, a velocidade do discurso tornava quase impossível a tarefa e a partir de um certo ponto deixou de me interessar a caneta e o bloco, fiquei absorto e tentei registar com a memória. Aqui vos deixo um cheirinho, só para dar nota da análise que o profe faz, nestes trinta anos de ensino, às diferentes gerações de alunos que lhe têm passado pelas salas de aula. A partir dos anos 90 foi sempre a descer. Primeiro, ao contrário do espírito mais solidário que se vivia entre os estudantes nos anos 70 ou 80, começou a imperar a parir daí o individualismo feroz, fruto de uma concorrência que já se fazia antever de um mercado de trabalho cada vez mais esgotado, começaram aí os principais e primeiros problemas de acesso de licenciados ao emprego. «Cada qual por si e Deus por todos e, para os não católicos, ninguém por ninguém», seria genericamente o lema. Depois começou a instalar-se rapidamente a mancha negra da ignorância, boi que o profe não quis chamar pelo nome, relativizando o fenómeno com o excesso de informação que lhes entra hoje nas cabecinhas: «Não têm tempo para gerir tanta informação, há menos qualidade». Por um lado uma crescente incapacidade de perceberem um conceito abstracto, que tem de ser explicado tim tim por tim tim como se explicam coisas às crianças, e acima de tudo como se toda a anterior escolaridade tivesse desaparecido por um vórtex ao fundo do cerebelo, por outro graves lacunas culturais e educacionais de base. «Grandes buracos formativos de base», nas palavras do profe, que ainda não se habituou ao tratamento de polé que é dado, mesmo pelos melhores alunos do curso, à língua portuguesa. Isso, ou um confrangedor desconhecimento sobre história, em localizar e explicar factos e pessoas no passado. «Não têm, por exemplo, noção do que era o país antes do 25 de Abril, não percebem, é outro mundo (…) Passámos a ter de explicar coisas óbvias, têm uma dificuldade enorme de conceptualizar, não sabem lidar com conceitos. Mesmo os melhores alunos têm lacunas em coisas muito sérias», admite Marcelo num lamento, mais sofrido pela crescente falta de respeito pelos mais velhos e pelos profes em geral. Incluindo as instituições. Comparou a esse propósito visitas que faz com alunos a Belém, e as respectivas atitudes, com gerações anteriores. Estas últimas compostas, curiosas e respeitosas. Hoje em dia entram em cena num perfeito circo infantil e desbocado, espalhando-se de imediato, qual bando de pardais à solta, pelos recantos mais sombrios dos jardins do palácio cor-de-rosa para «namorar». Depois de muita trabalheira a arrebanhar os quase “doutores” de Direito, explica o profe, lá entram, e por regra ignoram completamente as prelecções (algumas interessantíssimas, garante o profe, sobretudo com Soares) do Presidente, e alguns até vão remexer na secretária de trabalho do PR virando decretos para promulgar e objectos pessoais. Retive, enfim, uma frase do profe a propósito da degradação do ambiente familiar neste país stressado, citando o desabafo de uma aluna, a quem aconselhava apoio entre a família: «Sabe sôtor, a casa é um bocadinho uma paragem de autocarro, temos todos horários diferentes e falamos pouco». Não há tempo. Os pais e os profes têm cada vez menos tempo, interesse ou autoridade e estamos a fazer um país de idiotas funcionais.

14/04/05

O capitão Haddock e a Linguística, por Semi Óptico

Deve-se a Roman Jakobson, nascido em Moscovo (1896) e linguista do Círculo de Praga, a teorização das famosas funções da comunicação. Uma delas é a função emotiva ou expressiva que descreve a relação da mensagem com o emissor. Esta função torna a mensagem fundamentalmente pessoal, na medida em que expressa as emoções, atitudes, estatuto ou classe do emissor. É engraçado como a BD é uma boa ilustração destas ideias e, em particular, da função expressiva da linguagem.

