26/04/06

Chernobyl, por Chernenko

Está bem que os números redondos favorecem as efemérides. E há números redondos para comemorar quando apetece: 1 ano, ou um par. 5 anos ou meia dúzia. 10, 12, 15, 20. 25 anos é um quarteirão, trinta e de 10 em 10. Meio século ou um século inteiro. Ou seja, comemora-se sempre que um homem quiser. A comemoração é sempre interesseira e depende mais da vontade do comemorador do que do facto comemorado. A memória constrói-se. Não se herda. Comemoram-se agora os 20 anos do desastre de Chernobyl, numa altura em que o preço do barril de petróleo bate recordes históricos e em que os governos ocidentais reequacionam a opção nuclear. O terror apocalíptico e os terríveis efeitos de Chernobyl tornam repelente que se considere sequer a possibilidade de pensar a opção nuclear. Ora bem, eu arrisco a polémica e afirmo: A RESPONSABILIDADE DO DESASTRE DE CHERNOBYL RESULTOU MAIS DO REGIME COMUNISTA, ESTALINISTA, TECNOLOGICAMENTE OBSOLETO, CENTRALISTA E CORRUPTO DO QUE DOS PERIGOS INERENTES À PRODUÇÃO DA ENERGIA NUCLEAR. A causa primeira do desastre de Chernobyl foi a natureza do regime soviético.

As Delícias do Jogo do Monopólio, por Rossio

Eu não sei, mas possivelmente há quem saiba. Certamente que não é ético que um gajo pague a sport tv para depois apanhar com doses cada vez mais exageradas de publicidade. A coisa já há muito que cheira mal, mas agora aquela organização sinistra está a passar das marcas. Moral não é, certamente, mas será legal? Agradece-se a resposta aqui na caixa dos comments. E, já agor,a a quem é que nos podemos queixar desta autêntica fraude?

(Como andamos a exagerar no tamanho dos posts, eu já nem quero falar nos péssimos serviços dos gajos, na impossibilidade de comunicar com uma firma que se diz de comunicação, nos telefonemas com chamadas pagas pelo cliente, na péssima programação, no escândalo de fazerem um sport tv2 a pagar à parte com coisas que interessam, enquanto na sport tv 1 enchem o chouriço, na aberração que é não se poder escolher os canais que interessam, mas termos que gramar com inenanarráveis pacotes básicos (neste caso a crítica é para a tv cabo), etc, etc, etc. Mas isto fica prós próximos posts. Até lá, abençoado monopólio e ganda governo que só casca nos mais fracos mas que não mexe nos grandalhões.)

24/04/06

Apelo à santidade dos célebres, por Billy The Kid

Os famosos são modelos para jovens. Vi isto quando, certo dia, vi na sala de professores um boletim de um tal comando juvenil de luta anti-tabagista auto-designado Caça-Cigarros. A luta contra o tabagismo não tem mal nenhum, pelo contrário. Agora, não pode é ser de qualquer maneira, senão torna-se uma cruzada. E se é para fazer cruzadas, há causas mais nobres. Eu, junto com outros, sentimo-nos vítimas, porventura justas, de uma cruzada: o órgão pedagógico decidira aplicar uma lei que proibe o fumo na escola. Passou então a fumar-se no WC quando chovia, num curioso regresso à clandestinidade adolescente, ou extra-muros, fora da jurisdição dos puros.

Irritei-me pois quando vi o jornaleco porque na 1ª página trazia fotos de três celebridades: Ronaldo, um cantorzeco meio amaricado e um político de renome que eu já não lembro. Por baixo e com letras gordas dizia: Eles Não Fumam.

Sentimo-nos atingidos e decidimos replicar. Como não arranjámos nenhum desportista, criámos uma lista de personalidades vindas à memória que aliavam o mérito pessoal ao consumo de tabaco. Com o passar dos dias, criou-se uma guerra. A nossa oponente escrevia Tintim, e nós contrapunhamos Lucky Luke. Onde ela punha Super-Homem, eu punha Sherlock. Contra o Mickey o Walt Disney, Pavarotti e Sinatra contra Domingo e Carreras, Bogart contra Di Caprio e por aí fora. A fase seguinte começou quando lemos: Saddam, Milosevic e Fidel. E aqui é que tropeçámos. Perturbámo-nos com a estratégia ofensiva e reagimos a quente: Clinton fuma. A razão foi óbvia. Conversáramos na véspera sobre o caso americano e um de nós dissera que, com Clinton, a América conhecera uma prosperidade única desde o pós-guerra. Ele não merecia ficar na História por motivos menores. Mas não marcámos pontos. Tivémos até que ouvir:

- Sim senhor, mas que lindo exemplo vocês arranjaram!
As gargalhadas diziam que perderamos a guerra.

Por isso, apelo aos famosos deste Mundo: por favor, tenham santa paciência mas, se fumarem, que ao menos contenham a líbido. É que nos dias que correm é praticamente impossível achar um modelo público de virtudes que fume. Assim, com tanta escassez de munição, não há guerra que se vença. Até parece que, se são fumadores, é porque são tiranos, infiéis, depravados, ou o raio que os parta! Já viram que o melhor que se arranja são fumadores envergonhados. Ou então homens como Saddam, Milosevic ou Fidel. Assim não se vai a lado nenhum! Já para não falar desse autêntico tiro pela culatra que dá pelo nome de Clinton! E o Estaline? E o Mao? Claro que só provam como a tirania anda associada ao tabagismo! No lado oposto, o dos tiranos que não fumam, o melhor que se arranja é um pífio Salazar! O único trunfo é o Churchill, mas começa a ficar gasto, já estou farto de ouvir sempre a mesma coisa: «Lá estás tu! É sempre o mesmo! Vê-se logo que não arranjas mais ninguém!» Assim não dá! Vejam lá isso. Senão, corremos o risco de ficar à porta do Admirável Mundo Novo!

Nota final da redacção do Tapornumporco - este post foi escrito à cerca de três anos. Actualmente o seu autor é um ex-fumador, o que demonstra à saciedade que o seu apelo à santidade dos célebres, de facto, não funcionou.

20/04/06

Pedreiros-livres, por Zé Carpinteiro

Sabe-se pouco da Maçonaria. Pode-se falar mal da Igreja, do Benfica, da tropa, do Presidente, dos deputados, de tudo, menos da maçonaria. Não há humorista que se atreva. Lembro-me que o Herman fez uma vez um número com grão-de-bico, avental, etc. As reacções foram más e não voltou ao tema. É preciso respeitinho. Quem são os maçons? Ninguém sabe, excepto em relação aos que se confessam, que são poucos. Vivemos entre a suspeita e o boato. Não havendo perseguições, não estando clandestinos, porque é que se sabe pouco sobre a maçonaria e os maçons? Porque, primeiro de tudo, a própria natureza secreta, ou discreta como eufemisticamente os maçons se referem a ela, da instituição, é desde logo um obstáculo. Depois, porque a própria história maçónica, particularmente quanto às origens, é algo nebulosa ou misteriosa e, finalmente porque o segredo, contrariamente aos que os próprios afirmam, é essencial a uma organização elitista que gere influências e tece cumplicidades em estratégias transversais.

Quanto às origens, há quem as faça remontar ao tempo do rei Salomão! Não discuto, mas cabe referir dois aspectos: por um lado a mitificação das origens é um procedimento vulgar em todas as instituições, organizações ou nações. Por este processo – afirmando uma raiz remota – se pretende consagrar o carácter intemporal e, por isso, indestrutível de uma dada entidade. Basta recordar como os genealogistas da Restauração faziam remontar a ascendência de Afonso Henriques aos tempos bíblicos. O propósito está claro. Por outro lado, nota-se um judaísmo patente nesta organização. Também isto me parece explicável, pois que muito frequentemente o judaísmo e os judeus aparecem associados à maçonaria. Ainda contemporaneamente o chefe da comunidade judaica portuguesa, Joshua Ruah, se definiu como maçon e amigo do João Soares, maçon assumido, naquela polémica sobre o ouro judaico. A razão da associação entre judeus e maçons deve relacionar-se com a convergência estratégica achada pelos judeus que terão visto na maçonaria uma forma de resistir ao clericalismo, persecutório e totalitarista, do absolutismo. Claro que encontraram no racionalismo laico e universalista da maçonaria um aliado ou, se preferirmos, um espaço óbvio de inclusão e de combate político-social.

