29/06/06

Metalomecânica Literária, por Paracelso

Ainda a propósito de livrarias, na sequência daquele post ali em baixo do, o que mais me surpreende em algumas é a falta de conhecimento do ofício por parte dos empregados. Numa das Bertrand de Coimbra peço o Tia Júlia e o Escrevedor, do Mário Vargas Llosa. “Mário quê”, pergunta a empregada. – “Vargas Llosa… Llosa, Llosa…”, com dois lês, como aquele tango do Gardel, llorona, no llores maaaas… (bom, na realidade nunca me ocorre dizer estas coisas assim, na altura própria).

A senhora consultou o computador, e acabou por concluir que tal obra não existia nas bertrands de Coimbra, que são quatro. Aventou até a possibilidade de a coisa ter saído muito recentemente e entonces… Não é estranho um funcionário de livraria nunca ter ouvido sequer falar do tal Mário? É que o homem é uma celebridade; está para a literatura como o parafuso está para o mundo das ferragens e drogarias. Ora, quando vamos a uma loja de ferragens pedir parafusos, a última coisa que nos passa pela cabeça é que o empregado nos diga: “para… quê? fuso? não, ó amigo, desse material ainda não temos, sabe, é que as novidades tecnológicas às vezes demoram a chegar à loja, efeitos da interioridade”. Normalmente dirá: “ó meu amigo, parafusos há muitos, quer de fenda simples ou cruzada, para o de fenda simples tem que ter uma chave de fendas a condizer, e afinal o meu amigo quer o parafuso para que efeito, e não se esqueça das anilhas e porcas”, etc. E o mundo da literatura não é muito diferente do mundo da metalomecânica.

Imaginemos que chego a uma livraria e digo - ”ora viva, amigo Freitas, quero levar que ler na praia, estou inclinado para o Kafka”. Pois o Freitas deve então responder qualquer coisa como isto: - “Ó meu amigo, Kafkas há muitos. quer o das novelas ou o dos diários? E se quer que lhe diga, se é para levar para a praia, não se meta nisso que dá mau resultado. Leve antes o Ovídio, que o bucolismo campestre é mais eficaz a temperaturas superiores a trinta e cinco graus”. – “E como aplico?” – “Olhe, o amigo abre o livro a meio e pega-o com a mão direita, assim ó, e com a mão esquerda pega numa gaiola com um grilinho. E depois senta-se numa esplanada na praia e pede um copo de água e um pão torrado com doce de abóbora. Em cinco minutos está rodeado por dez suecas de óculos redondos, garantido”.

Deviamos até poder levar os nossos livros para assistência técnica. - “Ó amigo Freitas, a métrica deste madrigal está incorrecta, ora veja, dez, dez, dez… nove! Li isto à minha namorada e ela rompeu o contrato de namoro, por erro técnico! Eu que sempre fui aqui bem servido, e agora isto…”. - “Tem o meu amigo muita razão, e não é o primeiro a queixar-se. Mas o defeito é de origem e a fábrica diz que já acabou essa linha de produção. Mas se quiser, tenho um primo que lhe arranja isso, mete-lhe mais uma sílaba no verso e a coisa fica perfeita, deixe cá e passe daqui a uma semana”. - “Mas tem a certeza que fica bem?”. - “Ó meu amigo, nem de propósito, tenho aqui um Ovídio arranjado para entrega. Olhe para esta qualidade, posso batê-lo aqui no balcão que a métrica não se desmancha. Garanto-lhe que nunca mais sai”. Mas pronto, ó meus amigos, o mundo nunca é como nós queremos.

27/06/06

MANIFESTO CONTRA A EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA NAS ESCOLAS, por Dinis Maria

Não percebo, sinceramente e com o risco de provocar escândalo, a razão porque se aceita pacificamente a intenção que o Estado tem de, através da Escola, formar cidadãos. E não percebo pelas razões simples que passo a expôr:

a) Não conheço nenhum poder governante que estimule o exercício da crítica nos governados. Historicamente, os direitos individuais de cidadania foram obtidos por meios violentos pelo que fica bem concluir que a cidadania se conquista. Não se concede. Quando ouço o contrário, suspeito logo que há demagogia ou cinismo.

b) A formação cívica nas escolas supõe, obviamente, a excelência moral e cívica do professorado. Ora, o professor é um profissional, digamo-lo de uma vez, como outro qualquer. Isto é, cumpre uma função a troco de uma remuneração. Não se lhe pode exigir o que se não pede à generalidade dos cidadãos: a exemplaridade cívica. Quanto tal se ousa, é bom que se saiba que o máximo que se alcança é o fingimento.

c) Admitir a excelência cívica e o propósito missionário da classe docente só pode desmascarar uma das duas seguintes: ou o professor está reduzido ao ditame da hierarquia e obedece por temor ou o professor está movido por um propósito doutrinário contraditando assim a base filosófica que fundamenta a sua acção, isto é, o princípio da isenção e o respeito pela liberdade dos discentes.

d) O conceito de cidadania, por oposição ao de súbdito, exige um enquadramento num dado processo histórico-filosófico. O estudo da História, e nomeadamente da Contemporânea que tão secundada continua a ser, fornece essa possibilidade. Ora, quando se busca a formação cívica à custa do sacrifício do estudo da História, não apenas se compromete o propósito de formar civicamente como se expõe uma intenção doutrinária, uma vez que se pretende alcançar o que se não alcança sem o estudo e conhecimento do processo histórico.

e) Tenho para mim que o poder que tarda ou obsta ao reconhecimento de elementares direitos de cidadania carece de autoridade para promover o seu ensino. E exemplos podiam ser dados às dúzias.

Estou pois convencido que os direitos se cidadania se exercem depois de conquistados. E eles conquistam-se pela excelência no conhecimento. Ensinem às crianças e aos jovens a História e a Filosofia, a Matemática e a Biologia, a Literatura e a Química e o que mais calhe. No final, terão bons profissionais que, na defesa dos seus legítimos interesses e aspirações, serão suficientemente críticos para não serem súbditos passivos, suficientemente autónomos para decidirem imunes ao efeito das doutrinas e da propaganda o que, naturalmente, fará deles incómodos e participativos cidadãos.

Tostinhas À Cidadão Previdente Com Cereja A Cavalo, por Kzar

Depois do almoço, cumprindo uma breve e retemperadora sesta, o cidadão previdente deve começar a tratar da janta, para que tudo corra bem, sem indesejáveis e nefastos hiatos.

Enquanto aguarda inspiração e entretém a tropa convidada deve começar... pelo começo.

Umas tostinhas melba (as da afamada casa Buitonni são excelentes e duas caixitas resolvem o problema a contento), barradas com vulgaríssimo foi-gras ao poivre vert, encimadas por uma ou duas passas de uva e uma folhinha de hortelã; outras fazem-se cavalgar por uma colheradazita de ovas de salmão (da marca já referida em comment recente); outras ainda levam um pouquito de roquefort (societé, nada de relaxações) e uma cereja a cavalo; e enfim as últimas ficam mais fortalhuças com duas tirinhas de anchovas de conserva (anchovas do cantábrico, claro está) suavizadas com uma folhita de coentro.

Esta tralha toda some-se pelas enfardadeiras dos convivas mais depressa do que demora a escrever, na companhia de um cavazito da casa Segura Viudas.

Vem então o tempo de o anfitrião deixar a seita a ver o jogo e a mandar uns peidos, enquanto zarpa para a cozinha a cumprir obrigações mais sérias.

Quem é amigo, quem é?