O capitão Haddock, por exemplo, é um dos melhores exemplos a este respeito. Haddock é a mais exuberante das personagens criadas por Hergé, a mais expressiva. Quando comunica usa constantemente onomatopeias, pragas, entoações, tiques e gesticulações. Lembrem-se: «Com mil milhões de raios e coriscos!», ectoplasma!. Pirata!, Ostrogodo, Pirómano!, diz ele e o que nos diz tudo isto, para além do carácter exuberante e verrinoso do emissor? De facto, o conteúdo semântico destas mensagens é zero, mas, em contrapartida, o seu potencial expressivo é imenso… Haddock é dos nossos.

Mas não é só a linguagem verbal que comunica aspectos do emissor ou da sua relação com outros intervenientes sociais. O corpo, os gestos, o olhar, o vestir, cumprem igual função. E, ainda, o que é muito interessante, o espaço. Sim a forma como dispomos o espaço ou nele nos dispomos também comunica, também cumpre esta função expressiva de que falava Jakobson. Nos grandes edifícios de escritórios e firmas de negócios os andares mais altos são reservados às pessoas de estatuto mais elevado – o sonho de um arrivista é, justamente, subir uns pisos e é engraçado como esta ascensão social lembra o universo religioso. Mais uma vez há exemplos na BD sobre este aspecto. Duas sugestões:

- Em A Feira dos Imortais, Bilal imagina uma sociedade futurista em que os níveis mais baixos da população vivem abaixo do solo, são seres inferiores que não têm, sequer, o direito de contemplar o sol. Nos níveis mais elevados, em verdadeiras fortalezas voadoras, vivem as elites que Bilal representa, recorrendo a elementos da iconografia egípcia.

- Em A Sombra de um Homem, Schuiten e Peters – dois arquitectos – voltam ao tema, imaginando uma espécie de cidade que não é mais que um edifício muito alto em que as classes sociais, estão divididas por andares. Mas se um homem bem instalado num nível mais alto se apaixona por uma rapariga do rés do chão… Abdicará ele do estatuto, suportará o desprezo dos seus semelhantes por causa da rapariguita?

13/04/05

A Eterna Nojeira, por BeloZebú

Para o pessoal que não é de Coimbra, aqui fica o esclarecimento breve. Está em construção em Coimbra um empreendimento junto ao rio Mondego com vistas e situação magnífica, e que se estende em banda de dupla fileira de torres. Estão a vender aquilo a 740 contos o m2. A coisa em si já é uma aberração pela volumetria descomunal que apresenta e que abafa por completo o novo parque do rio recém construído. Para quem vê a cidade do outro lado do rio, a coisa ainda é pior. Parece que a cidade está muralhada. Uma nova muralha da China. Deve ser para atrair visitantes tipo Portugal dos Pequenitos.

A coisa chama-se Jardins do Mondego e é um empreendimento de um Fundo de Investimento Imobiliário do grupo Caixa Geral de Depósitos (Fundimo) e está a ser construído pela multinacional espanhola Ferrovial. Não estamos assim perante o Zé das Berças, o Chico esperto, ou o Pato Bravo cá do sítio. Saliente-se que a coisa já tem o índice de construção majorado em 20% (o máximo permitido) porque os anteriores donos deram terreno para o novo ajardinamento em frente ao rio.

Mas isto não lhes chegou, e vai daí a Dona da Obra tratou de meter mais um piso, o Oitavo, em cada uma das torres da coisa. Como a avantesma de betão tem qualquer coisa como 7 torres à frente e mais 7 de dupla entrada atrás, a monstruosidade só com o Oitavo andar, acrescenta cerca de 42 novos apartamentos. Acontece que a besta imunda só está aprovada até ao 7 piso. O Oitavo é um extra que a Dona da Obra resolveu oferecer a si mesma. Cerca de 42 novos apartamentos de brinde.

O PCP e o BE saltaram a terreiro e têm berrado que se farta. A dona da obra está calada que nem um rato, suspeitando-se da segurança e do desplante com que fez uma coisa daquelas em pleno centro da cidade. A Câmara já fala em resolver rápido a situação para acabar com a polémica e aprovar o projecto de alterações que a Senhora Dona da Obra já lá meteu.

Em face das dezenas de situações de garagens, currais de galinhas, muretes, casas de habitação particulares, que conheço pessoalmente e que a Câmara com mão de ferro têm embargado, multado e obrigado à demolição efectiva, apetecia-me desatar a adjectivar por aqui a fora, mas deixo isso para vocês nos coments.

