30/05/05

A Traição Francesa, por J Monet

Ver e ouvir fascistas, comunistas, nacionalistas, trotskystas, socialistas desiludidos, xenófobos e outros egoístas a cantarem em coro afinado a Marselhesa fez-me mal. Mas como é que o Le Pen pode cantar «Aux armes citoyens / Formez vos bataillons / Marchons, marchons» - em coro com os comunistas? É incrível. Como é que a Marselhesa se transformou num hino nacionalista? A Marselhesa é o hino de todos os que acreditam no progresso da Humanidade, no valor da Fraternidade e na universalidade dos princípios. Por isso, o Non do referendo foi a traição histórica da França relativamente ao seu maior legado civilizacional: a herança de 1789. Sem França não há Europa e a França veio dizer que troca a ideia de uma Europa unida por causa de uma comichão no umbigo! A comichão é o nacionalismo, é o particular a impor-se ao universal, é o imediato a toldar a visão do horizonte longínquo, é a conveniência, é o egoísmo, é o mesquinho a ditar regras à história. A França está com comichão e acha que a Europa deve pagar por isso.
O nacionalismo foi a principal causa de morte na Europa e no Mundo durante o século XX. Desde a guerra franco-prussiana, ainda no século XIX, até à guerra da Bósnia, milhões, dezenas de milhões, porventura centenas de milhões de europeus morreram em nome da causa mais estúpida e idiota que imaginar se pode: o amor da Pátria! Não contentes com esta burrice, a maior burrice da história, exportámos esta causa de morte para todo o Mundo. Na Ásia, na África, na América Latina e um pouco por todo o planeta, durante um século morreu-se à europeia: em nome da Pátria! Esta burrice tinha que acabar. Após a 2ª Guerra Mundial, a Europa lança-se no esforço de reconstrução e Jean Monet teve uma visão histórica: «Nous ne coalisons pas des Etats, nous unissons des hommes.» Monet foi um dos pais da ideia de Europa. O nacionalismo romântico, em parte herdeiro e em parte degeneração dos ideais revolucionários de 1789, era assim recolocado na sua justa direcção ao apontar o destino histórico da Europa. Relançar a utopia e, em nome de um ideal, construir uma Europa nova, a Europa dos cidadãos, unida do Atlântico aos Urais.
Não me venham dizer que a França disse Non em nome deste ideal! Não, a França disse Non porque tem medo do turco que diabolizou, porque é xenófoba e quer correr com os magrebinos, porque está farta de portugueses e polacos (o canalizador polaco, como disse a comentadora Teresa de Sousa na TV2 foi o símbolo da demagogia propagandista na campanha pelo Non), porque quer proteccionismo aduaneiro (onde já vai o laissez faire, laissez passer?), porque quer fazer da Europa uma cidadela de conforto isolada da ameça comercial dos chineses, da invasão de polacos e magrebinos, porque não quer que os seus netos tenham apelidos esquisitos.
A França, de motor porgressista da Europa, tornou-se na pátria do reaccionarismo. Isto já se adivinhava quando as multidões diziam que Noah e Zidane não eram franceses, quando subsidiaram artificialmente uma cultura oficiosa, quando quiseram impor que todas as palavras e frases, escritas ou ditas, fossem traduzidas para francês, quando quiseram combater Hollywood com filmes medíocres mas franceses quando, em suma, a França se tornou anti-americana. Jean François Revel já tinha mostrado como este anti-americanismo primário era sinal de uma decadência e de um espírito xenófobo latente. Em torno da demagogia simplória e da propaganda anti-americana, combatia-se pela mesma medida Bush e Hollywood, a Mcdonald's e o Texas, metendo no mesmo saco e agregando tudo contra a América. Ser anti-americano era ser contra a globalização, a globalização era a causa de todos os males e combatê-la era um acto de nacionalismo e devoção patriótica que unia esquerda e direita, ateus e agnósticos, católicos e marxistas, fascistas e gaullistas. Chirac foi a imagem polida desta idiotice histórica. Morreu agora, vítima da sua estupidez! Ele devia saber que a história não se decide nas ruas. Se queria Oui, fazia como a Alemanha e ratificava o tratado constitucional no Parlamento. Se queria Non referendava. Chirac queria Oui e referendou! Nunca me pareceu muito inteligente. A mim, nunca me enganou! Por isso, deixo a minha homenagem a Monet.

PS - Mas há esperança, porque houve 45% de franceses que disseram Oui! Os urbanos. As cidades votaram Oui.
Muito gostaria eu que a esquerda radical aplicasse os mesmos critériios que aplica quando os resultados referendários lhe não são favoráveis:
a) Repete-se o referendo daqui a um ano.
b) Até lá gastam-se milhões em propaganda oficial a favor do sim (lembram-se da Dinamarca?)
c) Associa-se o Non à rusticidade, fazendo passar a ideia de que o Non é provinciano, rural e retrógado, enquanto o Oui é progressista, vanguardista, urbano e intelectual
d) De preferência ratifica-se o tratado constitucional no Parlamento.

Valha-me Nossa Senhora!, por Heresiarca

Passeava na estrada Nacional nº 1 quando vi uma peregrina que marchava. Oh, meu Deus, se marchava...

27/05/05

Morte aos bons da fita! (parte I), por Ferrabrás

É verdade que sempre me irritaram os chatos dos bons-da-fita! Sempre me conheci assim: os bonzinhos sempre me chatearam, no mundo dos filmes, como na vida real, que hei-de fazer…

Lembro-me, era miúdo, de ver os cartoons do Beep Beep e de torcer pelo Coyote. De nada lhe valeu a minha simpatia, o desgraçado do Coyote passou todo o tempo que durou a minha infância a ser gozado, humilhado, baleado, esmagado e explodido pelo infalível Beep Beep…Apesar da série ter uma violência íntrinseca – hoje politicamente incorrecta - que não me desagradava de todo, o Beep Beep, sempre vitorioso e risonho, irritava-me ao ponto de me obrigar a desligar a TV. E quem diz o Beep Beep diz esse outro bonzinho nojento, o Piu Piu, um queixinhas abjecto que passou toda a santa vida a massacrar o pobre do Silvestre. E o Speedy Gonzalez, o rato que assassinou mil vezes o Duffy Duck… E muitos, muitos outros…

Nos Westerns eu simpatizava com os índios que eram invariavelmente apresentados como os selvagens de serviço – ainda não suspeitava que a história viria a dar-lhes razão, invadidos e expulsos que foram da sua própria terra por hordas de Europeus que não tinham lugar na Europa. Tantas vezes vi o Bonanza à espera que um índio fosse aos cornos ao Hoss e ao seu angelical irmão, o eunuco Litlle Joe... Mas não, o Hoss e o Joe venciam sempre e os índios acabavam invariavelmente lixados, atirados para a Reserva, sem um escalpezinho de recordação para contar aos netos...

Não era só no cinema, na vida real eu também detestava os Pompeus das minhas e de todas as turmas, impavidamente cumpridores, disciplinados e estudiosos, ainda petizes e já exemplares cidadãos. Os Pompeus eram os correspondentes na vida a sério dos Beep Beeps e dos Piu Pius. Na minha turma do Liceu havia um tipo que encarnava todos os Pompeus deste mundo - o jovem-velho Batenabó que, aos 16 anos já tinha o ar amarelecido que ainda deve ter hoje, eternamente previdente com o seu inseparável guarda-chuva-all seasons que o acompanhava quer chovesse quer fizesse sol. Irritava-me o Batenabó, certinho como um Piu Piu, erecto como um Beep Beep, angélico como um Joe de um Bonanza qualquer…

É pois inteiramente verdade, confesso, eu nunca fui um grande admirador dos bons-da-fita, muito pelo contrário, e sempre sonhei, secretamente, com um mundo em que, finalmente, os maus se erguessem das cinzas e se vingassem de anos e anos a apanharem dos bons. Como eu sonhava com touradas na TV em que o touro saltasse a barreira e danasse tudo à marrada, tudo, capinhas, forcados, cavaleiros e cavalos, aficcionados e corneteiros… Qual Manolete, eu torcia mesmo era pelo Miúra!

26/05/05

A lista dos 100, por João Bénard da Costa, by Mangas

I. OS GIGANTES
(por ordem alfabética de realizadores)
DREYER, Cari T - DU SKAL AERE DIN HUSTRU ; LA PASSION DE JEANNE D'ARC ; ORDFT ; GERTRUD
GODARD, Jean-Luc - VIVRE SA VIE ; LE MEPRIS ; SAUVE QUI PEUT (LA VIE) ; NOUVELEE VAGUE
LANG, Fritz - DER MUDE TOD ; M ; LILIOM ; DER TIGER VON ESCHNAPUR/DAS INDISCHE GRABMAL
RENOIR, Jean - LA NUIT DU CARREFOUR ; LA RÈGLE DU JEU ; LE CARROSSE D'OR ; ELENA ET LES HOMMES
ROSSELLINI, Roberto - GERMANIA, ANNO ZERO; EUROPA 51; VIAGGIO IN ITALIA; DIE ANGST (LA PAURA)
II . OS MUITO AMADOS
(por ordem alfabética de realizadores)