23/06/06

Em Defesa de Saraiva e Contra os Novos Índices, por Torquemada

A evolução das sociedades contemporâneas no sentido da democracia e do progresso fez-se à custa de um dado fundamental: a massificação do conhecimento. O controle do conhecimento e dos seus meios de divulgação foi o mecanismo desesperado que os regimes absolutistas usaram, durante séculos, para se perpetuarem. Tornar limitado o conhecimento foi o principal alicerce da tirania. Com a revolução industrial, e depois com a revolução francesa, institui-se a ideia de progresso como motor das sociedades. A modernização é um imperativo político e o poder absoluto encara assim o seu dilema fatal: modernizar implica a promoção da sociedade do conhecimento e esta é incompatível com a tirania porque, simplesmente, não há conhecimento sem crítica e sem a afirmação da soberania do sujeito. Daí que os liberais oitocentistas declarassem a instrução pública e a imprensa como alicerces da liberdade, ao mesmo tempo que, com toda a razão, denunciavam a ignorância como a base do despotismo. Os regimes antidemocráticos, por isto, sempre promoveram a ignorância e caíram, inevitavelmente diga-se, porque a História os forçou a investirem no conhecimento e na promoção do saber. O regime salazarista, por exemplo, sentenciou-se quando Veiga Simão assumiu a pasta da Educação.

O Index inquisitorial e a censura fascista tornaram-se remotas memórias com a democracia para nós tardia. Aparentemente, só aparentemente. A verdade é que, actualmente, vemos que já não é o poder que depende da opinião pública, mas esta tornou-se algo de volátil, amorfo, manipulável e indefinido. Fragmentaram-se as multidões, já não se vê o poder das massas, nem há receio da rua. A rua está domesticada. Não há violência. Anatemizou-se a principal arma de conquista dos direitos cívicos: o protesto nas ruas, a violência urbana, o panfletarismo, o agit-prop, o cartaz, a pintura mural. A rua é um espaço asséptico e disciplinado.

E, no entanto, a restrição à liberdade e ao conhecimento persiste ou desenvolve-se sob novas formas. Perdoem-me o alongado intróito, mas perceberão como é necessário e ínfimo quando comparado com a indignação que hoje senti.

Hoje, fui à livraria Bertrand em busca de um ensaio de António José Saraiva, «Maio e a Crise da Civilização Burguesa», escrito em 1970 e agora republicado. Procurei naquela sucursal da Bertrand que é apresentada como a maior do país, no centro comercial Dolce Vita. Não encontrei e pedi ajuda. O senhor que me atendeu procurou e procurou no computador e nada. Perguntou-me se eu tinha a certeza do autor e do título. Confirmei os dados. Procurou e voltou a procurar e nada. Perguntou-me se eu sabia qual era a editora. Respondi-lhe que não sabia, mas aventei a possibilidade da Europa-América. Não era, é a Gradiva, mas isso é o que menos interessa. Nisto, o homenzinho, sim tornou-se um homenzinho, sorriu repentinamente e disse: «Nós não trabalhamos com a Europa-América!» Eu fiquei abismado. E insisti:

- Então … não há António José Saraiva…?

- Pois, nós cortámos relações com essa editora e agora não temos os livros deles!

Incrível. Tudo é incrível! A passividade e a alegria idiota com que o homenzinho me anunciava o que deveria ter vergonha de anunciar. Incrível a política da Bertrand. Inaceitável a decisão. Censória e atentatória a decisão de ostracizar as obras de Saraiva, um dos mais importantes intelectuais portugueses do século, só porque a livraria está de relações cortadas com a presumível editora! E ninguém diz nada? Não há regras? Isto é censura! Isto é pior do que as caricaturas dinamarquesas! Isto é restrição ao conhecimento e à livre circulação de ideias! Isto é um atentado à liberdade de expressão! É um novo índex promovido por razões comerciais, por amuos entre administradores. Que fazer, em face disto? Eu respondo-vos como respondi ao gerente da Bertrand que entretanto se abeirou:

- Felizmente há FNAC!

22/06/06

A Diferença Entre os Perfumes e os Leitões à Bairrada, por Pepe Le Phew

Os perfumes são um dos produtos mais estranhos da indústria da vaidade. O olfacto é um dos sentidos mais esquecidos no ser humano. Não é que os cheiros não sejam importantes (são-no e muito), mas, por razões que não importa agora adiantar, não temos uma cultura do olfacto e não o educamos, como fazemos, por exemplo, com a visão, o paladar ou a audição.

Uma vez, o Zebu aqui do Tapor, humilhou-nos a todos quando nos fez um teste aparentemente banal que era o de identificar, entre várias amostras, os correspondentes aromas vínicos de baunilha, banana, cacau, compota, couro e mais uns quantos. Tirando o Mister, um verdadeiro nariz de excepção nas provas de vinhos, nenhum de nós acertou em mais que dois perfumes. Sentimo-nos desolados, perdidos para sempre para a nobre prova dos vinhos… Mas no fundo percebemos que a nossa inaptidão é a norma e não a excepção.

É por isso que eu acho que os perfumes são, em grande medida, produtos de marketing, isto é, que os escolhemos muito mais em função da força e da imagem das marcas que estão por detrás deles do que por uma inclinação natural e subjectiva do nosso olfacto. Quando se trata de escolher entre um leitão e um queijo da serra, aí sim, podemos dizer que é o nosso gosto o elemento determinante. Mas quando se trata de um perfume – embora admitindo uma base natural, claro – creio que o que nos leva a decidir é muito mais a imagem associada ao produto, a força da marca, o logo, do que a nossa apetência natural para o aroma citrino em vez do floral.

Movido por esta convicção, comecei a pensar qual a imagem que as diferentes marcas de perfumes procuram associar aos seus produtos. O exercício é interessante. Cheguei à conclusão de que há estratégias muito diferentes. Há de tudo: marcas mais convencionais como a Burberry que vai ao ponto de ter um perfume com a designação de Baby Touch! Límpidas e vitalistas como a Armani com a utilização de um símbolo tão positivo como a água (Acqua), também utilizada pela queque Lacoste (Eau); marcas higienistas como a Bitoherm com os seus Anti Pollution ou Anti Desséchement; nacionalistas como a E. Zegna (o protótipo italiano) e, sobretudo, Tommy Hilfiger, símbolo do espírito americano, a piscar um olho à juventude (a própria designação de Tommy em vez de Tom, só por si, já remete para esses valores).

Mas depois notei que embora a maior parte dos perfumes se afirmem pelas suas imagens específicas vocacionadas para segmentos de mercado bem definidos, há uma espécie de valor transversal que a maior parte procura atingir. De um modo geral, pareceu-me, a associação entre o perfume e a sensualidade ou mesmo a sexualidade, a transgressão, o desvio, são comuns à maior parte das marcas e nalguns casos,constituem mesmo a sua imagem principal. Repare-se na lista:

A Calvin Klein é a que mais assume esta vertente transgressora e sexista. Deixando de lado as fotos (Kate Moss, Kate Moss) e os slogans da marca, basta repararmos apenas nas designações dos produtos CK: Contradiction, Obsession Escape, Euphoria.

Mesmo as marcas mais clássicas com a Yves-Saint Laurent (Ópium, Champagne, os estados alterados, a embriaguez) ou a intemporal Chanel não fogem à regra. O caso da Chanel é interessante: por um lado a marca cultivou, historicamente, designações mais ou menos neutras como nº 5, nº19, Cristalle ou, simplesmente, Coco, o nome da grande mentora da firma. Mas ao mesmo tempo foi obrigada a ultrapassar esta aparente neutralidade. Por isso associou o célebre nº 5 a Marylin Monroe e mais tarde a Catherine Deneuve, simultaneamente bombas sexuais e mulheres sofisticadas. Hoje o 5 ainda é um dos maiores sucessos da Chanel, mas o número já perdeu a sua neutralidade. Foi transfigurado pela sua associação a Marylin, principalmente a ela. A Chanel tentou transformar o 5 num símbolo do erotismo. Há quem diga que conseguiu, principalmente, aqueles gajos que não podem ver o nº 5 sem ficarem excitados ;-)

A lista de perfumes que associaram a sua imagem aos valores do erotismo e da transgressão é imensa e eu não parava mais: Dior - POISON , Eau Sauvage; Hugo Boss - BOSS WOMAN DEEP RED, DARK BLUE; Gaultier – Le Male (jogo fónico, o mal e o macho (Male); Lempicka - LOLITA LEMPICKA ; Escada – Magnetismo; etc, etc, etc.