Deixo-lhes só um número por alto. Cerca de 14 torres, 7 das quais de dupla entrada (mais coisa menos coisa), com cerca de 160 m2 cada uma e todas com um Oitavo piso a mais, a 740 contos cada, dá qualquer coisa como DOIS MILHÕES CENTO E TRINTA MIL CONTOS a mais de facturação bruta só nesse Oitavo piso.

Forte com os Fracos e Fraca com os Fortes. Como sempre. É preciso que algo mude para que tudo fique na mesma. Como nunca. Adjectivem, que eu estou enjoado.

11/04/05

No Princípio era o Verbo, por AlquimistaDaDor

Uma das coisas mais fascinantes de um livro e da leitura, é ver a frase com que o escritor começa o livro. A frase ou arranque inicial do livro é sempre matéria de demorada ruminação da minha parte, qualquer que seja a força da coisa.

Como é evidente, há muitos “arranques” que soam a falsa partida, e mais de quantas vezes temos que estar ali a penar dois ou três capítulos até que a coisa desperte o mais leve arquear de sobrancelha. Muitas vezes percebe-se que o escritor andou por ali a penar forte e feio, até conseguir descobrir o fio à meada. Certa vez, de escritor que já nem lembro, ouvi a referência de que a primeira frase era uma agonia completa, para logo rematar, que depois dos meses infindos à volta da primeira frase, logo que acertava na coisa, o resto do livro fluía-lhe naturalmente.

Ao invés, existem frases de uma força tal que acabam, por vezes, por ser mais famosas que o próprio livro. Quem não se lembra ou já não ouviu isto:

“No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se ás 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.”

E mais esta:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.”

Ambas as frases abrem livros de Gabriel Garcia-Márquez, respectivamente o “Crónica de Uma Morte Anunciada” e o “Cem Anos de Solidão”. Obras maiores de um escritor ímpar, que nem no menor “Memória das Minhas Putas Tristes” se descuida da força da frase inicial e começa a coisa assim:

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.”

Com Kawabata no enredo e Nabokov no arranque, García-Márquez devia pagar aqui direitos de autor. E a propósito relembremos a frase inicial do “Lolita” de Vladimir Nabokov:

“Lolita – Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade.”

Mais de quantas vezes mordemos a primeira frase e tunga, estamos fisgados. Não há fuga possível. Léon Bloy abre o seu “A Mulher Pobre” com um fulminante:

“ – Arre! Como Deus aqui cheira mal!”.

Mário Vargas Llosa começa a desenrolar a utopia no seu “O Paraíso na Outra Esquina” com esta frase:

Abriu os olhos às quatro da madrugada e pensou: “Hoje começas a mudar o mundo, Florita.”

E ainda Vargas Llosa no fabuloso “Conversa na Catedral”:

Da porta do La Crónica, Santiago contempla a Avenida Tacna, sem amor: automóveis, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos a flutuar na neblina, o meio dia cinzento. Em que altura se tinha fodido o Peru?”.

Dali para a frente, sempre no Catedral, mas com os tempos todos fodidos, Vargas Llosa vai desbobinando as interrogações sobre a geraldina peruana. E como famosas relembro ainda Jorge Luís Borges e a frase inicial de fascínio puro, do seu conto “Tlön”:

Devo à conjugação de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta de Uqbar.”

E a maravilha que é a frase inicial do “Baía dos Tigres” de Pedro Rosa Mendes, que abre assim:

“Em cada milímetro deste chão está o último instante da minha vida.”

Ítalo Calvino no seu “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante” abre as hostilidades em interpelação directa do leitor com um anzol poderoso que nos impede de sair dali:

“Estás para começar a ler o novo romance “Se Numa Noite De Inverno Um Viajante” de Ítalo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te.”

Termino este post com o homem mais genial em frases de arranque. Ando a relê-lo e foi ele que me inspirou este post. Falo de Franz Kafka e das suas duas obras maiores. O seu livro “O Processo” abre desta forma:

Alguém devia ter caluniado Josef K., visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal.”