Se é discutível a filiação da organização nos tempos salomónicos, já não será tanto encontrar as raízes remotas da maçonaria nas corporações medievais, particularmente nos pedreiros. A própria designação (maçon ou pedreiro-livre, como também se designam) permite admitir essa possibilidade. E é crível. Os pedreiros medievais eram donos de um saber indispensável e prestigiado. Adquiriram liberdade individual e de pensamento à custa desse estatuto num tempo em que a sociedade se organizava organicamente num modelo estático e sacralizado, definido em ordens. Os maçons escaparam à rigidez asfixiante dessa hierarquização social à custa do seu saber especializado e indispensável ao clero e aos senhores feudais. Daqui se retira algo de óbvio: quem adquire um privilégio de liberdade numa sociedade onde ela não existe, tende para a conservação do saber que lhe garante esse estatuto, evitando a propagação da arte que dominam (se o saber se generaliza, o benefício esvai-se), organizando-se em corporações que regulam a actividade, dirimem conflitos, limitam o acesso à profissão e transmitem esses conhecimentos sob a forma de segredo profissional (ordens profissionais, diríamos hoje). Talvez que aqui tenha nascido a natureza secreta, elitista e corporativa da maçonaria. Ainda hoje, recrutam preferencialmente profissionais liberais, bem como indivíduos que detenham um estatuto socioprofissional relevante, de tal modo que a sua colaboração possa ser útil em termos de influência social e intervenção política. Um funcionário público está limitado na sua intervenção pelas regras da hierarquia administrativa (Salazar quando proibiu a maçonaria em 1935, aditou à proibição a obrigatoriedade de todos os funcionários públicos jurarem solenemente no acto de posse não pertencerem a nenhuma organização secreta), da mesma maneira que um trabalhador não especializado não apresenta qualquer utilidade.

A maçonaria começou no entanto a ganhar grande destaque político no século das Luzes. O racionalismo crítico, personalista, universalista, terá derivado do espírito maçónico ao mesmo tempo que definia as regras da sua organização. Creio datarem desta época os documentos reguladores da maçonaria, a constituição de Andresen. Voltaire e os enciclopedistas, ou os iluministas portugueses, com Pombal à cabeça, eram maçons. Mozart também compôs música maçónica. É o século da laicização da ordem social e política, é o século da afirmação do espírito burguês empreendedor, laico, anticlerical, racionalista e individualista. A Revolução Francesa adivinha-se, em grande parte foi obra de maçons, tal aliás como a independência da América.

Distinguem-se, desde estes tempos, duas tendências maçónicas: o rito escocês e a franco-maçonaria, derivada da Revolução, particularmente do partido dos jacobinos. Se a Inglaterra se pode gabar de nunca ter tido um regime absolutista, de ter conservado um regime liberal e parlamentar, em grande parte o deve à tradição das suas elites maçónicas, pois que sempre se constituíram como obstáculo à implantação de uma tirania régia, salvaguardaram o regime parlamentar, evitaram a clericalização do regime, fugiram à alçada da autoridade papal e propugnaram por uma liberdade de iniciativa e de pensamento que não só manteve a vitalidade social e económica da Inglaterra como preservou as elites e as impulsionou, permitindo que a Inglaterra se afirmasse como a grande potência mundial no séc. XIX.

A influência da realidade inglesa na Revolução francesa é óbvia. A franco-maçonaria tomou, porém, rumo diferente: tem um teor anticlerical, jacobino, intervencionista, político-partidário e é menos especulativa. O teísmo do rito escocês é, para estes jacobinos fanáticos, substituído por uma convicção profunda que associa a religião e a Igreja ao obscurantismo. A situação distinta, entre o processo francês e o inglês, também assim o forçou. A franco-maçonaria tomou a dianteira da Revolução, cometeu excessos, e por isso angariou ódios, tendo-se formado uma verdadeira lenda negra acerca da maçonaria, em grande medida infundada. Chegou a falar-se da grande conspiração, de um grande complot (abade Barruel) para derrubar a Igreja e a aliança entre o Trono e o Altar, relação que era apresentada como o fundamento da civilização!

A verdade é que as invasões francesas disseminaram o ideal maçónico por toda a Europa. Em Portugal, a francofilia deve entender-se em correlação com o ódio ao inglês, a Beresford particularmente. Gomes Freire de Andrade combateu com Napoleão na frente russa, veio, era maçon, ensaiou a primeira tentativa de implantação de um regime liberal e acabou no cadafalso, sentenciado por Beresford. Ganhou-se um mártir e curioso é ver como ainda hoje muitos maçons adoptam o seu nome como nome simbólico (o professor Oliveira Marques, também ele maçon, tem um bom dicionário da maçonaria).

Durante o processo liberal não há praticamente um único político de destaque que não fosse maçon. A revolução de 1820 nasce inclusivamente numa loja maçónica, ou algo assemelhado, a junta do Sinédrio do Porto, presidida pelo Manuel Fernandes Tomás (juiz) e onde se contavam juristas (os juristas são hoje o que os pedreiros foram outrora), militares, financeiros, médicos, professores, etc. A união das elites numa organização deste género gera cumplicidades e estratégias que se sobrepõem à orgânica do aparelho de Estado. Um regime que tenha as suas elites sujeitas a uma estrutura clandestina e conflituosa com a orgânica do Estado, está condenado. Em 1820 não se disparou um tiro! Lógico! Destes processos usados nasce a imagem conspiratória, subterrânea, secreta da maçonaria. Mais tarde algo de semelhante se repetiria com a Carbonária durante a implantação da República. Os regicidas de 1908 eram carbonários, dissenção da maçonaria que adoptou meios de intervenção directa e violenta, aliás reprovados publicamente por muitos maçons. Na república era quase tudo maçon, foi o triunfo final. E aqui surgiu a maior crise da organização: popularizou-se! Recordo de uma vez ter lido um livro, já não recordo qual, onde se citava um empregado de balcão de um estabelecimento de Lisboa que louvava as virtudes da maçonaria dizendo como nas reuniões tratava o patrão como irmão! O caos gerado pela primeira república degenerou em descontentamento generalizado e consentiu a reacção católica e clerical. Curioso é como muitos maçons arrenegaram à maçonaria e se renderam a Salazar: Carmona é o mais citado (falou-se inclusivamente num pacto secreto entre Salazar e Carmona, um arregimentava o apoio do clero e outro domesticava as elites maçónicas), mas o mais interessante é Bissaya Barreto. Mas José Alberto Reis ou Sidónio Pais também são apresentados como traidores. Mas isto é o que os maçons não gostam de ouvir: uma parte importante das cúpulas maçónicas aderiu ao Estado Novo e ao Salazrismo. É uma verdade inconveniente, para quem gosta de fundamentar a sua identidade no amor à Liberdade. Mas é fundamentada em factos. Há contradições óbvias, mas há seguramente explicações.

A maçonaria passou à clandestinidade, e os velhos republicanos do Partido Democrático ou se exilaram, ou conspiravam. Mário Soares nasce dessa tradição republicana, laica e socialista. Embora negue pertencer à maçonaria. A candidatura de Norton de Matos foi o grande momento da oposição maçónica. Voltados os tempos da clandestinidade, a organização voltou à natureza secreta e clandestina que a define e com a qual se sente bem.

Com o 25 de Abril, readquirida a liberdade, a maçonaria evita popularizar-se, mas não pode manter-se secreta. Não faz sentido em democracia. Daí o terem escolhido o rótulo discreta. Mas a verdade é esta: ou possuem um poder de intervenção à margem do escrutínio público e isso é ilegal e ilegítimo, ou são simples associação filantrópica, o que não justifica tanto secretismo.

19/04/06

Um Gajo Perigoso, por Sibarita

Eu já conhecia um espécime semelhante, mas julgava que era exemplar único. Contudo, há dias conheci um segundo animal da mesma família. Falo daqueles gajos que quando que lhes passa a hora da mastigação e não metem nada lá para dentro, ficam possuídos pelo demo. Até lhes falta o ar. Parece coisa má.

O Grão-Mestre aqui do porco, o Vice-Mestre e o Contra-Mestre foram de golf um dia destes para a Curia. Início por volta das 12 horas, salta-se o almoço e duas voltinhas catitas até às 17.30 horas. Banhos despachados, impunha-se o habitual: íscas de leitão e arroz de línguas de bacalhau no Painel, logo ali ao lado.

- Mas que diabo, sempre Painel, sempre Painel, ó pá e se a gente fosse ao Rafael a Bustos. Tem a Sopa da Avó e um cabrito de comer e chorar por mais.
- Seja, Grão!, manda o Vice.
- Que não grita o Contra, tou cheio de fome, daqui num saio, quero comer e é já.
- Ó pá tem lá calma, é só um saltinho e é ali em cima.

E lá fomos pró Rafael de Bustos. Passado Mogofores e junto a São Lourenço alvitro com a visita estradal das vinhas do Campolargo que era só um desviozinho rápido e valia a pena. Adiante, amanda o Vice. Plo amor de Deus grita o Contra, mas isso come-se? Deixem-se dessas merdas, eu quero é comer.

- Tem lá calma, pá, olha ali aquelas adegas modernaças, olha o pinhal a dobrar a encosta…,
- Eu quero que sa fodam as adegas, puta que pariu os pinhais, eu quero é comer, caralho!

- Ó pá, ó Grão olha que ali o Jardel atrás, tá um bocado pró agitado…
- Ó pá, a fome é negra, daqui a pouco já chegamos ao Rafael, são só mais 10 km…
- 10 Km?, pó caralho, pó caralho, cabrões! – grita no banco detrás o Jardel, aliás, o Contra, que gesticula, salta e espuma.
- Tá sossegado, pá, dás-me cabo do carro!