BERGMAN, Ingmar – SOMMARLEK ; PERSONA ; AUS DEM LEBEN DER
MARIONETTEN
BRESSON, Robert – PICKPOCKET ; AU HASARD, BALTHASAR ; LE DIABLE
PROBABLEMENT
BUÑUEL, Luis - BELLE DE JOUR; TRISTANA ; CET OBSCUR OBJET DU DÉSIR
DEMY, Jacques - LOLA ; LA BAIE DES ANGES ; LES PARAPLUIES DE CHERBOURG
MURNAU, Friedrich-Wilhelm - NOSFERATU; TARTÜFF; FAUST
OLIVEIRA, Manoel de – FRANCISCA; LE SOULIER DE SATIN; VALE ABRAÃO
OPHULS, Max – LIEBELEI; LA RONDE; LOLA MONTÊS
POWELL, Michael e PRESSBURGER, Emeric - I KNOW WHERE I'M GOING; A MATTER OF LIFE AND DEATH; GONE TO EARTH
ROHMER, Eric - LOUIS LUMIÈRE; LE BEAU MARIAGE ; LE RAYON VERT
SCHROETER, Werner - PALERMO ODER WOLFSBURG; DER ROSENKÓNIG; MALINA
SYBERBERG, Hans-Jurgen - HITLER, EIN FILM AUS DEUTSCHLAND ; PARSIFAL ; DIE NACHT
VISCONTI, Luchino – SENSO ; LE NOTTI BIANCHE; L`INNOCENTE
III . ALGUNS DOS OUTROS
(por ordem alfabética de realizadores)
ANTONIONI, Michelangelo - IL MISTERO DI OBERWALD
ARLISS, Leslie - THE MAN IN GREY
BAKY, Josef von - MUNCHHAUSEN
BARNET, Boris - U SAMOGO SINEVO MORIA
BECKER, Jacques - CASQUE D'OR ; LE TROU
COCTEAU, Jean - LA BELLE ET LA BETE
DOVJENKO, Aleksandr - ZEMLIA ; AEROGRAD
EISENSTEIN, Sergei Mikhailovich - IVAN GROZNY
ELEK, Judit - VIZGALATS MARTINOVICS IGNAC - SZASZVARI AP AT ES TACSAI UGYEBEN
ERICE, Victor - EL SOL DEL MEMBRILLO
EUSTACHE, Jean - LA MAMAN ET LA PUTAIN
GAD, Urban - DIE ARME JENNY
GARREL, Philippe - LA CICATRICE INTÉRIEURE
GENINA, Augusto - IL CIELO SULLA PALLUDE
GREVILLE, Edmond T. - BRIEF ECSTASY
GUITRY, Sacha - LA POISON
HARTL, Karl - DIE GRAFFIN VON MONTE-CRISTO
HITCHCOCK, Alfred - YOUNG AND INNOCENT
LORRE, Peter -DER VERLORENE
MONTEIRO, João César - RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA
MUNK, Andrzej - PASAZERKA
MUR OTI, Manuel - CIELO NEGRO
PARADJANOV, Sergei - SAYAT NOVA
PASOLINI, Pier Paolo - UCCELLACCI E UCCELLINT; SALO O LE 120 GIORNATE DI SODOMA
REINHARDT, Max - DIE INSEL DER SEELIGEN
REIS, António e CORDEIRO, Margarida - TRÁS-OS-MONTES
RIEFENSTAHL, Leni - TRIUMPH DES WILLENS
RIVETTE, Jacques - LA RELIGIEUSE
ROCHA, Paulo - A ILHA DOS AMORES
ROZIER, Jacques - MAINE- OCÉAN
SCHMID, Daniel - IL BACIO DI TOSCA
SJOSTROM, Victor - BERG- EJVIND OCH HANS HUSTRU; UNDER THE RED ROBE
SKOLIMOWSKI, Jerzy - MOONLIGHTING
STERNBERG, Josef von - DER BLAUE ENGEL
STILLER, Mauritz - HERR ARNES PENGAR
STRAUB, Jean-Marie e HUILLET, Danièle - CHRONIK DER ANNA MAGDALENA BACH
TRUFFAUT, François – JULES ET JIM ; LES DEUX ANGLAISES ET LE CONTI NENT
VIGO, Jean - L`ATALANTE
WILDER, Billy - MAUVAISE GRAINE

in, “100 Dias 100 Filmes”, edição da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 1994.

25/05/05

100 Filmes, por João Bénard da Costa & Mangas

A propósito de listas de filmes, preferências e da subjectividade que lhes é inerente, não resisti a publicar o texto que João Bénard da Costa escreveu para “100 Dias 100 Filmes”, catálogo publicado pela Cinemateca Portuguesa e integrado no programa de “Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura”.

«PRELÚDIO E POST SCRIPTUM AOS MEUS 100 MELHORES FILMES EUROPEUS.
“Um peru” - disse um gourmet célebre – “é um animal execrável. Pequeno demais para dois, grande demais para um”. Cem é um número igualmente execrável, quando se trata de uma lista destas. Parece que nos vamos poder servir à vontade e no fim verifica-se que ficamos cheios de fome. Não dá para o rigor mortal da escolha de “10” ou “20” ou “50”, mas também não permite qualquer esbanjamento. Dá-nos uma falsa ilusão de abundância, mas depressa lhe descobrimos a escassez.

A minha primeira lista (feita “à vontade”) quadruplicou o número de possibilidades. Na segunda, comecei a economizar e cheguei aos 200 títulos. Reduzi-os a 100, demorou-me meses e obrigou-me a opções penosas. Para o conseguir, tive de estabelecer uma regra para o meu jogo. Essa regra veio direitinha da “politique des auteurs” e da minha velha fidelidade a ela.

Na primeira jogada, perguntei-me quem eram, indiscutivelmente, os gigantes do cinema europeu, os maiores dos maiores. Dreyer, Godard, Lang, Renoir e Rossellini foi a resposta que ouvi no meu espelho mágico. Perguntei-lhe por Hitchcock e o espelho respondeu-me que Hitchcock só é Hitchcock por causa da sua fase americana. Com má consciência - miséria a quanto obrigas – deixei-me convencer. Obediente à hierarquia, escolhi cinco filmes de cada um desses cinco. Descobri, no fim de mais uma lista, que ainda ultrapassava os 100. Reduzi para quatro, o que me obrigou a sacrificar Mikael de Dreyer, À Bout de Souffle de Godard, Das Testament des Dr. Mabuse de Lang e La Bête Humaine de Renoir. Arranquei esses filmes – cinco dos meus filmes preferidos – como arranquei alguns dentes.

Depois, perguntei-me (segunda jogada), quem eram, indiscutivelmente, os autores que, além dos cinco citados, eu mais amava. Obtive 12 nomes, a que não podia fugir sem renegar pai e mãe: Bergman, Bresson, Buñuel, Demy, Murnau, Oliveira, Ophuls, Powell, Rohmer, Schroeter, Syberberg e Visconti. Escolhi, em primeira instância, quatro filmes de cada um. A consequência dessa verdade, fez-me ultrapassar, de novo, os 100. E reduzi para três, o que me obrigava a sacrificar Vargtimmen de Bergman, Les Dames de Bois de Boulogne de Bresson, La Voie Lactée de Buñuel, Trois Places pour le 26 de Demy, Der Letzte Mann de Murnau, Amor de Perdição de Oliveira, La Signora di Tutti de Ophuls, The Thief of Bagdad de Powell, Ma Muit Chez Maud de Rohmer, Der Tod des Maria Malibran de Schroeder, Ludwig de Syberberg e Vaghe Stelle dell`Orse de Visconti. Ou seja, menos doze dentes.

Com a boca tão desdentada, tinha já 56 filmes. Ficavam-me menos de 50 (menos de 50%) para as apostas simples, ou seja as não obrigadas a autor. Pelo caminho, foram desaparecendo os dezanove dentes que me restavam: Amphytrion de Schunzel, Fortini-Cani e Nicht Versohnt dos Straub, Aerograd de Dovjenko, Repulsion de Polanski, Desiré de Sacha Guitry, Le Rideau Cramoisi de Astruc, Un Soir... Un Train... de Delvaux, La Tête Contre les Murs de Franju, 1860 de Blasetti, L`Amour Fou de Rivette, Muriel de Resnais, Et La Lumière Fut de Iosseliani, La Chute de la Mison de Usher de Epstein, Hintertreppe de Jessner, Aguiree de Herzog, Die Buchse der Pandora de Pabst, San Toit ni Loi de Agnés Varda, Dorogoi Tsenoi de Donskoi, El Sur de Victor Erice e Poema o More de Yulia Solntseva.

Com as gengivas descarnadas, já engoli que Under Capricorn de Hitchcock e Pandora de Lewin eram filmes americanos, que Douglas Sirk nunca se chamou Detlef Sierk e que Muratova ainda está por provar.

Só no fim reparei – lapsus calami – que na minha lista não figura nenhum filme de Tati. Mas é verdade que me esqueci dele e, com tanta penúria e tanta miséria, aceitei a voz do meu inconsciente.

Se me tivessem deixado escolher 150 filmes, ainda tinha juntado aos 42 a menos (Tati figuraria com Playtime e Mon Oncle), Le Peti Théatre de Jean Renoir, Vredens Dag de Dreyer, Ansikte mit Ansikte de Bergman, Frenzy de Hitchcock, Madame De... de Ophuls, Der Tod des Empedokles de Straub-Huillet, Une Sale Histoire de Eustache, Les Enfants Désaccordés de Garrel, e Frankenstein Created Woman de Terence Fisher.
Mas o facto é que não deixaram e os cinquenta filmes que cito aqui são a homenagem que o vício presta à virtude. Demais se eu que para efeitos de contas, e para contas de efeitos, de nada me serve citá-los.
Os 100 são os 100. E, de acordo com os critérios explicados, vão a seguir.»

Bénard da Costa termina com uma lista de 100 filmes dividida em três partes:
I. Os Gigantes
II. Os Muito Amados
III. Alguns dos Outros

Confesso que nunca vi muitos dos títulos escolhidos pelo autor. E o que me ocorre de imediato, após ler esta catalogada incursão pelos filmes de uma vida, é a complexidade da escolha, a dor decorrente do sacrifício e a vastíssima celebração que o cinema pode proporcionar a quem o contempla. Amanhã vou ver o Episódio III da Saga. O fim de um ciclo que começou há 28 anos atrás. Amanhã vai ser dia de celebração.

24/05/05

Safoda a Bola, por J Trineto

São sempre uma delícia, as listas dos “melhores de”. Melhores do ano, melhores do mês, melhores do século, melhores da cantadeira, etc. Quando não se concorda, então, melhor ainda. São uns óptimos pretextos para desopilar a bilis , estes “rankings”. Desta vez são os «100 melhores filmes da história do cinema», e foram escolhidos pela última edição da prestigiada revista norte-americana Time. Não aparece nenhum português, mas os tipos, definitivamente, não foram facciosos. Grande parte das fitas até são “estrangeiras”, sobretudo europeias. À cabeça, destaco o facto de terem eleito o fabuloso e inesquecível Hable com Ella, do espanhol Pedro Almodóvar, como o melhor desta década. Bom prenúncio, portanto, para esta lista, onde os críticos de cinema Richard Schickel e Richard Corliss escolheram «nove grandes filmes para nove décadas», assinalando desta forma igualmente os 90 anos de existência da publicação.
Eis então, para a Time, os melhores filmes de cada decénio:
Anos 20 - Metropolis (1927), de Fritz Lang
Anos 30 - Dodsworth (1936), de William Wyler
Anos 40 - Citizen Kane (1941), de Orson Welles
Anos 50 - Ikuru (1952), de Akira Kurosawa
Anos 60 - Persona (1966), de Ingmar Bergman
Anos 70 - Chinatown (1974), de Romam Polanski
Anos 80 - Decalogue (1988), de Krysztof Kielowski
Anos 90 - Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino
Anos 2000 - Hable com ella (2002), de Pedro Almodôvar.

