31/07/06

Camarão Do Sudeste Asiático, Mas À Lusitana, por Kzar

Conheceis o camarão tigre? Bom, chama-se com mais propriedade Pneus qualquer-coisa, e muitas casas comerciais têm o louvável senso de no-los disponibilizar em caixas, arrumadinhos como uma turma do Colégio Alemão, de bibes limpíssimos e bem engomados, em ordem irrepreensível. Custam pouco e devem escolher-se dos que tenham o comprimento do indicador do carrasco, pouco mais ou menos, e gordinhos.

Enregelados ainda, desliga-se a cabeça de cada um e despe-se-lhes o bibe a todos, sempre deixando a cauda e a parte da fatiota que lhe está adjacente. Aparar-lhes a cauda custa pouco e é um pormenor elegante, mas não indispensável, nada brigando com a degustação. Em todo o caso, importante é salgá-los sem misericórdia e soprar-lhes por riba uma quanta pimenta branca. Enquanto acabam de descongelar, cuida-se da demais encenação do espectáculo.

Sertã larga, de fundo raso, há-de ser o estaleiro. Rega-se com azeite em que nadarão algumas fatias finas de alho, na companhia de outras muitíssimo mais abundantes tiradas a uma raiz de gengibre - de maneira nenhuma se dará emprego ao gengibre seco e pulverizado de pacote. Frigindo tudo um pouquinho, até que as fatias de alhos amareleçam e mesmo quase tostem, nesse transe impedindo, com colher de pau providencial, que a trupe do gengibre pegue ao fundo ou queime.

Entram agora em cena os nossos amigos crustáceos, os quais de imediato começam a mudar de cor. Como não nos basta, largamos-lhes em cima duas colherinhas de café plenas de açafrão e volteamos tudo muito bem, supliciando-os um pouco mais. Chegará o momento de se tornar evidente que basta, ocasião azada para soltar sobre o conjunto, como confettis em baile de carnaval, nuvem abundante de zesto de lima e laranja, em tiras longas e finas. Tapado o estaleiro, para que tudo abafe um pouco e o zesto amoleça e vaporize os respectivos aromas, é afinal espremido mais um limão sobre a companhia.

Ensaiada com competência, a peça passa a representar-se aos olhos do público, agora em palco raso, de cerâmica. Os actores principais são cuidadosa e artisticamente dispostos em cena e logo regados com tudo o mais que os acompanhava no estaleiro, enfeitando-se ainda com umas poucas tiras de malagueta, a experimentar pelos mais corajosos ou ávidos de sensações fortes. Desta feita, reclama-se uma assistência ao palco de maior vulto e vai daí contratam-se os serviços de um artista da casa Taittinger, que por certo não claudicará.

Quem é amigo, quem é?

28/07/06

Uma Ideia para um Grande Negócio, por Taylormaker

Começo por dizer que este texto deve ser lido pelos administradores das empresas cervejeiras e de refrigerantes. Ofereço-lhes de mão-beijada um autêntico ovo de Colombo. À borla! Não vos peço nada em troca. Basta pôr em prática a minha genial ideia e vos garanto a decuplicação da facturação no prazo de um ano! É garantido. Meto a minha cabeça no cepo, ou qualquer outra parte da minha anatomia. Duvidam? Leiam até ao fim e verão. A minha ideia é tanto mais genial quanto não exige nenhuma alteração nas linhas de montagem, nos circuitos de distribuição ou nos processos de produção e fabrico. É apenas uma questão de imagem. A ideia ocorreu-me de repente. Assim como ao Arquimedes ou ao Newton. Nós somos assim, dados a relampejos súbitos. De que se trata afinal? Simples, muito simples. Comecei por reparar que a evolução verificada nas últimas décadas ao nível da mentalidade e da sexualidade tende para a afirmação de uma cultura hardcore assumida e descomplexada. Vi outro dia nos escaparates uma biografia de Jenna Jameson, numa excelente edição com bom papel, capa lustrosa e fotografias a cores. E sabem que mais? Achei natural! A edição não estava escondida atrás de uma banca numa papelaria sombria numa rua esconsa de um bairro de má reputação. Não, estava no escaparate da Bertrand. Em destaque. Vi depois a mesma obra na FNAC e na Almedina. Comecei então a prestar atenção a estes indícios que preanunciam uma mudança de atitude mental. Reparei em muitos outros livros. A Taschen, por exemplo, editou uma obra histórica que compila algumas das mais importantes capas das revistas porno das últimas décadas. Tudo explícito. Nos clubes vídeo e nas lojas de DVD os filmes porno aparecem às claras e com grande destaque. Bares de sexo ao vivo há em todo o lado, e não me refiro aos bares de strip. O Alexandre Frota é pouco menos do que um herói nacional, admirado por adolescentes e donas de casa. Pela TV, no horário mais nobre ou no mais insuspeito horário matinal, fala-se de sexo hardcore e mencionam-se os nomes dos filmes e actores. Os festivais do sexo fazem-se em todo o lado com promoções no telejornal, nas revistas femininas e são visitados por milhares e milhares de pessoas. O DVD do making-off do «Garganta Funda» é um sucesso. As sex-shops proliferam, doutores e engenheiros entram e comprem sem segredo os acessórios mais estranhos e bizarros. Dos videojogos e da internet nem vale a pena falar. A cultura porno-pop está aí já triunfante.

Ora foi aqui que eu me lembrei de uma enorme oportunidade de negócio. Cerveja porno! Voilá! Contrata-se uma estrela porno, uma Jenna Jameson seria o ideal mas, na impossibilidade, há milhares e milhares de estrelas consagradas ou a consagrar disponíveis para darem o corpo por este projecto. Depois, pegava-se na moça e levava-se para a linha de montagem. Aqui, a senhora teria que se empenhar. Cada garrafa passariapor um ou vários dos seguintes locais:

a) lábios vaginais,

b) pela depressão inter-mamária com ou sem contacto pelo mamilo,

c) pela região inter-nadegal,

d) o gargalo da garrafa seria abocanhado como se simulasse um fellatio

e) etc.

Depois, e após a edição de uma primeira série experimental limitada e destinada a testar o mercado, seriam imprimidos os rótulos. Em cada um dos rótulos atestar-se-ia a autenticidade do produto anunciado. Cada rótulo seria numerado e assinado pela senhora e por um elemento da direcção da empresa. Digamos um director de marketing ou pelo provedor do utente, por exemplo. No contra-rótulo colocar-se-ia até uma fotografia da senhora em plena acção laboral. Todo o processo poderia ser filmado, fazendo-se do facto boa publicidade, não apenas para garantir que não existiria publicidade enganosa como até se poderia comercializar o filme posteriormente. Conforme a reacção do mercado assim se definiriam os preços de cada variante e se poderia alargar a estratégia a outros mercados mais bizarros e até a outros nichos, integrando trabalhadoras em maior quantidade e diversidade. E, claro, a versão para mulheres e homossexuais com as garrafas a passarem nos colhões, ou com a carica a ser afagada, garantidamente, pelo prepúcio de um qualquer discípulo do John Holmes!

Quem sabe não será um dia possível, com a maior das naturalidades, um de vós, caros leitores, refastelado numa esplanada da Praça da República, responder ao solícito empregado quando ele vos interpelasse:

- Então, sotôr, o vai ser hoje?

- Olhe – responde o leitor - traga-me uns tremoços e uma Superbock Vaginal.

- Vaginal não temos, ó doutor, acabou-se há pouco.

- Traga-me uma intermamal então. Mas fresquinha…

- Isso acho que ainda há. Quer de quem?

- O que é que há?

- Ora, mamais… temos da Linda St. Croix, da Laureen Love e creio que ainda há qualquer coisa da April Flowers.

- Olhe, pode ser essa, a April Flowers. Se não houver traga-me uma com o gargalo chupado pela Jenna, é mais clássico..

- Certamente, ó doutor, é para já.

Será para já?