Dez minutos depois tamos no Rafael. Fechado. Dia de descanso. Galo do catano. Nunca mais houve um minuto de silêncio no carro. O Jardel espojava-se e batia com a cabeça:
- É já pró Painel, paneleiros, cabrões de merda, chulos…

- Uma língua porquita, ali o Jardel atrás ó Vice…,
- O gajo parece um macaco enjaulado, ó Grão, tranca-lhe as portas que o bicho foge!
- Pó caralho cabrões de merda, deixem de marrar como se eu cá não estivesse, foda-se! Vão chamar Jardel ó caralho!
- Ó Grão, o Jardel é gajo para estar a ficar chateado, o melhor é ir comer depressa ó Queiroz, ali em Avelãs de Caminha.
- Queiroz, um pisso, é pró Painel e é já – berra o Jardel.
- Porra pá, tá em caminho e come-se bem no Queiroz. Siga pra Avelãs.

20 minutos depois, Avelãs de Caminha, Casa Queiroz. Fechado. Dia de descanso. À cautela não damos tempo de reacção ao Jardel e tento virar o carro para Aguada de Cima. – Se num há Queiroz, vamos ao Vidal que é já ali em Aguada de Cima, Jardel. Aguenta aí que são só mais 10 minutos…

O Jardel vocifera, espuma e salta, agarra-se à porta e parece possuído pela besta apocalíptica. Falta-lhe o ar. À cautela e em emergência hospitalar vamos de urgência ao Pompeu, logo ali a seguir. A fúria do Jardel jamais daria para chegar ao Painel. Tá aberto. Come-se bem e barato. Arroz de Miúdos, Chanfana de Galo e Bacalhau à Lagareiro. Estômago composto, o Jardel acalma e a conversa é interessante. Alimentado, o Jardel relaxa e é brilhante. Ainda afinfo que na próxima vamos ver as vinhas do Luís Pato, mas um garfo apontado ao nariz aconselha-me a não ir por ali…

17/04/06

Historia de Nastagio degli Onesti de Sandro Botticelli, por M40


Entra-se no Prado pela porta baixa de Goya e, logo à direita, aí está ele, Sandro Botticelli (1440-1510), História de Nastagio degli Onesti, cenas I, II e III, três obras primas absolutas da arte ocidental. É uma impressão forte, profunda. Uma pessoa não pode deixar de parar: um nome como Botticelli, três quadros com cerca de 600 anos e tanta crueza, tudo tão bruto como ufilme de terror feito por Stanley Kubrick.

No primeiro quadro vemos uma donzela semi-nua perseguida por um cavaleiro impiedoso de espada em riste. O segundo quadro é o mais cruel de todos: o cavaleiro desceu do cavalo e esventra a moça, retira-lhe o coração e lança-o aos mastins que o devoram com avidez. No terceiro há uma mesa opulenta de um banquete e de novo o cavaleiro surrealista a perseguir a desgraçada donzela. Falta o quarto.

Estes três quadros da autoria de Botticelli relatam um conto do Decameron de Bocaccio. Nostagio, enamorado de uma jovem, passeia pelo bosque quando, subitamernte, é surpreendido pela fuga de uma donzela aterrorizada por um cavaleiro que a ameaça de espada em riste. Nostagio (quadro I) prepara-se para a ajudar mas é prontamente demovido pelo cavaleiro que lhe narra a sua história. Segundo Guido de Anastagi, de seu nome, a amada rejeitou-o ao que ele retorquiu com o seu próprio suicídio. Mas nem assim a donzela se comoveu.

Então, quando morreu a donzela foi condenada a ser perseguida todas as sextas feiras pelo amante rejeitado que lhe arrancará o coração, tantas as vezes como os meses que durou tal rejeição. Podemos, pois, perceber desde logo que os quadros representam uma estrutura narrativa semelhante à banda desenhada: no quadro I e no II não é um mesmo momento que é representado, como se fosse um fragmento de tempo captado por um olhar fotográfico, mas diferentes momentos de uma narrativa à maneira, precisamente, da BD ou do cinema. Se olharmos só para a metade direita do quadro I, apenas vislumbramos o passeio de Nostagio, mas no centro do quadro já deparamos com a sua disposição em ajudar a donzela perseguida pelo cavaleiro e pelo mastim. É uma espécie de pintura narrativa o que aqui se vê.

Finalmente no quadro III Nastagio resolve organizar um festim no bosque, convidando a família da sua amada para contemplar a funesta história de Guido de Anastagio. A família e a sua amada poderiam assim retirar, eles próprios, as suas conclusões sobre o mal da indiferença do coração e sobre seu justo (?) castigo. O resultado foi positivo para Nastagio pois o seu casamento consumar-se-á. Esse é, de resto, o motivo do quarto quadro desta série, o qual, infelizmente, não está no Prado mas numa colecção particular, a colecção Watney (pode apreciar-se aqui: www.gnoisis.art.pl).

Botticelli é um grande pintor e regista-se aqui a impiedade com que se dispõe a retratar o tremendo castigo da indiferença. Donzelas deste tempo que teimais em ser indiferentes para com os vossos pretendentes, lembrai-vos de Bocaccio, lembrai-vos de Botticelli: algures na eternidade que virá depois, um castigo terrível pode esperar-vos. O cavaleiro despeitado atirará o vosso coração aos mastins. Se eu fosse a vocês entregava-me já. Mais vale um amor piedoso que uma eternidade a fugir de mastins e cavaleiros assanhados…