De facto, a indústria da perfumes é um compêndio do erotismo humano. Resume todas as transgressões, fetiches, pulsões e obsessões da natureza erótica do homem. Apesar do seu carácter etéreo o mundo da indústria dos cheiros é muito mais pensado do que se possa imaginar à primeira. Nenhuma indústria age ao acaso. Muito menos uma tão importante como a indústria da vaidade.

21/06/06

Fónix, já tenho 11 mundiais!, por Lebo Lebo

Meço a minha vida em Mundiais de Futebol. Tenho, portanto, 10 mundiais de idade, 11 com este. Boé, mas mesmo assim mais suave que a minha idade medida em anos.

É verdade que não me lembro de todos. A minha existência consciente (Aufklarung) começou com o Mundial da Argentina, esse ganho pelo Kempes e pelos árbitros, contra a Holanda do Resenbrink. Antes desse, tenho uma vaga ideia do da Alemanha e da sua defesa com Maier; Vogts, Bekenbauer, Scharzenbeck e Breitner, por oposição à Holanda do Cruijjfj e do Neeskeens. Não tenho memórias do Mundial de 70, lembro-me de estar a jogar a bola na rua com os outros putos, enquanto o Pelé desgraçava a Itália na final.

Mas do Mundial da Argentina lembro-me bem e do seguinte, o Espanha 82, lembro-me de tudo. A minha memória é claramente dividida em a.A. e d.A. , antes e depois da Argentina. No Depois entusiasmei-me tanto com os Mundiais – principalmente com o fantástico Brasil de 82, a melhor equipa que alguma vez vi jogar – e com o do México- do-Maradona que comecei a pensar que não me chegava o tempo de vida para ver todos os Mundiais que gostaria de ver. Foi um drama existencial profundo do qual nunca mais recuperei! E foi a partir daí que comecei a contar a minha idade em Mundiais de Futebol.

Claro que a seguir tive imensas decepções, principalmente com o Mundial de Itália, ganho por uma Alemanha burocrática e, sobretudo, com o dos Estados Unidos, uma oportunidade perdida de lançar o futebol nos States. Foi uma coisa tenebrosa esse mundial... Foi ganho pelo Brasil treinado por este Parreira do actual. O Parreira é um traidor à memória do grande Telé Santana que não ganhou, mas que construiu a equipa de sonho do Zico, Sócrates e Falcão. O Parreira, actual treinador do Brasil, já está a meter o escrete a jogar à maneira da equipa do mundial da América. Até o ronaldinho parece um mangas de alpaca a jogar à bola. É triste. Deviam mudar a cor da camisola da equipa e em vez de «escrete canarinho» passavam a chamar-lhe «escrete cinzento». E gordo!

Em vez de anos e de meses que são coisas mais ou menos anónimas, devíamos medir a nossa vida pelas coisas boas que nela acontecem. Por exemplo: uma pessoa via o Ze Bé na rua e dizia «olha, lá vai o ze bé. Um gajo porreiro. E tá conservado. Não parece mas já tem 100 idas ao Tromba Rija e 2000 ao Manel Júlio. E uns 30 000 cohibas fumados, mais coisa menos coisa».

Imaginem que nos encontrávamos com aquela antiga namorada da adolescência. Pensem no diálogo: «Mas tás na mesma. Parece que ainda só tens 150 quecas (mesmo que o aspecto dela denuncie prá aí umas 15000).»

Normalizar a idade, reduzindo-a à escala neutra dos anos, meses, semanas, horas e minutos é que não. Tá mal! A escala subjectiva da medida do tempo permitiria até um acréscimo de informação. Já imaginaram como seria fisicamente o Acácio, rapaz prás suas 15 idas ao Vila Lisa, 20 namoradas, 3 garrafas de Barca velha e 5 Mundiais? Ou o antónio com 35 campos de golf, 7 dos quais estrangeiros, num total de 500 green fees, 10 pratos de trufas e 5 toneladas de marisco no buxo? Ou o Francisco 5 vezes nas Caraíbas, 200 linhas de coca e 300 rave partys?

Imaginamo-los mais facilmente do que se disséssemos simplesmente que uns têm 37 e os outros 42 ou 24 anos ou não é? É muito mais informativo, se contarmos a idade em coisas boas - uma pessoa imagina logo o Zé bé, por exemplo, tal e qual como ele é com uma barriga proeminente, ar bonacheirão e charuto a poluir o ambiente. Mas dizer de alguém que tem 25 anos? De que adianta? Afinal existem milhões de pessoas que têm 25 anos, mas apenas uns quantos exactamente com 3 casamentos, 11 mundiais de futebol, 20 euros e 16 jogos olímpicos.

20/06/06

Camarões Furiosos Grelhados Com Justiça, por Kzar

Uma vez na cozinha, o verdadeiro coração de um lar equilibrado, o cidadão abre o congelador e saca de lá uns poucos camarões Jumbo, de cerca de 300 gr. cada e em número idêntico ao dos alarves que estão na sala.

Passa-os por água, para remover algum gelo com o mau senso de se lhes ter pegado, e congelados como estão dá-lhes com a faca, a meio da lámina e começando pelo bico, em que a dita se apoia, fazendo um corte único que vai daí até à cauda, sem serrar, abrindo o artrópode marinho longitudinalmente, em duas rigorosas e simétricas metades.

Todas postas lado a lado em cima de um grelhador (eléctrico, grande e em potência média), assentes na casca e de carniça translucida para cima, são polvilhadas de sal grosso q.b. (muito) e deixa-se grelhar a bicheza até a carniça esbranquiçar, revelando com toda a evidência que ficaram grelhados com justiça. Alguma negritude da casca e um certo fumo são sinais de que a coisa corre bem e não acidentes a evitar.

Assim confeccionados, os crustáceos são dispostos pelo mesmo modo, mas agora em cima de adequada travessa e ligeiramente regados com o molho preparado de antemão:
vinho branco seco, duas ou três colheres de sopa; dois dentes de alho picado; uma pouquita de salsa picada; duas colheres de sopa de manteiga; pimenta branca a gosto (não muita); duas ou três rodelas de limão (sem espremer) - esta mixórdia é aquecida fazendo ferver a manteiga e o vinho, sem violências, até que o cheiro a vinho fique pouco mais intenso do que uma reminiscência de adega.

Serve-se para comer de imediato, sem contemplações pelas peripécias da bola, momentaneamente postergadas, que o raio dos animais custa uma nota furiosa.
Quanto a líquidos, tenho-me dado muito bem com o rosé da Quinta da Pellada, mais fresco do que aconselha o rótulo, e em equipa que ganha não se mexe...

Quem é amigo, quem é?

19/06/06

Queijo Pauleta, Pim, por Sumo de Vaca

No Sábado e pela enésima vez, alguém deu pelo Pauleta, a não ser pela ausência? Quantos de nós não torceram pela entrada do Nuno Gomes? E nada, nada dele e nada do Scolari que teima em manter o Lambreta. Que só marca depois de lhe abrirem a baliza cinco ou seis vezes por jogo. O Motoreta não joga um caracol, não domina a bola, não tem visão de jogo, não tem qualquer sentido de colocação. Bola passada pra ele, é bola pró Maneta. Parece uma ave pernalta que anda práli a correr atrás dos defesas? A correr atrás dos defesas? Mas é aquilo um avançado? E ainda há gente que vem com os golos do Trotineta! Mas há alminha alguma que não marcasse aqueles golos depois das enésimas oportunidades falhadas? Se o trambolho do Scolari tivesse dado o mesmo nº de oportunidades, jogos, minutos de jogo, insistência, re-insistência e tri-insistência num Nuno Gomes ou num Postiga, alguém acredita que não teríamos um nº de golos superior? Pode-se até questionar isso, mas era inquestionável que depois de tanto e tanto jogo em branco, o Nuno Gomes ou o Postiga já tinham ido pró jeta e dado à chineleta. Mas com o Anacoreta, nada, fica e refica!, Qual quê lá teremos até fim dos tempos a Fénix renascida do Passareta, que de jogo em jogo renasce em bicho coxo! Como o Scolari não vê ou não quer ver, a nossa única hipótese é a Independência dos Açores. Liberdade pró Perneta já!