27/07/06

A Química e o Estudo Acompanhado, por Pentagrama

Fiquei ontem a saber que nos cursos de Ciências do 12º ano do ensino secundário, a disciplina de Química é opcional. Os alunos podem escolher entre Química, Biologia e mais umas quantas. Sublinho: nos cursos de ciências do ensino secundário!

Parece que muitas escolas já estão confrontadas com o inevitável: como a Química não é propriamente uma área fácil, os alunos optam por outras disciplinas e muitas escolas vão deixar e algumas já deixaram, pura e simplesmente, de ter a disciplina de Química nos seus currículos do 12ºano! Ao que chegámos: as escolas portugueses já não ensinam Química no 12º ano… Entretanto nas faculdades de Ciências é sabido que os universitários, cada vez mais, procuram explicações de Química, de forma a conseguirem concluir cadeiras exigentes que estilhaçam com os seus ténues conhecimentos liceais, baseados em opções conjunturais…

Podem dizer-me que isso tem a ver com os cursos para onde vão os alunos e não sei que mais. Mas para mim é um sintoma da podridão a que chegou o ensino em Portugal quando uma disciplina nuclear, como a Química, deixa de ter lugar, enquanto aumenta cada vez mais a carga horária e o carácter obrigatório de coisas como Estudo Acompanhado, Área de Projecto, T.I.C. ou as famigeradas Aulas de Substituição. Estas áreas têm um valor meramente instrumental e não um valor em si, ao contrário da Química, do Português, da Matemática ou da História, por exemplo. Mas a escola despreza cada vez mais o saber, para insistir em verdadeiros salamaleques didácticos. Nota-se aqui o peso dos lobies das Ciências da Educação que conduziram o ensino a este pântano: ensinar a aprender, só que à custa do sacrifício do que verdadeiramente interessa aprender! Formam-se especialistas que supostamente ensinam a aprender, só não têm nada para aprender nem para ensinar.

É disparatado que os alunos tenham uma disciplina de carácter obrigatório durante dois ou três anos (9º, 10º e 11º anos) para aprenderem a mexer em computadores (TIC); que percam tempo em aulas de substituição a aprenderem a fazer Projectos (deviam é ir namorar ou jogar à bola nos feriados); a aprender a fazer Projectos na área de Projecto, mas não saberem nada de nada para poderem projectar alguma coisa. E estudo Acompanhado? Não me lixem. Estudar acompanhado é uma contradição nos termos. O estudo sério não é acompanhado, é sozinho, a dar duro. Eu, pelo menos, sempre que estudei acompanhado foi com as garinas que tentei sacar, assim a modos que «queres ir estudar pra minha casa? Os meus pais foram passar o fim de semana a casa de uns tios…» E nunca estudei nada que se visse, nessas situações, como é óbvio.

Não nos iludamos: o país está preparado para competir com os outros – parece que só este argumento da competitividade convence os tecnocratas do governo - se a futura geração souber mais física, mais química, mais matemática, mais português, mais filosofia e não mais estudo acompanhado ou mais área de projecto…

Entretanto, as disciplinas verdadeiramente nucleares, aquelas que veiculam o verdadeiro saber, que criam o património cognitivo que nos compete deixar às próximas gerações, vão sendo sacrificadas, alegremente, à custa destas patetices. A Química é o que é, o Português está reduzido ao discurso administrativo e burocrático e desinteressou-se da literatura, a História não tem tempo (nem lectivo), a Filosofia está como a Química, é opcional no 12º ano de Letras, só a Matemática ainda resiste mas, pelo andar da carruagem, é a próxima opção a ser suplantada por uma eventual Engenharia do Quotidiano, ou coisa que a valha… Deve ser isto o tal choque tecnológico de que este governo tanto fala. E assim vamos, cantando e rindo.

26/07/06

Obrando em Obra de Arquitecto, por Kalatrava

Há dias na praia da Barra e estando eu espojado no colchão à volta do A Festa Do Chibo do Vargas Llosa, comecei a sentir um súbito aperto intestinal. Como podem já ver e arrepiar caminho esta posta não vai cheirar bem!, pois como dizia, em hora de serviço obrigatório, há que levantar o corpanzil e procurar por recato adequado à função.

Vestida a t-shirt e arrebanhadas umas moedas, dirigi-me aos cafés. Já no paredão, vi ao longe e lembrei-me das instalações de sanitários públicos à entrada da praia, coisa jeitosa e arejada a cheirar claramente a obra de arquitecto. Que se lixe, deve-se pagar e estar imundo, mas num há tempo pra bicas e explicações a jovenzarros de café.

Entrei no estaminé masculino, funcional, cheiroso e com uma funcionária a acabar mesmo de limpar a única sanita disponível. Fecho a porta, confirmo o estado de limpeza imaculada, verifico a abundância de papel higiénico, faço o desperdício habitual do mesmo para regalo do utente seguinte e abanco.

Chego a um impasse na narrativa do Chibo e começo a estranhar a imensa luz no cubículo. Só então reparei que toda a traseira e parede esquerda da retrete é feita em vidro martelado e que literalmente se vê tudo lá para fora!

Logo a poucos centímetros das vidraças um casal de gadelhudos abocanha-se enquanto vende pulseiras tropicais. A menos de um metro passa a multidão de ida e vinda da praia, e distingo na perfeição um par de mamas mais que jeitoso. Um puto passa logo ali com o pai e espeta as fuças ranhosas na vidraça a espreitar. Dei-lhe um chapo no nariz, mas pelos vistos o bandalhito nada sentiu.

Saí cá para fora e andei vinte vezes para trás e para diante da esquina envidraçada. A horda balnear passava e ninguém parecia reparar ou conseguir ver para além do vidro fosco e martelado. Eu via perfeitamente a t-shirt vermelha do cliente seguinte e as fuças esbugalhadas do animal coladas ao vidro. Olha mais um que descobriu que está a cagar em trono real exposto ao povo no meio da praça. Um autêntico pesadelo.

Ora foda-se, num dos momentos de maior aperto e indignidade humana, que exige esforço, concentração e privacidade, porque diabo temos de estar a sentir a brutalidade da exposição? Malditos arquitectos, será que não podiam aqui fazer uma casa de banho normal, fechada, escura, privada? Mas que raio dá a tal gente que têm sempre que inventar e subverter todos os conceitos básicos? Uma casa de banho num tem nada que saber, é pra obrar e nunca para fazer obra! Querem fazer obras-prima vão pró Louvre!

25/07/06

Gelado De Amoras À Escolari Bardamerda, por Kzar

Nesta altura, e como é óbvio, a porcaria do jogo acabou há muito, torna-se ainda mais evidente que o Escolari é um cabrão, vá bardamerda esse porco, e tudo quanto é homem a sério já desabotou pelo menos um prego das calças e já vai à varanda sem fingir pretexto nenhum...

Requerem-se medidas drásticas para sossegar os ânimos e afogar as mágoas.

Gelado de amoras, abundantes e esmagadas em natas, açúcar e claras em castelo, semeado de groselhas geladas e tudo a fingir que nada em fina camada de Porto (ruby) que reveste o pratinho, é modo seguro de manter a seita agarrada à mesa mais dez minutos, multiplicados para vinte se antes da distribuição de café, remy-martins à fartazana e charutos sortidos se pespegar à frente de cada alimária com um cálice de licor de poejo geladinho, a fazer dueto com o referido gelado de amoras - algumas almas apreciam após esse transe uma águita Castelo.

Quem é amigo, quem é?