14/04/06

A CRISE DA CIVILIZAÇÃO BURGUESA, por Petit Bourgeois

A burguesia anda nervosa pois pressente que os tempos do seu domínio se aproximam do fim. Foi um fugaz domínio, diga-se. Em Portugal, não nos apercebemos da dimensão da mudança porque, em boa verdade, nunca conhecemos verdadeiramente uma sociedade fundada nos valores burgueses. Excepto em alguns círculos, geograficamente restritos, e em alguns curtos períodos, a burguesia não existiu. O Antigo Regime perpetuou-se nas instituições, nas mentalidades, na sociedade, na economia, nos comportamentos demográficos e na política até há 2 décadas. Champallimaud foi o melhor que tivémos. Como não tivémos burgueses dignos do nome, também não tivémos contestação burguesa. Esta inexistência histórica, porém, não nos impede que, olhando em volta, constatemos os sinais da crise burguesa e do desmoronamento do seu projecto social.
A sociedade burguesa fundamentava-se no valor do trabalho e no mérito individual. Contra os determinismos sociais ditados pelo sangue, o empreendedor burguês contrapôs as virtudes do trabalho, dando como corrupta e viciosa a vida aristocrática e clerical. A burguesia, austera, purtitana, alardeava os seus costumes espartanos onde a prática encontrava correspondência na moral e nos princípios. A família era exibida, orgulhosamente, como o cerne da virtude, a razão de todos os sacrifícios. A família restrita e nuclear era o módulo organizacional estruturado em torno da chefia paternal e da submissão feminina que, uma vez transplantado para o mundo social fornecia o modelo para a organização empresarial, comunal e nacional. A ordem e a autoridade eram princípios que sustentavam uma visão prospectiva que via no progresso, mais do que um ideal, uma base antropológica da natureza humana destinada à perfeição histórica. A riqueza acumulada, os lucros, eram o reflexo do trabalho e a quantificação pública do mérito individual do acumulador. Exibir a riqueza era uma forma de garantir um lugar na hierarquia social e propagandear o prestígio adquirido. Não havia um limite para a ambição burguesa, o optimismo era imbatível e, no limite, o domínio universal estva implícito nessa natureza. William Randolph Hearst, o magnate que inspirou Orson Welles, estava já na pose de Louis-François Bertin que Jean-Auguste Dominique Ingres pintou em 1832 e que se encontra exposto no Louvre. Bertin era, como Kane, um poderoso homem de negócios, proprietário do «Journal des Débats» e um tacticista que dava o seu empenhadíssimo apoio político ao rei-burguês Luis Filipe. Foram os anos dourados da burguesia francesa. Bertin foi o símbolo desse sucesso porque Ingres assim o pintou. Luis Filipe cairia com a revolução de 1848.
Mais tarde, muito mais tarde, após a 1ª Guerra, a burguesia inicia um lento processo de degradação, decadência e contestação. «Os Pilares da Sociedade», de Georges Grosz, pintado em 1926 e exposto no Museu de Berlim, são o anti-Bertin, tal como o dadaísmo é anti-burguês. Em Portugal, como não tivémos burguesia, não tivémos retratismo burguês, apesar de alguns esforços avulsos de alguns pintores como Miguel Ângelo Lupi. Como não tivémos retratistmo burguês, também não tivémos nenhum movimento estético que, como Grosz ou como os Dadas, se tivesse insurgido contra o estatuto e o domínio social da burguesia. Enfim, uma paróquia sossegada, eis o que somos. Apesar de tudo, do nosso mirante carregado de história, vejamos os sinais da crise burguesa que, a meu ver, não é conjuntural e anuncia um novo período emergente. Pós-moderno lhe chamam, sem que ninguém saiba exactamente o que seja.
- o racionalismo ateu está em crise. Os jacobinos andam discretos e mesmo os agnósticos não ousam ir além da afirmação do direito à dúvida. A materialidade dos princípios burgueses via na religião e nas crenças um obstáculo ao seu modelo de desenvolvimento e um sinal do obscurantismo do Antigo Regime. Foram vários os ataques lançados às religiões, ao clero e às mais diversas formas de religiosidade. Eis aí o regresso das religiões, seja sob a forma dos fundamentalismos mais fanáticos, seja sob a forma de novas seitas adventistas baseadas no simplismo de mensagens salvíficas, seja por outras modalidades esotéricas e espiritualidades interesseiras e muito mal sistematizadas. Há para todos os gostos: Tarot, bruxos, a filha do Solnado que fala com Jesus Cristo, aparições, etc.
- A ideia de um progresso imparável, cumulativo, ascendente e contínuo parece que já não atrai ninguém. Seja porque a epistemologia das ciências redescobriu novos paradigmas que expõem essa crença na sua dimensão histórica e ideológica, seja porque os fracassos da ciência e da técnica reconduziram a ambição humana a um estádio mais reflexivo do que actuante. Fala-se em reencantamento do Mundo, já não na sua redução a uma dimensão inteligível, a objecto de domínio. O mundo está perigoso, os pólos são múltiplos, os desequilíbrios ecológicos e as ameaças ao planeta obrigam a que se refreie a ideia de um homem devorador que, pelo trabalho e empreendedorismo, transforme a obra de Deus que é o Mundo original numa civilização edificada pelas mãos de Prometeu.
- Os valores do trabalho, do mérito e o individualismo burguês estão hoje em crise. A quantificação do trabalho, a acumulação da riqueza como reflexo do mérito individual são processos de exibição social que não garantem lugar durável na hierarquia social. As fortunas desfazem-se num ápice. E as que se engrandecem são mal vistas. Bill Gates é um dos homens mais odiados do planeta. A própria ideia de sucesso individual que substituiu a velha ideia de redenção, está hoje relativizada por uma nova ética do prazer. Não há lugar para o puritanismo burguês, para a moral do dever e do sacrifício. We want the world and we want it now! Depois, logo se vê...
- A estética burguesa fundada nos princípios do belo e do monumental estão, tal como a moral, relativizados a um nível de fragmentação que não é já possível falar em padrão de belo, nem de bem.
- As instituições burguesas, como a escola e a família no topo, estão numa crise de redefinição. Na escola não se aprende nada de jeito, não se garante o futuro de nenhum filho de família. Esta, por sua vez, desmoronou-se e refez-se numa diversidade de fórmulas dificilmente enquadráveis em qualquer normativo jurídico-social. E parece que ainda não acabou. Há novos desafios para o código civil. A base contratual em que edificou uma ideia de sociedade esfuma-se na volatilidade incrível dos contratos estabelecidos actualmente. Sejam os contratos que regulam as relações entre indivíduos que se caracterizam pelo capricho e pela efemeridade, sejamos acordos entre Estados que se volatilizam ao sabor das redefinições geoestratégicas, tudo é um instante. nada dura. A empresa, a instituição familiar, o santuário do trabalho, já não aguenta duas gerações de sucesso. Os capitais anónimos, a especulação bolsista, a volatilidade dos capitais, a imensa mobilidade, a deslocalização, o trabalho temporário que dilui os vínculos sociais, tudo serve para tornar efémera a empresa e saudosa a fábrica. Longe vão os tempos em que as chaminés de Manchester eram fálicas, eram o símbolo do sucesso burguês que definia o perfil das paisagens. O Google é uma empresa virtual. Não tem chaminé.
- A abnegação e sacrifício à Pátria, o respeito pelas hierarquias, a ideia de Ordem como condição do progresso, o dever de participação cívica, o respeito pela rua, os princípios cívicos, o direito de voto, a informação, a promoção pela cultura, tudo isso são valores que se dissolvem na sociedade pós-moderna que se conduz pelo fechamento, pelo prazer, pelo efémero, pela autarcia. Não há pai e não há chefe porque, acima de tudo, não há necessidade, não há crença no progresso. A ordem é supérflua porque não conduz a lado nenhum. Não há redenção pós-morte e a felicidade no fim da História também já não se vislumbra. Comamos, bebamos, fodamos. Depois, logo se vê... E o burguês desespera, pois claro que desespera. Pobre Monsieur Bertin. Olhem novamente para a foto do retrato de Ingres. Ridículo não? Para quê aquela pose? Prossigamos:
- Os bens duráveis, a propriedade, os bens legáveis, já não valem. Seja a terra que perde valor, a casa de família que se vende numa sociedade que, acima de tudo aprecia a conversão, a mobilidade e a pequena escala. As jóias e os livros, a fotografia massificada banaliza a imagem que se inculcava na memória do vindouros, o culto cemiterial, ou seja e em suma, todos os processos mnemónicos e simbólicos que levaram a mentalidade burguesa a condicionar a posteridade à sua vontade testamentária estão em crise. Não há vontade respeitável. Não há riqueza nem bens de referência. Não há padrões estéticos nem morais absolutos. Não há instituições duráveis. A mutabilidade acelerou-se ao ponto de que os próprios burgueses que criaram a ideia de mudança não se reverem na transformação vertiginosa da pós-modernidade. Para que é que um filho da burguesia quer uma fábrica de vidro? Ou de malhas? Atoalhados? Por amor de Deus...
Monsieur Bertin, porque nos olhas assim?

13/04/06

VÃO À MERDA!, por Batman

«A ausência de 120 dos 230 deputados da Assembleia da República inviabilizou ontem a votação de legislação por falta de quórum, apesar de a maioria ter assinado o livro de presenças no início da sessão.»

in Público on line

Só do PS, o partido de justiceiros e de pseudo-moralistas de vocação recente que nos governa, são 40%, os deputados em falta! Esta matrulha não percebeu, ainda não percebeu, nunca percebeu que é impossível dissociar-se o cargo de deputado da sua componente exemplar e ética. Não é admissível que se peçam sacrifícios aos portugueses para depois se dar este exemplo vergonhoso. É completamente rasca que se deixem de votar matérias importantes como a do fecho de maternidades por falta de quórum…

E não venham agora o presidente da assembleia da república e os líderes parlamentares – principalmente o do ridículo partido deste governo jacobinista– falar de aplicação das sanções previstas na lei… Nós fazemos uma pequena ideia das ninharias que são essas sanções. Em qualquer cargo da função pública – para não ir mais longe – uma falta injustificada em situação tão grave dá abertura de processo disciplinar, podendo conduzir ao despedimento. Não exagero. A lei é mesmo assim. Mas a este maralhal de 230 que ainda reclama por melhores salários (!!!), quem pune devidamente? Que saudades dos velhos anarquistas e do seu ilustre slogan: «Quem nos protege dos nossos protectores?»…

12/04/06

Um (agora sim!) poeta urbano!, por M40

Jack Johnson! Fixem este nome. Está aqui um novo poeta urbano! Antes decontinuar, queria confessar aqui, publicamente, que a última vez que disse a frase anterior, há muitos anos, o pessoal do Porco, na altura um simples bando de adolescentes borbulhentos, rebolou-se de gozo. É que eu disse-o de um fulano chamado Mário Mata (???). A alimária um poeta urbano? LOLOLL... Fui gozado durante anos e anos. E foi bem feito! Ainda hoje me atiram aquela frase à cara… Às vezes estamos a discutir um músico qualquer que apareceu e quando eu me aplico e defendo o meu ponto de vista lá vem o golpe baixo, a lembrança da minha infeliz tirada que me é jogada na cara com toda a força: «pois, e quando disseste que o Mário Mata era um poeta urbano?» Um gajo fica completamente desmoralizado, porra, deixo logo de falar… O tal de Mata não passava de uma nódoa e aquela foi uma das frases que mais me arrependi de ter dito ao longo da minha vida.

Mas agora não. Ouvi dois discos do Jack Johnson e nunca mais parei. A música dele é tremendamente simples, voz, uma guitarra acústica, bateria e baixo. E djambés. Depois é a voz do homem e a versatilidade das composições. Faz-me lembrar o melhor Ben Harper. Tal como ele, o Johnson também tem um toque tropical e acrescenta-lhe um profundo sentido de humor. Não, desta vez não estou enganado. Jack Johnson, ao que me contaram, encheu o Pavilhão Atlântico de fiéis furiosos que sabiam as letras das músicas todas. Agora sim, muitos anos mais tarde, eu acertei finalmente: ele é o novo grande poeta urbano! Estou redimido.

Afinal, Que Raio Bateu Tão Fundo Em Santa Teresa?, por Seta De Fogo

A nossa Irmã Lúcia que há pouco bateu a bota – prontos, não resisto, a nossa Bidente -, fazia parte do Convento das Carmelitas cá do burgo Coimbrão. Estas pinguins de crucifixo ao pescoço, regem-se por uma ordem ascética e austera, que chega a raiar o absurdo. Há votos de silêncio, fome de rapa à conta de frugalidade e pezinhos descalços que deus nosso Cristo nem dinheiro tinha para sãoDálias, Senhor!. Enfim, mistérios da fé.