16/06/06

Paula Rego, Goya E O Cabeça de Cenoura, por Couve Galega


O Poder sempre conviveu mal com a Arte. O Poder tem, como sempre teve, um desejo inato de se ver acalentado e reconhecido pela inteligentzia artística do tempo, lidando mal com a irreverência inerente à própria criação artística. A história é longa neste tipo de atritos entre quem pode, quer e manda e entre quem pensa, cria e eterniza.

Aliás, se despirmos a capa do poder a quem se vê retratado pela anarquia criadora, vêmos que o conflito entre uns e outros, é inerente à própria natureza humana. Já vi um pacato pai de família a armar um estrilho danado numa caricatura de rua, porque a verruga da beiça era para disfarçar e não para aumentar. Aqui no Porco e na Satânica, a entrega de Pissos pintados aqui pelo Vermeer ao vencedor da Prova Cega, já por mais de uma vez que ia terminando em bardoada porque a “liberdade criativa” reconhecida ao artista, só é muito bonita quando o artista cria sobre os outros. Quando o poder criativo desce sobre nós, a primeira vontade é de sacar da pistola.

Este intróito para quê? Para ir ao Goya, à Paula Rego e ao Jorge Sampaio. O nosso Cabeça de Cenoura (diga-se desde já e em abono da clareza que também é um dos meus ódios de estimação) entendeu que o seu retrato para a Galeria dos Presidentes de Belém, devia ser feito pela notável, reconhecida e imortal Paula Rego. Aspirava certamente a beber de alguma da imortalidade da artista, uma vez que a Presidência só por si não garante eternidade nenhuma, e a dele como se viu não foi famosa.

Mas, Sampaio devia ter espreitado Goya. Se o tivesse feito – pelo menos por aí -, veria que a arte nem sempre respeita o poder e que sempre que pode, afinfa-lhe. Mesmo pagando e bem, a criação é escorpião e morde na mão que lhe paga. E a Paula Rego resolveu ferrar o dente. O retrato que a Rego faz do Sampaio não é simpático. Como se poder ver da coisa, o que ressalta dali é um boneco apalhaçado. Pior do que faltar qualquer solenidade ou dignidade de estado ou da função, o que perpassa é a vontade de rir por um boneco apoucado e gozado, a que não falta um gozo à própria função com uma república de aula infantil de artesanato.

Sampaio dever ter torcido o nariz, mas com a criação e a imortalidade instituída não se brinca e engoliu em seco. Depois da obra feita e encomendada não é possível dizer à artista que não era bem aquilo que se tinha na cabeça e que vai para a cave. Tá feito, tá feito há que comer e engolir em seco, e não se fala mais nisso.

A família real de Espanha, com o retrato de Goya, teve que fazer o mesmo. No quadro “A família De Carlos IV”, de 1800-1801, a vaidade magestática não sai bem da pintura. Embora Goya não tivesse tomates para ir tão longe com a brincadeira infantilóide da Rego, vê-se que há um propósito claro de ridicularizar a família real. Dos olhinhos pequeninos às barrigas monumentais e ornadas de espalhafato medalhístico, das carinhas ridículas e fora de escala, às linhas aleatórias dos olhares, tudo ali aponta para o gozo do criador e não para a dignidade do poder perene que se quer imortalizar. Azar. Com aquele maltrato, quem se eterniza é a artista. O poder retratado quando muito será lembrado como palhaço, o que bem vistas as coisa até nem fica mal ao Sampaio.

E. H. Gombrich no seu livro “A História Da Arte”, refere a este propósito da retrataria real do Goya, o seguinte: “Não que aqueles mestres tivessem lisonjeado os poderosos (Ticiano e Velázquez), mas Goya parece não ter sabido o que era compaixão. As feições dos seus retratos revelam impiedosamente toda a sua fatuidade e ambição, toda a sua fealdade e vacuidade. Nenhum pintor da corte, antes ou depois de Goya, deixou semelhante registo dos seus clientes.”

A Irmã Wendy Beckett no seu “A História da Pintura” vai por aqui: “…mostra os retratados tal como eles são, fúteis e pomposos, (…) o retrato é impressionante, na crueldade da sua análise e na sua beleza. Os membros da família real são apresentados como se fossem um friso: pesados, de rosto soturno e satisfeitos consigo mesmos, apertados uns contra os outros, com pouca elegância e sem estilo. Estremecemos por eles, lamentamos o pobre rei estúpido e a rainha, rabugenta, e suspiramos pela grosseria impenetrável do herdeiro atarracado.”

Paula Rego na tradição de Goya. Lamentemos pois o pobre Lampadinha, estúpido, atarracado, fútil e pomposo. Estremecemos por ele.

14/06/06

Alva Noto + Ryuichi Sakamoto, por Xeko

Dizia o Público, quem gosta de novas experiências sonoras, não deve perder Ryuichi Sakamoto e Alva Noto (Carsten Nicolai). Eu, de facto, não perdi, pois fui à Casa da Música, assistir à apresentação de Insen (2005), a última obra que fizeram, depois de Vrioon (2003).

Vi imagens abstractas em interacção com notas de piano acústico, cujos sons intactos eram manipulados por computador, com naturalidade e subtileza.

Tratou-se, portanto, de um espectáculo com uma forte componente multimédia, com alinhamento entre as músicas e a representação gráfica de sons, feita em tempo real.

Em suma, minimalismo radical, que alia a música electrónica a um hipnotismo visual.

E foi esta beleza minimalista que encantou os ouvidos e os olhos de todos aqueles que, sensíveis a novas sonoridades, procuram reaprender a ouvir.

Segundo Ryuichi Sakamoto, há que derrubar os muros ou fronteiras entre géneros, categorias ou culturas. Há que tentar combinar coisas diferentes.

É o caso do video Trioon I, cujas imagens são um reflexo do som.

Insen é, por isso, a expressão artística de uma tensão criativa fascinante.

É, também, o que se espera de Revep (2006), que prolonga o contínuo intercâmbio musical e criativo entre Alva Noto e Ryuichi Sakamoto.

E foi com Ax Mr. L, última gravação incluída em Revep, que terminaram, recordando a obra notável de Nagisa Oshima, Merry Christmas Mr. Lawrence (1983), com David Bowie, Ryuichi Sakamoto e Takeshi Kitano, ainda que sem a voz de David Sylvian, em Forbidden Colours.

http://www.alvanoto.com/

http://www.ryuichi-sakamoto.com/

13/06/06

Rodovalho À Suicidário, por Kzar

Retomando o fio à meada, rudemente ensarilhada, estamos na aflitiva situação de o jogo andar pelo intervalo, não estar a correr lá muito bem e dos camarões já só sobrarem as cascas e cabeças ocas (haver malta que ainda tenha rosé para bebericar é sinal evidente que o camarão estava baril e os dentes trabalharam mais do que as beiças).

Nessa altura, enquanto a comandita prognostica o devir do desafio e os seus componentes mutuamente se congratulam por as patroas os andarem a encornar com os amantes que as aturem, se queixam desta vida de só trabalhar e de os pobres não quererem mas é fazer nenhum e ainda mamarem do rendimento mínimo, o verdadeiro artista volta à cozinha.