23/07/06

O Cego, o Rapaz e o Cacho

Era uma vez um cego vagabundo, miserável e desonesto. Fazia-se acompanhar nas suas andanças por um miúdo órfão e abandonado. Passavam muita fome e viviam da esmola e do roubo. Certo dia, avistando uma vinha que exibia uns belos cachos, o rapaz pediu autorização ao cego para saltar a vedação e roubar ao menos um que lhes adoçasse a boca e disfarçasse a fome. Que sim, lhe respondeu o cego, advertindo-o que se precavesse, mirando bem ao redor se alguém os observava. Pois que, naqueles tempos, por mais ínfimo que fosse o valor do roubo, duro seria o castigo e tanto mais duro quanto mais miserável fosse a condição do gatuno. O rapaz, experimentado já nas artes da sobrevivência - o roubo e a mendicidade - saltou o muro e regressou trazendo um belo cacho de uvas. Logo ali se acocoraram, à berma do caminho, acordando o melhor e mais justo método de bem dividirem o saque miserável. O cego, desconfiado, logo propôs que comessem à vez, debicando, ora um ora outro, com a pinça dos dedos um bago de cada vez. E só um bago de cada vez. O órfão, reverente, acedeu e inaugurou o repasto com o primeiro lance. Comoveu-se com o açúcar do fruto e gemeu de prazer. Seguiu-se o cego que, embora mais contido, logo sentenciou ser aquele o mais doce fruto que alguma vez provara e não o dizia impelido pela fome. O Sol feito açúcar deliciava assim a boca dos pobres. Logo se seguiu, naturalmente, a tentação. Como no Éden primordial, o cego decidiu, disfarçadamente, entalar na polpa dos dedos, não um, mais dois bagos de cada vez, violando assim o trato que o próprio antes declarara. Depois, sem disfarçar, foi debicando os bagos ao ritmo do desejo e não do acordo, colhendo aos dois e três em cada lance. Assim decorreu, por entre um silêncio comprometido e deliciado, até que, de súbito o cego ergueu o cajado e violentamente o desferiu na nuca do desprevenido mancebo. Abriu-lhe desta forma um lanho tão grande e fundo que logo brotou um jorro de sangue que lhe tingiu a cara. O sabor do sangue dissolveu o açúcar das uvas e misturou-se com o sal das lágrimas e a fúria da vingança. O rapaz, digerida a surpresa e submetida à raiva justiceira, com as mãos sujas de sangue, suor e açúcar, atirou-se ao seu pobre amo como um mastim insubmisso e perguntou-lhe:
- Que fazeis, pobre de Cristo? Por que me batestes?
O cego esboçou um sorriso e, sem perder a calma, o acusou de não haver cumprido o trato combinado de só comerem um bago de cada vez e alternadamente.
- Mas, se fosteis vós quem começou por desonrar a palavra....
E o cego lhe explicou que o silêncio do rapaz quando viu que o acordo fora desonrado denunciava que já antes ele próprio o desonrara também e por isso se conjugaram ambos na desonra com a agravante de o rapaz se aproveitar da cegueira alheia e desrespeitar a idade do cego, bem como a sua condição de amo. Ou então, se o cego fora o primeiro a desrespeitar o trato, o rapaz deveria, em nome da verdade que é a primeira de todas as virtudes e à qual devemos a primeira de todas as obediências, mais que ao próprio senhorio, ter denunciado o incumprimento. Não o fazendo, consentiu na impostura para aí fundar a sua impostura maior, assim tirando proveito da cegueira do seu oponente. Por uma ou por outra, bem merecido era o lanho que o cajado lhe provocara na nuca.
O rapaz concordou com a lição do mestre, largou-lhe a capa andrajosa que agrarrava entre dedos, aprumou-se e seguiram caminho. O rapaz à frente, pensativo, e o velho cego atrás, debicando o que restava do cacho.

Recontado a partir de um episódio de A Arte de Furtar (séc. XVII), de Manuel da Costa

21/07/06

Rua!, por Porco a Andar de Bicicleta

No tempo do cro-magno político Pedro Santana Lopes, não sei se estão recordados, os media portugueses fizeram um alarido maior que o big bang a propósito de um erro da equipa do ministério da educação do governo da altura. O erro meramente instrumental, embora grave, consistiu nos famigerados erros nos concursos de colocação de professores. A tempestade foi de tal modo que redundou na demisssão da ministra da educação da altura. Todos achámos muito bem.

Então que dizer agora perante a verdadeira atrocidade que é a decisão da actual ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, em mandar repetir os exames de fisíca e de química? A outra ministra foi-se embora por muito menos, incomparavelmente menos…
De facto, o caso actual da repetição dos exames de fisíca e de química é incrível, é a verdadeira expressão do estado lamentável a que chegou o ministério da educação do governo de Portugal! Esta decisão já foi classificada por pais, por todos os partidos políticos representados no parlamento (à excepção do inenarrável ps), por professores e alunos, em suma, por todos menos o governo e os seus funcionários partidários como, cito, «incompetência», «autismo», «arrogância», «irresponsabilidade» e «displicência».

Não há muito a argumentar a favor do governo de Sócrates – caladinho, muito caladinho... - , tal o surrealismo da medida! É tudo mau:
Os fundamentos da decisão, abstractos, vazios de conteúdo e inconsistentes. Nunca se percebeu claramente porque se repetiam os exames. Disse-se que as provas estavam erradas, mas ainda agora no Parlamento a Ministra garante que não e «que tudo correu bem nos exames»! E como correu tudo bem, tá a repetir!, conclui, e sou eu que fico baralhado no raciocínio… Então corre tudo bem e repete-se tudo, arranja-se esta salganhada e gaste-se um fortuna em tempo de austeridade na repetição de exames que correram bem? Tá tudo maluco ou sou eu?

O decreto fantástico da repetição dos exames alega que a média de Física e de Química foi muito baixa. Mas há outros exames de disciplinas com médias igualmente baixas – matemática, por exemplo, no 12º ano ainda foi pior – e não são repetidos. Porquê? É uma questão de lobies? E porque não repetir história ou português, cujos resultados também não foram brilhantes? E como é que o governo decide qual o patamar a partir do qual se justifica a repetição de exames? É 6,9? Ou 8,2? Porque não 6,8? Ou mesmo 12,4 que em certas disciplinas se poderá considerar um péssimo resultado? Terá a equipa de especialistas em eduquês do ministério chegado a alguma conclusão científica baseada no estudo do processo de ensino-aprendizagem que determinou o 6,9 de física como patamar cientificamente intolerável? Mistério… A arbitrariedade da decisão é evidente – isto é completamente estapafúrdio e arbitrário.

A outra razão, mais ou menos enigmática, totalmente arbitrária e absolutamente abstracta do decreto alega que, eu nem sei formular aquilo muito bem, perdoe-se-me a inépcia mas o eduquês metafísico não é o meu forte, alega que, dizia, os conteúdos do programa são novos e os alunos ainda não tiveram tempo de adaptar-se aos métodos, à matéria e aos novos processos de avaliação. Como é? Os alunos é que não tiveram tempo para se adaptarem ao novo programa? Tiveram um ano lectivo, o mesmíssimo ano lectivo que teve qualquer outro aluno de qualquer outra disciplina anual. Se alguém, eventualmente, não teve esse tempo, foram os professores, mas que eu saiba não foram eles a queixarem-se. Agora para um aluno o tempo de adaptação a um programa novo é exactamente o mesmo que a um programa velho. O argumento não faz, pois, qualquer sentido e além disso os craques do ministério tiveram mais que tempo para detectar e corrigir este alegado problema, e, pelos vistos, não o fizeram.

Em função destes debilíssimos e disparatados fundamentos, decidiu a sra ministra Rodrigues que a melhor decisão era repetir. É incrível, nem se acredita! É claro que hoje no Parlamento a ministra levou uma sova de toda a oposição da esquerda à direita sem excepção, de meter dó! A sra engasgou-se, titubeou, balbuciou, esperou desesperada o 7º de cavalaria que não chegou. Foi constrangedor e ainda conseguiu piorar mais a situação porque, à boa maneira deste governo, foi arrogante – numa estranha versão tímida, assim a modos que eu é que mando mas dito muito baixinho – foi insegura, e saiu-se com mais umas pérolas.