Pois as nossas Carmelitas num están solas por sepuesto. A Venerável ordem está espalhada também por nuestros hermanos, sobressaindo em alto relevo as Carmelitas de Ávila, de onde avulta e se agiganta a santérrima Santa Teresa de Ávila. Ora, Santa Teresa de Ávila escrevinhava que se fartava. Fazia, até, poesia. Memorável, é uma das suas poesias-canções de rogo ao Senhor para que este livrasse as Carmelitas de Ávila de uma praga de piolhos na cabelugem. Há quem fale de chatos, mas isso são bocas ímpias das Carmelitas de Salamanca e de Toledo que sempre que puderam afiambraram na Santa, agastadas com as insistentes reformas e visitas de inspecção da Teresa. Sim, porque a Teresa para o que nos interessa num estava fechada em Convento e antes passou a bidinha a calcorrear as carreteras e camiños de convento em convento a reformar e a moer o juízo às abadessas.

Mas adiante com as rivalidades pinguínicas que fizeram a cabeça em água à Teresa. O que aqui me traz são as experiências místicas da dita. Eu já nem vou pela suspeita de que todas aquelas andanças da Santa pelas cruéis carreteras do cruel planalto do Séc. XVI, não dariam coisa boa. E é de suspeitar que de todas aquela viajança não tenha resultado nenhum contratempo, assim que a modos pró místico, com nenhum dos inúmeros bandalhos que infestavam tais camiños.

Contudo, certo é que os textos resultantes das experiências místicas da avilense, me parecem muito pouco místicos e assim que a modos pró encruados. Mas se calhar, sou eu e as minhas taras pinguínicas. Leiam vocês e vejam se percebem o que deu na Santa:

“Por vezes vêm estas ânsias, e lágrimas, e suspiros, e os grandes ímpetos que já disse (que tudo isto parece que procede do nosso amor com grande sofrimento, mas tudo não é nada comparado com esta outra coisa, porque esta parece um fogo que lança fumo e pode suportar-se, embora sofrendo); andando assim esta alma a abrasar-se em si mesma, acontece muitas vezes por um pensamento muito leve ou por uma palavra que ouve de que demora o morrer, vir de algures – não se entende de onde nem como – um golpe, ou como se viesse uma seta de fogo (não digo que seja uma seta, mas seja o que for, vê-se claramente que não podia proceder da nossa natureza; tão-pouco é um golpe, embora eu lhe chame golpe; fere mais profundamente, e não é onde se sentem cá as dores – parece-me -, mas no mais fundo e íntimo da alma), onde este raio, que num instante atravessa tudo o que acha de terreno na nossa natureza e o deixa feito em pó, que enquanto dura é impossível ter presente seja o que for do nosso ser; pois num momento ata as potências de maneira que não ficam com nenhuma liberdade para nada, senão para o que lhe há-de aumentar essa dor.”

10/04/06

O Ti Américo dos Túbaros, por Morsa

Na primeira vez que me lá levaram foi ao engano. Engano deles, obviamente. Na tasca de mosaico seboso e banco tipo burro, imperava o Ti Américo, velhote baixito e entroncado, de insulto fácil e trato abrutalhado. Das suas manápulas saíram rapidamente duas doses de moelas ferventes e uma dose de túbaros picantes, tudo acaçoilado em molho espesso.

Como mansarro, sujeito a praxe gastronómica, competia-me abrir as hostilidades com os túbaros e não só as abri como as acabei. A malta peluda e pagante desconfiou da alarvidade do animal em presença, mas acordou já tarde. Quando se preparava para assistir às tradicionais vomitadelas perante a informação de que se estava a comer colhões de porco, já o praxado mandava vir mais uma dose e discutia com o Ti Américo se não se conseguia umas burras de vinha d`alhos ou umas vulvas na brasa ou pelo menos, umas mioleiras a ranger na sertã.

Serviu-lhes de lição e ganhei um compincha de tacho no Ti Américo. A partir daí, viesse coronel ou brigadeiro, era a mesa do moi même que era servida em primeiro e para quem refilava lá vinha o velho Américo a berrar que a porta da rua era a serventia da casa.

Os túbaros da tasca do Ti Américo no Rossio Ao Sul do Tejo, logo depois da ponte de Abrantes (vira-se à esquerda para o velho casario borda d´água) eram dos melhores que jamais comi. A receita era secreta, mas dava para ver que o Ti Américo cortava a carne esponjosa em bocados pequenos, avinhava-os de véspera em receita especial e depois iam a frigir em caçoila de barro quase rasa, vindo para a mesa a ferver num molho espesso, especiado e picante. O Ti Américo era o homem dos túbaros de porco.

Quatro anos depois do fim da cegada militar, voltei a Abrantes e despachado o julgamento, procurei pelo homem dos túbaros. Estranhei logo a nova frontaria. A tasca já tinha dado lugar a restaurante de amesendação a pano, os preços passaram a upa-upa e de túbaros na lista nada! - Atão, e os túbaros? – Atão, e o Ti Américo?

Nem uns nem o outro. Um solicito serviçal lá me explicou que o Ti Américo dos Túbaros se tinha desgraçado. Tinha chegado a casa no ano anterior e deu-se com a jeitosa da mulher em amena embrulhada com um porco não autorizado. O Ti Américo homem abrutalhado e com túbaros a subir à cabeça, sacou da espingardaria e só parou quando rebentou com a própria mioleira. Matou a mulher e depois matou-se. O amásio viu passar a morte ao lado e fugiu por uma janela e Tejo acima. Julga-se que não gostava de túbaros. Maldito!

07/04/06

O Barcelona ganhou ao Benfica por 2 a 0. Aconteceu em Espanha. A análise do Jogo, por Automotora

Foi um grande jogo de futebol, como se costuma dizer, aquela a que anteontem se assistiu no Nou Camp, entre o Barcelona e o Benfica. Mas o desfecho, se bem que inesperado para muitos, não foi surpresa para mim. Desde há algum tempo que venho dizendo: não ponde o Petit a jogar naquela posição, pelo miolo do terreno!

Isto porque, convém dizer, sempre fui apologista da táctica 1x3x3x4, com um médio recuado e lateralizações pelos flancos, a fazer a dobra. Da forma a que ontem se assistiu, nunca! O único que esteve bem foi o Marcel, a fazer lembrar o Humberto Coelho, com os seus passes milimétricos para o Luisão, num esforço assinalável de sinergias a que se associou o Manuel Fernandes, esse poço de garra, sempre na dobra.

O Beto, por sua vez, parecia perdido nas dobras, sem uma clara linha condutora, afunilando o jogo pelos flancos, a fazer lembrar o Humberto Coelho. Valeu-lhe o Geovanni, esse poço de força, a fazer as dobras, a meter o pé nos flancos, sem se amedrontar com o Larsson, que não o largava, no homem a homem. Esteve também muito bem o Léo, esse dinamo, esse animal de área, como costuma dizer-se, a fazer lembrar o Humberto Coelho, imbatível no um para um (-----»«-----), sempre na dobra, ali, no miolo, a lateralizar para a grande área. Um autêntico perigo para o sector médio defensivo contrário.

E o Miccoli, esse italiano d’oro, esse animal do miolo? Ó meus caros, é o que eu sempre tenho dito: ponde-o no ataque, que ele dá conta do recado! Meu dito, meu feito! A gizar jogadas, daquela forma, nem o Valdés o segura. Foi o melhor em campo. Pecará, talvez, por algum individualismo, mas mesmo essa sua faceta é compensada pela sua entrega ao jogo, pela sua alegria de viver. Em suma, esteve eficaz, e aquele seu pé esquerdo fez estragos na defesa contrária, a fazer lembrar o Humberto Coelho.

Os barcelonistas chegaram mesmo a andar de cabeça perdida, e foi muito feio, muito feio mesmo, aquela atitude do Puyol, que só o árbitro não viu. Não viu muita coisa, diga-se de passagem… Uma palavrinha sobre o árbitro: árbitros desta categoria dignificam o espectáculo. Ali, sempre na dobra, sempre a lateralizar pelos flancos, foi um dos homens do jogo. Nota 10, portanto, a fazer lembrar o Humberto Coelho.

Uma última palavra para o Moretto, esse poço de força e de alegria. Mas aquela posição não é claramente a dele, e isso foi patente ao longo de todo o encontro. Não se percebe que o Benfica vá buscar um jogador destes, e o desaproveite daquela forma. Sente-se que joga de forma triste, sem garra, e não ajudam atitudes como aquela que o Anderson teve para com ele. Foi triste, uma mancha negra na sua carreira. Mas é jovem, e tem tempo para arrepiar caminho.

O Treinador do Benfica, o holandês Roland Koeman, tem um longo trabalho de balneário pela frente… E vou eleger agora a melhor jogada de todo o encontro: aos 35 minutos, o Luisão conduz a bola. De repente, vê o Miccoli e lateraliza pelos flancos, corre trinta metros e passa ao Karagounis. Este por sua vez, corre pela esquerda, em sinergia com o Andersson, e passa a bola ao Leo num passe milimétrico de trinta metros, que o árbrito deixa passar, e muito bem, numa boa leitura do jogo. Infelizmente, não havia ninguém a fazer a dobra e a bola perdeu-se pelos fundos.

Quanto ao Barcelona, não há muito a dizer. Dignificou o espectáculo e foi um justo vencedor, embora tivesse sido triste aquela atitude do Deco. Atitudes como aquela ficam-lhe mal e não contribuem para a dignificação do espectáculo. Bom, finalizando, o resultado podia ter sido outro, se o desfecho tivesse sido diferente, mas a vida é como é, sempre na dobra, sempre pelos flancos, a fazer lembrar o Humberto Coelho.