23/05/05

Briosa!, por L. Piçarra


E o Glorioso lá é campeão! Afinal somos mesmo 6 milhões, no mínimo, e contando só aqui neste cantinho do cu da Europa. Quando são os outros os vencedores, há festa rija lá na localidade e os media dão a meia hora da festa que é o tempo em que os adeptos de outras terras ainda arrebitam e calam-se ao fim desse tempo. É assim…

Hoje o Benfica é campeão: em Lisboa, pura e simplesmente, não se circula de automóvel, no Porto o autocarrro que transporta os jogadores do Benfica não consegue chegar ao aeroporto, Bragança está na rua, em Braga há milhares cá fora, em Coimbra a Praça da República está ao rubro, Covilhã festeja, Viseu, Maia, Cernache do Bomjardim, Carrazeda de Ansiães, mas também Dili, New Jersey, Hamburgo, Paris, Luanda, Moçambique, Praia... Nestas cidades africanas ecoa o grito «ichsomos campeões!», quase como cá. Mas compreende-se: o Benfica também é deles, o Benfica não é local, nem regional, nem de Lisboa, nem sequer nacional, o Benfica é do mundo.

E não é que o mereçam no meio da alegria do título, mas nunca é de mais lembrar aos energúmenos que estavam na TSF a justificar que «os benfiquistas não tinham nada que ir festejar para os aliados porque aqui é a nossa casa e aqui mandamos nós» que a Avenida dos Aliados não é propriedade privada deles, nem de ninguém. É um espaço público e que tem tanto direito a festejar lá um adepto do Porto, como um do Benfica ou do Boavista ou do Seixal. E que o tempo em que as pessoas não se podiam manifestar em espaços públicos, felizmente, já lá vai. Mas enfim, hooligansmo há em todo o lado e única forma que há de lidar com estes cretinos, seja qual for a sua cor, é só uma: bordoada!

No meio disto tudo, saúde-se também a Briosa pela dignidade que mostrou até ao fim. Teve pinta ser campeão com o apoio da Académica … Na festa de Coimbra os cachecóis da Briosa misturavam-se com os do Glorioso e está bem. O golo de Joeano – a meias com o Baía – deu o alento final de que o Glorioso necessitava. Para quem desconfiava do discurso redondo e simpático do Nelo Vingada ao longo da semana, percebe-se agora que aquilo era para moralizar os tripeiros que já contavam com a vitória antecipada. Afinal, o Nelo é que é a «velha raposa»… Briosa! SLB, SLB, SLB…

20/05/05

Quem quel tlamal Logel Labbit..., por Kzar Das Ilhas

Andava eu a pensar ir prá faculdade quando em Coimbra apareceram os primeiros restaurantes chinocas. Não falo do do Rocha, no Monte formoso, que já tinha uns anos valentes e a esse tempo estava para fechar. De resto, o Rocha, antigo jogador da briosa, nem era bem chinoca e o restaurante também não era daqueles que os súbditos do Império do Meio armam normalmente pelo mundo fora. Refiro-me é a estes último, decorados com cenas saloias ao máximo, com músicas de fundo indizíveis e menu numerado (o númelo 1 é o inevitável clepe).
Aliada à falta de bago crónica de que padece o estudante, alguma curiosidade levou-me à frequência esporádica dessas casas e assim lá me fui habituando ao pato à pequim, cerveja Tsin-Tao, lichias e aguardente de lagarto, entre outras merdas que por junto sabem todas mais ou menos ao mesmo.
Evidentemente não pretendo com isto menoscabar a gloriosa gastronomia do Celeste Império, que não necessita de referências encomiásticas, sendo concerteza uma das mais ricas e variadas do mundo. Todavia, sucede que a pequenez do nosso mercado condiciona a oferta e até nós só chegam restaurantes dos tais: "fast food" de rabicho, com uma tipa que mal fala português a fazer a invariável pergunta - quel clépe? - e a gritar o pedido para dentro - é tlinta e dois! Agruras da lusitaneidade. Quem quer restaurante chinês a sério e não pode ir até Hong Kong, Macau, Shangai e etc., onde se supõe havê-los à farta, trate de dar um saltito a Londres ou Paris.
Este longo introito vem a propósito de dizer que seja como for os chins foram-se instalando e atrás dos restaurantes vieram aqueles armazéns estilo loja dos 300, onde a toda a hora a populaça e não só compra miríades de pechinchas.
Em geral tenho muita boa ideia desta tropa. Vendem lá as cenas deles e só compra quem quer. Na maior parte dos casos trabalham na loja ou no restaurante o pai, a mãe, os filhos, o avô, o cão, o gato e tudo o que mexa; fechar a tasca não é com eles - irra, só obrigados; pagam rendas estapafúrdias para terem as chafaricas na baixa das cidades ou nos shoppings que durante os anos 80 nasceram como cogumelos; os filhos vão para a escola e em geral são bons alunos e não se metem em merdas; nos tribunais muito raramente me aparecem chinocas - ao longo de um ano, num tribunal de família e menores, aparecem problemas do camandro com menores de todas as raças menos chinocas - nunca aparece um maltratado pelos velhos ou delinquente! Enfim, o que desejo quanto a esta malta é que venham para cá mais! Aldrabões doutras latitudes a mamarem da segurança social e a encherem os tribunais já cá temos com fartura.

Dito isto, já se vê a estupefacção com que tenho visto a histeria racista e xenófoba que se tem vindo a levantar contra os chineses. A coisa começou com os eternos e inenarráveis comerciantes lusos a queixarem-se da concorrência. Desleal, desleal, urram eles furiosamente, por junto dizendo que os chineses vendem demasiado barato e não cumprem horários. Mas quem é que faz concorrência desleal? Sintomaticamente, nunca vi a protestarem contra os chinocas os lojistas com estabelecimento no shoppings do tio Belmiro; esses pagam rijo e têm é que fazer negócio, que a vida custa a todos - não lhes saiu na roda da fortuna uma renda de 50 paus, os da baixa que se ponham a bulir e os chineses que se façam à vida... Cada um por si e Deus por todos.
Quanto aos protestantes, a verdade é que normalmente é malta que tem uma loja na Ferreira Borges e paga 500$00 paus de renda (se for preciso quer que o senhorio faça obras no edifício!), fecha das 13.00 às 15.00, ao Sábado à tarde e ao Domingo (o cliente que venha às horas que eles mandam!) e compra ou pode comprar a mercadoria nos mesmos grossistas, mas quer vendê-la a preços exorbitantes. É malta, por outro lado, que tem tendência a esquecer que apesar de estar na mesma rua, e até ao seu lado, como o chinoca não tomou a loja num desses trespasses que uma lei infame consente (e que não são mais do que vergonhosas transmissões de arrendamento a perpetuar rendas decrépitas), paga de renda 400 ou mais contos; esquece também que tratando-se de gajos que deram ao coiro com força para virem lá da parvónia chinesa, onde vergavam a mola 14 horas por dia para comerem a malga de arroz, normalmente endividaram-se forte e feio com gente pouco recomendável, que lhes emprestou, a juros de envergonhar a banca nacionalizada de 1980, o dinheirito com que vazaram lá da terra e montaram o negócio. Já este último tipo de relação é algo que as ditas vestais do comércio luso não se lembram de denunciar às autoridades...
E aqui batem de assombro os queixos de um honesto português! Então não é que as tais autoridades, concretamente a inspecção geral do comércio, agora deram de fazer uma operação de grande envergadura para escrutinar a regularidade de procedimentos nas lojas dos chineses?! Assim mesmo! O objecto da acção é definido pela etnicidade dos lojistas! Um tipo ouve e lê isto, nas televisões e nos jornais, dito como se fosse a coisa mais natural do mundo, e nem quer acreditar! Será possível que as autoridades do Portugal do sec. XXI, supostamente civilizado e democrático, anunciem que vão ver à lupa as "lojas dos chineses" e ninguém diga puto? Onde é que estão os tipos do Bloco que desatavam logo a gritar e espumar baba e ranho se um chefe local de polícia dissesse que ia fazer uma justa operação sistemática para varrer a ciganada e os caixotes de camisolas foleiras dos passeios fronteiros ás lojas!? Tá tudo bêbado?
Parece que nessas operações lá apreenderam umas gaitas com rotulagem em estranjeiro ou em mau português, uns brinquedos com a marca "CE" aposta abusivamente, e alguns têxteis com composição diversa da anunciada... Infâmias que, está bom de ver, jamais poderiam ser detectadas nas lojas dos honestos comerciantes lusitanos da Rua da Louça... Os chineses andam a enganar o consumidor tuga e há que reprimi-los, o que as autoridades, benfazejas como sempre, se aprestam a fazer com paternal vigilância e abnegado furor.
Para ajudar à festa, agora a propósito da liberalização do mercado mundial dos têxteis, juntaram-se ao coro uns inovadores empresários do Norte (e com eles uma série de congéneres europeus). Trocado por miúdos, o argumento reza que isso é uma corja de malandros, não paga puto aos trabalhadores lá na china, não há lá sindicatos nem direitos dos trabalhadores, assim não dá para concorrer com os gajos, fechem-lhes a porta, carago! Parece que é mesmo o que a Comissão quer fazer...
Entretanto, ocorrem-me algumas perplexidades. Então ao tal senhor empresário lá de Felgueiras não andam a avisar há uns vinte anitos que o mercado haveria de ser liberalizado? O gajo pensou que isso só aconteceria no tempo dos netos? E o que fez aos dinheiritos que a UE copiosamente lhe verteu sobre a tromba com o pio objectivo de que modernizasse a sua indústria? Terá ficado no BMW? O processo (daqueles da banhada ao FSE e manás que encheram os tribunais nos anos 90) nunca permitiu conclui para onde foi o bago?
Outra piquena questão: então o Sr. Empresário está preocupado com os salários e os direitos dos trabalhadores da China? Quão preocupado? Tanto como com as suas operárias, a quem ainda há vinte e três anos aumentou três escudos e meio no salário e já nem sequer exige que trabalhe também no dia de Natal?
Já o vejo, ao fabricante de T-shirts do Vale do Sousa, a sair de uma marisqueira de Espinho, com um pelo de lagosta no bigode, chave do mercedes na mão, a declarar, agastado, ao consciencioso jornalista do Diário Económico:
- Isto assim não pode ser, carago! Já um gajo não pode ser filantropo, pagar às operárias quase todos os meses o salário mínimo, pagar subsídio de férias ainda há dois anos, raramente foder alguma, e virem logo estes tipos da china, que não pagam nada aos escravos deles, aproveitar para nos quilharem! Desta maneira tenho que fechar a tasca e abrir uma casa de alterne, ou aumentar nas facturas falsas para sacar mais algum IVA que não paguei! Não tarda nada ponho essas putas todas no desemprego!
E assim se vai vivendo neste Portugal de brandos costumes, que segundo as loas habituais é tudo menos racista. Fazem cá falta montões de chineses, e eles também bebem o seu copito!