Como aquela de dizer «Não leio nem corrijo exames. Essa não é a função de uma ministra. Nem era possível ver mais de 50 provas». Pois, mas a decisão de escolher as equipas que os fazem é sua e é sua a responsabilidade quando as coisas correm mal. A sua antecessora demitiu-se por falhas informáticas num concurso de professores, já não há quem se lembre? A responsabilidade técnica de quem fez os exames deve ser pedida, mas é preciso ir mais além, até à responsabilidade política de quem os escolheu.

O caso é gravíssimo e a ministra parece não ter aprendido nada. Por causa dela há alunos beneficiados pois ficaram com a possibilidade de realizar duas chamadas enquanto outros, que escolheram realizar apenas a segunda quando as regras do jogo eram outras, apenas farão uma. Há alunos que entrariam nos seus cursos de sonho com os resultados anteriores e que agora serão ultrapassados por outros pior classificados.

Há mais uns quantos milhares que deverão estar indignados porque apenas aos de física e de química é dada a possibilidade de repetição, mas não em outras disciplinas em que também existem alunos com maus resultados. Agora, como é óbvio já se está a organizar um movimento de pais a nível nacional – a começar no norte – que ameaça impugnar toda esta trapalhada.

Por mim considero toda esta sequência de decisões uma das maiores barbaridades da história da educação em Portugal de que há memória. Depois disto a ministra e a sua espantosa equipa não se vão demitir. É certo. Nem sequer foram capazes de prometer a devida sanção nos rteponsáveis mas directos por tudo isto. Aliás nem admitiram que algo correu mal! Os burocratas ministeriais que são tão exigentes com os outros, eles que constantemente apontam os professores como os culpados do estado lastimoso da educação, não vão poder agora culpá-los da sua própria inépcia. Nem ao menos foram capazes de assumir que as coisas correram mal e de apresentarem um pedido de desculpas aos lesados. Claro, isso era assinar a óbvia demissão.

É nestas alturas que eu me lembro do falecido Vítor Correia ex-árbitro e ex-poeta, digo eu, que afirmou um dia o célebre dito:
«Ó meu amigo, eu desde que vi um porco a andar de bicicleta no circo, já não me admiro de nada neste país». Mal fazia ideia de que a capacidade que este pobre país tem de nos surpreender é, pelos vistos, infinita!

19/07/06

The best of Porco presents:

Entrevista ao Senhor Administrador do Porco, por Tinoni

Continuando na senda das entrevistas, é agora a vez de transcrevermos a entrevista que fez Durão Barroso ao Senhor Administrador do Tapornumporco, para o próximo Magazine de Domingo do Diário da República. Ao Senhor Adérito, revisor e nosso delegado na Imprensa Nacional Casa da Moeda, os nossos agradecimentos.


- Bom dia, antes de mais, Senhor Administrador. Gostava que começasse por explicar aos leitores o que é o tapornumporco.

- Ora bem, o tapor é, acima de tudo, um projecto de tomada de poder universal. Neste momento já é nossa uma mesa do Ranhoso. Contamos ocupar no prazo de um ano duas mesas do Ranhoso. É um projecto a médio prazo.

- O que é que diria para convencer as pessoas a visitarem o tapor?

- Eu, se me permite, diria que muito pior que visitar o tapor, é levar com um bloco de mármore de Estremoz com duas toneladas na cabeça. E quem é que quer isso, não é verdade? Por isso, é de toda a conveniência que as pessoas comecem urgentemente a visitar o tapor.

- E o que é que os porcos fazem quando não estão no blog? Como é o dia a dia, em suma, de um porco?

- Quando não estão no blog, os porcos jogam golfe. O senhor sabia que jogar golfe é melhor que copular?

- Não, Senhor Administrador.

- Pois é o que eu lhe digo. É melhor que copular e dá uma forte e prolongada erecção. Aliás, vamos lançar uma revista só para adultos chamada Playgolf e uma rede de golfshops com cabines individuais com curtas metragens das melhores jogadas de golf, com privacidade garantida e toalhas de papel.

- Quantos visitantes já teve o tapornumporco?

- Já vamos em cerca de dez mil visitantes. Mas desconfio que a contagem está errada, porque cada um de nós, porcos, visita o tapor vinte mil vezes por dia. Eu próprio inventei uma máquina de visitar o tapor. Quando estou a dormir deixo-a ligada e só ela é capaz de fazer numa noite duzentas mil visitas ao tapor.

- Mas isso não é falsear os resultados?

- Não.

- Eu peço desculpa, mas parece-me que sim.

- Pois se insiste nisso, vou buscar um porco com formação em semiótica e retórica pós-moderna, que lhe pode explicar por a mais b que isso não é verdade. Também lhe podemos bater na cabeça com um pau com bicos até o convencer, se preferir. Aconselho esta última versão.

- E projectos para o futuro?

- No futuro pretendemos descobrir quem é a Joana.

- Mas que Joana, Senhor Administrador?

- Acabei de lhe dizer que não sabemos.

- Quer deixar aqui alguma mensagem para os leitores?

- Não. Eu queria é mandar o vice e o grão para o caralho. E o mangas e o nini e o tinó e o cão e espero não me ter esquecido de ninguém.

- Mas porquê, Senhor Administrador?

- Não sei, já não me lembro. Enfim, acho que é uma coisa que dá nos porcos, como a febre aftosa. E você também pode ir. E o Adérito, já me esquecia. E o Julinho, não se esqueça de apontar.

- E pronto, terminamos aqui a nossa entrevista. Muito obrigado, senhor Administrador.

- De quê? Tafoder! Tapornumporco! O que um gajo tem de aturar!

- Então boa tarde.

- Boa tarde e obrigado

18/07/06

Mãos Ao Ar! Isto É Um Assalto!, por Al Capão

“Mãos Ao Ar! Isto É Um Assalto!”. Este é o cliché habitual de qualquer filme de bandidos que se preze. E isto, porque os ladrões são educados. Não é que sejam especialmente formados, mas são obrigados a informar o utente da manobra que está em curso. O “mãos ao ar” é informação e educação. É o mínimo de cortesia exigível a quem se prepara para nos ir à carteira. Informação prévia e educação.

E era isto que o Estado devia dizer aos seus utentes. A par com o cartãozito com o nome, o Estado devia passar a exigir que todos os seus agentes tivessem afixado ao peito uma placa ou cartolina, com os dizeres de aviso: Mãos Ao Ar! Isto É Um Assalto!

Assim não se enganava ninguém e toda a gente sabia com o que contava sempre que é obrigada a dirigir-se a uma repartição de finanças, a uma conservatória, a uma câmara ou a um tribunal. Ou sempre que é mandado parar pela BT. O GNérrezinho, o Conservador, a funcionária camarária e o próprio Juiz, deviam ter todos ser obrigados a ter afixada ao peito a cartolina de aviso ao povo.

Assim o povo, devidamente avisado, logo que visse a mão levantada a mandar parar, logo que sentisse o carimbo a ferrar o papelucho ou ouvisse bater o martelo a sentenciar, já sabia, já ficava a contar. Ia ser ou foi assaltado. Acautela-se, obedece, não resmunga e esportula a bagalhoça. Sendo um assalto, o cidadão comum, leva aquilo à conta das inevitáveis fatalidades da vida e amocha, sem prazer, mas conformado. Olha faz de conta que fui atropelado. Parti um braço mas estou vivo e é isso que interessa.

Agora na forma como as coisas estão, é que não, porra! Somos todos espoliados onde quer que se ponha o pé, o braço ou até onde se poisa o olhar. Em cada esquina há um cobrador, um fiscal, um inspector, um funcionáriozito de formulário e carimbo, sendo que o formulário custa 10, o carimbo, 20, a reclamação 50 e a impugnação 500. Olhe e bote cá mais 1000 que agora temos que registar isto tudo. E pra registar volte ali aquela secção pró formulário de 20…

O Estado Português actual é um gatuno de beira de estrada, que pior do que violar a lei, faz a lei! Foda-se fui assaltado outra vez! Ladroeira do catano! É a vida!