05/04/06

Mariana ou O guia perdido, por Beaujolais

Da boca de Mariana fluía o mundo. Uma torrente de mundo.
Por exemplo: os vinhos de Bordéus nasciam da boca madura de Mariana:
- Um dos melhores percursos é agarrar a estrada de Langon, para sudeste. Na altura das vindimas, quando a parra já se emborrachou de sol, o senhor vai conduzir através de umas cores quentes, umas cores de Van Gogh, enfim, de Gauguin, não interessa. (Já conhece Arles?). O verde enche-se de amarelo. O dia apenas tem os tons da tarde. Quase se pode cheirar o vinho, e ainda nem ele existe! É verdade, quase se pode cheirar o vinho, olhando esse amarelo que aquece as vinhas. Faz calor, mas é menos do verão do que das cores. Se for por Villenave d’Ornon, atravessará as vinhas de Cérons, Barsac, Loupiac e Sauternes, terras de brancos doces — além, claro , das vinhas de Graves, onde também produzem tintos. A maior parte dos Bordeaux são tintos, mas aproveite esse percurso para estacionar nos brancos doces. Eu prefiro os tintos — de qualquer parte —, mas os brancos doces têm uma elegância que justifica a despesa. (A propósito, vá preparado: em Bordéus não se paga apenas o vinho, mas também a fama. Há garrafas que são mais fama do que vinho, na verdade.) Experimente. São vinhos de ouro, entende?, com taninos de mel, tília e acácia. Escorregam bem com uma sobremesa ou com um queijo. Ou, se lhes der um pouco de frio, poderão fazer um aperitivo delicioso. Claro que você vai andar nos tintos a maior parte do tempo e da estrada. Para uma garrafeira, os Médoc e os Graves envelhecem muito bem. O Libournais também. Já provou Libournais? Mas isso fica noutra estrada. Se atravessar a Garonne pela N89…

Rolávamos através de Berlim
(Mariana é taxista),
sentido Alexanderplatz, sentido Nascente, sentido Leste, sentido História,
- Então o meu amigo quer ver o Muro? Vamos a Mühlen Strasse, esta é a melhor hora para apreciar os painéis dos artistas, embora não seja a melhor hora para fotografar, porque o sol está a cair a Ocidente e, naquela rua, a esta hora, o muro fica em contraluz, está a perceber?
Por exemplo: os perigos de Lahore apareciam na boca vermelha de Mariana:
- Não se fie nos polícias! Em toda a gente, menos na autoridade. Olhe que são os polícias mais corruptos do Paquistão. Pelo menos com turistas. Imagine a ciência daqueles tipos: você chega a um dos “hotéis” baratos da cidade velha — é onde os estrangeiros acabam todos por aterrar —, descarrega a mochila e o sono, pede um quarto e um duche e o rapaz da recepção estende-lhe uma chávena de chá, “grátis”, ou até duas, ou três. Quantas chávenas você quiser beber, você — que já vem moído e esfomeado de Nova Deli, porque, se não gostar de fritos nem de picantes, passou uma fome daquelas, para não falar na diarreia e nos percevejos no Ricky’s Inn, que é onde ficam os mochileiros mais encardidos do Ocidente. Simpático, isso do chá, não é? O problema é que o gajo, que está feito com a polícia, deitou um tranquilizante no seu chá e você cai redondo a dormir. Quando acorda, tem o quarto cheio de polícias de bigode e farda castanha, furiosos consigo, porque você é um drogado e veio para Lahore, para o Paquistão — para a “Terra dos Puros”, é isso que o nome quer dizer —, à procura de heroína barata, ou de coca, ou de outra pasta qualquer. Você começa a enlouquecer, tenta defender-se, explicar que nem sequer fuma um vulgar cigarro, mas eis que um agente encontra a prova do crime: um saquinho! Um saquinho de pó! Na sua mochila! O que está um saquinho de pó a fazer na sua mochila? Hum? Responda! Responde! Você vem de Peshawar? Vai para Peshawar? Onde fica Peshawar? A esta altura, você já levou um estalo. E depois outro! Você nem percebe de onde é e para onde ia. Eu explico, porque o tempo é precioso nesta situação: você caiu numa armadilha. Levam-no para a esquadra, fecham-no numa masmorra e, a menos que você pague a sua libertação, não sairá de lá tão depressa. Por isso, pague, pague o mais possível e o antes possível, pague o que lhe pedem antes de ir para a esquadra, porque quanto menos polícias tiver que “comprar”, e de menor patente, mais barato lhe fica. Lahore é uma cidade incrível — e não é pelo Museu Nacional, onde trabalhava o pai do Kipling . É pela fortaleza e pelas ruas estreitas da cidade velha. Pela mobília de cheiros nessas ruas. E pelas mesquitas. Ah, as mesquitas: a de Wazir Khan, uma pérola!, e a de Badshahi Masjid, do século XVII, imponente. Meu amigo: tenha cuidado com a polícia e veja bem onde fica instalado. Evite o bairro da estação. É mais barato mas é lá que a corja monta a ratoeira.

Ou, ainda um mero exemplo, a Ilha de Moçambique brilhava na boca doce de Mariana :
- Não sei se ele ainda é vivo, mas havia um padre, não me recordo… sim, o padre Lopes, na Ilha. Ele tinha uma casa perto da estátua do Camões, ou antes, entre o Camões e o Cine-Teatro Nina. Digo-lhe a si, meu amigo: não venha de lá sem ouvir o coro do padre Lopes. Você vai chorar, mesmo que não tenha fé, mesmo que não seja cristão, se for humano vai chorar. Peça um “pai-nosso” macua, assista à beleza das vozes, limpe a alma, se a estrada de Nampula tiver deixado alguma alma em si. Depois, vá lavar os olhos na água verde que está virada para o Ilhéu de Goa (dizem que, em certas noites, se pode ver o clarão das Comores). Não se esqueça de olhar por onde anda e por onde pisa: continuam a dar a essa praia, batida pelas correntes do Índico (séculos e séculos de correntes subterrâneas, de marés), pequenas contas coloridas, carregadas nos porões dos galeões das Índias. Há muitos galeões afundados ao largo da Ilha. Além das contas, os barcos carregavam escravos. São lindas, as contas coloridas. Fazem colares lindíssimos — os mais caros, os de tons azuis. Se quer acomodação com vista para o oceano, tem a Casa Branca, mesmo no largo do Camões. É limpa, barata, espartana, e, ainda assim, nobre — trata-se de um antigo sobrado colonial. Pergunte pela dona Flora. Diria que a Casa Branca é a melhor oferta da Ilha: bed&breakfast&silêncio. Para esquecer — na Ilha há sempre um momento para esquecer —, mude de costa, atravesse os arcos da Alfândega e entre no Relíquias. O gin é verdadeiro, os bolinhos de camarão apetitosos. Os piratas, as sereias e os mercenários que entram directamente da praia para a esplanada, são igualmente genuínos. A Pousada foi recuperada, sem grande gosto, mas come-se bem no restaurante — bom marisco, bom peixe, bom serviço. O senhor é do Sporting? Havia um Sporting na Ilha. Resta um leão partido, em alto-relevo, numa das paredes em ruínas do clube, ali ao lado da Pousada. Pode fazer campismo, do lado do continente, à entrada da ponte. Pergunte pela Lena. A Lena “Brasileira”.

Rolávamos através de Berlim, sentido, por exemplo, fronteira polaca, Frankfurt-no-Oder, sentido Varsóvia,
- Já esteve em Varsóvia? Não vale a pena ir lá, a não ser que se esteja interessado em mulheres. O “centro histórico” mete dó, a cidade foi arrasada na Segunda Guerra, entende? As mulheres são muito bonitas. Realmente são muito bonitas. Posso aconselhar-lhe uma menina, a Felicita, muito jovem mas de grande… maturidade, se me faço entender. Mas, se não quiser o meu conselho, basta escolher um dos folhetos e cartões de visita que, durante a noite, vão colocar-lhe no alto da porta, entalados no caixilho. Caem-lhe em cima, de cada vez que você abre a porta — digo, os folhetos.

Sentido Kaliningrado,
- Resta pouco para apreciar na cidade, mas reconstruíram a catedral alemã de Köenigsberg (era o nome da cidade antes de 1945, centro da Prússia Oriental que a Alemanha perdeu depois da guerra). É mais interessante, no entanto, o Museu Kant — o homem nasceu lá e está enterrado nos arredores da cidade — e o Museu do Âmbar.

Sentido, porventura, Moscovo,
- Recomendo-lhe vivamente os banhos de Sandunovskyie, nas vielas da parte Norte da cidade. São banhos do século XIX. Continuam segregados. O que me parece mais interessante é a possibilidade de qualquer cliente beber cerveja até cair, sem sair dos banhos de vapor, das salas de massagem, das piscinas.