19/05/05

O Eterno Enigma do Donaciano Afonso Francisco, por MenteContusa

Segundo reza a história, o Donaciano passou cerca de metade da sua vida encarcerado atrás das grades. 30 anos fechado a sete chaves. Segundo o mito e a lenda reinante o homem nada fez, o homem nunca pode, o homem nunca quis. Gradearam-no pelas ideias, meterem-no na redoma por puro medo irracional, porque de concreto o homem nunca aleijou ninguém e nem quis aleijar. Foi punido em sede de caça às bruxas e não em merecimento criminal.

Ora, esta versão da vida do Donaciano sempre me fez confusão. É que a obra do homem se alguma é, é descritiva e pormenorizada. E ninguém pormenoriza daquela maneira sem vivenciar muito daquilo. Dizer-se que aquilo tudo é produto da mente sempre me confundiu. Ainda agora nas reedições da Antígona das obras principais do Donaciano, lá vem nas apresentações da contracapa: “encarcerado injustamente, perseguido pela escrita, etc”, qual intelectual puro banido e detido pela produção do intelecto.

E eu, que li abismado as principais obras do mestre, sempre dividido entre a assombração e o puro nojo, estranhei sempre que todas aquelas alucinações pudessem sair da pura imaginação. Aquele delírio todo tem que sair da vida e não pode sair só da imaginação, ainda que escrita com merda nas paredes do cárcere. A mais delirante das imaginações não consegue traduzir a riqueza da vida. Aquela maldade intrínseca só pode sair de quem conhece profundamente a natureza humana e sabe na perfeição os meandros em que ela se mexe.

Mesmo, o nobel mexicano do Octávio Paz no seu ensaio “Mais do que erótico: Donaciano” alinha no mesmo diapasão dizendo entre outras coisa o seguinte: “E mais assustador do que o número de exemplos é o facto de Donaciano os ter imaginado na solidão do cárcere.” Mas mais, Octávio Paz e outros (como Guillaume Apollinaire que o redescobriu e lançou) alinham e defendem que a escrita do Donaciano traduz antes de mais uma raiva e vingança pura contra a sociedade que o encarcerou por metade da sua vida. Aquilo não é real, mas raiva e vingança pura. Seja. Assim o dizem os mestres e se tá dito, tá dito.

Contudo, fiz alguns apanhados e dei com referências bibliográficas curiosas, ora veja-se:
- “…foi educado por um tio paterno, abade da ordem de Cister, que foi encarcerado depois de uma orgia de deboche, figura essa que o Donaciano recordaria mais tarde por ter sempre em casa um par de rameiras…”,
- “…como tenente participa nas primeiras operações da guerra dos sete anos…”,
- “…já como capitão, os seus companheiros de armas recordam estadias em Paris em que o Donaciano cultivava a libertinagem com furor…”,
- “…com 23 anos é preso pela primeira vez por “deboche escandaloso”, concretizando o processo com uma “horrível impiedade para com as raparigas”…”,
- “…após várias peripécias militares e amorosas, agora com 27 anos, Donaciano aborda uma mendiga e submete-a a práticas cruéis. A mendiga consegue fugir, denuncia a fera e o Donaciano é internado…”,
- “…com 31 anos envolve-se em disputas com um oficial superior e ainda nesse ano é preso por dividas…”,
- “…libertado de novo, envolve-se com uma cónega que amantiza a par e com a cumplicidade da mulher…”,
- “…com 32 anos e na companhia do criado organiza em Marselha uma cena de deboche com quatro raparigas em que predomina a flagelação e a sodomia, e com administração às raparigas de drageias de cantáride e de anis…”,
- “…com 35 anos é acusado de ter raptado cinco jovens, que acabam por ser soltas e devolvidas aos pais…”,

Depois destas cenas que não resumem um décimo das peripécias da vida do Donaciano, este é condenado à morte, que depois lhe é perdoada para prisão, é solto com a revolução que o condena depois por “moderantismo”, e vai acabar os seus dias de condenação em condenação, em que apenas muda a cor da ferrugem das grades.

E se isto que se sabe for apenas metade do que ele fez, como acontecerá com toda a probabilidade, fico com poucas dúvidas que mais do que pura fantasia, há ali muito de vivencial naquela demência animalesca do Donaciano. Sade prós amigos.

No Princípio Era A Língua, por SarçArdente

O Génesis começa com a escuridão e a negritude. Até que Deus disse: Faça-se Luz!. Ou como diz o Miguel CampoVelho: Let There Be Light!. O intelectual tratou logo de elaborar e dizer que não, não era a Luz no princípio, mas sim o Verbo, uma vez que Deus disse “Faça-se Luz”: Faça-se, Fazer, logo Verbo.

Contudo, e uma vez que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, temos que concluir que antes do Verbo há a Língua. Sem Língua não há verbalização e verbo. E se Deus é igual ao Homem – até preferia que fosse igual à mulher – dúvidas não restam que há ali Língua antes do Verbo, aliás, Língua, Boca, Cordas Vocais e outras coisas mais que não importa aqui trazer por respeito ao Supremo Oleiro e Carniceiro.

17/05/05

Los Caliqueños, por Fidel Casto


- Pssst…, hombre, vengo da parte de Manolo…
- Manolo? Manolo Coño?
- No, tio, Manolo Cojones…
- Ah, muy bien, e para quê?
- para Caliqueños, por sepuesto…
- vale, vale, e quantos quieras?

Era assim, mas agora já não é. Os Caliqueños, charutos puros artesanais em forma de meia-lua, típicos da Comunidad Valenciana eram clandestinos, perseguidos pela Guardia Civil e pelo Fisco espanhol, devido ao monopólio da Tabacalera. Vendidos à sucapa como droga.

E era de bar em bar e de quiosco em quiosco, que o nosso Basco de serviço corria Valência e Castellón, com recomendações, santo e senha, para nos arranjar alguns Caliqueños. Tarefa perigosa que o clandestino desempenhava com gosto e risco.

Nas primeiras Provas Cegas de Tintos da Confraria, lá para os idos de 98 e 99, era da praxe o basco sacar da saca de papel almaço de Caliqueños e distribuir pelo pessoal. A malta ganhou-lhe o gosto e era ver a mesa inteira a esfumaçar. Ver, ver só no inicio da esfumação, porque 2 minutos depois já ninguém via ninguém no restaurante. A nuvem densa e negróide alastrava e instalava-se.

Houve vários sítios que nos proibiram os Caliqueños, mas outros houve em que até nos pediam dose dupla, única forma de afastar comensais mais retardatários ou que ameaçavam cantar e guitarrar. Por vingança e ódio puro a murcões de mesas ao lado, a Confraria até inventou a Sincronizada, que consistia no lançamento simultâneo de pesadas baforadas. Imaginem 10 ou 12 cheminés a debitar ao mesmo tempo como locomotivas a vapor e terão uma visão muito próxima da Sincronizada. E do inferno. Muitas vezes conseguimos até ficar sozinhos no tasco. Até os empregados vazavam.

Agora, com a União Europeia e o mercado comum a funcionar em pleno, os Caliqueños já foram legalizados. Perdeu-se a mística. E perderam-se as sincronizadas depois de algumas cenas memoráveis na Cova do Finfas, no Batina e no Peleiro, em que cada uma vale um novo post de per si.

O advento anti-tabagista também se instalou de vez na Confraria e até já cá temos alguns marrões de serviço, que só mereciam era uma Sincronizada nas bentas. Infelizmente, não tenho companhia. Nem Caliqueños.

16/05/05

Narciso e Goldmundo, por Valquíria

Em matéria de paixões literárias, eu sou um exagerado do caraças. O ano passado descobri – tarde, eu sei, mas ainda a tempo – o grande Hermann Hesse. Agora não descanso enquanto não ler tudo o que apanhar dele. Hesse é um escritor fabuloso que concilia a densidade de pensamento com uma enorme sensibilidade estética. Faz parte de uma grande família de escritores-pensadores que raciocinam com o coração e sentem com a razão. Estão para lá dos géneros, não são filósofos nem literatos, são pensadores e são artistas, ao mesmo tempo. São estes os meus preferidos e é aqui que filio escritores como Malouf, Sartre e Camus, Barthes, Eco, Mishima e mais uma fornada menos óbvia… Neste momento estou a ler Narciso e Goldmundo, de Hesse, que explora pares clássicos da filosofia e da literatura como ser/devir, coração/razão, lógica/estética, dever/prazer, nomadismo/errância… É de lá que retiro o seguinte extracto que li com os olhos de quem já passou por milhares de discussões aqui no Porco sobre o respeito que (não) temos para com os animaizinhos. Goldmundo, personagem principal do romance, vai à lota, vê os peixinhos a morrer e conclui que somos todos uns Porcos. Até tu, Gold! Com a devida vénia, senhoras e senhores, Narciso e Goldmundo de Herman Hesse:

«Viu senhoras e criadas fazerem compras, demorou-se especialmente no mercado do peixe onde viu os rudes peixeiros e peixeiras apregoar e oferecer a mercadoria, tirando das celhas os peixes prateados e húmidos que, de bocas dolorosamente abertas e olhos fixos e apavorados, se resignavam quietos à morte ou se debatiam em furioso desespero contra ela. Sentiu-se possuído, como de outras vezes, de intensa compaixão por aqueles seres e de amargurada tristeza perante a rudeza e a obtusidade dos homens, tão desmedidamente estúpidos e imbecis; como era possível que fossem assim cegos os pescadores, as peixeiras e os compradores e não vissem aqueles olhos mortalmente assustados, os espasmos violentos daquelas caudas, em luta pavorosa e inútil, a intolerável transformação dos peixes maravilhosos e misteriosamente belos, percorridos antes de morrer por ligeiro frémito e depois, mortos e sem brilho, lamentáveis pedaços para a mesa dos glutões! Era-lhes indiferente ver estrebuchar à sua frente um lindo peixe (…). Andavam todos distraídos ou atarefados, afadigados com importantes afazeres, berravam, riam, arrotavam, faziam alarido, diziam chalaças, discutiam por dá cá aquela palha, e sentiam-se felizes, tudo estava em ordem e eles contentes consigo próprios e com o mundo. Porcos é o que eram, muito mais brutos e piores que os porcos.»