Aí, ó meus amigozes! Vamos dar ao Sr. Rodovalho o tratamento que justamente merece (e não poupamos esforços se se fizer representar pelo seu amigo pregado, pelo contrário).

Limpamo-lo prodigiosamente, expurgando-o de qualquer resto de escama, tripa ou qualquer cena que não seja carniça e pele, mantendo todavia as espinhas e a substância gelatinosa que lhe guarnece as dorsais e ventrais (um petisco dos césares).
Cortamo-lo em postas uniformes, sobre o compridotas e estreitas, e salgamos.
Mergulhamo-las em azeite, puro, vertido em tacho ou panela competente, na companhia de um dentito de alho com alguns furos e abundante zesto de lima e limão, picado grosso.

Pomos o lume em jeito de nunca levantar fervura mas manter-se bem quente, de tal sorte que com o correr dos minutos (longos) as queridas postas fiquem cozidas, sim cozidas, ó glória divina.

Puxam-se para fora essas piquenas, sem preocupação de as escorrer, empratam-se na companhia de boa batata cozida (tamanho miúdo) e côa-se algum do azeite de cozer para instrumento que depois permitirá regar com ele os tubérculos ainda fumegantes.
Não é regra universal a de que se não comam só as espinhas e a pele, e o deixo à consideração dos confrades escolherem, de entre a bem fornida garrafeira do chefe, o líquido branco (bom, em rigor, amarelado) que lubrificará melhor os aparelhos mastigantico/digerentes - tarefa de que podem desembaraçar-se enquanto a cocção do bicho se produz e com tempo de refrescar as botelhas necessárias.
Se sobrar peixe, suicido-me.

Quem é amigo, quem é?

12/06/06

Poesia Elementar, por Cão + Gato

Nada sei de agricultura, nada sei de meteorologia:
não sei trabalhar a terra, não sei trabalhar o céu.

Nem sei de pirotecnia, não sei trabalhar o fogo.
Mas sei, vá lá, de oceonografia: há dias em que meto água por tudo e por nada.

10/06/06

Os Meus, por Alcatraz

Tou farto! Já não os posso ouvir nem ver e parece que crescem como moscas em dias de calor. Toda a gente tem os seus ódios de estimação e eu também tenho os meus. É verdade que não me deixam indiferente mas é só por uma única e simples razão. São símbolos do Portugal medíocre e pacóvio em que vivemos, ainda por cima, símbolos com ares de superioridade. A personalidade individual deles não me interessa nada. Mas irrita-me que gente desta seja um sucesso. Não por eles, coitados, que sejam felizes, mas porque o seu sucesso é o indicador desesperante do estado a que Portugal chegou. Batemos no fundo – é isto que eu vejo quando um destes inanes aparece na TV, na rádio ou na revista da moda a ufanar-se da sua superioridade.

Há alguns que já nem ouço de todo, a maior parte em minha casa não fala: mudo logo de canal, zapo, viro a folha do jornal… Mas eles andam aí! Eu sei que sim. E são perigosos. Deixo-vos a lista de alguns dos meus, dos principais, que me lembre agora:

1 – É um ódio de estimação colectivo: a família Sampaio. O pai sampaio chegou a PR e tá tudo dito quando um indivíduo especializado em discursos redondos e distribuição de medalhas avulso, chega ao cargo do Mais-Alto-Magistrado-da-Nação. É a falta de qualidade em todo o seu esplendor ele, mai-la a família, a ex-primeira dama com o seu complexo de não ser uma gaja boa, o filho jovem velhinho que aos 14 anos já vestia como se tivesse 50 e que agora até já tem um cargo importante qualquer (viram?), e o Daniel Sampaio, sumidade em banalidades e barbaridades ditas com ar douto…

2- O santana. Disse que anda por aí, mas ninguém o vê. Também com as reformas que conseguiu á custa da política nem precisa de aparecer. Mas eu até acho que esse dinheiro é bem gasto, desde que não tenha que o aturar nos meus jornais e na minha TV. Eu pago.

3- Os pequeníssimos, valter lemos, distração da natureza e a zombie da ministra da educação, uma das pessoas cuja imagem melhor exprime a desolação do seu pensamento (?).

4 – O eduardo sá ou só, não sei bem, outro bacoco, especialista em inanidades ditas com um irritante tom de voz doutoral, como se os que ainda o ouvem fossem todos uns atrasadinhos coitadinhos, a quem tem que se explicar o bê a bá. Um desastre comunicativo, um dos que em minha casa não abre a boca.

5 – Uma maré negra colectiva de apresentadores de programas da tv de ar espertalhote e graçola fácil. Chamam-se júlia pinheiro teresa malato merche guilherme jorge romero gabriel mais umas serigaitas satélites cujos nomes não fixei.

6 – Os não existentes big brothers e os astrólogos e astrólogas. E os costureiros, actuais criadores principalmente em versão fátima não me lembro do apelido.

7 – Os comentadores desportivos residentes que já nem posso ouvir, mesmo que sejam do Benfica.

8 – O cómico do Valentim, só possível cá, o jorge nuno e os oliveirinhas. O polvo.

9 – O vaidoso do mourinho que qualquer dia cai de cima do ego e dá um trambolhão que nunca mais se endireita.

10 – O jorge coelho e o um antigo que já mal se vê, o Zé Magalhães, defensores do indefensável, espécie de taxistas intelectuais que alugam o cérebro ao kilómetro ao partido.

11 – O imortal nuno rogeiro que entre nós aqui no Porco já deu origem a um neologismo, o verbo rogeirar que significa botar faladura sobre tudo e mais alguma coisa mesmo daquilo que se ignora profundamente.

12- E, finalmente, o inenarrável sócrates, limite absoluto da pequenez travestida de arrogância e da vacuidade mental e um insulto ao filósofo homónimo. Mas a este não se consegue desligá-lo e é uma pena.

E os vossos quem são?

É Galo! por prof Galaró

Ontem, aqui pelo burgo conimbricense, choveu muito. Choveu bastante. Em cerca de meia hora, e após um trovão apocalíptico, o céu desabou em água. Em poucos minutos ficou tudo alagado.
A chuva causou estragos. Muitos estragos. Tectos que ruíram no centro comercial Dolce Vita inaugurado há poucos meses. É certo que a chuva foi muita, mas que diabo! No vizinho centro comercial Girassolum, também remodelado há poucos meses, rebentaram as condutas de escoamento de água e foi um alagamento total. Nas ruas, os escoadouros transbordaram e, no lugar onde antes houvera ribeiros e linhas de água, corriam agora as águas desenfreadas sobre os arruamentos construídos e asfaltados sobre as ribeiras entubadas. É muita galo!
Lembremos agora outrasperipécias da engenharia conimbricense:
- Nas obras do hospital pediátrico, reclamado há muito tempo como uma necessidade urgentíssima, encontraram-se linhas de água quando se escavavam as fundações,
- A enxurrada que arrastou e destruiu as esplanadas da zonda do Parque Pólis devido ao estreitamento inexplicável do leito do rio com as obras da nova ponte pedonal,
- As eternas e caríssimas obras de remodelação do convento de Santa-Clara-a-Velha que há anos e anos que se arrastam debatendo-se com os terrenos pantanosos e com o bombeamento de água que alaga o estaleiro das obras,
- Os diques das margens do Mondego que cederam aqui há uns anos causando prejuízos gravíssimos às gentes da Ereira,
- As correntes do rio Mondego que ameaçaram de ruína os alicerces da ponte da Portela obrigando a uma intervenção urgente para a construção de uma nova ponte,
- Como é que em Penacova, aqui perto, a ponte esteve mesmo encerrada,
- A dificuldade que os nossos engenheiros tiveram em fazer com os dois lances do tabuleiro da ponte Europa iniciados em cada uma das margens do rio se encontrassem ao meio conforme o projecto (e como é desejável em qualquer ponte normal), provocando gastos e atrasos que não foram imputados à responsabilidade de ninguém,

São muitos casos. Eu, que não acredito em coincidências, pergunto: é galo ? Ou são os nossos engenheiros que são mais engenheiros de sequeiro? Dão-se mal com a água, é? Ou a culpa é dos professores que faltavam às aulas de Matemática?