Rolávamos e o mundo criava-se da boca de Mariana. Enquanto passávamos no palácio de Charlottenburg, Mariana falou de um barco na perigosa fronteira de Iquitos, na Amazónia colombiana. Depois, por alturas das Portas de Brandenburgo, descreveu motéis e paisagens numa estrada melancólica pela costa do Oregon, nos Estados Unidos. Mais adiante, aproximando-nos do antigo parlamento da RDA (em processo de desmantelamento), encontrou pretexto para uma ida às compras em Hong Kong e debitou uma listagem exaustiva dos melhores bungalows da Tailândia. “Sem o ruído de Anjuna, em Goa, nem o pretensiosismo budista de Bali, na Indonésia”. Haveria mundo que ela não conhecesse? Haveria país que não tivesse visitado? Haveria viagem que Mariana não tivesse feito?
- Eu nunca viajei . Eu nunca viajo.
Dei um pulo no banco. Da boca de Mariana, da boca trocista de Mariana, brotou um sorriso sem alegria. Como assim, Mariana? Uma taxista portuguesa em Berlim viajou, pelo menos, de Portugal para a Alemanha.

- Eu nunca viajei. Só saí da minha cidade uma vez — para Berlim. E não foi uma viagem. Foi uma emergência. Uma missão.

Mariana veio a Berlim resgatar um amigo. Um dos seus melhores amigos. Disse-me, com alguma emoção, que o que pretendia da vida era cuidar dos seus amigos. Aprender com eles. Guardá-los dos perigos do mundo, com zelo, ao mesmo tempo aprendendo a partilhá-los, para que esses amigos, voltando os mesmos, voltassem melhores, para que eles crescessem.
- Um bom guia é melhor do que a melhor das viagens. Sabe sempre mais, sabe sempre tudo, porque tudo lhe foi ensinado antes da nossa partida. É por isso que partir não é preciso.

É por isso que Mariana não parte. Precisei de alguns minutos para perceber que o grupo de amigos de Mariana estava todo na sua estante, aliás, em várias estantes, por serem muitos, por serem cada vez mais: os seus amigos mais próximos eram guias turísticos. De todo o lado, de todas as categorias, para todos os gostos, para todas as bolsas. Guias que levavam Mariana, pela mão — e sem sair de casa! —, através das estradas mais perigosas dos Andes ou pelos hotéis mais luxuosos da Ásia, passando nos melhores museus de Nova Iorque, nas melhores salas de fumo de Marrocos, nas ilhas mais remotas do Adriático.

É preciso contar a história desde o início. Mariana contou-me: no início, começou a coleccionar catálogos de agências de viagens. Passou a ser uma presença assídua nas agências da sua cidade. Era uma cliente sazonal: passava sempre para recolher a informação, embora nunca comprasse nenhuma viagem. Habituaram-se a ela e guardavam-lhe catálogos específicos, catálogos que vendiam caminhadas pelos planaltos do Nepal, passeios a cavalo através da Terra do Fogo, cruzeiros no barco postal ao longo dos pequenos portos da costa norueguesa, ou programas em requintados oásis no deserto egípcio. Coisas simples, esses catálogos.
- Não era um atavismo. Era por falta de dinheiro.

Aos poucos, a exigência foi subindo. Mariana fartou-se das fotografias de praia e coqueiro, da superficialidade do turismo de gado, dos destinos tropicais e das férias na neve. Foi então que passou a estudar, a comprar guias turísticos.
- (Roubei alguns, claro, mas roubar leitura não é crime, é fome de cultura.)

Disse-me que a viagem era uma necessidade literária, não uma necessidade de movimento. Mariana adquiriu, rapidamente, um conhecimento do mundo, digamos um cosmopolitismo, proporcional à experiência dos seus guias. “Viajou” em detalhe e em profundidade por muitas cidades. “Conheceu” os hotéis, a gastronomia, a noite, os acessos, os monumentos, os truques, os bordéis, as irritações, as sugestões, as anedotas, as paisagens, os costumes, os segredos, farrapos de cultura. O vício dos mapas veio por arrastamento. Mariana reuniu um acervo cartográfico impressionante.
Outros amigos, amigos de verdade, ou melhor, de carne e osso, amigos com o fútil hábito da viagem,
- Uma ilusão, está a compreender?, uma vaidade,
começaram a recorrer a Mariana para preparar as suas férias, onde quer que fossem. Era Mariana que lhes emprestava os guias. Pareceu-me que este empréstimo não era desinteressado. Por um lado, uma parte de Mariana viajava, efectivamente, com as pessoas a quem ela emprestava os seus guias; era, por isso, em Mariana que eles teriam que pensar, fosse apenas por um instante, quando folheavam o guia à procura de direcção, de comida, de transporte, de informação — ou de companhia. Por outro lado, o guia, sabedoria detalhada do real, mais real do que a realidade, ganhava algo em cada saída que efectuava: os guias são a sabedoria antes da experiência,
- E por isso são perfeitos,
mas a experiência, exercitando a sabedoria, acrescenta algo de legitimidade, de maturidade, algo que renova, ilumina e justifica a sabedoria original,
- E não me refiro às anotações que sempre acrescentavam aos meus guias. Refiro-me a uma personalidade do livro. Uma… aura. A aura da viagem autêntica. Eu conheço a viagem dos outros — antes mesmo de eles a realizarem.

O que Mariana quis dizer é que, fizessem o que fizessem, a viagem dos seus amigos já estava inscrita na viagem que ela tinha “feito”, lendo-a. Seria sempre uma pálida réplica, uma cópia imperfeita da viagem total: todas as páginas, todas as linhas do guia… E os relatos, em cada regresso, eram, para Mariana, uma consagração: o mundo era devolvido ao oráculo, e encaixava nele — nela — porque dele havia saído.
- Aí tem o Muro. Quilómetro e meio de folclore, neste sítio, ao longo do rio Spree.

Mariana falava, agora, com alguma rispidez. Parou o táxi (em frente a um painel inconfundível do pintor-ilustrador Jim Avignon).
- O Jim tem outro painel em Hackescher Markt, numa das poucas paredes que resistiu ao novo-riquismo do Hackescher Hof. É numa passagem que dá para um bar com monstros mecânicos. Os monstros são feitos pelo dono do bar. Tem uma cave cheia deles.
A taxista ficou a olhar os bonecos desengonçados no Muro. Estranha construção, neste ponto: longa e mais baixa do que parece nas imagens de Berlim durante a guerra fria.
- Berlim é uma cidade enorme. É muito fácil perder um amigo aqui.

Já foi há alguns anos, contou-me Mariana com as mãos e o queixo no volante. O amigo em causa era um dos seus guias preferidos. Um guia de Berlim.
- O guia Baedecker de Berlim. Ele era tudo o que se pode exigir de um bom amigo: “Prático, fiável e divertido” — enfim, era o que dizia na capa.
O que Mariana gostava nesse guia era a profusão de fotografias, a facilidade de consulta, as anotações à margem e outros detalhes típicos dos guias Baedecker, como a classificação de uma ou duas estrelas para os hotéis, restaurantes ou monumentos imprescindíveis.

- Era um guia de fácil comunicação. Nem sempre é o caso.
Fácil de perder, também. Um casal, a quem Mariana emprestou o seu fiel guia de Berlim, esqueceu-se dele no hotel, o Seehof Berlin,
- Em Charlottenburg, sobre o lago de Lietzensee. Esteve lá a Josephine Baker. O Peter Ustinov também.

Drama, a perda de um guia. Não havia horror maior para Mariana do que sair da sua cidade. Era uma ideia insuportável. Mas igualmente atroz era pensar no seu guia, esquecido em Berlim, à mercê de desconhecidos, de gente ignorante
- Sim, ignorantes!
que, na presunção de conhecerem a cidade, desprezam e descuidam um bom guia de papel. Alguns dias foram consumidos em angústia. Por fim, Mariana tomou a decisão inevitável: iria a Berlim resgatar o seu amigo.
- Aí tem. Aqui estou. Quer fotografar o Muro ou não? Não tarda, cai o sol.
Encontrou-o, afinal?
- Quem?
Ora quem, Mariana: o seu guia. O seu amigo.
- Não interessa. O meu amigo enganou-me. Dá uma “estrela” ao Seehof Berlin e o hotel não merece essa distinção.

Saí do táxi e caminhei um pouco ao longo do Muro. Fotografei alguns painéis. O meu favorito é o painel com o líder da URSS, Brejnev, de boca colada à do líder da RDA, Honecker.
- Também gosta desse beijo frio?
Voltei ao táxi e pedi que continuássemos por onde ela quisesse. Rolámos pela cidade. Instalou-se a noite.
- Berlim é uma prisão muito grande.…
Percebi o que ela quis dizer: veio e ficou. Mariana não viaja. Nunca viajou.
Da boca de Mariana saía o mundo. Uma torrente de mundo.
Por exemplo: a noite de Berlim levantou-se da boca calada de Mariana.

Edital, por Assinatura Ilegível

Declaro abertas as inscrições para a 2ª edição do Grande Torneio de Golfe da RS.T. A prova realizar-se-á durante o mês de Abril, no campo de Montebelo. Podem inscrever-se todos os membros da RS.T, admitindo-se também os não membros desde que propostos por dois membros de pleno direito. Devem apresentar um handicap válido à comissão técnica, isto é, o Mau. Este encarregar-se-á de elaborar a respectiva lista de handicaps, bem como será responsável por todos os pormenores técnicos. Será ainda a instância decisora em matéria de aplicação e interpretação de regras. Não há recurso das suas decisões.