Já no “A Metamorfose”, para mim a obra maior de Kafka, a coisa é ainda mais brutal, misteriosa e poderosa:

Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na cama metamorfoseado num monstruoso insecto.”

Quando me lembrei do tema deste post corri meia biblioteca lá de casa, à redescoberta destes arranques fabulosos. Contudo existem certamente muitos mais, fabulosos também, dos quais passei ao lado ou que me não despertaram a atenção. Despertem-na vocês e completem este post. Venham daí mais arranques de génio ou que tenham tocado o pessoal.

09/04/05

R.U.C. 107.9 – sempre no ar!, por Tifoso

Aproveito o precioso espaço do Tapor, para deixar aqui a minha sincera homenagem à malta que faz os relatos da Académica na R.U.C. Aquilo é tudo o que um relato deve ser: é o contrário de todos os outros relatos das estações de rádio nacionais. Os comentadores da RUC são honestamente parciais e tendenciosos, querem sempre que a AAC ganhe, berram muito nos nossos golos e se pudessem nem referiam os dos adversários e isso é bom.. Gozam com os adversários, principalmente se forem os rivais União de Leiria e Beira Mar, mas também com os artistas da casa, estão sempre a rir por tudo e por nada o que deixa no ouvinte a sensação de estar com os amigos no café e não a ouvir lenga-lengas forjadas de profissionais do microfone…
Nos relatos da RUC fala-se sempre em coisas que não o jogo, mas que são tão importantes como o jogo que vai decorrendo como se fosse um ruído de fundo. Assuntos sérios, como por exemplo, a última ressaca dos comentadores, a gaja gira da bancada central, a namorada deste ou daquele, a churrasqueira de Vila das Aves onde um dos participantes do programa comeu muita bem e barato, as alcunhas dos artistas e dos misteres, a pronúncia dos adeptos das equipas do norte, as ameaças das claques das equipas adversárias, especialmente a do Rio Ave, etc, etc. E nuca sabemos quanto é que está o jogo porque como eles estão entretidos a falarem de coisas verdadeiramente divertidas esquecem-se completamente de nos informarem, a não ser quando se chega ao minuto 69, invariavelmente assinalado com gemidos, que é quando se lembram de fazer o ponto da situação.
A grande vantagem de ouvirmos a bola na RUC é que por aqui ninguém morre cardíaco e rimos o tempo todo. Os relatadores e comentadores da RUC devolvem o futebol à sua real expressão: a de um simples jogo. E como isso é pedagógico neste país de futebol, futebol, futebol… Não é como aqueles gajos de outras antenas que comentam as incidências do desafio como se falassem do decisivo desembarque das tropas aliadas na Normandia. E no fim gozam sempre: com os treinadores – foi pena a demissão do Luís Campas do Beira Mar que era uma das grandes minas de ouro da casa - , com os adeptos, com os jogadores – memoráveis, as entrevistas ao Tixier, um francês cultor do vernáculo portuga! - , com os ouvintes o tempo todo…
Quando estou em casa ao Domingo nunca perco estes relatos. Nem que o jogo não interesse ao menino Jesus. Os relatos da RUC valem por si mesmos ainda que o adversário da Briosa seja o Cascalheira e o jogo esteja 10-0. Isso não tem importância nenhuma. Com os relatos da RUC o futebol perde o peso da seriedade e ganha uma dimensão lúdica e de diversão que parece ter-se perdido numa boa parte dos media portugueses. Mas porque é que nenhum director de informação de um media qualquer ainda não viu isto - que esta é que é a maneira saudável de viver e comunicar uma partida de futebol?

08/04/05

Penélope, The Mystery Woman (???), by Minotauro

O ícone aqui ao lado responde pelo nome de Penélope. E também responde ao nome de Mystery Woman. Mais do que isto não sei e gostava de saber. A presença deste ícone é constante por aí a fora, presença obrigatória em muita traseira automóvel e frequente em tatuagens masculinas. Nos anos 80 então, o autocolantezinho com a mulher do chapéu era presença obrigatória em qualquer biatura de nível ou com pretensões a tal. Nos quiosques vendiam-se como papo secos e até nos dossiers estudantis a coisa aparecia.