13/05/05

Onde Anda A Cabeça De Abbas Hosseini?, por KzarDasIlhas

Há pouco recebi no meu mail mais um pedido de continuidade de uma corrente. Desta vez, a coisa era sobre um tal Abbas Hosseini, iraniano menor de idade, condenado a ser executado no dia 8 de Maio. Segundo afirma a dita corrente de origem espanhola, o governo iraniano acedia a não executar o puto desde que a família da vítima aceitasse receber dinheiro em vez da cabeça do puto homicida.

Não sei o desfecho da coisa, mas dei comigo a pensar que a nossa Europa bem pensante andava de novo a tentar impingir os seus valores às outras culturas, como se fossem universais.

É tempo de acabar com estes Eurocentrismos (ou ocidentocentrismos, mais exactamente), filhos e herdeiros do colonialismo, primos do racismo. Se os tipos no Irão acham que matar o gajo é uma pena adequada, que pode ser substituída por indemnização à família da vítima, isso é coisa que não nos deve interessar para coisa nenhuma; do mesmo modo que não me interessa para nada que por aquelas banda se pense (o candidato a presunto tem alta probabilidade de o pensar também) que as mulheres europeias são umas putas que andam em biquini e até nuas (Alá as confunda) pelas praias e outros sítios, e os homens europeus uns paneleiros e degenerados que as deixam fazer isso...

Mas será que semelhantes bons samaritanos nunca ouviram falar da Paz de Westfália? O princípio "cuius regio, eius religio" não lhes diz coisa nenhuma? Ou para levarem a sua estranha lógica às últimas consequências defenderão qualquer dia que os States invadam o Irão para obrigar ao respeito dos sacrossantos "direitos humanos" (criação ocidental e a que os ocidentais têm direito, mas de que a tropa do Irão, da China e de tantas outras latitudes não quer saber para coisa nenhuma)? Tinha piada, de resto, ver os américas a invadir o Irão para garantirem o respeito dessa coisa em tais paragens...

Até porque a julgar pela Flórida, Texas e outros estados, o Abbas além de ser condenado à morte na mesma, TAMBÉM pagava a indemnização com o seu eventual património... Cá para mim está melhor agora: ou lerpa ou paga, e não as duas coisas, porra!

Sigam o meu exemplo: em caso algum considero a hipótese de pôr os pés fora da Europa Ocidental, América do Norte (excluído México), Austrália, Nova Zelândia e Japão. Excepções, só atrás de um extenso corpo de marines, apoio aero-naval e o mais que for preciso para garantir que não tenho de experimentar a cultura local em primeira mão...

12/05/05

O Hélio, por AdvogadoDoDiabo

Mais uma Oficiosa que chega pelo correio. A Ordem pode e a Lei manda. O advogado aguenta e faz segurança social sem que ninguém lhe pague. Irra, de novo um processo crime de burla qualificada em transportes públicos. Outra alimária que não pagou o bilhete de 50 cêntimos. Paciência de santo. Mas estes pelo menos não vêm chatear para defender o indefensável. Pagam à empresa e zás, acaba-se com a coisa sem grande trabalho. Qual quê!

- Coméqué Srª Engª, não quer pagar o bilhete do autocarro? Quer ir a julgamento com isto?
- Exactamente, Sr. Dr.!
- Atão, mas a Srª Engª não reconhece que não pagou o bilhete do autocarro? Olhe que vem aqui o fiscal, o condutor e o polícia como testemunhas, são todos mentirosos?
- Não senhora, está bem, eu na altura na tinha bilhete no autocarro, mas a culpa não é minha, é do Hélio!

Ora, porra mais um processo levado do catano pra perder horas infindas de volta disto quando se podia resolver em três penadas…

- Ó Srª Engª, olhe lá, mesmo que isto seja culpa do Hélio e a Engª não tenha culpa nenhuma, veja que há sempre o risco da prova e do julgamento, e por 70 euros a Srª paga o bilhete e a multa e a empresa desiste da queixa que eu sei, veja lá o risco!
- Ó Sr Dr. é uma questão de honra, a culpa é do Hélio não é minha e não vou assumir uma culpa que não tenho!
- Seja, a Sr Engª é que sabe! Chama-se o Hélio ao barulho!
- Ao barulho, Sr Dr?
- Pois, diga-me lá o nome, estado civil e morada desse tal Hélio para o meter aqui como testemunha de defesa.
- Ó Sr Dr, o Hélio é o gás!
- O gás? Qual gás, atão não foi o Hélio que a impediu de comprar bilhete?
- Foi Sr Dr, mas foi o gás hélio.
- Ó valha-me deus, atão mas coméque o gás a impediu de comprar o bilhete?
- Ó Sr Dr é que eu sou a engenheira responsável pelo armazém da fábrica e nessa altura houve no armazém um fuga de hélio, que só descobrimos depois e que teve como efeito eu esquecer-me de algumas coisas, tá a ver…, a culpa foi do hélio!
- Atão, mas isso não é o gás que dá só para rir?

Escangalhei-me a rir e a Srª Engª ficou ainda mais séria e ofendeu-se. Jurei-lhe que jamais levaria aquela defesa a julgamento porque matava de riso o juiz. A Srª Engª não se riu, foi-se queixar à Ordem, e a mim passou-me a vontade de rir quando tive que me defender de um processo disciplinar por recusa de patrocínio oficioso. Maldito hélio. Sem qualquer vontade de rir.

11/05/05

Peregrinação, por Fernão Sem Fim da Silva

E pronto, é vê-los nos seus coletes reflectores repescados no Continente, Jumbo, Modelo e afins, com uma expressão ora perto do juízo final, ora identificada com uma tenacidade própria de quem acredita nos seus actos (a mesma que os poderia levar ao questionamento e reflexão do porquê de semelhante investidura).
Este empreendimento gigantesco que move uma panóplia de meios e pessoas cada vez se parece mais com uma organização profissional, em que a fé individual se dilui, num folclore de gosto duvidoso e motivações difusas.
Ir a pé a Fátima insere-se em que categoria? Significa exactamente o quê? Será ainda (e sempre) pela velha máxima do valor redentor do auto-flagelo? A expiação da culpa?!
A mesma sociedade que os apetrecha de telemóveis, de carros topo de gama (que os acompanham metro a metro), do último modelo da invenção tecnológica não conseguiu penetrar no mais recôndito do seu ser.
A ciência no seu esplendor fracassou nas trevas da Idade Média.
Mas não será esta romaria uma questão cívica e de cidadania?
Assistimos ao Presidente da República a ataviar um discurso acerca dos (maus) condutores, da falta de civismo, da importância da condução defensiva… então e o perigo que os peregrinos representam? Basta andar pelas estradas para verificar os riscos e inconvenientes que decorrem daquela turba sem bom senso (era interessante o Continente promover uma campanha designada “caminhada defensiva”). Fazia todo o sentido.
Enquanto os responsáveis não se preocupam com isto rezemos um pai-nosso e uma ave-maria pelos peregrinos (e também para que os senhores do governo não decidam fazer uma promessa de ir a pé até Fátima se o défice melhorar – o que parece ser a única maneira).
P.S.- Também sou do Benfica (será este facto relevante?).

Subtilezas, por Ó Jóta Arrendonda a Saia Ó Jóta Arrendonda-a Bem da Imaculada Conceição

Há pouco tempo falou-se aqui da relação entre o cliente/cidadão/consumidor e o trinómio instituições/comércio/serviços. Mestre Mangas trouxe para este fórum suino a sua gratificante experiência com uma cadeia de hamburgarias dos States, que trata os clientes nas palminhas e atende, de facto, às reclamações, por mais ridículas que pareçam. Em contraponto, claro está, ao panorama terceiro-mundista e relaxado do nosso país. Pelo meio, aconteceu-me um caso que pode ser encarado como uma excepção exemplar, além de remeter para a polémica da “arte útil” no que respeita à sinalização pública.
Há algum tempo fui a Serralves, aos jardins, ao Siza, etc., corri aquilo tudo. No fim, à saída do Museu de Arte Contemporânea, dei com a caixa de reclamações e sugestões, um grande cubo transparente, vazia e a pedir estreia. Peguei no papelito, elogiei o que havia para elogiar e fiz um reparo, relativamente à sinalética, designadamente aos símbolos abstractos que diferenciam os sexos nos sanitários, bonitos, talvez, mas incompreensíveis para o comum dos cidadãos. Por mais de uma vez passei perto dos wc’s e o panorama era sempre o mesmo: Senhoras e senhores, meninos e meninas, completamente baralhados, a olhar para os bonecos nas portas como bois para um palácio e a fazer complexas equações de cabeça para descobrir a qual pertenciam. Muitos, obviamente, arriscavam às “cegas” e entravam numa qualquer. Não raro, iam ao engano e saíam a fugir aos gritinhos, “ái que me enganei!”. Enfim, uma bonecada completamente abstrusa e nada prática ou informativa. Afinfei no papelito e sai dali satisfeito.
Passado cerca de um mês recebi via correio electrónico a seguinte carta, assinada nem mais que pela excelentíssima senhora doutora Directora Geral, Odete Patrício:

Exm. Senhor,

Gostaríamos, antes de mais, de agradecer a visita que efectuou à Fundação de Serralves, bem como a comunicação que nos endereçou e que mereceu toda a nossa atenção.
É para nós fundamental dispor das opiniões e apreciações dos nossos visitantes, para que possamos implementar acções que visem a constante melhoria dos serviços que prestamos. O nosso objectivo primordial é transformar cada visita efectuada à Fundação de Serralves numa experiência única e muito agradável.
Relativamente ao comentário que formalizou aquando da sua visita, não queríamos deixar de lhe referir o quanto o mesmo nos deixa satisfeitos por se traduzir na confirmação dos nossos objectivos diários. Quanto à sinalética dos sanitários estamos cientes que é bastante subtil mas faz parte integrante do projecto do Arq. Álvaro Siza, pelo que não a podemos alterar.
Aproveitamos para informar que no próximo dia 7 de Maio vamos inaugurar 3 exposições dedicadas às obras de Paulo Nozolino e Gregor Schneider no Museu e Ana Jota na Casa de Serralves, as quais, estamos certos, merecerão uma visita especial. Para mais informações acerca das nossas actividades, sugerimos uma consulta ao site www.serralves.pt, o qual é actualizado regularmente ou tornar-se AMIGO de Serralves usufruindo assim dos benefícios previstos para este núcleo de visitantes.
Agradecendo a disponibilidade em nos ter contactado, ficamos ao seu inteiro dispor para qualquer informação adicional através da DG – Relações Públicas – Assunção Cálem (22 615 65 28).