17/07/06

O Código Balnear, por Maré Viva

- ó pai, olha aí um senhor!
- deixa estar o senhor e não o incomodes.
- é que ele está aí há que tempos a dizer boa tarde!
- boa tarde? Mau maria, só me faltava agora aturar vendedores no mar, pensei de imediato, enquanto fazia um esforço para abrir a pestana à luz intensa e tirar a mona da minha metade do colchão de ar, que dividia com a pimpolha nas ondas da Barra.

- sim, boa tarde, diga…, - ao meu lado um banheirito de meia leca e de bóia-chouriço à lá marés vivas, repetia o boa tarde,
- boa tarde, olhe se faz favor, o senhor sabe nadar?
- sei sim senhora…,
- e a miúda?
- ainda melhor do que eu, porquê?
- é que o senhor anda aqui com o colchão.
- você é um verdadeiro olho vivo e o qué que tem o colchão, - digo agarrado ao mesmo de pé e com água pelos tomates.
- é que com o seu exemplo vêm já para aqui dezenas de criancinhas de colchão!
- ó migo, pra já só sou pai duma e chamar criancinha a isto é estar a pedir chatices e as hordas que vejo é da maralha que se ajunta pra ver o show que está a dar, desampare-me a loja que eu dispenso os meus 15 minutos, tá bem?

- como? Mas é que não pode estar aqui com o colchão!
- Não posso porquê? O mar está calmo, bandeira verde, sei nadar, estou com água pela cintura e num posso porque podem vir hordas de baleias que se afogam desamparadas?
- não pode porque é proibido?
- ondé que diz que é proibido?
- na lei?
- na lei? Qual lei?
- qual lei como?
- ó migo, qual lei? A lei que é?, nº, artigo, alínea, data!
- ah, isso agora de cabeça…,
- pois, mas se num sabe a lei…, a menos que seja no Código Balnear!
- ah, pois, é nesse mesmo!
- nah, num deve ser no Código Balnear!
- porquê?
- porque esse, acabei eu de o inventar agora mesmo e ainda num vem lá nada previsto sobre colchões!

- mas há uma lei e eu posso multá-lo!
- você? E cadê o caderninho para me identificar e com que autoridade?
- posso telefonar para a capitania.
- pois pode, mas tem que lhes dizer para trazerem o Código Balnear com o artigo dos colchões, sem isso, tamos na mesma, e isso é coisa pra demorar um bocadito…, olhe deixe-se estar sossegado, vá-se embora para desamparar a chusma que prali vai que eu dentro de uns minutos já me vou embora, ok?
- ok.

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15/07/06

Abra-se!, por Sancho Lupa

A Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, cancelou há dias, em cima da hora, a abertura do túmulo de D. Afonso Henriques. A antropóloga da Universidade de Coimbra, Eugénia Cunha, propusera-se descobrir as ossadas, liderando uma vasta equipa internacional e multidisciplinar. Cumpriu todas as formalidades e autorizações legais: da Universidade, do IPPAR e da Diocese, o que é muito significativo, direi já porquê. Quando a antropóloga se aprestava para destapar a arca funerária (segundo alguns, a urna terá sido mesmo deslocada), eis que chega a ordem de cancelamento emitida pela ministra. Refeitos da surpresa, acatada a ordem, veio a saber-se que a titular do Ministério da Cultura não foi pessoalmente consultada, pelo que, sentindo-se ultrapassada, terá ordenado a suspensão. Os prejuízos foram enormes, pois que aparelhagem sofisticadíssima estava já requisitada. Além disso, uma nova calendarização do projecto afigura-se difícil e dispendiosa, dado o facto de a equipa científica reunir membros de diversas instituições universitárias. Compatibilizar disponibilidades não será fácil. A ministra, porém, entendeu que o facto de não haver dado autorização expressa é motivo suficiente para tanto transtorno. Eu acho que não, acho que a ministra não tem razão. Não discuto a necessidade de autorização governamental. Parece que noutros países onde projectos semelhantes têm sido desenvolvidos, como em Espanha por exemplo e em relação às ossadas de Colombo, tal não é exigido. Acho até que a razão assiste à Ministra quando se declara surpreendida. A culpa, contudo, é do IPPAR e dos seus dirigentes. A antropóloga remeteu o processo e os requerimentos formais à sede própria: o IPPAR. Obteve aprovação científica pelos órgãos da Universidade e anuência simbólica das autoridades religiosas. Competia aos dirigentes do IPPAR cumprirem os trâmites hierárquicos e submeter o processo ao Ministério da Cultura. Não o fazendo, incorrem em falta e justificam procedimento disciplinar. A Ministra deve iniciá-lo. Desconfio que o não fará. Depois, a Ministra deveria analisar o pedido de autorização com carácetr de urgência e só cancelaria os trabalhos se existisse matéria grave ou suspeita de danos irreparáveis. Não sendo o caso, como não era, nada justifica a decisão tomada.
No meio desta baralhada, e além do prejuízo causado a quem foi cumpridor, ainda se colocou em causa foi a pertinência científica do projecto. Apesar do prestígio dos nomes envolvidos, apesar do enquadramento institucional, apesar dos pareceres de autoridades eminentíssimas como o prof. José Mattoso que atesta a validade do projecto, há quem ache desprezíveis os intentos. Há quem diga que é irrelevante saber a altura de Afonso Henriques, as suas doenças, as lesões e maleitas, o seu aspecto fisionómico. Há quem declare a desnecessidade de tudo isto, incluindo o que se possa vir a apurar sobre as dietas alimentares ou a colheita de amostras de DNA. Eu, na minha humildade, concordo com quem assim pensa. Tudo isto é desnecessário e não lhe acho qualquer pertinência. No entanto, acho que é a mais importante irrelevância da História de Portugal e, por isso, deve ser cometida. Deve-se abrir o túmulo e apurar tudo sobre o rei. Não porque tenha importância em si, mas porque tal acto fará do rei simples objecto de curiosidade e análise científica. E isto é importantíssimo. A carga simbólica que envolve o rei dissipar-se-á depois de, durante quase um milénio, ter sido objecto das mais diversas devoções e mistificações. Desde os discursos restauracionistas, a cargo dos frades alcobacences, que por óbvias razões ideológicas mitificaram a memória do Fundador, até ao nacionalismo romântico e liberal que, em Oitocentos, encontrou no estudo das origens a raiz da identidade nacional em construção, até ao tradicionalismo contra-revolucionário protagonizado por D. Miguel que chegou mesmo a desenterrar as ossadas do rei em quem via o símbolo máximo da autoridade cuja preservação se impunha defender contra o liberalismo ameaçador, até ao catolicismo mais beato que chegou a propor e a iniciar um processo de canonização do rei numa era que a Igreja se via ameaçada pelo processo de secularização e laicização da sociedade, sem esquecer a sobreposição que o providencialismo historicista, autoritário e nacionalista do Estado Novo que promoveu uma sobreposição interesseira entre a memória do rei e a imagem de Oliveira Salazar. Após a revolução de Abril, a memória do rei sofreu um processo de depuração pela pior via: o esquecimento.
Agora, por fim, as ossadas parecem remeter-se à sua condição: ossos estudáveis. É curioso que, pela primeira vez na História longa das ossadas, de quase um milénio, elas se considerem pela primeira vez como simples ossadas. O olhar científico, a desideologização dos tempos, promove esta nova abordagem, a não ser que consideremos, e é essa a minha opinião, que esta cientificização das relíquias é em si uma ideologia. Assim, o que é muito curioso e significativo é que as autoridades eclesiásticas tenham aceitado pacificamente que o féretro fosse objecto de banalização ao constituir-se como objecto de estudo, ao passo que as autoridades civis que muito recentemente elevaram os túmulos régios de Santa Cruz à dignidade de Panteão Nacional, tenham requerido tantas formalidades e exigido tanto rigor no processo, alegando a delicadeza do assunto, o que parece demonstrar que as ossadas passaram da tutela religiosa da Igreja Católica para a tutela cívica do Estado. Assim posto, a recusa ministerial é uma forma de apropriação simbólica do património quase milenar das ossadas afonsinas.