Já perguntei várias vezes a artistas que têm isto nos carriolos e népias, nenhum sabe a origem ou o porquê disto. Na última vez tive que desistir porque ao explicar ao tunningueiro que aquilo que tinha no carro era um símbolo da eterna procura da mulher ideal, a cara metade não gostou e já estava com a unhaca a arrancar a coisa. Deu pró torto e eu saí de fininho. Do nome de Penélope e Mystery Women que identificam pela net, a vamp do chapéu negro, adivinha-se um imaginário de sedução e mistério feminino que beberá ainda da mítica Penélope do Ulisses. Mas essa limitava-se a fazer e a desfazer camisolas e pretendentes, e não consta que usasse chapéu.

Quem souber algo sobre isto que diga que o Porco anda há anos morto de curiosidade.

06/04/05

Manifesto Anti-Touradas, por AlquimistaDaDor

A civilização humana e sua evolução, sempre se caracterizaram pela construção de um homem social que superasse os seus mais básicos instintos. O homem social e actual é, e procura ser, o mais afastado que é possível desse instinto básico e primevo fundado no sangue e no apelo do coração. Ainda temos muito de coração, mas luta-se sempre pelo primado da razão. É essa a razão da sociedade, do direito, da economia e da solidariedade. Evoluímos sempre em luta contra o que de animalesco há em nós.

Ao invés, a Tourada, é um apelo cerrado e violento ao que de mais animalesco, cruel e sanguinolento que o homem tem. Aliás, basta ver a sua origem que remonta às arenas romanas, onde esse apelo aos instintos primitivos era a base de todo o espectáculo. Como a tourada hoje continua a ser.

A tourada faz apelo ao sangue. Pela Tradição. Pelo Belo. Pela Arte. As mesmas tradição, belo e arte que também reconhecemos em muita coisa funesta. Como por exemplo num assassínio de vingança de sangue por um velho simpático siciliano que vinga um filho. A tradição, a beleza e a arte da máfia siciliana. Não é por acaso que todos gostamos dos Padrinhos, dos Bons Rapazes, do Pulp Fiction, etc, e não se diga que estamos a meter no mesmo plano coisas distintas, porque o que se quer salientar é que já superámos e saímos – ou pelo menos lutamos por isso – do mero instinto primevo e sanguinolento da vingança. A essência do derrame de sangue é sempre a mesma: a não superação dos instintos mais básicos e primevos.

Ao longo dos séculos o homem tem vindo a superar essa veia cruel. Já não se queimam pessoas – pelo menos da forma institucional anterior – a pena de morte começa a ser excepcional, as lutas de cães e galos estão já proibidas e criminalizadas na maioria dos países e a tourada cairá também, como caíram já outros instintos primevos. Mesmo a tourada espanhola – bastião mundial do apelo ao sangue – é já uma relíquia do que era. É preciso não esquecer que agora é proibido que os cavalos dos picadores não sejam protegidos por aquelas samarras imensas, quando há poucos anos era sempre morto pelo touro, um cavalo ou dois por corrida. É preciso relembrar que hoje a maioria das ganadarias e corridas serra as pontas dos cornos aos touros e depois mete graxa preta nas pontas. Os cornos continuam afiados e mortíferos, mas o touro perdeu a maioria da sua eficácia e pontaria, porque lhe roubaram de um momento para o outro os pontos de referência de toda uma vida. A própria instituição base das arenas espanholas que é a picagem dos touros já não é o que era e deixou de ser por evolução de gostos e instintos, o mar de sangue que a caracterizava.

A pouco e pouco, o apelo do sangue será mais uma vez superado. É futurologia, desalicerçada e optimista? Será, mas julgo que será inevitável, até porque a luta continua. E não me parecem erradas as manifestações pacificas anti-touradas, anti-crueldade gratuita, etc, etc. Hemingway achava notável a caça grossa. As Verdes Colinas de África e As Neves do Kilimanjaro são livros magníficos de alguém que glorifica aquilo que hoje é consensualmente restringido e muitas vezes proibido. A bem da natureza, dos habitats, da beleza animal viva e pujante, garante da nossa própria sobrevivência como planeta, e sobretudo a bem da superação da matança gratuita. E mesmo assim, a caça grossa choca, como a da foto. E é bem que choque.