Com os nossos melhores cumprimentos,

tal e tal,

09/05/05

Ivo e os Terríveis, por Hassassan

Primeiro ponto, para que não venham dizer que estou a desculpabilizar o rapaz: o Ivo cometeu, obviamente, uma asneira monumental quando decidiu ir fumar ganzas para um país, o Dubai, onde existe uma moldura penal de 3 a 5 anos para um «crime» daqueles. É estúpido, não há dúvida, arriscar o pescoço desta maneira. Eu, por exemplo, gosto de uns bons tintos, como todos nós aqui no Porco. Mas se viajasse para um país de idiotas que punisse com 3 anos o desgraçado que fosse apanhado a beber, das duas uma: ou não ia para lá – se não pudesse passar sem o precioso tinto – ou, indo, não tocava numa gota de álcool. Simples. O Ivo resolveu armar em esperto e foi fumar hash pró Dubai. Fez mal.

Dito isto, creio que não podemos, ficar por aqui e achar que o rapaz tem o que merece. É claro que não tem. É uma estupidez que alguém – muito mais um cidadão oriundo de uma cultura que não só tolera como até fomenta o consumo de hash (basta passar um dia em Amesterdão) – seja privado da sua liberdade durante 3 ou 4 ou 5 anos, simplesmente porque deu umas passas. Aquilo é desmesurado e não me venham falar de relatividade cultural. Durante, pelo menos, um século, nós, Ocidentais, martirizámo-nos com as atrocidades que fizemos a outros povos. Como durante séculos e séculos tratámos os outros como «pretos», «monhés» «bárbaros» e «rústicos», caímos no extremo oposto da relatividade cultural. Num certo discurso muito em voga, ainda hoje, as atrocidades que não permitimos aqui, entre nós, são olhadas com brandura em nome da relatividade dos valores das diferentes culturas.

Está na altura de voltarmos a pensar sem os complexos de culpa de antigos colonizadores. É preciso dizer que apedrejar mulheres até à morte acusadas de adultério – quando muitas vezes vivem uma situação de união de facto, após terem sido abandonadas pelos maridos – como fazem no Afeganistão ou na Nigéria; que mutilar ou atirar ácido à face de mulheres indefesas, como fazem na Índia ou no Paquistão; que fazer trabalhar crianças em condições desumanas desde os 4 anos, como se usa na China ou manter a escravatura, como acontece no Iémen ou na Somália; que condenar à morte um indivíduo porque escreveu um livro «blasfemo»; que prender outro porque comeu carne de porco, etc, etc, etc, nada disto é relatividade cultural. Tem outro nome: é pura e simples selvajaria. Já não lembra a ninguém defender o canibalismo como traço genuíno identitário da cultura da Nova Guiné. Já tratámos de abolir, tal coisa, como monstruosidade que é. Então porque é que teimamos em ser tolerantes com outras selvajarias idênticas só porque têm a cobertura da religião ou da tradição ou de outra bizarria qualquer?

É preciso sublinhar que a conclusão a retirar do infeliz episódio do Ivo no Dubai, não é tanto a imprudência de um indivíduo habituado à liberdade que se vive no Ocidente, mas a marca da incultura, da intolerância e do fundamentalismo daquela sociedade. E não deixa de ser irónico que, estando o Dubai a apostar fortemente no turismo, com as suas mega-campanhas de promoção que envolveram desportistas como Figo há uns tempos atrás, ou Agassi, Federer e Tiger Woods, mais recentemente, dê agora um exemplo de intolerância deste tamanho. Mas há por aqui alguém no seu perfeito juízo que ainda queira ir fazer férias ao Dubai?
(post escrito ao som do prodigioso Ravi Shankar)

08/05/05

Vigor da Mocidade, 75 anos de... vida! , por Mangas

O fiel leitor do Porco que nos perdoe, mas todos nós somos animais de paixões e por elas nos debatemos, sobre elas teorizamos, com elas andamos ao sol, porque a sombra é boa para os pálidos de pele que lhes pica o suor, como cantava o Júlio Iglesias. Quer isto dizer que por aqui, ama-se um filme, como se ama um filho; relê-se um livro, vezes sem conta, porque o Porco é um animal de imaginário e nele viaja ao sabor dos vagalhões. O vinho que demoradamente se saboreia, a caldeirada que se mastiga e o charuto que se esvai na cinza da madrugada, são rituais de ardente religiosidade e inigualável apetite. O deporto em geral, e o futebol em particular, são práticas generalizadas por estas bandas e também fazem parte da lista desse debate ideológico. Como tal, o fiel leitor que nos perdoe a ousadia de encher o chouriço do Tapor com coisas da bola.

Mas, para terminar este ciclo de sapientes dissertações à volta do fenómeno futebolístico e desanuviar o ambiente, contar-vos-ei uma história que se passou comigo. Descansem: não vos trago a análise detalhada do jogo sustentado, tão pouco a observação in loco da pré-época do poderoso Chelsea ou do gigante A.C. Milan. O que compartilho com vocês é a face copo&bucha do amadorismo na Divisão Distrital. A grande diferença está no poder do negócio, no dinheiro envolvido, nas infra-estruturas, e enfim, em tudo o resto do qual a poderosa máquina do profissionalismo suporta e sustenta. Asseguro-vos porém que durante um jogo dos Distritais, o apoio dos sócios, vizinhos ou simpatizantes, namoradas, esposas, filhos e enteados, patrões ou colegas da fábrica, vale o mesmo que os cânticos de uma claque organizada nas bancadas do Cam Nou! E um derby entre equipas de terras vizinhas ou da mesma freguesia, não tenham dúvidas, é a doer! No seio de qualquer equipa, é limpinho que as faltas ou atrasos aos treinos são penalizadas com multas para um saco comum que revertem numa jantarada no final de época; quando os desafios são decisivos e podem ditar uma subida ao escalão superior, fazem-se pequenos estágios antes dos jogos, quase sempre em tasco patrocinador a designar pelo presidente ou na sede do clube onde o rancho, os matrecos e uma suecada antes da palestra do Mister, ajudam a relaxar os mais calmeirões antes da refrega e a fortalecer o espírito de grupo. É assim que pelas Distritais deste país se vive a paixão pelo futebol. Devo dizer-vos também, e por uma questão de justiça, que não são raros os casos em que clubes são veículos genuínos na prestação de bons serviços à comunidade, quer pela organização de iniciativas desportivas e recreativas, quer pelas Secções criados no seu seio de apoio a modalidades e ocupação de tempos livres para rapaziada mais nova.

Esta aconteceu-me a mim, que durante alguns anos dividi os ossos do ofício entre os crónicos do hospital e os cromos do Grupo Recreativo Vigor da Mocidade, esse Clube baluarte de Fala, que este ano comemora o 75º aniversário e ao qual se presta, com esta narrativa verídica, uma homenagem saudosista desses bons velhos tempos. O Vigor jogava nessa época 98-99 na 1ª Divisão dos distritais de Coimbra e o treinador, apologista dos jogos-treino a meio da semana com outras equipas, marcou a quinta-feira para irmos ao campo do Mirandense. Era Fevereiro e chegámos a Miranda debaixo de temporal! Chuva intensa, frio, fortíssimas rajadas de vento, trovoada. O único abrigo resguardado de toda aquela tempestade medonha era dentro do balneário. Um bom balneário, devo acrescentar, ao contrário dos muitos que apanhei, como em Gavinhos, onde havia apenas três chuveiros alimentados por uma caldeira ferrugenta lá fora, na parede esburacada junto ao solo barrento que escoava as mijadelas lá de dentro. O do Mirandense, não. Era grande, asseado, azulejos brancos, duches com saboneteira, tudo impecável. O jogo-treino em si foi uma desgraça! Campo completamente alagado a dificultar a progressão da bola, vento traiçoeiro, lama, aos suplentes nem havia coragem para lhes pedir que fossem aquecendo - ficavam-se nas imediações do balneário, enroscados nos impermeáveis como pintos, debaixo dos telheiros contíguos. Foi um alívio geral quando aquilo acabou e um duche quente era um prémio mais do que merecido a todos aqueles bravos que tinham para ali andado a saltar obstáculos 90 minutos como andorinhas na borrasca.