O primeiro prémio é um «Pêra Manca» tinto de 2001, com a condição de o vencedor o colocar na mesa durante o jantar que se seguirá ao torneio.

Junta de Freguesia da RS.T, tantos do tantos etc.

O Presidente da Junta

(Assinatura Ilegível)

PS. O Bandosgas deve jogar com o handicap 28, tal como o Mendigo, pedinchador de handicaps.

PS2. Admitem-se babby-sitters ao torneio.

03/04/06

O livro do Cão, por jaime-a-dias

O livro do Cão já provocou uma discussão com a minha mulher. Muito apreciei e invejo o excelente fim de semana dos porcos farristas abaixo relatado, mas comigo, logo no dia em que foi comprado, ainda mal o tinha aberto (apesar de já conhecer em grande medida o que lá está, por intermédio do blog do autor), ainda com a tinta fresca do homem a pingar do autógrafo, provocou uma crise doméstica, a porra salvo seja do livro. Tudo se resolveu entretanto a contento, nas trincheiras domésticas, mas o que interessa aqui é que o livro novo do Daniel fez logo merda. Salvo seja. Mal nasceu e já está a dar sarrabulho! Ora quanto a mim isso só pode ser bom sinal para um livro. E para um autor. O livro, além de ser a escrita do Daniel Abrunheiro, é a sua vida. É uma narrativa a tocar nas franjas da existência, nos limites dualistas da experiência humana e nas margens das cidades abundantes e "urbanas", passe a redundância. É a sua poética existencial, donde transpira intimismo por todos os poros (o poeta). O Abrunheiro tem um estilo, um estilo literário que aprimora e acalenta mais ou menos sistematicamente, um registo que lhe é próprio e que o distingue. E que é controverso. Para uns abusa das metáforas, para outros usa uma linguagem exageradamente “complexa”, difícil, rebuscada ou congórica (porque rocócó é uma palavra que cheira mal, rocócó faz o meu puto nas fraldas), para outros brinca demasiado com as palavras e torna aquilo incompreensível... Quanto a mim, vejo ali uma escrita viva, cuidada e criativa: uma brincadeira muito séria - em oposição a muitas outras brincadeiras editoriais sem seriedade nenhuma que se publicam e vendem aos milhões por esse mundo fora. Uma abordagem diferente e arejada ao português, às palavras em português. A mesma postura estética que vejo com maior ou menor mestria em autores como Mia Couto ou Lobo Antunes (as crónicas de imprensa deste último homem, para traçar melhor a pertinência da referência perante o Daniel Abrunheiro, também cronista de imprensa são para mim brilhantes momentos literários: luminosos). E no essencial há ali liberdade à solta, há clara e inequivocamente poesia, da boa, no esgrimir solto das letras e das parábolas. Como talvez haja na vida do autor, eventualmente também controversa, não sei, não interessa. Mas há ali sem dúvida, na sua obra, nervo criativo a pulsar: um estilo original e cativante, uma irreverência madura e apaixonada e, além do estilo e da forma, sente-se a presença distintiva do autor em cada linha, em cada história ou sentir relatados. Umas vezes terno, outras raivoso, mas está lá sempre, entranhado naquelas palavras, sem grande distanciamento relativamente ao objecto da sua arte, e dando-lhe um cariz de certa forma auto-biográfico. E eu, como gosto de conhecer os demónios dos outros e como também gosto de escrever daquela maneira, gosto muito das prosas do Senhor Cão, identifico-me com a causa e com a forma. E aconselho onde e quando posso e lembro. A minha mulher, por exemplo, a meio da discussão, que entretanto derivou para outras questões da vida, prometeu que ia ler mais e melhor um bocadinho para “tentar gostar”. Entretanto fico à espera da publicação aqui no porco, "para breve", da igualmente brilhante e inspirada dissertação do deslumbrantissimo e ilustradissimo Vice aquando do público e solene Lançamento do Livro, texto que alguém prometeu, ouvi distintamente à saída da Casa da Cultura, “por aqui no porco, em breve”. É documento a merecer publicidade.

02/04/06

A Perfect Day, por Felizardo

Serei telegráfico: 3 amigos em Montebelo às 10:00. 40 pontos em 96 pancadas. Tondela às 16:30 numa esplanada típica. Velhos sentados no muro da igreja a ver os carros passar. Mais velhos numa mesa escondida a jogar à batota. 4 amigos a uma mesa. Aos 3 iniciais juntou-se um Batuta 2001. 94 pontos da «Wine Spectator». Punheta de bacalhau, ossos, chispe e entrecosto. Batuta 2001. Intensíssimo, prolongadíssimo, cor bonita e cerrada. Aveludado, com taninos muito bem arredondados. Madeira discreta e bem integrada. Desdobram-se na boca os sabores que vão das ervas silvestres (urze e esteva, com algum eucalipto) até aos aromas quentes do cacau. Prolongado. Os grandes vinhos tornam grandes os bons momentos.

O Fim de Semana do Tapornumporco, por Pigmaleão

Este fim de semana, o Porco lá esteve na Casa da Cultura de Coimbra para, dar uma força no lançamento d`O Preço da Chuva, o novo livro do Daniel Abrunheiro, vulgo Dog aqui pá malta… O lançamento correu bem, mas houve uma coisa alarmante: no fim, de entre os múltiplos Tapores que por lá andavam, fomos a ver, e, ao fim, éramos só três a jantar: eu, o Grunfo e o Francis Presunto. Eu achei um péssimo sinal!

Houve de tudo e pra todos os gostos: os que não puderam ir porque estavam em família, os que não puderam porque tinham um jantar com polacos (fónix, ele há cada um!!!), os que chegaram e não puderam porque vazaram usando um daqueles aparelhos de tele-transporte instantâneo da Startreck, houve até um cromo que só quando chegámos ao restaurante é que se lembrou que afinal tinha prometido em casa que jantava em família, enfim, lá ficámos os três, eu o Grunfo e o Francis no Porquinho.

Devo dizer que o jantar foi óptimo, aliás. Ao contrário do que me tinham dito, o Porquinho é um excelente restaurante, com uma óptima cozinha muito rica em ervas aromáticas, bastante variada, uma razoável carta de vinho e preços aceitáveis. O serviço revelou-se competente e amável e o espaço é de indiscutível bom gosto, arejado e moderno. É claro que para quem vai lá comer leitão, não sei, não…
A conversa foi agradável. Falámos de Winkelman, de Heidegger, do Romanée Conti a 2600 euros, do livro do Cão, de Hegel e outra vez de Winkelman, e pelo meio, como sempre, javardou-se. Depois voltámos a Winkelman e javardámos outra vez. Portanto a conversa foi óptima.

Hoje fomos ao golf a Montebelo. Só três de novo: eu, o Francis e o Gengis Kahn. Eu portei-me vergonhosamente com 116 pancadas no gross e uns míseros 25 pontos no net. Já o Francis esteve fabulástico com 106 pancadas e alguns dos seus melhores drives dos últimos tempos. E o Gengis, bem, o Gengis foi ele próprio: A-L-U-C-I-N-A-N-T-E!!!! Só vos digo: este homem a jogar assim, ainda há-de ser alguém na vida. Ficou uma-pancada-uma acima do par do campo, com 75 pancadas, pode lá ser… Fez coisas incríveis, saídas em S, shots em curva, slices, fades, hooks, este homem é um mister, senhores. O Gengis está na sua melhor forma de sempre!

E esteve ainda melhor quando, parámos para lanchar em Tondela no pátio de uma tasquinha que a malta conhece. Comemos uma boa punheta de bacalhau, ossos e chispe e, o Gengis, às tantas, saca de uma caixa e tira lá de dentro, imaginem, a minha cara ficou parva de espanto, um extraordinário e mítico, BATUTA 2003. Só vos digo, meus amigos, eu e o Francis, parecíamos os pastorinhos a ver a Senhora em cima da azinheira. O Batuta é um daqueles vinhões que fazem um dia inteiro. De aromas intensos a frutos vermelhos, com notas de cereja maispronunciadas, muito prolongado, com uma acidez perfeitamente equilibrada com a complexidade do vinho, notas de eucalipto e de urze (!?) segundo o nosso Francis. Quer dizer, o vinho era uma pomada do caraças mesmo, do melhor que provei nos últimos tempos e éramos só três a mamá-lo e, portanto, deu boé a cada um. Fixe! Pelo meio ainda chateámos o Grunfo por telemóvel a anunciar-lhe que tínhamos um Batuta, da Niepoort, entre nós. O Gajo devolveu-nos logo o sms com isto escrito:
-Batuta, o caralho!
Ao que eu respondi:
- Batuta, casa Niepoort, vinhos s.a.Vila Nova de Gaia, fundado em 1849. E tenho cá a rolha. Chega?
O Grunfo demorou a responder. A demora foi entendido por nós como tempo gasto por ele a confirmar nos seus preciosos arquivos de literatura etílica, a veracidade da informação que eu lhe mandara. Até que finalmente o meu telemóvel tocou. Era o tão esperado sms do Grunfo que dizia assim:
- Batuteiros!
Na mouche. O gajo devia estar a roer-se por dentro. Ele há fins de semana fantásticos!