O respeito por algum bem-estar animal é um dos mínimos que podemos fazer para nos respeitarmos cada vez mais a nós próprios, tentando sempre superar o muito que de animalesco ainda há em cada um de nós.

05/04/05

El Fandi perante o Soltero, na Real Maestranza, por PedroRomero


Há tempos passava eu pelo canal 13 do Viver da TvCabo a ver se as hostilidades já tinham começado, quando tropecei no Festa Brava. E que festa! No écran um saltarilho de lantejoulas desesperava de volta de um tal de Pellegrino. Népias, tanto fazia como acontecia, o Pellegrino marrar não era com ele e perante os apupos da Maestranza, o Pellegrino recolheu aos curros. Mais manso que ovelha de curral. Fiquei por ali porque adivinhava a humilhação do torero. Um tal de El Fandi.

De seguida e com a anuência do Director de Corrida, entrou outra besta. Entrou o Soltero. Um colosso de 499 kg que investia sobre tudo e todos. A fera em estado bruto. Logo nas verónicas de homenagem a nosso senhor Jesus Cristo, o Soltero esteve-se nas tintas para a via sacra e ferrou um corno na coxa de um bandarilheiro de serviço, que saiu de maca. A fera sabia o que fazia. Mais um motivo para ir ficando.

De seguida vem o El Fandi com um par de bandarilhas. E caíram-me os queixos. Literalmente, o homem voava por cima do touro. Para quem nunca viu, El Fandi brilha sobretudo no tércio de bandarilhas onde as ferra em voo recuado e picado.

Normalmente o toureiro, espicaça o touro e corre de frente para ele, cravando os ferros e saltando no último momento. El Fandi não faz isso. Não corre para o touro. Espicaça-o, ferra-lhe o olhar e a atenção e depois quando a besta o fila e desembesta, El Fandi não vence a distância antes a mantém. Isto é, faz um trote de costas – embora sempre de frente para o touro que nunca deixa de ver as bandarilhas – e em passe de dança e ballet vai gerindo a sua distância ao touro. Literalmente, El Fandi corre e voa para trás. Com uma elegância e uma graciosidade, que só visto. No último instante, porque o touro corre mais do que ele e porque ele nunca se afasta da linha de marranço, El Fandi lança um último salto para trás e para a lateral, já por sobre os cornos e o cachaço do touro, cravando-lhe então as bandarilhas, completamente dobrado sobre a besta. Único.
“Air” Fandi, como depois vi que lhe chamaram em Pamplona.

As segundas bandarilhas ainda foram mais brilhantes de destreza e desfaçatez perante a morte. El Fandi fila o Soltero, galopa de costas meio círculo da arena, reduz para um trote de alazão alado e mais uma vez, no instante preciso da cornada, ganha impulso e salta sobre a afiada e luzidia armação num voo único e fantástico. Olé!

Olé! A besta corre de cabeça descontrolada a revirar os olhos e o cérebro à procura do boneco que lhe fugiu. No caso, voou. Olé!. Vi-o fazer isto por três vezes. Por três vezes a Maestranza se levantou.

Mas nas verónicas o Soltero mostrou que não estava ali para laurear o El Fandi, e virou-o de pantanas com uma marrada em cheio na cintura. Marrada fundo. Daquelas que tiram a respiração à praça. El Fandi voou de novo, mas desta vez pelas piores razões. Levantou-se a sangrar e aguentou-se na muleta, mas o deslize ia-lhe sendo fatal com o Director da Corrida a negar-lhe qualquer troféu. Mas a Maestranza não esquece e relembrou o magnífico tércio de bandarilhas e exigiu orelhas pró rapaz. Perante o levantamento geral da praça, o engravatado concedeu uma orelha e uma volta à praça. A faena não foi notável, mas o tércio de bandarilhas é inesquecível. “Air” Fandi também na Maestranza.
Na net podem-no ver na página pessoal com fotos do melhor em: http://www.el-fandi.com/

