29/11/06

O Apocalipse segundo Idácio, por João-Sem-Medo

Idácio de Chaves nasceu em Limica, no actual município de Xinzo de Limia na província de Orense, nos finais do século IV. Filho de um rico funcionário romano viajou pelo Oriente, ainda muito jovem, percorrendo a Terra Santa, onde terá conhecido S. Jerónimo. Foi bispo de Aqua Flaviae, redigiu um cronicão sobre a ocupação bárbara da península hispânica. A sua visão é apocalíptica, tendo testemunhado um dos momentos mais trágicos e decisivos da História do Ocidente: o colapso do Império Romano. Idácio deixou para memória futura um relato comprometido desses acontecimentos. Católico, num tempo em que as heresias ariana e prisciliana eram ferozmente combatidas pela ortodoxia romana, defendia a unidade do Império e entendia o cristianismo, sob a versão católica romana, como um elemento estruturante dessa unidade. O Império era uma magnífica realização civilizacional, determinado pela vontade da Providência, pelo que lhe parecia imune à barbárie. Desta forma, aos seus olhos, as invasões das hordas germânicas, espalhando o terror sobre os escombros do Império, só podiam explicar-se como sendo a concretização das profecias apocalípticas. Estava firmemente convencido que o espectáculo agonizante a que assistia era o anunciado fim do Mundo e deixou-nos o seu relato do apocalipse. Notável paradoxo este, o de legar ao futuro a descrição do Fim do Tempo! Esqueçamos o absurdo, descontemos os excessos, lembremos que a perspectiva é comprometida e não historiográfica e retenhamo-nos na experiência do horror apocalíptico, terror milenar que enformou a mentalidade ocidental e que é afinal – continua a ser – um dos motores da nossa cultura: «Os Bárbaros, que penetraram nas Espanhas, pilham e massacram sem piedade. Por sua vez, a peste não causa menos devastações. Enquanto as Espanhas estão entregues aos excessos dos Bárbaros, e o mal da peste não faz menos estragos, as riquezas e os víveres armazenados nas cidades são extorquidos pelo despótico colector de impostos e exauridos pelos soldados. E eis que a temível fome ataca: os humanos devoram a carne humana, sob a pressão da fome, e as próprias mães se alimentam do corpo dos filhos, por elas mortos e cozinhados. Os animais ferozes, habituados aos cadáveres das vítimas da espada, da fome ou da peste, matam também os homens mais fortes e, cheios dessa carne, desencadeiam por todo o lado o aniquilamento do género humano».

Idácio de Chaves morreu em 470.


Citação: MARQUES, A. H. de Oliveira (coord.): Portugal. Das Invasões Germânicas à ”Reconquista”; in «Nova História de Portugal»; direcção geral da obra de Joel Serrão, e A. H. de Oliveira Marques; volume II; Lisboa; Presença; 1993; p.26.