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14/07/06

Paradise Lost de John Milton, por Astaroth

Depois de andar mais ou menos em parafuso por não ter cá em casa nada que ler que me apetecesse, resolvi-me e fui a casa do Grão Mestre Porcino vasculhar-lhe a biblioteca de cerca de 2000 livros. Para além da abundância e do bom gosto das escolhas do Grão Mestre, há mais um facto que me levou lá: é que é de borla! Um gajo chega, passamos a revista aos calhamaços ordenados por autor ou por género e ainda aprendemos umas coisas com os comentários solícitos do Guru. Saí de lá com duas sacadas de livros, embora praticamente nada do que trouxe fuja muito áquilo que já é o meu próprio gosto pessoal.

Dei por mim em casa a escolher entre Agualusa, Clarice Lispector, Camilo José Cela, Ballester, Malouf, Gore Vidal, Jorge de Sena e mais uns quantos. Comecei com o Agualusa e a Lispector e devolvi-os no dia seguinte. Não quer dizer que não volte a eles, mas, por agora, pareceu-me uma escrita demasiado vulgar, perdoem-me se ofendo alguém. Desisti do Camilo José Cela (de quem tinha adorado A Colmeia) pela razão oposta: demasiado difícil e experimentalista.

Até que me detive num livro de excelente apresentação, apenas 980 exemplares assinados pelo editor: o clássico O Paraíso Perdido de John Milton. O Paraíso Perdido é uma epopeia trágico/lírica que, como o nome indica, tem como tema a expulsão do homem do Paraíso, antecedida pela expulsão dos anjos revoltosos de Satã. Milton demorou cerca de 10 anos a escrever esta obra seminal. Traça uma narrativa que, fundamentalmente respeita os relatos dos Evangelhos e do Génesis, embora, aqui e ali, vá acrescentando aspectos da sua lavra. Como quando concebe a primeira tentação de Eva a partir de um sonho que lhe é sugerido por Satã; ou como quando inventa Abdiel, o anjo que em pleno sínodo dos anjos revoltosos, permanece fiel a Deus.

O livro é espantoso e eu próprio fico admirado por ter entrado de um modo tão entusiástico numa escrita deste tipo, tão densamente poética. Mas Milton apareceu-me na altura certa, quando já desesperava por um estilo de escrita que se afastasse do corrente. Satã era inicialmente um anjo bom que se revoltou contra Deus no momento em que este apresentou o Filho como o segundo da hierarquia celeste. Satã, Belzebu e as suas legiões demoníacas revoltam-se então e são expulsos do Paraíso pelo Filho de Deus para os abismos do Inferno. Na sua queda em pleno abismo as legiões demonícas demoram nove dias e nove noites a cair!

Milton vê a saga de Satã como se de uma tragédia ática se tratasse. Os anjos revoltosos lutam em desespero contra a ordem divina que sabem inexorável e invencível. Fazem lembrar os personagens dos grandes trágicos gregos, Prometeu, Édipo ou Sísifo. Para quem lê O Paraíso Perdido é como se estivesse a ler outra vez um Evangelho que já conhece, mas desta vez é tudo diferente: Deus parece ser um maníaco e um ditador obcecado em que o adorem; ao passo que Sátão e os seus demónios nos são apresentados com um rosto humano, com as nossas fraquezas (o ciúme pelo Messias, a inveja, o despeito e o ódio) e com o nosso espírito revoltado. É difícil não simpatizar com Satã, encarnação do revoltado e do insatisfeito. É difícil simpatizar com um Deus que manda dizer a Adão que apenas deve limitar a sua ânsia de conhecimento «aos assuntos do dia a dia» e deixar os altos assuntos para os seus superiores. Também nessa inversão nos apercebemos da genialidade de Milton e percebemos porque razão esta obra foi proibida e declarada maldita

Sublinhe-se ainda a excelente tradução e as notas preciosas de Fernando da Costa Soares e Raul Mateus da Silva. E, já agora, a escolha das excelentes ilustrações de William Blake (o pic do post é dele) e de Gustave Doré, dois génios românticos à altura do próprio Milton. O Paraíso Perdido – um livro, absolutamente, a não perder!

12/07/06


1946 -2006

Handicaps, por Tiger

Um dia destes, ao ler uma entrevista com Júlio Mendes, Director da Federação Portuguesa de Golf e Presidente da Comissão de Handicaps, numa Golfdigest (http://www.golfdigest.com/) fiquei a saber que «Portugal é o único país do mundo onde jogadores levam a Federação e a respectiva Comisão de Handicaps a tribunal». Foram julgadas três causas, tendo a FPF ganho a totalidade.

Podemos imaginar a dificuldade de um tribunal comum em julgar matéria tão bizarra. E podemos rir às gargalhadas porque isto é, de facto, hilariante. Segundo Júlio Mendes, «esta questão já foi falada no EGA e serviu para que os congressistas se rissem durante cinco minutos».
Só cinco minutos? Realmente, temos muita sorte por viver em Portugal - um gajo, ao menos, ri-se comó caraças!

10/07/06

Obrigado Zidane !, por Pirrro

Esta imagem não é um símbolo de decadência, mas de dignidade! Ao contrário do que por aí se proclama aos quatro ventos, Zidane não traiu o futebol com aquela cabeçada fulminante num italiano provocador e vilão. Pelo contrário, aquela é uma cabeçada justiceira. O italiano mereceu e Zidane, fiel aos seus princípios, não abdicou da sua dignidade pessoal e dos seus, tendo trocado a Glória pela defesa intransigente dos seus princípios. Zidane não desiludiu, uma vez mais, e fez o que devia. Foi pena que a cabeçada não fosse mais acima que era o que aquele vilão merecia.

Infelizmente, a vídeo-justiça condena a cabeçada de Zidane, mas não capta as palavras insultuosas do provocador. Segundo o empresário de zidane, apoiado por peritos em linguagem labial, materazzi terá dito qualquer coisa sobre a irmã de zidane. Qualquer coisa «muito séria». Agora os que criticam zidane criticam-no porque com a sua experiência devia ter engolido em seco, devia ter sorrido e passado à frente. Como é que é? Mas agora temos que ignorar os brutos quando estes resolvem insultar os nossos? Entramos num café e há um boçal que insulta a nossa irmã, a nossa mãe, a nossa namorada… Que fazemos? Mudamos de café e pedimos desculpa? Temos que baixar a cabeça quando os cínicos atacam aquilo que consideramos sagrado? Já não há honra? Perdeu-se todo o sentido da dignidade em nome da moral hipócrita do pragmatismo – aguentar para ganhar o jogo?

Zidane, simplesmente, não pensou. Agiu. Não quis saber se deixava de ser o maior, nem se ganhava nem se perdia. Foi puro impulso, cedeu à vontade de justiça. E espetou uma valente cabeçada nesse detrito nauseabundo que teima em poluir os campos de futebol com o seu comportamento recorrente que é o materazzi. Aquela cabeçada significa a recusa de aceitar as regras do pântano, significa que não vale tudo e que há valores mais altos que o objectivo imediato de ser campeão do mundo.

Talvez a maior parte de nós considere que a provocação do italiano era para levar com um sorriso nos lábios, talvez haja quem pense que «vozes de burro não chegam ao céu». Eu próprio penso assim. Mas também não deixo de admirar quem, como zidane, não abdica das suas fronteira de honorabilidade nem a troco da glória, mesmo que não sejam as minhas. Ér por isso que não o consigo criticar em nome do pragmatismo. Zidane foi provocado e reagiu, mesmo sabendo que perderia tudo, qual herói de uma tragédia ática. Pelo futebol artístico, mas também pela lição de dignidade que nos deu, uma vez mais, eu só posso dizer:
Merci beaucoup, Zizou!