04/04/05

Olé!, por J. Bergamín

Há gente que não gosta de touradas! Tudo bem! Eu também não gosto de muita coisa. Agora, como é possível falar de direitos dos animais a propósito de touradas? Como é possível classificar os apreciadores da tourada de «bárbaros», «incultos», «anacrónicos», «carniceiros», como o faz o Vizinho no seu blog? Para mim, bárbara é a arrogância que muitos têm de se julgarem donos da Verdade e, munidos da sua Certeza, classificam os outros. Logo depois, condenam-nos. Esta gente aspira a um mundo higiénico e puro feito à sua medida e gosto. Eu prefiro as touradas. Como é possível, em nome da defesa dos direitos dos animais desejar a morte dos humanos que gostam de touradas? Como é possível ser tão categórico? Repito, não gostar de touradas eu aceito, agora, fazer juízos morais sobre os outros que gostam? E que havemos nós de fazer a essa gentalha que gosta de touradas? Proibir as touradas? Mas se isso não for possível? Exterminar os amantes das touradas? Reeducá-los? Prendê-los? Chicoteá-los? Pô-los na arena? E esta gente que é tão categórica o que acha deste rol de amantes de touradas: Hemingway, Picasso, Orson Welles, Lorca, Almodovar? E Júlio Pomar, Miguel Torga ou António Osório, para falar de portugueses? É de Osório que cito do livro posto na imagem: «Nas grutas de Altamira e do Cáucaso, a disposição central é, muitas vezes, ocupada pelo dualismo cavalo - touro. A coragem do cavalo, a destreza e a elegante bravura do cavaleiro ficam, todavia, aquém do dualismo fundamental da corrida: a luta directa, viril, entre o homem e a morte, luta de que são protagonistas os matadores e os pegadores. Mas erra-se o alvo, porque o touro é um símbolo abusivo da morte. A corrida assenta nesta infeliz metáfora. A inocência do touro comprova-se pelo sofrimento, pelo seu medo pungente. Arremedo, desforço simulados, réu equivocamente perseguido, cercado, justiçado, vítima da nossa finitude, o touro não passa de um malfeitor inocente.»

02/04/05

Porque é que é tão difícil arranjar as minhas histórias preferidas do Super Man?, por J. Olsen

O Super Man é o meu personagem de BD favorito. Sim eu sei que o Umberto Eco o considerou reaccionário em O Super Homem das Massas. Mas nas entrelinhas do seu ensaio há toda uma erudição que só está ao alcance do apreciador. Ninguém pode saber da saga das «imaginary tales», nem de Brainiac nem da Fortaleza da Solidão com tanto pormenor só por mera obrigação de investigador. Eco nunca me enganou: ele passou, como eu, a infância a ler as fantásticas histórias do Homem de Aço. E gostou… Seguro!

O problema é que não há um único, mas vários Super Homens: há o inicial de 39 aos anos 40 da autoria dos criadores originais, Joe Shuster e Joe Siegel, os mesmos que ficaram despojados dos fabulosos direitos de autor que a série gerou para a Dectetive Comics. Estas primeiras histórias têm um excesso de ingenuidade e uma quase total ausência de argumento, mas já aqui estão as intuições básicas e as linhas de força da personagem que hão-de perdurar.

Nos finais dos anos 40 já aparecem as primeiras histórias do genial Wayne Boring que abre para nomes de referência como Otto Binder, Al Plastino ou Bill Finger nos anos 50 e 60 e Curt Swan nos 60 e 70. Esta é a fase áurea da série. Super Man é aqui o que deve ser: um Deus Todo Poderoso que está acima do comum dos mortais, mas ao mesmo tempo, um espírito puro com a naividade em bruto que é própria de uma criança. Este é o Super Homem que eu prefiro, aquele que me alimentou os sonhos de infância e que me fez vibrar de emoção em tardes e tardes esquecido no sofá da casa dos meus pais.