26/11/06

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1923 - 2006

22/11/06

Monocromia, por Black Label

Em 30 de Dezembro de 1915, foi apresentada na exposição 0,10, na galeria Nadiejda Dobitchina em S. Petersburgo, o célebre Quadrângulo de Kazimir Malevitch, exibido de modo a que se estabelecesse um confronto com os ícones tradicionais eslavos pois, nos lares ortodoxos, era nos cantos das salas que se colocavam essas representações sagradas, exactamente o local proeminente em que foi pendurado o Quadrado Negro sobre Fundo Branco .
Com esta obra, a arte contemporânea encontra-se a um passo daquilo que poderíamos designar como derradeirismo estético, o que equivaleria, considerando o tempo longo, ao fim da História da Arte enquanto processo. Isto é, com Malevich abre-se a possibilidade do nihilismo apocalíptico sob a forma de um monocromatismo negro. Eliminando o fundo branco, bem como qualquer outro vestígio que confira significado à pintura, obteremos um vazio absoluto que equivalerá ao fim da pintura enquanto género artístico, senão mesmo à consumação da arte. Atingir-se-ia «o fim, o último estrato de prospecção, o nível zero: a última imagem, precisamente», levando a abstracção ao «limiar da absoluta monocromia.» Este passo foi dado por Alexander Rodtchenko em 1921, anunciando a morte da pintura ao apresentar três telas monocromáticas com as cores primárias. O fim será depois concretizado de forma absoluta pelo minimalista Ad Reinhardt (1913–1967), com o seu terminal Abstract Painting sem título, a partir do qual só a repetição é consentida. Uma superfície quadrada toda preenchida por um negro monocromático constitui uma concretização desnecessária de Malevich. Desnecessária apenas no sentido em que o russo a evitou porque seguramente estava certo do que Reinhardt afirmava: «Muito simplesmente faço o último quadro que alguém pode fazer». Depois disto, Reinhardt limitou-se a pintar monocromias negras e a numerá-las. A da imagem que ilustra este texto é a do Museu Guggenheim de Nova Iorque. Há outras, exactamente iguais, noutros museus de referência. Por exemplo, no Minneapolis Institute of Arts, no Museum of Modern Art de Nova Iorque, no Smithsonian Art Institute em Wahington D.C., na Tate de Londres, no Walker Art Center no Minnesota ou no Whitney Museum of American Art em Nova Iorque. Isto para falar só das monocromias negras em telas quadradas, pois que Reinhardt também pintou monocromias negras rectangulares e telas negras quadradas com ligeiras gradações do negro quase imperceptíveis.

Imagem e referências aos museus

Citações de Johannes
MEINHARDT A Crise da Pintura Abstracta nos anos 1960; in «Pintura: Abstracção depois da Abstracção»; s / l (Porto); Público / Fundação de Serralves; 2005.

Post dedicado ao visitante seven, do obvious, cujo post o caminho da abstracção #2 me sugeriu este.

21/11/06

Anais do Porco. Por Manel, o Empalador

Olhem o que eu fui buscar ao baú, umas disquetes que aqui tinha:

«Coimbra, adega do Galgo, 27 de Fevereiro de 1999


«(....) até que um dia o Senhor, desagradado com o rumo empirista e subjectivista do seu rebanho, irado com o episódio do Barca Velha, [alusão à degustação de um Barca Velha prova cega e que foi desqualificado pela generalidade dos confrades] tomou a decisão de enviar um anjo com a missão de apontar o caminho da Verdade e do rigor científico. Foi então, qual novo Moisés, que o abençoado anjo do Senhor ofertou aos bárbaros os instrumentos com os quais eles inauguraram uma nova era das suas vidas. Mas advertiu-os: acabai de vez com as apreciações tipo pica, escorrega bem, bate bem, etc. De ora em diante, exijo-vos o rigor no discurso e a objectividade na análise.»
A História ensina que estes momentos de ruptura têm que superar as naturais reacções conservadoras. Sabe-se como as massas ignaras são adversas à novidade, apegadas à tradição e reagem negativamente à introdução de elementos que perturbem a harmonia pacata do seu quotidiano. E, por isso, também então se fizeram sentir vozes espantadas e ignorantes que, em face dos aparelhos, indagaram "Qu'é isto !?", enquanto coçavam o cocuruto com o indicador esquerdo e com as costas da mão direita limpavam a baba que lhes pingava da beiça embasbacada.
Mas a provar que esse momento não foi um dado isolado, e que reflecte um salto civilizacional qualitativo, temos que, mais ao menos pela mesma altura, como que anunciando a grande novidade revolucionária, os membros da sociedade satânica acolheram uma outra novidade: nada menos que o famoso cardiovelocímetro. Este aparelho é assim uma espécie de conta-quilómetros só que, segundo o nosso Mister especialista em bola científica (isto é, treinador sem bigode) em vez de estar ligado à roda, está ligado ao coração e capta o ritmo da frequência cardíaca, enviando depois, através de um emissor electrónico fixado no pulso, elementos sobre o esforço dispendido pelo utilizador. Assim se desmascara, reportando-nos à aplicação exclusivamente desportiva do instrumento, o sub-rendimento dos praticantes, forçando-os à exaustão. Porém, a importância desta geringonçça consente outro tipo de utilizações. Sirva de exemplo a aplicação do cardiovelocímetro no domínio das relações interpessoais. Pela consulta dos dados obtidos pelo aparelhómetro torna-se possível detectar o subesforço de uma das partes, advertindo-a mais ou menos nos seguintes termos:
- Desculpa lá, mas não deste o litro. O cardiovelocímetro não engana! Vais ter que amochar outra vez!»