09/06/06

Passarinhos De Morfanço À Alarvona, por Kzar

Comprar no hiper duas ou três couvettes dessa bicheza - já vêm limpos, mas há sempre umas penitas ou uns restos de tripas, para tirar; pôr fora também os pescoços, que não valem pescoço; mandar-lhes uma naifada a cada um, a meio e ao comprido, pelos peitos, de modo a que fiquem espalmados tipo frangos para grelhar; botar sal e piri-piri (este, com muita moderação); deixar temperar; fritadeira, daquelas de ir ao lume, meia de óleo, a ferver; frigir os bichos; à medida que se tiram do lume, tostadinhos (importa ficarem estaladiços), não os escorrer. Muita atenção, este é o ponto mais importante: sacodem-se apenas na cesta da fritadeira, e rolam-se de imediato em tacinha cheia de ervas secas (ervas da Provença), de modo a que com a gordura da fritura fiquem tipo "panadas" nas ervas! Deixar arrefecer à temperatura ambiente, dentro do forno, disposta em travessa e sobre papel de cozinha (absorve algum excesso de gordura sem que caia a "capa" de ervas); morfar à alarvona, frias, com cerveja a rodos e a ver a bola!

Quem é amigo, quem é?

08/06/06

Mexilhões De Barba Rija, Esses Desconhecidos, por Kzar


Tomam-se alguns desses moluscos bivalves (2 kg para quatro convivas é porção assaz generosa), fresquíssimos e de bom tamanho, lavando-os em água fria corrente, raspando-lhes meticulosamente das cascas quantas pequenas cracas ou resíduos sólidos nelas haja e, especialmente, desprovendo-os de uma desagradável "barba" que possuem, vinda do interior da concha perto do vértice de junção das duas valvas e que servem para agarrar o bichinho à rocha e aos seus semelhantes. Nesta última operação, não sendo de rigor é ainda assim francamente aconselhável o emprego de uma tesoura com que se corte rente tal barba, desse modo se evitando a tentação de usar força que causasse dano aos animalejos.

Lavadinhos e sem pelos, estes nossos amigos deitam-se sem contemplações em panela de dimensão adequada, funda, na qual já ferventa água com dois ou três dedos de altura. Todavia, não chegam a tocar o líquido, disso os impedindo a providencial rede, grelha ou cesto que de ordinário equipa as panelas de pressão. Atrás deles, ansiosa, segue moderada manápula de sal, tendo o artista que usar do mais veemente autodomínio para guardar-se de dar de companhia quaisquer outros produtos. O azeite, os coentros, o alho, o vinho branco, a malagueta, a pimenta ou a inefável rodela de chouriço, tão do gosto lusitano, a trouxe-mouxe e às chapeladas, terão o seu lugar próprio apenas em outros ritos; aqui não se convidam.

Feito isto, é só esperar, lume vivo e panela tapada. Olhar não ajuda e por isso mantém-se o testo no sítio que lhe compete, deixando que saltite ao ritmo do vapor. Lá dentro, na promiscuidade intraespecífica de um espaço tão confinado, mas com transitória protecção da intimidade contra o humano e curioso olhar, os bichinhos, sob acção das sufocantes vaporações, abrem-se como botões de rosa: primeiro um, depois outro, logo muitos e enfim todos (ou quase, porque há sempre uns acanhados). Tudo é coisa de minutos, ansiosos, incertos, mas seguramente breves, sendo o excesso fatalmente deletério; a experiência, mestra da vida, ensinará a sentir o momento próprio, mais do que a conhecê-lo com exactidão.

Colhida então a cesta, viram-se em tumulto sobre a alfaia de servir, exilando-se para o caixote do lixo todos quantos se tenham feito púdicos. Apresentam-se à plateia desse modo singelo, já mais frescotes mas fumegantes ainda, havendo que atribuir a cada espectador uma competente e sumarenta metade de limão, que cada qual espremerá sobre a bicharada como aplausos, segundo o gosto próprio. Indispensável nesta representação é que o ponto fique a cargo de bebida à altura. Nada de grandes senhores, despropositados em peça tão modesta. O humilde mas eficaz Muralhas, convenientemente refrescado, não apresenta cadastro.

Quem é amigo, quem é?

07/06/06

Pornografia, de Witold Gombrowicz, Um Velho Muita Porco, por Coleccionador de Cromos

“A Pornografia” é um livro de Witold Gombrowicz, escritor polaco (1904-1969), feito em 1960 e cuja acção decorre em 1943 na Polónia sujeita à patoila nazi. Não é um livro sobre a guerra e os dramas da mesma, que apenas merecem umas curtas passagens. Pelo meio há uns episódios à volta da Resistência polaca e um curioso personagem que desistiu de chefe para ser só vivo, mas também isso é lateral ao cerne da coisa.

E que coisa. A história é curta e linear. Em plena Segunda Guerra Mundial, na Polónia rural, o porco Witold Gombrowicz, narrador e personagem, emparelha com um outro pérfido velho, manobrando astutamente dois adolescentes com a genitália aos saltos. Os dois velhos lúbricos, Witold e Frederico (personagem fascinante) saem da cidade e vão por convite para uma quinta. Aí, os dois porcos dão de caras com a bela Hénia e o apolo Karol, ambos de 16 anos. Qual deles o mais apetitoso. Embora prometida pelos pais a Alberto, Hénia destila sensualidade e derrete-se por Karol. Karol, como todos os adolescentes machos, tem os tomates aos saltos. Os velhos querem papar os dois, mas vêm que só lá chegam se os fizerem descer aos infernos, ao pecado e ao sentimento de culpa. Isto é, como abutres que são, sabem, que não conseguirão ferrar o dente em carne virgem mas somente em carniça conspurcada. Este é o início do livro. A partir daqui é impossível parar de ler.

Enquanto ao longe ribombam os canhões, a velhice canalha e ratazana, procura incendiar a volúpia infantil, num claro propósito de transgressão de regras e aproveitamento dos restos. É um livro de deliciosa malícia, de perfídia maquiavélica por parte dos dois sabujos, que fazem jogos de marionetas com a pulsão sexual dos teenagers inconscientes.

Gombrowicz é um mestre na criação de uma densidade psicológica muito forte, com uma perfeita construção de personagens que se movem num crescendo denso e coerente. Dois velhos a brincar ao Jardim das Delícias. Todo o romance e toda a trama roda à volta de uma pulsão sexual obsessiva de todas as personagens principais. A velhice rateira e calculista, manobra a juventude bela e impetuosa, numa lide de arena que prende de princípio ao fim. Pelo meio, há a guerra em curtas alusões, há religião, dilemas existenciais, crime e morte, mas isso são espinhos na rosa suja esculpida por Witold. Genial.

Mas atenção, que o livrinho não tem uma única cena ou descrição sexual, se por isso se entender a coisa dita cuja de esfregação e gozo. A Pornografia está no livro, mas sobretudo na cabeça dos velhos. Do que é dito adivinha-se o acto que nunca se vê. A Pornografia está na cabeça de cada um de nós. Como na de Witold, um porco sujo, um de nós!

O livro não é fácil de encontrar. Há uma edição da Relógio D`Água, de 186 páginas a 8,01€ que não está esgotada e que pode ser encomendada na Fnac (onde o obtive àquele preço), e deixo-vos com alguns excertos deliciosos, só para abrir o apetite:

“Na virtude estavam fechados para nós, estavam herméticos. Mas uma vez no pecado podiam espojar-se connosco…”

“Tento, disse a sorrir, chegar a algo parecido com estas crianças; pelo seu trabalho prometi-lhes uma prenda, pois é tarefa dura! Ah, a gente aborrece-se no campo por não fazer nada, é preciso deitar a mão a qualquer coisa, mais não seja por higiene, meu caro Witold, mais não seja por higiene!”