A Última Copa, por João Bocejo

A Itália ganhou. Perderam a França, o Zizou e o futebol. A França ainda bem que perdeu, o Zizou merecia melhor despedida o futebol perderia mesmo que a França ganhasse. O futebol perderia se a Alemanha ganhasse. Ou Portugal. O mesmo se acaso o Brasil ou a Argentina lograssem o título. Ou qualquer um, à excepção de uma nação africana. Aí sim, aí o futebol voltaria a encantar-me. Confesso que ando desencantado com este desporto, muito particularmente com os campeonatos do mundo. Não falo das suspeitas de manipulação e corrupção. Falo do tacticismo. O jogo está monótono, medroso, maçador, aborrecido e sonolento. Em 120 minutos há dois ou três remates para cada equipa. O resto é ansiedade e nada mais. Não há resquício de espectáculo. Não fora a memória que guardo de grandes campeonatos passados, uns testemunhados, outros apenas vistos em diferido com décadas de permeio, e o jogo não me atrairia minimamente. Compreendo os americanos que, em face das euforias europeias e sul-americanas, bocejam de tédio e perplexidade. O bocejo americano é tão emocianante como a taça Jules Rimet. O preocupante é que isto não é de agora. Desde o Itália 90, ao USA 94 e o Coreia / Japão 2002, com a louvável excepção do França 98, os campeões são indignos, as competições são chatíssimas, não há chama de glória, não há heróis, não há nada de memorável. E porquê? Porque razão o campeonato se tornou um longo bocejo, à excepção do França 98? Eu tenho uma explicação.
O encanto do jogo não é inerente ao jogo, é um acrescento, um suplemento encantatório. Quando inventado, era atlético e tacticista. Os sul-americanos, e muito particularmente os brasileiros, sobrepuseram a fantasia à táctica. A raiz africana e o factor-favela, entre outros aspectos determinantes, fizeram do jogo o espectáculo mais popular do planeta. Foram os anos dourados do Brasil e do Uruguai. O campeonato do Mundo conheceu os seus anos de glória. A par destes sucessos, e por causa da popularidade do jogo, o campeonato tornou-se alvo da cobiça política dos nacionalismos exacerbados. Não apenas dos ditadores, que nunca desprezaram a ocasião para alardearem a idiotice do nacionalismo imperialista. Francisco Franco teve, em 1964 e em casa, a oportunidade de, através de uma roubalheira histórica, humilhar os soviéticos na final. Não foi um Mundial, foi um Europeu, mas se o Caudillo estivesse à espera de um Mundial, ainda hoje era vivo e estava sentado.... à espera. Com outro alcance, já o inspirador Mussolini, mais do que a Itália, vencera em 1934 e 38. De igual modo, a Argentina dos Coronéis roubou indecentemente o Mundo em 1978. Se a roubalheira agrada aos ditadores, os democratas também não desprezaram o Campeonato do Mundo para exibirem as suas virtudes nacionais. Foi o caso da Alemanha reconstruída do pós-guerra que se reabilitou em 54, com uma roubalheira épica, às custas da Hungria. A RFA voltaria a ganhar em 1974, com justiça é certo, sendo que o derrotado, mais do que a Holanda, foi a RDA, incapaz de ombrear com o gémeo capitalista. A Inglaterra de 1966, contra a Alemanha, exibiu o seu chauvinismo com uma soberba autárcica e imperial. Poucos anos após aderiam à CEE. Hoje, permanecem eurocépticos e nunca mais ganharam nada.
A maior demonstração, e mais genial, de manipulação do jogo pelo nacionalismo foi o México 86. Mas, e isto é muito importante, a vingança nacional da Argentina face à Inglaterra, depois da derrota das Malvinas, foi feita com a mais justa batota da história do futebol, a célebre mão de Deus de Maradona. Só que, e a diferença é abissal, o aproveitamento não foi atlético , nem esmagador, nem descarado. Foi sim, mais uma vez, encantatório e apaixonante. A guerra quixotesca que a Inglaterra fez nas Malvinas, vingada por Maradona, foi um anacronismo idiota, pois mostrou o esgotamento do paradigma imperial e do conceito de soberania que vingou no mundo ocidental nos últimos 200 anos. De então em diante, a globalização, a miscigenação, as migrações, o reoordenamento das fronteiras e o realinhamento dos grandes blocos estratégicos, com a reunificação alemã, a implosão soviética, a balcanização de muitas regiões do globo, a criação de um espaço europeu, a clivagem civilizacional com o Islão, entre outros factores, vêm mostrar como o paradigma moderno do Estado-Nação está em desagregação. Ora, os jogos do Campeonato do Mundo assentavam sobre o embate de equipas nacionais. A sua emoção e o sucesso que alcançaram resultavam dessa condicionante. Esgotado o conceito, o jogo tacticizou-se. Foi a era dos Itálias 90, USA 94 e Coreia /Japão 2002. Com a honrosa excepção do França 98. Justamente a equipa mais multinacional e multicultural de que há memória na história da copa. Foi a equipa adequada ao seu tempo: não era uma equipa nacional. Daí a excepção. Outras selecções aceitaram esta imposição moderna e desataram a naturalizar jogadores. Deco, Marcos Senna ou Camoranesi são apenas alguns exemplos, entre muitos outros.
O campeonato que hoje terminou, mais do que a derrota da França, a cabeçada e correspondente expulsão de Zizou, ou a vitória da Itália, mostra como o jogo, já não impulsionado por pulsões nacionalistas, não é mais do que um maçador exercício calculista e tacticista. A asfixia de Ronaldinho e a gordura de Ronaldo foram os factos mais relevantes, por sintomáticos. Por mim, é o fim anunciado. O Campeonato do Mundo não tem futuro.

07/07/06

O Melhor e o Pior do Mundial, por Tifosi

O mundial tá a acabar e há que fazer as selecções dos melhores. Era o Seinfeld quem dizia que os homens só precisam de outros homens para serem amigos. Quer dizer, ser homem é qualidade suficiente, um gajo é amigo de certos gajos, simplesmente porque são homens e prontos. Não é necessário que tenhamos algo em comum, nem interesses literários, nem musicais nem filhos nem nada. Os homens só falam de duas coisas: de gajas e de futebol. Falemos, pois, de futebol que é altura dele. Aí vai a minha selecção dos melhores do Mundial (não os melhores em absoluto, só os que tiveram melhores perfrmances no Mundial). Como tenho alguma dificuldade em nomear só 11 segue também a selecção alternativa:

Os Melhores:
Guarda redes – Buffon (It);
alternativa - Lehman (Al);

Defesa direito: Zambrotta (It);
Alt – Eboué (Gana)

Defesas centrais: Canavarro (It) e Thuram (Fr);
Alt – Ayala (Arg) e Ricardo Carvalho (Por);

Defesa esquerdo: Lahm (Al);
alt – Grosso (It);

Médios – Vieira (Fr), Maxi Rodriguez (Arg) e Zidane (Fr);
Alt –Ballack(Al), Riquelme(Arg) e Gerrard (Ing);

Avançados – Figo (Por), Henry (Fr) e Ronaldo (Por);
Alt – Kaká (Br), Klose (Al) e Torres (Esp)

Temos então na selecção A 3 italianos, 4 franceses, 1 alemão, 1 argentino e 2 portugueses. E, para quem acreditava como eu no início, que este ia ser o mundial das grandes revelações, uma espécie de render da guarda do futebol mundial, afinal não foi. Confirmaram-se os velhos e ainda não foi desta que se consagraram definitivamente Kaká, ronaldinho, messi, tévez, saviola, fabregas, iniesta, sérgio ramos ou diarra… Tirando o Ronaldo portuga, ribéry e o maxi rodriguez, os outros jovens são grandes de estatura média, pra já, como podolski, lahm, klose ou grosso (já com 29 anos)… E não foi propriamente uma revelação de alcance galáctico mas é justo sublinhar aqui a grande qualidade do Meira, declarado coxo de serviço pelos nossos críticos ainda nem trinha tocado na bola e que se revelou, afinal, um dos melhores centrais da competição. Este Meira é bem melhor que o Andrade, não me lixem…

Os melhores treinadores foram o scolari (apesar de alguma teimosia na convocatória e da burrice da opção pauleta), o eriksson pelo fair-play, o klinsmann pela revolução que fez na Alemanha e o hiddink com uma Austrália audaciosa como são todas as suas equipas…

Os Piores

Quanto aos piores do mundial foram, em primeiro lugar os treinadores da Argentina e do Brasil. O Parreira conseguiu fazer o impossível: meter jogadores fabulosos como o ronaldinho a fazer um futebol burocrático e sem chama. Tiveram que mudar o nome para escrete cinzento.