Esclarecidos então acerca da importância histórica do repasto, passemos à apreciação do dito.
No referente aos sólidos, nada a opor. O chouriço caseiro cumpriu e o queijito não envergonhou. De 1 a 5, as entradas merecem nota positiva. Os torresmos estavam óptimos, temperados à portuguesa, apenas com vinho, segundo o anfitrião, e fritos na própria gordura. O arroz de míscaros apresentou-se em duas versões, a saber: com carne e sem carne. Nenhuma das versões envergonhou e qualquer delas bate a versão do Cantinho dos Reis, uma sub-espécie que constitui uma terceira categoria: arroz com carne, colorau, pimentão, massa de tomate e alguns míscaros.
As duas variedades foram provadas e aprovadas, muito teriam ganho se algumas alimárias retardatárias entendessem o significado de 8 horas. De facto, se é às oito, não é às 8 e meia e, por maioria de razão, muito menos às nove menos um quarto! Não é preciso ter um rolex para entender isto! Ou alguém tá a precisar de slides?
O arroz perdeu, e é em memória do que perdeu que agora se estipula o princípio de iniciar os jantares futuros à exacta hora marcada. Quem chegar atrasado traz pão com fiambre!
Passando aos líquidos, deve comentar-se a já proverbial sovinice do vice-mestre que trouxe um miserável Porca de Murça do ano, porque não havia mais barato.
Quanto ao Grão-mestre, et son partenère, porventura ainda ofendido com a estrondosa indiferença com que apreciámos o Barca Velha, decidiu dar uma de educador das massas! Como quem diz (e escreve, reportando-me à assinalável importância e elevado sentido de humor da sua crónica dactilografada) que o mal não deve ser do vinho (ainda que o José Salvador sublinhe a precipitação motivada pelo «efeito Expo 98»), por isso deve ser das bestas com sentidos empedernidos. Ora, aplicando agora os básicos príncipios da economia, trocar de bestas sairia caro e moroso, portanto, educam-se! Foi assim que ambos vieram munidos de uma garrafitas adquiridas no Pingo Doce, em saldo, e que eram vinhos de casta única. Um Trincadeira e um?????, numas garrafitas de 0,50. Julgavam, através deste método ensinar os rudimentos da enologia, o b-a-bá da matéria. Ora bem, caros grandes timoneiros, as bestas a educar entendem por conveniente dizer duas coisas:
1º: Esses vinhos de casta única não valem uma merda!
2º: Se acaso persistirem nessa tendência para apresentar vinhos em garrafitas de 0,50, daremos validade à hipótese que propõe que o volume da garrafa é directamente proporcional ao tamanho do membro viril! Não repitam pois a ousadia se não querem acrescentar ao nome o epíteto O Meio-litro!
Assunto encerrado! Não queremos ser educados! Estamos felizes enquanto bestas! Mais, orgulhamo-nos de ser bestas e só aceitamos uma metodologia educativa para deixar de ser bestas: mais Barca Velha! Até parece que nunca ouviram falar no método pela descoberta, em que a besta é que determina o ritmo do processo ensino-aprendizagem. Nós não queremos ficar traumatizados!»
Já lá vão uns anos. Exceptuando o eclipse do Galgo e a banalização do cardiovelocímetro que na altura era uma novidade, está tudo na mesma: à marrada e à morteirada!

16/11/06

Muito acerca de nada, por Mangas

Encontrei os meus cães a lamber o sangue de um pavão que saltou a cerca para o lado de cá. Fitaram-me, quietos, à espera de uma carga de porrada, mas deixei-os entregues ao que restava daquele campo de batalha de onde sobravam ossos, carne rosada e penas coloridas.