“Quer saber qual é o meu plano? Nenhum. Sigo as linhas de força, compreende? As linhas do desejo. Nesta altura estou empenhado em que ele os veja e eles saibam, também, que ele os viu. Haverá que ligá-los a uma culpa. O que a seguir sucederá, mais tarde se vai ver.”

“…e só participava na vida como cão escorraçado, cão sarnento. Na minha idade, havendo oportunidade de tocar na floração, de penetrar na juventude ainda que ao preço da depravação, parecendo-nos que a fealdade ainda pode ser utilizada e absorvida pela beleza, nessa altura… Uma tentação que varre todos os obstáculos, irresistível.”

“Eu sempre soube que isto me estaria destinado. Sou o Cristo esquartelado numa cruz de dezasseis anos. Salvé! No Gólgota nos havemos de voltar a encontrar. Salve!”

“E tudo isto – a morte, o nosso medo, o nosso horror, a nossa impotência – só para aquela mão jovem, jovem de mais, poder apanhar a miúda… Eu já mergulhava no acontecimento como se não fosse crime mas aventura maravilhosa dos seus corpos inexperientes e surdos. Volúpia!”

“…como que álcool puro; por conivência connosco, por nossa instigação e certa necessidade também de nos servir é que se expunham assim – e aproximavam com passos furtivos! – e preparavam para cometer semelhante crime! Era divino! Era incrível! Continha a mais fascinante beleza do mundo! Deitado na cama, eu exultava literalmente de alegria ao pensar que éramos, eu e o Frederico, a inspiração capaz de mover os dois pares de pernas…”


06/06/06

Cavalinhas De Puta Aberta, por Kzar

E por falar em cavalinhas marinadas:

Deixa lá o vinagre.

Escolhe cavalinhas pequenas; estripa, descabeça e remove a película; tira a espeinha pela barriga, ficando as putas abertas como bacalhaus; polvilha com flor de sal; finíssima e evanescente nuvem de pimenta para cima; alguma salsa, finamente picada, com que salpicar as ordinaronas; cruzar alguns fios de azeite (grosso, ácido, daquele esverdeado); enfim, espremer limão a gosto por cima das cabronas, como elas merecem; duas horitas de frigorífico, primeiro tapando com película plástica; servir quando os bordos dos filetes dessas putéfias estiverem esbranquiçados, sinal patognomónico de que o ácido do limão fez o seu serviço.

E depois diz-me lá se fizestes as suficientes para a seita que convidares.

Esta receita tem um condão: também vale para petingas, jaquinzinhos, biqueirão, anchovinha e basicamente para tudo quanto é peixinho miúdo, e até e especialmente com filetes de robalinho, fazendo-se variações entre salsa e coentros (a usar com parcimónia, senão fica tudo a saber só a isso) ou outras ervas - parecendo que não, a hortelã e os orégãos (frescos!) são de elevado potencial.

Quem é amigo, quem é?

05/06/06

Dia do Cão, por Sapo Parteiro Urbano

Eu não sabia. Julgo que a maioria dos governados também não sabia. Mas agora que vão vender os caixotes, ficou-se a saber. O governo Guterres comprou 12 caças a jacto F-16 aos americanos há cerca de 6 anos, por 250 milhões de euros, qualquer coisa como 50 milhões de contos. Desses 12 tiveram dinheiro para meter a voar 4 e os outros 8 ficaram encaixotados num hangar. E lá continuam. Agora este governo quer vender os 8 encaixotados. Ao contrário do que mentem, vão vendê-los ao desbarato, até porque os américas têm lá deste refugo ultrapassado para dar e vender. No meio disto tudo e das críticas que se levantam falta uma coisa fundamental. Já não digo um processo judicial por lesão dos interesses dos fundos do estado, mas ao menos uma comissãozita parlamentar que faça umas ondas e obrigue o animal guterriano a vir cá justificar a bondade da decisão de compra dos caixotes. É que porra são 50 milhões de contos e já nem vou a outros custos além da compra!

Depois, também fiquei a saber que nova auto-estrada gratuita entre Vila Nova de Gaia e Estarreja (bem boa para fugir à roubalheira da brisa na A-1) está há 5 anos parada e agora vai arrancar, para finalmente fazerem o último troço de ligação entre Estarreja e Aveiro. É bem visto. Só que agora e ao fim de 5 anos de paragem o Estado, isto é, nós, vamos ter que pagar à Lusoscut pelos 5 aninhos de paragem mais 50 milhões e contos de indemnização nos termos do contrato de concessão. E pergunta o incauto pagante: mas paragem por quê? Havia lá algum saramujo a proteger? Algum sapo parteiro urbano que só existia ali?

Estarrece-se e fica-se a saber que não. Há cerca de 5 anos o traçado estava definido e era para avançar. Pelo meio houve eleições autárquicas e um dos candidatos a Estarreja marrou com o traçado e o Durão e mailo Mendes entenderam ir lá apoiar “o traçado poente” e suspender tudo enquanto governantes. Agora são mais 50 milhões. Não sei nem quero saber qual foi o filho da puta de traçado que ganhou. Chateiam-me os 50 milhões e a falta de mais uma comissãozita parlamentar que obrigasse o Durão a vir cá falar da bondade do esbanjamento.

No meio disto tou mesmo a ver a conversita de café do Socras com o Mentes: Ó pá tu esqueces a minha que eu fico quedo com a tua! Tá-se, men.

Razão têm os deputados do PSD, isto só vai lá com a instauração e legislação do Dia Nacional do Cão. E do Cágado. Eu venho para a rua e assumo esse dia como meu.

03/06/06

Feriiaaaaddoooo!, por Robin

Há dias em que ando profundamente irritado, não com os jovens, mas com a geração velha e paranóica que manda neles e que os trata como meninos-copo-de-leite ou como débeis mentais.

Quando eu andava no saudoso Liceu Dona Maria gritávamos «feriiaaaddooo!!!» a plenos pulmões e curtíamos horas saborosas de faltas dos professores. As minhas melhores amizades - perduraram quase todas até hoje - foram feitas nesses ruidosos «Feeriiiaddoooos!». Sem os feriados estaríamos a definhar em mais uma aula entre tantas outras. Os feriados eram o nosso espaço e como eram saudavelmente excepcionais e não a regra, nunca nos prejudicaram. Pelo contrário: gosto de pensar que sem as faltas dos profs de então, eu não teria os amigos que ainda hoje tenho. Devo-lhes, aos meus profs do Dona Maria, ainda mais isso!

Mas hoje vejo putos de 16 anos sem tempo para brincarem, esmagados entre aulas de 90 infinitos minutos e mais explicações pós-laborais. E vejo um Ministério da Educação profundamente idiota como nunca vi tal, a querer generalizar o big brother das aulas de substituição aos alunos do secundário no próximo ano. Como se um jovem adulto de 16, 17 e mais anos fosse um indigente mental a quem é necessário controlar em cada minuto da sua vida. Pobres putos! Parecem-me tão tristes, tão assépticos, por vezes… Será culpa deles? Não é. Foi a actual geração que produziu essa distracção da natureza, o valter lemos, carago... E a macilenta ministra da educação... E, pior que tudo, o socras, ministro da propaganda dele próprio, ideólogo anti-ideológico e voluntarista sem conteúdo.

01/06/06

Praça da Alegria, por Cão

Gosto de aqui vir todas as manhãs. Em horas mais frias, já vi a lareira acesa, sendo convocado pela magia hipnótica do fogo. Há vários dias que a não acendem: o sol subiu à serra para exercer o seu egipto. Na televisão, ocorre o programa da manhã para reformados e poetas inúteis.