Os anos 70 são o princípio da decadência, pelo menos do meu ponto de vista. Jack Kirby, argumentista e desenhador de Thor ou de Hulk, entre outros, é o primeiro indício da degenerescência. Kirby é de outra escola, mais ligado à Marvel Comics que à DC Comics, a editora do Homem de Aço. È conhecida a diferença de princípios filosóficos que separa as duas escolas: a Marvel vem revolucionar os Comics «humanizando-os», isto é, criando super heróis com fraquezas humanas, atarantados e amargos e tantas vezes frustrados como todos nós. Stan Lee é o grande arauto desta revolução corporizada, sobretudo, por Spider Man, um Super Deprimido vergado ao peso da sua enorme responsabilidade. Os Fantastic Four, mutantes angustiados com o desgraçado Coisa no limite e o Hulk esquizofrénico também fazem parte desta nova geração de super-infra-heróis. Lee e a Marvel vão mesmo ao ponto de conceber um super-herói cego, o Demolidor, que sempre me fez uma confusão do caraças… A Marvel impôs-se nos anos 70 e seguintes – a sua filosofia estava mais de acordo com a geração contestária que fez o Maio de 68 e a Contra-Cultura. Super man, subitamente, foi considerado arrumadinho, penteadinho e demasiado politicamente correcto, para não dizer, como Eco, reaccionário.

E que fez a DC? O pior, abdicou da sua personalidade e aderiu à moda dos heróis Marvel «humanizando» Super Man. Foi uma traição: a DC degradou-o, matou-o! A sequência das histórias do Super nos anos 80-90 é uma tristeza para um fã do período áureo. Fazem-lhe tudo na ânsia de o «humanizarem»: despenteiam-no, deixam-lhe crescer o cabelo, casam-no e fazem-no bom chefe de família (há uma história deste período em que o Super desaparece sem deixar rasto para casar com Lois Lane, fugindo da cruz da sua Superioridade como o Cristo dos Evangelhos Apócrifos filmado por Scorsese). O aviltamento se Super Man chegou, nos anos 90, ao limiar mínimo mas, ao mesmo tempo, inevitável: numa jogada comercial a DC decide matar realmente o Super Homem. O acontecimento é anunciado nos joranis da altura com semanas de antecedência e, finalmente, após uma luta titânica com um Super Vilão que não tem nem um décimo das classe malvada dos super vilões dos anos 50 o Super Homem é morto! Doomsday, é a este Zé Ninguém monstruoso que a DC atribuiu a honra de matar Super Homem. A história é banal, uma salganhada tipo Manga de baixa qualidade em que dois desgraçados – Doomsday e o Pseuso-Super-Man - passam o tempo a destruir-se e a destruir tudo à volta. A edição é histórica, mas, para mim, pelas piores razões. Foi nisto que deu a despersonalização da DC: de tanto querer humanizar o Deus, acabou por ter de o matar (para o ressuscitar depois sem história nem glória).

Já se está a ver que eu sou um nostálgico do Super da minha infância para quem tudo, mas tudo mesmo, era possível: desde voar à velocidade da luz, saltar de galáxia em galáxia, ver o que se passa nos antípodas com a visão raios X até, quando tudo falha, andar para trás no tempo e alterar o rumo dos acontecimentos. É esse Super que eu procuro, mas que nunca encontro. A sério. Literalmente. Corro todas as lojas de BD do país e nunca as encontro, as histórias do W. Boring, do C. Swan ou do O. Binder… E quando as localizo, como aqui na net, custam 100 e 80 euros a edição! As edições importadas dos States, então, são vendidas a peso de ouro. Em Bruxelas, numa loja que anunciava em orgulhosas letras garrafais no meio do império da BD francófona «Oui! Nous avons dês Comics», encontrei de tudo, todos os Superes em todas as fases, mas não encontrei a fase do Super Man que procurava… O pouco que havia – os early years - custava 80 e tal euros!Fico, ao menos, com a consolação de haver mais lunáticos nostálgicos como eu por esse mundo fora que fazem os exemplares rarearem e o preço da série disparar. Portanto já sabem: se tiverem aí esquecidas nos recantos do vosso sótão umas revistinhas daquele Super Man que eu procuro, mandem um comment aqui para o Porco. Garanto-vos que fazem um puto feliz: aquele que ainda vive dentro de mim e que as histórias do verdadeiro Super Man têm o poder