Cenários idênticos podem acontecer após o anúncio da classificação dos tintos numa prova cega, ou no rescaldo da cirurgia plástica a um porco.

Depois disso apontei-lhes o caminho para casa, mas os cabrões ainda não regressaram.

15/11/06

Exercício nº 1, por Poirot

A empregada entrou na sala e verificou que estava lá um morto estendido no chão. Deu o gritinho tradicional e chamou logo a Polícia. A Polícia chegou a tempo de verificar que o morto continuava na sala, mas encontrou lá dentro mais dois homens: um Gordo e um Magro.
O Detective Columbo resolveu logo o mistério:
- Já sei quem matou a vítima. Foi o Magro.
Pergunta-se: como descobriu o Detective Columbo que o assassino foi o Magro?
(veja resposta na caixa de Groinks deste post)

09/11/06

Rosebud, por Fernão Lopes

Aaron Delwell Penglast é um multimilionário norte-americano da Pensilvânia, considerado pela revista Forbes entre os 15 mais ricos do Mundo, que acaba de constituir uma fundação com um propósito exclusivo, bizarro e muito curioso. O senhor Penglast, de 63 anos, dotou a sua Fundação com largas dezenas de milhões de dólares, contratando especialistas das mais variadas áreas, que vão da arquivística à informática, ou da robótica à psicologia, com a intenção de reconstituirem a sua vida desde a mais tenra infância até à actualidade, bem como de procederem ao registo de todos os factos da sua vida futura, mesmo os mais ínfimos e irrelevantes. O objectivo é produzir um guião diário da vida do multimilionário e reconstituir a sua vida em espaço virtual 3D de modo a que, após a sua morte, se cumpra a disposição testamentária já redigida e mantida em segredo mas que, no entanto, dispõe que um colectivo formado por um vasto número de sábios e especialistas nas mais diversas áreas seleccione um casal que esteja disposto e aceite livremente que o seu ffilho viva a vida de acordo com a reconstituição virtual, e devidamente documentada, da vida de Aaron Penglast. Isto é, diariamente, os arquivos digitais ora produzidos deverão ser consultados e a jovem réplica deverá viver a sua vida de acordo com o guião. Isto é, ler os mesmos livros, ver os mesmos filmes, visitar os mesmos locais, estudar as mesmas matérias, tomar as mesmas decisões, tanto quanto for possível, tudo igual à vida de Penglast. A Fundação manterá um curador e um colégio de acompanhamento que deverá não só manter a vigilância sobre o quotidiano do contemplado como decidir sobre os factos dificilmente replicáveis ou até impossíveis de repetir. Deverá o colectivo de curadores reunir e recomendar, em caso de impossibilidade de se observar o quotidiano original, a alternativa mais próxima e exequível. Discreto, o sr. Penglast aceitou apenas dizer que este processo foi o que mais próximo se assemelhou com a conquista da imortalidade. «Não creio na clonagem», acrescentou.

Foto: http://universe-review.ca/F10-multicell.htm#evolution

07/11/06

Alá Akbah!, por Wickie o Viking

Saddam Hussein foi condenado à morte por enforcamento. Não é que a morte de um tal facínora me suscite qualquer espécie de compaixão. Ele foi justamente acusado de uma série de crimes monstruosos e declarado culpado. Até aqui tudo bem. Mas não concordo que se responda aos seus crimes com a perpetuação de um crime de estado que é, no fundo, a pena capital.


Já nem quero focar a discussão na legitimidade da pena de morte. Sublinho apenas a superioridade da Europa relativamente aos EUA neste particular. Mas basta pensarmos que os Americanos – sim, são eles os juízes deste processo Saddam – estão a criar mais um mártir da «causa muçulmana» quando o ex-ditador iraquiano estava reduzido a uma figura risível. Vivo Saddam era uma personagem de pechisbeque, até para os alucinados de turbante que não simpatizavam com ele. Morto, «assassinado às garras do Grande Satã» vai transformar-se num mito, vai ser elevado à categoria de Super-Herói do Islão. Bush persiste, tenaz, na asneira e perde mais uma oportunidade para demarcar a civilização da barbárie. Do fundo de uma gruta, algures no Afeganistão, Bin Laden agradece...