E o Pekerman ganhou o prémio Idiota do Século e conseguiu ainda pior, deixando no banco alguns dos melhores jogadores do mundo, como Messi, Tévez ou Aimar que ele acha não serem compatíveis com o Riquelme. E nem falo no crime que foi não ter convocado o melhor lateral direito do mundo – Zannetti – para depois andar a adaptar quatro (!!!) jogadores à posição (Burdisso, Cufré, Scaloni e Colloccini). Este homem devia ser declarado Inimigo Público Número 1 do Futebol pelo mal que fez à modalidade.

O árbitro do Portugal – Holanda, também foi um verdadeiro disparate em movimento. Imparável na asneira.

Van Basten, treinador da Holanda deu uma lição de falta de fair play e cheguei a pensar que foi bem feito o que lhe fizeram ao joelho quando ainda jogava à bola. Aquela entrada do Boulhrousz sobre o figo é encomendada…

O treinador de angola foi outra anedota e não percebo como é que os angolanos ficaram contentes quando podiam ter ficado à frente do México – aquela de jogar com o Akwá e deixar de fora o mantorras, vou ali e já venho…

O governo de Portugal esteve péssimo ao permitir que o mundial seja em canal fechado, dando mais uma vez uma mãozinha nos interesses dos oliveirinhas – querem matar o futebol, fazer dele um desporto de elite, só pra quem paga…

Quanto aos piores jogadores: Kalack da Austrália pelo frango contra a croácia que ia lixando tudo para a sua equipa; De Rossi da Itália, expulso no primeiro jogo por agressão bárbara a um americano (e o de rossi até é um excelente jogador); O carniceiro holandês Boulharousz; os tablóides ingleses levianos e mentirosos; O Rooney-silly Boy; o Ronaldo gordo e o ronaldinho ex-génio; e acima, muito acima de todos, o manguelas, o pauleta, o maior desastre da história do futebol. Inofensivo, tonto, embora voluntarioso. Com ele na frente Portugal teve sempre menos 10-20 metros, ainda por cima os mais importantes, na área adversária. E o postiga foi o mais parecido com ele que o scolari tinha no banco e por isso também vai para a lista. Mas por que é que o Nuno gomes não teve a mínima oportunidade?

05/07/06

POR-TU-gaaaaal...., por Cidadão do Mundo

Hoje é dia de meia-final. Pela segunda vez na história dos campeonatos do mundo de futebol, Portugal joga a possibilidade de aceder à final.
Imaginemos que o resultado dependeria, não do apoio prestado através das bandeiras penduradas à janela, mas.... do número de mamadas que cada cidadão nacional fizesse num cidadão do país adversário! Isto é, a vitória da selecção nacional resultaria do número de mamadas que os "tugas" fizessem em cidadãos franceses! Não esqueçamos que a França tem cerca de 60 milhões de habitantes! O desequilíbrio é enorme! Seria uma espécie de Aljubarrota porno-futebolística. Mas nós somos os maiores! É ou não é verdade? Até onde vai, caro leitor do Porco, o teu apoio à selecção? Serias capaz de participar neste grande empreendimento nacional? Ou és um traidor, um vende-pátrias?

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03/07/06

http://www.youtube.com/, por Serviço Público

Descobri a vídeo-rádio ideal na net. Basta ir a http://www.youtube.com/. O You Tube é um programa divino onde se encontram todos os vídeos que se possam imaginar. Qualquer gajo pode deixar lá o seu vídeo de estimação, aquele do traseiro da prof de matemática ou o daquela banda sensacional que só lançou um disco e desapareceu a seguir. Portanto, no you tube, um gajo encontra tudo.

Uso-o principalmente para procurar vídeos e músicas que até agora considerava raros. Por exemplo, uma das primeiras bandas que digitei no search do programa foi The Clash. A surpresa foi esmagadora: estava lá o vídeo de London Calling, o should i stay or should i go, o rock the kasbah... Depois segui a pista punk/new wave e claro, encontrei Stranglers, Pistols, the Damned, Joe Jackson... Voltei aos Clash, agora numa soberba versão ao vivo de Sweet Gene Vincente com Ian Dury e segui pelos Big Audio Dynamite. Tá lá com montes de vídeos. Digitei Rolling Stones – páginas e páginas de vídeos oficiais, piratas, gravações amadoras de espectáculos ao vivo... Doors, Bowie, Velvet, Marc Bolan e os T Rex, os Stooges, Plasmatics…

Digito Frank Zappa – boé de páginas, uma versão original de Stayrway to Heaven dos Zeppelin, uma outra de I´m the Walrus dos Beatles… Incrível! Puxo pela coisa. Vamos às bandas que se apagaram da memória de todos, aos vídeos perdidos no tempo: The Vapors – Turning japannese, lembram-se? Não acredito, tá cá. Spandau Ballet, Buggles, video killed the radio star, Jam, isto é uma máquina do tempo.. Versões pirosas de can´t take my eyes off of you, até a versão de Deer Hunter… A fabulosa dança de Travolta e Uma Thurman ao som de chuck berry em pulp fiction , a cena épica de Reservoir Dogs em que há um canalha a cortar uma orelha a um polícia amarrado,dez minutos soberbos de tortura feita arte humorística, as músicas comoventes de lost in translation, episódios inteiros de Seinfeld, os fabulosos desenhos animados da Warner Brothers, Pink Panther, montanhas de precisiodades de Tex Avery, what`s up, doc?....

Experimento o novo rock, isto não têm, caraças, até aposto. White Stripes – seven nation army. Tá cá. N.E.R.D. she wants to move. Tá. The Strokes, Franz Fedinand, The Vines, Low... Tudo. O jazz: Miles, Coltrane, Hankock, Cantaloop em várias versões. A música clássica: Mozart, imenso, Shostackovich, Von Karajan, a Casta Diva, é a juke box ideal, não é preciso moedas nem nada…

A partir de agora nas festas já nem são precisos discos. Basta um pc ligado à net com o you tube e umas boas colunas. A discografia tá lá toda. A música tá na cabeça do dj: depois é só digitar o nome e dar dois cliques com o rato. Já podemos ouvir tudo aquilo que nos apeteça. O you tube é a farra ideal!

01/07/06

Tricardo e Manguela, por Treinador de Bancada

Tá bem, ganhámos. Foi fantástico, é um momento histórico. Merecemos. Os jogadores e o treinador foram grandiosos. Até o Ricardo bateu o recorde de penalties defendidos numa fase final de um mundial: três! Já não é Ricardo, agora é tricardo. Tamos nas meias, venha a França.

O feito é tanto mais meritório quando continuamos a alinhar com o Pauleta. Queria ver qualquer outra selecção de top jogar com o pauleta a titular e chegar às meias finais como nós... O pauleta não joga, é um a menos. Limita-se a assistir ao jogo lá dentro, de um local previligiado que devia valer uns 100 contos na candonga se fosse posto à venda. Ou mais. No jogo com os ingleses, foi evidente que o pauleta se limitou a assistir pasmado ao encontro. E eu tive sempre a sensação de que o cobrador de bilhetes ia entrar em campo porque não quer ver ninguém a assistir ao jogo à manguela. E eu achava bem, se o cobrador lhe pedisse o dinheiro. O gajo quer ver os jogos da selecção? Pois que pague como os outros.