É aqui que a drama se precipita. Já com os jogadores todos debaixo do banho temperado, num ambiente característico de descompressão e espuma, entre a discussão calorosa daquele livre que podias ter dado para o lado e uma densa neblina de vapor condensado que tornava a coisa próxima de uma sauna colectiva, ouve-se um estrondoso relâmpago e falta a luz. Fica tudo às escuras. A primeira reacção foi uma assobiadela monumental, protestos, caralhadas, e quem é o filho da puta que me tirou a toalha! Passou-se um minuto, dois, o coro de protestos aumenta, a confusão é tão geral como o apagão, alguns jogadores apanhados a meio da secagem não conseguem localizar as roupas e berram com frio, o desconforto é cada vez maior. E é aqui que eu entro. Iluminado por uma ideia simples e armado em McGyver com moleirinha de Prof. Pardal, lembro-me que o no meu saco está a luz que iluminará as trevas. É que os vulgares sprays milagrosos têm na sua composição cloreto de etílico que em contacto com a atmosfera cria uma reacção de baixa temperatura que actua instantaneamente sobre a dor. Daí o lendário epíteto de spays milagrosos. Porém, esta composição é altamente inflamável e enquanto estudante, raros foram os estágios fora de casa em que um frasco não desse para assar, pelo menos, meia dúzia de chouriças. Os frascos que trazia naquela noite, ainda por cima, eram munidos de um dispositivo protector da natureza, sem SFC adicionado, logo sem pulverização, logo, mistura pura e líquida, logo, mais chama, mais luz. Brilhante! Desnecessário será descrever-vos os breves segundos que se seguiram à primeira esguichadela de cloreto de etílico no chão do balneário e ao resultado do fósforo que lhe deu vida: uma chama bonita, azulada e bem definida que resgatou das trevas e do frio aqueles rapazes. Pobres almas... Soubessem eles o que os esperava a seguir e não teriam aplaudido, cantado e sacudido os corpos nus à volta da fogueira, como demónios ressuscitadas.

Aquilo encheu-me a alma, caralho! Era o meu golo de penálti! Os cânticos saudavam o meu nome com o mesmo frenesim que o Profeta teria sido aclamado, alguns até dançavam como índios em homenagem ao grande Manitou. No espaço de um minuto, fiz outra fogueira, e outra, e outra, multipliquei a luz, era o Senhor das Fogueiras, o Feiticeiro das Labaredas que excomunga o medo da noite. Nem no Paleolítico os gajos celebraram tanto, acreditem-me! Mas a química não joga aos dados e os Deuses iraram-se com a minha cagança de alquimista distrital: o vapor circundante dos banhos impediu a propagação no ar do gás tóxico resultante das várias combustões e este condensou-se na atmosfera. Factor “X”: the unexpected. Nunca tinha visto, nem cheirado coisa semelhante àquela malina fétida e mortal, garanto-vos! Awschvitz devia ter começado assim. Rapidamente, uma onda gasosa impossível de respirar entranhou-se-nos nas gargantas, como cactos pela goela abaixo. Era como aspirar um veneno ácido que bloqueava os pulmões. Imaginai-vos a inalar uma espécie de água tónica sulfurada no estado gasoso, numa tarde quente de verão, dentro de uma sauna escura: assim era o tormento! Alguém tosse, ouço gritos de pânico e pressinto os primeiros sinais de perigo! Começo a apagar os pequenos infernos, (o que não foi fácil, como calculam!) e a encaminhar os rapazes para a porta. Por nesta altura, vários tossem em simultâneo e distingo claramente os berros de vários jogadores misturados pelos quatro cantos do balneário à procura da porta de saída. A visibilidade era quase nula, as tosses sufocadas multiplicam-se, e apercebo-me então que alguns conseguiram escapar e andam lá fora como Nosso Senhor os trouxe ao mundo, à procura de oxigénio como do pão para a boca, debaixo da chuva gelada batida a vento. Rapidamente e aos encontrões, seguiram-se-lhes os restantes com a ajuda de alguns directores que vieram em auxílio. Eu continuei lá dentro, já sem os anéis de pirotécnico iluminado e com uma toalha húmida no rosto para continuar a respirar, tentando desesperadamente certificar-me que não tinha ficado para trás nenhum defesa central latagão com perda de consciência. A cada passo, prometia ao Todo Poderoso um donativo generoso as bombeiros se, no final da tragédia, só sobrassem risos. Tentava gritar: “Está aí alguém?”, mas cada vez que abria a boca, a mistura pestilenta invadia-me os pulmões e bloqueava a respiração. Era escusado. Quando saí, os olhos ardiam-me e os brônquios ameaçavam saltar-me pela boca a cada inspiração. Tão célere foi o salvamento, como fugaz tinha sido o triunfo.

E só sobraram os risos. Felizmente. A luz veio logo a seguir e acabámos a noite a comer umas sandochas, a beber uns tintos para desentupir as goelas e a rirmo-nos do incidente. Não houve vítimas nem constipações, pois que no Vigor as gentes e os atletas são como o aço! Gente boa e generosa que ao longo dos anos sempre me privilegiou com amizade e afecto.

Mas ainda hoje, quando algum dos sobreviventes da noite mais tenebrosa dessa época gloriosa em que subimos à Honra, me procura para lhe tratar o joelho, enfrenta-me com um sorriso malandro a bailar-lhe nos olhos e atira-me, à procura da cumplicidade daqueles breves segundos que pareceram uma eternidade:
“- E naquela noite em que você nos ia assando a todos como a leitões nos fornos? Lembra-se...? AHAHAHAHA!”

Eu vou atrás da gargalhada, mas humildemente e num gesto discreto, levo a mão ao peito para tocar o crucifixo e lembro-me de dar outro donativo aos Bombeiros.

06/05/05

O Outro Zé, por Rafael José

Este post pode parecer, mas não é bem sobre futebol. É mais sobre o «pensamento-maçã-reineta». O pensamento maçã reineta é o modo pacóvio de pensar daquela espécie de indivíduo que considera que o selo da Pátria está acima de qualquer outra coisa. Para o pensador maçã reineta, a sardinha assada com broa é sempre preferível a qualquer outro peixe, simplesmente, porque é portuguesa. Para o pensador maçã reineta, o Camões é o maior poeta da história da humanidade mesmo que não tenha lido mais nada, mesmo que, como acontece na maior parte dos casos, nem o Camões tenha lido. Há lá maçã como a reineta? E Portugal? – há lá melhor coisa que este «jardim à beira mar plantado»? Népias, somos o melhor país do mundo e do universo, que bela é a torre dos Clérigos, o Castelo de Neiva com o seu castelo altaneiro, as mil fontes de Vila Nova e a cabra da Universidade de Coimbra…

Claro que este critério absolutista de julgar a portugalidade o valor supremo a todos os outros dá um jeito do caraças aos tolos que não têm ideias próprias. É fácil «pensar» assim e tem-se opinião sobre tudo - é português é bom, não é, é uma merda. É este tipo de lógica – pacóvia, provinciana, burra, obsoleta, desmiolada – que leva gajos como um Anonymous que por aqui apareceu, a qualificarem de «invejosos» todos aqueles que pensam que o zé mourinho mereceu a eliminação aos pés do Liverpool. Isto é a ausência de pensamento em estado puro, é a redução simplória e biliosa ao argumento «és português não gostas do sucesso de um português, logo és invejoso».

Pois bem, fica aqui declarado que eu apreciei e vibrei com a passagem do Sporting à final da taça UEFA (uma competição menor, é certo, mas ainda assim uma competição com popularidade). Não por ser uma equipa portuguesa, mas porque praticou um futebol espectacular, de categoria, e não foi só ontem. O Sporting é a antítese do Chelsea, joga o jogo pelo jogo, com grande criatividade sem cientismos ultra-defensivos. Não foi só ontem – este ano, alguns dos melhores jogos que vi foram do Sporting – o Benfica –Sporting, o Feyonord-Sporting, o Sporting – Boro, o Sporting-Newcastle e o Sporting-Alkmaar, uma equipa que não fez papel de Liverpool. E tudo isto tem a chancela de um homem que foi contestado até à náusea, que foi quase crucificado pelos próprios sportinguistas, mas que está a provar que é um grande técnico de futebol-espectáculo (e não do outro futebol…): de seu nome Zé Peseiro, o outro Zé, o do futebol como eu gosto de ver jogar. Aprecio-o não por ser português, mas porque, ao contrário do zé abramovich, este sim, defende e promove o jogo. Que dirão perante isto os cultores do pensamento maçã reineta – terá o Peseiro um avô castelhano?

P.S. Ah, esquecia-me de dizer: sou do Benfica.

Mourinho e o Chelsea, por Misterzacamalho

Concordo com o Rafa zé quando pretende desmistificar o ENDEUSAMENTO do Zé Mourinho. Se o gajo ganha-se este jogo iria pensar que não existia mais ninguém no mundo para além dele. Iria pensar-se que o futebol não era, também, um jogo em que se pode perder. O homem qualquer dia já pensava não ser um homem comum com algumas competências específicas.
No que ao modelo de jogo diz respeito, não concordo. Porque, com as limitações que a equipa têm, neste momento e o cansaço físico demonstrado pelos jogadores chave da equipa, era difícil conseguir melhor. Não me parece que o Chelsea pudesse ter uma estratégia muito ofensiva. Mas hoje em dia as equipas apostam sim nas fases do jogo que têm a ver com a transição da posse de bola e o Mourinho é um dos treinadores que melhor interpreta essa estratégia, por isso se diz que faz pressão alta.
Com equipas de alto nível, que se caracterizam por ser muito organizadas quer ofensiva quer defensivamente, o que interessa é explorar ofensivamente os desequilíbrios defensivos quando essa equipa perde a bola ou anular os desequilíbrios defensivos quando a mesma perde a bola o adversário inicia o ataque.Nisto tanto o Zé Mourinho, como o Zé Peseiro estão a dar cartas no Futebol. Porque para já provêm todos da mesma Escola de formação, iniciada o ISEF de Lisboa por “ Carlos Queiroz, Jesualdo Ferreira e Nelo Vingada, Professores na altura da opção Futebol, e depois porque são pessoas que estudam a evolução do jogo e conseguem potencializar muito bem as características dos jogadores, retirando deles o máximo aproveitamento, tanto do ponto de vista técnico – táctico como mental face às condicionantes do jogo moderno. No que diz respeito a carácter e mesmo no que diz respeito à interpretação do jogo são distintos. o Zé Peseiro é mais adepto do futebol ofensivo e do espectáculo, até porque foi P. Lança enquanto jogador e o Zé Mourinho é mais pragmático e defensivo até porque enquanto jogador foi G. Redes. E por aqui me fico, por agora.

04/05/05

O Rafa e o Zé, por Rafael José

Pois é. O Rafa lá fodeu o Zé. Que é como quem diz, Rafael Benitez, treinador espanhol do britânico Liverpool, arrumou com o Zé Mourinho, treinador portuga do também britânico Chelsea. Por mim, gostei. O futebol, às vezes, consegue ser um jogo moral comó caraças.