P.S. Ao que consta os governos europeus já se demarcaram desta infeliz decisão. Há um estado europeu, o seu presidente da república e o seu primeiro-ministro, que persistem, porém, em manterem-se calados, em escudarem-se em cínicos «Suas Excelências não têm nada a declarar» (a não ser que os obriguemos, claro). Falo do nosso Portugal, pois claro. «Não hostilizarás o Poderoso», assim reza o primeiro mandamento da Bíblia Hipócrita de Zé Aníbal Sócrates Cavaco, neste como noutros casos.

05/11/06

Hermanizaram-se!

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O Júlio Isidro foi ao Gato Fedorento! Melhor, ao Diz Que É Uma Espécie de Magazine! Até o título é um flop! É a morte dos Gatos? Engravatados, com palmas enlatadas, com público contratado, com momento musical, com trocadilhos idiotas. O Júlio Isidro! Por amor de Deus! O Herman, apesar de tudo, aguentou mais tempo. Tirando o dito boneco do Paulo Bento, ao cabo de dois programas, não vi nada de jeito.

foto:
http://designersalliance.co.uk/wp-content/uploads/2006/05/shit.jpeg

02/11/06

Que Vai Ser Deste Homem?, por Hiena Fedorenta

O último sketch do Gato Fedorento a imitar o único treinador de futebol do mundo que usa o penteado de risco ao meio e fala português ao soluços com a musicalidade do castelhano é, apenas e sinceramente, a melhor imitação de alguém que alguma vez me foi dada a ver. Antes de continuarem a ler o resto do post vão ao You Tube, digitem Paulo Bento e vejam o Ricardo Araújo Pereira no seu melhor boneco de sempre. Vale a pena. Vão lá que eu espero.

Já viram? Genial! Mas uma imitação destas coloca imediatamente a seguinte questão: e agora Paulo Bento? Eu acho que o homem tem a carreira arruinada. A partir de agora, ninguém que tenha visto o sketch o conseguirá levar a sério. Como é que ele conseguirá agora falar aos jogadores do Sporting no balneário sem que estes se desmanchem a rir? Imaginem que o Sporting perde ao intervalo com o Desportivo das Aves em casa e é preciso um discurso que acicate os jogadores. Vai ter que falar o treinador adjunto, carago, porque os jogadores lembram-se do Gato Fedorento quando vêem o treinador. Pode ser o fim da carreira do Paulo e é chato. Há quem diga que na segunda-feira a seguir ao sketch os jogadores compareceram todos ao treino de risco ao meio. Foi mau…

Ontem ouvi o Bento na rádio a falar e dei por mim a rir ás gargalhadas – o boneco já se sobrepôs ao homem, o Paulo Bento real parece uma anedota séria a tentar a imitar o Paulo Bento cómico. E até pensei se o Bento não fará agora um esforço sobre-humano para evitar dos tiques que o Gato tão cruelmente lhe apanhou, como abrir muito os olhos e esticar muito o pescoço para a frente... Eu fazia, fónix… Será que ele nunca mais vai poder dizer «tranquilidade» na vida? E outras palavras acabadas em ade? Ainda poderá pronunciar «imunidade», «maturidade», «regularidade» ou «qualidade» sem ficar com a estranha sensação de que era o que milhões de pessoas que o ouvem estavam à espera que ele dissesse? Ou quando estas palavras lhe surgirem ele vai engoli-las e substitui-las por outras para evitar que a malta se desmanche a rir?


Eu sei que o pessoal do Gato é benfiquista. Mas não havia necessidade de fazer um tamanho assassinato de carácter ao líder inimigo. Acho que agora nem a mulher do Paulo deve conseguir estar com ele sem cair da cama abaixo às gargalhadas. É traumatizante, fosca-se. E o Sporting tem um azar do caraças: já não lhe chegava o mítico Sousa Cintra que dizia «Spórtem» e mandava garrafas pela janela do carro em plena auto-estrada. Só lhe faltava o Paulo. Assim não dá. Não há tranquilidá…