Esta hora diária faz-me bem. A outra vida recolhe as garras, por uma hora. Entro no limbo, lendo. Aqui entrei na memória da senhora Phyllis Bentley, na cabeça de Pedro Juan Gutiérrez, na bonomia de Mário de Carvalho. A inglesa, o cubano e o lusitano (Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, que belo título) gostam, livrescos e cavalheirescos, de aqui estar – num café par(a)do da serra. Faço-lhes companhia. O resultado é uma obra de melhoramento: da solidão inelutável de todo (mas todo) o ser humano, da asfixia respiratória (há outro tipo de asfixias) de todo (mas todo) o ser vivente.

Também há as putas das moscas. Zamboam rente às orelhas. Têm de ser sacudidas com um gesto cabrão, irritado, contra Deus. Lá para dentro, há sala de restaurante. Ainda lá não fui comer. Hei-de ir. Ele há mais dias – assim se espera.

Esta é a última manhã (última para sempre) deste Maio irrepetível. Amanhã é Junho, o mês claro. Há um livro, que nunca li mas hei-de, com um título muito bonito: Inventário de Junho. Escreveu-o Teixeira Gomes. Gosto tanto de livros como de títulos. Há autores muito secos no que respeita ao baptismo do que escrevem e dão a lume. Moravia e Kundera são exemplos: do primeiro, A Atenção, O Desprezo e A Romana; do segundo, A Imortalidade e A Ignorância. Por exemplo(s). Outros há que mostram garbo na titulação. Mia Couto (fraco, simpático escritor) inventou Cada Homem é uma Raça. Esteve bem. Luís Filipe Costa, esse gigante, romanceou Agora e na Hora da Vossa Morte e Borboleta na Gaiola. Cardoso Pires, o espertalhaço, ancorou o anjo.

O meu Pai, que não era escritor (nem se disfarçava disso) titulou filhos e netos a partir do seu nome seméninaugural: Carlos Daniel, José Daniel, Daniel, Carlos Daniel, José Daniel, Rui Daniel, Daniela, Sofia Daniel, Leonor Daniel. Outras famílias igualmente tentaram, a cada nascimento, a reedição do livro patronímico respectivo. Joões, Josés, Antónios; Marias, Teresas, Joanas.

Onde eu já vou. Interrompo, vou ao balcão, converso com a senhora (Maria) sobre Fé. Conto-lhe de uma coisa que ontem soube e escrevi ontem, em crónica, para O Eco: que há um chico-esperto em Cascais a ganhar cacau (depósito directo ou transferência bancária) pagando promessas por outros. O gajo (diz que) vai a pé a Fátima na vez de quem não pode. A senhora Maria ouve isto e depois desconcerta-me: “Eu tinha uma promessa a Nossa Senhora também, mas o meu marido não me deixa ir. Falei com o senhor padre e paguei para que alguém fosse por mim.” O sangue arenou-me as rosetas. Balbuciei: “Mas pronto, a senhora é um caso.”

Um caso. Disse-lhe que respeitava a fé dos outros, que os meus pais me não tinham criado na fé. Respeitar, no meu caso, é calar-me. Ela disse-me que aqui na freguesia “há muitos jeovás, mas pessoas de respeito que se não metem com ninguém”. Depois foi para a cozinha. Eu fiquei sozinho na sala de café. Sozinho à confiança.

O programa da manhã não é apresentado pelo Malato, o bem-disposto-profissional que também é “jeová”. É apresentado pelo Jorge Gabriel, o neto ideal das avós de Portugal. Estou sozinho na sala de café: as vezes que isto me tem sucedido. Na fronteira calendária Maio-Junho. A Praça da Alegria suspende-se para intervalo publicitário.

Tenho alguma cultura. Querem ver? Antigamente, este programa era apresentado por uma das minhas fixações: o Goucha. O Manuel Luís: a neta ideal das avós de Portugal. Lembro-me de o gajo assinar, há mais de vinte anos, uma crónica no entretanto extinto O Jornal. A crónica era gastronómica-restaurantina e chamava-se Em Banho-Manel. Eram textos bem escritos, lembro-me. O fulano é tudo menos burro. O “pobo” gostaria de que ele, Manel, se casasse com essa inenarrável distracção de Deus chamada Teresa Guilherme. Mas ele, népias. Está no direito dele. Eu faria o mesmo. Eu também preferiria ser, sei lá, entrefolhante, por assim dizer.

Para minha pura alegria, dá-se uma banda filarmónica no programa. Filmada na rua, interpreta uma marcha de concerto. Vou ver se me dizem de que filarmónica se trata.

Já disseram: Sociedade Recreativa e Musical Loriguense (de Loriga). A roliça fresquinha curricular previsível idêntica pepsodêntica democrática larclínica gerontófila loura apresentadora salienta que falta menos de um mês para a comemoração do centenário da Banda. Do melhorzinho que o “pobo” se lembra, é de manter as bandas filarmónicas. Digo eu, que sou suspeito neste amor por bombardinos, tubas, requintas, tarolas, sopranos, flautins, trombones, maestros, secretários e foguetes.

E quando vou a ver, é meio-dia: rima com alegria. O sol amareleja nas resistências cromáticas: o azul-azulejo do céu, o verde-cedro dos cedros, o branco urbano dos casais e a negrura domesticada do meu coração. Dizem que as cores são criações do cérebro. Que somos nós a pintar o mundo. Que cães e gatos vêem a preto-e-branco. E eu, que gosto de pintores e de pintura, fico sempre na antemão desse prodígio. Posso dar um exemplo: quando era infante, acontecia ser de bom-tom gostar de “azul”. Gostar, não: preferir. “Qual é a tua cor preferida?”, perguntavam às crianças quando, no meu tempo, toda a gente era criança. “Azúli”, respondiam as crianças todas. Eu também respondi isso. Mas era mentira. Era mentira, e eu sabia. A minha era a que é hoje e há-de ser sempre – a cor amarela. Negociei esta lucidez (e outras, e outras) comigo mesmo. Chegado a tardio adolescente (SG Gigante a 44 escudos, primeiras cervejas), refilei: “Amarelo. Gosto mais do amarelo.” Isto aconteceu em 1981.

Em 1981, comecei a sair à noite. O candeeiro público flashava o cedro privado do prédio. Era ao pé da curva. O meu prédio era amarelo e verde: uma coisa tão linda como uma omeleta de janelas. Fomos para lá viver em Junho de 1964. Não me lembro disso, mas algum dos daniéis anteriores se lembrará. Passam-se dezassete anos num fósforo, e começo a sair à noite. Sextas e sábados, Café Nelídia. Rapaziada e homenziaria, fumo e ruído, bilhar e pacman, cerveja e sextissábado.

Parece que nos estou a ver. Os jogos eram lá dentro. Passava-se pelas grades empilhadas no corredor cor-de-tijolo e húmido de canalização. O pacman era a cinco paus. Eu só gastava os cinco paus: foi o (único) jogo da minha vida, cheguei à nona chave (mais de 500 mil pontos). Dando uma porrada seca na ranhura, o cérebro electrónico tinha uma trombose benigna e dava três créditos. 3 x 500 mil igual a um milhão e meio de pontos. Eu era feliz, fazia o milhão e meio, o meu irmão estava vivo, o mundo parecia uma coisa arrumável, mesmo que não fosse sexta ou sábado. Lembro-me de rir. Eu já ri. E as essências perfumadas da língua portuguesa já me adentravam: o padre António Vieira e o Correia Garção de

O louro chá no bule fumegando

De mandarins e brâmanes cercado

Ruiva manteiga em alvo pão torrado (…)

Que coisa. Levanto a cabeça. A cabeça levanta-me. Meio-dia e 25: não voltarei aqui este Maio.

Caramulo, manhã de 31 de Maio de 2006