O endeusado Mourinho construiu uma carreira à custa de tácticas ultra-defensivas, com 11 gajos estacionados em frente à grande e saída no contra-ataque e a que os experts do assunto chamam «futebol científico». Foi assim que eliminou o Manchester United e, acima de tudo, o Corunha, que teve 70% de posse de bola no jogo da segunda mão, o ano passado. Com este futebol ultra-defensivo e anti-espectáculo lá chegou à final da Champion League do ano passado que acabaria por vencer. Já este ano, conseguiu eliminar o Barcelona da mesma maneira e no campeonato inglês o Chelsea é considerado uma equipa que não dá espectáculo, embora seja mortalmente eficaz. Pessoalmente não consigo aturar mais que 10 minutos daquilo, apesar de quase ser forçado a fazê-lo, tão forte é a insistência patrioteira da comunicação social nacional, sempre a bater-nos com os feitos do Zé.

O tipo de futebol praticado pelas equipas orientadas pelo Zé tem, contudo, um problema, até para ele próprio: a sua grande capacidade reprodutiva. Este futebol de andar ali a correr atrás da bola e chutar pró avançado, não exige grande talento, mas sobretudo raça, garra, abnegação e assim que começa a dar frutos, há logo 200 clones a copiá-lo. É uma espécie de bola de neve que só será travada no dia em que aparecer, finalmente, um onze de talento que consiga dar a volta áquilo. Ainda não foi desta: o Liverpool é – ou foi – uma equipa da mesma linha das do Zé, um efeito mimético do mesmo estilo pobretana de jogar à bola. Mas a sua vitória, ontem, não deixou de ser uma lição, para quem conseguiu chegar ao top a jogar futebol sem alma nem vocação ofensiva. Ser eliminado nas meias finais da liga com a mesma receita que, metodicamente, foi aplicando aos outros, áqueles que têm mais talento e fazem as despesas do jogo, arriscando jogar ao ataque, foi um balde de água fria para o Zé. Mas foi merecido. No fim foi giro ver o Zé a falar da moral do jogo e que a melhor equipa não ganhou e que o Liverpool só jogou à defesa e o árbitro, etc e tal…. Zé no seu melhor, com a típica amnésia que já lhe fez esquecer como é que ganhou títulos e conquistou taças. O futebol, às vezes, parece mesmo uma lição de moral…

03/05/05

Coisas de Traduções - Primeira Parte, por Automotora


The Lady in the Lake, de Raymond Chandler

Tendo eu lá em casa duas edições diferentes da obra acima referida, nem perguntem porquê, e apanhando-me desocupado, pus-me a comparar as respectivas traduções. Para ver o que o escritor afinal queria, fui à net e a custo lá encontrei um bocado do original. Conclui então que são insondáveis e solitários os mistérios da cabeça dos tradutores. Reparem:

The Treloar Building was, and is, on Olive Street, near Sixth Avenue, on the west side. The sidewalk in front of it had been built of black and white rubber blocks. They were taking them up now to give to the government, and a hatless pale man with a face like a building superintendent was watching the work and looking as if it was breaking is heart.
(No original)

O edifício Treloar ficava e ainda fica na Olive Street, perto da Sexta Avenida, do lado poente. Por requisição do governo, andavam a levantar os ladrilhos da calçada, feitos em borracha preta e branca. Um homem macilento, de cabeça descoberta e aspecto de fiscal, vigiava a obra, que parecia despedaçar-lhe o coração.
(Tradução de Ruth Belger para Livros do Brasil, Colecção Vampiro)

Perto da Sexta Avenida, do seu lado oeste, situava-se o edifício Treloar. O passeio em frente fora construído em ladrilho de borracha preta e branca que, por ordem do governo, estavam agora a ser levantados. Um fiscal, de ar macilento e cabeça destapada, vigiava a obra, com a qual parecia não concordar.
(Tradução de Jorge Pinheiro para Biblioteca Visão, Colecção Lipton)

Chamou-me logo a atenção o facto de ambos os tradutores terem acordado tacitamente que o homem que vigiava, por ser pálido, devia ter um ar macilento. Ficou adoentado, talvez até tuberculoso, quando o problema se resumiria a alguma prolongada falta de sol ou a um recente desgosto. Ou talvez fosse simplesmente sueco. Ambos concordam também sobre as coordenadas do edifício, embora o primeiro, mais romântico, se sinta na necessidade de informar que esse é o lado onde o sol se pôe todos os dias. O segundo diz, no entanto, que o edifício “situava-se”, simplesmente, o que faz supôr que já não se situa. Terá entretanto sido demolido, ardeu, caiu, kaput. A narrativa foi empurrada para um futuro longinquo de grandes transformações imobiliárias. O narrador, o próprio Marlowe, coitado, terá também assim envelhecido cinquenta anos desde o original à segunda tradução. A tal rua é a Olive Street, como nos informa o escritor, mas o segundo tradutor, estranhamente, não lhe faz qualquer referência. Terá achado, talvez, que já não precisavamos de saber o nome da rua onde se situava o edifício defunto. Aliás, este tradutor é mesmo bastante avarento nas informações. Vejamos: enquanto no original e na primeira tradução os ladrilhos eram levantados para serem dados ao governo, na segunda eram levantados simplesmente por ordem do governo, sem se revelar se o seu destino imediato seria um armazém do governo ou o joe sucateiro. Não sabemos igualmente, nesta versão livre, qual o estado de espírito do homem que assistia à obra. Enquanto na primeira, mais fiel ao original, se informa que o pobre do homem ficou com o coração despedaçado, na segunda apenas se diz que o homem não concorda com o que vê. O leitor fica assim impedido de verter uma lagrimazinha pelo desgosto do homem. Convém ainda assinalar que nem no original nem na primeira tradução se informa qual a profissão do homem. Apenas se diz que tinha cara de fiscal de obras, seja lá o que isso for. Ora o segundo tradutor parece ter achado que se o homem tinha cara de fiscal de obras, era forçosamente fiscal de obras. Teriamos então que numa adaptação cinematográfica desta versão, o homem talvez aparecesse com farda de fiscal de obras. O pobre coitado, talvez já a gozar a reforma, que talvez tivesse ali parado por acaso, a caminho do Central Park para ir dar comida aos pombos, ficou assim nomeado para uma tarefa bem chata. Pensando bem, talvez o homem nem aparecesse de todo em qualquer filme. Não me lembro já bem do resto do livro, mas acho que o papel do homem se resume a estar parado naquele parágrafo com cara de parvo. A última vez que ninguém o viu, passada uma hora e meia hora, estava ele a ser comido por pombos no Central Park. Desconfio mesmo que nunca se falou tanto nele quanto neste pobre e efémero post. Ou talvez o homem seja uma breve aparição do próprio Raymond Chandler na sua obra, ao estilo do Hitchcok nos seus filmes.

E é tudo. Agora aceitam-se novas traduções fantasiosas, comentários críticos e manifestações de carinho sobre a lendária Colecção Vampiro. Da outra não vale muito a pena falar. Já agora, algum porco quer continuar com outras duplas ou triplas traduções?

Tropa de Choque, por PolíciaEléctrico

Por motivos assaz misteriosos, a nossa Tropa Politica deu para andar a magicar e a proclamar a melhor forma de nos dar “Choques”. Entendem eles que isto se calhar só vai lá com “choques”, qualquer coisa como obrigar-nos a marrar de frente com um Tir, ou enfiarem-nos os dedos numa ficha eléctrica.

Em primeiro – ao que me lembro – foi o burrão do Durão que veio com o “Choque Fiscal”. Vi logo que estávamos feitos ao bife. E zás a taxa de Iva saltou de 17 para 19%. Depois, em vez de mexer mais nos impostos, optou pelo “choque salarial” no seu fim de mês e foi pra Bruxelas. Depois veio o Socrático argumentar que o que a gente precisava era de um “Choque Tecnológico”. Pensei: - é desta que levamos todos com uma torradeira nas trombas! Desse choque só se viu ainda o aumento da conta da EDP.

Agora vem o Marques Mendigo com o “Choque Vital”. O que precisamos afinal é de um choque vital. Seja lá o que isso for. Não pensem que é levarmos todos com o Vital Moreira nas trombas. Não senhora, a coisa está pensada e fundamentada. O quê?, não sabem o que é um choque vital?, o Marques explica: “Portugal precisa (…) de um choque vital, um choque que dê vida à sociedade, um choque que ajude a renovar as mentalidades, um choque que gere alma, auto-estima e esperança.”

Que corja imunda que nos governa. Discursos e chavões gongóricos e vazios. Ribombam com choques e agora deram com essa e dali não saem. Choques dão-se no gado. A última coisa que este país precisa é de choques. Precisa sim de reformas pensadas, ponderadas, fundamentadas e amadurecidas. É obvio que isso é coisa que demora e não tem o efeito eléctrico e feérico desejado para brilhar na telejornalada.

De modos que lá vamos indo de choque em choque. E daí talvez não seja má ideia. E que tal uma Tropa de Choque à saída de São Bento?

02/05/05

Antes que me dês ideias., por Mangas

A porta está entreaberta. Perpendicular à linha do meu olhar. Vislumbro a ponta do teu pé descalço e imagino a continuação da tua perna cruzada sobre a outra perna. As mãos. Dedos irrequietos. Leve pressão sobre esse livro aberto. Existem muitos livros que falam de amor e de outras coisas. Mas os livros não ensinam nada. Ou quase nada. Cada letra é uma mancha irregular de tinta, impressa sobre o metal. Cada palavra, algumas manchas orientadas. As frases são resíduos vagos de uma ideia. O livro mais belo é Cem Anos de Solidão, e é tudo mentira.

Procuro-te nas minhas frases. Numa tarde a morrer de cansaço no Central Park e só encontro a imagem pouco clara da tua personagem. Perdida no universo branco do papel. De que falas tu?

Prefiro-te em carne e osso. Os contornos suaves do teu peito, que eu não vejo, mas adivinho. O teu tornozelo, em forma de um fruto de cacau. Definitivamente, prefiro-te assim. Nessa pele de anjo tentador. Sentada em recato e escondendo a ternura adormecida e o teu sexo húmido. Faz um favor a ti própria: guarda esse livro e descruza as pernas. Ou fecha a porta.
Antes que me dês ideias.

New York, N.Y., Junho/94